30 de março de 2019

Capítulo 15

Enquanto ia para a porta de seu quarto, Elena vasculhava a bolsa, verificando uma lista mental: carteira, chaves, telefone, gloss, delineador, escova de cabelo, carteira de estudante. Ao abrir a porta, algo flutuou para o chão.
Uma margarida branca perfeita. Elena estendeu a mão e a pegou. Virando-a, sentiu uma dor súbita e aguda no peito. Meu Deus, como sinto falta de Stefan. Não tinha dúvida de que a margarida tinha vindo dele. Era típico dele mostrar que pensava nela apesar de respeitar seu espaço.
A dor no peito aos poucos foi substituída por um sentimento brilhante e doce. Parecia tão tolo e artificial evitar falar com Stefan. Ela o amava. E, além de tudo, ele era um de seus melhores amigos. Elena pegou o celular a fim de ligar para ele.
Então parou. Respirando fundo, devolveu o celular à bolsa.
Se falasse com Stefan, ia querer vê-lo. Se o visse, ia querer tocar nele. Se o tocasse, tudo estaria acabado. Ela ficaria caída por ele, envolvida em amor. Depois levantaria a cabeça e veria os olhos insondáveis de Damon observando-os, e sentiria aquela atração por ele também. Os irmãos se olhariam, o amor, a dor e a fúria passariam por seus rostos, e tudo começaria de novo.
Era bom se afastar deles por um tempo, embora também fosse dilacerante, pavoroso e terrivelmente solitário. Mas, desde então, Elena sentiu uma calma pairar. Não estava exatamente feliz — era como se estivesse coberta de hematomas e, se não tivesse cuidado, a dor a tomava quando se lembrava do que tinha feito. Mas também lhe parecia que havia prendido a respiração por semanas e agora conseguisse respirar.
Ela sabia que Stefan estaria esperando quando ela estivesse pronta para encará-lo novamente. Não era isso que significava a margarida?
Elena colocou a flor na bolsa e partiu pelo corredor, estalando os saltos firmemente. Ia sair com as amigas, se divertir, e não pensaria em Stefan nem em Damon. Nem mesmo em desaparecimentos nem na morte de Christopher. Elena suspirou sob o peso de tudo aquilo. Por dias, eles lamentaram, e agora Elena e as amigas precisavam abraçar a vida de novo. Mereciam uma noite de liberdade. Precisavam se lembrar do motivo de sua luta.


— Aí está ela. — Elena ouviu Bonnie falar ao entrar no bar lotado. — Elena! Aqui!
Bonnie, Meredith e uma menina que Elena não conhecia estavam sentadas a uma mesinha perto da pista de dança. Elas convidaram Matt para ir junto, mas ele disse que precisava estudar, com o rosto educadamente reservado, e elas sabiam que ele ainda não estava preparado, que precisava de um tempo sozinho.
Meredith, elegante e relaxada, abriu um sorriso frio para Elena num cumprimento e apresentou sua amiga Samantha. Ela era magra, de olhos brilhantes e alertas. Parecia ter energia de sobra, remexendo-se de um lado para o outro, conversando sem parar.
Bonnie também estava claramente ligada, e desandou a falar assim que Elena chegou à mesa. Bonnie era corajosa, pensou Elena. A morte de Christopher a chocara, e ela havia ficado tão preocupada com Matt quanto qualquer uma delas, mas estava com o queixo empinado, sorrindo e fofocando, e seguia com a vida da melhor maneira possível, porque elas decidiram que a noite seria assim.
— Peguei uma Coca para você — disse Bonnie. — Pediram minha identidade, então não pude comprar outra coisa. Adivinhe só? — Ela fez uma pausa dramática. — Liguei para o Zander e ele falou que ia tentar vir para cá esta noite. Estou louca para vocês conhecerem ele! — Bonnie praticamente quicava de empolgação na cadeira, batendo os cachos ruivos para todo lado.
— Quem é Zander? — perguntou Samantha com inocência.
Meredith olhou furtivamente para Elena.
— Sabe que eu não sei? — comentou ela com uma falsa confusão. — Bonnie, fale sobre ele.
