30 de março de 2019

Capítulo 11

— Café, minha cara? — perguntou o professor Campbell. James, Elena lembrou a si mesma. A um gesto de concordância dela, ele se levantou e foi rapidamente até a pequena cafeteira empoleirada no alto de uma pilha vacilante de papéis.
Ele lhe trouxe uma xícara, com creme e açúcar, e se acomodou satisfeito na cadeira, olhando Elena por cima da mesa abarrotada com uma expressão de prazer inocente.
— Creio que temos uns biscoitos — ofereceu. — Não são caseiros, mas têm um sabor razoável. Não?
Elena meneou a cabeça educadamente e bebericou o café.
— Está muito bom. — Ela sorriu para ele.
Já tinham se passado alguns dias desde que ela dissera a Stefan e Damon que precisava de um tempo longe deles. Depois da necessária sessão de choro com Bonnie e Meredith, ela fez o possível para viver normalmente — foi às aulas, almoçou com as amigas, manteve a máscara de corajosa. Parte dessa tentativa de normalidade era ir à sala de James depois das aulas para saber mais sobre seus pais. Embora eles não pudessem estar presentes para reconfortá-la, falar neles lhe proporcionava algum consolo.
— Meu Deus! — exclamou James. — Você tem o rosto de Elizabeth e, quando sorri, as covinhas de Thomas aparecem. Idênticas às dele, só de um lado. Conferia a ele um certo charme arrojado.
Elena se perguntou se devia agradecer a James. Ele a estava elogiando, de certo modo, mas os elogios na verdade eram dirigidos aos pais, e parecia meio presunçoso ficar agradecida por isso.
— Que bom que acha que me pareço com meus pais — conformou-se em dizer. — Quando eu era criança, me lembro de pensar que eles eram muito elegantes. — Ela deu de ombros. — Acho que todas as crianças pequenas acham os pais bonitos.
— Bem, sua mãe certamente era — disse James. — Mas não é só a aparência. Sua voz é parecida com a dela, e os comentários que você fez em aula esta semana me lembraram de coisas que seu pai teria dito. Ele era muito observador. — O professor mexeu nas gavetas da mesa e, depois de vasculhar um pouco, tirou uma lata de biscoitos amanteigados. — Tem certeza de que não quer um? Ah, tudo bem. — Ele escolheu um e deu uma mordida. — Sim, como eu dizia, Elizabeth era extremamente bonita. Eu não chamaria Thomas de bonito, mas ele tinha charme. Talvez por isso tenha conseguido conquistar o coração de Elizabeth no fim.
— Oh. — Elena mexeu o café, distraída. — Ela teve outros namorados, então? — Era ridículo, mas de certo modo imaginava que os pais sempre estiveram juntos.
James riu.
— Ela partia corações. Imagino que você também, minha cara.
Elena pensou, infeliz, nos olhos verdes, suaves e melancólicos de Stefan. Jamais quis magoá-lo. E Matt, que ela namorou no ensino médio e continuava apaixonado por ela em silêncio. Ele não se apaixonou, nem mesmo se interessou, por ninguém desde então. Partindo corações, sim.
James a observava com os olhos brilhantes e inquisitivos.
— Não fica feliz em partir corações, então? — perguntou ele mansamente. Elena o olhou, surpresa, e ele baixou a xícara de café com um tinido. Endireitou-se. — Elizabeth Morrow — disse ele numa voz animada de executivo — era do primeiro ano quando a conheci. Ela estava sempre fazendo coisas, particularmente cenários e figurinos incríveis que desenhava para o departamento de teatro. Seu pai e eu éramos do segundo ano na época... Pertencíamos à mesma fraternidade, éramos amigos íntimos... E ele não parava de falar da garota maravilhosa. Depois que a conheci, também fui atraído por sua órbita.
