14 de março de 2019

Capítulo 1

Dinheiro em coelhos! Em vendas recentes em Sydney, as melhores peles de machos adultos chegaram a 19 shillings e 11 centavos por libra, o preço mais alto de que se tem notícia na Austrália. A porcentagem dessa pele excepcional talvez seja pequena, mas a cerca de cinco por libra, a quatro shillings cada, é um retorno considerável.
“THE MAN ON THE LAND”, THE BULLETIN, AUSTRÁLIA, 10 DE JULHO DE 1946


AUSTRÁLIA, 1946
QUATRO SEMANAS PARA O EMBARQUE

Letty McHugh parou a picape, limpou uma fuligem inexistente debaixo dos olhos e reparou que, em uma mulher com “traços magníficos”, como a vendedora com tanta gentileza descrevera os seus, o batom Flor de Cerejeira não faria muita diferença. Esfregou bruscamente os lábios, sentindo-se idiota por ter comprado aquele batom. Mas, menos de um minuto depois, pegou-o na bolsa e repassou com cuidado, fazendo uma careta para seu reflexo no retrovisor.
Ajeitou a blusa, pegou as cartas que recolhera em sua ida semanal ao correio e, pelo para-brisa, observou a paisagem embaçada. Era provável que a chuva não passasse, independentemente de quanto tempo ela ficasse esperando. Protegeu a cabeça e os ombros com uma lona encerada e, suspirando, saltou da picape e correu para a casa.
— Margaret? Maggie?
A porta de tela se fechou às suas costas, abafando o ruído insistente do dilúvio que caía do lado de fora, mas apenas sua voz e o som dos sapatos chiques nas tábuas do assoalho ecoavam de volta para seus ouvidos. Letty verificou sua bolsa, depois secou os pés e entrou na cozinha, gritando mais algumas vezes, embora suspeitasse que não havia ninguém:
— Maggie? Você está aí?
A cozinha, como era comum desde que Noreen se fora, estava vazia. Letty deixou a bolsa e as cartas na mesa de madeira polida e se aproximou do fogão, onde havia um ensopado em fogo brando. Ergueu a tampa da panela e sentiu o cheiro. Depois, culpada, pegou alguns ingredientes no armário e acrescentou uma pitada de sal, um pouco de cominho e farinha de milho, mexeu e recolocou a tampa.
Foi até o pequeno espelho manchado ao lado do armário de remédios e tentou alisar o cabelo, que já começava a encrespar por causa do ar úmido. Ela mal conseguia ver seu rosto inteiro de uma vez. A família Donleavy com certeza nunca poderia ser acusada de vaidade.
Esfregou de novo os lábios antes de voltar para a cozinha. O fato de estar sozinha lhe permitia observar o espaço de forma impassível. Examinou o piso de linóleo rachado, impregnado da sujeira que relutava em sair após diversos anos de atividade agrícola, por mais que varressem e lavassem. Sua irmã planejara trocar o piso, inclusive mostrara a Letty o modelo de que gostava, que vira num livro enviado lá da cidade de Perth. Ela observou a pintura desbotada, o calendário que marcava apenas uma ou outra atividade agrícola, as visitas dos veterinários, compradores ou vendedores de grãos, as camas dos cachorros com forros velhos e repugnantes e a embalagem de alvejante Bluo, para as camisas masculinas, com grânulos derramados na área que estava sendo branqueada. O único vestígio de alguma influência feminina era uma revista Glamour, que anunciava na capa um novo conto de Daphne du Maurier, além de um artigo intitulado “Você se casaria com um estrangeiro?”. As páginas, ela reparou, tinham sido bastante manuseadas.
— Margaret?
Deu uma olhada no relógio: os homens logo chegariam para almoçar. Foi até os ganchos ao lado da porta dos fundos e pegou um velho sobretudo. Fez uma careta ao sentir o cheiro de alcatrão e de cachorro molhado que, ela sabia, ficaria impregnado em suas roupas.
