30 de março de 2019

Capítulo 16

Quando Stefan passou pelo quarto de Elena novamente, a margarida não estava lá, e o cheiro sutil de seu xampu cítrico perdurava no corredor.
Sem dúvida ela saíra com Meredith e Bonnie, e ele podia confiar que Meredith a protegeria. Ficou pensando se Damon as estaria observando, se ele se aproximaria de Elena. Um filete amargo de ciúme se enroscou no estômago de Stefan. Às vezes era difícil ser o bonzinho, aquele que respeitava as regras, enquanto Damon fazia o que queria.
Ele se recostou na porta do quarto de Elena. Havia uma janela do outro lado do corredor e ele pensou, observando a lua crescente alta no céu, em seu quarto silencioso, nos livros de economia e filosofia esperando por ele.
Não. Não ia voltar para lá. Não podia ficar com Elena, mas não precisava ficar sozinho.
Havia um frio no ar pela primeira vez desde que as aulas começaram; o calor abafado do verão da Virgínia finalmente dava lugar ao outono. Stefan recurvou os ombros e colocou as mãos nos bolsos do jeans.
Sem saber realmente para onde ia, Stefan saiu do campus. Ideias vagas de caça no bosque passaram por sua cabeça, mas ele não estava com fome, só inquieto, e saiu da trilha que levava por esse caminho. Em vez disso, vagou pelas ruas da cidadezinha perto da universidade.
Não havia muito que fazer. Existiam alguns bares lotados de universitários e alguns restaurantes, já fechados. Stefan não podia imaginar se espremer num bar quente e abarrotado agora. Queria ficar perto de gente, talvez, mas não demais, nem tão perto, muito menos o bastante para sentir a pulsação de sangue por baixo de suas peles. Quando estava infeliz, como esta noite, sentia algo forte e perigoso surgindo dentro dele, e sabia que precisava ter cuidado com o monstro que levava dentro de si.
Ele entrou em outra quadra, ouvindo o toque suave de seus passos na calçada. Perto do fim da rua, uma batida fraca de música vinha de um prédio dilapidado cuja placa de néon dizia EDDIE’S BILLIARDS. Nenhum dos poucos carros no estacionamento tinha o adesivo da Dalcrest. Claramente era um lugar para os moradores, não para estudantes.
Se Stefan não tivesse essa solidão ardendo furiosa dentro dele, não teria entrado. Ele parecia um estudante — era um estudante —, e este não parecia um lugar que os recebesse bem. Mas a coisa feia dentro dele se agitava à ideia de talvez ter um motivo para dar um ou dois socos.
O bar era bem-iluminado, mas sujo, o ar denso e azulado de fumaça. Um rock antigo tocava numa jukebox no canto. Seis mesas de sinuca ficavam no meio do salão, com mesinhas redondas nas laterais e um balcão de bar na extremidade. Duas mesas de sinuca e algumas redondas estavam ocupadas por moradores, que deixaram os olhos vagarem por ele naturalmente e viraram o rosto.
No balcão, Stefan viu uma cabeça morena familiar. Embora tivesse certeza de que Damon estava seguindo Elena, não ficou surpreso por vê-lo. Stefan refreara seu Poder, concentrando-se na própria infelicidade, mas sempre conseguia sentir o irmão. Se tivesse pensado nisso, saberia que o irmão estava ali.
Damon, também sem se surpreender, virou-se e cumprimentou Stefan com o copo e um leve sorriso irônico. Stefan se juntou a ele.
— Olá, maninho — disse Damon suavemente quando Stefan se sentou. — Não deveria estar entocado em algum lugar, chorando a perda de sua adorável Elena?
Stefan suspirou e se jogou na banqueta. Apoiando os cotovelos no balcão, pousou a cabeça nas mãos. De repente, estava terrivelmente cansado.
— Não vamos falar de Elena — pediu. — Não quero brigar com você, Damon.
— Então, não briguemos. — Dando-lhe um leve tapinha no ombro, Damon se levantou e saiu do lugar. — Vamos jogar sinuca.
