14 de março de 2019

Capítulo 14

Se você receber os objetos pessoais de um parente ou amigo que faça parte das Forças Armadas, não significa que ele esteja morto ou desaparecido… Milhares de homens, antes de partir para além-mar, empacotaram a maior parte dos seus pertences e pediram que fossem mandados para casa. A recomendação oficial é: a entrega de pacotes não deve ser motivo de preocupação, a menos que uma informação também seja enviada por carta ou telegrama para um parente próximo, pelas vias oficiais.
DAILY MAIL, SEGUNDA-FEIRA, 12 DE JUNHO DE 1944

VINTE E TRÊS DIAS
Jean foi retirada do navio durante uma breve e não programada escala em Cochin. Ninguém mais foi autorizado a desembarcar, mas várias companheiras de viagem a viram entrar no pequeno barco a motor. Recusando-se a olhar para elas, Jean foi levada até a costa, com uma oficial da Cruz Vermelha ao lado, sua mala e o baú equilibrados na extremidade oposta do barco. Ela não acenou.
Frances, que havia reconfortado Jean naquela primeira noite cheia de lágrimas e histeria, e depois se sentara com ela quando seu estado de espírito ficara ainda mais sombrio, tinha tentado sem sucesso encontrar um jeito de reverter a situação. Margaret chegara a pedir para falar com o comandante. Mais tarde contou que ele tinha sido muito gentil, porém, se o marido não a queria mais, não havia o que fazer. Não chegara a afirmar que “Ordens são ordens”, mas foi o que deu a entender. Ela disse que teve vontade de torcer o pescoço daquela maldita oficial.
— Podíamos escrever para o marido dela — sugeriu Frances.
Mas havia coisa demais a explicar, e elas não conheciam todos os detalhes. Também não sabiam quanto da história poderiam contar.
Enquanto Jean dormia, Frances e Margaret tinham redigido uma carta que foi considerada sincera e diplomática. Iam mandá-la no próximo correio. As duas sabiam, embora nenhuma tivesse falado, que era pouco provável que a carta fizesse alguma diferença. Com a mão na testa para se proteger do sol, elas conseguiram distinguir o barco assim que parou junto ao cais. Viram dois sujeitos esperando, embaixo do que parecia ser um guarda-chuva. Um pegou a mala de Jean, o outro a ajudou a pisar em terra firme. Daquela distância, era impossível ver mais do que isso.
— Não foi culpa minha — disse Avice quando o silêncio se tornou opressivo. — Não precisam olhar para mim desse jeito.
Margaret secou os olhos e seguiu com passos pesados para dentro do navio.
— É triste demais! — exclamou.
Frances continuou calada.

* * *

Ela não era bonita, nem especialmente atraente. Mesmo assim, nos dias que se seguiram, o comandante Highfield não conseguiu tirar o rosto de Jean Castleforth da cabeça. A situação tinha sido tão desconfortável quanto as que ele enfrentara com prisioneiros de guerra: o desembarque, a entrega às autoridades. O olhar de raiva, de impotência, de desespero e, por fim, de resignação.
Ele perguntara várias vezes a si mesmo se havia feito a coisa certa. As jovens tinham sido incisivas e o tom de indignação contido na voz da enfermeira ainda o atormentava: “O senhor prestou um enorme desserviço.” Por outro lado, o que mais ele poderia ter feito? A oficial tinha certeza do que vira. Ele precisava confiar na sua equipe… a mesma que havia sido avisada que ele não toleraria aquele tipo de conduta. E, como dissera a oficial, se o marido não a queria mais, o problema não era deles.
Ainda assim, aqueles dois rostos… o da garota alta e magra, com sua acusação veemente, e o da mais nova, marcado por um profundo pesar… o levaram a se perguntar se não estavam exigindo demais daquelas mulheres.
Viajar para tão longe com uma promessa baseada em tão pouco, enquanto lidavam com tanta tentação. Se é que tinha havido alguma tentação…
O desembarque de Jean, a segunda a ser retirada naquelas circunstâncias, tinha causado um clima de apreensão no navio. Ele percebia que as esposas estavam se sentindo mais inseguras do que nunca. Elas olhavam desconfiadas quando ele circulava pelos conveses durante as rondas e se agrupavam nas portas das cabines como se tivessem medo de que ele pudesse submetê-las ao mesmo destino. O capelão tentara tranquilizá-las durante o serviço religioso com algumas palavras cuidadosamente escolhidas, mas que só serviram para aumentar ainda mais a ansiedade do grupo. As oficiais, por sua vez, foram jogadas no ostracismo. As esposas, depois de ficarem sabendo do tratamento que Jean recebera, tinham decidido manifestar seu desprezo de diferentes maneiras, algumas mais verbalizadas do que outras, o que levou várias oficiais à sala do comandante aos prantos.
Algumas semanas antes, ele teria pedido para elas se controlarem. Mas agora sentia certa compaixão. Aquilo não era um mau comportamento: aquelas mulheres não estavam vivendo nenhuma grande aventura. Não tinham nenhum poder a bordo. E essa falta de poder causava emoções incomuns tanto em quem estava ali vivenciando o dia a dia quanto em quem era mero espectador.
Além disso, Highfield tinha outras coisas com as quais se preocupar. O navio sofrera diversos danos, como se tivesse sido avisado do destino que lhe era reservado. O leme parara de funcionar e, pela terceira vez em dez dias, o sistema precisou ser trocado com urgência para o de vapor. A água continuava escassa, e os engenheiros não conseguiam descobrir por que as bombas de dessalinização não paravam de dar problema. Estava previsto que o Victorious pegaria quatorze passageiros civis em Aden, inclusive o governador de Gibraltar e sua esposa, que tinham feito uma visita ao porto e depois voltariam para casa. O comandante não sabia como alimentar tanta gente. E ele estava tendo cada vez mais dificuldade de andar sem mancar. No dia anterior, Dobson perguntara em tom mordaz se estava tudo bem, e então o comandante apoiara o peso todo na perna machucada, que latejou tanto que ele precisou morder o interior da bochecha para se controlar. Ele havia considerado ir à enfermaria procurar algo que aliviasse a dor, afinal, estava com as chaves. Mas não tinha ideia de qual medicamento usar, e a possibilidade de piorar o problema lhe deu calafrios. Mais três semanas, pensou. Mais três semanas, se eu conseguir aguentar tudo isso.
Foi por esse motivo que decidiu manter o baile de pé. Um bom comandante fazia tudo que estivesse ao seu alcance para garantir a felicidade e o bem-estar dos passageiros. Um pouco de música, com algumas canções bem escolhidas, faria bem a todos. E ele, mais do que ninguém, compreendia a necessidade de se distrair um pouco.

