30 de março de 2019

Capítulo 13

Bonnie segurava o muffin de banana e nozes no peito como se fosse uma oferenda sagrada. Não conseguia se obrigar a bater à porta de Matt. Em vez disso, voltou os grandes olhos castanhos e suplicantes para Meredith e Elena.
— Ah, Bonnie — murmurou Meredith, passando por ela com a pilha de bagels e a caixa de suco de laranja que carregava e batendo alto à porta.
— Eu não sei o que dizer — sussurrou Bonnie, agoniada.
A porta se abriu e Matt apareceu, de olhos vermelhos e pálido. De certo modo, parecia menor e mais recurvado do que Bonnie já vira. Tomada de pena, ela se esqueceu de ficar nervosa e se atirou em seus braços, deixando o muffin cair.
— Eu sinto tanto — disse ela, sufocada, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Matt a abraçou com força, curvando-se e enterrando a cabeça em seus ombros. — Está tudo bem — falou ela por fim, desesperada, afagando a nuca dele. — Quero dizer, não, não está... claro que não está... Mas nós te amamos, estamos aqui.
— Não pude fazer nada por ele. — A voz de Matt estava abafada, o rosto ainda mergulhado no pescoço de Bonnie. — Tentei o que pude, mas ele morreu assim mesmo.
Elena e Meredith se juntaram a eles, passando os braços por Matt, uma de cada lado.
— A gente sabe — disse Elena, acariciando as costas do amigo. — Você fez tudo que podia.
Matt se desvencilhou dos abraços e gesticulou para o quarto.
— Tudo isto é dele. Os pais ainda não estão preparados para tirar as coisas, foi o que disseram à polícia. Está me matando ver tudo isto aqui e ele não. Pensei em encaixotar para os pais dele, mas é possível que a polícia queira olhar.
Bonnie estremeceu ao pensar pelo que os pais de Christopher deviam estar passando.
— Você precisa comer alguma coisa — disse Meredith. — Aposto que não come há séculos. Talvez te ajude a se sentir melhor.
As três meninas se agitaram, arrumando o café da manhã que tinham levado para Matt e convencendo-o a provar alguma coisa, qualquer coisa. Ele bebeu um pouco do suco e pegou um bagel, de cabeça baixa.
— Fiquei a noite toda na delegacia — disse ele. — Tive que contar várias vezes o que aconteceu.
— Mas o que aconteceu? — perguntou Bonnie, hesitante.
Matt suspirou.
— Bem que eu queria saber. Só vi alguém de preto correndo para longe de Christopher. Eu queria ir atrás, mas Chris precisava da minha ajuda. E depois ele morreu. Eu tentei, mas não pude fazer nada. — Sua testa se vincou. — Mas o que foi realmente estranho — disse ele devagar — é que, embora eu tenha visto uma pessoa correndo, a polícia acha que Christopher foi atacado por um animal. Ele foi... muito dilacerado.
Elena e Meredith trocaram um olhar de alerta.
— Um vampiro? — perguntou Meredith. — Ou um lobisomem, talvez?
— Era o que eu estava me perguntando — admitiu Matt. — Faz sentido. — Sem parecer notar, ele terminou o bagel, e Elena aproveitou a distração dele para colocar uma fruta em seu prato.
Bonnie se abraçou.
— Por quê? Por que é assim? Aonde quer que a gente esteja, sempre acontecem coisas estranhas e apavorantes. Pensei que tudo seria diferente depois que saíssemos de Fell’s Church.
Ninguém a questionou. Por um tempinho, os três ficaram sentados em silêncio, e Bonnie sentiu que eles se aproximavam, tentando se proteger de algo frio e horrível.
Por fim, Meredith estendeu a mão e pegou uma fatia de laranja no prato de Matt.
