14 de março de 2019

Capítulo 13


Meu irmão trouxe uma esposa inglesa. Antes de chegar, ela era idealizada como uma mulher linda, perfeita, prestativa e brilhante… Mas quando ela apareceu descobrimos que era feia, suja e tinha o rosto vermelho. Era petulante, preguiçosa, e nunca tinha nada gentil para falar de alguém ou do país… Pessoalmente, considero infeliz o dia em que uma estrangeira atrevida aterrissou na nossa família.
CARTA PARA O JORNAL TRUTH, DE MELBOURNE, EM 1919

VINTE E DOIS DIAS

Querida mamãe,
Esta é uma carta difícil de escrever. Acho que adiei este momento o máximo que pude. Mas é provável que a senhora saiba, sem eu precisar explicar, o que quero contar que fiz, e como tenho convivido com isso desde então. Não estou orgulhosa de mim, mãe. Tentei encontrar todas as razões possíveis para me convencer de que estava fazendo a coisa certa. Mas não sei bem qual de nós duas eu achava que estava protegendo…

Meu amor,
É muito estranho tentar escrever esta carta sabendo que, se tudo correr bem, quando você recebê-la já estaremos nos braços um do outro. Mas a viagem está começando a ficar longa demais, e cada vez me sinto mais desesperada, no meio do oceano, para manter algum contato, para pelo menos falar com você, ainda que não possa me ouvir. Acredito que algumas destas mulheres sejam mais autossuficientes do que eu, que sejam capazes de aguentar sem problema estes dias intermináveis. Porque, para mim, cada minuto que passo sem você é longo demais, e totalmente inútil…

* * *

Às vezes as conversas implícitas no Victorious se tornavam clamorosas. Agora, no meio da viagem, a troca unilateral de correspondência começava a pesar no clima do navio. As jovens esposas reliam suas cartas e escreviam outras, tentando expressar sua ansiedade, confidenciar seus medos à família ou reclamar dos maridos pouco sentimentais. Na cabine 3G, duas delas estavam sentadas lado a lado no beliche, as duas imersas nos próprios pensamentos enquanto suas canetas deslizavam pelo delicado papel de carta fornecido pela Marinha.
Às vezes entrava pela porta entreaberta o ruído de passos, acompanhado por gargalhadas ou conversas cochichadas, que eram pontuadas por discretas exclamações de surpresa. O calor dos dias anteriores diminuíra um pouco graças à chegada de uma tempestade rápida nas primeiras horas da manhã, e as ocupantes das cabines começavam a retomar suas atividades. Várias estavam do lado de fora para aproveitar o ar fresco. E, pelo visto, nenhuma tinha sido ouvida pelas mulheres que permaneceram na cabine 3G e que estavam concentradas em uma conversa unilateral com pessoas muito distantes dos limites do Victorious.

… meu querido, considerando as circunstâncias, parece tolice escrever estas palavras. Então talvez eu as use apenas para dizer como te amo e como estou feliz com o bebê que teremos. Vamos criar nosso filho ou filha juntos, e não separados, como estamos agora, por uma interminável extensão de água. Não consigo imaginar um pai mais maravilhoso para esta criança do que você.
Às vezes nos sentimos tão mal, tão absortos em nossa própria infelicidade, que acaba sendo difícil perceber o que é certo. Mais difícil ainda é fazer o que é certo.
Ainda assim, ontem à noite me dei conta de uma coisa: mesmo depois de tudo o que aconteceu, você nunca teria feito o mesmo que eu. Sei que seria capaz de qualquer coisa para deixar as pessoas felizes. É difícil até escrever isto sem me sentir envergonhada arrependida.

— Avice, você tem um mata-borrão? — perguntou Margaret.
— Aqui — respondeu Avice, esticando o braço para o beliche de baixo. — Pode usar essa folha. Tenho várias.
Ela ajeitou a saia quando voltou a se acomodar na cama e tamborilou distraidamente a mão livre na barriga.

…e é por isso que vou escrever para Letty a fim de contar a verdade. Vou dizer que meu pai, ainda que não consiga amar outra como amou a senhora, merece ter alguém ao lado. Merece que alguém tome conta dele. Finalmente percebi que não preciso manter a imagem perfeita que tenho de vocês dois. Não tenho motivo para não gostar de Letty só porque ela foi apaixonada por ele durante todos esses anos. Só fico triste por ela ter perdido tanto tempo com alguém que sabia que não podia ser seu. E que nem ao menos tentou fazê-lo seu.
Sei que vai concordar comigo, mamãe. Mas acho que Letty, depois de todos esses anos de solidão, merece ser amada.

— Vou subir e me sentar um pouco no convés. Tudo bem se eu deixar Maudie com você?
Avice ergueu os olhos para Margaret, que estava na porta, segurando sua carta finalizada. Ela teve a impressão de que a pele ao redor dos olhos da amiga estava um pouco vermelha. No entanto, pensou, com aquele vestido azul horrível que não tirava havia dez dias e os tornozelos inchados, seus olhos deviam ser a menor de suas preocupações.
— Claro.
— Não deve estar tão desagradável lá em cima, agora que o calor diminuiu um pouco.
Avice assentiu e, assim que a porta se fechou depois que Margaret saiu, recomeçou a escrever.

