14 de março de 2019

Capítulo 11

Parabéns às Sras. H. Skinner e H. Dill, que esta semana comemoram aniversário de casamento. A Sra. Skinner está casada há dois anos e a Sra. Dill, há um. Embora elas estejam separadas dos maridos em uma ocasião tão especial, esperamos sinceramente que esta seja a última vez que passem a data longe deles. Desejamos aos dois casais um futuro muito feliz.
É HORA DE COMEMORAR”, DAILY SHIP NEWSANOTAÇÕES DE AVICE R. WILSON, ESPOSA DE GUERRA, MUSEU IMPERIAL DA GUERRA

DEZOITO DIAS

No mar, era impossível saber a hora precisa em que o sol nascia, não porque variasse a cada dia, ou a cada continente, mas porque, através do suave arco de um horizonte marinho, a fenda luminosa que trespassava a escuridão podia ser vista a centenas, talvez milhares de quilômetros de distância, muito antes de se tornar visível em terra firme, e muito antes de indicar um novo dia. E, acima de tudo, porque nos conveses inferiores, em corredores estreitos e sem janelas ou portas, onde a única iluminação era a artificial, ficava impossível adivinhar se o sol já tinha nascido ou não.
Esse era um dos motivos, mas não o único, pelos quais Henry Nicol não gostava do período entre as cinco e as seis da manhã. No passado, ele até simpatizava com as primeiras horas do dia, mas naquela época o mar ainda era novo e mágico para ele que, não habituado à companhia tão próxima de outros homens, se deliciava com a hora mais tranquila a bordo: aqueles últimos minutos de escuridão antes de o navio engrenar o mecanismo do dia e ir acordando aos poucos ao seu redor. Era o único momento em que ele conseguia imaginar que só existia ela no mundo.
Um tempo depois, quando ia para casa nas suas folgas e os filhos ainda eram pequenos, um deles, ou até mesmo os dois, inevitavelmente acordava nesse horário, e ele ouvia a esposa sair pesadamente da cama e até via, se conseguisse abrir um olho, uma das suas mãos tentar encontrar um bobe de cabelo e a outra pegar o robe enquanto sussurrava: “Calma, mamãe está indo.” Ele se virava para o lado e jogava a cabeça no travesseiro, tomado por um sentimento misto de culpa e impaciência. Mesmo semiadormecido, tinha plena consciência da sua incapacidade de ter por essa mulher que arrastava os pés no linóleo da casa os sentimentos que devia: gratidão, desejo e até amor.
Já fazia algum tempo que, quando dava cinco horas no navio, não significava mais o início de um novo dia, e sim o momento propício para o intricado cálculo dos fusos horários: na América do Norte, seriam cinco da tarde do dia anterior. E na América do Norte, quando desse sete da noite no horário dele, seus filhos estariam acordando. Dessa vez, no entanto, a distância geográfica seria apenas a metade: a vida inteira deles correria em linhas do tempo diferentes. Muitas vezes ele se perguntava como os filhos se lembrariam dele: se não conseguiam imaginá-lo existindo durante metade de um dia, como o imaginariam com um dia inteiro à frente? Não haveria mais como pensar nas crianças no presente e supor, como às vezes fazia: “Agora estão tomando café.” “Devem estar escovando os dentes.” “Neste momento, com certeza, estão no jardim brincando com uma bola, um carrinho, ou o trem que construí para eles com sobras de madeira.”
Agora ele pensaria nos filhos historicamente.
As mãos de outro homem arremessariam a bola.
Do outro lado da porta de aço, uma mulher murmurou alguma coisa enquanto dormia, seu tom de voz aumentando, como se fizesse uma pergunta. Depois o silêncio voltou.
Nicol olhou para o relógio e acertou a hora para o dia anterior, enquanto o navio entrava em um fuso horário diferente. Minhas horas avançam em direção ao nada, pensou ele. Nada de casa, nada de filhos, nada de retorno heroico.
Desperdicei os melhores anos da minha vida e vi meus amigos morrerem de frio, afogados ou queimados. Perdi a inocência, meus amigos perderam a vida, por isso sofro por não ter mais o que sequer tive certeza de que um dia já quis. Pelo menos até ser tarde demais.
Nicol apoiou as costas na parede e se forçou a afastar aqueles pensamentos familiares, tentando expulsar a enorme tristeza que o dominava e que pesava no coração e nos pulmões. Desejando que a última hora passasse mais depressa.
Torcendo para que amanhecesse logo.

