14 de março de 2019

Capítulo 15

Havia uma garota da Inglaterra,
Susan Summers era seu nome,
Estava lá havia quatorze anos,
Todos nós passamos pela
mesma coisa.
Nosso plantador comprou sua
liberdade
E logo se casou com ela,
Bom uso então ela fez de nós
Na terra de Van Diemen.
EXTRATO DE “VAN DIEMEN’S LAND”, CANÇÃO FOLCLÓRICA AUSTRALIANA

AUSTRÁLIA, 1939

Frances tinha verificado a caixa de biscoitos Arnott quatro vezes antes de o Sr. Radcliffe chegar. Também conferira no fundo da gaveta de talheres, no pote atrás da porta de tela e embaixo do colchão no cômodo em que muitos anos antes havia sido o quarto dos seus pais. Ela perguntara várias vezes à mãe onde estava o dinheiro e, entre roncos e bafo de álcool, sua resposta tinha sido óbvia. Mas não para o Sr. Radcliffe.
— Então, onde está? — perguntara ele, sorrindo. O mesmo sorriso que um tubarão dá quando abre a boca para atacar.
— Desculpe. Não sei o que minha mãe fez com o dinheiro.
Ela segurava a porta com o tornozelo para restringir a visão lá de dentro, mas o Sr. Radcliffe se inclinou para o lado e viu a mãe dela cochilando no sofá.
— Bem, é claro que não sabe.
— Ela não está muito bem hoje — afirmou, puxando a saia para baixo, constrangida. — Talvez possa me dizer quando acordar.
Atrás dele, ela viu dois vizinhos andando pela rua. Eles murmuraram alguma coisa enquanto a encaravam. Não foi preciso ouvir o que diziam para saber o assunto da conversa.
— Se quiser, posso passar lá mais tarde e deixar o dinheiro.
— O quê? Como sua mãe fez na semana passada? E na anterior? — Ele espanou uma sujeira inexistente na calça. — Aposto que na bolsa dela não tem o suficiente para comprar um pão para você.
Frances não disse nada. Pelo jeito que ele continuou parado na frente da porta, parecia esperar um convite para entrar. Mas ela não queria que o Sr. Radcliffe, com suas roupas caras e seus sapatos engraxados, se sentasse na imundície daquela sala. Não antes que ela conseguisse dar um jeito em tudo.
Os dois continuaram se encarando na soleira da porta, como se estivessem presos num jogo apreensivo de espera.
— Você não tem aparecido por aqui há um bom tempo. — Não era nem uma pergunta nem uma afirmação.
— Passei um período com minha tia May.
— Ah, sim. Ela faleceu, não foi? De câncer, pelo que me disseram.
Frances não conseguiu responder sem que os olhos ficassem cheios d’água.
— Sim, fiquei com ela… para ajudar um pouco.
— Sinto muito pela sua perda. Deve saber que sua mãe não se comportou muito bem enquanto você esteve fora.
Pela abertura da porta, o Sr. Radcliffe olhou para além de Frances, e ela precisou se conter para não fechá-la mais um pouco.
— Ela… atrasou os pagamentos — continuou ele. — E não só comigo. Agora você não pode comprar fiado no Green nem no Mayhew.
— Vou dar um jeito — respondeu Frances.
Ele se virou para seu carro brilhante estacionado na rua. Dois meninos se olhavam no espelho lateral.
— Sua mãe era muito bonita quando trabalhava para mim. Olhe só o que a bebida faz com uma pessoa.
Ela sustentou o olhar.
— Acho que não tem muita coisa que eu possa lhe dizer sobre ela.
Frances continuou calada.
O Sr. Radcliffe trocou o peso de um pé para outro, depois conferiu o relógio de pulso.
— Quantos anos você tem, Frances? — perguntou ele.
— Quinze.
Ele a observou, como se a avaliasse. Então suspirou, como se estivesse prestes a fazer algo que ele mesmo não aprovava.
— Olhe, vou lhe dizer o seguinte: você pode trabalhar no hotel. Lavar pratos. Fazer faxina. Pelo visto, não pode contar com sua mãe para sustentá-la. Mas não me decepcione, ou vou dar um jeito de colocar vocês duas para fora daqui.
Ele se aproximou do carro, gritando para afastar os meninos, antes mesmo que ela tivesse tempo de agradecer.

