30 de março de 2019

Capítulo 10

O bar onde Elena e Damon foram parar era animado e cheio, mas, obviamente, Damon cuidou para que não tivessem de esperar por uma mesa. Ele se recostava em um lado da cabine, com a aparência arrogante e relaxada de um felino grande e lindo, e ouvia tranquilamente Elena falar. Ela se viu tagarelando alegremente, dando-lhe todas as minúcias da vida no campus até agora, da descoberta de que o professor Campbell conheceu seus pais às personalidades dos outros alunos que ela conheceu nas aulas.
— O elevador estava realmente lotado e era lento, e as costas da minha dupla de laboratório estavam tocando nos botões. De algum jeito ela apertou o alarme por acidente e ele disparou. — Elena tomou um golinho do refrigerante. — De repente, apareceu uma voz do nada e perguntou: “Você tem uma emergência?” e ela respondeu: “Não, foi um acidente”. A voz disse: “O quê? Não estou ouvindo.” Ficou assim, de lá para cá, até que ela começou a gritar: “Acidente! Acidente!”
Damon parou de traçar desenhos com o dedo na condensação do copo e a olhou por entre os cílios, torcendo os lábios num sorriso.
— Quando a porta se abriu no térreo, havia quatro seguranças ali com um kit de primeiros socorros — concluiu Elena. — Não sabíamos o que fazer, então passamos direto por eles. Quando saímos do prédio, começamos a correr. Foi tão constrangedor, mas não conseguíamos parar de rir.
Damon deixou que um leve sorriso se abrisse — não o torcer habitual e frio de seus lábios nem o sorriso breve, brilhante e enigmático vem-e-vai, mas um sorriso sincero de inchar as bochechas.
— Gosto de você assim — disse ele de repente.
— Assim como? — perguntou Elena.
— Relaxada, acho. Desde que nos conhecemos, você vivia no meio de uma crise ou outra. — Ele ergueu a mão e tirou um cacho de seu rosto, gentilmente tocando a bochecha dela.
Elena estava vagamente ciente do garçom parado perto da mesa, esperando que eles levantassem a cabeça para ele, enquanto respondia com um leve toque de sedução.
— Ah, e você não teve nada a ver com isso?
— Eu não diria que sou o principal culpado, não — disse Damon friamente, fechando o sorriso. Ele levantou a cabeça, com os olhos aguçados e sagazes. — Olá, Stefan.
Elena ficou paralisada de surpresa. Não era o garçom, então. Era Stefan. Um olhar para ele e ela estremeceu, o estômago se contraindo. Seu rosto podia ter sido entalhado em pedra. Ele olhava para a mão de Damon, ainda estendida na mesa em direção a Elena.
— Oi — disse ela, insegura. — Como foi seu grupo de estudo?
Stefan a olhou.
— Elena, procurei você por toda parte. Por que não atendeu o telefone?
Pegando o celular, Elena viu que havia várias mensagens de Stefan.
— Ah, não. Desculpe. Não ouvi tocar.
— A gente ia se encontrar — disse Stefan, sério. — Fui até seu quarto e você simplesmente tinha sumido. Elena, as pessoas estão desaparecendo por todo o campus.
Ele tinha ficado assustado, com medo de que algo terrível tivesse acontecido a ela. A expressão de Stefan ainda estava carregada de ansiedade. Ela começou a estender a mão para reconfortá-lo. Sabia que era difícil para Stefan aceitar o fato de que ela perdera o Poder que teve por tão pouco tempo. Ele achava que a mortalidade dela a deixava frágil, e tinha medo de perdê-la. Ela devia ter pensado nisso, devia ter deixado um recado para ele que dissesse mais do que “volto logo”.
Antes que ela conseguisse tocar nele, o olhar de Stefan se voltou para Damon.
— O que está havendo? — perguntou ele ao irmão, com a voz cheia de frustração. — Foi por isso que você nos seguiu até a faculdade? Para se fixar em Elena?
A mágoa que apareceu na expressão de Damon foi apenas uma sombra sutil, e desapareceu tão rapidamente que Elena nem teve inteira certeza se realmente a vira. Suas feições se acomodaram numa expressão de desdém indolente, e Elena ficou tensa. A paz entre os irmãos era tão frágil — ela sabia disso — e, ainda assim, ela havia deixado que Damon a paquerasse. Ela era tão idiota.
— Alguém precisa cuidar da segurança dela, Stefan. — Damon arrastou as palavras. — Você está muito ocupado brincando de humano, não é? Grupos de estudo. — Ele ergueu uma sobrancelha com escárnio. — Estou surpreso que não tenha notado que há algo acontecendo no campus. Preferia que Elena ficasse sozinha em perigo do que comigo?
Linhas tensas se formavam na boca de Stefan.
— Está dizendo que não há motivos ocultos aqui? — perguntou ele.
Damon gesticulou com desprezo.
— Você sabe o que sinto por Elena. E Elena sabe o que sinto também. Até o Mutt que adora esportes sabe como são as coisas entre nós. Mas o problema não sou eu, maninho... É você e seu ciúme. Você querendo ser um “humano comum” — Damon fez aspas com os dedos — e ainda assim continuar com Elena, que não tem nada de comum. Você quer ter tudo ao mesmo tempo. Eu não fiz nada de errado. Elena não teria saído comigo se não quisesse.
Elena estremeceu de novo. Seria sempre assim? Qualquer passo em falso de sua parte faria com que Damon e Stefan voassem no pescoço um do outro?
— Stefan... Damon — implorou ela, mas eles a ignoraram.
Eles se fuzilavam com os olhos. Stefan se aproximou, flexionando os punhos, e Damon cerrou o queixo, desafiando Stefan em silêncio a mexer um dedo que fosse. Pela primeira vez, Elena viu uma semelhança entre eles.
— Não posso fazer isto — disse ela. Sua voz parecia fraca e baixa aos próprios ouvidos, mas os irmãos Salvatore a ouviram, e viraram a cabeça com uma velocidade sobrenatural. — Não posso fazer isto — repetiu Elena, mais alto e com mais firmeza. — Não posso ser Katherine.
Damon fez uma careta.
— Katherine? Acredite, querida, ninguém aqui quer que você seja Katherine.
Stefan, com a expressão mais branda, falou:
— Elena, meu amor...
Ela o interrompeu.
— Escutem-me. — Ela enxugou os olhos. — Eu estive pisando em ovos, tentando evitar que isto... esta coisa entre nós três nos separe. Se alguma coisa boa veio de tudo que aconteceu é que vocês se encontraram, começaram a ser irmãos de novo. Não posso...
Ela respirou fundo e tentou encontrar um tom sensato e prático em algum lugar dentro de si.
— Acho que devemos dar um tempo — continuou ela categoricamente. — Stefan, eu o amo muito. Você é minha alma gêmea, é tudo para mim. Sabe disto.
Ela o olhou, suplicante, pedindo em silêncio para ele entender. Depois seus olhos passaram dele para Damon, que a fitava de testa franzida. Prosseguiu:
— E Damon, você faz parte de mim agora. Eu... sinto por você. — Ela olhava de um para o outro, as mãos segurando cada um deles. — Não posso perder nenhum dos dois. Mas preciso pensar em quem sou agora, depois de tudo que aconteceu, e preciso fazer isso sem ter medo de destruir a relação de vocês. E precisam entender que podem ser amigos, mesmo que eu esteja na vida dos dois.
Damon soltou um ruído cético, mas Elena continuou falando.
— Eu vou entender — ela engoliu em seco — se não quiserem esperar por mim. Mas eu sempre, sempre amarei vocês. Os dois. De jeitos diferentes. Mas, por enquanto, não posso ficar com vocês. Com nenhum dos dois.
Ela estava chorando de novo, e suas mãos tremeram ao enxugar os olhos.
Damon se inclinou sobre a mesa com um sorrisinho torto pairando nos lábios.
— Elena, você acabou de terminar com nós dois?
As lágrimas secaram instantaneamente.
— Damon, eu nunca namorei você — disse ela com raiva.
— Eu sei. — Ele deu de ombros. — Mas não tenho dúvida de que acabei de ser largado. — Ele olhou para Stefan, depois rapidamente virou o rosto, com a expressão fechada.
Stefan ficou arrasado. Por um momento, seu rosto estava tão melancólico que era difícil acreditar que ele tinha mais de 500 anos.
— O que você quiser, Elena. — Ele ia estender a mão para ela, mas a recolheu. —— Independentemente de qualquer coisa, eu sempre a amarei. Meus sentimentos não vão mudar. Leve o tempo que precisar.
— Tudo bem. — Elena se levantou, trêmula. Tinha vontade de vomitar. Metade dela queria puxar Stefan, beijá-lo até aquela expressão magoada desaparecer. Mas Damon a observava com o rosto inescrutável, e tocar em qualquer um deles seria... um erro. — Preciso ficar sozinha por um tempo — disse ela.
Ela sabia que, em qualquer outro momento, os dois teriam protestado à ideia de ela andar sozinha pelo campus. Eles teriam discutido, seguido Elena, qualquer coisa para garantir a segurança dela.
Agora, porém, Stefan deu um passo de lado, cabisbaixo, para ela poder sair da mesa. Damon ficou imóvel e a observou sair, de olhos semicerrados.
Elena não olhou para trás ao atravessar a porta do bar. Suas mãos tremiam e os olhos transbordavam de lágrimas mais uma vez. Porém ela também sentia como se houvesse carregado algo muito pesado por um tempo e finalmente tivesse conseguido soltar.
Esta pode ser a melhor decisão que tomei em muito, muito tempo, pensou ela.

