14 de março de 2019

Capítulo 12

O navio entrou em contato com Londres por telefone! A comunicação foi feita por ondas de rádio até Sydney. O rádio receptor em Sydney foi ligado a um microfone conectado com a linha telefônica Londres-Sydney… É um enorme avanço no mundo das comunicações e promete grandes coisas para o futuro.
EXTRAÍDO DO DIÁRIO PARTICULAR DO ASPIRANTE DA MARINHA HENRY STAMPER,13 DE JANEIRO DE 1946, POR CORTESIA DE MARGARET STAMPER

VINTE E UM DIAS

Aquilo nunca tinha acontecido. Com certeza jamais fora a intenção dela. Mas Frances foi forçada a admitir que estava se apaixonando.
Toda noite ela dizia a si mesma que precisava se manter afastada, que aquilo não lhe faria bem, que seu comportamento poderia comprometer a viagem.
Apesar disso, todas as noites ela saía pela porta de metal da cabine, sem oferecer maiores explicações às colegas. Depois de dar uma rápida olhada em ambos os lados do corredor, passava apressada pelas outras cabines, subia com cautela a escada e atravessava o convés do hangar até chegar à pesada escotilha de aço que dava acesso ao convés de voo.
Mais tarde, ao repensar o assunto, ela percebeu que parte do que sentia era porque todos ali tinham se acostumado uns com os outros: com os marinheiros e as mulheres, e também com as rotinas do navio, o ambiente marcado pela saudade, pela espera e pela incerteza. Ela mesma se habituara a não ter um objetivo ao se levantar de manhã, e talvez tivesse perdido um pouco da vivacidade que carregara consigo durante anos, como uma armadura. Sentia-se mais à vontade rodeada por outras pessoas. Talvez até arriscasse dizer que gostava de algumas. Era difícil não se encantar por alguém como Margaret.
Mas o que ela realmente amava era o navio: seu tamanho, como um leviatã, certamente grande demais para ter sido criado apenas por homens, impulsionado por uma força épica através dos mares mais agitados. Amava suas cicatrizes, as marcas de ferrugem que, apesar dos anos de pintura e repintura, continuavam visíveis e evidenciavam o tempo passado no mar. Frances amava o espaço infinito visível ao seu redor, a sensação do incontestável movimento para oeste. Amava a sensação que tinha de que o navio também estabelecia uma cumplicidade com ela. E amava as milhas náuticas que a embarcação abria entre ela e seu passado enquanto deslizava na água.
Se não estivesse muito frio à noite, ela passava horas sentada no convés de voo, lendo um livro ou uma revista, erguendo os olhos de vez em quando para se certificar de que não seria surpreendida pelo marinheiro de guarda no passadiço.
Com a atenção voltada para o mar, ninguém reparava nela. No momento, fazia um pouco mais de calor, e o convés oferecia um delicioso alívio. Ela havia encontrado seu local preferido debaixo de um dos aviões, onde curtia sozinha a brisa suave, o som incessante das ondas batendo no casco e o gosto de sal nos lábios rachados. Adorava o fato de conseguir ver o céu mudando de humor a quilômetros dali, uma tempestade longínqua surgindo, que parecia ter a força reduzida pela distância. E ainda havia os pores do sol com seus tons de laranja e azul que se misturavam no horizonte até se tornar impossível distinguir onde acabava o céu e começava o mar.
Às vezes, se estivesse com sorte, ela via um cardume de golfinhos e ria da alegria dos seus movimentos. A impressão que dava era de que havia cumplicidade entre eles e o navio, evidente em como olhavam para ele, como nadavam ao lado do casco em perfeita harmonia. Mas ela passava a maior parte do tempo recostada em uma das rodas do avião, o chapéu de abas largas jogado para trás, os olhos fixos no céu. Um céu livre de aviões inimigos, de mísseis malignos e silenciosos, de gritos dos feridos. Livre do julgamento daqueles que achavam que a conheciam. Não havia mais nada entre ela e seu destino, nem montanhas, nem árvores, nem prédios. Muito menos pessoas.
De noite, sozinha, ela conseguia ignorar por um instante tanto o passado quanto o futuro. Podia simplesmente se sentar sem pensar em nada, consolada pelo fato de que ali conseguia ser apenas Frances… Algo minúsculo e insignificante entre o céu, o mar e as estrelas.