É muito estranho, e talvez você até ache uma bobagem, mas quer saber de uma coisa, Ian? Eu estava muito nervosa para te contar. Sei que você não é um grande fã de surpresas, mas esta é muito especial, não acha? É claro que seria ótimo termos um pouco de tempo só para nós dois, mas quando o bebê nascer, podemos contratar uma babá e retomar a vida que tínhamos na Austrália, com a única diferença de que teremos um bebê para amar também. Sei que alguns homens reclamam da falta de atenção da esposa quando os filhos nascem, mas posso garantir, meu amor, que NÃO SOU UMA DESSAS. Nenhum bebê vai ficar entre nós. Você ocupa a maior parte do meu coração, e vai continuar sendo assim. O importante é estarmos juntos. Foi isso que você sempre me disse. Carrego estas palavras no coração todos os minutos dos meus dias. O importante é estarmos juntos.
Sua Avice

Ela se deitou no beliche, ouvindo o barulho distante dos motores do navio, o aviso esporádico dado pelo rádio, as vozes estridentes das outras mulheres praticando alguma atividade. Segurou o envelope fechado no peito e se deixou levar pelas lembranças.

* * *

Em circunstâncias normais, eles precisariam deixar o quarto às onze horas, mas era tempo de guerra e, do jeito que as coisas estavam, ela sabia que seria pouco provável que a camareira os perturbasse, mesmo já sendo duas e quinze da tarde.
O hotel Melbourne Flower Garden, como muitos estabelecimentos, ultimamente dava uma incrementada nos negócios permitindo o que era conhecido como “saída tardia”. Tão tardia, na verdade, que, com frequência, os casais nem se preocupavam em ficar mais uma noite no hotel. Era bem possível que muitos não fossem casados, pois por qual outro motivo precisariam de um quarto de hotel? As explicações de que as “esposas” iam à cidade, especialmente para recepcionar os maridos quando os navios chegavam, pareciam pouco convincentes até para os mais ingênuos. Mas com tantos soldados na cidade, e com a situação difícil que enfrentavam, o proprietário do hotel tinha sido esperto o suficiente para agir de forma mais flexível e fechar os olhos para certas coisas, de modo que os dólares continuassem movimentando seu negócio.
Avice calculou o tempo que ainda restava antes que eles tivessem que se levantar e voltar para casa. Se saíssem na próxima hora, talvez pudessem passar no zoológico, e assim ela não precisaria mentir sobre onde estiveram. Sua mãe seria capaz de perguntar algum detalhe específico sobre o tigre-de-sumatra ou algo assim.
Ian estava cochilando, e seu braço pesado a prendia na cama. Ele abriu um olho.
— No que está pensando?
Ela virou a cabeça devagar até os rostos dos dois ficarem a apenas poucos centímetros de distância.
— Estou pensando que talvez não devêssemos ter feito isto antes do casamento.
— Não diga uma coisa dessas, linda. Eu não conseguiria esperar tanto tempo.
— Teria sido muito difícil?
— Meu amor, você sabe que só consegui uma licença de quarenta e oito horas. Não foi muito mais divertido do que escolher flores, damas de honra e não sei mais o quê?
Avice pensou que teria gostado de escolher flores e damas de honra, mas, como não queria estragar aquele momento, deu apenas um sorriso enigmático.
— Nossa, amo você.
Ela sentia as palavras de Ian na própria pele, como se ele estivesse lhe passando minúsculas partículas de si mesmo, inclusive pela respiração. Avice fechou os olhos para saboreá-las melhor.
— Também amo você, querido.
— Não está arrependida? — perguntou ele.
— De me casar com você?
Ela arregalou os olhos.
— De ter feito… você sabe. Não machuquei você?
Tinha machucado, um pouco, sim, se era para falar a verdade. Mas nada que a fizesse ter vontade de parar. Ela corou, chocada com as coisas que acabara fazendo e com a facilidade com que se entregara a ele. Ela sempre soube, pelo que sua mãe lhe dizia, que aquilo era algo que ela precisaria aguentar. A Fera Adormecida, nas palavras da mãe.
“É melhor deixar isso de lado pelo máximo de tempo possível”, aconselhara ela com prudência.
— Você não tem uma ideia errada de mim por… — murmurou ela — … por ter deixado você… — Engoliu em seco. — Quer dizer, acho que eu não deveria ter gostado tanto…
— Ah, minha querida, não! Meu Deus, não, achei maravilhoso você ter gostado. Na verdade, esta é uma das coisas que amo em você, Avice. — Ian a abraçou e murmurou em seu cabelo: — Você é uma mulher sensual. Tem o espírito livre. Não é como as inglesas.
O espírito livre. Ela acreditou nessa nova versão de si mesma, descrita por Ian. Um pouco mais cedo, quando estava nua e envergonhada na frente dele, recebera o elogio que era uma deusa, a pessoa mais encantadora que ele já vira, e mais alguma coisa que a fizera corar. Diante dos olhos do amado, que brilhavam de admiração por ela, Avice decidira fazer uma pose ainda mais encantadora, mais parecida com a de uma deusa, mas, na verdade, ela só tentara pegar seu robe.
Isto deve significar que ele é o homem certo para mim, pensou ela. Ele quer que eu me sinta melhor do que sou.
Na rua, o trânsito estava cada vez mais pesado. Pela janela aberta, ouviram a porta de um carro bater e um homem gritar várias vezes “Davy, Davy”, sem que, aparentemente, alguém ouvisse.
