14 de março de 2019

Capítulo 10

A viagem foi um pesadelo. Devido a panes, levou oito semanas. Tivemos um assassinato, um suicídio, um oficial da Força Aérea que enlouqueceu etc. Tudo isso tendo como pano de fundo uma tripulação que negligenciou seu trabalho para ter tempo de correr atrás das “esposas” e depois teve relações sexuais com elas, praticamente em público. Eles pareciam usar todos os lugares disponíveis no navio. Houve até um casal que se especializou nos “Ninhos de corvos”.
EXTRAÍDO DOS RELATOS DO FALECIDO RICHARD LOWERY, ARQUITETO NAVAL

DEZESSEIS DIAS

A primeira vez que chegou um “Você não é bem-vinda, não venha” foi na manhã do décimo sexto dia das mulheres a bordo. O telegrama foi recebido pouco depois das oito da manhã na sala de rádio, logo depois dos boletins meteorológicos. Foi o operador de rádio quem viu o conteúdo do telegrama. Ele correu para levá-lo até Highfield, que estava comendo torrada e mingau na câmara. O comandante leu e convocou o capelão que, por sua vez, chamou a oficial de serviço, e os três passaram bastante tempo comentando o que sabiam sobre o temperamento da esposa em questão e formulando hipóteses sobre qual seria a reação dela quando recebesse a notícia.
A esposa do telegrama, uma tal de Sra. Millicent Newcombe (Sumpter, quando solteira), foi chamada à sala do comandante às dez e meia. Eles acharam justo deixar a garota tomar um bom café da manhã primeiro, afinal muitas ainda não tinham se recuperado completamente dos enjoos. Ela chegou com o rosto pálido, convencida de que seu marido, que era piloto de aviões de caça, tinha sido abatido e estava desaparecido, presumidamente morto. Estava tão aflita que nenhum dos três conseguiu contar logo a verdade, apenas a observaram, constrangidos, enquanto ela chorava, com o rosto enfiado em um lenço. O comandante Highfield finalmente decidiu esclarecer as coisas, e disse, com um tom de voz bem claro, que sentia muito, mas era outro caso, não o que ela pensava. Em seguida, entregou o telegrama a ela.
Depois, como ele contou ao seu intendente, a mulher ficou muito pálida, mais ainda do que quando suspeitara que o marido estivesse morto. Perguntou várias vezes se eles achavam que não passava de uma brincadeira, e, ao ouvir que telegramas daquele tipo eram obrigatoriamente investigados e verificados, ela se sentou e leu com atenção as palavras à sua frente, como se não fizessem sentido.
— É a mãe dele. Eu sabia que ela ia colocá-lo contra mim. Eu sabia. — Depois, como todos continuavam em silêncio, ela prosseguiu: — Comprei dois pares novos de sapato. Gastei todas as minhas economias. Para o desembarque. Achei que ele fosse gostar de me ver com sapatos bonitos.
— Tenho certeza de que eram muito bonitos — murmurou o capelão, sem ter nada melhor para dizer.
Em seguida, ela olhou com tristeza para a sala e confessou:
— Não sei o que fazer agora.
O comandante Highfield, em acordo com a oficial, tinha mandado um telegrama para os pais da garota. Depois, entrou em contato com Londres e recebeu a instrução de desembarcá-la no Ceilão, onde um representante do governo australiano cuidaria do seu retorno ao país. O operador de rádio garantiria que os pais dela e outros parentes recebessem informações relevantes. Eles não a deixariam desembarcar antes de confirmar que todos os acertos para sua chegada haviam sido feitos. Esses procedimentos constavam na documentação recebida de Londres pouco tempo antes e tinham sido colocados em prática para as mulheres com retorno antecipado.
— Sinto muito — disse ela, depois que todas as formalidades foram cumpridas. Endireitou os ombros magros e se recompôs. — Quer dizer, por ter causado tanto problema aos senhores. Sinto muito mesmo.
— Não causou problema nenhum, Sra. Hum… Millicent.
A oficial colocara o braço ao redor dos ombros da garota para conduzi-la para a saída. Era difícil saber se o gesto era de proteção ou se apenas demonstrava a determinação de retirá-la logo do escritório do comandante.
A sala ficou em silêncio durante alguns minutos depois que ela saiu, como se, diante de tamanha desolação emocional, ninguém soubesse o que dizer. Ao se sentar, e ainda com a voz triste da jovem ecoando nos ouvidos, Highfield começou a sentir dor de cabeça.
— Vou fazer contato com a Cruz Vermelha no Ceilão, comandante — disse o capelão, por fim. — Para garantir que ela tenha alguém que lhe faça um pouco de companhia e lhe dê algum apoio.
— É uma boa ideia — concordou Highfield. Ele rabiscou alguma coisa sem sentido no bloco de anotações à sua frente. — Acho que também devemos fazer contato com o supervisor desse piloto, só para confirmar que não há nenhuma circunstância atenuante. Dobson, pode cuidar disso?
— Sim, comandante — confirmou o rapaz.
Ele entrara no instante em que Millicent saía, e estava assobiando uma melodia alegre que Highfield achou extremamente irritante.
Ele se perguntou se devia ter ficado mais tempo com a garota, se devia ter pedido que a oficial a convidasse para jantar. Uma refeição na mesa do comandante talvez a consolasse depois da humilhação que sofreu. Mas ele sempre achara difícil avaliar esse tipo de situação.
— Ela vai ficar bem — garantiu Dobson.
— O quê? — perguntou Highfield.
— É provável que, quando deixar o Ceilão, já tenha encontrado outro trouxa. Uma mulher bonita feito ela… — Ele sorriu. — Essas australianas não são muito exigentes. O que elas querem é alguém que as tire das fazendas de criação de ovelhas.
Highfield estava sem palavras.
— Além disso, é uma esposa a menos a bordo, não é, comandante? — Dobson ria, aparentemente satisfeito com o próprio humor. — Com um pouco de sorte, teremos nos livrado do carregamento inteiro quando chegarmos a Plymouth.
Rennick, que estivera o tempo todo no canto, trocou um rápido olhar com o comandante e se retirou em silêncio.