Ele sorriu e continuou:
— Thomas e eu tínhamos algo especial: eu era academicamente dotado, e Thomas conversava com qualquer um sobre qualquer coisa. Mas ambos éramos bárbaros culturais. Elizabeth nos ensinou arte, teatro, sobre o mundo fora das cidadezinhas do Sul onde crescemos. — James comeu outro biscoito, lambendo distraidamente o açúcar dos dedos, e suspirou fundo. — Achei que seríamos amigos para sempre. Mas, no fim, tomamos caminhos diferentes.
— Por quê? — perguntou Elena. — Aconteceu alguma coisa?
Seus olhos brilhantes se desviaram dos dela.
— Claro que não — disse ele com desdém. — Só a vida, creio. Mas, sempre que ando pelo corredor do terceiro andar, não consigo evitar de olhar uma foto nossa. — Ele soltou um riso constrangido, acariciando a barriga. — Mais por vaidade, creio. Reconheço a mim mesmo na juventude com mais facilidade do que o velho gordo que vejo no espelho agora.
— Do que está falando? — perguntou Elena, confusa. — O corredor do terceiro andar?
A boca de James formou um O de surpresa.
— Mas é claro, você ainda não conhece as tradições da faculdade. O longo corredor no terceiro andar deste prédio tem fotos de todos os diferentes períodos da história da Dalcrest. Inclusive uma linda fotografia de seus pais e este que vos fala.
— Terei de dar uma olhada. — Elena sentiu-se mais animada. Não tinha visto muitas fotos dos pais anteriores ao casamento.
Houve uma batida à porta, e uma menina baixinha e de óculos colocou o rosto para dentro.
— Ah, desculpe — disse ela e ia se retirar.
— Não, não, minha cara — disse James jovialmente, levantando-se. — Elena e eu estamos falando de velhos amigos. Você e eu precisamos ter uma conversa séria sobre sua dissertação assim que for possível. Entre, entre. — Ele fez uma meia mesura absurda a Elena. — Elena, teremos de continuar esta conversa em outra hora.
— Claro. — Elena se levantou, apertando a mão que James lhe estendia.
— E por falar em velhos amigos — disse ele despreocupadamente enquanto ela se virava para sair —, conheci uma amiga sua, a Dra. Celia Connor, pouco antes de o semestre começar. Ela falou que você vinha para cá.
Elena girou de repente, encarando-o. Ele conhecia Celia? Imagens encheram a mente de Elena: Celia nos braços de Stefan enquanto ele corria mais rápido que qualquer humano, desesperado para salvar a vida dela; Celia defendendo-se do espectro numa sala em chamas. O quanto ele sabia? O que Celia tinha lhe contado?
James sorriu mansamente.
— Mas vamos conversar depois — disse ele. Depois de um instante, Elena assentiu e saiu da sala, com a mente em disparada. A menina que esperava manteve a porta aberta para ela.
No corredor, ela se recostou na parede e refletiu por um momento. Será que Celia tinha contado a James sobre Stefan e Damon serem vampiros, ou qualquer coisa sobre a própria Elena? Provavelmente não. Celia se tornara uma amiga no fim da batalha contra o espectro. Ela teria guardado o segredo deles. Além disso, Celia era uma acadêmica muito perspicaz. Não diria aos colegas nada que pudesse fazê-los pensar que ela estava louca, e isso incluía dizer que tinha conhecido vampiros de verdade.
Elena expulsou a inquietude que sentiu no fim da conversa com James e pensou na foto da qual ele falara. Subiu a escada até o terceiro andar para ver se a encontrava.
Por acaso, não foi difícil achar o “corredor do terceiro andar”. Embora o segundo andar fosse um labirinto de passagens e salas dos docentes, quando chegou ao terceiro ela descobriu que esse era um longo corredor que ia de uma ponta à outra do prédio.
Ao contrário da tagarelice de pessoas no segundo andar, o de cima parecia abandonado; era silencioso e meio escuro. Portas fechadas apareciam a intervalos regulares ao longo do corredor. Elena espiou pelo vidro numa porta, vendo apenas uma sala vazia.