Ela conseguiu soltar as pernas e deslizou o corpo para se apoiar no de Ian. Ainda ficava um pouco chocada ao sentir a pele nua dele na sua.
— Então… você me ama de verdade? De verdade mesmo? — perguntou.
Ele sorriu para ela. Seu cabelo emaranhado se espalhava no travesseiro. Ela se deu conta de que nunca tinha visto um homem tão bonito em toda a sua vida.
— Ainda tem alguma dúvida?
— E nunca faço nada que te deixa chateado ou irritado?
— Nunca — respondeu ele, esticando o braço para pegar um cigarro na mesa de cabeceira. — Isso é impossível.
— E você quer ficar comigo para sempre?
— Mais do que isso. Para toda a eternidade.
Ela respirou fundo.
— Então vou contar uma coisa, mas você não pode ficar bravo comigo.
Ele puxou um cigarro do maço com seus dentes brancos perfeitos e ficou em silêncio. Usou o braço que estava em volta do pescoço de Avice para proteger a chama do fósforo.
— O que é? — perguntou.
Uma suave fumaça azul subiu pelo ar parado ao lado da cabeça de Avice.
— Vamos nos casar.
Ele a encarou por um instante, depois franziu a testa e ergueu os olhos.
— Claro que vamos nos casar, minha patinha.
— Amanhã.
Ela não gostava de lembrar o que acontecera depois. O modo que a expressão de Ian endureceu e seus olhos perderam o afeto. Como a Besta Adormecida de repente ficou ainda mais adormecida.
— O quê?
— Já marquei. Com o juiz de paz. Vamos nos casar amanhã. No cartório de registro civil da Collins Street. Papai, mamãe e Deanna vão e os Henderson aceitaram ser nossas testemunhas. — Como ele não disse nada, ela prosseguiu: — Ah, meu amor, não fique zangado comigo. Eu não suportava a ideia de você ir embora de novo e continuarmos apenas noivos. Como sei que me ama e também te amo, e a única coisa que queremos é ficar juntos, achei que não havia motivo para esperarmos meses e mais meses. E você mesmo garantiu que conseguiria uma licença com seu comandante.
Ian se sentou tão bruscamente que Avice caiu de cabeça no travesseiro. Depois ela se ergueu e se recostou na cabeceira da cama, o lençol cobrindo o peito.
Ian então se inclinou para a frente, ficando de costas para ela. Talvez fosse só sua imaginação, mas Avice percebeu uma assustadora determinação em como ele fumava o cigarro.
— Não, querido — disse ela em tom de brincadeira —, você não vai ficar aborrecido. Não vou aceitar isto.
Ele não se mexeu.
Ela esperou uma eternidade e acabou se deitando de novo. Sua evidente expressão de descontentamento foi desaparecendo aos poucos. Por fim, quando já não aguentava mais, encostou nele. Sob seus dedos, a pele de Ian a fez se lembrar do que aconteceu poucas horas antes.
— Está mesmo chateado comigo?
Ele continuou em silêncio. Apagou o cigarro e se virou para ela, passando a mão no cabelo.
— Não gosto quando você organiza as coisas pelas minhas costas, principalmente algo tão… tão importante quanto isso.
Ela deixou o lençol cair, se aproximou dele e abraçou seu pescoço.
— Desculpe, meu amor — sussurrou Avice, mordiscando a orelha dele. — Achei que você ia ficar feliz.
Isso não era totalmente verdade: desde o agendamento no cartório, ela sabia que o nervosismo e o frio na barriga não eram só pela expectativa do casamento.
— Afinal de contas, é responsabilidade do homem organizar essas coisas. Você me faz sentir… Não sei, Avice. Quem é o homem aqui?
Seu rosto estava sombrio.
— Você! — respondeu ela.
O resto do lençol escorregou do seu corpo e ela passou uma perna por cima dele.
— Não é uma brincadeira, é? Está tudo organizado mesmo? Convidados e todo o resto?
Ela afastou os lábios do pescoço dele.
— Só está combinado com os Henderson. Além da família, é claro. Não é como se eu tivesse organizado uma grande cerimônia sem você saber.
Ele tapou o rosto com a mão.
— Não acredito que fez isso.
— Ah, Ian, querido, por favor, não…
— Não acredito que você…
— Você ainda me quer, não é, amor? — Sua voz, trêmula e com um tom de súplica, sugeria mais dúvidas do que Avice realmente tinha. Nunca passara pela sua cabeça que Ian pudesse mudar de ideia.
— Você sabe que quero… Mas…
— Você quer ter certeza de que é o chefe da família. Claro que é! Você sabe que te considero supimpa! E se houvéssemos tido mais tempo, eu teria esperado o que fosse preciso. Ah, Ian, não fique bravo, querido, por favor. É só porque eu estava louca para me tornar a Sra. Radley.
Ela roçou o nariz no dele e arregalou os olhos azuis na esperança de convencê-lo.
— Ah, Ian, meu amor, amo tanto você.
No início ele não dissera nada, apenas se submetera aos seus beijos, aos seus murmúrios suplicantes, à suave exploração das suas mãos. Depois, pouco a pouco, ela sentiu que ele foi relaxando.
— Só fiz isso porque amo você, querido — sussurrou ela.
Ele reagia aos seus gestos, ela se entregava devagar e sentia que o toque dos corpos revigorava Ian, e enquanto a Besta Adormecida acordava, uma pequena parte dela ficava feliz ao pensar que, por mais difíceis que as coisas às vezes pudessem ser, com inteligência, charme e um pouco de sorte, Avice Pritchard costumava fazer tudo do seu jeito.