A chuva estava tão forte naquele momento que, em alguns locais ao redor do pátio, a água corria quase como um rio. O encanamento borbulhava em protesto, e as galinhas, alvoroçadas, haviam se refugiado em bandos sob os arbustos. Letty xingou a si mesma por não ter levado suas galochas, mas correu da porta dos fundos da casa até o pátio e deu a volta por trás do estábulo. Ali, como mais ou menos esperara, notou uma silhueta usando um casaco impermeável marrom, montada em um cavalo e percorrendo em círculos o pasto. Quase não dava para ver seu rosto sob o chapéu de abas largas já amolecidas por causa da chuva.
— Margaret! — gritou Letty debaixo do beiral do estábulo, para que desse para ouvir sua voz acima do barulho da chuva, depois acenou, sem muita convicção.
A égua estava completamente exausta: com o rabo grudado nas ancas encharcadas, ela andava de lado, percorrendo a cerca com cuidado, e de vez em quando dava coices para mostrar sua frustração. Com paciência, a cavaleira puxava as rédeas para que o animal desse meia-volta e recomeçasse o movimento minucioso.
— Maggie!
Em determinado momento, a égua pinoteou. O coração de Letty acelerou e ela levou a mão à boca. A cavaleira, no entanto, não caiu da sela nem pareceu se alterar, apenas se limitou a cutucar algumas vezes o animal com as botas para fazê-lo seguir em frente, murmurando algo que poderia ou não ter sido uma repreensão.
— Pelo amor de Deus, Maggie, venha até aqui!
A aba do chapéu se ergueu e a mão de alguém acenou. A égua seguiu na direção do portão, devagar e com a cabeça baixa.
— Está aí há muito tempo, Letty? — perguntou a cavaleira.
— Você está maluca, menina? O que pensa que está fazendo?
Ela notou o enorme sorriso da sobrinha sob a aba do chapéu.
— Só estou treinando um pouco. Papai é grande demais para montá-la e os rapazes não sabem lidar com ela, por isso sobra para mim. Ela é uma velha rabugenta, não é?
Letty balançou a cabeça, exasperada, e fez sinal para Margaret descer do cavalo.
— Pelo amor de Deus, menina. Quer ajuda para desmontar?
— Não! Estou bem. Está na hora do almoço? Já coloquei um ensopado no fogo, mas não sei que horas o pessoal chega. Foram levar os bezerros para Yarrawa Creek, e talvez passem o dia inteiro lá.
— Não vão ficar o dia todo fora com esse tempo — respondeu Letty, enquanto Margaret descia do cavalo sem qualquer elegância e aterrissava com tudo no chão. — A menos que sejam tão doidos quanto você.
— Ah, não precisa fazer todo esse drama. Ela não é tão ruim quanto parece.
— Está encharcada. Olhe só para você! Não consigo acreditar que considerou cavalgar com esse tempo. Valha-me nosso Senhor, Maggie, não sei o que você acha que está fazendo… Só Deus sabe o que sua pobre mãe diria.
Houve uma breve pausa.
— Eu sei…
Margaret franziu o nariz enquanto tirava a sela do animal.
Letty se perguntou se tinha falado demais. Ela hesitou, depois engoliu a desculpa constrangida que já estava na ponta da língua.
— Não foi minha intenção…
— Deixe para lá. Você tem razão, Letty — respondeu a jovem, balançando a sela sob o braço. — Ela não teria feito essa égua andar em círculos para treiná-la. Teria colocado rédeas laterais e pronto.

* * *

Os homens voltaram pouco antes de uma da tarde, fazendo um grande estardalhaço, com as botas molhadas e os chapéus pingando, e já na porta se livraram dos casacos. Margaret arrumara a mesa e começava a servir os pratos do ensopado fumegante.
— Colm, ainda tem lama na parte de trás da sua bota — reclamou Letty.
O jovem, amavelmente, apenas tirou as botas e as deixou no capacho sem ao menos tentar limpá-las.
— Temos pão para comer com isto?
— Calma, rapazes. Estou fazendo o que posso.
— Maggie, sua cadela está dormindo no velho chapéu do papai — disse Daniel, sorrindo. — Ele falou que se ficar com pulgas, vai atirar nela.
— Não falei nada disso, filho ingrato. Como você está, Letty? Chegou ontem à cidade?