* * *

Maude Gonne não estava bem. Talvez tivesse sido contagiada pelo clima triste da pequena cabine, que parecia vazia sem a presença irrequieta de Jean. Mas podia ser simplesmente o efeito de várias semanas de pouca comida e confinamento no calor. Ela quase não tinha apetite e andava apática. Pouco se interessava pelas idas ao banheiro ou pelos breves passeios pelo convés tarde da noite. Não franzia mais o focinho para sentir o cheiro da brisa do mar quando as mulheres a levavam escondida debaixo da roupa. Perdera peso, e sua debilidade física era preocupante.
Sentada no seu beliche, Frances acariciava gentilmente a cabeça de Maude Gonne, que estava quase dormindo, com os olhos esbranquiçados quase fechados. Uma vez ou outra, talvez quando se lembrava da presença de Frances, abanava o rabo como se quisesse demonstrar gratidão. Era um amor de cadela.
Margaret se considerava culpada. Dissera a Frances que nunca devia ter trazido Maude. Devia ter pensado no calor, no confinamento constante, e deixado a cadela na única casa que ela conhecia, com os cachorros do seu pai e o interminável espaço verde onde era feliz. Frances achava que o remorso que Margaret remoía fosse o sintoma de uma inquietação subjacente: se ela não era capaz de cuidar de uma simples cachorrinha, como poderia…
— Vamos levá-la para um passeio lá em cima? — propôs Frances.
— O quê? — perguntou Margaret, remexendo-se no beliche.
— Podemos colocá-la na sua cesta e cobri-la com uma echarpe. Há uma torre de tiro um pouco mais afastada do banheiro, aonde ninguém vai. Por que não nos sentamos lá por um instante? Assim Maude vai poder respirar um pouco de ar fresco.
Ela percebeu que a ideia deixava Margaret nervosa, mas não lhe restavam muitas opções.
— Olhe, quer que eu leve? — perguntou Frances, notando a exaustão de Margaret. Fazia dias que o desconforto a impedia de dormir bem.
— Você faria isso? Nesse caso, eu poderia cochilar um pouco.
— Vou ficar lá fora com ela o máximo que puder.
Ela seguiu rapidamente na direção do convés C, sabendo que, se parecesse confiante no que fazia, era pouco provável que alguém a parasse. Várias esposas estavam ocupadas com alguma tarefa no navio, fazendo trabalho administrativo, cozinhando. Algumas participavam do recém-criado Clube de Pintura, e uma mulher circulando por um convés antes considerado território exclusivo dos homens de serviço não era tão incomum quanto poderia ter sido duas semanas antes.
Ela abriu a pequena escotilha, baixou a cabeça e saiu, tomando o cuidado de deixá-la aberta. O dia estava ensolarado e o calor era forte, mas não opressivo. Uma brisa suave ergueu a echarpe de seda da cesta de Frances e, em seguida, um pequeno focinho preto apareceu e se franziu.
— Vamos, menina, aproveite — murmurou Frances. — Veja se ajuda.
Vários minutos depois, Maude Gonne tinha comido um biscoito e um restinho de bacon, os primeiros petiscos pelos quais demonstrava interesse em dois dias. Frances ficou quase uma hora sentada com o cachorro no colo, observando as ondas se quebrando ao seu lado no casco do navio, ouvindo partes de conversas e risadas ocasionais que vinham do convés de voo acima, tudo pontuado pelos avisos estranhos transmitidos pelos alto-falantes. Mesmo que suas roupas, que não eram lavadas havia vários dias, cheirassem mal, e que o movimento ocasional do seu corpo liberasse odores que a faziam sonhar com um banho, ela sabia que sentiria falta do navio. Seus ruídos tinham se tornado familiares a ponto de serem reconfortantes. Ela, inclusive, não tinha certeza se, como todas as outras, queria desembarcar em Aden.
Fazia dois dias que não via o fuzileiro naval.
Outro soldado havia montado guarda nas noites anteriores, e mesmo ela tendo passado muito mais tempo do que o habitual andando de um lado para outro no navio, ele não surgira do nada. Frances cogitou que o homem estivesse doente e teve medo de que o Dr. Duxbury pudesse tratá-lo. Mas falou para si mesma que deixasse de ser ridícula, afinal, talvez fosse melhor não vê-lo com tanta frequência.
Já ficara abalada demais com a ida de Jean para ainda pensar em acrescentar uma paixão colegial impossível à história.
No entanto, quase uma hora depois, quando se preparava para entrar, ela se sobressaltou. Ele estava com o rosto pálido, enquanto vários colegas seus já exibiam o bronzeado do Pacífico, e os olhos ainda sombreados denunciavam noites insones, mas, de qualquer jeito, era ele. O movimento elegante dos ombros, que ficavam quadrados sob o uniforme cáqui, sugeria uma força que ela não tinha percebido quando o vira imóvel na porta da sua cabine. Ele carregava uma bolsa esportiva no ombro, e ela ficou paralisada ao pensar que ele podia estar prestes a desembarcar.
Sem saber o que estava fazendo, Frances recuou, se encostou na parede e levou a mão ao peito. Escutou os passos dele passando por ela e seguiu pelo corredor. Ele estava logo à sua frente, quando seus passos diminuíram o ritmo.
Prendendo a respiração, Frances percebeu que ele ia parar. Uma fresta da porta foi aberta, seu rosto surgiu a poucos centímetros do dela, e ele sorriu. Era um sorriso sincero, que parecia suavizar o rosto ossudo.
— Você está bem? — perguntou ele.
Ela não tinha palavras para explicar seu esconderijo. Sentiu o rosto corar e ameaçou dizer alguma coisa, mas apenas assentiu.
Ele a olhou com ar interrogatório, depois observou a cesta.
— Isso é o que eu estou pensando? — murmurou, e o som da sua voz deixou Frances arrepiada.
— Ela não está muito bem — explicou. — Achei que precisava de ar fresco.
— Não se esqueça de ficar bem longe do convés D. Estão fazendo todo tipo de inspeções por lá. — Ele olhou para trás, como se quisesse conferir que não havia ninguém mais por perto. — Sinto muito pela sua amiga. Acho que não foi justo.
— Não foi mesmo — concordou ela. — Nada do que aconteceu foi culpa dela. É só uma menina.
— Bem, a Marinha pode ser uma anfitriã implacável. — Ele tocou de leve no braço dela. — Aliás, você está bem? — Ela corou de novo, e ele tentou corrigir a pergunta. — Quer dizer, as outras estão bem? Está tudo certo com vocês?
— Ah, tudo certo.
— Não precisam de nada? Mais água potável? Mais biscoitos?
Havia pequenas rugas no canto dos seus olhos. Quando ele falava, ficavam mais marcadas, consequência de anos em contato com a brisa do mar, ou, talvez, de semicerrar os olhos para observar o céu.
— Vai para algum lugar? — perguntou ela, apontando para a bolsa dele.
Ela precisava de alguma desculpa para desviar os olhos dele.
— Eu? Não… É o meu uniforme de gala.
— Ah.
— Estou de folga esta noite. — Ele sorriu, como se fosse uma boa notícia. — É para o baile.
— Hã?
— Ninguém te contou? Vai ter um baile no convés de voo hoje à noite. Ordem do comandante.
— Ah! — exclamou ela, mais alto do que pretendia. — Ah! Que bom!
— Espero que liberem a água antes. Pelo menos um pouco. — Ele sorriu. — Vocês vão sair correndo se tiverem que aguentar o cheiro de mil marinheiros suados.
Ela baixou os olhos para a calça amassada dele, mas a atenção do fuzileiro já tinha sido desviada para um vulto ao longe.
— Vejo você no baile, então — disse ele, voltando a agir como um fuzileiro.
Com um aceno que mais parecia uma continência, ele se afastou.