* * *

Ela conhecia o Sr. Radcliffe desde pequena. A maioria dos moradores de Aynsville o conheciam: ele era dono do único hotel da cidade e também de várias casas de madeira. Ela ainda se lembrava das noites em que a mãe, antes de ser derrotada pela bebida, saía para trabalhar no bar do hotel e tia May tomava conta dela. Um tempo depois, tia May se arrependeu do dia em que aconselhou a mãe de Frances a aceitar esse trabalho…
— Mas em uma cidade deserta como esta, a gente aceita o emprego que aparece, não é mesmo?
A experiência de Frances no hotel foi bem melhor. No primeiro ano, pelo menos. Todos os dias, pouco depois das nove da manhã, ela chegava para trabalhar na cozinha dos fundos, ao lado de um chinês calado, que franzia as sobrancelhas e a ameaçava com uma faca enorme se ela não lavasse e picasse os legumes do jeito que ele queria. Ela limpava a cozinha, passava pano no chão, ajudava a preparar a comida até as quatro da tarde, depois ainda corria para lavar a louça. Suas mãos ficavam arruinadas e a pele rachava por causa da água escaldante. Suas costas e seu pescoço doíam de tanto se inclinar sobre a pia pequena. Ela aprendeu a baixar o olhar diante das mulheres mal-humoradas que a partir do meio da tarde não faziam outra coisa senão beber e trocar insultos.
Mas gostava de receber salário e ter um pouco de controle sobre o que até então não passara de uma vida caótica.
O Sr. Radcliffe ficava com o valor do aluguel e entregava a ela o pouco que sobrava, suficiente apenas para cobrir os gastos com comida e outras pequenas despesas da casa. Tinha comprado um par de sapatos novos para si mesma, e uma blusa creme com renda azul-clara para a mãe. O tipo de blusa que ela imaginaria uma mãe diferente da sua usando. Sua mãe chegara a chorar, agradecida, e prometera que em pouco tempo se recuperaria. Talvez Frances pudesse cursar uma faculdade, como May prometera. E escaparia daquele buraco fedorento.
Porém, livre da responsabilidade de trabalhar e sustentar a casa, sua mãe passara a beber ainda mais. Às vezes, ela ia ao bar do hotel e, usando um dos seus vestidos muito curtos, ficava debruçada no balcão. Tarde da noite, inevitavelmente discutia com os homens à sua volta e com as garotas que trabalhavam ali, tentava afastar moscas inexistentes e gritava com Frances num tom ao mesmo tempo de crítica e autopiedade. Por fim, surgia na cozinha para agredir verbalmente a filha pelos seus fracassos: se vestir bem, ganhar dinheiro, ter nascido para arruinar a vida da mãe. Então Hun Li a agarrava com seus braços enormes e a tirava dali.
Mais tarde, ele franzia as sobrancelhas para Frances, como se os fracassos da sua mãe fossem dela própria. Não tentava defendê-la: havia muitos anos sabia que isso não adiantava.
Considerando a pobreza delas, Frances nunca conseguiu descobrir onde sua mãe arranjava dinheiro para beber tanto.