* * *

O mundo, tal como as jovens esposas haviam conhecido, se distanciava cada vez mais conforme as milhas náuticas eram percorridas. Sendo assim, o Victorious se tornara um universo próprio, que existia separadamente da vida que continuava na terra. As rotinas do navio tinham se tornado as rotinas das mulheres, e aqueles rostos que todos os dias passavam ao redor delas, esfregando, pintando ou remendando, viraram sua população. Esse novo mundo se estendia do escritório do comandante em uma das extremidades até a cooperativa (que fornecia batom, sabão em pó, papel de carta e outros itens essenciais, tudo fora da caderneta de racionamento) do outro lado; e do convés de voo, com seu horizonte azul infinito, até o interior dos encanamentos de esgoto e os motores a bombordo e estibordo.
Para algumas mulheres, os dias eram marcados por redigir cartas e por orações; para outras, por palestras e filmes, intercalados com caminhadas pelas áreas liberadas do convés ventoso ou por partidas do estranho jogo de bingo. Com alimentação garantida e a vida ditada por regras, havia poucas decisões a tomar. Abandonadas naquela ilha flutuante, elas se tornaram apáticas e se acostumaram ao novo ritmo, a não ter nada ao redor, exceto a mudança lenta do clima, aos pores do sol cada vez mais espetaculares e ao oceano sem fim. Aos poucos e de forma inevitável, assim como uma mulher grávida não consegue imaginar o parto, se tornava mais difícil para elas pensar no seu lugar de destino. Imaginar o desconhecido demandava enorme esforço.
De qualquer jeito, era ainda mais difícil pensar no passado.
Nesse clima que parecia imperturbável, a notícia do telegrama com aquela mensagem fatídica se espalhou pelo navio com a rapidez e o alcance de um vírus. O espírito coletivo, que dera um clima de férias ao local desde que as mulheres passaram a sentir menos enjoos, de repente piorou e ficou pesado. Um leve tom de ansiedade passou a permear as conversas no refeitório. Muita gente com dor de cabeça e palpitação começou a frequentar a enfermaria. Houve um rápido aumento no número de perguntas sobre a data de chegada do próximo lote de cartas. Pelo menos uma das mulheres confessou ao capelão que talvez tivesse mudado de ideia, como se ao dizer isso e receber uma resposta reconfortante, ela pudesse descartar a possibilidade de que o marido fizesse o mesmo.
Aquele simples pedaço de papel e as palavras impiedosas ali escritas haviam transportado as mulheres de volta, e de maneira cruel, à realidade da situação.
Isso lembrou a todas que não cabia necessariamente a elas determinar o futuro, que outros fatores invisíveis ditavam, já naquele momento, os meses e anos que estavam por vir. Também não as deixava esquecer que muitos casamentos haviam sido precipitados e que, não importava o que elas sentiam ou os sacrifícios que fizeram, só lhes restava esperar, como patas-chocas, que os maridos se arrependessem quando quisessem.
Apesar disso, ou talvez por causa disso, a chegada naquela tarde do “Rei Netuno” e sua corte provocou a bordo um clima que poderia, na melhor das hipóteses, ser descrito como de euforia e, na pior, de desespero.
Depois do almoço, Margaret tinha arrastado as outras até o convés de voo. Avice dissera que preferia descansar no beliche e que estava fragilizada demais para conseguir se divertir. Já Frances comentara com sua voz fina e serena que aquele não era o tipo de coisa que lhe agradava. Margaret não deixara de notar a frieza do clima entre as duas e também estava bastante abalada porque naquela manhã tinha encontrado uma garota chorando no banheiro porque estava convencida, por mais que não tivesse nenhuma evidência, de que logo receberia um telegrama. Por isso, ela decidira que alguns momentos de descontração fariam bem a todas.
Sua motivação não era totalmente altruísta: ela não tinha nenhuma vontade de servir de para-choque para aquelas garotas de humor instável, e também não queria enfrentar mais uma tarde de intermináveis idas e vindas entre o refeitório e o pequeno quarto delas.
Pelo menos Jean não precisara ser persuadida.
Quando elas chegaram na área externa, o convés de voo — em geral, deserto, a não ser pelas filas de gaivotas atentas, mulheres perdidas ou duplas de marinheiros isolados andando para trás e escovando o chão numa formação disciplinada — era uma massa efervescente de pessoas sentadas em torno de um tanque de lona recém-construído. O sol se refletia em toda a área e o murmúrio das conversas era tão alto que encobria o barulho dos motores. Margaret levou vários segundos para reparar na cadeira suspensa acima do tanque, pendurada em um guindaste móvel.
— Deus do céu! Eles não vão nos fazer sentar nesse negócio, vão? — exclamou ela.
— Precisaria de um guindaste gigante para você — brincou Jean, abrindo caminho em meio a multidão, com os cotovelos abertos, ignorando os olhares furiosos e os cochichos à sua volta.
— Venham, meninas. Ainda tem muito lugar. Atenção! Grávida passando.
Agora que a maioria das pessoas estava sentada, Margaret conseguia ver que a plateia era mista. Era a primeira vez, desde que tinham alçado âncora, que tantos homens e mulheres estavam reunidos sem uma separação formal. Os oficiais, no entanto, mantinham-se a distância, em seus uniformes brancos. O calor no convés evocava um clima festivo, de expectativa, e enquanto ela passava com dificuldade pela multidão, reparou nos braços e pernas nus das mulheres, e também nos olhares cada vez mais ousados dos homens.
A uma curta distância, outra mulher, também na reta final da gravidez, procurava um lugar para se sentar. Usava um chapéu para se proteger do sol: manchas em sua pele clara indicavam uma incômoda reação ao calor. Ela reparou em Margaret e fez uma careta para demonstrar cumplicidade, dando um sorriso discreto. Atrás dela, um homem de macacão ofereceu um copo de papel a uma garota risonha, o que fez Maggie se lembrar, com tristeza, do dia em que Joe comprara para ela uma limonada em um parque de diversões, numa das primeiras vezes em que tinham saído juntos.
Ela se agachou no pequeno espaço que Jean abrira para a amiga, tentando encontrar na superfície dura uma posição que não lhe deixasse com dor nas pernas. Depois de alguns minutos, se abaixou desajeitadamente quando um dos marinheiros passou um grande caixote por cima da cabeça das mulheres e o entregou a um mecânico bigodudo que ela reconheceu do alojamento de Dennis.
— Aí está, senhora — disse ele, colocando o caixote ao lado dela. — Sente-se aí.
— É muita gentileza sua — falou Margaret, constrangida e um pouco chateada porque sua condição de grávida dava a entender que ela precisava daquilo.
