30 de março de 2019

Capítulo 14

Matt arriou os ombros, infeliz. Fora à reunião de aspirantes porque não queria ficar sozinho no quarto, mas agora preferia não ter ido. Esteve evitando Elena, Meredith e Bonnie — não era culpa delas, mas acontecera tanta violência em torno dos quatro no ano anterior, tantas mortes. Ele achava que seria melhor ficar com outras pessoas, gente que não via quanta escuridão havia no mundo, mas não estava dando certo.
Quase parecia que ele estava embrulhado em plástico-bolha, grosso e nebuloso. Enquanto os outros aspirantes se movimentavam e falavam, ele conseguia vê-los e ouvi-los, mas se sentia separado deles; tudo parecia abafado e obscuro. Ele também se sentia frágil, como se remover a camada protetora pudesse fazê-lo se desintegrar.
Enquanto ele estava parado com o grupo de aspirantes, Chloe se aproximou e se colocou ao lado dele, pegando seu braço tranquilizadoramente com a mão pequena e forte. Um espaço se abriu no plástico-bolha, e ele realmente sentiu que ela estava com ele. Matt colocou a mão sobre a dela e a apertou, agradecido.
A reunião de aspirantes acontecia na sala subterrânea revestida de madeira onde eles se conheceram. Ethan garantiu que aquele era apenas um dos muitos esconderijos secretos — os outros só eram abertos aos plenamente iniciados. Matt descobrira agora que mesmo esta sala tinha várias entradas: uma delas por uma antiga casa nos arredores do campus, que devia ter sido aquela à qual levaram a todos na primeira vez, uma por um galpão perto dos campos de esporte e outra pelo porão da biblioteca. O chão abaixo do campus devia ser uma colmeia de túneis para que tantas entradas dessem neste lugar, pensou ele, e teve uma imagem inquietante de alunos andando na grama ensolarada enquanto, alguns centímetros abaixo, abriam-se túneis intermináveis e escuros.
Ethan falava, e Matt sabia que em geral estaria bebendo cada palavra dele. Hoje, a voz de Ethan passava por Matt quase sem ser ouvida, e Matt deixou que os olhos simplesmente seguissem as figuras mascaradas dos membros da Vitale que andavam pela sala atrás de Ethan. Vagamente, ele se perguntou sobre eles, sobre como as máscaras disfarçavam bem o bastante para ele nunca saber se reconhecia qualquer um pelo campus. Isto é, qualquer um menos Ethan. Matt se perguntou com curiosidade o que tornava o líder imune a essas restrições. Como os túneis abaixo do campus, o anonimato dos Vitale era um tanto inquietante.
Por fim a reunião terminou, e os aspirantes começaram a sair da sala. Alguns deram tapinhas nas costas de Matt ou murmuraram palavras solidárias, e ele se reconfortou ao perceber que eles se importavam, que de algum modo se sentiam amigos, graças a todas as atividades tolas de integração.
— Pode esperar um minuto, Matt? — Ethan estava ao lado dele de repente. Ao olhar de Ethan, Chloe apertou o braço de Matt de novo e soltou.
— A gente se vê depois — murmurou ela. Matt a viu atravessar a sala e sair pela porta com o cabelo batendo na nuca.
Quando olhou novamente para Ethan, a cabeça deste estava inclinada, os olhos castanhos dourados reflexivos.
— É bom ver que você e Chloe estão ficando tão próximos — declarou Ethan, e Matt deu de ombros, sem graça.
— É, bem... — disse ele.
— Vai descobrir que os outros Vitale são as pessoas que podem entender você melhor — disse Ethan. — Eles é que vão apoiá-lo por toda a faculdade e pelo resto da vida. — Ele sorriu. — Pelo menos, foi o que aconteceu comigo. Estive observando você, Matt — concluiu.
Matt ficou tenso. Algo em Ethan atravessou a sensação de plástico-bolha, mas não de forma reconfortante, como aconteceu com Chloe. Agora Matt se sentia exposto, e não protegido. A clareza do olhar dele, talvez, ou a impressão de que Ethan sempre parecia acreditar firmemente no que dizia.
— É? — indagou Matt, cauteloso.
Ethan sorriu.
— Não fique tão paranoico. É no bom sentido. Cada aspirante a Vitale é especial, por isso são escolhidos, mas todo ano tem um ainda mais especial, um líder entre os líderes. Posso ver que, neste grupo, é você, Matt.
Matt deu um pigarro.
— É mesmo? — perguntou, lisonjeado, sem saber o que dizer. Ninguém jamais o chamara de líder.
— Tenho grandes planos para a Vitale Society este ano. — Os olhos de Ethan brilhavam. — Vamos fazer história. Seremos mais poderosos do que jamais fomos. Nosso futuro é brilhante.
Matt abriu um meio-sorriso e assentiu. Quando Ethan falava com aquela voz calorosa e convincente, aqueles olhos dourados fixos em Matt, ele também podia ver. Os Vitale liderando não só o campus, mas, um dia, o mundo. O próprio Matt deixaria de ser o cara comum que sabia que sempre tinha sido e se tornaria alguém confiante, de visão clara; um líder entre os líderes, como disse Ethan. Ele podia imaginar tudo isso.
— Quero que seja meu braço direito aqui, Matt — disse Ethan. — Você pode me ajudar a levar esses aspirantes à grandeza.
Matt assentiu novamente e, com os olhos de Ethan fixos nos dele, sentiu um ardor de orgulho, a primeira coisa boa que sentia desde a morte de Chris. Ele lideraria os Vitale ao lado de Ethan. Tudo ficaria melhor. O caminho à frente estava desimpedido.