* * *

— Então, como está seu navio de esposas?
O navio de guerra Alexandra foi a primeira embarcação inglesa pela qual o Victorious passou dentro da distância que o rádio abrangia desde que haviam saído de Sydney. No entanto, Highfield recebera o telefonema do comandante Edward Baxter com menos entusiasmo do que demonstraria em outras circunstâncias, pois estava um pouco apreensivo com a forma que ocorreriam as conversas e trocas de informações.
— Como é a prática de esportes? Dobson me contou que vocês estão permitindo que as mulheres saiam para se exercitar um pouco. Ou estou imaginando outra coisa?
Highfield fechou os olhos e ouviu o ruído distante das risadas.
Apesar do grande esforço de todos, depois de algum tempo ficou claro que não dava para considerar as práticas de esporte um sucesso incontestável. Apesar do mar cristalino e tranquilo pelo qual o Victorious deslizava com tanta suavidade que, inclusive, daria para equilibrar uma moeda na proa até quase chegar a Trincomalee, a prática de hóquei no convés precisou ser abandonada depois que os discos passaram por cima da amurada em três partidas consecutivas. O mesmo tinha acontecido com o bastão em uma corrida de revezamento, o que fez a culpada pelo erro se debulhar em lágrimas por causa das vaias e dos insultos que recebeu. Outra havia ralado as pernas quando não conseguiu parar a tempo e acabou deslizando perigosamente pelo convés até ser contida no último instante.
Os oficiais chegaram à conclusão de que aquelas mulheres não tinham as habilidades específicas necessárias para a prática de esportes nos limites de um navio, mesmo um tão grande quanto o Victorious.
As oficiais, cada vez mais impacientes com o calor, tentaram expandir a área de jogos até onde ficavam as aeronaves. Mas ficou provado que era impossível fazer com segurança corrida de carrinho de mão ou corrida do saco ao redor dos aviões. Mesmo quando elas ficavam suspensas no guindaste do passadiço e o pessoal do convés, sempre assobiando para elas, as fazia rodar ou balançar, mas, desacostumadas, elas se chocavam com frequência nas asas ou nas hélices. A ausência de monta-cargas não permitia que os aviões fossem transferidos para outro lugar. Enquanto isso, o navio seguia seu curso pelo oceano Índico e enfrentava uma forte onda de calor. O imenso convés de voo absorvia o calor do sol, o que enchia os pés das pessoas de bolhas. Muitas diziam que o chão estava quente demais para correr e que a água saía morna dos bebedouros. Durante a tarde, as competidoras se afastavam alegando exaustão, queimadura de sol ou dor de cabeça. A temperatura sufocante nas cabines as impedia de dormir bem, o que as deixava irritadas. Além disso, duas mulheres (uma, infelizmente, fundadora do Clube Bíblico das Esposas) tinham ajudado a levar para a enfermaria uma amiga que torcera o tornozelo. Lá, encontraram o Dr. Duxbury fedendo a álcool e lendo um material que, se ele estivesse em condições de dizer alguma coisa, teria defendido, na melhor das hipóteses, como sendo um “informativo médico”.
Deixando o tornozelo machucado de lado, as garotas, trêmulas, saíram correndo atrás do responsável pela Cruz Vermelha no navio para registrar uma queixa formal.
— Pensei que fosse importante estar bem informado sobre todos os aspectos da anatomia feminina — explicou o Dr. Duxbury ao comandante Highfield.
— Não acho que Vedetes de Hollywood seja o livro de biologia que nossas passageiras tinham em mente — retrucou o comandante.
Decidiu que, por menos ortodoxo que fosse, seria melhor que ele mesmo guardasse as chaves da enfermaria, para que tivessem um futuro previsível.
Em outra ocasião, duas mulheres começaram a se socar por causa da brincadeira do ovo na colher (o que não fazia sentido, pois todos os ovos eram de madeira). A corrida em que uma participante carregava a outra na garupa também acabou em briga quando uma delas acusou um marinheiro de levantar sua saia. As atividades esportivas acabaram oficialmente naquele dia.
— Acho que o que todos querem saber é como está seu consumo de água.
— Ótimo — respondeu Highfield, lembrando-se do relatório que recebera naquela manhã.
Eles tiveram problema com uma das unidades de dessalinização, mas o mecânico responsável informara que o funcionamento já estava normalizado.
Baxter falava alto demais, como se tivesse certeza de que outras pessoas além de Highfield o escutavam.
— Ouvimos boatos de que montaram um salão de cabeleireiro, e estávamos nos perguntando como você ficou depois de passar xampu e fazer um penteado…
O comandante do Alexandra deu uma gargalhada, e Highfield teve a impressão de escutar mais uma risada atrás da dele.
Estava sozinho na sala de meteorologia, que ficava logo acima do convés ensolarado, e sua perna latejara sem parar o dia inteiro. Quando a dor começou ele teve uma vaga sensação de ter sido traído. Durante vários dias praticamente não havia sido incomodado, e quase se convencera de que ficaria curado sem precisar de intervenção médica.
— Falei com Dobson pouco antes de transferirem a ligação para você. Ele disse que as australianas estão provocando um verdadeiro rebuliço.
— O que quer dizer com isso?
— Que elas viraram a cabeça de muita gente. Deixaram os homens um pouco agitados. Não posso dizer que sinto inveja sua, amigo. Um monte de mulheres deixando por onde andam um rastro de roupa suja, esmalte, babados e não sei mais o quê. Elas devem circular vestindo quase nada, o que distrai os homens do trabalho. Meu pessoal já começou a fazer apostas sobre quantos pequenos Victors e Victoriouss estarão correndo por aí daqui a nove meses.
O tom das conversas entre os oficiais graduados da Marinha tinha ficado muito mais leve desde o fim da guerra. Agora eles pareciam querer brincar uns com os outros, fazer piadas. Highfield, não pela primeira vez, sentiu saudade das antigas boas maneiras. Tentou afastar o tom de afronta da sua voz.
— Meus homens estão se comportando adequadamente.
— Não é no comportamento dos homens que estou pensando, George. Já ouvi falar dessas meninas da colônia. Não são tão tímidas quanto suas irmãs britânicas, se o que me disseram sobre as atividades noturnas em Sydney for verdade…
— São ótimas garotas. Está tudo sob controle.
Constrangido, pensou no incidente que a oficial relatara na semana anterior. Baxter e seus homens logo ficariam sabendo.
— Certo. Bem. Meu conselho seria mantê-las nas cabines pelo máximo de tempo possível. Tivemos todo tipo de problema com nossos marujos mais jovens e as passageiras. E olha que eram apenas uma ou duas. Nem consigo imaginar como deve ser com mais de seiscentas. Acho que algumas perderam a cabeça agora que sabem que estão indo para casa.
Com o silêncio de Highfield, Baxter parecia ter finalmente entendido que não receberia a resposta que queria. Enquanto isso, Highfield havia arregaçado a calça. Talvez fosse fruto da sua imaginação, mas a cor da pele ao redor da ferida parecia bem mais preocupante do que da última vez que dera uma olhada. Ele soltou a calça e cerrou o maxilar, como se conseguisse melhorar aquele maldito ferimento apenas com sua força de vontade.
— Bem… Todos nós rimos muito ao imaginar você e o salão. De todos os navios… de todos os comandantes, hein? Ainda assim… acho que é bom saber que esse velho porta-aviões pode ter algum uso depois que for aposentado. Você poderia instalar aí o primeiro salão de beleza móvel do mundo.
A atenção de Highfield se desviou da perna.
— Aposentado?
— Você sabe, quando o navio for retirado de serviço.
— O Victorious vai ser retirado de serviço?
Houve um breve silêncio.
— Achei que você soubesse, parceiro. É o fim. Quando os mecânicos o avaliaram com atenção em Woolloomooloo, concluíram que não valia a pena reformá-lo mais uma vez. O navio vai ser desativado quando você voltar para Blighty. Decidiram se concentrar em um tipo de porta-aviões totalmente novo depois do fim da guerra. Não que isso vá afetar muito você, não é?
Highfield se sentou. Ao seu redor, os mostradores e mapas da sala de meteorologia retribuíam seu olhar, mudos e alheios à sua iminente redundância.
Ele disse baixinho para o navio:
— Você e eu, nós dois.
Ele mal ouvia o outro comandante, que continuava falando.
— Brincadeiras à parte, como você está, cara? Ouvi dizer que passou por maus bocados com o Indomitable. Não se falou em outra coisa durante algum tempo. Muita gente ficou preocupada.
— Estou bem.
— Claro, claro. Não dá para pensar nisso o tempo todo, não é mesmo? De qualquer jeito, é uma pena. O jovem Hart serviu junto comigo dois anos atrás. Fiquei chocado quando me contaram. Um ótimo rapaz. Ele se destacava no meio da multidão.
— Sim. É verdade.
— Encontrei a esposa dele uma vez, quando estávamos em terra, em Cingapura. Uma menina excelente. Pelo que me lembro, havia acabado de ter gêmeos, o que me faz voltar ao motivo do meu telefonema. Hoje de manhã recebi um telegrama de Londres. Parece que você tem a bordo esposas de alguns dos meus homens. Como ficaremos lado a lado por alguns dias, o pessoal de Londres achou que seria simpático permitir que os casais entrem em contato por rádio. O que acha? Na minha opinião, faria muito bem aos meus homens ter uma conversa rápida com as esposas.
— Não sei…
— Bem, não precisa decidir ainda. Pelo que entendi, são só alguns homens mesmo. Não acho que você vá ter hordas de mulheres histéricas batendo à sua porta. Mas significaria muito para o meu pessoal. E ainda ajudaria a mantê-los longe de confusão. Atracaremos em Aden daqui a alguns dias, e é sempre bom lembrar os homens de suas responsabilidades antes de desembarcar.
Deu uma risada baixa e rouca, confiante de que o outro entenderia o que ele queria dizer.
Abaixo, no convés, homens em trajes de verão recolhiam as últimas cordas e cadeiras que haviam sido usadas para a prática de esportes, parando de vez em quando para secar o suor da testa. Não muito longe dali, duas garotas seguiam tranquilamente para o refeitório do convés. O sol poente refletia no cabelo brilhante e penteado. As duas se curvaram ao mesmo tempo para passar debaixo da asa de um avião. Uma delas estendeu a mão magra e tocou a aeronave, mas a retirou rapidamente, como se estivesse quente demais. Ela riu de alguma coisa que a outra disse e levou a mão à boca.
Atrás delas havia outros aviões de caça enfileirados no convés. Suas superfícies lisas irradiavam calor, o que também acontecia no resto do navio.
— Highfield?
— Peça para um dos seus homens falar com meu subcomandante — disse Highfield, com os olhos fixos no convés abaixo. — Vamos mandar uma lista das passageiras e então você me diz com quem seus homens querem falar. Vamos ver se conseguimos organizar alguma coisa.
Ele tirou os fones de ouvido e se virou para o operador de rádio.
— Faça contato com o comandante-chefe da Frota Britânica do Pacífico. E com quem for o responsável pela Lei de Empréstimo e Arrendamento.