* * *

Até que, certa noite, ela desapareceu… com o lucro do dia.
Frances estava tirando um intervalo de cinco minutos, sentada em um balde no armário das vassouras, comendo dois pedaços de pão com margarina que Hun Li deixara para ela, quando escutou a gritaria. Já largara o prato e se levantara quando o Sr. Radcliffe entrou feito um furacão.
— Onde ela está? Onde está aquela ladra vagabunda?
Frances ficou paralisada e arregalou os olhos. Sentiu um embrulho no estômago pois já sabia de quem ele estava falando.
— Ela foi embora! E meu dinheiro também! Onde ela está?
— E-eu não sei — gaguejou Frances.
O Sr. Radcliffe, que costumava ser tão educado e gentil, estava transtornado, com o rosto vermelho de raiva e o peito tão estufado que a camisa ameaçava explodir. Mantinha os punhos cerrados como se fizesse um grande esforço para se controlar. Olhou para ela pelo que pareceu uma eternidade, talvez avaliando a possibilidade de ela estar falando a verdade. Por um instante, Frances achou que fosse capaz de fazer xixi de tanto medo. Depois ele foi embora, batendo a porta.
A mãe de Frances foi encontrada dois dias depois, inconsciente, nos fundos do açougue. Não havia dinheiro com ela, só algumas garrafas vazias. Seus sapatos tinham sumido. Certa noite, naquela mesma semana, o Sr. Radcliffe foi “ter uma conversinha com ela” e depois voltou ao hotel para avisar a Frances que sua mãe e ele tinham decidido que seria melhor se a mulher deixasse a cidade por algum tempo. Ela prejudicava os negócios. Dificilmente alguém daria crédito para as Luke. Ele mesmo a havia ajudado a ir embora.
— Só até ela se ajeitar — disse ele. — Embora só Deus saiba quanto tempo isso vai levar.
Frances ficou chocada demais para reagir. Quando chegou em casa naquela noite e se deparou com o pesado silêncio do lugar, as contas empilhadas na mesa da cozinha e um bilhete que não explicava direito que rumo a mãe tomara, ela apoiou a cabeça nos braços e ficou assim até que, exausta, adormeceu.

* * *

Quase três meses depois, o Sr. Radcliffe chamou Frances ao seu escritório. A sombra da sua mãe diminuíra, as pessoas na cidade tinham parado de cochichar quando ela passava, e algumas inclusive a cumprimentavam. Hun Li estava mais gentil e até fazia questão de que, no jantar, colocassem sempre alguma sobra de carne de boi e de cordeiro no seu prato e lhe concedessem intervalos regulares para descanso. Certa vez, ele havia deixado duas laranjas para ela, embora mais tarde tivesse negado e até feito ameaças com a faca quando ela comentou sobre isso. Suas colegas no bar tinham perguntado se ela estava bem e refeito suas tranças, como agiriam com uma irmã. Outra vez, ele tinha lhe oferecido um drinque no fim do expediente. Por mais que tivesse ficado agradecida, ela recusara. Quando outra garota enfiou a cabeça pela fresta da porta para pedir que ela fosse ao escritório do chefe, Frances estremeceu, com medo de também ser acusada de roubo. Tal mãe, tal filha… era o que comentavam na cidade. Está no sangue. Mas quando ela bateu na porta e entrou, viu que o Sr. Radcliffe não estava bravo.
— Sente-se — disse ele. No seu olhar parecia haver compaixão. Ela obedeceu. — Preciso pedir que saia da sua casa.
Antes que ela pudesse abrir a boca para contestar, ele continuou:
— A guerra vai mudar as coisas em Queensland. Forças militares estão vindo para cá e a cidade vai ficar movimentada. Fiquei sabendo que vai chegar muita gente que pode pagar um aluguel muito melhor. Enfim, Frances, não faz sentido uma menina como você morar sozinha naquela casa.
— Meu aluguel está em dia — respondeu Frances. — Nunca atrasei.
— Sei disso, querida, e não sou o tipo de homem que jogaria você na rua. Pode se mudar para cá. Pode ficar com um dos quartos lá em cima, onde Mo Haskins costumava dormir, você sabe qual. Vou cobrar um aluguel mais baixo, para que sobre um pouco de dinheiro para você. O que acha?
O Sr. Radcliffe estava tão confiante de que Frances ficaria contente com a proposta que ela não teve coragem de dizer o que realmente sentia: que a casa da Ridley Street era seu lar. Desde que a mãe se fora, ela começara a aproveitar sua independência, e a sensação de estar sempre à beira de um desastre tinha desaparecido. Além do mais, ela não queria se endividar com ele, como sugeria a oferta.
— Prefiro continuar na casa, Sr. Radcliffe. Eu… posso fazer hora extra para conseguir pagar o aluguel.
O Sr. Radcliffe suspirou.
— Eu realmente adoraria ajudar você, Frances, mas quando sua mãe levou meu dinheiro, deixou um buraco muito grande nas minhas finanças. Um buraco e-nor-me. E vou ter que cobrir isso.
Ele se levantou e se aproximou dela. A mão que colocou no seu ombro parecia imensamente pesada.
— É disso que gosto em você, Frances. É uma pessoa batalhadora, ao contrário da sua mãe. Por isso estou propondo que se mude para cá. Uma menina não deve passar os melhores anos da vida preocupada com aluguel. Deve sair, se vestir um pouco melhor, se divertir. Além do mais, não é bom que as pessoas saibam que uma garota tão nova mora sozinha… — Ele apertou os ombros de Frances, que ficou imóvel. — Não. Traga suas coisas no próximo sábado e deixe que eu me encarrego do resto. Vou mandar um dos rapazes lhe dar uma ajuda.