Por todo o corredor, entre as portas, havia imensas fotografias. Perto da escada, onde ela começou a olhar, elas pareciam estar no mesmo lugar desde a virada do século: rapazes de cabelo penteado para o lado e usando ternos, sorrindo rigidamente; meninas com blusas brancas de gola alta e saias compridas, o cabelo puxado no alto da cabeça. Em uma delas, uma fila de meninas portando guirlandas de flores para algum evento esquecido do campus.
Havia fotos de regatas e piqueniques, casais produzidos para bailes e equipes esportivas. Em uma fotografia, o elenco de uma peça estudantil — talvez dos anos 1920 ou 30, as meninas com cortes de cabelo de melindrosa, os rapazes com coberturas estranhas nos sapatos — gargalhava no palco, de boca aberta paralisada, as mãos no ar. Um pouco mais adiante, um grupo de meninos com fardas militares olhava para ela com seriedade, de queixo cerrado e olhos decididos.
Ao avançar pelo corredor, as fotos mudavam do preto-e-branco para o colorido; as roupas ficavam menos formais; os cabelos mais compridos, depois mais curtos; mais desgrenhados, depois arrumados. Embora a maioria das pessoas nas fotografias parecesse feliz, algo nelas entristeceu Elena. Talvez fosse como o tempo parecia passar nelas: todas aquelas pessoas tinham a idade de Elena, eram alunos como ela, com seus próprios temores, alegrias e mágoas, e agora não estavam mais ali, tinham envelhecido ou até morrido.
Ela pensou brevemente numa garrafa enfiada no fundo de seu armário em casa, contendo a água da vida eterna que ela acidentalmente tinha roubado das Guardiãs. Seria essa a resposta? Ela afastou o pensamento. Não era a resposta ainda — sabia disso —, e ela tomou a decisão muito clara de não pensar na garrafa, não decidir nada por ora. Tinha tempo, tinha mais vida para viver naturalmente antes de querer fazer essa pergunta a si mesma.
A foto a que James se referiu ficava perto do fim do corredor. Nela, o pai, a mãe e James estavam sentados na grama do pátio, sob uma árvore. Os pais estavam inclinados para a frente, numa conversa fervorosa, e James — uma versão muito mais magra, o rosto quase irreconhecível sob uma barba descuidada — estava recostado e os observava, com a expressão ferina e irônica.
Sua mãe parecia incrivelmente nova, o rosto suave, os olhos grandes, o sorriso largo e luminoso, mas também de certo modo era exatamente a mãe de que Elena se lembrava. O coração de Elena deu um salto doloroso mas feliz ao vê-la. Seu pai estava mais desarrumado do que o pai elegante que Elena conhecera — e a camisa de estampa pastel era um desastre tratando-se de proporções épicas de moda —, mas havia uma paizice essencial nele que fez Elena sorrir.
Ela percebeu o broche primeiro em sua horrível camisa pastel. Achou que era uma mancha, mas, olhando mais de perto, distinguiu o formato de um V azul-escuro e pequeno. Olhando as outras figuras, notou que a mãe e James usavam os mesmos alfinetes, o da mãe meio encoberto por uma longa mecha de cabelo.
Que estranho. Ela bateu o dedo lentamente no vidro sobre a foto, tocando em um V, depois nos outros. Perguntaria a James sobre isso. Ele não disse que o pai e ele tinham sido da mesma fraternidade? Talvez tenha alguma coisa a ver com isso. Os meninos de fraternidade não “alfinetavam” suas namoradas?
Algo cutucava o canto de sua mente. Ela vira um desses broches em algum lugar. Mas não conseguia lembrar onde, então deixou para lá. O que quer que significasse, era algo que não sabia sobre os pais, outro aspecto da vida deles a ser descoberto ali.
Ela estava ansiosa para saber mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!