— Não há o que agradecer — respondeu ele. — Chegamos a fazer um sorteio, mas nenhum de nós quis ter o trabalho de ajudá-la a se levantar depois.
Considerando a facilidade com que Margaret dizia palavrões, talvez tenha sido sorte o “Netuno” aparecer naquele exato momento, com uma peruca feita com corda desfiada e o rosto pintado de um tom chamativo de verde. Estava rodeado por alguns colegas usando roupas igualmente estranhas. Eles foram apresentados como a Rainha Anfitrite (um pouco peluda demais), o Médico, o Dentista e o Barbeiro de Sua Majestade, além de um enorme Bebê Real, protegido apenas por uma fralda atoalhada e lambuzado com uma camada de graxa de motor.
Atrás deles, acompanhados por um trompetista ruivo, chegou um bando de homens com o peitoral à mostra, que foram ruidosamente aplaudidos por todos, tanto homens quanto mulheres, e que pareciam ser os animadores. Sem nenhuma explicação, foram apresentados como “Ursos”.
— Eu queria um urso desses para mim! — O rosto de Jean brilhava de animação. — Olhe para ele! É tão forte quanto um touro!
— Ah, Jean. — Avice suspirou.
Apesar de parecer exasperada, estava claro para todos que Avice se sentia melhor. Isso ficou evidente quando ela levou vinte minutos para fazer um penteado, mesmo sem a ajuda de um espelho decente ou fixador. Também ficou evidente no exagero de perfume que ela passou, o que fez Maude Gonne ficar espirrando por quase meia hora. Porém, o que mais chamou atenção foi a repentina melhora do seu humor no meio daquele grupo que misturava homens e mulheres.
— Olhem! Aqui tem gente de todos os cargos — gritara ela, feliz, esticando o pescoço para conferir quem estava na plateia. — Olhem todas essas divisas! Achei que aqui só teria um bando de mecânicos velhos e horrorosos.
Margaret e Frances se entreolharam.
— E esposas horrorosas de mecânicos velhos? — perguntou Margaret, em tom seco, mas Avice pareceu não ter escutado.
— Ah, eu queria ter colocado meu vestido de flores azuis — disse ela para ninguém em especial enquanto observava sua saia de algodão. — É muito mais bonito.
— Você está bem? — perguntou Frances, indicando com a cabeça a barriga de Margaret. Apesar do enorme chapéu de abas moles, ela parecia pouco à vontade.
— Estou ótima.
— Quer beber alguma coisa? Está muito quente.
— Não — respondeu Margaret, um pouco impaciente.
— Não me incomodo de ir ao refeitório.
Na verdade, Frances parecia desesperada para ir.
— Ah, pare de perturbar — interveio Avice, passando a mão na bainha da saia. — Se ela quiser alguma coisa, pode pedir.
— Posso falar por mim mesma, obrigada. Estou ótima — disse Margaret, virando-se para Frances. — Não estou doente, pelo amor de Deus.
— Só achei que…
— Não precisa achar. Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma.
Ela baixou a cabeça, contendo a irritação. Ao seu lado, Frances estava imóvel, o que fez Margaret se lembrar desconfortavelmente de Letty.
— Escutem! Escutem! — gritou Netuno, erguendo seu tridente, que brilhou sob o sol.
Aos poucos, o ruído foi diminuindo e consistindo apenas em risadas contidas e murmúrios, que percorreram a multidão assim como a brisa percorre um milharal. Contente por ter atraído toda a atenção das mulheres, ele pegou um calhamaço de papéis.
— As senhoras que agora pela Inglaterra são chamadas
Acharão que em nossa companhia ficarão difamadas.
E os graves e numerosos delitos aqui cometidos
A corte de Netuno aqui está para que sejam ouvidos.
Marujo ou comandante, não há diferença,
Diante do rei do mar e da sua sentença
E todos terão seus pecados punidos
Com castigos de sujeira e água reunidos,
Seja por não compartilhar um trago com o amigo
Ou por ser um zé-ninguém, canalha ou inimigo,
Todos ouvirão a acusação, e então veremos
Se Netuno dará castigos menores ou extremos.
— Não deve ser de Wordsworth, ou será que é? — perguntou Avice.
— De quem? — indagou Jean.
— Agora nossos marujos, zés-ninguém e pecadores
Precisarão lutar como gladiadores
Para escapar das garras do velho Netuno
E ter direito a tomar um trago oportuno.
Comandante, capelão ou o simples estivador
Mandou gente demais para o mar amedrontador.
Então decidiremos, oh, damas de grande belezura,
Quem recebe um feitiço em nossa cadeira de tortura.”
Afinal, depois de muitos assobios e do que poderia ser qualificado como tumulto, o primeiro “zé-ninguém” foi chamado: um jovem marinheiro, cujos olhos semicerrados eram explicados pelos seus óculos carregados no alto, como um troféu, por alguém atrás dele. Pelo que parecia, sua culpa se devia ao fato de que aquela era apenas a segunda vez que cruzava a Linha do Equador. A primeira tinha acontecido durante a guerra, e ele não havia comemorado. Enquanto as mulheres gritavam em sinal de aprovação, primeiro ele foi acusado de “deixar de reconhecer o território de Netuno”, depois, enquanto os Ursos o colocavam no chão, o Dentista de Sua Majestade encheu sua boca com o que parecia água com sabão, que o deixou enjoado e o fez engasgar. O marujo foi então erguido na cadeira e, quando Netuno baixou o tridente, ele foi sumariamente jogado na água, enquanto as mulheres aplaudiam e comemoravam.
— Não foi um espetáculo muito adequado, não acham? — comentou Avice, inclinando-se à frente para ver melhor.
Nesse instante, os Ursos seguiram para o meio da multidão, fazendo caretas teatrais ao olhar para as mulheres. Elas, por sua vez, gritaram e se agarraram umas às outras, prometendo em voz alta e sem qualquer outra intenção se proteger mutuamente. Estavam tão melodramáticas que Margaret chegou a revirar os olhos. Ao seu lado, Frances nem se mexia. Parecia tão pouco abalada com a presença dos homens que Margaret ficou se perguntando como ela tinha conseguido se casar com um deles.
Um dos Ursos parou na frente delas. Com o peito ainda molhado de suor por causa do esforço, o rosto verde e um colar de conchas no pescoço, ele se abaixou na direção delas e as observou.
— Então, quais pecadoras e depravadas temos aqui, hein? — perguntou. — Qual de vocês merece um castigo?
A resposta veio como um grito coletivo, e logo as mulheres se dividiram como o mar na Bíblia e o rodearam.
Com exceção de Frances. Quando ele parou à sua frente, ela continuou imóvel e o encarou de volta, até que, ao sentir que ela não seria a candidata ideal, ele se virou para Margaret.
— Ahá! — gritou ele, avançando na sua direção.
Margaret se preparava para dizer, com um sorriso, que de jeito nenhum alguém ia colocá-la naquela maldita cadeira, mas então o homem se virou, como um pantomímico desarticulado, e olhou para a plateia entusiasmada.
— Vejo que preciso encontrar outra vítima — disse, apontando o dedo para ela —, pois a lei de Netuno não nos permite atacar uma baleia!