* * *

Mais tarde, ela se deu conta de que talvez as outras garotas soubessem de alguma coisa que ela ignorava. Que a piedade delas, a amizade e, em um caso específico, a hostilidade, não eram consequência, como ela tinha achado, do fato de morarem juntas, sob o mesmo teto, e sim do que elas deduziam que era a posição de Frances no hotel.
E, quando Miriam, uma judia baixinha com cabelo até a cintura, avisou que passaria uma tarde ajudando-a a ficar mais elegante, a gentileza talvez não fosse fruto da uma cordialidade feminina, mas da ordem que recebera de outra pessoa.
O que quer que fosse, Frances, pouco acostumada com demonstrações de amizade, se sentira intimidada demais para recusar a ajuda. No fim do dia, depois que Miriam penteou seu cabelo, apertou a faixa do vestido azul-escuro que ela havia ajustado ao seu corpo e a apresentou ao Sr. Radcliffe, vangloriando-se da transformação, Frances achou que devia se sentir grata à colega.
— Nossa, olhe só para você — exclamou o Sr. Radcliffe, dando baforadas no cigarro. — Quem diria, hein, Miriam?
— Ela está ótima, não é?
Frances sentiu suas bochechas corarem, tanto pela maquiagem quanto pelos olhares fixos nela. Teve vontade de cruzar os braços para esconder o peito.
— Está ótima mesmo. Na verdade, acho que nossa pequena Frances está sendo desperdiçada com Hun Li, não acha? Tenho certeza de que podemos encontrar algo que dê mais destaque a ela do que lavando garrafas.
— Estou bem — retrucou Frances. — De verdade. Adoro trabalhar com o Sr. Hun.
— Claro, querida, e seu trabalho é ótimo também. Mas vendo como ficou bonita, acho que é mais útil para mim no bar. Então, a partir de agora, você vai servir drinques. Miriam vai lhe ensinar tudo.
Como em tantas outras vezes, Frances se sentiu manipulada. Era como se, apesar de supostamente adulta, houvesse gente demais interessada em tomar decisões por ela. E mesmo que tivesse percebido algo no olhar de Miriam que sugerisse alguma coisa por trás de tudo aquilo, alguma coisa vagamente desconcertante, ela não teria sido capaz de identificar com precisão o que era.