Querido Diário,
Sempre que me lembro do rosto de Stefan quando eu disse a ele que precisava de espaço, meu peito dói. Parece que não consigo respirar.
Eu jamais quis magoá-lo. Nunca. Como poderia? Somos tão próximos, tão envolvidos; ele é como um pedaço de minha alma — sem ele, não sou completa.
Mas...
Também amo Damon. Ele é meu amigo — minha imagem especular sombria —, o inteligente e maquinador que fará o que for preciso para ter o que quer, mas com uma gentileza por dentro que nem todos veem. Também não me imagino vivendo sem Damon.
Stefan quer me prender demais. Ele gosta do irmão — de verdade —, e Damon também gosta dele, e ter a mim entre os dois está confundindo tudo.
Nós três temos ficado próximos demais por causa das crises com que tivemos de lidar recentemente — minha morte e renascimento, o ataque de Klaus, a volta de Damon da morte, o ataque do espectro —, e cada gesto que fizemos, cada pensamento que tivemos envolveu os outros dois. Não podemos continuar assim.
Sei que tomei a decisão certa. Sem mim entre eles, os dois podem se tornar irmãos novamente. Depois posso arrumar os fios embaraçados de minhas relações com os dois sem ter de me preocupar que cada atitude minha vá romper o tênue laço entre nós.
É a decisão certa. Ainda assim, parece que estou sofrendo uma morte lenta. Como posso viver por um segundo que seja sem Stefan?
Tudo que posso fazer é tentar ser forte. Se eu perseverar, vou passar por isto. E no fim tudo será maravilhoso. Tem de ser.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!