Keynes, por sua vez, postulava que a atividade econômica era determinada pela demanda agregada. Pela décima quinta vez em meia hora, Stefan lia a frase sem sequer começar a compreendê-la.
Tudo parecia tão sem sentido. Ele tentou se distrair investigando o assassinato no campus, mas só ficou mais ansioso por não poder estar ao lado de Elena, garantindo pessoalmente que ela estivesse segura. Fechou o livro e baixou a cabeça nas mãos.
Sem Elena, o que ele estava fazendo ali?
Ele a teria seguido a qualquer lugar. Ela era tão linda que às vezes doía olhar para ela, como doía olhar para o sol. Ela brilhava como aquele sol, com seu cabelo dourado e olhos de lápis-lazúli, a pele leitosa e delicada que retinha o mais leve toque de rosa.
Porém havia mais em Elena do que a beleza. Só a aparência não teria prendido a atenção de Stefan por tanto tempo. Na realidade, a semelhança dela com Katherine quase o afugentou. Mas sob aquele exterior belo e agradável havia uma mente errática que estava sempre trabalhando e planejando, e um coração fortemente protetor de todos que amava.
Stefan tinha passado séculos procurando algo que o fizesse se sentir vivo novamente, e nunca teve tanta certeza de nada como tinha de Elena. Ela era tudo, a única para ele.
Por que ela não podia ter a mesma certeza em relação a ele? Porque, apesar de Elena dizer que Stefan era tudo, ainda havia este fato: as únicas duas mulheres que ele amou em sua longa vida amavam não só Stefan, mas também o irmão.
Stefan fechou os olhos e esfregou a ponte do nariz entre os dedos, depois saiu da mesa. Talvez estivesse com fome. Em alguns passos rápidos, atravessou o quarto pintado de branco com suas posses elegantes e a mobília barata da faculdade, chegando à sacada. Do lado de fora, a noite tinha cheiro de jasmim e escapamento de carro. Stefan estendeu gentilmente sondas do seu Poder pela noite, investigando, procurando por... alguma coisa... Ali. Uma mente diminuta respondeu rapidamente a ele.
Sua audição, mais aguçada que a de um humano, captou o fraco gemido de sonar, e um pequeno morcego peludo pousou na grade da sacada, atraído pelo Poder. Stefan o pegou, mantendo sob controle a suave conexão entre sua mente e a do morcego, e olhou mansamente o rostinho alerta de raposa.
Stefan baixou a cabeça e bebeu, com o cuidado de não tirar demais da criaturinha. Fez uma careta com o gosto e soltou o morcego, que bateu as asas, hesitante, meio tonto, depois ganhou velocidade e se perdeu de novo na noite.
Ele não estava com muita fome, mas o sangue clareou sua mente. Elena era tão jovem. Ele precisava se lembrar disso. Ela era ainda mais nova do que ele quando se tornou vampiro, e precisava de tempo para experimentar a vida, para que seu caminho a levasse de volta a Stefan. Ele podia esperar. Tinha todo tempo do mundo.
Mas sentia tanta falta dela.
Reunindo forças, ele saltou da sacada e caiu de leve no chão. Havia um canteiro de flores ali e ele estendeu a mão, sentindo as pétalas macias como seda. Uma margarida, nova e inocente. Ele a colheu e entrou de novo no alojamento, desta vez usando a entrada da frente.
Diante da porta de Elena, ele hesitou. Ouvia os leves ruídos dela se movendo por ali, sentia seu cheiro característico, o aroma inebriante. Estava sozinha, e ele ficou tentado a bater à porta. Talvez ela ansiasse por ele, como ele ansiava por ela. Se ficassem a sós, será que ela se derreteria em seus braços, mesmo a contragosto?
Stefan meneou a cabeça, cerrando a boca. Ele tinha de respeitar a vontade de Elena. Se ela precisava de tempo sozinha, ele lhe daria isso. Olhando para a margarida branca, ele lentamente a equilibrou sobre a maçaneta de Elena. Ela encontraria a flor e saberia que era dele.
Queria que Elena soubesse que ele podia esperar por ela, se era o que ela precisava, mas que estava sempre pensando nela.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!