* * *

A cabine tinha ficado vazia naquela noite. Avice estava aprendendo a fazer flores artificiais, atividade que parecia contar pontos para o concurso de Rainha do Victorious. Depois de ter decidido que Irene Carter era agora sua inimiga mortal, era importante não deixá-la ganhar o título.
Jean, que continuava reclamando do calor excessivo e se cansara das aulas de leitura, estava assistindo a um filme com duas amigas do dormitório do andar de cima.
Frances, depois de ter aproveitado uma hora sozinha e brincado com a velha cadelinha, estava inquieta e não conseguia relaxar por causa do forte calor. Dentro da pequena cabine, sua blusa estava colada ao corpo e os lençóis pegajosos grudavam no colchonete. Ela foi ao banheiro e borrifou várias vezes água fria no rosto.
Estava prestes a sair do dormitório e subir até o convés de voo quando Margaret entrou de repente, com o rosto vermelho e ofegante.
— Aiminhanossa — disse, levando a mão roliça ao pescoço. — Aiminhanossa.
— Você está bem? — perguntou Frances, saltando na sua direção.
Margaret secou o rosto reluzente de suor. O calor a deixara com brotoeja do peito ao pescoço. Ela desabou no beliche.
— Margaret?
— Fui chamada à sala de rádio. Vocês nunca vão adivinhar… Vou conversar com Joe!
— O quê?
Margaret arregalou os olhos.
— Hoje à noite! Dá para acreditar nisso? Parece que o Alexandra está muito perto e dá para fazer contato pelo rádio. Disseram que eu e mais cinco garotas vamos poder falar com nossos maridos. Sou uma das sortudas! Dá para acreditar nisso? Dá?
Ela ergueu a cachorrinha da cama e a encheu de beijos.
— Ah, Maudie, consegue acreditar? Vou falar com Joe! Hoje à noite! — Então se olhou no espelho que Avice tinha pendurado atrás da porta e resmungou: — Ah, não! Olhe só o meu estado. Meu cabelo sempre fica horrível com a umidade.
Margaret enrolou algumas mechas rebeldes nos dedos.
— Acho que ele não vai conseguir ver você pelo rádio — brincou Frances.
— Mas mesmo assim quero estar bonita para ele.
Margaret pegou a escova de Avice e penteou vigorosamente o cabelo. A eletricidade estática o deixou eriçado, como se fizesse uma rebelião pacífica. Ela contraiu os lábios.
— Vai comigo? Fico tão insegura… Não quero fazer papel de boba. Você se importa? — Ela mordeu o lábio. — Faz quase três meses que não falo com ele. E preciso que alguém me lembre de não soltar um palavrão na frente do comandante.
Frances olhou para os próprios pés.
— Ai, meu Deus, me desculpe. Estou sendo indelicada. Não quis contar vantagem. Sei que você também adoraria falar com seu marido. Só pensei que, se alguém pudesse ir comigo, eu gostaria que fosse você.
Frances segurou a mão de Margaret, suada por causa do calor ou do nervosismo.
— Seria um prazer.