— Sim — acrescentou Elena, sorrindo com malícia. — Acho que você nunca falou nele, não é?
— Ah, calem a boca — disse Bonnie num tom amistoso e, inclinando-se sobre a mesa na direção de Samantha, relatou todas as virtudes de Zander para a nova plateia.
Elena deixou a mente vagar. Ultimamente ouvia tudo aquilo noite após noite, no quarto; os olhos de Zander, o sorriso de Zander, o charme acanhado de Zander, o corpo de gato de Zander (palavras de Bonnie). Que Zander e Bonnie estudaram juntos num canto retirado da biblioteca e Zander furtivamente levou lanches para Bonnie, embora fosse totalmente proibido na biblioteca. Que eles conversavam ao telefone toda noite, as longas pausas suaves quando parecia que Zander estava prestes a sussurrar alguma coisa íntima, algo que ninguém, só Bonnie, podia saber, mas em vez disso fazia uma piada e Bonnie ria como louca. Havia algo tão doce em Bonnie estar apaixonada. Elena torcia para que o cara fosse digno dela.
— Ele ainda nem me beijou — acrescentou Bonnie, de olhos arregalados. — Mas vai rolar logo. Espero.
— O primeiríssimo beijo — disse Samantha, mexendo as sobrancelhas. — Quem sabe esta noite?
Bonnie riu.
A dor voltara ao peito de Elena, e ela colocou a mão sobre o esterno. Durante o primeiro beijo com Stefan, o mundo se desintegrara e só havia os dois, lábios e almas se tocando. Tudo pareceu tão claro na época.
Ela respirou fundo e rejeitou as lágrimas. Não ia se lembrar de nada esta noite; ia apenas se divertir com as amigas.
Ter Samantha ali, Elena logo percebeu, seria de imensa ajuda. Se fossem só Elena, Meredith e Bonnie, elas acabariam conversando sobre o assassinato de Christopher e os desaparecimentos no campus, passando obsessivamente um pente fino em todas as coisinhas que sabiam e teorizando sobre tudo que não fosse de seu conhecimento. Mas, com Samantha presente, teriam de manter a conversa leve.
De algum modo, Bonnie deixou o assunto do maravilhoso Zander e passou à leitura de mãos.
— Olhe — disse ela a Samantha. — Vê a linha que cruza sua palma e atravessa as outras três linhas? É a linha do destino, e nem todo mundo tem.
— O que isso quer dizer? — Samantha olhou a própria palma com muito interesse.
— Bem — começou Bonnie, franzindo a testa —, ela muda muito de direção... Está vendo aqui? E aqui?... Isso significa que seu destino vai mudar por causa de forças externas que a influenciarão.
— Hummm — disse Samantha. — E o amor? Vou conhecer alguém incrível esta noite?
— Não — respondeu Bonnie devagar até que a voz mudou, ficando monótona, quase metálica. Elena levantou a cabeça rapidamente e viu as pupilas de Bonnie se dilatarem, os olhos deixarem a mão de Samantha e focarem no vazio. — Esta noite, não. Mas há alguém esperando por você que mudará tudo. Você o conhecerá logo.
— Bonnie — chamou Meredith incisivamente. — Você está bem?
Bonnie piscou, e seus olhos voltaram a entrar em foco.
— Claro — respondeu ela, confusa. — O que quer dizer com isso?
Elena e Meredith trocaram um olhar — será que Bonnie teve uma visão? Antes que pudessem perguntar, no entanto, todo um grupo de meninos de repente estava à sua mesa, rindo, gritando, xingando. Elena franziu o cenho para eles.
— Ei, linda — disse um deles, olhando para Elena —, quer dançar?
Elena ia menear a cabeça, mas outro dos meninos se sentou ao lado de Bonnie e passou o braço por ela.
— Oi — disse ele. — Sentiu minha falta?
— Zander! — exclamou Bonnie com o rosto rosado de alegria.
Então este era Zander, pensou Elena, e o olhou disfarçadamente enquanto os três amigos dele também se sentavam, apresentando-se animadamente enquanto pareciam fazer o máximo de barulho possível, arrastando cadeiras e brigando para se sentar ao lado das meninas. Zander era mesmo uma graça, Elena tinha de admitir. Cabelo louro-claro e um lindo sorriso.