* * *

Frances devia ser grata. Devia ser grata porque o Sr. Radcliffe concedera a ela o lindo quartinho do sótão por um preço bem abaixo do que ela poderia pagar. Devia ser grata por ele estar cuidando dela, coisa que seus pais não tiveram o bom senso de fazer. Devia ser grata por ele sempre ter sido atencioso, por ter comprado dois vestidos elegantes quando descobriu que praticamente todas as roupas dela estavam puídas, por levá-la para jantar uma vez por semana e por não deixar que falassem mal da sua mãe na frente dela, por protegê-la da atenção das tropas que lotavam a cidade. Devia agradecer por alguém achá-la tão bonita como ele achava.
Então, ela não deu ouvidos a Hun Li quando, certa noite, ele a chamou no canto e disse, com seu forte sotaque chinês, que ela devia ir embora. Naquele exato momento. Ela não era uma garota burra, por mais que os outros dissessem o contrário.
Por isso, naquela primeira noite, quando, em vez do aceno com o qual costumava dar boa-noite, o Sr. Radcliffe a convidou para ir ao seu quarto após o jantar, foi difícil dizer não. Quando ela afirmou que estava cansada, ele pareceu muito triste e disse que ela não podia deixá-lo sozinho depois de tê-lo distraído durante a noite inteira. Parecia tão orgulhoso do vinho importado especialmente para o bar que tinha achado importante que ela também o provasse. A segunda taça era ainda melhor. E quando ele insistira que ela se sentasse no sofá ao seu lado e não na cadeirinha, onde ficava confortável, teria sido indelicado recusar.
— Você sabe que é uma menina muito bonita, Frances — disse ele.
Havia algo quase hipnótico no modo que ele cochichava isso no ouvido dela. Nas suas mãos enormes que, sem ela perceber, tinham acariciado suas costas, como se ela fosse um bebê. No modo que seu vestido deslizara por sua pele nua.
Mais tarde, ao relembrar a cena, ela se deu conta de que não tinha tentado impedi-lo porque só percebera tarde demais o que devia ter impedido. E não havia sido tão ruim, não é mesmo? Porque o Sr. Radcliffe se preocupava com ela. Como nunca alguém se preocupara. O Sr. Radcliffe tomaria conta dela.
Ela talvez não tivesse certeza do que sentia por ele. Mas sabia que devia ser grata.