Murray Donleavy, um homem muito alto, magro, cujas sardas e olhos claros denunciavam sua origem celta, estava sentado à cabeceira da mesa e, sem fazer qualquer comentário, começou a comer em silêncio o pedaço de pão que a cunhada cortara para ele.
— Cheguei, sim, Murray.
— Alguma carta para nós?
— Entregarei quando acabarem de comer.
De outra maneira, considerando o comportamento daqueles homens à mesa, as cartas corriam o risco de serem respingadas com molho de carne ou de ficarem com manchas de dedos engordurados. Noreen parecia nunca ter se importado com isso.
Margaret já tinha almoçado e estava sentada em uma poltrona ao lado da despensa, os pés com meias em cima de um banquinho. Satisfeita, Letty observou os homens se acomodarem e baixarem a cabeça para comer. Atualmente, poucas famílias podiam se gabar de ter cinco homens ao redor da mesa, dos quais três tinham servido o Exército. Quando Murray pediu que Daniel, seu filho mais novo, lhe passasse mais pão, Letty ainda detectou um vestígio do sotaque irlandês com o qual ele chegara ao país. De vez em quando, sua irmã fazia brincadeiras bem-humoradas com ele por causa disso. “Aquele lá”, dizia ela, com dificuldade para imitar o sotaque do marido, “tem mais combates a seu favor do que brigas em um casamento em Dundalk!”
Não, com certeza faltava alguém àquela mesa. Ela suspirou, afastando Noreen do pensamento, como fazia inúmeras vezes todos os dias. Depois anunciou, animada:
— A esposa de Alf Pettit comprou uma daquelas novas geladeiras Defender. Tem quatro gavetas, um congelador, e não faz barulho.
— Ao contrário da esposa de Alf Pettit — retrucou Murray, que tinha pegado a última edição do Bulletin e estava concentrado lendo “The Man on the Land”, a coluna sobre agricultura. — Hum. Aqui está dizendo que as propriedades leiteiras estão cada vez mais sujas porque todas as mulheres estão se demitindo.
— É óbvio que nunca viram o estado do quarto de Maggie.
— Foi você quem fez isto?
Murray ergueu a cabeça do jornal e apontou o polegar para sua tigela quase vazia.
— Foi Maggie — respondeu Letty.
— Está bom. Melhor do que o último.
— Não sei por quê — disse Margaret, com a mão estendida para a frente como se examinasse a comida. — Não fiz nada diferente.
— Há um novo filme no Odeon — comentou Letty, mudando de assunto.
Isso chamou a atenção de todos. Ela sabia que os homens fingiam não estar interessados nas publicações de fofocas que ela levava para a fazenda duas vezes por semana, pois era coisa de mulher, mas uma vez ou outra a máscara da indiferença caía. Ela se apoiou na pia, com os braços cruzados.
— E então?
— É um filme de guerra. Com Greer Garson e Tyrone Power. Esqueci o nome, mas acho que é Para sempre alguma coisa.
— Tomara que tenha muitos aviões de caça. Americanos — disse Daniel.
Ele olhou para os irmãos, aparentemente em busca de concordância, mas todos mantinham a cabeça baixa enquanto enchiam a boca de comida.
— E como pretende chegar em Woodside, seu tampinha? Sua bicicleta está quebrada, caso tenha esquecido — disse Liam, dando um empurrão nele.
— De qualquer jeito, ele não faria esse longo trajeto sozinho de bicicleta — interveio Murray.
— Por que um de vocês não me leva de caminhonete? Ah, vamos. Pago um sorvete.
— Quantos coelhos você vendeu esta semana?
Daniel estava esfolando coelhos e vendendo a pele para ganhar um dinheiro extra. O preço das peles de boa qualidade tinha aumentado de forma inexplicável e cada uma passara de um centavo para vários shillings, o que deixara os irmãos com um pouco de inveja da sua súbita fortuna.
— Só quatro.
— Bem, esse é meu melhor preço.
— Ah, Murray, Betty pediu para avisá-lo que a melhor égua deles vai ter cria, finalmente, caso você ainda esteja interessado.
— A que colocaram para cruzar com o Mágico?
— Acho que sim.
Murray e seu filho mais velho se entreolharam.
— Talvez eu passe por lá ainda esta semana, Colm. Seria bom ter um cavalo decente na fazenda.