As mulheres ao redor caíram na gargalhada. Margaret, que se preparara para dar uma resposta inteligente, ficou sem palavras. Todos estavam rindo dela.
Como se sua gravidez fosse alguma piada.
— Ah, parem com isso! — disse ela, furiosa.
Mas sua resposta só serviu para provocar ainda mais risadas.
Ela permaneceu sentada enquanto ele ia à procura de uma nova vítima.
Inexplicavelmente, seus olhos se encheram de lágrimas. O chapéu de Frances estava enterrado na sua cabeça e ela mantinha as mãos entrelaçadas com força sobre os joelhos.
— Idiota! — murmurou Margaret, e em seguida repetiu mais alto: — Idiota! — Como se dizer isso pudesse fazê-la se sentir melhor.
O sol ficava cada vez mais forte e ela sentiu o nariz e as bochechas começarem a ficar vermelhos. Vários outros marinheiros foram levados até a frente e também acusados. Alguns se debatiam e xingavam, outros eram levados à força, supostamente por terem tentado se esconder em diferentes partes do navio.
Mas a maioria achava graça.
Margaret sentiu inveja do chapéu de Frances. Ela se remexeu no caixote onde estava sentada com uma das mãos fazendo sombra acima dos olhos, para apreciar o espetáculo: a encenação do infortúnio dos outros ia afastando aos poucos o seu próprio mau humor.
— Você já esteve em navios. É sempre assim? — perguntou a Frances, que colocara óculos de sol. Ela não suportava aquele tipo de ambiente.
Frances deu um sorriso forçado, e Margaret sentiu vergonha por ter sido tão brusca com ela.
— Não sei dizer — murmurou. — Eu estava sempre trabalhando.
Em seguida, desviou o olhar, distraída com alguma coisa à sua direita.
— Para quem você está acenando?
— É nosso fuzileiro naval — respondeu Frances.
— Ah, é?
Margaret semicerrou os olhos na direção do homem de cabelo preto não muito distante delas. Nunca tinha parado para observar seu rosto, pois sempre acelerava o passo diante dele e se curvava para esconder melhor a cachorrinha.
— Ele está com uma aparência horrível. Não deveria estar dormindo, se vai ficar de guarda a noite inteira?
Frances não respondeu. O fuzileiro tinha visto as duas e ela desviara o olhar para os pés.
— Ele está cumprimentando você — disse Margaret, acenando com animação. — Não vai responder?
Mas Frances parecia não ter escutado.
— Olhe! — interrompeu Jean, segurando o cotovelo de Margaret. — Caramba! Pegaram um dos oficiais!
— E não é um oficial qualquer — disse Avice. — É o imediato. Ele tem um posto muito alto, vocês sabem. Ai, meu Deus.
Ela comprimiu os lábios e tapou a boca com a mão, como se achasse que, por uma questão de boas maneiras, não devesse se divertir tanto com isso.
Xingando e espumando de raiva, o imediato, que estava ao lado do comandante, foi levado para a cadeira e amarrado. Ele foi contido pelos Ursos, tiraram sua camisa e, sob a aclamação das mulheres, seu corpo foi lambuzado com graxa e o rosto coberto com o que parecia mingau de aveia.
Ele se remexeu diversas vezes na cadeira, como se pedisse ajuda a alguém logo atrás, mas então esfregaram xarope de bordo em seu cabelo e espalharam penas por cima. A cada nova humilhação, o clamor da plateia aumentava, e até as gaivotas que sobrevoavam a cena davam gritos estridentes. Era como se as mulheres, que de repente haviam se dado conta da falta de controle que tinham sobre suas vidas, sentissem um prazer catártico em determinar o que aconteceria com outra pessoa.
— Acabem com ele! Acabem com ele! — gritava a multidão, vozes masculinas misturadas às femininas.
A humilhação sofrida por Margaret estava esquecida. Ela sorria e também gritava. Com essa cena, ela se lembrou das brincadeiras de mau gosto dos seus irmãos quando todos ainda eram crianças, nas quais um jogava o outro em um monte de esterco e tentava enfiar excremento na boca um do outro.
Ela foi distraída por alguém batendo no seu ombro. Frances tentava lhe dizer alguma coisa. Era impossível ouvir, mas Margaret deduziu que ela queria avisar que ia embora. Ela está pálida, pensou Margaret, e em seguida se virou para contemplar o pobre imediato suspenso na cadeira.
— Olhem para ele — gritou Avice, admirada. — Parece furioso.
— Tão furioso quanto uma serpente cortada ao meio — acrescentou Jean. — Não imaginei que fariam isso com alguém de um cargo tão alto.
— Você está bem… — começou Margaret, mas logo viu que Frances já tinha ido embora.
Instigado pela multidão que no momento estava delirante, o Barbeiro de Sua Majestade passou espuma no cabelo do oficial, pegou uma tesoura enorme e começou a cortar. Depois, sua boca foi aberta à força por homens às gargalhadas que o obrigaram a engolir o que Netuno anunciou ser “medicamento para homem do mar”. Enquanto o oficial cuspia e ameaçava vomitar, com o rosto quase irreconhecível, um dos Ursos andou pelo meio das mulheres ali reunidas e detalhou, com muito orgulho, os ingredientes: óleo de rícino, vinagre, água com sabão e ovo em pó. Dois peixes podres foram enfiados nos ouvidos do imediato e uma echarpe feminina foi amarrada em seu pescoço. Houve uma rápida contagem regressiva, então ele foi jogado na água. Conseguiu emergir e erguer a cabeça duas vezes para expressar sua raiva.
— Vocês todos vão pagar por isto! — gritou ele, com a boca cheia de espuma. — Vou anotar o nome de vocês e levar isto aos seus superiores.
— Cale a boca, idiota — ordenou a Rainha Anfitrite —, ou as coisas vão ficar ainda mais estranhas para você.
As mulheres riram mais alto.
— Não consigo acreditar que eles deviam mesmo fazer isso — disse Avice, animada. — Tenho certeza de que alguém do alto escalão não deveria ter sido incluído. — Em seguida, ficou imóvel como um cão de caça farejando a presa. — Ai, meu Deus! É Irene Carter!
Esquecendo-se de Netuno e dos seus companheiros, ela se levantou e abriu caminho pela multidão zombeteira. Com a mão erguida, gritou:
— Irene! Irene! Sou eu, Avice!
— Você acha que o comandante vai puni-los por causa disso? — perguntou Jean, com os olhos arregalados, enquanto o barulho diminuía e a vítima, ainda cuspindo espuma, era desamarrada da cadeira. — Eu não poderia imaginar que alguém fosse passar dos limites com um homem do nível dele, você não acha?
— Não faço ideia — respondeu Margaret.
Ela deu uma olhada no convés à procura de Frances e viu o comandante. Ele estava ao lado do centro de comando, com o rosto parcialmente oculto pelos homens à sua volta. Um deles, mais baixo, cujo rosto tinha traços marcantes, se espichou e falou alguma coisa no seu ouvido. Naquela distância, era difícil entender o que dizia, pois o comandante usava um quepe e havia muita gente se movimentando ao redor, mas ela podia jurar que ele estava rindo.