* * *

— Nada de bonés!
O tesoureiro não se deu o trabalho de erguer os olhos quando o marinheiro se aproximou, tirou o boné e o colocou à sua frente na mesa. Os dois homens ao seu lado vasculhavam gavetas cheias de dinheiro e trocavam entre si pequenos pedaços de papel escritos à mão.
— Andrews, senhor. Mecânico aeronáutico, primeira classe. Sete dois dois um nove sete dois, senhor.
Enquanto o marinheiro esperava à sua frente, o tesoureiro folheou algumas páginas do livro contábil, depois passou rapidamente o dedo por uma delas.
— Três libras e doze shillings.
— Três libras e doze shillings — repetiu o assistente do tesoureiro, ao seu lado.
O mecânico pigarreou.
— Senhor… Com todo o respeito… é menos do que recebíamos antes da Austrália.
A expressão do tesoureiro era a de quem já ouvira reclamações e pedidos de aumento não só uma, mas milhares de vezes.
— Estávamos servindo no Pacífico, Andrews. Você recebia pagamento extra por estar operando em zona de guerra. Gostaria que arranjássemos alguns camicases para garantir seus shillings extras?
— Não, senhor.
— Não… Não gastem tudo em terra. E fiquem longe daquelas mulheres. Não quero ter daqui a dois dias uma fila na porta da enfermaria. Entendido, rapazes?
O dinheiro foi contado e empurrado para o outro lado da mesa. Com o rosto corado, o mecânico recolocou o boné e saiu contando as notas com seus dedos ágeis.
— Nada de bonés!
— Nicol.
Distraído e avançando no ritmo lento da fila que serpenteava ao longo do que restava do convés do hangar, ele ouviu um nome ser chamado duas vezes antes de perceber que era o seu. Estava exausto por ter passado mais uma noite em claro imerso em pensamentos desagradáveis.
Tims, um sujeito robusto e empertigado, parou ao seu lado e deu várias baforadas no cigarro antes de voltar a falar. Nicol o conhecia e sabia que era arrogante, que se considerava o centro do mundo e gostava de manter a reputação de “rei do alojamento”. Havia rumores de que ele estava envolvido em empréstimo de dinheiro, e que os marinheiros que não o reembolsassem no prazo estabelecido muitas vezes ficavam propensos a sofrer acidentes.
Instintivamente, Nicol sempre tentara manter distância dele, pois reconhecia que com alguém como Tims o melhor a fazer era não se aproximar muito nem saber demais. Também não era aconselhável virar seu inimigo ou ficar lhe devendo dinheiro. Homens assim, com um estranho carisma e intricadas bases de poder, eram encontrados em todos os navios. Isso era inevitável, Nicol supunha, em um mundo autossuficiente que dependia do silêncio e da hierarquia.
Naquele dia, porém, Tims estava mais calmo, e suas palavras demonstravam cautela e reflexão. Poderia haver certa desavença entre marinheiros e fornalheiros, ele alertou. Duas noites antes, tinha acontecido um incidente com uma mulher. Ele balançara a cabeça ao falar sobre isso, como se nem ele conseguisse acreditar na tolice das garotas australianas. Comentou que as coisas haviam ficado um pouco fora do controle.
Uma afirmação tão escancarada assim não combinava com seu caráter. No início, Nicol até imaginou que Tims pudesse estar indiretamente lhe pedindo para dar voz de prisão. Mas antes que ele tivesse oportunidade de perguntar por que para ele o incidente despertaria mais do que um interesse passageiro, Tims voltou a falar:
— Foi seu grupo que se envolveu.
Seu grupo. Que intimidade estranha, quase familiar, que a frase sugeria. Nicol não conseguia acreditar que a esposa recatada que conversara com ele naquela noite pudesse estar envolvida em um episódio de bebedeira. Aquela era uma mulher para você, pensou ele com amargura. Incapaz de se manter fiel, ou mesmo sóbria, durante uma viagem de seis semanas.
Então Tims, com os nós dos dedos envolvidos por um curativo empapado de sangue, seguiu adiante com suas explicações. Não tinha sido a garota alta, Frances, mas a pequena idiota com quem Nicol havia conversado na noite do seu primeiro plantão. A que não parava de rir. Jean.
Ele ficou um pouco menos surpreso e, embora perturbado com o que ouvira, sentiu o que talvez tenha sido alívio. Frances não parecera ser daquele tipo. Ficava pouco à vontade na companhia de outras pessoas. Era reservada demais. Ele queria acreditar que ainda havia mulheres boas neste mundo. Mulheres que sabiam se comportar. Mulheres que entendiam o significado da palavra lealdade.
— Preciso que nos faça um favor, fuzileiro. Não posso ir lá, é claro. — Tims apontou na direção das cabines. — Apenas verifique se Maggie está bem, ok? A que está grávida. É uma ótima garota, e estava um pouco nervosa, o que, no estado dela… Enfim, eu não gostaria que ela ficasse preocupada.
— Ela certamente vai para a enfermaria se não estiver bem.
Tims fez uma careta.
— Para se consultar com aquele idiota? Ele bebe sem parar todos os dias desde que embarcou. Eu não confiaria nesse sujeito nem para tirar uma farpa do dedo. — Tims apagou o que restava do cigarro. — Não, acho que seria uma boa ideia se você ficasse de olho nela. E se alguém perguntar alguma coisa, diga que elas passaram a noite toda na cabine. Combinado?
Não era norma um fornalheiro se dirigir desse modo a um fuzileiro naval. E algo no tom de voz de Tims, em circunstâncias normais, teria deixado Nicol irritado. No entanto, ele suspeitava que essa confidência incomum fosse motivada por uma atenção especial, talvez até por uma preocupação sincera, por isso não se incomodou.
— Sem problema — respondeu.
Ao pensar melhor, se deu conta de que o clima naquela noite estivera um pouco diferente. Do outro lado da porta, ele não ouvira as habituais conversas entrecortadas, e sim murmúrios inquietos. Em determinado momento, tinha inclusive escutado um choro e uma breve discussão. A garota alta havia saído três vezes “para beber água” e mal o cumprimentara. Ele presumira que se tratava apenas de uma daquelas crises de histeria feminina. Eles tinham sido avisados de que esse tipo de coisa podia acontecer enquanto elas estivessem a bordo, ainda mais com mulheres que não estavam acostumadas a viver em um espaço tão reduzido.
— Vou lhe dizer uma coisa — falou Tims —, Thompson teve sorte de eu não ter pego aquela chave inglesa primeiro.
— Chave inglesa? — perguntou ele, olhando para trás.
— Uma delas estava com uma chave inglesa na mão. Aquela alta. Tudo indica que foi ela quem nocauteou o idiota. Acertou um belo golpe no ombro dele, depois tentou atingir a cabeça para completar o serviço. — Tims riu, mas não estava achando graça. — É preciso reconhecer o mérito dessas australianas, porque elas não são fracas. Não dá para imaginar uma inglesa fazendo o mesmo, não acha? — Deu uma longa tragada no cigarro. — Por outro lado, acho que não veríamos uma garota inglesa descer para os conveses inferiores com um bando de desconhecidos.
— Não tenha tanta certeza — murmurou Nicol, mas logo se arrependeu do comentário.
— De qualquer jeito, vou me deitar um pouco. O alojamento está fechado para visitantes por um tempo, mas diga a Mags que sinto muito. Se eu tivesse alcançado sua amiguinha primeiro… Bem, isso não teria acontecido.
— Onde está Thompson? — perguntou Nicol. — Para o caso de quererem saber. Está preso?
Tims negou com a cabeça.
— Não seria melhor prendê-lo?
— Pare para pensar, Nicol. Se o prendermos, temos que fazer o mesmo com a menina, certo? A oficial que esteve lá não conseguiu nenhuma pista, só o nome de Jean. Mas a pequena Jean não vai contar a verdade sobre o que aconteceu. Não se ela quiser chegar a Blighty e encontrar o marido sem se envolver em nenhum escândalo. Tenho certeza de que é o que ela quer. — Ele apagou o cigarro. — Além disso, é claro que você não tem interesse em ver suas meninas metidas em confusão. Pode não pegar bem para você, não acha? Todas elas lá embaixo, na casa de máquinas, tão perto da hora de começar seu turno… — Ele manteve o tom de voz baixo, em desacordo com a ameaça implícita nas suas palavras. — Só quero lhe dizer, por pura consideração, que meus homens e eu vamos lidar do nosso jeito com Thompson e aquele sujeitinho desprezível amigo dele. Ainda que seja preciso esperar o desembarque.
— Essa história vai se espalhar — afirmou Nicol. — Você sabe que vai.
Tims observou a longa fila atrás dele. Quando se virou, seu olhar expressava um vago sentimento de piedade por aquele delinquente desconhecido.
— Não se todos ficarem de boca fechada.