* * *

Ele parecera um pouco estranho durante o casamento. Avice sabia que sua mãe tinha reparado nisso. Parecera distraído, se fingindo de surdo quando lhe convinha, havia até roído as unhas (um hábito inadequado para um homem adulto). Considerando que havia apenas oito pessoas, e ele era um oficial da Marinha, ela tinha considerado seu nervosismo um pouco excessivo.
— Não seja boba — dissera o pai dela. — É de se esperar que todo noivo pareça um homem condenado.
A mãe lhe dera um tapa de brincadeira e tentara dar um sorriso tranquilizador.
Deanna ficara de mau humor durante toda a cerimônia. Vestira um conjunto em um tom tão escuro de azul que podia ser considerado preto. Avice reclamara disso com a mãe, que lhe pedira para não criar confusão.
— Para a sua irmã é muito difícil ver você se casando primeiro — sussurrara ela. — Você entende.
Avice entendia. E muito bem.
— Ainda me ama? — perguntara ela para Ian mais tarde.
Seus pais tinham pagado o jantar e uma diária no hotel Melbourne Grand para todos os convidados. A mãe dela havia chorado na mesa. Depois, no momento em que ela e Ian se preparavam para subir para o quarto, ela a chamara num canto para dizer que aquilo, no fim das contas, não era tão ruim, e que talvez ajudasse tomar um ou dois drinques antes. Avice tinha sorrido… e o sorriso tranquilizara a mãe e irritara a irmã. Para Deanna, aquele sorriso queria dizer: “Vou fazer Aquilo. Serei mulher antes de você.” Ela até ficara tentada a contar para a irmã que já tinha feito “aquilo” na noite anterior, mas do jeito que Deanna andava nos últimos tempos, era bem possível que fosse correndo contar para a mãe, que não merecia ouvir isso.
— Ian, você ainda me ama, agora que sou só a maçante Sra. Radley?
Tinham acabado de chegar ao quarto. Ele fechou a porta depois que ela entrou, tomou mais um gole de conhaque e desfez o nó da gravata.
— Amo, sim.
Ian parecia ser ele mesmo de novo. Abraçou Avice e deslizou a mão quente até o alto da sua coxa.
— Sou louco por você, querida.
— Estou perdoada?
Ele já estava com a atenção voltada para outro lugar.
— É claro. — Levou os lábios até o pescoço de Avice e mordeu de leve. — É como eu disse. Só não gosto de surpresas.

* * *

— Acho que tem uma tempestade vindo — disse Jones, o galês, conferindo o barômetro ao lado da porta, depois acendeu mais um cigarro e pareceu estremecer. — Sinto dentro de mim. Com uma pressão dessas, o céu vai acabar explodindo, não acha?
— O que você acha que tivemos hoje de manhã? Uma garoa?
— Você chama aquilo de tempestade? Não passou de uma chuva para molhar bobo. Estou falando em tempestade de verdade, amigos. Tempestade como só uma mulher irritada consegue provocar. Do tipo que deixa o cabelo arrepiado, chicoteia suas costelas e estraga sua calça antes que você consiga dizer: “Calma, querida, só chamei você pelo nome da outra de brincadeira.”
Muitas risadas vieram das redes espalhadas pelo alojamento. Nicol, deitado na sua, interpretou isso como um presságio sinistro do céu que ficava cada vez mais fechado. Jones tinha razão. Uma tempestade se aproximava. Ele estava tenso, inquieto, assim como ficava quando bebia muitas xícaras de café árabe. No mínimo, disse para si mesmo, esse nervosismo era por causa da tempestade se aproximando.
Nicol relembrou aquele rosto pálido, iluminado pelo luar. Não havia nenhum convite no seu olhar, nenhuma insinuação. Ela não era o tipo de mulher que considerava o flerte uma compensação do casamento. Mas havia algo em seu olhar. Algo que o levava a acreditar que existia um acordo entre eles. Uma conexão. Ela o conhecia. Era a sensação que tinha.
— Ah, pelo amor de Deus — disse ele, bem alto, jogando as pernas para fora da rede.
Nicol não tivera a intenção de falar em voz alta e, quando seus pés tocaram o chão, ficou constrangido.
— Qual é o problema, Nicol, meu amor? — perguntou Jones, o galês, largando sua carta. — Alguém apertou demais seu espartilho? Não tem conseguido pegar muita gente praticando infração ultimamente?