* * *

Margaret só encontrou Frances duas horas depois. Estava passando A mocidade é assim mesmo, e ela estava sozinha no cinema, sentada em uma das primeiras filas, com os óculos de sol apoiados no topo da cabeça. Parecia extasiada com a visão de Mickey Rooney bêbado em um bar.
Margaret parou no pequeno corredor lateral da sala e semicerrou os olhos no escuro para se certificar de que era Frances, depois se aproximou.
— Você está bem? — perguntou, acomodando-se ao lado.
— Estou — murmurou Frances.
Margaret pensou que nunca conhecera alguém que demonstrava tão pouco as suas emoções.
— O espetáculo foi muito divertido — comentou, colocando os pés na poltrona da frente. — O chef de cozinha foi acusado de preparar pratos intragáveis. Colocaram uma lula morta em cima da cabeça dele e o obrigaram a comer uma mistura dos restos do que foi servido ontem. Achei um pouco injusto. Quer dizer, eu não conseguiria fazer nada melhor do que ele.
Pela luz que vinha da tela, Margaret viu Frances sorrir de um modo que sugeria total falta de interesse.
— Jean foi tomar chá com os marinheiros — prosseguiu Margaret, insistente. — Ah, e Avice nos abandonou! Encontrou uma velha amiga e elas se abraçaram feito namorados que não se viam havia anos. As duas até se parecem: cabelo perfeito, muita maquiagem, essas coisas. O que acho é que agora ela vai nos descartar como sapatos velhos. Tenho a impressão de que fomos uma decepção para ela. Ou eu fui, pelo menos — acrescentou, depressa. — Você sabe, a leiteira gorda e sua cachorrinha fedorenta. Isso deve estar longe de ser o cenário social dela. — O bebê estava chutando. Margaret mudou de posição, xingando-o em silêncio. — Eu… Eu queria saber por que você saiu de lá. Achei que… Bem, eu só queria confirmar que está tudo bem com você.
Àquela altura, era evidente que Frances já percebera que não conseguiria mais assistir ao filme. Ela relaxou um pouco a postura e inclinou a cabeça na direção de Margaret.
— Não me sinto muito bem no meio de uma multidão — explicou.
— É isso?
— É.
Elizabeth Taylor montou em seu cavalo, dando um salto que sugeria a leveza de um pássaro, uma alegria num simples movimento. Margaret viu a cena e se lembrou da égua mal-humorada da sua mãe. Lembrou-se de como, meses antes, tinha conseguido montá-la com agilidade e, se exibindo para os irmãos, dera um giro atlético na sela e ficara de frente para o traseiro do animal. Ela havia até conseguido plantar bananeira em cima de um cavalo mais velho e mais tranquilo.
— Desculpe — murmurou ela. — Por ter sido grosseira mais cedo.
Frances continuou com os olhos fixos na tela.
— É só que… acho que estar grávida é um pouco difícil. Não sou eu mesma, na verdade. E às vezes… digo coisas sem pensar. — Ela apoiou as mãos na barriga e as observou se mexerem conforme os movimentos do bebê. — É por causa dos meus irmãos. Estou acostumada a ser direta. E nem sempre penso no que isso provoca nas pessoas.
Frances estava olhando para baixo e a tela foi momentaneamente iluminada por um sol cinematográfico. Foi o único indício que Margaret teve de que a amiga a escutava. A escuridão e o fato de estarem sozinhas a encorajavam a dizer o que guardara por tanto tempo.
— Na realidade, detesto estar assim. Eu não devia dizer isso, mas é verdade. Detesto estar tão grande assim. Detesto não conseguir subir dois malditos degraus sem ficar ofegante feito uma velha caquética. Detesto me ver neste estado e também não suporto a ideia de não poder fazer literalmente nada, como comer, beber, caminhar ao sol, sem ter que pensar no bebê.
Ela ficou brincando com a bainha da saia. Não aguentava mais ter que vestir as mesmas roupas dia após dia. Quase nunca usara saia até ficar grávida. Alisou-a, distraída.
Em seguida, voltou a falar:
— Sabe, logo depois que Joe e eu nos casamos, ele viajou de novo e eu continuei morando com meu pai e meus irmãos. Nós nos casamos em teoria, acho que podemos dizer assim. Com certeza não me sinto realmente casada. Mas não reclamei porque estávamos todos no mesmo barco, não é? Nenhuma tinha o marido ao lado. E então a guerra acabou. E descobri que… você sabe… — Ela olhou para baixo. — E agora, em vez de finalmente fazer a travessia feliz por saber que vou reencontrar Joe e que poderemos ficar juntos, só nós dois, que era tudo o que eu queria, precisaremos levar em conta esta coisa que carrego. Nada de lua de mel. Nada de tempo só para nós. Quando o bebê nascer, teremos aproveitado só umas quatro semanas, mais ou menos, de casados. — Ela esfregou o rosto, aliviada por Frances não poder vê-lo. — Você deve me achar uma pessoa horrível por dizer tudo isso. Com certeza já viu todo tipo de morte, doença, bebês, e está aí pensado que eu devia ser grata. Mas não consigo. Simplesmente não consigo. Detesto a ideia de que preciso sentir todas essas coisas femininas e maternais que não consigo me forçar a sentir. — Ela ergueu o tom de voz: — Acima de tudo, não suporto pensar que, depois que o bebê nascer, nunca mais vou ter um segundo de liberdade…
Seus olhos se encheram de lágrimas. Desajeitadamente, tentou secá-los com a mão esquerda para que Frances não percebesse. A gravidez a transformara numa menina idiota e chorona. Assoou o nariz em um lenço úmido. Tentou encontrar uma posição confortável e se encolheu quando o bebê deu mais um chute certeiro nas suas costelas, como que para puni-la. Nesse instante, ela sentiu uma mão fria em seu braço.
— Acho que é normal ter alguma tensão entre nós — disse Frances. — Afinal, vivemos grudadas e tudo o mais.
Margaret fungou de novo.
— Não tive a intenção de ser grosseira com ninguém.
Então Frances se virou para ela. Margaret só conseguia ver os olhos enormes da colega. Engoliu em seco, como se o que pretendia dizer exigisse esforço.
— E não foi.
Depois de apertar com sutileza o braço de Margaret, Frances recolocou a mão sobre seus joelhos e voltou a se concentrar no filme.