* * *

A Banda dos Fuzileiros Navais tinha sido montada em um estrado improvisado bem na saída do refeitório do convés e tocava I’ve got you under my skin. Os motores do Victorious estavam desligados para manutenção, e o navio imóvel flutuava em águas tranquilas. No convés havia centenas de esposas usando seus melhores vestidos… pelo menos os melhores aos quais tinham conseguido acesso.
Elas rodopiavam ao som da música, algumas com homens, e outras, rindo, com as próprias colegas. Ao redor, todas as mesas e cadeiras que haviam sido trazidas do refeitório estavam ocupadas por quem não sabia ou não queria dançar. Acima de todos, no céu indiano, as estrelas brilhavam como luzes de um salão de baile, e davam um tom prata ao oceano.
Com um pouco de imaginação e sem levar em conta as armas, nem o convés manchado ou as mesas e cadeiras bambas, o local poderia ser comparado a qualquer um dos grandes salões de baile da Europa. O comandante sentira uma alegria inexplicável com o espetáculo e, emocionado, dissera a si mesmo que era o mínimo que o velho navio merecia em sua última viagem. Um pouco de pompa e elegância. Um pouco de festa.
Os homens, em seus uniformes de gala, pareciam mais alegres do que nos últimos dias, enquanto as mulheres, antes revoltadas com o fechamento temporário do salão de cabeleireiro, também haviam ficado consideravelmente animadas, graças à instalação de chuveiros de emergência, ainda que com água salgada. Tinha sido uma boa desculpa para todas se arrumarem um pouco mais, pensou ele. Até os homens gostavam de se vestir bem.
Havia gente por todo lado: umas circulavam, enquanto outras se reuniam em pequenos grupos para conversar. Os homens pareciam não se preocupar com a falta de uma estrutura hierárquica definida naquele momento. De que adiantaria?, Highfield perguntou a si mesmo quando uma oficial quis saber se devia colocar em prática uma separação “adequada”. A viagem por si só já era algo extraordinário.
— Quanto tempo o Victorious leva para reabastecer, comandante Highfield?
Ao lado dele estava sentada uma passageira, a que fazia parte do Serviço feminino da Marinha Real do Canadá. Dobson a tinha apresentado meia hora antes. Era pequena, morena e parecia muito séria. Fizera praticamente um interrogatório sobre as especificações do navio, a tal ponto que ele ficara tentado a perguntar se ela era uma espiã a serviço dos japoneses. Mas se contivera. Alguma coisa lhe dizia que ela não tinha muito senso de humor.
— Quer mesmo saber? Acho que eu não conseguiria responder assim de imediato — mentiu ele.
— Levaria um pouco mais de tempo do que seus homens — murmurou o Dr. Duxbury, rindo.
Como agradecimento pela coragem com relação ao problema da água, o comandante Highfield tinha prometido a todos algumas doses extras de rum. Só para esquentar um pouco a noite, dissera ele, e recebera aplausos. No entanto, ele suspeitava que o Dr. Duxbury houvesse dado um jeito de conseguir uma quantidade maior do que a que tinha direito.
De que adiantaria?, pensou de novo. Logo mais ele iria embora. Sua perna doía tanto naquela noite que ele mesmo considerou tomar algumas doses extras.
Se a situação da água fosse diferente, mergulharia a perna em água fria para aliviar um pouco a dor, mas, como isso não era possível, ele se preparava para mais uma noite quase sem dormir.
— Já serviu em muitos navios americanos? — perguntou a pequena integrante da Marinha Real. — Nós nos aproximamos do USS Indiana no golfo Pérsico, e preciso admitir que os navios americanos parecem bem superiores aos nossos.
— Entende muito de navios, não é? — perguntou o Dr. Duxbury.
— Eu deveria, pelo menos — respondeu ela. — Há quatro anos faço parte da Marinha Real.
O Dr. Duxbury pareceu não ter escutado.
— Você parece um pouco Judy Garland. Alguém já disse isso? Chegou a vê-la em Me and my girl?
— Acho que não.
Lá vamos nós de novo, pensou o comandante Highfield. Ele já aguentara a companhia do médico durante vários jantares, e pelo menos a metade deles tinha terminado com o homem cantando suas terríveis canções. Ele falava tanto sobre música e tão pouco sobre medicina que Highfield havia se perguntado se a Marinha não devia ter conferido suas credenciais com mais atenção antes de aceitá-lo a bordo. Apesar da desconfiança, ele não solicitara a presença de um segundo médico, como teria feito em viagens anteriores. Ele se dava conta, com um pouco de peso na consciência, de que a distração de Duxbury era conveniente, pois não queria que um profissional eficiente fizesse muitas perguntas sobre sua perna.
Highfield observou pela última vez as pessoas se divertindo à sua frente. A banda começara a tocar uma música animada e as mulheres gritavam e rodopiavam, com o rosto corado e os pés leves. Depois olhou para Dobson e para o capitão fuzileiro, que conversavam com um piloto perto dos botes salva-vidas.
Seu trabalho estava feito. Eles podiam cuidar de tudo a partir de então. Ele nunca gostara muito de festas mesmo.
— Com licença — disse, levantando-se com dificuldade. — Tenho um assunto para resolver.
Em seguida, voltou para dentro do navio.