* * *

Frances ficou no Rest Easy Hotel por mais três meses. Durante os dois primeiros, o Sr. Radcliffe e ela (ele nunca sugeriu que ela o chamasse pelo primeiro nome) criaram uma rotina de duas “visitas” noturnas por semana. Às vezes, ele a convidava para seu quarto depois de levá-la para jantar. Em raras ocasiões, ele aparecia no quarto dela sem avisar. Ela não gostava quando isso acontecia, pois ele estava quase sempre bêbado. Certa vez, ele entrou e não falou quase nada, apenas abriu a porta e se jogou em cima dela. A impressão que ela teve foi a de ser apenas um receptáculo. Depois, ficou horas tentando tirar o cheiro dele da pele.
Ela logo percebeu que não o amava, apesar de tudo o que ele lhe dizia. Entendeu por que ele contratava tantas mulheres no hotel. Ela notou, com um pouco de curiosidade, que nenhuma delas invejava seu posto de namorada de Radcliffe, mesmo sabendo que ele a favorecia com relação a salário, roupas e atenção.
Ela entendeu suas intenções no dia em que ele propôs que ela “entretivesse” seu amigo por um tempo.
— Desculpe — respondeu ela, dando um sorriso fraco para os dois homens —, acho que não ouvi direito.
Ele colocou a mão no ombro dela.
— Meu amigo Neville tem um carinho especial por você, querida. Faça um favor para mim e ajude-o a se sentir melhor.
— Não estou entendendo — repetiu ela.
Seus dedos apertaram o braço de Frances. E, por causa do calor sufocante que fazia naquela noite, escorregaram em sua pele.
— Acho que está entendendo, sim, querida. Você não é burra.
Ela recusou, vermelha de raiva por ele ter considerado que ela era capaz de fazer aquele tipo de coisa. Continuou recusando e tentou, com um olhar furioso, transmitir a mágoa que sentia com a sugestão dele. Praticamente correu para a escada, com lágrimas de humilhação inundando seus olhos, ansiosa para se refugiar na segurança do seu quarto, tendo noção de que as outras garotas a observavam e que tropas, que haviam se tornado sempre presentes, a vaiavam.
Mas logo ouviu os passos ameaçadores de Radcliffe, que a seguira. Quando ela chegou à porta do quarto, ele a alcançou.
— O que acha que está fazendo? — gritou ele, virando-a de frente.
Seu rosto tinha a mesma cor de quando ele acusara sua mãe de roubo.
— Me deixe em paz! — berrou ela. — Não consigo acreditar que está me pedindo para fazer uma coisa dessas!
— Como se atreve a me envergonhar assim? Depois de tudo o que fiz por você? Eu a acolhi, não cobrei o dinheiro que sua mãe me roubou, dei vários vestidos novos de presente, levei você a bons restaurantes, enquanto todo mundo nesta cidade dizia que eu devia manter distância de qualquer pessoa da família Luke…
Ela se sentou e tapou o rosto com as mãos, como se pudesse impedir que ele se aproximasse mais. Ouviu alguém começar a cantar lá embaixo, o que foi recebido com risos de escárnio.
— Neville é um amigo meu, você entende, sua garotinha idiota? Um grande amigo meu. O filho dele foi para a guerra, por isso ele está arrasado. Só estou tentando fazer com que se distraia e pense em outra coisa. Por isso, estamos aqui, nós três, tendo uma noite agradável, entre amigos, até você começar a se comportar feito uma criança mimada! Como acha que Neville se sentiu com isso?
Ela tentou interromper, mas ele a impediu e continuou:
— Achei que você fosse melhor do que isso, Frances. — Então ele baixou a voz e adotou um tom conciliatório: — Uma das coisas que sempre me agradaram em você foi sua dedicação aos outros. Você não gostava de ver ninguém infeliz. Então não estou pedindo muito se pararmos para pensar, não acha? É uma simples ajuda a uma pessoa que acabou de ver o filho partir para talvez perder a vida na guerra.
— Mas eu…
Ela não sabia o que responder. Começou a chorar e tentou levar a mão ao rosto, mas ele a segurou.
— Nunca te forcei a nada, não é verdade?
— Não.
— Olhe, querida, Neville é um cara legal, não é?
Era um sujeito baixo, de cabelo grisalho, bigode e dentes pequenos como os de rato. Passara a noite inteira sorrindo para ela. Frances imaginara que ele tinha achado sua conversa interessante.
— E você se importa comigo, não é?
Ela assentiu, sem dizer nada.
— Seria muito importante para ele. E para mim. Vamos, querida, não estou pedindo demais.
Ele ergueu o rosto dela e a forçou a abrir os olhos.
— Não quero — sussurrou ela. — Isso, não.
— Vai tomar apenas meia hora da sua vida. E até parece que você não gosta, não é mesmo?
Ela não sabia o que responder. Nunca estivera sóbria o bastante para lembrar.
Como ela não falou nada, ele pareceu considerar que tinha concordado, e a levou até o espelho.
— Olhe só, suba agora e se arrume um pouco. Ninguém quer ver um rosto cheio de lágrimas. Vou mandar levarem alguns drinques, como aquele conhaque ótimo que você gosta, e depois faço Neville subir. Vocês vão se dar muito bem.
Então ele saiu do quarto sem olhar para ela.

