14 de março de 2019

Capítulo 16

Lavanderia: instalações limitadas à lavagem de roupas a bordo… Nunca pendure nada em escotilhas, vigias ou qualquer lugar onde possam ser vistas do lado de fora.
INSTRUÇÕES PARA PASSAGEIRAS DO HMS VICTORIOUS


VINTE E CINCO DIAS

— Meu pobre velho amigo. Não era esse o destino que você merecia, de jeito nenhum.
Ele apoiou delicadamente a mão no navio e teve a impressão de sentir, através do metal frio, o eco de anos de combates.
— Você é muito bom para eles. Bom demais.
Depois se empertigou e deu uma olhada para trás, ao se dar conta de que falava em voz alta com o navio, e torceu para que Dobson não tivesse testemunhado a cena. Dobson ficara bastante confuso com as mudanças na rotina do comandante e, por mais que gostasse de desestabilizá-lo, Highfield sabia que só podia ir até um determinado ponto sem precisar dar satisfação aos seus superiores.
Não existira um centímetro quadrado do Indomitable que Highfield não conhecesse, nenhum dado da sua história que não fosse familiar para ele. Vira os conveses submergirem nas enormes ondas do Adriático, sua imensa estrutura balançar como um barco a remo durante uma tempestade. Era ele quem estava no comando quando cruzaram o Ártico no inverno de 1941 e os conveses ficaram cobertos por quinze centímetros de neve, além das torres de tiro terem congelado, obrigando vinte marinheiros munidos de marretas e pás tentarem durante horas remover o gelo para manter a embarcação funcionando. Ele conseguira deixar o navio estável durante os combates aos bombardeiros suicidas do campo de aviação de Sakishima Gunto, quando um avião camicase tinha literalmente ricochetado no convés de voo, cobrindo o navio com ondas gigantescas de água do mar e combustível de aeronaves. Também o conduzira pelo Atlântico, ouvindo em silêncio o eco ameaçador do radar que indicava a presença de submarinos inimigos. Vira o convés de voo virar uma imensa cratera quando, no início da guerra, pelo menos três Barracudas tinham colidido em pleno ar e se espatifado ali. Ele achava que não era capaz de contar exatamente o número de homens que haviam perdido, os funerais ao mar que havia conduzido, nem a quantidade de corpos que foram lançados na água. E, afinal, ele assistira ao fim do navio. O convés se inclinara antes que o navio deslizasse para o fundo, levando junto alguns homens que, conforme haviam garantido, já estavam mortos.
Seu menininho querido estava entre eles, o corpo perdera-se em algum lugar no meio daquele inferno que jorrava fumaça preta sobre o que restava da superfície, sua pira funerária. Quando a proa afundou e as ondas cobriram o navio, não restou nenhum sinal de que a embarcação um dia existira.
O esboço do Victorious era idêntico ao do seu irmão gêmeo. Highfield tivera uma sensação estranha, quase sobrenatural, na primeira vez que colocara os pés no navio. Durante algum tempo, ficara ressentido. Mas atualmente sentia uma perversa obrigação em relação a ele.
Haviam entrado em contato com Highfield naquela manhã. O próprio comandante-chefe da Frota Britânica do Pacífico tinha telegrafado. Com um tom brincalhão, dissera que Highfield podia dispensar a equipe de pintura pelo resto da viagem: não havia necessidade de cansar os homens com manutenção demais. Examinariam o Victorious num deque seco em Plymouth antes de ser modificado e vendido para alguma companhia de navegação, ou desmontado.
— Não há nada de errado com o velho Victorious — respondera ele. — Sugiro fortemente que continue operando.
Ele não contara aos homens: suspeitava que a maioria nem reparasse em que navio estavam, contanto que os alojamentos tivessem um tamanho decente, recebessem o pagamento com regularidade e a comida fosse aceitável. Com o fim da guerra, muitos abandonariam a Marinha para sempre. Ele e o velho navio não passariam de uma longínqua lembrança quando contassem histórias de guerra durante o jantar.
Highfield suspirou e tentou apoiar o peso do corpo na perna machucada.
Atracariam em Bombaim no dia seguinte. Ele não daria atenção às instruções do seu superior. Há vários dias organizara os marinheiros em equipes para consertar, pintar e polir. A Marinha sabia que marinheiros que se mantinham ocupados eram marinheiros menos suscetíveis a criar problemas… E considerando o que estavam transportando, essa luta era constante. Não haveria no navio um parafuso de cobre sequer no qual ele não conseguisse ver o reflexo do seu rosto.
Highfield imaginava que os homens deviam se perguntar se havia alguma coisa errada com ele. Também era possível que o governador de Gibraltar percebesse. Ele não era burro.
— Eu morro se tiver que abandoná-lo antes do tempo — disse baixinho para o navio, apoiando-se com mais força na amurada. — Vou ficar com você até que minha maldita perna caia.