* * *

— Joe?
A luz começou a diminuir ao seu redor. Margaret se mexeu, desajeitada, e perguntou com um sussurro se estava posicionada no lugar certo. O operador de rádio, com fones nos ouvidos, apertou dezenas de botões à sua frente. Depois, aparentemente satisfeito com os diversos apitos e assobios, ajustou o microfone diante de Margaret.
— Aproxime o rosto daqui — pediu, apoiando com gentileza a mão nas costas dela para encorajá-la. — É isto. Agora tente mais uma vez.
— Joe?
Na pequena sala de rádio embaixo do passadiço, as poucas esposas escolhidas, algumas acompanhadas de amigas, estavam grudadas umas nas outras. O espaço era pequeno demais para acomodá-las, e elas estavam tensas, com os braços colados ao corpo, algumas se abanando com revistas, os rostos brilhando de suor por causa do forte calor. Do lado de fora o céu já havia escurecido e, em algum lugar, a muitos quilômetros de distância, seus objetos de desejo navegavam na escuridão.
— Mags? — A voz soava distante, entrecortada. Mas, pela expressão de Margaret, era ele, sem dúvida.
Todas prenderam a respiração ao mesmo tempo, encantadas feito crianças diante de uma árvore de Natal. Margaret tinha sido a primeira a falar, e era como se, sem aquela prova, elas não conseguissem acreditar que seus maridos estavam por perto e que elas poderiam, depois de meses de silêncio, trocar algumas palavras preciosas com eles. Trocaram sorrisos, como se a alegria delas fosse contagiante.
Margaret tocou o microfone. Então, depois de um sorriso tímido, disse:
— Joe, sou eu. Como você está?
— Estou ótimo, meu amor. E como você tem passado? Estão cuidando bem de você? — Então a voz, que parecia desencarnada, ficou em silêncio.
Margaret agarrou de vez o microfone.
— Estou bem. Eu e Joe Junior. É… é ótimo falar com você.
Ela titubeou, com certeza por saber que, assim como ela estava rodeada de pessoas estranhas, ele também devia estar. Nenhuma das mulheres queria deixar o marido constrangido na frente dos colegas ou dos superiores.
A voz dele voltou:
— Estão alimentando você direito?
As pessoas na sala de rádio riram. Margaret olhou para o comandante, que se mantinha um pouco afastado, de braços cruzados. Ele exibia um sorriso bondoso.
— Estão nos tratando muito bem.
— Ótimo. E… tome cuidado com esse calor. Não se esqueça de beber bastante água.
— Ah, pode deixar.
— Tenho que ir, minha querida, para ceder a vez para o próximo. Mas se cuide.
— Você também.
Margaret chegou mais perto do microfone, como se isso a aproximasse de Joe.
— Vejo você em Plymouth. Agora falta pouco.
— É, falta pouco — concordou Margaret, com a voz embargada. — Tchau, Joe.
Ao se afastar do microfone, Margaret cambaleou. Frances se aproximou para ampará-la, preocupada com as lágrimas que escorriam pelo rosto da amiga. A conversa tinha sido curta demais, pensou Frances. Deviam ter lhe concedido mais alguns minutos, e talvez um pouco de privacidade, para que pudesse expressar seus sentimentos. Havia tanta coisa que Margaret queria dizer para Joe, refletiu ela, sobre liberdade, o papel de mãe e esposa.
Mas ao olhar para Margaret, Frances percebeu que o brilho do seu sorriso conseguia iluminar a escuridão.
— Ah, Frances, isso foi maravilhoso — sussurrou ela.
Frances notou o tom de amor verdadeiro na voz de Margaret, a evidência de que ela conquistara tanto com tão pouco. Ficou segurando a amiga por mais um minuto, com a mente vazia, ora acelerada, enquanto Margaret tentava, em voz baixa, se lembrar das palavras que havia trocado com Joe. Depois, reclamou que tinha lhe dado um branco e que, ao ouvir a voz do marido, não fizera ideia do que dizer.
— Mas não tem problema, não é? Ah, Frances, espero que em breve você tenha a chance de falar com seu marido. Não consigo explicar como me sinto melhor. Você ouviu o que Joe disse? Ele não é o máximo?

* * *

Naquele instante, todos os olhares estavam voltados para a garota negra de vestido azul que tinha se debulhado em lágrimas ao ouvir a voz do marido e estava sendo reconfortada pela oficial da Cruz Vermelha. Por isso, o comandante foi o único que notou a expressão da garota alta no canto, que havia sido apresentada a ele, em tom de brincadeira, como a “parteira extraoficial”. Ele não gostava de encarar nenhuma das mulheres, pois não queria ser mal interpretado. Mas algo chamava a atenção na postura reta daquela mulher. E também nos seus olhos, que refletiam um choque, como se ela tivesse acabado de sofrer uma grande perda.
Ele teve a inexplicável sensação de que refletiam seu próprio sofrimento.