* * *

Margaret se debruçou na balaustrada, o máximo que sua barriga permitia, e puxou o cesto de vime, resmungando sozinha enquanto o observava bater na lateral do navio. Abaixo, na água brilhante, meninos morenos e ágeis pulavam da beirada de um barquinho para pegar as moedas que os marinheiros jogavam do convés. Ao longo do navio, canoas estreitas escavadas em troncos de árvores balançavam sob os movimentos de homens magros e bronzeados que carregavam muitas bugigangas nos braços. O Porto de Colombo, no Ceilão, parecia cintilar com o calor. Ao longe, um ou outro edifício elevava-se no meio de uma floresta densa e sombria.
Como vários casos de varíola haviam sido relatados, foi comunicado antes da chegada que não seria aconselhável o desembarque das mulheres. Ali, onde as âncoras haviam sido jogadas na água azul e cristalina, a algumas centenas de metros do cais, era o mais perto que chegariam do Ceilão.
Margaret, que andara desesperada para sair do navio e passara muitos dias sonhando com o momento em que sentiria a terra firme sob seus pés, tinha ficado furiosa.
— O encarregado da cooperativa disse que ainda vão permitir que os homens desembarquem, então não vejo por que não podemos nos contaminar diretamente com a varíola.
Ela tinha quase chorado com a injustiça da decisão.
— Imagino que seja porque os homens foram vacinados — sugeriu Frances, mas Margaret preferiu ignorar o comentário.
Talvez como consolo, um dos responsáveis pelo armazém tinha emprestado a elas um cabo, ao qual prendera um cesto. Bastava baixarem o cesto e o puxarem de volta quando estivesse cheio, e assim poderiam dar uma olhada com calma nas mercadorias. Ele indicara dois outros navios de guerra ancorados no porto, e elas notaram que vários barquinhos ao redor deles estavam envolvidos na mesma atividade.
— Franceses e americanos. As senhoras vão reparar que a maioria dos comerciantes acaba se aproximando dos americanos. — Ele esfregou o polegar no indicador, enquanto ria e erguia uma sobrancelha. — Se conseguirem jogar o cesto naquela distância, talvez possam comprar meias-calças novas.
— Este lote parece bom, meninas. Preparem as carteiras.
Margaret, ofegante por causa do esforço, passou o cesto com cuidado por cima da balaustrada e o colocou no chão ao lado da torre de tiro onde estavam sentadas. Vasculhou o conteúdo, pegou pérolas, enfeites com conchas e corais que ela agitou entre os dedos.
— Alguém quer este magnífico colar de pérolas? Melhor do que aquela coisa feita com as anilhas de galinha, não é mesmo, Jean?
Jean esboçou um sorriso discreto. Passara a manhã toda em silêncio. Antes do toque de acordar, Margaret a escutara conversando em voz baixa com Frances. Depois elas tinham ido para o banheiro, onde ficaram bastante tempo. Frances levara sua caixinha de remédios. Ninguém havia comentado sobre o que pode ter acontecido naquela noite, e Margaret preferira não perguntar, pois nem saberia como formular a pergunta. Mas agora, pálida, abatida e parecendo assustadoramente jovem, Jean estava muda, sentada entre elas. Quando andava, seus passos eram cautelosos.
— Olhe, Jean. Este combina com seu vestido azul. Olhe como brilha na luz do sol!
— Lindo — disse Jean, acendendo mais um cigarro.
Apesar do calor que fazia, seus ombros estavam encolhidos como se ela sentisse frio.
— Devíamos comprar alguma coisa para Avice, pobre menina. Pode ajudá-la a se sentir melhor.
Ela ouviu a própria voz, propositalmente animada, mas o silêncio que veio em resposta sugeria que Frances talvez não quisesse que Avice se sentisse melhor.
Houvera uma discussão terrível entre as duas na noite anterior, depois de voltarem para a cabine. Frances, que parecia ter perdido sua timidez natural, dissera para Avice, aos gritos, que ela não passava de uma egoísta, uma traidora, que só tinha interesse em salvar a própria pele. Avice, corada por causa da culpa que sentia, respondera que não entendia por que devia colocar seu futuro em risco porque Jean tinha a moral de uma vadia. Acabariam descobrindo o nome dela, no fim das contas. Avice ficara ainda mais chateada porque sua amiga Irene havia sumido. Tinha sido o único modo que Margaret encontrara para impedir que as duas saíssem no tapa. Na manhã seguinte, quando Avice saiu da cabine, as outras tiveram certeza de que não voltariam a vê-la naquele dia.
As vozes dos vendedores chegavam até elas.
— Sra. Melbourne! Sra. Sydney!
Eles indicavam o preço com os dedos. Em meio aos barcos, a cabeça de um menininho emergiu da superfície brilhante da água. Ele sorria enquanto erguia um objeto metálico. Quando o olhou de perto, seu rosto ficou sombrio. Então ele jogou no navio o objeto, que ricocheteou no casco como uma bala de fuzil.
— O que houve? — perguntou Margaret, olhando para baixo.
— Os marinheiros jogam para eles porcas de parafuso e cavilhas metálicas velhas. E deixam os garotos mergulharem pensando que são moedas — explicou Frances. — Eles acham divertido.
Fez uma pausa. Agora elas tinham uma visão diferente do que os marinheiros consideravam divertido.
Mas Jean dava a impressão de não ter escutado. Estava distraída observando um colar que em seguida enfiou no bolso.
— Quer que eu compre isso para você? — perguntou Margaret. — Não me importo de pagar, se tiver esquecido a carteira.
Os olhos de Jean ainda estavam vermelhos.
— Não — respondeu. — Não pretendo pagar. Eles é que são burros de mandar isso tudo aqui para cima.
Houve um breve silêncio. Depois, sem dizer nada, Margaret se levantou, tirou algumas moedas da carteira e as colocou no cesto, que baixou até o barco, com a mercadoria restante. Então, talvez com a intenção de se animar um pouco e também de alegrar Jean, acrescentou:
— Já contei como foi que Joe me pediu em casamento?
Ela se sentou e cutucou a amiga com o cotovelo.
— Aposto que você vai rir. Ele já havia decidido fazer o pedido e tinha a permissão do meu pai. E o anel estava comprado. Ah, não estou usando agora — explicou. — Meus dedos estão inchados demais. Bem, ele decidiu que seria na quarta-feira, um dia antes do fim da sua licença em terra, e então apareceu, nervoso, com as botas reluzindo como espelho e o cabelo penteado. Ele tinha tudo planejado na cabeça. Apoiaria um joelho no chão e em seguida faria o gesto mais romântico da sua vida.
— Que ele desperdiçou com você — disse Frances.
— Bem, ele sabe disso agora — respondeu Margaret, sorrindo. — Enfim, foi à nossa casa, bateu na porta e na hora em que entrou, eu estava gritando com Daniel para ele não deixar roupa jogada no chão, porque eu não iria ficar correndo atrás dele como mamãe fazia. Pobre Joe, parado no corredor enquanto Dan e eu brigávamos. Então meu pai entrou gritando que as vacas tinham fugido. Joe continuou onde estava, ainda chocado por ter me visto esbravejando daquele jeito. Papai o segurou pelo braço e disse: “Vamos lá, rapaz, mexa-se”, e o empurrou pela porta dos fundos.
Margaret inclinou o corpo para trás.
— Bem — prosseguiu ela —, foi um caos. Havia cerca de quarenta vacas do lado de fora. Elas tinham derrubado uma das cercas, e duas estavam destruindo o que restava do jardim da minha mãe. Meu pai batia nelas com um graveto, e lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto tentava recolocar as flores no lugar. Então Colm partiu a toda velocidade na caminhonete, buzinando, tentando recuperar as que corriam para a estrada. Liam seguia em um dos cavalos, como se fosse John Wayne, enquanto Joe e eu tentávamos encurralar o resto das vacas no galpão.
Ela deu uma olhada nos rostos à sua frente.
— Já viram uma vaca assustada, meninas? — Depois baixou o tom de voz: — Vocês nem imaginam como elas cagam. E quando andam, a merda se espalha por tudo quanto é lado. Pobre Joe, se sujou da cabeça aos pés, inclusive seus sapatos lindos ficaram imundos.
— Que nojo — disse Jean com um sorriso discreto.
— E então, para completar, a maior vaca decidiu escapar e foi direto para cima de Joe. Não me entendam mal, ele não é um fracote, mas do jeito que ela saiu correndo na direção dele, parecia que não havia ninguém ali. E bum!
Ela imitou uma queda para trás.
Até Margaret, supostamente imune aos odores de uma fazenda, tinha tapado o nariz quando foi ajudá-lo a se levantar e limpar aquela imundície. Ela achou que ele estivesse xingando, até que percebeu que repetia “o anel, o anel”. Os dois tinham passado quase meia hora de quatro, no estábulo, tentando encontrar o símbolo da devoção eterna de Joe na lama.
— E você… ainda usa esse anel?
— Com esterco de vaca e tudo. Para mim, faz parte do romance. — Depois, quando viu Jean levar a mão à boca, acrescentou: — Ah, Jean! Claro que lavei o anel antes de colocar no dedo. Precisei fazer o mesmo com o de Joe. Passei minha primeira noite como noiva lavando e passando seu uniforme para que ele não tivesse problema ao voltar para a base.
— Stan me pediu em casamento em um baile — contou Jean. — Acho que eu era a mais nova de todas ali… Tinha só quinze anos. Mas foi maravilhoso. Eu vestia um conjunto de seda azul que minha amiga Polly havia me emprestado, e ele disse que eu era a menina mais bonita do salão. Ele já tinha bebido um pouco, mas quando começou a tocar You Made Me Love You, se virou para um colega e disse: “É com ela que vou me casar. Ouviu bem?” E, em seguida, repetiu mais alto. Fingi que estava morrendo de vergonha, mas, para ser sincera, gostei muito.
— Tenho certeza disso — concordou Frances, sorrindo.
— Ele foi a primeira pessoa que disse que me amava. — Seus olhos brilharam com as lágrimas. — Ninguém nunca tinha me falado isso. Nem minha mãe. E não conheci meu pai. — Ela afastou o cabelo do rosto. — Não. Nada me prende ao meu país, nada mesmo. Stan é o melhor homem que já conheci.