* * *

— O que as senhoras precisam fazer é misturar uma colher de sopa de ovo em pó com duas colheres de sopa de água. Deixem descansar durante alguns minutos até o pó absorver toda a umidade. Depois tirem com uma colher de pau os caroços que se formaram. Mexam com bastante energia… Usem um pouco de graxa de cotovelo, sabem como é? — Ela reparou na expressão perplexa de todas. — Esta é uma expressão inglesa. Não significa… graxa no sentido literal.
Margaret se sentou com o caderno no colo e a caneta na mão. Já fazia algum tempo que deixara de anotar as receitas, distraída pelo murmúrio das conversas ao seu redor.
— Prostituta? Não acredito. De jeito nenhum a Marinha ia permitir que uma prostituta viajasse com todos esses homens.
— Bem, eles não deviam saber, não acha? Com certeza não sabiam.
— É possível preparar vários pratos com ovo em pó. Acrescentem um pouco de salsinha ou agrião e dará para fazer uma ótima… imitação de ovos mexidos. Mas não se sintam limitadas só porque talvez não tenham os ingredientes que estavam acostumadas a usar em casa. Na verdade, meninas, vocês não vão encontrar os ingredientes que costumavam usar.
— Mas quem é que se casaria com ela? Acha que foi um dos… clientes?
— E se ele não souber? Não acha que a Marinha deveria avisá-lo?
O navio inteiro conversava sobre o mesmo assunto. No decorrer dos últimos dias, Frances Mackenzie, possivelmente a passageira mais discreta que o Victorious já transportara, tinha se tornado a mais conhecida. As pessoas que já haviam estabelecido contato com ela estavam fascinadas que a garota supostamente recatada tivesse um passado tão duvidoso. Outras, que achavam fascinante a história da sua antiga profissão, se sentiam na obrigação de enchê-la de detalhes que ninguém ainda tinha condições de contestar. Se é que alguém pretendera fazer isso. O próximo desembarque ainda estava longe e não havia dúvida de que aquele era o fato mais interessante que surgira até então na viagem.
— Ouvi dizer que ela estava no trem. O trem que costumavam mandar para as tropas, sabem. Estava cheio de… desse tipo de mulher.
— Você acha que mandaram examiná-la para conferir se ela tinha alguma doença? Sei que faziam isso nos navios americanos. Afinal, nós usamos o mesmo banheiro que ela, pelo amor de Deus!
Margaret resistiu à vontade de interromper aquelas mulheres idiotas e fofoqueiras para dizer que elas não sabiam do que estavam falando. Mas era difícil fazer isso, porque ela mesma não fazia ideia do que era verdade.
Frances não comentara nada. Na noite do acidente, havia se refugiado no seu beliche e ali ficara, fingindo dormir até as outras saírem de manhã, e fazia o mesmo quando elas voltavam. Mal tinha falado algo, limitando a conversa ao mínimo necessário. Servira um pouco mais de água para a cachorrinha. Tinha prendido a porta para deixá-la entreaberta. Tudo desde que as colegas concordassem, é claro. Evitara o refeitório principal. Margaret não tinha certeza se ela estava se alimentando.
Avice pedira, ostensivamente, para trocar de cabine, mas como o único beliche disponível acabou não sendo do seu agrado, ela anunciara em voz alta que queria manter o mínimo contato possível com Frances. Margaret tinha pedido que ela não agisse de forma tão ridícula e que parasse de acreditar num monte de fofocas cruéis. Nada deveria ser verdade.
Mas era difícil ser tão veemente quanto gostaria, na medida em que Frances fazia tão pouco para se defender.
E até Margaret, que nunca ficava sem palavras, não sabia direito o que dizer.
Ela admitia que, às vezes, tinha um lado ingênuo, por isso era difícil associar uma pessoa séria que sempre usava roupas sóbrias a “uma daquelas”. O único conhecimento que Margaret tinha sobre esse tipo de mulher, ela tirara do pôster com a foto de uma delas que vira no quarto de Dennis Tims, e que tinha a mensagem inflexível: “Doença venérea — o assassino silencioso”, e dos filmes de faroeste a que ela costumava assistir com os irmãos, nos quais as mulheres ficavam reunidas no fundo de algum bar. Será que, para receber os homens, Frances usava vestidos com corpetes apertados e passava blush em excesso? Será que ela os tinha atraído para o quarto, aberto as pernas e os convidado a fazer sabe-se lá o que com ela? Esses pensamentos atormentavam Margaret, que corava toda vez que conversava com Frances, apesar de toda a gentileza que a garota lhe oferecia. Sabia disso e ficava envergonhada. Suspeitava que Frances também percebia.
— Bem, eu acho essa história repugnante. Para ser sincera, se meus pais soubessem que eu ia viajar com alguém como ela, nunca me deixariam embarcar.
A garota na frente dela endireitou os ombros com um estremecimento hipócrita.
Margaret observou as receitas com ovo em pó que escreveu com o seu garrancho de sempre.
— Realmente nos faz pensar — disse a menina ao seu lado.
Margaret enfiou o caderno na cesta, se levantou e saiu da sala.