— Isso me faz lembrar de uma coisa. — Letty respirou fundo. — Encontrei Margaret cavalgando a potranca rebelde. Não acho que ela devia fazer isso. Não é… seguro.
Murray não ergueu os olhos do seu ensopado.
— Ela é uma mulher adulta, Letty. Dentro de pouco tempo não poderemos mais interferir na vida dela.
— Não precisa se intrometer nisso, Letty. Sei o que estou fazendo.
— Parece um cavalo agressivo. — Letty começou a lavar a louça, com uma vaga impressão de ter perdido a autoridade. — Só estou dizendo que acho que Noreen não teria gostado disso. Não com as coisas… do jeito que estão…
A menção ao nome da irmã causou um breve e melancólico silêncio.
Murray empurrou sua tigela vazia para o centro da mesa.
— É bom saber que se preocupa conosco, Letty. Não pense que não estamos agradecidos.
Se os rapazes notaram que os dois “velhos”, como eram conhecidos, se entreolharam ou que um leve rubor surgiu no rosto da tia Letty, não disseram nada. Da mesma forma que também não tinham dito nada quando, vários meses antes, ela começara a usar sua saia preferida para visitá-los. Assim como ficaram quietos quando, com mais de quarenta anos, de repente ela passara a fazer cachos no cabelo.
Enquanto isso, Margaret se levantara da cadeira e estava dando uma olhada nas cartas deixadas em uma mesinha ao lado da bolsa de Letty.
— Caramba! — exclamou ela.
— Margaret!
— Desculpe, Letty. Olhe! Olhe, papai, é para mim. Da Marinha!
Seu pai gesticulou, pedindo que ela lhe entregasse a carta. Em suas mãos enormes, ele virou o envelope, reparando no selo oficial e no endereço do remetente.
— Quer que eu abra?
— Ele não está morto, está? — gritou Daniel, enquanto Colm dava um forte tapa na nuca do menino.
— Não seja mais idiota do que já é.
— O senhor não acha que ele está morto, acha?
Margaret buscava um apoio para se manter de pé, e seu rosto, normalmente rosado, começava a ficar pálido.
— Claro que ele não está morto — afirmou o pai. — Mandam um telegrama para avisar justamente isso.
— Talvez quisessem economizar, mas…
Daniel se afastou depressa para evitar um chute violento do irmão mais velho.
— Eu ia esperar todos acabarem de comer — explicou Letty, mas foi ignorada.
— Vá em frente, então, Mags. O que está esperando?
— Não sei — respondeu a garota, aparentemente agoniada com a própria indecisão.
— Vá em frente, estamos todos aqui — incentivou Murray, colocando a mão no ombro da filha para reconfortá-la.
Ela olhou para o pai, depois para a carta que estava segurando. Seus irmãos, de pé, a cercavam de perto. Letty, que assistia à cena apoiada na pia, se sentiu supérflua, como se fosse uma intrusa. Para esconder seu desconforto, começou a esfregar uma panela, e seus dedos ficaram vermelhos sob a água escaldante.
Margaret rasgou o envelope e começou a ler a carta, sussurrando as palavras, um hábito que tinha desde a infância. Em seguida, gemeu baixinho. Letty se virou a tempo de ver a menina se jogando pesadamente na cadeira que um dos irmãos empurrara na sua direção. Olhou para o pai com enorme tristeza.
— Você está bem, filha?
Seu rosto estava contorcido de angústia.
— Eu vou, pai — respondeu ela, com a voz embargada.
— Para onde? Irlanda? — perguntou Daniel, pegando a carta.
— Não. Para a Inglaterra. Arranjaram um lugar para mim em um navio. Ah, meu Deus, pai.
— Margaret! — repreendeu Letty, mas ninguém ouviu.
— Mags vai para a Inglaterra! — O irmão mais velho leu a carta. — Vai mesmo! De algum jeito conseguiram enfiá-la na cabine de um navio!
— Olhe como fala comigo! — retrucou Margaret, que não estava no clima para brincadeiras.
— Devido à mudança do estado civil de outra esposa de guerra, podemos lhe oferecer uma passagem para o… Como fala este nome? Sairemos de Sydney blábláblá.