* * *

Nicol seguiu pela galeria do andar de baixo, passou pela sala de armas, pela de peças de artilharia, depois pelo hangar onde antes ficavam vários aviões e caixas e mais caixas de peças sobressalentes, em vez da grande fileira de portas que tinha no momento. A maioria estava aberta, na vã esperança de atrair alguma brisa perdida. De trás delas vinham murmúrios femininos, ruídos de cartas de baralho jogadas em mesas improvisadas ou de páginas de revistas sendo folheadas.
Tomando o cuidado de manter o olhar sempre à frente, avançou com cautela e subiu a escada em silêncio, sabendo que naquela noite qualquer esforço, por menor que fosse, faria sua roupa colar na pele de suor. Assentiu para o capelão e avançou pelo corredor mal iluminado até o lobby, tentando ser o mais discreto possível ao passar pela câmara do comandante. Por fim, dando uma olhadela à esquerda e à direita, abriu a escotilha que ficava ao lado do escritório do capitão-tenente e chegou ao convés escuro.
Alguém lhe dissera onde encontrá-la. Um pouco constrangido, havia batido na porta (ele sempre se sentia um intruso naquele covil feminino) para contar a elas o que fora decidido. Para que ficassem prevenidas, como as outras. Talvez ele tivesse contado primeiro para elas porque queria que ficassem com os melhores lugares. Elas tinham rido, incrédulas, e o fizeram repetir duas vezes antes de acreditar. Depois, enquanto Avice e Jean se preparavam, muito animadas, Margaret, ainda irradiando alegria por causa do contato pelo rádio, confirmara em voz baixa o que ele já suspeitava.
O céu estava quase todo coberto de nuvens, deixando à mostra algumas estrelas apenas, por isso ele demorou um pouco para encontrá-la. A princípio, pensou que tivesse perdido a viagem, e estava quase se virando e indo embora. A rigor, não poderia ter abandonado seu posto. Então uma sombra se mexeu e, quando uma nuvem se afastou e permitiu que o luar iluminasse o convés, ele percebeu, escondida sob o Corsair mais afastado, a silhueta magra de alguém com os braços ao redor dos joelhos.
Ele ficou imóvel por um instante, se perguntando se ela o teria visto e se o simples fato de ter reparado nela a deixaria constrangida. Mas quando se aproximou e ela se virou na sua direção, ele sentiu uma onda de alívio. Como se a presença dela ali fosse capaz de lhe tranquilizar. Perseverança, deduzia ele. Talvez até uma estranha sensação de generosidade. De repente pensou em Thompson, no seu rosto ensanguentado quando, alguns dias antes, o tinham levado de maca de volta ao navio. Devia ter se envolvido em alguma briga durante seu período de folga em terra, segundo dissera seu chefe. Que idiota, acabou ficando sozinho. Por mais que desde os primeiros dias tivessem martelado na cabeça de todos que em território novo eles deviam ficar unidos.
Nicol reparou que ela andara chorando. Ele a observou passar a mão nos olhos e empertigar os ombros. O prazer de vê-la ficou comprometido pelo constrangimento que ele sentiu.
— Desculpe se estou incomodando você. Sua amiga disse que talvez eu a encontrasse aqui.
Ela deu a impressão de que ia se levantar, mas ele fez um gesto para que permanecesse onde estava.
— Está tudo bem?
Ela parecia tão assustada que ele compreendeu que sua súbita e inesperada aparição poderia ter feito ela pensar em um daqueles temidos telegramas. Ele censurou a si mesmo por ter sido tão insensível.
— Não há nada de errado. Por favor.
Mais uma vez, fez sinal para que ela continuasse sentada.
— Eu só queria dizer… avisar… que você não vai ficar sozinha por muito tempo.
Então algo ainda mais estranho aconteceu: ela parecia em estado de choque.
— O quê? Do que está falando?
— Ordens do comandante. Faz calor demais nos elevadores… Quer dizer, nas suas cabines. Ele mandou todo mundo dormir aqui esta noite. Bem, todas as mulheres, pelo menos.
Ela relaxou um pouco os ombros.
— Dormir aqui? No convés? Tem certeza?
Ele percebeu que estava sorrindo. A ideia parecia uma loucura até mesmo para si. Quando o imediato do navio lhe contara, ele deduzira que o comandante tivesse enlouquecido de vez.
— Não podemos permitir que fiquem cozinhando lá embaixo. O calor está insuportável. Hoje um dos mecânicos desmaiou na casa de máquinas a estibordo, por isso o comandante Highfield decidiu que as mulheres devem trazer os colchonetes para cá. Vocês podem dormir de maiô, e com certeza vão ficar muito mais confortáveis.
Ela desviou o olhar para o oceano escuro.
— Imagino que isto signifique que vou ter que ficar longe daqui então — disse ela, com um tom de voz melancólico.
Nicol não conseguia desviar os olhos do perfil dela. Sua pele, sob a claridade da lua, estava opaca. Quando ele falou, a voz tremeu um pouco e ele tossiu para disfarçar sua aflição e se recompor.
— Por mim, não tem problema. Você não é a primeira pessoa que precisa de alguns minutos sozinha com o mar.
Sozinha com o mar? De onde ele tirara isso? Não costumava falar desse jeito. Com certeza ela achava que ele estava doido. Devia ter sido a timidez da garota que o fizera falar daquele jeito, como um idiota.
Mas ela não parecia ter reparado. Quando se virou, ele viu lágrimas em seus olhos.
— Não tem problema — disse ela. — De qualquer jeito, não estava adiantando esta noite.
O que não estava adiantando? Ele queria saber, mas a única pergunta que fez foi:
— Você está bem?
— Estou, sim — respondeu ela, levantando-se abruptamente.
Depois espanou com a mão a poeira inexistente na sua saia. As nuvens voltaram a encobrir a lua, e outra vez seu rosto ficou escondido de Nicol.