* * *

Elas continuaram sentadas praticamente em silêncio por mais meia hora. Margaret às vezes pedia que os vendedores se aproximassem para levar de volta algumas bijuterias ou trazer outras. Ela comprara, a um preço ridículo, dois colares para Letty, dizendo a si mesma que seriam um ótimo presente, mesmo sabendo que o gesto representaria uma tentativa boba de tranquilizar sua consciência. Quando o calor ficou intolerável e o sol cada vez mais alto deslocou a sombra sob a qual estavam, ela pensou em sair dali. Mas não havia nenhuma atividade prevista para aquele dia, pois pensavam que elas iriam desembarcar, e a ideia de voltar para a pequena cabine e começar a discutir umas com as outras era insuportável.
Ela estava distraída, observando ao redor, quando percebeu que um pequeno barco a motor avançava na direção do navio. Notou o quepe do comandante e algumas silhuetas a bordo, que se tornaram cada vez mais visíveis conforme o barco se aproximava. Ela ouviu exclamações de alegria vindo de toda a extensão do navio, conforme outras mulheres entendiam do que se tratava.
— Meninas! — gritou ela. — É o correio! Temos correio!
Uma hora mais tarde, estavam sentadas no refeitório, onde a expectativa se misturava ao habitual cheiro de repolho do ambiente. Uma oficial da Cruz Vermelha recolhia a correspondência que seria enviada e distribuía os pequenos pacotes de cartas que estavam na mesa de cavalete ao fundo. O anúncio de cada nome era saudado com gritos entusiasmados da destinatária e de suas amigas, como se estivesse sendo chamada para receber um prêmio e não uma carta. As janelas ao redor, que estavam abertas para deixar a brisa do mar entrar, refletiam a claridade do dia e reproduziam o brilho do oceano.
Jean tinha sido uma das primeiras a ser chamada à mesa: o impressionante pacote de sete cartas de Stan a ajudara a recuperar parte da sua vitalidade. Ela as entregou a Frances, que leu com sua voz suave e sonora, enquanto Jean, nervosa, dava baforadas no cigarro.
— Ouviram isso? — interrompia ela o tempo todo. — Ele tatuou meu nome no braço direito. Em duas cores! E dói um bocado.
Margaret e Frances tinham se entreolhado.
— E ele ganhou quatro libras em uma luta de boxe — continuou Frances. — Disse que o adversário achava que tinha sido uma boa ideia tentar conter os socos de Stan com o nariz.
— Ouviram isso? — Jean cutucou Margaret. — O sujeito tentou conter os socos com o nariz!
Se a risada dela foi um pouco alta demais para sugerir uma alegria genuína, ninguém se manifestou. Já bastava que ela estivesse rindo.
Mais tarde, Frances confessaria que tinha deixado de ler vários parágrafos: os que recomendavam que Jean “se comportasse bem” e o que contava a história de uma namorada que foi abandonada por um dos amigos de Stan depois de saber que ela “andava pintando e bordando”.
— Margaret O’Brien?
Margaret saiu da cadeira numa velocidade quase incompatível com o seu estado físico. Ofegante, se jogou na direção do maço de cartas que lhe deram e voltou feliz e triunfante para o seu lugar, esquecendo-se por um instante da decepção de não ter desembarcado. Por um momento, considerou ir para a cabine e ler sua correspondência sozinha, se isso não fosse ofender ninguém. Mas assim que resolvera fazer essa sugestão, ouviu alguém puxar uma cadeira, então Margaret ergueu os olhos e notou que Avice estava se sentando discretamente diante delas.
Houve uma breve pausa. Um pouco espantada por Avice ter decidido se sentar com elas depois da discussão da noite anterior, Margaret imaginou que talvez a moça quisesse se desculpar.
— Tenho uma novidade! — exclamou Avice.
— Eu também — comentou Jean. — Olhe só. Sete cartas. Sete!
— Não — disse Avice.
Ela exibia um sorriso discreto que parecia esconder um segredo importante. Era uma Avice diferente da garota irritada e de lábios comprimidos que saíra da cabine algumas horas antes.
— É sério, tenho uma novidade — repetiu ela. — Estou esperando.
Houve um silêncio sepulcral.
— Esperando o quê? — perguntou Jean.
— Um bebê, é claro. Fui ao médico.
— Tem certeza? — questionou Frances. — Esse Dr. Duxbury não me parece a pessoa… mais confiável…
Ela se lembrou da última vez em que o tinha visto, cantando diante do armário de equipamento médico.
— Ah, então agora as enfermeiras sabem mais do que os médicos, é isso?
— Não, eu só…
— O Dr. Duxbury fez um exame de sangue, mas também me fez várias perguntas e me examinou. Ele tem certeza absoluta.
Ela passou a mão no cabelo e olhou ao redor, talvez na esperança de poder dividir a notícia com uma plateia maior.
— Pensando bem, acho que faz sentido — disse Margaret.
As outras duas se entreolharam.
Avice não conseguia se conter. Seu rosto estava iluminado, as bochechas coradas de animação.
— Um bebê! Dá para imaginar? Eu sabia que não podia estar enjoada por causa do balanço do navio. Já andei de barco inúmeras de vezes e não passei mal. Margaret, você tem que me dizer tudo o que preciso comprar. Acha que vendem roupa de bebê na Inglaterra? Vou pedir para minha mãe mandar tudo o que for possível.
Margaret se levantou e a abraçou por cima da mesa.
— Avice, que ótima notícia. Parabéns. Que bom para vocês.