* * *

— Jean teria adorado a festa — disse Margaret.
Com um xale fino sobre os ombros e sentada em uma cadeira confortável que Dennis Tims trouxera da praça-d’armas, ela estava radiante. Uma boa noite de sono e a recuperação de Maude Gonne tinham melhorado significativamente seu humor.
— Pobre Jean — lamentou Frances. — O que será que ela está fazendo?
Avice, não muito longe dali, dançava com um dos oficiais de branco. Seu cabelo bem penteado ganhava reflexos cor de mel sob as lâmpadas com filamentos de carbono. Sua cintura elegante e a saia justa rebuscada não deixavam sua gravidez em evidência.
— Não me parece que aquela lá esteja muito preocupada — disse Margaret, balançando a cabeça na direção dela.
Menos de duas horas após a partida de Jean, Avice se apropriara do beliche dela para guardar as roupas e os sapatos que conseguira pegar na mala. Frances tinha ficado tão brava que precisara se esforçar muito para conter o impulso de jogar tudo no chão.
— Qual é o problema? — protestara Avice. — Ela não vai mais usar a cama.
Ela ainda estava comemorando sua vitória naquela tarde na competição de “uso mais inteligente de materiais de artesanato”, que ganhou ao fazer uma bolsa de festa decorada. Não que algum dia ela fosse usá-la para sair à noite, como disse mais tarde às amigas. O importante tinha sido ganhar de Irene Carter. No momento, Avice contava com dois pontos a mais do que ela no concurso de Rainha do Victorious.
— Acho que ela não está preocupada… — retrucou Frances.
— Não vamos mais pensar sobre isso hoje, certo? Não podemos fazer nada.
— Não — disse Frances.
Ela nunca tinha se interessado muito por roupas, e fora um alívio usar uniforme por quase tanto tempo quanto ela conseguia se lembrar. Nunca pretendera chamar a atenção dos outros. Alisou a saia: em comparação com as roupas refinadas das outras mulheres, o vestido que ela antes considerava elegante estava parecendo um trapo. Num impulso, desfizera o coque firme que usava e soltara o cabelo. Depois, ao se olhar no pequeno espelho, constatara que, caindo livremente sobre os ombros, o cabelo suavizava seu rosto. Em meio a mulheres tão elegantes, que gastavam horas passando cremes para pentear e colocando bobes, ela se sentia simples demais, mal produzida, e sonhava com a segurança dos grampos de cabelo. Perguntou a si mesma se poderia confidenciar seus medos a Margaret, a fim de buscar reconforto. Mas ao ver o rosto suado da amiga e seu corpo inchado espremido no mesmo vestido xadrez que usara nos últimos quatro dias, preferiu não comentar nada. Em vez disso, apenas perguntou:
— Quer que eu traga uma bebida para você?
— Ah, querida! Achei que nunca fosse se oferecer — respondeu Margaret, agradecida. — Eu mesma poderia pegar, mas seria preciso usar um guindaste para me içar desta cadeira.
— Vou buscar um refrigerante.
— Deus lhe pague! Não quer dançar?
Frances parou.
— O quê?
— Você sabe que não precisa me fazer companhia. Já sou uma menina crescida. Vá se divertir um pouco.
Frances franziu o nariz.
— Fico mais feliz observando as coisas a distância.
Margaret assentiu e ergueu a mão.
Isso não era totalmente verdade. Naquela noite, protegida pela penumbra, pelo clima tranquilo do local e pela música, que desviava toda a atenção dela, Frances tinha sentido uma vontade cada vez maior de se juntar às mulheres que rodopiavam na pista de dança. Ninguém a julgaria por isso. Ninguém prestaria atenção nela. Todos pareciam aceitar o baile pelo que era: uma diversão inocente, um simples prazer sob o luar.
Ela pegou dois copos de refrigerante e se aproximou de Margaret, que observava as pessoas dançarem.
— Nunca gostei muito de dançar — contou Margaret —, mas vendo tanta gente na pista, agora eu daria qualquer coisa para estar lá.
Frances apontou com a cabeça para a barriga de Margaret.
— Por enquanto, não. Mas daqui a pouco vai poder atravessar metade da Inglaterra dançando foxtrote.
Ela dissera a si mesma que não havia problema se não o visse. Considerando sua aparência, talvez fosse até melhor. Ele devia estar perdido na penumbra, no meio de tanta gente, dançando com alguma garota bonita que usava um lindo vestido colorido e sapatos de cetim. De qualquer jeito, ela estava tão acostumada a afastar os homens que não teria sabido como reagir de forma diferente.
Os únicos bailes que frequentara depois de adulta eram os realizados nas tendas de hospital, e esses tinham sido fáceis. Ela dançava com os colegas, que eram quase sempre velhos amigos e mantinham uma distância educada, ou com pacientes, por quem tinha um sentimento quase maternal e que, em geral, tratavam com respeito quem era da equipe médica. Ela muitas vezes murmurava “Cuidado com a perna!” ou conferia se estavam bem quando passava por algum deles na pista de dança. A enfermeira-chefe, Audrey Marshall, costumava dizer de brincadeira que era como se ela estivesse levando os pacientes para um passeio terapêutico. Por isso, não teria sabido como se comportar diante daqueles homens convencidos, sorridentes, alguns tão bonitos em seus uniformes que a deixavam até sem fôlego. Não saberia o que dizer a eles, muito menos flertar com discrição. Teria sentido muita vergonha do seu vestido azul-claro sem graça, ainda mais em comparação com as roupas maravilhosas daquelas mulheres.
— Olá — disse ele, se sentando ao lado dela. — Eu estava me perguntando onde poderia encontrá-la.
Ela mal conseguia falar. O rosto do fuzileiro parecia suavizado pela noite, e seus olhos escuros estavam fixos nela. Sentiu o cheiro suave de fenol na sua pele, e também o odor característico do tecido do seu uniforme. Ele apoiou a mão na mesa e Frances precisou controlar uma vontade irracional de tocá-la.
— Gostaria de dançar? — perguntou ele.
Ela ficou encarando a mão dele e pensou na possibilidade de ser envolvida pela cintura, de ter o corpo dele próximo, e então foi tomada pelo pânico.
— Não — respondeu, de forma abrupta. — Na verdade, eu… eu estava de saída.
Houve um breve silêncio.
— Está tarde — admitiu ele. — Eu esperava chegar aqui mais cedo, mas tivemos um pequeno incidente lá embaixo nas cozinhas, e alguns homens foram chamados para ajudar a resolver.
— De qualquer jeito, obrigada — disse ela. — Espero que aproveite o resto da noite.
Ela sentia um nó na garganta. Juntou suas coisas, e ele se levantou para deixá-la passar.
— Não vá — pediu Margaret.
Frances se virou.
— Fique. Pelo amor de Deus, garota, você me fez companhia a noite inteira, e agora o mínimo que deve fazer é ficar um pouco na pista de dança. Assim posso ter uma noção do que estou perdendo.
— Margaret, me desculpe, mas…
— Desculpar pelo quê? Ah, Frances, vá logo. Não faz sentido nós duas ficarmos aqui plantadas. Vá mexer as cadeiras. Por Jean.
Ela olhou de volta para o fuzileiro, depois observou o convés lotado, a interminável mistura de roupas brancas e coloridas, sem saber se estava com medo de se juntar à multidão ou de ficar tão perto dele.
— Vá logo, garota — repetiu Margaret.
Ele estava de pé ao seu lado.
— Só uma música — sugeriu, e estendeu o braço. — Será um prazer.
Sem saber se conseguiria falar, ela segurou a mão que ele oferecia.