* * *

Highfield não conseguiu deixar de rir sozinho da expressão de Dobson quando a primeira garota surgiu no convés com o colchonete embaixo do braço, usando um maiô de duas peças cor-de-rosa com babados, o tipo de coisa que, em circunstâncias normais, o teria deixado furioso. Ela parou diante da escotilha principal e olhou com timidez para o comandante, que indicou com a cabeça que ela seguisse em frente. A moça então se virou e fez um sinal para as colegas logo atrás. Atravessou o convés na ponta dos pés até chegar ao lugar apontado por um fuzileiro.
Rapidamente, foi seguida por outras duas mulheres, que, sob os refletores, riam e se cutucavam enquanto seus lugares eram designados, do mesmo modo que acontecera com os aviões em viagens anteriores. Não demorou muito para várias surgirem pelas escotilhas abertas, a maioria usando camisolas de algodão grandes demais para seus corpos magros, algumas um pouco constrangidas por serem vistas em público em trajes tão íntimos. O comandante dissera que aquelas que não se sentissem à vontade estavam liberadas para permanecer na cabine, embora ele tivesse certeza de que, com o calor sufocante que fazia, a maior parte delas ia preferir a brisa suave do convés em vez do ar irrespirável das cabines. Ele tinha razão: elas continuavam chegando, algumas conversando, outras reclamando que não havia mais espaço para colocar os colchonetes nos lugares indicados. Aquela diversidade de formatos e tamanhos diferentes de corpo, além dos inúmeros penteados e comportamentos, era um exemplo interminável da infinita variedade de mulheres que existem na Terra.
Os fuzileiros tomariam conta delas. Curiosamente, aquela tinha sido uma das poucas ocasiões em que os homens não reclamaram quando foram informados sobre o inesperado plantão noturno. Highfield observou os rostos dos fuzileiros que circulavam pelo convés de voo. Até eles, que normalmente pareciam impassíveis, não conseguiam deixar de rir e de fazer brincadeiras com as mulheres naquela situação improvável.
— Que bagunça! — murmurou Highfield para si mesmo, e deu um sorriso discreto ao ouvir as próprias palavras. — Que bagunça! — repetiu.
Uma das oficiais apareceu ao seu lado, acompanhada de Dobson.
— Quase todas já subiram, não é? — perguntou Highfield.
— Acho que sim, comandante. Mas estávamos pensando se não seria possível acomodar algumas um pouco mais perto dos aviões. Não tem espaço para tanta gente. Os homens precisam circular pelo convés e elas querem espaço para se esticar…
— Não — retrucou Highfield bruscamente. — Quero que fiquem bem afastadas.
Dobson esperou alguns segundos, como se quisesse uma explicação. Como não recebeu nenhuma, de mau humor, mandou a oficial separar duas mulheres que brigavam por um lençol. Highfield sabia que ele diria aos colegas que provavelmente tudo aquilo tinha alguma coisa a ver com Hart, que o caso do Indomitable o tinha deixado cauteloso com os riscos. Deixe ele pensar o que quiser, disse Highfield a si mesmo, e deu o assunto por encerrado.
Eram quase dez horas quando a última esposa chegou ao convés. Checaram as cabines para confirmar que não viria mais nenhuma. Highfield parou diante delas e fez um sinal pedindo silêncio. Aos poucos, o pequeno grupo que estava sob a penumbra foi encerrando a conversa, até que só dava para ouvir o ruído abafado dos motores e as ondas batendo.
— Eu pretendia lembrar algumas regras — começou ele, colocando o peso do corpo na perna boa. Olhou para os fuzileiros, que formavam uma fila silenciosa e organizada à sua esquerda. — Eu queria esclarecer algumas coisas sobre esta noite. Mas depois me dei conta de que está quente demais e que se não tiverem o bom senso necessário para evitar cair pela amurada, nada do que eu possa dizer faria diferença. Então, como sempre, só vou pedir para que não distraiam os homens em serviço. E espero que o ar fresco as ajude a ter uma noite de sono melhor.
Suas palavras foram recebidas por vários comentários animados das passageiras e aplausos. Ele viu algumas expressões de gratidão, e de repente teve uma sensação estranha. Esboçou um sorriso.
— Certifique-se de que só fuzileiros sejam admitidos aqui em cima — ordenou a Dobson.
Em seguida, enquanto o bom humor ainda o fazia esquecer a dor na perna, ele se afastou com passos firmes para a sua câmara.