Um detalhe de viver centenas de anos, Stefan sabia, era que você tinha tempo para ficar realmente bom nas coisas. Várias versões do bilhar apareceram na vida dele e de Damon, embora ele gostasse mais da moderna — agradava-lhe o cheiro do giz e o guincho da ponta de couro no taco.
Os pensamentos de Damon pareciam ter o mesmo rumo.
— Lembra quando éramos crianças e jogávamos bilhar no gramado do palazzo de papai? — perguntou ele ao reunir as bolas.
— Mas era um jogo diferente na época — disse Stefan. — Pode começar.
Ele imaginava com clareza: os dois brincando quando todos os adultos estavam dentro de casa, atirando as bolas pelo gramado em direção aos alvos com os bastões de ponta pesada, num jogo que era uma mistura de sinuca moderna e croquê. Nessa época, Damon era rebelde, tendia a brigar com os rapazes do estábulo e passar noites zanzando pelas ruas, mas ainda não era tão colérico quanto ficou quando se tornou um jovem homem. Na época, ele deixava que o irmão mais novo e mais tímido, que o venerava, o seguisse e partilhasse de suas aventuras.
Elena tinha razão numa coisa, Stefan admitia para si mesmo: ele gostava de ficar com Damon, de ser irmão dele novamente. Quando viu Damon no bar naquele momento, sentiu um leve alívio da solidão que estava carregando. Damon era a única pessoa que se lembrava dele quando criança, a única pessoa que se lembrava dele vivo.
Talvez eles pudessem ser amigos, sem Katherine ou Elena entre os dois por um tempo. Talvez algo de bom pudesse advir disso.
Bilhar ou sinuca, Damon sempre gostou de jogar. Era melhor que Stefan e, depois de centenas de anos de prática, se aperfeiçoara muito.
Por isso Stefan ficou tão surpreso quando a partida de Damon fez com que as bolas girassem alegremente por toda a mesa, mas não acertasse nenhuma na caçapa.
— O que foi? — perguntou ele, erguendo uma sobrancelha para Damon ao passar giz no taco.
Estive observando os moradores, disse Damon em silêncio. Tem alguns trapaceiros aquiQuero atraí-los para nós. Trapacear com eles, para variar.
Vamos lá, acrescentou Damon rapidamente quando Stefan hesitou. Não é errado trapacear com trapaceiros. É como matar assassinos, um serviço de utilidade pública.
Sua bússola moral é seriamente distorcida, rebateu Stefan, mas não conseguiu deixar de sorrir. Que mal faria?
— Bola dois na caçapa do canto — acrescentou em voz alta. Ele deu a tacada e encaçapou mais duas bolas antes de errar de propósito e recuar para dar a vez a Damon.
Eles continuaram nessa, jogando muito bem, mas não bem demais, com o cuidado de parecer dois universitários presunçosos que sabiam jogar sinuca, mas que não seriam páreo para um jogador profissional. A falsa frustração de Damon quando errou uma tacada divertiu Stefan. Ele tinha se esquecido: era divertido fazer parte dos esquemas de Damon. Stefan ganhou por algumas bolas, e Damon sacou uma carteira cheia de dinheiro.
— Você me pegou, cara — disse numa voz um tanto embriagada que não parecia muito a dele, e estendeu uma nota de vinte. Stefan piscou para ele.
Pegue, pensou Damon. Algo em seu queixo lembrou de novo a Stefan como o irmão era quando os dois eram crianças, como ele mentia para o pai sobre suas desventuras, confiando que Stefan o apoiaria. Damon confiava nele até sem pensar, percebeu Stefan.
Ele sorriu e colocou a nota no bolso traseiro.
— Vamos de novo? — sugeriu, percebendo que também tinha feito uma voz meio embriagada e um pouco mais nova do que normalmente faria.
Eles jogaram outra partida, e Stefan devolveu a nota de vinte.
— Outra? — perguntou ele.
Damon começou a errar, suas mãos ficando mais lentas. Ele lançou um olhar a Stefan e voltou às bolas.
— Escute — disse ele, respirando fundo —, eu lamento pelo que está acontecendo com Elena. Se eu... — hesitou. — Não posso deixar de sentir o que sinto por ela, mas não pretendia dificultar as coisas para você. Nem para ela.
Stefan o encarou. Damon nunca pedia desculpas. Estava falando sério?