* * *

Depois desse dia, ela perdeu a conta de quantas vezes fez aquilo. Só sabia que a cada encontro bebia mais, e um dia até passou mal, o que fez o homem pedir o dinheiro de volta. O Sr. Radcliffe se irritava cada vez mais com ela, que se refugiava no banheiro e ficava lá o máximo de tempo possível. Ela esfregava a pele com tanta força que surgiam manchas vermelhas de escoriação, o que fazia as outras mulheres estremecerem ao passar por ela.
Por fim, na última ocasião, enquanto o bar ficava cada vez mais barulhento e as escadas estalavam com o constante sobe e desce, Hun Li viu Frances escapar para a adega. Ela havia escondido ali uma garrafa de rum e se escondera em um canto, entre os barris de Castlemaine e McCracken, para se livrar de dois soldados de folga que ficaram sabendo pelo Sr. Radcliffe que havia a possibilidade de passarem algum tempo com ela. E ficou ali bebendo no gargalo da sua garrafa já meio vazia.
— Frances!
Ela se virou de repente. Como estava bêbada, demorou a perceber quem era, e só o reconheceu pela camisa azul e os braços musculosos.
— Não diga nada — resmungou ela, largando a garrafa. — Vou colocar o dinheiro na caixa registradora.
Ele se aproximara dela, sob a lâmpada sem bulbo que os iluminava, e ela se perguntou se ele também tinha vontade de tocá-la.
— Você precisa ir embora — disse ele.
Ele afastou uma mariposa que surgiu perto do seu rosto.
— O quê?
— Você precisa ir embora daqui. Este não é um bom lugar.
Era praticamente a única coisa que ele tinha dito a ela em quase dezoito meses. Por isso, Frances riu, uma risada amarga, irritada, que se transformou em choro. Depois ela se curvou, envolvendo o corpo com os braços, incapaz de recuperar o fôlego.
Constrangido, ele continuou parado diante dela, mas depois se aproximou devagar, como se tivesse medo de tocá-la.
— Peguei isto para você — disse.
Por um instante, ela imaginou que ele lhe daria um sanduíche. Mas então viu que sua mão estava cheia de dinheiro, um calhamaço de notas.
— O que é isso? — murmurou ela.
— O homem da semana passada. Aquele… — Hun Li titubeou, sem saber como descrever melhor o último “amigo” do Sr. Radcliffe. — Aquele com o terno elegante. Dono de um cassino. Roubei do carro dele. — Estendeu a mão fechada para ela. — Fique com isto. Vá embora amanhã. Pague para o Sr. Musgrove levá-la à estação.
Ela não se mexeu e ele insistiu, com a mão estendida.
— Vamos. Você mereceu.
Ela observou o dinheiro, se perguntando se estaria tão bêbada a ponto de ter imaginado a cena. Mas quando encostou o dedo nas notas, percebeu que aquilo era real.
— Acha que ele vai contar para o Sr. Radcliffe?
— E daí? Você já terá ido embora. Tem um trem partindo amanhã. Vá. Vá agora. — Ela continuou calada, e ele pareceu zangado. — Este lugar não é nada bom para você, Frances. Você é uma boa menina.
Uma boa menina. Ela ficou encarando o homem que havia considerado incapaz de falar, e muito menos de demonstrar tanta bondade. Frances pegou o dinheiro e o enfiou no bolso. O suor de Hun Li havia amolecido as notas, que amassaram com o contato do tecido da roupa. Então ela se virou para lhe estender a mão em agradecimento.
Como ele não estendeu a sua, ela achou que talvez houvesse alguma coisa por trás da solidariedade de Hun Li, mas não quis pensar sobre isso. Em apenas três meses, sua “profissão” lhe ensinara a agir dessa forma.
Ele assentiu para ela, como se estivesse envergonhado da sua própria discrição.
— E o senhor? — perguntou ela.
— Eu o quê?
— O senhor não precisa deste dinheiro?
Mas, na verdade, ela não queria fazer esta pergunta, já imaginando o benefício que as notas no seu bolso lhe trariam.
Não conseguiu decifrar a expressão de Hun.
— Você precisa muito mais que eu — respondeu ele, virando-se, em seguida, e suas costas largas desapareceram na escuridão.

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