Querida Deanna,
Não tenho palavras para descrever como a vida a bordo é divertida… uma surpresa e tanto, considerando todos os fatos. Nem sei como acabei virando candidata a Rainha do Victorious, um título que vai para a esposa que se destacar em todos os quesitos femininos. Será ótimo mostrar a Ian que poderei ser útil para ele e para sua carreira. Até agora ganhei pontos em trabalhos manuais, costura e habilidade musical (cantei Shenandoah, e a plateia pareceu gostar). Além disso… ah, você não vai acreditar… venci o concurso de “Miss Pernas Mais Bonitas”! Usei meu maiô verde com os sapatos de salto alto de cetim da mesma cor. Espero que você não se importe que eu tenha trazido esse par comigo. Você usava tão pouco que me pareceu idiotice guardá-los para “ocasiões especiais”, considerando que a vida social em Melbourne deve estar muito parada agora que os Aliados estão deixando o país.
Como você está? A carta de mamãe dizia que você não se corresponde mais com aquele rapaz simpático de Waverley. Ela foi muito vaga sobre o que aconteceu. Não consigo acreditar que alguém abandonaria uma garota sem mais nem menos. A não ser, imagino, que ele tenha encontrado outra pessoa.
Os homens podem ser um grande enigma, não é mesmo? Agradeço a Deus todos os dias por Ian ser tão dedicado.
Preciso ir agora, irmã querida. Estão nos chamando para a atividade na água, e estou louca para nadar um pouco. Vou mandar esta carta no próximo porto em que atracarmos, e prometo contar todas as aventuras que eu viver lá!
Da irmã que te ama,
Avice

Era a primeira vez que as mulheres tinham conseguido autorização para nadar, e algumas, ainda sentindo os efeitos do racionamento de água, não quiseram aproveitar. Avice terminou a carta e foi para o convés da proa. Viu centenas de mulheres nas águas cristalinas ao redor do navio, dando gritinhos enquanto flutuavam perto dos botes salva-vidas. Os marinheiros e oficiais que não estavam tripulando, observavam da amurada, fumando cigarro.
Ainda não havia sinal do bebê. Avice examinara o próprio corpo e constatara, com orgulho, que seu ventre continuava liso, mas seus seios estavam sedutoramente um pouco mais volumosos. Ela não se tornaria uma daquelas baleias flácidas, feito Margaret, que se sentavam pelos cantos, esbaforidas e suadas, com tornozelos e pés inchados como os de um elefante. Ela faria o possível para se manter em boa forma e atraente até o fim. Quando a barriga crescesse, ficaria em casa, prepararia um lindo quarto para o bebê e só sairia depois do nascimento do filho. Era assim que uma verdadeira dama agia.
Agora que não se sentia mais enjoada, tinha certeza de que sua gravidez seria ótima, pois, graças ao sol constante, sua pele estava bronzeada e seu cabelo louro ganhara reflexos luminosos. Avice chamava atenção onde quer que fosse. Como todo mundo já sabia da sua gravidez, ela se perguntava se não devia cobrir um pouco o corpo, se não seria aconselhável ser um pouco mais recatada. Mas faltavam tão poucos dias para entrarem em águas europeias que parecia uma pena desperdiçá-los. Avice tirou seu vestido de alcinha, se empertigou apenas para garantir que causaria a melhor impressão possível, depois se deitou no convés para pegar sol. Deixando de lado o infeliz episódio relacionado a Frances (que se tornara um dos mais comentados da viagem), e com o constante aumento de pontos para o concurso de Rainha do Victorious, ela achava que tinha tornado a viagem um grande sucesso.

