30 de março de 2019

Capítulo 12


— Bom treino — disse Christopher, parando ao lado de Matt enquanto ele ia para o vestiário. — Você se desloca bem pra caramba, cara.
— Obrigado — agradeceu Matt, desviando os olhos dos sapatos que estava calçando. — Você também esteve muito bem. — Ele sabia que Christopher seria um bom colega de time, o tipo de cara que fazia seu trabalho e se concentrava na situação como um todo, ajudando o restante da equipe. Também era um ótimo colega de quarto, generoso e descontraído. Nem mesmo roncava.
— Vamos deixar o salão de jantar pra lá e pedir uma pizza? — perguntou Christopher. — Esta é a minha noite de derrotar você no Guitar Hero... Estou sentindo isso.
Matt riu. Nas duas semanas em que estavam morando juntos, ele e Christopher tinham jogado todos os jogos do Wii que Christopher trouxera para a faculdade.
— Tudo bem, eu te vejo no quarto.
Christopher lhe deu um tapa nas costas, com um largo sorriso. Depois que saiu, Matt não teve pressa para pegar suas coisas, deixando que os outros saíssem do vestiário antes dele. Queria andar até o alojamento sozinho esta noite. Eles eram um grupo bom, mas ele estava dolorido e cansado. Com os treinos de futebol e as atividades de aspirante da Vitale Society, ele nunca tinha malhado tanto. Era bom.
Ele se sentia bem. Mesmo as atividades mais idiotas da Vitale — e algumas eram muito idiotas: outra noite, tiveram de trabalhar em equipe para construir casas de jornal — eram meio divertidas, porque ele estava conhecendo algumas pessoas incríveis. Ethan tinha razão. Como grupo, os aspirantes eram inteligentes, determinados, talentosos, tudo que se esperava. E Matt era um deles.
As aulas também eram interessantes. Na escola, ele tirava notas razoáveis, mas fazia basicamente apenas o necessário para passar. A Guerra Civil, geometria, química, O sol é para todos: todo o trabalho escolar de certo modo se misturava ao fundo de sua vida real de amigos e esportes.
Parte do que ele fazia na Dalcrest era parecido, mas na maioria das aulas ele começava a ver ligações entre as coisas. Ele estava adquirindo a noção de que história, línguas, ciência e literatura faziam parte do mesmo todo — como as pessoas pensavam e as histórias que contavam —, e isso era muito interessante.
Era possível, pensou Matt, com um sorriso um tanto irônico, que ele estivesse “florescendo” na faculdade, como previu o orientador educacional do ensino médio?
Ainda não havia escurecido inteiramente, mas estava ficando tarde. Matt acelerou o passo, pensando na pizza.
Não havia muita gente andando pelo campus. Matt imaginou que estavam no refeitório ou entocados em seus quartos, com medo. Mas ele não estava preocupado. Deduziu que havia muitos alvos mais vulneráveis do que um jogador de futebol americano.
Uma brisa começou, agitando os galhos das árvores no pátio e trazendo o cheiro de grama até Matt. Ainda parecia verão. Nos arbustos, alguns vaga-lumes de início da noite piscavam. Ele mexeu os ombros, curtindo o alongamento depois de um longo treino.
Mais à frente, alguém gritou. Um homem, pensou Matt. O grito cessou de repente.
Antes mesmo que pudesse pensar, Matt correu em direção ao grito. Seu coração martelava, e ele tentou obrigar as pernas cansadas a correr mais rápido. Era um som de puro pânico, pensou Matt. Ele aprumou os ouvidos, mas não escutou nada além da própria respiração entrecortada.
Ao se aproximar da reitoria, uma figura escura que estivera recurvada sobre alguma coisa na grama saiu correndo, as longas pernas magras disparando. Movimentava-se com rapidez, e seu rosto estava inteiramente escondido por um capuz. Matt não conseguiu ver se era homem ou mulher.
Ele se desviou para correr atrás da figura de preto, mas foi detido de repente pela forma na grama.
Não era só uma forma. Por um momento, a mente de Matt se recusou a processar o que via. O vermelho e dourado de uma camisa de futebol. Um fluido espesso se espalhando em volta dela. Um rosto conhecido.
E tudo entrou em foco de repente. Ele se ajoelhou.
— Christopher. Ah, não, Christopher.
Havia sangue para todo lado. Matt tateou freneticamente o peito do garoto, procurando onde fazer pressão para tentar estancar o sangramento. Em toda parte, em toda parte, está saindo de todo lado. Todo o corpo de Christopher se sacudia, e Matt apertou as mãos contra a camisa de futebol ensopada para tentar mantê-lo parado. O sangue fresco escorria em espessos jarros carmim contra o vermelho vivo do tecido da camisa.
— Christopher, cara, aguente firme, vai ficar tudo bem. Você vai ficar bem. — Matt sacou o telefone para chamar a emergência. As mãos estavam cobertas de sangue, e o telefone estava escorregadio quando ele o levou à orelha.
— Por favor — disse ele com a voz trêmula. — Estou na Dalcrest College, perto da reitoria. Meu colega de quarto... alguém atacou meu colega de quarto. Ele está sangrando muito. Não está consciente. — O atendente da emergência começou a fazer algumas perguntas, e Matt tentou manter o foco.
De repente, Christopher abriu os olhos, tomando uma golfada de ar.
— Christopher — disse Matt, largando o celular. — Chris, estão mandando uma ambulância, aguente firme.
O tremor piorou, os braços e pernas de Christopher vibravam num ritmo acelerado. Seus olhos se fixaram no rosto de Matt e a boca se abriu.
— Chris — disse Matt, tentando mantê-lo deitado, tentando ser gentil. — Quem fez isto? Quem te atacou?
Christopher ofegou novamente, um espasmo rouco de deglutição. O tremor parou e ele ficou imóvel. Suas pálpebras se fecharam sobre os olhos.
— Chris, por favor, aguente — implorou Matt. — Eles estão chegando. Vão te ajudar. — Ele pegou Christopher, balançando-o um pouco, mas Christopher não se mexia, nem respirava.
Sirenes soaram ao longe, mas Matt sabia que a ambulância estava chegando tarde demais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!