* * *

Margaret e Frances voltaram juntas pelo convés do hangar. Embora estivessem escaladas para o primeiro turno do jantar, apareceram apenas para o segundo, porque o filme tinha acabado tarde. O pedido de troca de horário havia provocado tantas caretas e concordâncias mal-humoradas entre as oficiais, segundo Margaret, quanto se tivessem pedido para entrarem nuas no refeitório.
— Torta de carne morna em vez de torta de carne quente. Não chega a ser requisitado um tratado internacional, não é mesmo?
Frances tinha sorrido pela segunda vez naquela noite. Margaret percebera, porque nas duas vezes seu rosto havia se transformado. A frieza da sua expressão, a melancolia que a mantinha distante, tudo isso sumira de repente e a doce e bela estrangeira parecia ter se aberto um pouco. Margaret ficara tentada a comentar sobre essa mudança, mas o pouco que ela conhecia de Frances lhe ensinara que qualquer observação fecharia as portas de novo. E Margaret não era uma pessoa intrometida.
Frances estava contando sobre a vida a bordo de um navio de assistência hospitalar. Enquanto sua voz tranquila e precisa detalhava as visitas aos doentes e os ferimentos de um jovem fuzileiro naval de quem ela cuidara perto das Ilhas Salomão, Margaret pensou naquele sorriso, depois em Letty. No seu rosto jovial e corado, nas suas feições estranhas que tinham quase ficado bonitas quando ela ousara, apenas por um instante, acreditar em um futuro com Murray Donleavy.
Muito envergonhada, afastou a lembrança.
A temperatura não tinha baixado tanto quanto nas noites anteriores, e o clima ameno fazia com que ela se lembrasse dos verões na fazenda onde, sentada na varanda, os pés descalços sentindo o calor das tábuas ásperas, ela ouvia, às vezes, um dos irmãos dar um tapa para interromper o voo noturno de algum inseto carnívoro. Tentou imaginar o que estariam fazendo naquela noite. Talvez Daniel estivesse sentado na varanda tirando a pele dos coelhos com o canivete…
De repente, prestou atenção no que Frances lhe dizia. Ficou paralisada e fez a colega repetir.
— Você tem certeza? Ele sabe?
Frances estava com as mãos enfiadas no bolso.
— Foi o que ele falou. Perguntou quem era a dona.
— E você contou?
— Não.
— O que você respondeu, então?
— Não respondi nada.
— Como assim, não respondeu nada?
— Não falei nada, apenas fechei a porta.
Quando dois oficiais passaram, elas se recostaram nos canos que percorriam uma parede. Um deles cumprimentou as duas com um leve toque no quepe, e Margaret deu um sorriso educado. Esperou que eles se afastassem bastante no corredor antes de retomar a conversa.
— Ele contou que sabia sobre a cadela e você não perguntou se ele ia nos denunciar? Nem há quanto tempo sabia? Nada?
— Bem, ele não nos denunciou ainda, não é mesmo?
— Mas não sabemos o que ele vai fazer.
Margaret reparou que o maxilar de Frances estava cerrado de um jeito estranho.
— É que… eu não quis começar a discutir o assunto com ele.
— Por que não? — perguntou Margaret, incrédula.
— Não quis que ele pensasse…
— Pensasse o quê?
Frances conseguiu ficar com uma expressão furiosa e defensiva ao mesmo tempo.
— Não quis que ele pensasse que poderia usar Maude Gonne para barganhar com a gente.
Houve um longo silêncio. Margaret franziu a testa, sem entender.
— Isso é importante. Achei que ele pudesse querer alguma coisa… em troca.
Frances parecia um pouco constrangida, como se tivesse entendido a impressão que seu raciocínio pode ter passado.
Margaret balançou a cabeça.
— Meu Deus, Frances. Você tem uma interpretação estranha sobre a reação das pessoas.
Elas tinham chegado à cabine. Margaret tentava imaginar se houvera algum significado oculto em como o fuzileiro acenara para elas e estava prestes a sugerir que Frances deveria falar com ele assim que chegasse para montar guarda, mas se distraiu ao ver uma garota passando apressada pelo corredor.
Tinha cabelo preto na altura dos ombros preso por grampos para afastá-lo do rosto, mas uma mecha havia se soltado. Quando chegou onde elas estavam, a jovem parou de repente e observou a porta com atenção.
— Vocês estão acomodadas aqui? No 3G? — perguntou, ofegante.
— Sim — respondeu Margaret, dando de ombros. — Por quê?
— Vocês conhecem uma garota chamada Jean? — perguntou, ainda ofegante. Quando as outras assentiram, ela continuou: — É bom descerem. Fiquem de olho na colega de vocês antes que alguma oficial a encontre. Ela se meteu em uma confusão e tanto.
— Onde? — perguntou Margaret.
— No alojamento dos marinheiros. Convés E. Vire à esquerda no segundo lance de escada. É a porta azul perto do extintor de incêndio. Preciso ir agora. Os fuzileiros navais vão chegar aqui em um minuto. Vocês vão ter que se apressar.
— Eu vou — disse Frances para Margaret. — Sou mais rápida. Você me alcança.
Ela tirou os sapatos, largou o casaco e a bolsa na porta e saiu em disparada pelo corredor, suas pernas compridas e finas parecendo voar atrás dela enquanto corria.