* * *

Naquela noite, ela não pensaria na impossibilidade de tudo aquilo. Nem no fato de estar sentindo algo que havia muito tempo considerava perigoso sentir. Também não consideraria a consequência inevitavelmente dolorosa daquele sentimento.
Deitada em seu beliche, simplesmente fechou os olhos e se permitiu mergulhar naqueles momentos inesquecíveis: as quatro músicas que dançaram, durante as quais ele a envolvera com firmeza, segurando uma das suas mãos, a outra ao redor da sua cintura; e a última, quando, embora mantivesse a distância respeitosa de alguns centímetros entre os dois, ela sentira a respiração dele em seu pescoço nu.
Ela se lembrou do seu olhar quando a soltara. Teria havido relutância na lentidão com que ele afastara sua mão da dela? Ela magoaria alguém se considerasse que sim? Não houvera uma ênfase estranha na forma que ele tinha baixado a cabeça e murmurado, quase no seu ouvido, um agradecimento?
O que ela sentia por ele a surpreendia e envergonhava. Mas descobrir que tinha capacidade de sentir aquilo a deixou com vontade de cantar. As emoções incontroláveis e confusas que tivera naquela noite a faziam pensar se aquilo não seria o sintoma de algum vírus contraído no mar. Ela nunca se sentira tão exaltada, incapaz de colocar os pensamentos em ordem. Mordeu a mão, tentando conter a incontrolável alegria que crescia dentro dela e ameaçava explodir só Deus sabia de que forma. Forçou-se a respirar fundo e tentou recuperar a calma interior que a reconfortara durante os últimos seis anos.
Tinha sido só uma dança.
— Uma dança — disse, baixinho para si mesma, enquanto cobria a cabeça com o lençol.
Por que não podia ser grata por isso?
Ela ouviu passos, depois vozes masculinas. Tinha alguém falando com o fuzileiro do outro lado da porta, um jovem substituto com cabelo ruivo e olhos sonolentos. Ainda deitada, e ouvindo apenas parte da conversa, ela se perguntou se estava na hora da troca de turnos. Então se sentou.
Era ele. Ela ficou imóvel por mais um minuto, para confirmar que não estava enganada. Em seguida, com o coração acelerado, escorregou para fora do beliche. Pensou em Jean e ficou paralisada. Talvez sua atração por ele a tivesse deixado tão cega que ela não vira o que estava bem à sua frente.
Encostou a orelha na porta.
— O que você acha? — perguntou ele.
— Já faz uma hora — respondeu o outro fuzileiro—, mas acho que você não tem escolha.
— Não estou gostando disso — continuou ele. — Não estou gostando nem um pouco de fazer esse tipo de coisa.
Ela recuou um passo e, no mesmo instante, a maçaneta girou e a porta se abriu sem fazer barulho. Ele espiou pela fresta e seu rosto a fez lembrar dos momentos vividos pouco antes. Mesmo com a pouca luz que vinha do corredor, ele viu que ela estava surpresa e pálida.
— Ouvi vozes — disse ela.
Então se deu conta de que não estava totalmente vestida. Tateou às suas costas para pegar o xale e se enrolou nele, segurando-o com firmeza.
— Desculpe incomodá-la — falou ele em voz baixa porém urgente —, mas houve um acidente lá embaixo. Achei que… Bem, precisamos da sua ajuda.
Quando o baile acabou, havia vários casais não oficiais espalhados por diferentes locais do navio. Um deles tinha se refugiado dentro da escaldante casa de máquinas na parte de trás da embarcação. Lá o marinheiro continuara dançando valsa com uma das passageiras na pequena passarela em cima do motor principal. O relato dos fatos ainda não era muito claro, mas os dois tinham caído no vão onde ficava o motor. O homem estava inconsciente, e a garota sofrera um corte profundo no rosto.
— Não podemos chamar o médico a bordo por motivos óbvios, mas precisamos tirá-los de lá antes da troca de turno. — Ele hesitou. — Pensamos… Pensei que poderia nos ajudar.
Ela abraçou o próprio corpo.
— Desculpe — murmurou. — Não posso ir. Vai ter que encontrar outra pessoa.
— Eu estarei lá. Vou ficar do seu lado.
— Não é esse o problema…
— Não precisa se preocupar, prometo. Todo mundo sabe que você é enfermeira.
Então ela olhou bem no fundo dos seus olhos e entendeu o que ele achou que estava dizendo.
— Não há mais ninguém que possa ajudar — insistiu ele, e consultou o relógio de pulso. — Temos só uns vinte minutos. Por favor, Frances.
Ele nunca a chamara pelo nome. Ela nem imaginava que ele soubesse.
A voz de Margaret cortou a escuridão.
— Eu vou junto. Vou ficar com você. Caso se sinta melhor com mais gente ao seu lado.
Ela estava angustiada por não saber o que fazer, e a proximidade dele a deixava ainda mais indecisa.
— Dê só uma olhada neles, por favor. Se for algo muito sério, então acordamos o médico.
— Vou buscar meu material — disse ela.
Pegou a pequena caixa de metal que guardava embaixo do beliche. Margaret se levantou com esforço do beliche em frente e vestiu um robe que mal fechava na sua barriga. Apertou discretamente o braço de Frances.
— Aonde vocês vão? — perguntou Avice.
Ela puxou o fio que acendia a luz, se sentou, ainda sonolenta, e piscou com a claridade repentina.
— Só tomar um pouco de ar fresco — mentiu Margaret.
— Não nasci ontem.
— Vamos ajudar duas pessoas que se machucaram lá embaixo — explicou Margaret. — Pode ir com a gente, se quiser.
Avice olhou para elas, como se avaliasse se devia ir ou não.
— É o mínimo que você pode fazer — acrescentou Margaret.
Ela deslizou do beliche e vestiu rapidamente seu robe de seda cor de pêssego. Passou pelo fuzileiro, que segurava a porta, com um dedo sobre os lábios, e seguiu as colegas em silêncio pelo corredor que levava à escada.
Atrás delas, o fuzileiro ruivo retomou seu posto, guardando uma cabine onde agora só havia uma cachorrinha dormindo.