— Caramba! Quer dizer que todo aquele enjoo era porque você estava grávida? — perguntou Jean com os olhos arregalados.
Ela parecia realmente feliz. Frances não deve ter lhe contado sobre a traição de Avice, pensou Margaret, e sentiu uma súbita tristeza pela amiga.
— Ele acha que já estou com nove ou dez semanas. Fiquei chocada quando me falou. Mas estou muito feliz. Ian vai ficar emocionado. Ele vai ser um excelente pai — disse Avice e depois começou a cantarolar, com a mão fina apoiada na barriga reta, já imaginando uma futura vida em família.
Margaret estava espantada com a capacidade que Avice tinha de deixar para lá os acontecimentos das últimas horas.
— Stan fez uma tatuagem com meu nome — contou Jean, mas Avice não deu ouvidos.
— Acho que vou fazer um pedido especial ao comandante para telegrafar à minha família e dar a notícia. Não sei se consigo esperar até chegar à Inglaterra. — Seu nome, chamado por uma voz hesitante, ecoou no refeitório. — Cartas! — exclamou ela, se levantando. — Cartas! Estou tão animada que nem pensei mais nelas… Ah, vocês já receberam as suas.
Ela olhou para Frances, como se de repente se lembrasse de tudo, e então ficou quieta.
— Parabéns — disse Frances, sem olhar para Avice.

* * *

O nome de Frances foi chamado uma hora mais tarde, quase o último, e ressoou no refeitório antes lotado e naquele momento praticamente vazio. Margaret tinha pensado várias vezes em deixá-las e voltar à cabine para desfrutar sozinha das palavras de Joe e depois ler tudo de novo, aproveitando o silêncio. Mas naquele momento havia tanta tensão entre as outras mulheres, e Jean ainda estava tão fragilizada que ela se sentiu na obrigação de esperar.
Avice recebera duas cartas da família, e duas muito antigas de Ian, enviadas apenas dois dias após ele ter ido embora de Sydney.
— Vejam a data — dissera, irritada. Parecia considerar um insulto pessoal o fato de Jean e Margaret terem recebido mais cartas do que ela. — A de Ian fora escrita havia quase seis semanas. Francamente, o mínimo que a Marinha poderia fazer era garantir que nossas cartas sejam entregues no prazo. Como posso pensar em dar a notícia do bebê se ele só vai receber minha próxima carta uma semana depois de chegarmos a Plymouth?
Com péssimo humor, ela deu uma olhada no selo.
— Tem algo errado. Eu já devia ter recebido muitas outras. Com certeza estão empilhadas em algum correio não sei onde.
— Acho que você só não teve sorte, Avice — disse Margaret, distraída.
Àquela altura, ela já tinha lido várias vezes a primeira carta de Joe. Ele tivera o cuidado de numerá-las para que ela pudesse ler na ordem correta. “Olá, meu amor”, escrevera. “Espero que quando receber esta carta você esteja a bordo do Victorious. Quase não consegui acreditar quando me contou que ia viajar nesse navio velho. Preste atenção em um tal de Archie Littlejohn. Ele é do setor de rádio. Trabalhamos juntos em 1944. É um bom sujeito. Com certeza vai dar uma atenção especial a você. Aliás, imagino que não tenha um único homem a bordo que não queira dar uma atenção especial às passageiras. É uma turma boa essa do Vic.”
Margaret engoliu em seco enquanto ouvia as palavras do marido na sua cabeça e pensou na grande confiança que Joe tinha na bondade das pessoas à sua volta. Observou Jean, que não tirava os olhos das cartas de Stan.
— Quer que eu te ensine a ler? — sugeriu ela. — Durante a viagem? Aposto que estará craque quando desembarcarmos.
— É mesmo?
— Não é difícil — afirmou Margaret. — Uma ou duas horas por dia e logo você vai se tornar um rato de biblioteca.
— Stan não sabe… sobre essa história de leitura. Sempre pedi para minha amiga Nancy escrever as cartas para mim, entende? Mas quando embarquei me dei conta de que, se outra pessoa escrevesse no lugar de Nancy, a letra seria diferente.
— Mais uma razão para você começar logo — insistiu Margaret. — Vai poder escrever suas próprias cartas. Aposto que Stan não vai notar nenhuma diferença.
O evidente entusiasmo de Jean melhorou o humor de Maggie.
— Acha mesmo que eu conseguiria? — perguntava a menina sem parar, rindo com as respostas afirmativas de Margaret. Sua mãe sempre a chamara de burra, revelou Jean, cada hora olhando para uma. — No final das contas, burra é ela, que continuou lá, trabalhando na fábrica de biscoitos, e eu estou em um navio a caminho de Blighty. Não é verdade?
— É mesmo — confirmou Margaret com voz firme. — Ande, me passe seus envelopes. Vou escrever o alfabeto.
Frances tinha voltado à mesa. Avice ergueu os olhos das suas cartas para ver o que ela tinha nas mãos.
— Só uma? — perguntou, sem se preocupar em esconder o sorriso.
Frances estava impassível.
— É de um antigo paciente meu — explicou, com uma satisfação contida. — Ele já está em casa e voltou a andar.
— Que notícia boa — disse Margaret, dando um tapinha no braço da amiga.
— Nada do seu marido?
— Avice… — censurou Margaret, em tom de advertência.
— Bem, perguntei por perguntar.
Houve um breve silêncio.
Margaret ameaçou falar, mas não conseguia pensar no que dizer.
— Ah, bem. Talvez ele tenha ficado emocionado demais com a ideia de ver você de novo em breve — sugeriu ela, por fim.
Avice ergueu as sobrancelhas, se levantou e saiu andando devagar.