* * *

Mais tarde, Frances concluiu que aquela noite tinha sido o ponto alto da viagem.
Não só para ela, como para a maioria das mulheres. Talvez o que melhorara seu humor tivesse a ver com o fato de estarem todas juntas, ou com a liberdade e o alívio de terem o mar e o céu à sua frente depois de tantos dias de calor insuportável e mau humor. Por um instante, o espaço aberto do convés as igualava e evitava as tensões que dificultavam a vida em meio a tantas mulheres.
Avice, que a tinha ignorado durante toda a semana anterior, passara horas tentando fazer amizade com as mulheres ao redor, tirando proveito da sua nova condição de grávida. Margaret, que tinha ficado preocupada com Maude Gonne, foi tranquilizada por Frances, que descera sob um pretexto qualquer e a encontrara descansando confortavelmente. Maggie dormira menos de vinte minutos depois de se acomodar e estava roncando ao seu lado esquerdo, com a barriga apoiada no travesseiro de Frances e vestindo uma camisa masculina tão fina quanto papel.
Frances ficou feliz em ver a cena: ela sentira pena de Margaret que, inchada e desconfortável por causa do calor, ficava se remexendo no beliche na inútil tentativa de encontrar uma posição agradável para dormir.
No início, Frances se sentira um pouco inibida por estar de maiô, mas diante da exposição de pernas e barrigas de centenas de outras mulheres de todos os tamanhos e formatos de corpo (algumas com os minúsculos biquínis da moda), se deu conta de que sua preocupação era ridícula. Depois que os fuzileiros se recuperaram do choque de saber o que vigiariam, eles também perderam o interesse. Muitos estavam jogando baralho, enquanto outros apenas conversavam, aparentemente ignorando os corpos seminus adormecidos atrás deles.
Frances se perguntou se eles estavam mesmo tão desinteressados quanto pareciam. Algum homem realmente conseguiria manter o sangue-frio diante da exposição de tantos corpos femininos? No entanto, por mais que tentasse, não conseguia encontrar no comportamento deles qualquer indício que justificasse seu desconforto. Ela havia deixado o lençol de lado e se acomodado de um jeito que seu corpo semierguido aproveitasse ao máximo a brisa que soprava no convés. E quando reparou que um dos homens, vestindo seu uniforme de verão com colarinho alto, olhou atentamente na direção delas, foi forçada a concluir que talvez fosse o frescor das mulheres que eles cobiçavam, e não seus corpos.
Ela devia ter dormido por algumas horas depois da meia-noite. A maioria das mulheres ao seu redor caíra em sono profundo, afinal, as várias noites sem dormir tinham servido de antídoto contra aquela situação inusitada, que poderia ter mantido todas elas acordadas. Mas Frances não conseguia se sentir à vontade no meio de tanta gente. Então decidiu se levantar, se conformar com a ausência de sono e aproveitar a liberdade que tinha agora de se sentar no espaço ao ar livre sem medo de que a descobrissem. Cobriu parcialmente os ombros com o lençol de algodão e andou com cuidado até o fim do grupo de mulheres reunidas ali, de onde podia ver o rastro de espuma que o navio deixava no mar. Por fim, encontrou um lugar afastado de todo mundo e se sentou, sem pensar em nada, com o olhar fixo ao longe.
— Você está bem? — A pergunta foi feita em voz baixa, para que só ela escutasse.
O fuzileiro estava de pé a poucos centímetros dela, com o rosto intencionalmente virado para a frente.
— Estou ótima — murmurou em resposta.
Ela continuou encarando o mar, como se os dois fingissem que não estavam conversando.
Ele permaneceu onde estava por mais um tempo. Frances tinha reparado nas pernas dele imóveis ao seu lado, um pouco dobradas como se estivessem se preparando para algum imprevisto.
— Você gosta daqui, não é mesmo? — perguntou ele.
— Muito. Posso parecer um pouco boba, mas descobri que o mar me deixa… bem, feliz.
— Você não parecia muito feliz mais cedo.
Ela não sabia se podia conversar com ele desse jeito.
— Acho que este imenso vazio me deixou abalada… Não me senti à vontade… como costuma acontecer.
— Ah.
Frances mais sentiu do que viu que ele assentia.
— Bem, as sensações em um navio raramente são as que esperamos.
Ficaram calados por um instante. Frances se sentia desconfortável, pois eles não estavam mais separados por uma porta de aço. Assim que ele se aproximou, ela havia puxado o lençol até o pescoço, enrolando quase todo o corpo. Mas depois considerou esse gesto uma bobagem, uma reação extrema à presença dele. Então deixou o lençol deslizar pelos ombros, ficando vermelha com seu atrevimento.
— Sua expressão muda quando você está aqui.
Ela deu uma olhada nele. Talvez ele percebesse que tinha ido um pouco além, porque continuava com os olhos fixos no oceano.
— Conheço essa sensação — acrescentou ele. — Por isso gosto de estar no mar.
Ela ficou com vontade de perguntar sobre os filhos dele, mas não conseguiu encontrar palavras que não parecessem uma acusação. Então se contentou em apenas observar seu rosto. Quis perguntar por que ele parecia tão triste, se em breve retomaria sua vida. Mas ele se virou e os dois se entreolharam.
Instintivamente, ela levou a mão ao rosto como se quisesse se proteger dele.
— Quer que a deixe sozinha? — perguntou, baixinho.
— Não — respondeu ela, sem pensar.
Os dois ficaram quietos, constrangidos ou surpresos por ela ter falado alguma coisa. Ele continuou ao seu lado, como se fosse um segurança particular, enquanto os dois encaravam a água escura à frente.