* * *

Eles ouviram as vozes antes de vê-los: desceram até as entranhas do navio, a uma profundeza que fez Margaret ter a impressão de que eram intermináveis lances de escada e corredores estreitos, até que, por fim, chegaram à casa de máquinas na parte de trás do navio. Fazia muito calor e ela teve que se esforçar para conseguir acompanhar os outros, mas logo ficou ofegante e muitas vezes precisou secar a testa com a manga. Sentia gosto de petróleo na boca. Depois ouviram um choro estridente em meio a vozes abafadas de homens e mulheres, algumas discutindo, outras consolando. Elas eram sobrepujadas pelo barulho constante de baques abafados e batidas metálicas, o som do coração da fera. Talvez reagindo a esse ruído, Frances acelerou o ritmo e passou quase correndo pelo fuzileiro, seguindo pelo corredor.
Margaret chegou à casa de máquinas alguns segundos depois. Quando finalmente abriu a escotilha, o calor era tão grande que ela precisou parar um pouco para se aclimatar.
Deu alguns passos na passarela e olhou para baixo, seguindo o som. Mais ou menos cinco metros abaixo, no meio de um buraco imenso que parecia um ringue de boxe subterrâneo, havia um marinheiro caído no chão, com as costas na parede, apoiado de um lado por uma garota aos prantos e do outro por um colega. Em um canto, um baralho parecia ter sido abandonado em um caixote, e no chão havia vários copos virados para baixo. No meio do buraco ficava o motor gigantesco, que era um labirinto de canos e válvulas e emitia um som constante e ensurdecedor vindo das enormes peças de metal. A intervalos regulares, as válvulas exalavam jatos de vapor que eram acompanhados por um assobio, culminando numa melodia infernal. No lado oposto, encolhida embaixo da passarela, outra garota chorava, com a lateral do rosto apoiada na mão.
— O que ele vai dizer disso? O que vai pensar de mim?
Mais à frente, com passos silenciosos, Frances saiu correndo pelo piso metálico na direção da escada que levava ao motor. Ela abriu caminho pelas pessoas embriagadas, se ajoelhou e examinou o que havia embaixo do pano sujo e ensopado de sangue que tinha sido enrolado no braço do homem.
Margaret se apoiou no cabo metálico que servia de corrimão. De lá, observou uma das garotas baixar com cuidado a mão que a mulher ferida levara à cabeça e limpar o ferimento descorado com um pano úmido. Vários marinheiros, inquietos e ainda vestindo o uniforme de gala, afastavam imensos cilindros de oxigênio e partes de uma mureta. Em choque, dois deles davam grandes baforadas em seus cigarros. Os canos do motor que percorriam as paredes brilhavam sob a fraca iluminação.
— Ele passou por cima e os cilindros caíram nele — gritou um dos homens.
— Eu não saberia dizer onde o atingiram. Por sorte, não explodiram.
— Há quanto tempo ele está inconsciente? — Para que a escutassem acima do barulho do motor, Frances precisou erguer a voz. — Quem mais se machucou?
A postura tímida dela desaparecera diante da missão que lhe fora designada. Ao seu lado, o fuzileiro, com o colarinho desabotoado, seguia suas instruções e separava os itens do kit de emergência. Ele também gritou ordens para os outros marinheiros, e dois deles correram até a escada, aparentemente contentes em sair dali.
Avice estava na passarela, de costas para a parede. Ela se deu conta, pelo olhar assustado de Margaret, que a colega já percebera que aquele lugar não lhe agradava muito. De repente, pensou em Jean e se perguntou se alguma delas estaria a salvo, considerando a punição que a menina sofreu. Mas ao ver Frances debruçada sobre o homem inconsciente, abrindo suas pálpebras com uma das mãos e com a outra remexendo seus medicamentos, soube que não podia ir embora.
— Ele está recuperando a consciência. Alguém pode segurar sua cabeça de lado, por favor? Qual é seu nome? Kenneth? Kenneth — chamou ela —, pode me dizer onde dói? — Ela escutou a resposta, depois segurou sua mão e puxou cada um dos seus dedos. — Abra os dedos, por favor.
O fuzileiro olhou para onde ela apontava e pegou instrumentos que pareciam ser de sutura. Margaret desviou o olhar. Sob seus pés, a passarela vibrava no ritmo do motor.
— A que horas disseram que seria a troca de turno? — perguntou Avice, nervosa.
— Daqui a quatorze minutos — respondeu Margaret.
Ela não sabia se devia descer e lembrá-los da hora, mas isso de nada adiantaria: os movimentos das pessoas lá embaixo já indicavam urgência.
Nesse instante, ela virou a cabeça porque um homem chamou sua atenção. Estava sentado no chão, em um canto, e Margaret percebeu que fazia vários minutos que ele não desviava os olhos de Frances. Seu olhar fixo era tão estranho que ela imaginou que talvez o robe da amiga revelasse coisa demais. Mas logo entendeu que o olhar dele não tinha nada de indecente, embora também não fosse gentil. Era o olhar de alguém confiante. Constrangida, ela se aproximou de Avice.
— Acho que devemos ir embora — sugeriu Avice.
— Ela não vai demorar — respondeu Margaret.
Mas, no fundo, ela concordava: aquele lugar era horrível. Um pouco como devia ser o inferno, talvez. No entanto, Frances nunca parecera tão à vontade.