* * *

Qualquer dificuldade pode ser superada, pensou Avice, basta estar na companhia certa. Desde que, naquela tarde, ela encontrara Irene Carter e fora convidada para tomar chá com ela e suas amigas, depois para uma palestra (Irene tinha confeccionado saquinhos de pano maravilhosos) e finalmente para jantar. Elas tinham conversado tanto e com um entusiasmo tão grande que Avice se esquecera não só da hora, mas também de como detestava aquele navio velho.
O pai de Irene Carter era proprietário do clube de tênis mais prestigiado de Melbourne. Ela era casada com um subtenente que acabara de voltar do Adriático, filho de (aqui Avice fez uma pausa para respirar) uma pessoa importante no Ministério das Relações Exteriores. E ela trouxera a bordo nada menos do que onze chapéus, para o caso de não encontrar modelos que lhe agradassem na Inglaterra. Irene Carter era definitivamente uma garota legal. E, com um rigor que Avice suspeitava faltar no seu próprio caráter, ela determinara que se cercaria apenas das mulheres certas. Chegara até a conseguir uma troca de cabine para que a garota negra de óculos ficasse acomodada em outro lugar, onde ela “encontraria pessoas do seu tipo”. Nem precisou explicar em detalhes o que isso queria dizer. Avice ficou espantada ao ver como Irene e as garotas adoráveis que a rodeavam eram parecidas, não apenas nas roupas e no comportamento, mas também nas atitudes.
— Você deve saber o que aconteceu com Lolicia Tarrant, não? — perguntou Irene, com o braço delicadamente entrelaçado ao de Avice enquanto desciam com cuidado a escada que levava ao hangar principal. As outras as seguiam logo atrás.
— Não.
Os sapatos de Irene eram iguais aos que a mãe de Avice vira em uma revista parisiense. Ela deve ter mandado vir de avião.
— Bem, você sabe que ela estava noiva daquele piloto? Aquele com um… um bigode pavoroso? Não? Bem… Ainda não fazia nem cinco semanas que ele estava na Malásia quando ela se apaixonou por um soldado americano. — Ela baixou o tom de voz: — Um homem horrível. Muito grosseiro. Sabe o que ele costumava dizer sobre Melbourne? “Tem metade do tamanho do maior cemitério de Nova York… e é duas vezes mais morta.” Afe. Ele repetia isso sem parar, como se cada vez estivesse sendo extremamente original.
— E aí, o que aconteceu?
Avice estava com os olhos arregalados, imaginando Lolicia com o americano.
— Bem, o que era de se esperar. O noivo voltou e não ficou nada contente de encontrar Lolly circulando com o tal sujeito, como você pode imaginar. Além disso, vale dizer que ele cruzou mais do que a linha de Brisbane, se é que você me entende.
— Deus do céu! — exclamou Avice.
— E o pai de Lolly também não ficou nada feliz com essa história, quando descobriu. Eles desconfiavam dos americanos desde os assassinatos, é claro.
Todas as garotas se lembravam do escândalo do recruta Edward J. Leonski, que havia matado quatro mulheres de Melbourne. A partir daquele momento, a relação entre a Austrália e os soldados americanos tinha azedado.
— Ele não era um assassino.
— Ah, Avice, você é engraçada! Não era. Mas contou para todos os colegas o que tinha acontecido entre ele e Lolly. Nos mínimos detalhes. E pelo que parece, seu superior não entendeu bem a história e mandou uma carta para o pai de Lolly, sugerindo que prestasse atenção no comportamento da filha.
— Ai, meu Deus!
— A reputação dela foi destruída. O noivo não quis mais saber dela, ainda que metade do que o oficial tinha dito fosse mentira, é claro.
— Ela está bem?
— Não sei — respondeu Irene.
— Achei que vocês fossem amigas — disse Avice.
— Depois do que aconteceu? — Irene fez uma careta e balançou a cabeça, como se tentasse afastar um inseto irritante. Houve um longo silêncio. — Então — continuou ela —, pretende se candidatar a Rainha do Victorious? Na próxima semana vão fazer o concurso de Miss Pernas Mais Bonitas.
Elas tinham chegado à metade do caminho do convés do hangar quando encontraram Margaret. Estava apoiada em um quadro de avisos, com uma das mãos na cabeça, a palma para baixo, como se tivesse medo de perder o equilíbrio, enquanto a outra estava encostada na parte mais alta da sua barriga enorme.
— Você está bem? — perguntou Avice, paralisada pelo medo de que a menina da fazenda estivesse prestes a ter o bebê.
Ela precisaria se envolver, e só Deus sabia o que Irene poderia pensar.
— É só uma pontada — queixou-se Margaret, entre dentes cerrados.
Avice quase desmaiou de alívio.
— Quer ajuda para voltar para a cabine? — perguntou Irene educadamente.
— Não.
Margaret olhou para Avice, depois para sua amiga. Avice reparou que o nariz dela estava queimado de sol.
— Preciso descer. Jean se envolveu em um pequeno… episódio.
— Jean divide a cabine com a gente — explicou Avice.
— Não quer mesmo uma ajuda? — insistiu Irene.
Ela dobrara os joelhos para observar o rosto corado de Margaret.
— Só preciso recuperar o fôlego.
— Bem, você não tem condições de ir atrás da sua amiga nesse estado. Não com tantas escadas para descer. Nós vamos com você.
Avice começou a reclamar:
— Não… Acho que não devemos… Você sabe, Jean está…
Mas Irene já tinha se soltado do braço de Avice e estendia a mão para Margaret.
— Melhor? Vamos, se apoie no meu braço. Temos uma pequena aventura pela frente. Vamos, meninas. Não vivi nada animador desde o dia em que botei o pé neste navio. Vamos resgatar uma donzela em apuros.
A risada indecente de Jean ainda ecoava nos ouvidos de Avice, assim como seus comentários inconvenientes sobre a gravidez de Margaret, e ela imaginava que Irene, sua salvação para uma vida social adequada durante a viagem, com certeza se afastaria em sinal de desaprovação. Fechou os olhos e ensaiou mil desculpas e maneiras de se distanciar da vulgaridade de Jean.
No entanto, quando a encontraram, Jean não estava rindo. Sequer estava de pé.
Primeiro viram suas pernas, emergindo de um jeito estranho por trás de uma pilha de caixas ao lado da casa de máquinas superaquecida a estibordo. Os sapatos, quase caindo dos pés, apontavam um para o outro. Quando as garotas se aproximaram, suas vozes, que já tinham permanecido baixas enquanto percorriam o longo e estreito corredor, se calaram de vez diante daquela cena.
Elas conseguiram ver o suficiente da metade superior do corpo de Jean para deduzir que ela estava bêbada… bêbada a ponto de murmurar coisas incoerentes para ninguém em particular. Bêbada a ponto de se manter em uma posição entre sentada e deitada, com as pernas abertas, no chão duro e sujo de óleo. Bêbada a ponto de não se importar que estivesse com a blusa desabotoada e que um dos seus pequenos seios brancos escapasse do bojo do sutiã também fora do lugar.

* * *

Frances se aproximou de Jean. Seu rosto, normalmente pálido e sério, estava corado e vívido. Mechas do cabelo haviam se soltado do coque em geral muito firme. Ela irradiava energia. Um homem, possivelmente marinheiro e tão bêbado quanto Jean, empertigou os ombros e se afastou dela, cambaleando. Sua braguilha estava aberta, e pela fresta elas tiveram um vislumbre de algo arroxeado e obsceno. Enquanto as garotas recém-chegadas observavam a cena, aterrorizadas, sem palavras e em choque, outro homem surgiu da sombra atrás de Jean e, com um olhar de culpa para elas, ajeitou a roupa e saiu correndo. Jean se mexeu e murmurou alguma coisa. Cachos escuros de cabelo encharcados de suor emolduravam seu rosto. Em meio a um silêncio opressor, Margaret se ajoelhou e tentou baixar a saia de Jean para cobrir suas coxas pálidas.
— Seu patife! — gritou Frances para o homem.
As outras viram que ela estava segurando uma enorme chave inglesa na mão ossuda. O homem tentou recuar, mas Frances baixou o braço e a chave inglesa o atingiu no ombro com um forte estalo. Enquanto ele se afastava, tentando se proteger, os golpes o atingiam com a regularidade e a força implacável de uma britadeira. Quando ela acertou a lateral da cabeça dele, um fino jato de sangue esguichou no ar logo acima da sua orelha.
Antes que elas tivessem tempo de entender o que estava acontecendo, de absorver o significado daquilo e as possíveis consequências, Dennis Tims correu na direção delas. Seus ombros imensos representavam uma nova ameaça.
— Mas o que é que está acontecendo aqui? — perguntou, com o cigarro ainda entre os dedos. — Mikey disse… O quê…? Ai, meu Deus! — exclamou ao ver Frances, a calça do homem e Jean no chão, agora nos braços de Margaret. — Ai, meu Deus. Meu Deus… Maldito Thompson…
Ele largou o cigarro e tentou conter Frances, que se debatia, parecendo completamente transtornada.
— Seu patife! — gritou ela. — Imbecil!
— Está tudo bem, garota — disse ele. — Está tudo bem agora. Tudo bem.
Enquanto seu colega afastava o homem de Frances, ele a agarrou pelas costas com seus antebraços enormes e a puxou para trás, até a chave inglesa voar inutilmente da sua mão.
O colega de Tims soltou o homem, que, muito atordoado ou talvez bêbado demais para reagir, caiu como uma pedra. O barulho dos motores era ensurdecedor e ainda havia uma sequência contínua de estalos, estouros e rangidos. Apesar disso, o som da batida de sua cabeça no chão foi ainda mais forte: um ruído abafado, mas ao mesmo tempo estrondoso, como o de uma melancia sendo jogada no chão.
Irene deu um grito estridente.
Tims largou Frances, virou o homem de lado, e a primeira impressão foi de que chegara sua vez de machucá-lo ainda mais. Mas ele apenas deu uma olhada rápida no ferimento na cabeça do colega, murmurando para si mesmo alguma coisa ininteligível.
Duas garotas que, até aquele momento, tinham apenas cochichado uma com a outra, saíram correndo dali, escondendo o rosto com as mãos.
Avice tremia. Tims estava ajoelhado e, aos gritos e xingamentos, mandava o homem se levantar.
Atrás deles, Margaret começara a arrastar Jean para fora.
Frances estava de pé, com as pernas um pouco afastadas, a chave inglesa na ponta dos dedos, tremendo sem parar. Nem deve ter percebido que estava chorando.
— Devíamos avisar alguém — disse Avice para Irene.
O clima estava muito pesado. Sua respiração parecia entrecortada, como se, mesmo como simples observadora, ela estivesse com a adrenalina no nível máximo.
— Eu não… Eu…
Nesse instante, perceberam que uma oficial se aproximava. Os passos dela ecoavam no chão metálico.
— O que está acontecendo aqui?
Ela usava o cabelo preto puxado para trás e tinha seios fartos. Ainda estava a uns seis metros de distância.
Tims parou, com o punho erguido. Um dos seus colegas disse alguma coisa para ele, tocou de leve seu cotovelo e depois sumiu na escuridão. Tims se empertigou e passou os dedos pelo cabelo curto cor de palha. Olhou para Margaret, dando a impressão de que só então tinha reparado que ela estava ali.
Seus olhos cansados estavam arregalados e sua mão continuava se mexendo involuntariamente. Ele balançou a cabeça, como se quisesse dizer alguma coisa, um pedido de desculpas, talvez. Até que a oficial surgiu na frente de todos, fuzilando-os com os olhos, um ar controlador emanando dela feito um perfume ruim.
— O que está acontecendo aqui?