O fuzileiro fechou os olhos. Estavam irritados, cheios de areia. Apesar da exaustão, ele não conseguia dormir. Às vezes, o sono o perseguia durante o dia, e ele quase se rendia, mas quando relaxava, a vontade de dormir sumia e ele ficava apenas com aquela imagem sob as pálpebras. E uma ansiedade na alma. Como posso pensar assim?, perguntava-se ele. Logo eu.
— Dor de cabeça — respondeu, esfregando a testa. — Como você disse, é a pressão.
Ele se convencera de que era incapaz de ter sentimentos. Tinha ficado tão abalado com os horrores da guerra, com a perda de tantas pessoas à sua volta que, como tantos homens, se fechara. Agora, forçado a examinar com sinceridade seu comportamento, achava que talvez nunca tivesse amado a esposa, que talvez tivesse se deixado levar pela expectativa, pela ideia de que devia se casar. Ele se sentira obrigado, depois de ela revelar a consequência do que haviam feito. A pessoa se casa, tem filhos, envelhece. Então a esposa começa a reclamar da falta de atenção, você se torna amargo e introvertido pelos sonhos perdidos, os filhos crescem e vão embora, prometendo a si mesmos não cometer os mesmos erros. Não havia espaço para desejar outras coisas, para alternativas.
Você foi em frente com o que tinha. Talvez, ele pensava durante os piores momentos, relutasse em admitir que a guerra o libertara de tudo aquilo.
— Sabe, Nic, os fornalheiros estão falando em dar uma festa esta noite. Agora que está tudo calmo de novo. — Ele bateu na parede ao seu lado. — Devo dizer que seria realmente uma pena se todos esses talentos femininos perdessem a chance de aproveitar um pouco da boa e velha hospitalidade naval. Pensei em dar uma passada mais tarde.
Nicol pegou uma bota e começou a lustrá-la.
— Você é um cachorro — disse.
Jones, o galês, começou a latir de brincadeira.
— Ah, o que há de mal nisso? As que não quiserem provar um pouco do molho galês só podem estar muito apaixonadas por seus maridos. O que é ótimo. As que acham que a brisa do mar abriu… — ele ergueu uma sobrancelha — …o apetite talvez não consigam esperar até o fim da viagem.
— Você não pode fazer uma coisa dessas, Jones. São todas casadas, pelo amor de Deus.
— Tenho certeza de que algumas já estão menos casadas do que no início da viagem. Você ouviu falar sobre o que aconteceu no convés B, não é? E eu estava de guarda no turno intermediário na área externa do convés 6E ontem à noite. Aquela loura é uma ameaça. Não me deixou em paz. Entrava e saía, entrava e saía… “Ah, vou dar um pulinho no banheiro”, dizia ela, com o robe quase aberto. Para mim, os homens são as verdadeiras vítimas nessa história.
Ele piscou várias vezes.
Nicol voltou a lustrar as botas.
— Ah, não me venha com essa, Nicol! Não venha para cima de nós com discurso de homem casado querendo nos julgar. Só porque você é feliz vivendo de acordo com as regras não significa que os outros não possam se divertir um pouco.
— Acho que vocês deviam deixá-las em paz — retrucou ele, tapando os ouvidos para não escutar a vaia que acompanhou suas palavras.
Havia uma crescente falta de respeito pelas mulheres, mesmo entre os homens que ele considerava pessoas de bem, e isso o incomodava.
— Além do mais, acho que você devia se animar um pouco. Nosso amigo Lidders também vai estar lá, não é, meu chapa? Brent e Farthing também. Venha com a gente, assim poderá ver que nos comportamos.
— Estou de serviço.
— Claro que está. Fica sempre encostado na porta daquele quarto ouvindo os suspiros saudosos das mulheres. — Ele riu e se sentou na rede. — Ah, vamos, Nicol. Os fuzileiros também têm direito a um pouco de diversão. Olhe… digamos que você deve considerar isso um serviço que prestamos a elas. O entretenimento das esposas do Império Britânico. Para o bem da nação.
Com uma continência exagerada, Jones voltou a se deitar na rede. Antes que Nicol tivesse tempo de elaborar uma reposta adequada, o colega já estava dormindo, com um cigarro Senior Service aceso entre os dedos.