* * *

— Desculpe fazer isso com você, Nicol. Eu não podia deixar o sujeito lá. Não naquele estado.
Jones, o galês, puxou o colarinho com um dedo, depois baixou os olhos para as manchas de combustível na calça.
— É a última vez que deixo Duckworth me convencer a me divertir um pouco depois do trabalho. Que idiota! Meu uniforme está arruinado — resmungou, acendendo um cigarro, de olho nos avisos para não fumar colados nas paredes. — De qualquer jeito, meu camarada, estou em dívida com você.
— Acho que é a outra pessoa que você deve — retrucou Nicol, consultando o relógio. — Minha nossa! Temos oito minutos, Frances, antes de tirá-los daqui.
Ao lado dele, no chão, Frances havia acabado de limpar o corte no rosto da garota. Ela tinha parado de chorar e estava pálida, em estado de choque. Nicol suspeitava que a atitude dela era consequência da quantidade de bebida alcoólica que parecia ter ingerido. O cabelo de Frances, molhado de suor, estava grudado no rosto, e seu robe claro de algodão, colado à pele, estava sujo de óleo e graxa.
— Passe a morfina, por favor — pediu ela.
Ele tirou um frasco marrom da maleta. Ela o pegou e, ao mesmo tempo, segurou a mão dele e a colocou sobre o curativo de gaze no rosto da paciente.
— Aperte bem — pediu. — O máximo que conseguir. Alguém precisa dar uma olhada em Kenneth, por favor. E garantir que ele não se sinta enjoado.
Com a destreza adquirida com a experiência, ela tirou a parte de cima do frasco e encheu uma seringa.
— Daqui a pouco vai se sentir melhor — disse para a garota ferida e, enquanto Nicol se afastava para lhe dar um pouco de espaço, ela aproximou a agulha da pele da paciente. — Vou ter que dar pontos — explicou —, mas prometo que serão minúsculos. De todo modo, a maior parte vai ficar escondida sob o cabelo.
Ela assentiu, sem dizer nada.
— Precisa fazer isto aqui? — perguntou Nicol. — Não podemos subir e fazer lá em cima?
— Tem uma oficial patrulhando o convés do hangar — avisou um dos homens.
— Só me deixem acabar meu trabalho — pediu Frances, com frieza. — Vou ser rápida.
Estavam tirando Kenneth dali, se revezando para subir a escada com ele, um gritando para o outro tomar cuidado com a perna dele, com a cabeça.
— Esta sua amiga não vai dizer nada, não é? — Jones coçou a cabeça, observando-os. — Quer dizer, podemos confiar nela?
Nicol assentiu. Frances fizera várias tentativas até conseguir enfiar a agulha. Ele reparou que seus dedos tremiam.
Ele estava quebrando a cabeça para encontrar um jeito de agradecer a ajuda dela, para expressar sua admiração. No baile, enquanto dançavam, ele tinha conseguido fazer a garota tímida e constrangida relaxar e até parecer alegre por alguns instantes. Mas naquelas circunstâncias não a reconhecia. Nunca vira uma mulher tão confiante no seu dever, e ele sabia, com um orgulho que nunca sentira, que estava diante de alguém parecido com ele.
— Quanto tempo? — perguntou Frances.
— Quatro minutos — respondeu Nicol.
Ela balançou a cabeça, como se enfrentasse uma incapacidade particular.
Nicol não conseguia mais raciocinar. No primeiro ponto, uma das amigas da mulher ferida desmaiou, e as colegas de Frances foram encarregadas de tirá-la dali e beliscá-la até que acordasse. A sutura foi interrompida mais uma vez quando dois homens começaram a brigar. Nicol e Jones tiveram que separá-los.
O tempo passava depressa, os ponteiros do relógio não paravam de avançar de um dígito para outro.
Nicol estava de pé, olhando a todo instante para a escotilha, convencido de que, apesar do barulho ensurdecedor do motor, estava ouvindo passos. Então ela se virou para ele, com o rosto sujo e corado por causa do calor.
— Deu tudo certo — disse, dando um breve sorriso. — Acabamos.
— Temos pouco mais de um minuto e meio — informou Nicol. — Vamos, precisamos sair daqui. Deixem tudo como está — gritou ele para os marinheiros que tinham tentado consertar a mureta. — Não temos tempo. Só me ajudem a subir com ela.
Margaret e Avice estavam na passarela acima deles, perto da escotilha. Frances gesticulou para indicar que elas podiam sair. Margaret acenou como se quisesse avisar que iam esperar.