Por não ter recebido resposta a nenhuma das minhas cartas, escrevo apenas por educação para que saiba que entrei com um pedido de divórcio com base em três anos de abandono do lar. Embora você e eu saibamos que isso talvez não esteja totalmente correto, espero que não conteste o pedido. Anton vai pagar minha passagem e a das crianças para os Estados Unidos, onde vamos encontrá-lo. Sairemos de Southampton no dia 25. Eu teria preferido que fizéssemos isso de maneira civilizada, ao menos pelas crianças, mas é evidente que você está determinado a me mostrar a mesma falta de interesse que teve durante todo o tempo em que esteve fora.
Onde está sua humanidade? Talvez não tenha sobrado nada de você embaixo das suas normas e dos seus regulamentos. Sei que as coisas devem ter sido difíceis para você. Entendo que talvez tenha visto e enfrentado horrores indescritíveis, mas nossa vida continua aqui. Teríamos sido seu porto seguro se nos tivesse permitido.
Agora não sinto culpa nenhuma por escolher outra vida, uma vida melhor, para mim e para meus filhos…

— Qual é o problema, Nicol? Você está um pouco pálido. Também recebeu um daqueles telegramas dizendo que não é mais bem-vindo? — Jones, o galês, estava deitado na rede, folheando pelo menos uma dúzia de cartas. Deviam ser de pelo menos uma dúzia de mulheres.
Nicol estava com os olhos fixos na sua, mas parecia não vê-la. Amassou e a enfiou no bolso.
— Não — respondeu e, em seguida, tossiu para disfarçar o tremor na voz. — Não… só algumas notícias de casa.
Alguns homens à sua volta se entreolharam.
— Tem alguém doente? — perguntou Jones.
— Não. — O tom da voz de Nicol impediu novas perguntas.
— Bem, você está com uma aparência péssima. Na verdade, faz semanas que está assim. Trabalhar no turno intermediário deixa você desse jeito, não acham, rapazes? Sabe do que você precisa, meu chapa? — Ele fingiu dar um soco no braço de Nicol. — Precisa de um pouco de diversão. Esta noite é sua folga, não é? Venha para a terra firme com a gente.
— Ah… Acho que prefiro dormir.
— É sua folga, rapaz. Acredite ou não, Nicol, até você tem direito a uma folga de vez em quando.
— Vou ficar aqui. Tenho algumas coisas para colocar em dia.
— Desculpe, meu chapa, mas não consigo acreditar. Você está cheio da grana e com uma aparência horrível. O Dr. Jones aqui está dizendo que o único remédio é dar um jeito nas duas coisas. Durma por cerca de duas horas agora. Depois saia com a gente. Vamos encher a cara.
Nicol começou a recusar, mas logo sentiu um inexplicável alívio com a insistência bem-humorada de Jones. A ideia de ficar diante daquela porta metálica mais uma madrugada, sozinho com seus pensamentos, era insuportável.
— Tudo bem — falou, e depois abriu sua rede e se enfiou depressa ali dentro.
— Combinado. Me acordem meia hora antes de sair.