* * *

Os homens estavam lutando boxe no convés de voo. Alguém tinha montado um ringue onde antes ficavam os aviões Corsair, e ali dentro Dennis Tims acertava vários golpes em um marinheiro que reagia com xingamentos abomináveis. Seu peito nu era um impressionante bloco de músculos vigorosos, e ele se movimentava no ringue sem a menor graciosidade ou ritmo. Parecia um autômato, uma máquina de destruição. Seus punhos desferiram golpes impiedosos até que o pobre marinheiro, que tentava se defender de qualquer jeito, sucumbiu e foi retirado por entre as cordas e arrastado, inconsciente, para longe.
As lutas tinham quatro rounds, e ficava sempre tão óbvio que ele seria o vencedor que os homens e as mulheres ali reunidos não conseguiam ficar entusiasmados e aplaudir.
Frances, que achava difícil assistir às lutas, ficou de costas para o ringue. A visão de Tims golpeando o adversário era uma lembrança muito vívida da noite do “incidente” de Jean. Havia algo na potência dos seus golpes e na contração do seu maxilar quando ele atacava o rosto pálido à sua frente, que a deixava com frio, mesmo com o calor que fazia. Ela havia pensado, quando se sentou com Jean, que talvez fosse melhor se afastarem um pouco para o bem da menina mais nova.
Mas o pouco interesse de Jean na luta deixava claro que ela devia estar bêbada demais naquela noite para saber o que Tims tinha visto e ainda o que algum outro homem havia feito.
— Espero que não fiquem muito exaltados e não incomodem — disse Jean, se encolhendo para conseguir se acomodar ao lado de Margaret. Ela parecia ter dificuldade para ficar quieta: passara a última hora andando de um lado para outro no espaço entre o ringue e as espreguiçadeiras. — Ouviu o que disseram? A água vai acabar.
Margaret olhou para ela.
— O quê?
— Não a água para beber, é a bomba que não está funcionando direito e nos proibiram de lavar qualquer coisa… cabelo, roupa, o que for… até que consertem. Só em caso de emergência. Já imaginou? Com este tempo? — Ela se abanou com a mão. — Posso garantir que há um grande tumulto nos banheiros. A tal da Irene Carter pode até se achar uma dama corretíssima, mas você precisava ouvir o linguajar dela quando parou de cair água do chuveiro. Até Dennis teria ficado vermelho.
Fazia uma semana ou pouco mais que Jean havia recuperado o bom humor, tanto que suas conversas intermináveis e quase sempre inconsequentes tinham recomeçado.
— Você sabia que Avice vai disputar com Irene o concurso de Rainha do Victorious? Hoje à tarde vão escolher a Miss Pernas Mais Bonitas. Avice desceu até o depósito de malas e convenceu a oficial a deixá-la pegar seu melhor par de sapatos, de cetim verde-escuro e com salto de dez centímetros, para combinar com o maiô.
— Nossa!
Tims desferiu um uppercut seguido de um gancho com a esquerda. Depois outro. E mais um.
— Está tudo bem, Maggie?
Enquanto trocava um breve olhar com Jean, Frances entregou a Margaret o sorvete que estava lhe oferecendo há vários segundos e ela não notara.
— Não é nada com o bebê, espero.
— Não, está tudo bem. De verdade — respondeu Margaret, se virando para elas, mas evitando encará-las.
— Ah, Dennis voltou para o ringue. Vou ver se alguém quer apostar comigo. Não imagino que alguém queira apostar contra ele. Não se ele continuar nesse ritmo — disse Jean, levantando-se, depois alisou a saia e pulou por cima dos outros espectadores.
Margaret e Frances continuaram tomando os sorvetes em silêncio. Ao longe, um petroleiro cruzava o horizonte. Elas o acompanharam com o olhar até desaparecer.
— O que é isso?
Margaret olhou para a carta na sua mão e percebeu que o nome do destinatário estava à mostra.
Frances não disse nada, mas havia uma interrogação em seu olhar.
— Você… pretendia jogá-la na água?
Margaret contemplou o mar turquesa.
— Seria… uma coisa boa a fazer. Uma vez, tive um paciente que perdeu sua noiva quando jogaram uma bomba na Alemanha. Ele escreveu para ela uma carta de despedida, depois a colocamos numa garrafa e jogamos pela amurada do navio de assistência hospitalar.
— Eu pretendia mandar pelo correio — disse Margaret.
Frances olhou de novo para o envelope para confirmar que havia lido certo o nome. Depois, perplexa, se virou para Margaret. Atrás dela, as vozes ficaram mais altas, talvez em protesto por algo que acontecera no ringue, mas ela não tirou os olhos da amiga ao seu lado.
— Eu menti — confessou Margaret. — Disse que ela estava morta, mas não está. Ela nos abandonou. Foi embora há quase dois anos e meio.
— Sua mãe?
— Sim. — Ela balançou a carta. — Não sei por que eu trouxe isso para cá.
Então Margaret começou a falar, primeiro em voz baixa, depois mais alto, como se não se preocupasse se mais alguém iria ouvir.
Tinha sido um choque, para dizer o mínimo. Um dia, ao voltarem para casa, eles encontraram o jantar pronto no fogão, as camisas impecavelmente passadas e penduradas, o chão lavado e encerado. E também um bilhete. Ela não aguentava mais, escrevera. Tinha esperado os irmãos de Margaret voltarem da guerra e Daniel completar quatorze anos e se tornar um homem, considerando assim sua missão cumprida. Ela amava toda a família, mas queria aproveitar um pouco a vida, enquanto ainda lhe restava algum tempo. Esperava que entendessem, mas imaginava que não seria fácil.
Ela pedira para Fred Bridgeman levá-la até a estação e então foi embora, carregando apenas uma mala com roupas, quarenta e dois dólares das suas economias, e duas belas fotos dos filhos, que costumavam ficar na sala.
— O Sr. Leader, do guichê da estação, nos disse que ela pegou o trem para Sydney. De lá, pode ter ido para qualquer lugar. A gente achava que ela ia voltar depois de algum tempo. Mas isso nunca aconteceu. Daniel foi quem ficou mais abalado.
Frances segurou a mão de Margaret.
— Mais tarde, imaginei que poderíamos ter notado algum sinal. Mas a gente não presta atenção, não é? As mães são assim, estão sempre exaustas, irritadas. Gritam muito e depois se desculpam. Têm dor de cabeça. Para nós, parecia que ela era parte da mobília.
— Você tem notícias dela?
— Ela escreveu algumas vezes, e meu pai respondeu implorando que voltasse, mas quando viu que não adiantava, parou de escrever. Pensando bem, depois de muito pouco tempo. Ele não suportava pensar que ela não o amava mais. Depois que aceitaram que ela não voltaria, meus irmãos também pararam de escrever. Então… ele… eles… simplesmente passaram a se comportar como se ela tivesse morrido. Era mais fácil do que admitir a verdade. — Margaret fez uma pausa. — Ela só mandou uma carta este ano. Talvez eu seja a lembrança de algo que ela quer esquecer, de uma culpa que não quer sentir. Às vezes, acho que a coisa mais generosa que eu podia fazer seria esquecê-la de vez.
Ela girou o envelope na mão que estava livre.
— Tenho certeza de que ela nunca quis fazer você sofrer — disse Frances, baixinho.
— Mas faz. O tempo todo.
— Você pode entrar em contato com ela. Quer dizer, quando ela souber onde você está, não é mesmo? Talvez ela escreva mais vezes.
— Não são só as cartas.
Margaret jogou o envelope no chão do convés.
Frances resistiu à vontade de segurá-lo, pois não queria que um vento forte o levasse.
— É tudo. É ela… ela e eu.
— Mas ela disse que ama você.
— Você não entende. Sou filha dela, não é?
— Sim… mas…
— Então, o que posso esperar sentir, se a maternidade é tão ruim que minha mãe sempre quis fugir? — Margaret esfregou os olhos com os dedos inchados. — O que fazer, Frances, o que fazer se quando ele nascer… quando este bebê finalmente chegar… eu sentir a mesma coisa?