* * *

Um pouco adiante, no castelo de proa, Nicol estava encostado na parede.
Normalmente, ele não fumaria em um convés, ainda mais estando de serviço, mas nos últimos dias tinha fumado um cigarro atrás do outro com uma determinação implacável, como se o ato repetitivo o ajudasse a pensar menos.
— Vai entrar na água mais tarde? — perguntou um marinheiro ao seu lado, com quem ele muitas vezes tinha jogado Uckers, uma espécie de batalha naval. Os homens seriam chamados para o banho de mar assim que as mulheres terminassem o delas.
— Não — respondeu Nicol, apagando o cigarro.
— Eu vou. Mal posso esperar.
Por educação, Nicol fingiu interesse. O marinheiro apontou para a água.
— Aquele grupo de mulheres se divertindo me faz lembrar das minhas filhas em casa.
— Ah…
— Tem um rio que passa atrás do nosso jardim. Quando as meninas eram pequenas, levávamos elas lá nos dias de sol para ensiná-las a nadar. — Perdido em suas lembranças, ele imitou uma braçada de nado de peito. — Por morar perto da água, sabiam boiar. É mais seguro, claro.
Nicol apenas assentiu.
— Algumas vezes achei que não as veria mais. Muitas vezes, para ser sincero. Mas é melhor não pensar muito nisso, não acha?
Mesmo sem querer, Nicol sorriu da descrição que o homem fazia de si mesmo.
— Ainda assim… tudo bem. Tempos melhores virão. — Deu uma longa tragada no cigarro e depois o jogou na água. — Fiquei surpreso que o velho Highfield tenha deixado as mulheres tomarem banho de mar. Achei que a visão de todos esses corpos femininos seria demais para ele.
O tempo estava bom naquela tarde, como vinha acontecendo havia vários dias. Abaixo deles, na água cristalina, duas mulheres nadavam em direção a um dos botes salva-vidas, se contorcendo e dando gritinhos de alegria, enquanto outras as incentivavam, debruçadas na amurada do navio. Uma deu um grito histérico quando a amiga jogou água nela.
O homem as observava com um sorriso.
— É um sujeito frio e distante, esse Highfield. Sempre achei. É preciso desconfiar de um homem que quer ficar sempre sozinho.
Nicol não comentou nada.
— Houve uma época em que eu teria brigado com quem se atrevesse a dizer que ele era um comandante ruim. Tenho de admitir que dava orgulho trabalhar com ele. Mas agora é fácil perceber que ele mudou. Perdeu a confiança em si mesmo desde o Indomitable, não é mesmo?
O marinheiro mais velho estava quebrando uma regra tácita entre os homens de não falar sobre o que acontecera naquela noite, e, pior ainda, de apontar um culpado. Nicol não respondeu, apenas balançou a cabeça.
— Era incapaz de delegar ordens. Nem com assuntos importantes. Já vi isso acontecer com quem quer controlar tudo sozinho. Tenho certeza de que se ele estivesse com a cabeça no lugar naquela noite, poderia ter dado ordens precisas e teríamos conseguido salvar vários homens. Mas ele só pensou em si mesmo. Não olhou para o quadro geral. É isso que um comandante precisa ter: habilidade para ver o quadro geral, para prever o que vai acontecer.
Nicol pensou que se tivesse ganhado um shilling cada vez que se deparasse com um estrategista sem ação ao longo dos seus anos de trabalho, seria um homem rico.
— Sempre pensei que fosse uma piada dos chefões a ideia de confiar a ele a missão de levar este navio de volta para casa… Não… acho que não dá para conhecer um homem até vê-lo lidar com as pessoas próximas e queridas. Estive sob suas ordens durante cinco anos e nunca ouvi alguém defendê-lo.
Os dois ficaram em silêncio durante algum tempo. Por fim, talvez reconhecendo que a conversa deles tinha sido unilateral, o homem perguntou:
— Vai ficar feliz ao rever sua família?
Nicol acendeu mais um cigarro.
Ela não estava na água. Ele não achava mesmo que ela fosse entrar.
Ele passou o resto da noite em claro, assombrado pelas palavras de Jones e também por um sentimento de traição. Aos poucos, enquanto a noite era substituída pelo dia, sua incredulidade tinha evaporado, sendo rapidamente trocada pelos inúmeros estranhos indícios e inconsistências no comportamento dela. Lá dentro do navio, ele desejava que ela, indignada, negasse a acusação. Ele queria ouvir seu repúdio à calúnia. No entanto, ela não dissera nada. Agora ele queria que ela se explicasse, como se, de algum modo, o tivesse traído.
Ele não precisara fazer mais perguntas para esclarecer o que havia sido dito, pelo menos não sobre ela. Quando voltou para o alojamento, Frances continuava sendo o assunto das conversas dos homens.
— Ela tinha os olhos grandes — dizia Jones, o galês, se esticando para fora da rede para pegar um cigarro. — Uma tonelada de maquiagem no rosto, quase como se as outras a tivessem maquiado de brincadeira.
Nicol estava de pé perto da escotilha e se perguntava se não seria melhor voltar. Ele não sabia ao certo o que o fazia ficar ali.
Aparentemente, o próprio Jones havia sido presenteado com Frances, mas a recusara. Ela chamava atenção pelo físico.
— Magra como um palito — disse ele —, quase sem peito. E estava bêbada — acrescentou.
Ele franziu os lábios, como se tivessem lhe oferecido algo repugnante. O gerente a mandara subir com um dos seus colegas e ela caíra na escada.
Todos riram: havia algo cômico naquela menina magrela, com maquiagem carregada, bêbada para caramba e trocando as pernas.
— Na verdade — disse ele em tom mais sério —, achei que ela era menor de idade, entende o que quero dizer? E eu não estava querendo ser preso.
Duckworth, que parecia um grande conhecedor desse tipo de coisa, concordara.
— Mas, caramba, quem poderia imaginar? Agora ela parece tão inocente.
É verdade, pensou Duckworth, se não fosse por ele reconhecendo a moça, ninguém teria imaginado.
Nicol tinha começado a montar sua rede. Estava considerando dormir um pouco antes do próximo turno.
— Então, Nicol — disse Jones atrás dele. — Espero que não esteja pensando em se esgueirar na cabine dela e dar uma rapidinha mais tarde. Precisa guardar dinheiro para a sua dama. — Ele deu uma gargalhada. — Além disso, ela está um pouco mais bonita agora. Mais chique. Com certeza cobraria uma fortuna.
Ele estava morrendo de vontade de quebrar a cara de Jones. Uma parte irracional sua quisera fazer o mesmo com ela. Mas ele não fez nem uma coisa nem outra. Apenas abriu um discreto sorriso amargo, com a sensação de que estava envolvido em algum tipo de traição. Depois, desapareceu no banheiro.