* * *

Elas tinham comido juntas, não tanto por uma grande vontade de Avice de partilhar as refeições com as colegas, suspeitava Margaret, mas porque Irene e as amigas haviam deixado claro, com sussurros e olhares frios, que ela não era mais bem-vinda naquele grupo. Maggie tinha observado Avice se preparar para dividir a mesa com as amigas e contar a novidade, até perceber que era sobre isso que elas falavam, e de forma nada simpática. Mesmo um pouco chateada, seus olhos se desviavam para elas cada vez que as ouvia rir. Depois, ajeitara o cabelo antes de se sentar na frente de Margaret.
— Sabe, acabei de lembrar o que eu não suportava nessa Irene Carter — disse, com a voz baixa. — Ela é extremamente grosseira. Não faço ideia do que eu via nela.
— É ótimo fazermos uma refeição juntas, para variar — comentou Margaret, tranquila, ignorando o silêncio de Frances.
— Ótimo é Avice não vomitar, isso sim — acrescentou Jean.
— O correio se enganou na sua correspondência, Frances, ou você realmente só recebeu uma carta? — perguntou Avice.
— Sabe de uma coisa, Avice? — começou Margaret, erguendo o tom de voz e empurrando o prato. — Tivemos uma conversa maravilhosa mais cedo sobre como nossos maridos nos pediram em casamento. Aposto que você adoraria nos contar como foi o pedido de Ian, não é mesmo?
Margaret percebeu o olhar de Frances. Poderia indicar gratidão ou algo totalmente diferente.
— Ainda não contei? Jura? Ah, foi o melhor dia da minha vida. Bem, depois do dia do nosso casamento, é claro. Esse é sempre o dia preferido da mulher, não acham? E, no nosso caso, não podíamos ter o tipo de casamento que eu gostaria, por causa da posição social da minha família e tudo o mais… Não, precisava ser uma coisa mais íntima. Mas, ah, o pedido de Ian. Ah, sim… — Ela fechou os olhos. — Querem saber? Ainda está muito vívido na minha memória, quase como o cheiro de um perfume…
— Foi um pouco como o de Margaret, então — observou Jean.
— Assim que o vi, tive certeza de que ele era o homem da minha vida. E ele diz a mesma coisa sobre mim. Ah, meninas, ele é tão fofo… E faz tanto tempo que não nos falamos… Não consigo suportar isso. Ele é o homem mais romântico do mundo. Nunca pensei que me casaria com um militar, sabe. Eu não era daquelas que vivem atrás de um uniforme, que ficam fascinadas quando veem alguém de branco. Na verdade, eu estava ajudando em um desses chás dançantes… Não sei se tem algo parecido na cidade de vocês… Então o vi, e foi isso. Logo soube que seria a Sra. Radley.
— E o que ele fez? — perguntou Jean, acendendo um cigarro.
— Bem, foi um perfeito cavalheiro. Sabíamos que nos amávamos… Ele chegou a me dizer que estava completamente obcecado por mim, podem imaginar uma coisa dessas? Mas depois confessou que estava preocupado, porque não sabia como eu enfrentaria a vida de esposa de um militar. Quer dizer, se eu aguentaria bem todas as separações, a insegurança… Ele falou que talvez fosse injusto me fazer passar por tudo aquilo. Mas respondi: “Posso parecer uma flor delicada… Meu pai dizia que eu era sua ‘florzinha de jasmim’, mas, na verdade, sou muito forte. De verdade. Sou muito determinada.” Acho que no fim das contas até Ian reconheceu isso.
— Mas o que aconteceu? — insistiu Margaret, lambendo a colher do seu chá.
— Bem, nós dois estávamos muito impacientes. Meu pai preferia que esperássemos, e como Ian não queria irritá-lo, respondeu que sim. Mas eu não suportava a ideia de nos separarmos apenas como noivos.
— Estava preocupada que ele arranjasse outra? — perguntou Jean.
— Ele então conseguiu permissão do comandante e corremos para nos casar diante de um juiz de paz. Foi desse jeito. Incrivelmente romântico.
— Que história linda, Avice — disse Margaret. — Vou pegar mais chá. Alguém quer?
Lá fora o céu escurecia. O pôr do sol acontecia muito depressa naquele lugar, e o dia parecia impaciente para virar noite. O navio estava mais silencioso do que o habitual, apesar da presença feminina, como se a ausência dos homens tivesse escoado para outros conveses, dominando-os.
— Vou dar uma olhada se tem algum filme programado para hoje — disse Jean. — Talvez tenham decidido passar algum, porque estamos todas aqui.
— Não há nada — informou Avice. — Só um aviso de que a próxima sessão será amanhã à tarde.
— Os homens devem estar em terra agora — comentou Margaret, olhando pela janela. — Que sorte a deles!
— E o seu marido, Frances? — perguntou Jean, apoiando o queixo nas mãos, com a cabeça inclinada para o lado. — Como ele fez o pedido de casamento?
Frances se levantou e começou a empilhar os pratos em uma bandeja.
— Ah, não é muito interessante.
— Tenho certeza de que vamos adorar — retrucou Avice.
Frances olhou com raiva para ela.
Margaret pensou que talvez fosse melhor tentar mudar o rumo da conversa, mas precisava admitir uma curiosidade dissimulada.
Então elas esperaram. Após um instante de hesitação, Frances se sentou com os pratos sujos empilhados à frente. Ela contou sua história em voz baixa e sem emoção, suas palavras eram o extremo oposto do relato apaixonado de Avice. Ela o conhecera na Malásia, enquanto trabalhava como enfermeira. Soldado mecânico “Chalkie” Mackenzie, vinte e oito anos, natural da cidade de Cheltenham. Tinha ferimentos provocados por estilhaços de granada, que infeccionaram por causa da umidade tropical. Ela cuidara dele e, com o passar das semanas, ele se apaixonou.
— Às vezes, quando tinha febre, ele delirava e achava que já estávamos casados. As enfermeiras não podiam ter qualquer tipo de ligação com os homens, mas o comandante dele, que estava no leito ao lado, não o recriminava, ao contrário de todos na enfermaria. Fazíamos qualquer coisa para que ele se sentisse melhor.
— Então, em que momento ele fez o pedido? — perguntou Jean.
Acima delas, as luzes de neon se acenderam de repente, iluminando os rostos das mulheres.
— Bem… Ele me pediu várias vezes, na verdade. Não foi só uma ocasião. Acho que foram uns dezesseis pedidos até eu aceitar.
— Dezesseis! — exclamou Avice.
Era como se ela não conseguisse acreditar que Frances fosse capaz de provocar tanta persistência em alguém.
— O que a levou a dizer sim, no fim das contas? — perguntou Margaret.
— O que o fez insistir tanto? — murmurou Avice.
Mas Frances se levantou e conferiu o relógio.
— Meus Deus, Maggie! Veja que horas são. Sua cachorrinha já deve estar louca por um passeio.
— Ah, droga! Você tem razão. É melhor descer logo — concordou Margaret.
Assentindo para as outras, Frances e ela quase saíram correndo em direção à cabine.