* * *

O tempo tinha piorado quando eram quase quatro e meia da tarde, assim que as lutas de boxe acabaram… ou que Tims ficou entediado: era difícil dizer qual das opções era a verdadeira. As primeiras grandes gotas de chuva caíram com força no convés, e as mulheres desapareceram no mesmo instante, gritando e se protegendo sob seus chapéus ou revistas dobradas. Depois de guardarem depressa seus pertences nas bolsas, saíram em disparada, feito formigas, para os conveses inferiores.
Margaret tinha corrido para a cabine para conferir se a cachorrinha continuava lá. Frances e Jean foram para o refeitório do convés, de onde ficaram observando a chuva escorrer pelas janelas cheias de sal e se infiltrar nas vigas enferrujadas. Poucas mulheres tinham preferido continuar no convés, mesmo sob o relativo abrigo do refeitório: uma tempestade no mar era bem diferente de uma em terra firme. Com uma visibilidade de trezentos e sessenta graus e sem nada entre a vida humana e a imensidão cinza do mar revolto, com implacáveis e ameaçadoras nuvens vindo do sul, qualquer um se sentia desprotegido.
Margaret parecera um pouco melhor depois de ter desabafado. Ela havia chorado um pouco e colocado a culpa no bebê, mas depois, sorridente, se desculpara várias vezes. Frances se sentira impotente. Ela gostaria de ter contado um pouco sobre a sua família, mas isso a teria obrigado a explicar alguns detalhes que não estava preparada para contar, nem mesmo para Margaret. A amizade com as outras meninas se tornara algo muito importante para ela, o que a deixava vulnerável. Mas também lhe dava um pressentimento ruim. Ela brincou com a colher de metal na xícara vazia, enquanto ouvia o navio rangendo e as chapas de aço batendo umas nas outras como falhas sísmicas antes de um terremoto. Do lado de fora, as amarras batiam, inconsoláveis, e a chuva corria como um rio pelo convés.
Onde será que ele está agora?, perguntou-se ela. Dormindo? Sonhando com os filhos? Com a esposa? Do mesmo modo que a amizade de Margaret trouxera novas emoções à sua vida, os pensamentos sobre a família do fuzileiro provocavam nela um sentimento que a enchia de vergonha.
Ela tinha ciúmes. A primeira vez que sentiu isso foi na noite em que Margaret falou com Joe pelo rádio. A conversa dos dois, o rosto iluminado de Margaret diante da perspectiva de poder falar um pouco com o marido, fizeram Frances perceber o grande vazio que havia na sua vida. Ela sentira uma tristeza que nem a visão do oceano conseguia amenizar. Agora, a sensação de perda era acentuada ao imaginar o fuzileiro e sua família. No início, ela o considerara um amigo, uma alma gêmea. Muito mais do que poderia esperar de um homem. Agora, essa sensação se misturava a outra, que ela não conseguia identificar, uma incômoda impressão de separação.
Ela pensou no marido, “Chalkie” Mackenzie. O que sentira por ele quando o conhecera tinha sido bem diferente. Largou a colher e se forçou a olhar para as outras mulheres. Não vou fazer uma coisa dessas, prometeu a si mesma. Não faz sentido almejar o que não se pode ter, o que nunca foi capaz de conseguir.
Obrigou--se a pensar no início da viagem, quando a simples perspectiva da travessia era suficiente. Ela estava feliz naquela época, não estava?
— O cozinheiro disse que não vai ser uma tempestade muito forte — informou Jean ao voltar para a mesa com duas xícaras de chá. Parecia quase decepcionada. — Pelo visto, não deve ficar pior do que está. Que pena. Não me incomodei com todo aquele balanço quando atravessamos a baía. Pelo menos depois que parei de vomitar até a alma. De qualquer jeito, ele disse que é provável que o tempo esteja ruim quando chegarmos ao outro lado do Canal de Suez.
Frances começava a se acostumar com esse entusiasmo perverso de Jean.
— Não deve ter muitas outras passageiras rezando por mau tempo.
— Eu estou. Quero uma tempestade como nunca se viu. Uma que eu possa contar para Stan. Bem, sei que não vamos sentir muito em um navio grande como este, mas gostaria de me sentar aqui e apreciar o espetáculo. Ter um pouco de emoção, sabe? Como no cinema, só que real. Na minha opinião, está ficando tudo muito chato por aqui.
Frances olhou pela janela. Ao longe, relâmpagos iluminavam o céu. A chuva estava mais pesada e martelava o teto metálico com tanta força que as mulheres precisavam erguer a voz para serem ouvidas. Do outro lado do refeitório, várias delas apontavam na direção do horizonte distante.
— Ah, vamos, Frances. Você também gosta de um pouco de emoção, não é? Olhe só aquele raio! E você ainda diz que isso não te deixa… você sabe. — Jean se remexeu no banco. — Olhe!
Apenas por um instante, Frances se permitiu ver a tempestade do mesmo modo que Jean. Deixou que a energia da natureza a invadisse, a iluminasse, devolvesse seu entusiasmo. Mas os hábitos adquiridos ao longo dos anos eram muito fortes, e quando ela se virou para Jean, sua expressão estava mais uma vez tranquila e calculada.
— É melhor você ter cuidado com o que deseja — disse ela.
Mas Jean continuou com os olhos fixos na tempestade ao longe.