* * *

Anoitecera. O Victorious avançava pelas águas escuras, sem se preocupar com a hora nem com a estação do ano, nem com o humor ou os caprichos dos seus tripulantes. Obedientemente, os motores potentes lhe forneciam a energia necessária. Deitada no beliche, Frances escutava os ruídos já familiares do navio, os últimos chamados pelos alto-falantes, o murmúrio das conversas, os passos discretos das passageiras que se preparavam para dormir, as fungadas e os resmungos, a respiração cada vez mais tranquila das suas duas companheiras de cabine. Os sons de silêncio, de solidão, os sons que lhe indicavam que, mais uma vez, ela estava livre para respirar. Os sons pelos quais parecia ter esperado durante grande parte da vida.
E, do lado de fora, apenas audível para seu ouvido treinado, havia o som de dois pés no chão do corredor.
Ele chegou às quatro da manhã. Ela o ouviu murmurar alguma coisa para o fuzileiro enquanto faziam a troca de guarda, e o eco abafado dos passos do outro seguindo para alguma área do navio ou para o seu alojamento. Escutou o homem do outro lado da porta e teve a impressão de que há centenas de noites fazia o mesmo.
Por fim, quando não conseguiu mais se conter, saiu do beliche. Margaret e Avice dormiam cada uma de um lado da cabine, mas não perceberam a colega ir na ponta dos pés, com passos firmes e silenciosos, até a porta de aço. Logo antes de alcançá-la, parou e fechou os olhos, como se sentisse dor.
Depois deu um passo à frente e, em silêncio e com cautela, apoiou o rosto na superfície metálica. Aos poucos foi encostando o corpo inteiro: as coxas, a barriga e o peito, pressionando a palma das mãos de cada lado da cabeça, sentindo a solidez do metal frio através da camisola fina.
Se ela virasse a cabeça e encostasse a outra bochecha na porta, quase conseguiria ouvir a respiração dele.
Permaneceu assim, no escuro, por algum tempo. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto e caiu no seu pé descalço. Depois outra.
Do lado de fora, com exceção do barulho baixo do motor, estava tudo em silêncio.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!