* * *

As garotas se beijaram, depois se viraram para ele e riram da sua ausência de reação. A mais baixa se reclinou para trás no banco do bar, lançou para o homem um olhar descontraído e estendeu a perna nua. A outra, com um vestido verde exageradamente grande para seu corpo magro, murmurou alguma coisa que ele não entendeu e se inclinou para a frente para bagunçar seu cabelo.
— Duas, duas. — Ela ergueu dois dedos. — Muita diversão. Duas, duas.
No início, ele tinha pedido mais um drinque para cada uma. Levara alguns minutos para entender o que ela sugeria. Então balançou a cabeça, mesmo quando ela reduziu o preço para quase um terço do valor original.
— Acabou o dinheiro — disse ele, e as palavras soaram estranhas e vagas aos seus ouvidos. — Não sobrou nada.
— Não, não — insistiu a de vestido verde. Era como se ela já houvesse escutado muitas recusas e nenhuma a tivesse feito desistir. — Duas, duas. Muita diversão.
Em algum momento naquela noite ele havia perdido o relógio, e não fazia mais ideia do horário. Na rua, homens gritavam ou arranjavam brigas idiotas. As mulheres subiram a escada e sumiram, mas logo desceram para conversar ou discutir com as amigas. Do lado de fora, a placa luminosa do bar fornecia uma iluminação azul para o amanhecer frio e cinzento.
Na parede atrás das mulheres, ele viu uma foto de Eisenhower, que provavelmente foi dada por algum soldado de passagem. Que horas seriam nos Estados Unidos? Nicol tentou se lembrar de como havia calculado a diferença mais cedo naquela noite.
No fundo da sala, meio sentado e meio deitado sobre uma banqueta, Jones, o galês, enfiava cigarros na boca de uma garota e ria quando ela tossia e os cuspia.
— Não inale tanta fumaça — dizia ele, enquanto ela lhe batia de brincadeira com a mão fina. — Isso vai lhe fazer mal. — Ele percebeu que Nicol o observava. — Ah… não… Não me diga que também gosta de Annie. Seu egoísta desgraçado! Você já tem duas!
Nicol tentou formular uma resposta, mas as palavras ficaram presas na sua garganta.
— Um brinde às esposas e às namoradas — propôs Jones, o galês, com o copo no alto. — Que elas nunca se encontrem.
Nicol ergueu o copo na direção do colega e bebeu um gole.
— E nada de “depósito de lixo” — murmurou.
Ao ouvir isso, Jones caiu na gargalhada.
A última visita deles ao Ceilão havia sido a serviço, não de folga. Eles faziam parte da “patrulha da bebida”, encarregada de encontrar marinheiros que, com o envelope de pagamento no bolso, mas sem nenhum juízo ou inibição, aproveitavam as poucas horas de liberdade para tomar o máximo possível de qualquer bebida local que encontrassem, culminando em resultados desastrosos.
Pouco antes do amanhecer, ele e Jones haviam tirado marinheiros de inúmeros bordéis e encontrado vários outros quase em coma, caídos perto de um depósito de lixo. Durante a farra noturna, é claro que acabaram tendo tudo roubado: dinheiro, relógios, cadernetas de pagamento e até crachás. No estado em que se encontravam, não conseguiam raciocinar nem falar. Sem documentos para identificar os homens, os dois haviam decidido abandoná-los, ainda com seus uniformes imundos e fedorentos, perto do navio aliado mais próximo. Lá eles enfrentariam uma dose dupla de raiva: dos superiores do navio em que os largaram e dos oficiais do navio ao qual realmente pertenciam.
— Você tem razão. Nada de depósito de lixo para nós, meu chapa — disse Jones, erguendo o copo. — Só se lembre de dizer Viceroy. Entendeu? Não se esqueça do nome do seu navio: Viceroy.
Ele deu mais uma gargalhada.
— Agora venha.
A garota de vestido verde o puxava pela manga. A outra sumira. Ela segurou sua mão com a confiança de uma criança e o puxou na direção da escada. Ele precisou se soltar dela para conseguir subir, agarrado ao corrimão, enquanto os degraus de madeira oscilavam sob seus pés como o convés durante uma tempestade.
A porta do quarto parecia leve como papel. A fragilidade das paredes ficava evidente pelos ruídos que vinham do cômodo ao lado.
— Muita diversão para eles, não?
Ela acompanhou o olhar dele e riu.
Ele sentiu um súbito cansaço e desabou sentado na lateral da cama, observando-a tirar o vestido. Reparou nas vértebras salientes dela sob a pele pálida. Isso o fez pensar em Frances, nas mãos finas dela quando segurou a foto dos seus filhos que ele lhe mostrou.
— Pode me ajudar? — perguntou ela, se virando depressa e apontando para o zíper.
O lençol parecia ter sido impecavelmente lavado. Ao lado, em cima de uma mesa instável, havia uma garrafa com um belo arranjo de flores. Esses dois detalhes domésticos provocaram nele o desejo de algo bem distante da depravação que ele ouvia no quarto ao lado e fizeram lágrimas brotar em seus olhos.
— Desculpe — disse ele. — Acho que não…
Ela se virou e ele viu sua expressão severa.
— Sim, sim — disse ela, e logo recuperou o sorriso. — Você vai ficar feliz. Já nos encontramos alguma vez? Você me conhece. Faço você feliz.
— Desculpe — repetiu ele.
Ela agarrou sua mão com uma força surpreendente. O olhar dela na direção da porta o fez supor que ela não queria que ele fosse embora.
— Espere um pouco — pediu ela.
— Só quero…
— Fique mais um pouco. Só um pouco.
Ele percebeu que os olhos dela a faziam parecer mais velha. Havia algo neles que indicava cansaço e resignação, mesmo quando ela sorria com malícia e piscava feito uma menina. Agora que a olhava de perto, notou que estranhamente seus seios pareciam não ter um formato definido, como se ainda não tivessem acabado de crescer. Quando observou suas mãos, reparou que ela roía as unhas até quase sangrar, como sua irmã fazia, tempos atrás, num descaso quase infantil com a aparência. Nicol fechou os olhos, invadido por uma súbita vergonha por ter se envolvido naquela situação. É isso que a guerra faz, pensou. Mesmo com quem sobrevive. Faz com todos nós, no fim das contas.
Então sentiu o peso da moça sobre seu corpo, e as mãos leves dela acariciaram seu rosto.
— Por favor, espere mais um pouco — sussurrou ela no ouvido dele.
Ele sentiu seu perfume, forte e enjoativo, que contrastava com sua juventude e o corpo franzino.
Ela passara os braços ao redor do seu pescoço e o empurrava para baixo.
— Fique aqui mais um pouco comigo.
Seus dedos ágeis desceram pelo corpo dele e ela deixou escapar uma exclamação abafada quando ele segurou sua mão para impedi-la de continuar.
— Não tenho mais nada. Estou vazio por dentro.
Então, enquanto ela se apoiava nele e buscava no seu olhar sombrio algum indício da sua intenção, ele apoiou a cabeça no travesseiro. Pela janela parcialmente aberta ele ouvia gritos. Um cheiro forte de fritura misturado com gengibre tomou conta do quarto. Ele pegou a mão dela.
— Conte alguma coisa.
Ele sentia a respiração suave dela no seu pescoço, cautelosa, em expectativa, e teve a impressão de que logo pegaria no sono.
— Estou fazendo você feliz agora? — sussurrou ela.
Ele hesitou. Sabia que provavelmente essas seriam as últimas palavras que diria naquela noite:
— Que horas são nos Estados Unidos?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!