* * *

Elas estavam de saída, paradas lado a lado na porta do refeitório, esperando apenas que a chuva diminuísse um pouco para correr até a escotilha que levava às cabines do convés inferior, quando o marinheiro chegou. Encharcado depois do pequeno percurso no convés, ele empurrou a porta, trazendo consigo uma lufada de ar fresco e úmido.
— Estou procurando Jean Castleforth — disse ele, lendo um pedaço de papel.
Sua voz tinha um tom severo.
— Sou eu. — Jean segurou o braço do homem. — Por quê?
O rosto do marinheiro estava impassível.
— A senhora foi chamada ao escritório do comandante.
Então, como Jean não se mexeu e continuou séria, ele se dirigiu a Frances, como se a outra jovem não estivesse mais ali:
— É uma das garotas mais novas, não é? Disseram que seria melhor alguém acompanhá-la.
Essas palavras impediram quaisquer outras perguntas. Ele as conduziu pelo que mais tarde Frances considerou ter sido o mais longo pequeno percurso da sua vida. Sem se preocupar com a chuva, atravessaram depressa o convés do hangar, passaram pelo depósito de munição e subiram a escada até chegar a uma porta.
O marinheiro bateu com força. Quando ouviu “Entre”, abriu a porta e recuou, com o braço estendido, para que elas passassem. Em algum momento durante a caminhada, Jean pegara a mão de Frances e a segurava com força.
A sala, com janelas em três lados, era muito mais clara do que o corredor estreito, o que fez elas piscarem várias vezes. As silhuetas de três pessoas se destacavam em uma das janelas, e duas estavam de frente para elas.
Distraidamente, Frances reparou que ali tinha um carpete no chão, ao contrário do resto do navio.
Um pouco inquieta, viu que o capelão também estava presente. Depois reconheceu a oficial que estivera com elas naquela noite na casa de máquinas. A temperatura parecia ter caído e ela ficou arrepiada.
Os olhos de Jean percorreram os rostos sombrios à sua frente. Seu corpo inteiro tremia.
— Aconteceu alguma coisa com ele, é isso? Ai, meu Deus, vocês querem me contar que aconteceu alguma coisa com ele. Ele está bem? Digam, ele está bem?
O comandante trocou um rápido olhar com o capelão, se aproximou e entregou um telegrama a Jean.
— Sinto muito, minha querida — disse ele.
Jean pegou o telegrama e ergueu os olhos para o comandante.
— M… H… Isto é um H? — Ela traçou as letras com o dedo. — A? Pode ler para mim?
Empurrou o telegrama para Frances. Sua mão tremia tanto que era possível ouvir o som do papel balançando.
Frances o pegou com a mão esquerda e continuou segurando a de Jean com a direita. A jovem a apertava com tanta força que o sangue ficou concentrado na ponta dos seus dedos.
Ela deu uma olhada no conteúdo do telegrama um segundo antes de lê-lo em voz alta. As palavras saíram da sua boca tão pesadas quanto pedras.
— Fui informado sobre o seu comportamento a bordo. Não há futuro para nós. — Ela engoliu em seco. — Você não é bem-vinda, não venha.
Jean olhou para o telegrama, depois para Frances.
— O quê? — perguntou, no silêncio da sala. Depois pediu: — Leia de novo.
Frances queria que a repetição daquelas palavras pudesse de algum modo atenuar seu impacto.
— Não estou entendendo — disse Jean.
— As notícias correm pelos navios — explicou a oficial, em voz baixa. — Alguém deve ter contado para o pessoal de outra embarcação quando atracamos no Ceilão.
— Mas ninguém sabia. Só vocês…
— Quando falamos com os superiores do seu marido para averiguar a autenticidade do telegrama, disseram que ele ficou muito perturbado com a notícia da sua gravidez. — Ela fez uma pausa. — Parece que, de acordo com as datas que você informou, ele acha que é impossível ser o pai.
Frances achou que a mulher falou com muita crueldade, como se estivesse feliz por encontrar mais um chicote para açoitar Jean. Como se o telegrama não bastasse para causar um grande estrago.
Jean estava muito pálida.
— Mas não estou grávida… Foi…
— Acredito que, dadas as circunstâncias, ele considere isso irrelevante.
— Nem tive a chance de explicar para ele. Preciso falar com meu marido. Ele entendeu tudo errado.
Frances deu um passo à frente.
— Não foi culpa dela. Podem acreditar. Foi um mal-entendido.
Pela expressão da oficial, ela devia ter escutado a mesma desculpa várias vezes. Os homens apenas pareciam constrangidos.
— Sinto muito — disse o comandante. — Falamos com a Cruz Vermelha e todas as providências serão tomadas para garantir seu retorno à Austrália. A senhora vai desembarcar em…
Jean, com os punhos cerrados e a ferocidade de um furacão, partiu para cima da oficial.
— Sua sirigaita! Sua sirigaita maldita! — Antes que Frances pudesse contê-la, ela já tinha desferido vários golpes na cabeça da mulher. — Sua puta velha vingativa! Só fez isso porque não arranja nenhum homem que te queira! — esbravejou. Parecia não perceber que homens tentavam puxá-la, que Frances suplicava para ela parar. — Nunca fiz nada errado! — gritou, as lágrimas escorrendo pelas bochechas, enquanto Frances e o capelão a continham com os rostos vermelhos pelo esforço. — Nunca fiz nada errado! Vocês precisam dizer isso para Stan!
O ar parecia ter sido sugado da sala. Até o comandante passava a impressão de estar chocado. Ele, inclusive, tinha recuado alguns passos.
— Devo levá-las de volta, comandante?
Frances viu que o marinheiro tinha entrado na sala. Jean havia se acalmado um pouco. O comandante assentiu.
— Sim, seria o melhor a fazer. Vou pedir para alguém falar com ela para acertar os… detalhes… mais tarde. Quando as coisas estiverem… mais tranquilas.
— Senhor — disse Frances, ofegante e envolvendo Jean, que tremia sem parar. — Com todo o respeito, o senhor prestou um enorme desserviço. — Balançou a cabeça, revoltada com a injustiça da situação. — Ela é quem foi a vítima nessa história.
— A senhora é enfermeira, e não advogada — retrucou a oficial, em tom ríspido e com a mão na cabeça machucada. — Eu vi. Ou se esqueceu disso?
Era tarde demais. Enquanto Frances conduzia Jean para fora do escritório do comandante, apoiada… ou talvez contida… do outro lado pelo marinheiro, ainda ouvia a oficial, apesar do choro da amiga.
— Não posso dizer que isso me surpreenda — dizia ela, com um tom de voz maldoso e tentando se justificar. — Já tinham me falado, antes da nossa partida. Prevenido, eu devia dizer. Essas australianas são todas iguais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!