— A primeira coisa que precisamos fazer, então, é investigar e tentar entender se esses ataques e desaparecimentos são sobrenaturais. — Ela mastigou, pensativa. — Odeio dizer isto, mas talvez tenhamos que colocar Damon nesta. Ele é bom neste tipo de coisa. E Stefan também deve saber o que está havendo. — Ela olhou para Elena, com a voz mansa. — Eu falarei com eles, está bem, Elena?
Elena deu de ombros. Bonnie sabia que ela tentava manter a expressão vaga, mas seus lábios tremiam.
— Claro — respondeu ela depois de um minuto. — Sei que os dois estão verificando tudo, de qualquer modo. Você sabe como eles são paranoicos.
— E não sem motivo — disse Meredith secamente.
Os olhos de Matt estavam úmidos.
— Aconteça o que acontecer, preciso que me prometam uma coisa. Por favor, tenham cuidado. Eu não posso... perder mais ninguém, está bem?
Bonnie se aconchegou mais perto dele, pegando sua mão. Meredith colocou a própria mão sobre a deles e Elena se juntou à pilha.
— Vamos cuidar uns dos outros — disse Elena.
— Um juramento — sugeriu Bonnie, tentando sorrir. — Sempre vamos cuidar uns dos outros. Vamos pensar na segurança de todos.
Neste momento, enquanto eles murmuravam sua aquiescência, Bonnie teve certeza de que podiam fazer isso.


Meredith girou e avançou, levando para baixo o bastão para golpear os joelhos acolchoados de Samantha. Esta se esquivou do golpe e investiu com o próprio bastão em direção à cabeça de Meredith, que bloqueou o golpe e jogou o bastão no peito de Samantha.
Samantha cambaleou e perdeu o equilíbrio.
— Caramba. — Ela esfregou a clavícula e olhou para Meredith com um misto de ressentimento e admiração. — Isto doeu, mesmo com a proteção. Nunca treinei com alguém tão forte.
— Ah, bem... — disse Meredith com modéstia, sentindo-se absurdamente satisfeita. — Eu treino muito.
— Sei. — Samantha a encarou. — Vamos parar um pouco. — Ela arriou no tatame, e Meredith, com o bastão equilibrado de leve na mão, sentou-se ao lado.
É claro que não era o bastão dela, o especial de caçadora. Não podia levar seu bastão de matadora para a academia — era claramente uma arma letal personalizada. Mas havia ficado deliciada ao saber que Samantha lutava com um jo de 1,20m e que tinha um de reserva.
Samantha era rápida, inteligente e feroz, uma das melhores parceiras de treino que Meredith já tivera. Lutando, Meredith conseguia vencer a impotência que sentira no quarto de Matt aquela manhã. Havia algo de tão patético em ver as coisas de Christopher ali, prontas para ele, quando ele nunca mais voltaria. Ela vira um daqueles jardins zen pequenos e estranhos na mesa, a areia muito bem-cuidada. Talvez no dia anterior mesmo Christopher tenha pegado o ancinho mínimo e alisado a areia, e agora nunca mais tocaria nele.
E era culpa dela. Meredith apertou o bastão, embranquecendo os nós dos dedos. Precisava admitir isso. Se tinha o poder de ser uma força potente contra as trevas, uma caçadora e matadora de monstros, também tinha a responsabilidade. Se qualquer coisa aparecesse e matasse alguém em seu território, era por falha e vergonha de Meredith.
Ela precisava se esforçar mais. Treinar mais, sair em patrulha pelo campus, manter as pessoas em segurança.
— Você está bem? — A voz de Samantha interrompeu os pensamentos de Meredith. Sobressaltada, Meredith viu Samantha fitando-a de olhos arregalados, escuros e solenes, percebendo os dentes trincados e os punhos cerrados de Meredith.
— Não inteiramente — disse Meredith de um jeito seco. — Hummm. — Ela achava que precisava explicar aquela amargura. — Soube do que aconteceu na noite passada, o cara que foi assassinado? — Samantha assentiu lentamente, com uma expressão indecifrável. — Bem, ele era colega de quarto de um grande amigo meu. E eu estive com ele hoje, tentando ajudá-lo. Foi... perturbador.