* * *

A princípio, ela pareceu não ter visto Jean estendida no chão, nem Margaret, que tentava deixar a amiga um pouco mais apresentável. Avice reparou que a meia-calça dela estava embolada na altura dos joelhos.
— Um pequeno acidente — respondeu Tims, enxugando as mãos ensanguentadas na calça. Ele não olhou para a mulher. — Mas já estávamos resolvendo tudo. — Ele articulou bem as palavras.
A oficial desviou os olhos das mãos dele para Avice, e depois para Margaret, cuja barriga chamou sua atenção.
— O que estão fazendo aqui, meninas?
Ela esperou por uma resposta, mas ninguém falou nada. Ao seu lado, Avice reparou em Irene, que segurava um lenço na mão apoiada no peito, feito uma heroína tuberculosa. Com a boca entreaberta, tinha perdido o ar de superioridade e autoconfiança.
Quando se virou, Tims havia desaparecido. O homem ferido estava sentado no chão, com os joelhos dobrados no peito.
— Vocês sabem que há punições severas para as mulheres que entram nas áreas reservadas aos homens?
Houve um profundo silêncio. A oficial se abaixou, verificou o estado do homem e confirmou que o outro havia desaparecido. Então viu Jean.
— Ai, meu Deus! Por favor, não me digam que aconteceu o que estou pensando.
— Não — respondeu Margaret.
A oficial olhou para ela.
— Ai, meu Deus! — repetiu. — O comandante vai ter que ser informado.
— Por quê? Não temos nada a ver com isso — gritou Avice para que escutassem apesar do barulho dos motores. — Só viemos buscar Jean.
— Avice! — exclamou Frances, levantando-se com dificuldade. Ela parou entre a oficial e Jean, ainda prostrada no chão. — Deixe com a gente. Vamos levá-la de volta para a cabine.
— Não posso fazer isso. Tenho a obrigação de relatar qualquer ocorrência de festa, bebedeira… má conduta. Vou precisar do nome de todas.
— Mas não temos nada a ver com isso! — insistiu Avice, olhando para Irene. — Foi só Jean quem se meteu nessa confusão!
— Jean?
— Jean Castleforth — confirmou Avice, desesperada. — Não temos mesmo nada a ver com isso. Só descemos porque ficamos sabendo que ela havia se metido em encrenca.
— Jean Castleforth — repetiu a oficial. — E o seu nome?
— Mas nunca sequer olhei para outro homem! E não gosto de bebida alcoólica!
— Já falei que vamos levá-la para a cabine — insistiu Frances. — Sou enfermeira. Vou cuidar dela.
— Vocês não estão sugerindo que eu ignore isso aqui, não é mesmo? Olhem para ela!
— Ela só…
— Não passa de uma vadia, é isso que ela é!
— Como se atreve? — respondeu Frances, parecendo surpreendentemente alta quando se empertigou.
Seu rosto estava tenso. Avice reparou que seus punhos estavam cerrados.
— Está querendo dizer que ela foi forçada a vir até aqui?
A oficial torceu o nariz ao sentir cheiro de álcool no hálito de Jean.
— Por que nós apenas não…
Tremendo de raiva, Frances se virou para Avice.
— Saia daqui! Fique longe de mim. E escute uma coisa, oficial responsável pelas mulheres ou o que quer que a senhora seja, não pode denunciá-la por isto, ouviu bem? Não foi culpa dela.
— Recebi ordens para relatar qualquer ato de má conduta.
— Ela só tem dezesseis anos. É óbvio que a embebedaram e… se aproveitaram dela. Ela só tem dezesseis anos!
— Idade suficiente para saber o que está fazendo. Ela não deveria ter descido. Nenhuma de vocês deveria.
— Eles a embebedaram! Olhe para ela! Quase inconsciente! A senhora acha certo acabar com a reputação dela e talvez fazer com que perca o marido por causa disso?
— Eu não…
— Não pode arruinar a vida inteira desta menina por causa de uma bebedeira!
Frances olhava a oficial de cima, e parecia estar escondendo alguma coisa… o que seria? Avice, ainda atordoada com essa Frances irreconhecível, recuou instintivamente.
A oficial também percebeu: havia assumido uma estratégia defensiva.
— Como já falei, tenho ordens de…
— Ah, pare de falar sobre essas malditas ordens, sua oficialzinha…
Era impossível determinar por que Frances, corada e agitada, tinha erguido o braço, mas Margaret logo a conteve, puxando-a para trás e murmurando:
— Frances, se acalme, por favor. Está tudo bem.
Só depois de alguns instantes, Frances pareceu ouvir o que Margaret dizia.
Estava tensa, preocupada.
— Não, não está tudo bem. Você precisa explicar para ela.
Seus olhos reluziam.
— Mas você não está ajudando ela — insistiu Margaret. — Está me ouvindo? Precisa parar com isso.
Algo no olhar de Margaret surpreendeu Frances. Ela piscou repetidas vezes antes de dar um longo suspiro entrecortado.
Avice reparou que a mão de Irene, ainda agarrada ao lenço, tremia. Quando desviou os olhos da amiga, a oficial tinha se virado e, como se estivesse grata por ter conseguido escapar, já seguia com pressa e determinação pelo corredor.
— Ela é só uma menina! — gritou Frances.
Mas a mulher já tinha ido embora.

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