* * *

Os primeiros raios de luz apareceram no horizonte a milhares de quilômetros de distância, pouco antes das cinco da manhã. Ele contou para ela que o nascer do sol podia variar de um dia para outro, dependendo da localização do navio em relação a Linha do Equador. Algumas vezes, o nascer do sol podia ser lento e lânguido, enchendo gentilmente o céu com uma suave luz azulada. Em outras ocasiões, era apenas uma centelha rápida e quase agressiva, como se um curto-circuito fizesse o céu amanhecer. Explicou como, na época em que era um jovem recruta, conseguia listar quase todas as constelações, o que o enchia de orgulho. Ele as observava desaparecer lentamente ao nascer do dia, para desfrutar da magia do seu reaparecimento horas mais tarde. Mas com o início da guerra, se tornara impossível contemplar o céu noturno por mais de um minuto sem ouvir o ronco distante de um avião inimigo.
— Então isso perdeu o sentido para mim. Agora acho mais fácil não olhar.
Ela contou como as explosões de granadas no Pacífico lembravam as cores do amanhecer e como, nas noites que passava trabalhando, observava os combates pela janela da tenda onde funcionava a enfermaria e pensava na capacidade que o homem tinha de subverter a natureza. Ela comentou que dava para ver uma beleza fora do comum naquelas cores. A guerra, ou talvez sua profissão, a ensinara a enxergar beleza em todas as coisas.
— Você vai voltar a sentir isso, sabe — afirmou ela. — Basta esperar um pouco. — Sua voz saiu baixa, reconfortante.
Ele a imaginou dizendo palavras parecidas aos feridos dos quais cuidara e desejou, perversamente, que tivesse sido um deles.
— Faz tempo que trabalha neste navio?
Ele demorou um minuto para se concentrar no que ela estava dizendo.
— Não — respondeu. — Quase todos nós estávamos no Indomitable. Mas ele foi afundado no fim da guerra. Quem conseguiu escapar acabou vindo para o Victorious.
Aquelas eram algumas palavras bem ensaiadas que não refletiam o caos e o horror das últimas horas que passaram no navio, as bombas, os gritos e os porões transformados em gêiseres de fogo.
Ela se virou para encará-lo.
— Perderam muitos homens?
— Sim, bastante. O comandante perdeu o sobrinho.
Ela olhou para onde o comandante estivera horas antes, sob o passadiço, impecável em seu uniforme de verão, consultando um mapa.
— Todo mundo perdeu alguém — disse ela, quase que para si mesma.
Ele tinha lhe perguntado sobre os prisioneiros de guerra, e a ouvira enumerar uma longa lista de tipos de ferimentos, e também de pacientes de quem cuidara e depois perdera. Ele não perguntou como ela havia lidado com tudo aquilo. Ela apenas comentou que quem passa por uma coisa dessas nunca esquece. Mas isso não importava para quem tivera a sorte de pelo menos continuar vivo.
— Que profissão você escolheu… — comentou ele.
— Acha mesmo que algum de nós teve escolha?
Foi nesse momento, ao observar seu rosto pálido e sério, e ouvir na sua resposta a determinação de nunca deixar de lado o sofrimento dos outros, que ele percebeu que o que sentia por ela não era nada apropriado.
— Eu… eu… não…
O choque dessa percepção o deixou sem voz, e depois ele apenas balançou a cabeça em silêncio. Embora não tivesse relação com o assunto, de repente se lembrou da sua última folga em terra, quando se sentiu exposto e envergonhado.
— Todos nós precisamos encontrar um jeito de corrigir esses horrores — disse ela.
Você?, ele teve vontade de perguntar, incrédulo. Você não começou a guerra. Não foi responsável pelos estragos, pelos membros amputados, pelo sofrimento. Você é uma das coisas boas. É uma das razões pelas quais continuamos seguindo em frente. Você, de todas as pessoas, de todas as mulheres deitadas aqui, é a única que não tem o que corrigir.
Talvez fosse pelo momento inusitado, ou porque seus ombros à mostra reluziam como algo celestial sob a claridade incipiente. Talvez fosse o simples fato de, ao longo do que parecia uma eternidade, ele não ter mantido uma conversa que não fosse marcada por jargões militares ou relatos de atos de coragem. Ele queria se abrir como o amanhecer na frente dela, se revelar, com defeitos e tudo, e ser absolvido por sua ternura e compreensão. Queria gritar com o marido dela, sem dúvida algum mecânico idiota, metido a engraçadinho e que, naquele momento mesmo, devia estar ajeitando a calça ao sair de um bordel no Extremo Oriente e trocando olhares cúmplices com os colegas. Ele queria gritar: “Você se dá conta do que tem? Consegue entender?”
Por um breve e insano instante, pensou em tentar colocar pelo menos parte disso em palavras. Foi então que, pelo canto do olho, notou o comandante Highfield no passadiço. Acompanhando seu olhar, Frances se virou e observou o comandante conversar com dois oficiais. Ele apontou na direção dos aviões e depois se empertigou enquanto os dois falavam apressadamente com ele. Pelas vozes alteradas, devia haver alguma coisa errada.
Mesmo relutante, ele se afastou de Frances.
— É melhor eu ir lá e descobrir o que está acontecendo.
Enquanto dava os vinte e quatro passos que o separava dos outros, guardou consigo a ternura do sorriso que recebera dela como resposta.
Vários minutos depois, ele voltou.
— Vão ser jogados no mar — disse.
— O quê?
— Os aviões. O comandante decidiu que precisamos de mais espaço. Ele acabou de receber permissão de Londres para jogá-los no mar.
— Mas não há nada de errado com eles!
A voz dele estava irreconhecível. Ele tinha se tornado prisioneiro da longa noite que sufocava suas palavras, e que, ao libertá-lo, o deixara sentimental.
— Os mandachuvas que supervisionam a Lei de Empréstimo e Arrendamento estão de acordo. Mas ele… não é o tipo de comandante que toma decisões como esta.
Balançou a cabeça, sem conseguir acreditar.
— Ele está certo — disse ela, por fim. — A guerra acabou. É melhor deixá-los no mar.
Quando o dia raiou e tocou os corpos seminus das mulheres com sua luz fria e azulada, algumas acordaram e se enrolaram nos lençóis. Quietas e com olhos ainda sonolentos, observaram os mecânicos, em duplas, rolarem silenciosamente os aviões, um por um, até a borda do navio. Com o mínimo possível de instruções para não acordar quem ainda dormia, os aviões, com as asas dobradas, contemplaram o céu pela última vez, alguns ainda chamuscados e riscados, resultado das vitórias em combates aéreos. Esperaram pacientemente seus últimos detalhes serem lidos e conferidos. Depois oscilaram na amurada, permanecendo no ar apenas um instante antes de concluírem seu voo derradeiro.
O impacto na água foi surpreendentemente silencioso e, arrastadas pelas correntes do oceano Índico, as aeronaves afundaram aos poucos, até uma suave aterrissagem final no leito de algum mar secreto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!