— Eu... Obrigado — disse ele.
Damon olhou para além dele, e sua boca se torceu em um sorriso repentino e luminoso. Morderam a isca, disse em silêncio. Lá se foi o momento comovente entre irmãos.
Dois homens se aproximavam. Um era baixo e magro com cabelo cor de areia, o outro grandalhão, volumoso e moreno.
— E aí? — disse o mais baixo. — A gente estava se perguntando se vocês não queriam jogar em dupla, dar uma misturada. — O sorriso era brilhante e tranquilo, mas os olhos eram astutos e atentos. Os olhos de um predador.
Os nomes eram Jimmy e David, e eles eram profissionais de verdade. Mantiveram as partidas parelhas, esperando até depois da terceira rodada para sugerir um aumento nas apostas para que as coisas ficassem mais interessantes.
— Cem? — sugeriu Jimmy, despreocupado. — Posso chegar a esse valor, se quiser.
— Que tal mais? — perguntou Damon, aparentando embriaguez de novo. — Stefan, ainda tem aqueles quinhentos na carteira?
Stefan não tinha nem perto disso, mas achava que não precisaria pagar. Ele assentiu, mas, a um olhar de Damon, fingiu relutância.
— Não sei, Damon... — disse ele.
— Não se preocupe com isso — rebateu Damon, expansivo. — Grana fácil, não é?
Jimmy os observava com os olhos atentos.
— Então são quinhentos — concordou, sorrindo.
— Eu começo — disse Damon, entrando em ação.
Depois de um instante, Stefan apoiou o taco na parede. Não teria a chance de jogar; nenhum deles teria. Damon se movimentava com a precisão de um relógio para encaçapar uma bola depois da outra.
Ele não fazia esforço nenhum para esconder que ele e Stefan tinham aplicado um golpe, e as expressões de Jimmy e David tornaram-se perigosamente sombrias enquanto as últimas bolas caíam nas caçapas.
— Pague — exigiu Damon incisivamente, baixando o taco.
Jimmy e David se aproximaram, de cara amarrada.
— Vocês dois se acham muito espertos, não é? — grunhiu David.
Stefan se aprumou, pronto para lutar ou fugir, o que Damon quisesse. Eles não teriam problema nenhum para se defender desses sujeitos, mas com os desaparecimentos e ataques por todo o campus, era melhor não chamar atenção.
Damon, frio e relaxado, olhou para Jimmy e David, estendendo a mão aberta.
— Acho que vocês querem pagar o que nos devem — disse calmamente.
— Ah, é o que você acha, é? — falou Jimmy com sarcasmo. Ele mudou a pegada no taco de sinuca e agora o segurava como uma arma.
Damon sorriu e soltou uma onda de Poder pelo salão. Até Stefan, que de certo modo esperava por isso, ficou assustado quando Damon ergueu o rosto por um momento, os olhos negros frios e mortais. Jimmy e David cambalearam para trás como se tivessem sido empurrados por mãos invisíveis.
— Tudo bem, não precisa ficar nervoso — disse Jimmy com a voz trêmula.
David piscava como se tivesse sido espancado com uma toalha molhada, claramente sem saber o que acontecera. Jimmy abriu a carteira e contou quinhentos dólares em notas de cinquenta na mão de Damon.
— Agora está na hora de vocês irem para casa — ordenou Damon tranquilamente. — Talvez não queiram jogar sinuca por algum tempo.
Jimmy assentiu, e parecia não conseguir parar de concordar com a cabeça, movendo-a para cima e para baixo como uma mola. Ele e David recuaram rapidamente em direção à porta.
— Assustador — comentou Stefan. Ainda tinha um oco no peito, uma dor vazia de saudade de Elena, mas se sentia melhor do que no dia em que ela saiu sozinha pela porta. Esta noite, percebeu com um leve choque, ele se divertira com Damon.
— Ah, eu sou um terror — concordou Damon alegremente, embolsando todo o dinheiro. Stefan ergueu uma sobrancelha para ele. Não se importava com o dinheiro, mas era típico de Damon supor que era todo dele. Damon deu um risinho. — Que foi, maninho? Vou te pagar uma bebida.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!