O rosto de Samantha endureceu, e ela se ajoelhou.
— Escute, Meredith, eu te prometo que isso não vai acontecer novamente. Não sob minha vigilância.
— Sob sua vigilância? — perguntou Meredith baixinho. De repente, estava difícil respirar.
— Eu tenho responsabilidades — disse Samantha. Ela baixou os olhos até as mãos. — Vou pegar esse assassino.
— É uma tarefa grandiosa — avisou Meredith. Não era possível, era? Mas Samantha era uma lutadora muito boa, e o que ela estava dizendo... por que achava ser responsabilidade dela deter o assassino? — Por que acha que pode fazer isso? — perguntou.
— Sei que é difícil de acreditar, e eu nem devia contar a você, mas preciso de sua ajuda. — Samantha olhava bem em seus olhos, praticamente vibrando de sinceridade. — Sou uma caçadora. Fui criada para... Eu tenho um encargo sagrado. Toda a minha família, por gerações, combate o mal. Sou a última de nós. Meus pais foram assassinados quando eu tinha 13 anos.
Meredith ofegou, assustada, mas Samantha meneou a cabeça intensamente, desprezando a solidariedade de Meredith.
— Eles não terminaram meu treinamento — continuou ela —, e preciso que me ajude a melhorar, a ficar mais rápida. Ainda não sou forte o suficiente.
Meredith a encarava. Samantha prosseguiu:
— Por favor, Meredith. Sei que parece loucura, mas é verdade. As pessoas dependem de mim.
Incapaz de se conter, Meredith começou a rir.
— Não é uma piada — disse Samantha, levantando-se, de punhos cerrados. — Isso é... Eu não devia ter dito nada.
Ela partiu em direção à porta, as costas retas como as de um soldado.
— Samantha, espere. — Samantha voltou-se para ela com o rosto repleto de fúria.
Meredith tomou fôlego e tentou desesperadamente se lembrar de uma coisa que tinha aprendido quando criança, mas nunca teve oportunidade de usar. Juntando os dedos mínimos, ela uniu os polegares e formou um triângulo, a saudação secreta entre duas caçadoras.
Samantha se limitou a olhar com uma expressão vaga. Meredith se perguntou se teria se lembrado corretamente do sinal. Será que a família de Samantha chegou a ensinar isso a ela? Meredith sabia que havia outras famílias pelo mundo, mas nunca tinha conhecido nenhuma. Seus pais haviam saído da comunidade de caçadores antes de ela nascer.
Então Samantha, movendo-se com a rapidez que tinha quando elas treinavam, foi para diante dela, segurando seus braços.
— Pra valer? — disse Samantha. — Está falando sério?
Meredith assentiu, e Samantha a abraçou com vontade. Seu coração batia com tanta força que Meredith podia senti-lo. De início enrijeceu — não era de expressar carinho fisicamente, apesar de ser grande amiga da loucamente afetuosa Bonnie havia anos —, mas depois relaxou no abraço, sentindo o corpo musculoso e magro de Samantha em seus braços, assim como o dela própria.
Teve uma estranha sensação de familiaridade, como se estivesse perdida e agora encontrasse a verdadeira família. Meredith sabia que nunca poderia dizer nada disso, e parte dela sentia como se estivesse traindo Elena e Bonnie só de pensar assim, mas não podia evitar. Samantha se afastou, sorrindo e lacrimosa, enxugando os olhos e o nariz.
— Eu pareço uma idiota — disse ela. — Mas esta é a melhor coisa que me aconteceu. Juntas, podemos combater isso. — Ela fungou com certa histeria e olhou para Meredith, com os olhos imensos e brilhantes. — Parece que ganhei uma nova melhor amiga — comentou ela.
— Sim — concordou Meredith, sem chorar nem rir, fria como sempre por fora, mas, por dentro, se desfazendo de felicidade. — Sim, acho que tem razão.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!