Ela não gostou muito do modo como ele puxava Bonnie, virando sua cabeça na direção dele, com as mãos correndo sem parar pelos ombros dela mesmo enquanto falava com os amigos por cima da cabeça de Bonnie. Parecia muito possessivo para um cara que ainda nem a beijara. Elena olhou para Meredith a fim de ver se a amiga estava pensando o mesmo. Meredith ouvia, com um sorriso de diversão, enquanto o cara ao lado dela — Marcus, ela achava, amigo de Zander e de cabelo castanho desgrenhado — explicava sua rotina de levantamento de pesos.
— Birita — disse outro amigo de Zander sucintamente, unindo-se a eles com uma bandeja de copinhos. — Vamos jogar a moeda da sorte.
Bonnie riu.
— Não servem bebida para nós aqui. Somos menores.
O cara sorriu.
— Tudo bem. Eu paguei por elas, não você.
— Quer dançar? — Spencer, que tinha perguntado o mesmo a Elena um minuto antes, desta vez convidava Samantha.
— Claro! — Ela se levantou de um salto. Os dois rapidamente se perderam na multidão da pista.
— Cara, tomei o maior porre ontem à noite — disse Jared, o sujeito ao lado de Elena, reclinando a cadeira para trás nas duas pernas traseiras e olhando alegremente para ela.
O amigo do outro lado o observou por um minuto, depois virou uma bebida em seu colo.
— Ei! — Num momento, eles estavam de pé e se empurravam, o cara que tinha despejado o drinque rindo e Jared com o rosto vermelho e colérico.
— Parem com isto, os dois — disse Zander. — Não quero ser expulso daqui também.
Também? Elena levantou as sobrancelhas. Esse cara e os amigos definitivamente eram rebeldes demais para a inocente Bonnie. Elena olhou para Meredith de novo, querendo confirmação, mas ela ainda estava perdida no mundo do atletismo, agora dando sua opinião sobre o melhor treinamento de pesos para as artes marciais.
Bonnie deu uma gargalhada aguda e quicou uma moeda diretamente em um dos copos de bebida. Todos os meninos gritaram.
— E agora? — perguntou ela sem fôlego, com os olhos brilhando.
— Agora você aponta quem vai beber — disse o cara que tinha trazido os drinques.
— Zander, é claro — disse Bonnie, e o menino abriu um demorado sorriso que até Elena tinha de admitir que era de arrasar. Então bebeu, piscando em seguida para Bonnie enquanto ela ria novamente.
Bonnie estava... realmente feliz. Elena não se lembrava da última vez em que ela rira assim. Devia fazer pelo menos um ano, antes de as coisas enlouquecerem em Fell’s Church.
Elena suspirou e observou a mesa. Esses meninos eram turbulentos — brigavam e se empurravam —, mas também eram simpáticos. E era esse tipo de coisa que as pessoas faziam na faculdade, não era? Se isso deixava Bonnie feliz, Elena devia pelo menos tentar acompanhá-los.
Samantha e Spencer voltaram à mesa, os dois rindo, e Samantha desabou na cadeira.
— Chega. — Ela ergueu as mãos para se defender dele. — Preciso de uma água. Você é louco, sabia?
— Você vai dançar comigo, então? — suplicou Spencer a Elena, arregalando os olhos castanhos como um cachorrinho para ela.
— Ele vai tentar te pegar no colo — avisou Samantha. — E largar você. E te rodar. Mas não se preocupe, vou voltar para a pista logo, logo.
— Por favor, por favor? — pediu Spencer, fazendo uma cara ainda mais digna de pena.
Bonnie riu triunfante quando quicou outra moeda no copo.
Dançar com um grupo de amigos não é trair ninguém, pensou Elena. Além do mais, ela agora estava solteira. Mais ou menos, de qualquer modo. Devia tentar curtir a faculdade, viver. A noite de hoje não era para isso? Ela deu de ombros.
— Claro, por que não?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!