Ele se levantou e estendeu a mão para ajudá-la a ficar de pé. Frances hesitou, depois aceitou a mão dele, afastando o cabelo do rosto. Ele tentou não fixar os olhos no seu robe, que deixava à mostra o contorno elegante do peito. O suor fazia a pele dela brilhar e escorria pelo vão entre os seios como pequenos riachos sujos.
Que Deus me ajude, pensou Nicol. Essa é uma visão que precisarei me esforçar muito para esquecer.
— Você vai precisar manter o local seco — murmurou ela para a garota. — Nada de lavar o cabelo por dois dias.
— Não consigo me lembrar da última vez que lavei mesmo — respondeu ela.
— Espere um pouco — disse Jones, o galês, ao lado de Nicol. — Eu não conheço você?
A princípio, ela achou que ele estava falando com a mulher ferida. Depois, Frances entendeu que ele se dirigia a ela e sua expressão se fechou.
— Você nunca esteve em Morotai — disse Nicol.
— Morotai? Não. — Jones balançou a cabeça. — Não foi lá. Nunca esqueço um rosto. Conheço você de algum lugar.
Nicol percebeu que Frances tinha ficado pálida.
— Acho que não — respondeu ela, em voz baixa, começando a reunir seus equipamentos médicos.
— Siiim… Sim… Sei que vou me lembrar. — Jones balançou a cabeça. — Nunca esqueço um rosto.
Ela se levantou e levou uma das mãos à testa, como se estivesse com dor de cabeça.
— É melhor eu ir — disse para Nicol. — Eles vão ficar bem.
Os dois se entreolharam por apenas um instante.
— Eu acompanho você — disse ele.
— Não — respondeu ela secamente. — Não, vou ficar bem. Obrigada.
Pedaços de curativos e restos do material usado tinham se espalhado embaixo da passarela, mas ela parecia não se importar. Fechou mais o robe ao redor do corpo e seguiu na direção da escada, com a maleta de medicamentos embaixo do braço.
— Ah, não…
Nicol desviou o olhar de Frances para Jones, o galês. O homem a encarava e balançava a cabeça, perplexo. Até que abriu um sorriso perverso.
— O que foi? — perguntou Nicol.
Ele a seguia com o olhar pelo caminho que levava para a escada. Depois pegou o casaco que havia jogado em cima de uma caixa de ferramentas.
— Não… Não pode ser… Nunca… — Jones olhou para trás e de repente encontrou o homem com quem parecia querer falar. — Ei, Duckworth, está pensando no mesmo que eu? Queensland? É isso, não?
Frances chegara ao topo da escada e seguia de cabeça baixa na direção das outras mulheres.
— Agora lembrei! — disse ele, com um forte sotaque cockney. — O bom e velho Rest Easy. Quem diria!
— O que está acontecendo? — perguntou Avice do alto. — Sobre o que ele está falando?
— Não acredito — insistiu Jones, o galês, caindo na gargalhada. — Uma enfermeira! Espere até contarmos para Kenny! Uma enfermeira!
— Que história é essa, Jones? Sobre o que está falando?
Quando se virou para Nicol, o rosto de Jones exibia o mesmo sorriso divertido com o qual ele recebia quase todas as grandes surpresas da vida, fossem doses extras de bebida, vitórias no mar ou trapaças bem-sucedidas em jogos de cartas.
— Sua amiguinha enfermeira, Nicol, era uma puta.
— O quê?
— Duckworth sabe. Nós a encontramos em um clube de Queensland há uns quatro ou cinco anos.
Sua risada, como sua voz, parecia carregar o barulho do motor até os ouvidos dos homens exaustos e das mulheres que passavam abatidas pela passarela. Em reação à exclamação de Jones, algumas pessoas pararam para escutá-lo.
— Não seja ridículo, meu chapa.
Nicol ergueu os olhos para Frances, que estava quase chegando à escotilha. Ela mantinha o olhar fixo à frente, mas depois, talvez quando alguma luta interna invisível chegou ao fim, se permitiu olhar para ele. Ele viu resignação em seus olhos. Descobriu que conseguia manter a frieza.
— Mas ela é casada.
— Com quem? Com o cafetão? Ela era a menina de ouro do chefe, isso sim! E agora olhe só! Dá para acreditar? Ela se tornou uma Florence Nightingale!
Sua risada incrédula acompanhou os passos apressados de Frances até a escotilha e ainda ressoou pelo corredor.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!