— Mudança do estado civil? O que deve ter acontecido com essa pobre coitada? — zombou Niall.
— É possível que o marido já fosse casado. Isso acontece, sabe.
— Letty! — protestou Murray.
— Bem, é verdade, Murray. Já aconteceu de tudo. Basta ler os jornais. Ouvi falar de moças que viajaram até os Estados Unidos e só lá ficaram sabendo que os maridos não as queriam mais. Algumas já… — Ela perdeu o fio da meada.
— Joe não é assim — acrescentou Murray depressa. — Todos nós sabemos que ele não é desse tipo.
— Além disso — começou Colm, animado —, quando ele se casou com Mags, avisei que se um dia a abandonasse eu iria atrás dele e o mataria.
— Você também disse isso? — perguntou Niall, surpreso.
— Meu Deus — comentou Margaret, ignorando a tia, mas fazendo o sinal da cruz, como um pedido de desculpas silencioso. — Com todos vocês em cima de mim, é um milagre que ele ainda esteja interessado.
O silêncio ficou cada vez maior conforme as pessoas na sala se davam conta da importância da carta. Margaret segurou a mão do pai e a apertou, enquanto os outros fingiam não reparar.
— Alguém quer chá? — perguntou Letty.
Em seguida, ela sentiu um nó na garganta ao imaginar a cozinha sem Margaret. Em resposta, recebeu vários murmúrios de concordância, mas foram pouco entusiasmados.
— Lembre-se de que não há nenhuma garantia de que você vai conseguir uma cabine — disse Niall, ainda lendo a carta.
— Podem colocá-la no compartimento de bagagem — sugeriu Liam. — Ela é durona feito couro velho.
— É isso, então? — perguntou Daniel, que, como Letty notou, parecia profundamente abalado. — Quer dizer, você vai para a Inglaterra e pronto?
— Sim, é isso — confirmou Margaret, baixinho.
— Mas e quanto a nós? — insistiu Daniel, a voz falhando, como se ainda não tivesse levado a sério o casamento da irmã ou suas possíveis implicações. — Não podemos perder mamãe e Mags. O que devemos fazer?
Letty tentou falar, mas estava sem palavras.
Do outro lado da mesa, Murray estava sentado em silêncio, de mãos dadas com a filha.
— Devemos ficar contentes, filho.
— O quê?
Murray deu um sorriso confiante para a filha, um sorriso que Letty não acreditou que fosse verdadeiro.
— Ficaremos contentes, porque Margaret estará com um homem bom. Um homem que lutou pelo seu país e também pelo nosso. Um homem que merece ficar com nossa Margaret tanto quanto ela merece ele.
— Ah, pai! — exclamou Margaret, secando os olhos.
— O mais importante, porém — prosseguiu, agora com a voz mais alta, como se para impedir qualquer interrupção —, é que acima de tudo devemos nos alegrar porque o avô de Joe era irlandês. E isto significa… — ele acariciou a barriga arredondada da filha — …que esta criaturinha aqui dentro vai nascer, se Deus quiser, em uma terra abençoada por Deus.
— Ah, Murray — sussurrou Letty, tapando a boca com a mão.
— Preparem-se, rapazes — murmurou Colm para os irmãos, calçando as botas. — Teremos uma noite ao som de “Oh Danny Boy”.

* * *

Eles estavam sem espaço para secar as roupas. A secadora dentro da casa estava tão cheia que ameaçava despencar levando o teto junto. Roupas molhadas pendiam de todos os ganchos, fios e cabos da casa, penduradas em cabides suspensos no alto das portas ou esticadas em cima das toalhas das mesas ou outras superfícies. Margaret tirou do balde mais uma camiseta molhada e entregou à tia, que a enfiou no espremedor de roupa e começou a girar a manivela.
— É porque nada secou ontem — explicou Margaret. — Não consegui tirar as roupas da corda a tempo, por isso molhou tudo de novo, e eu ainda tinha muito mais coisa para lavar.
— Por que não se senta, Maggie? — perguntou Letty, olhando para as pernas da sobrinha. — Descanse os pés por alguns minutos.
Agradecida, Margaret afundou na cadeira que havia na lavanderia e esticou a mão para acariciar a fox terrier sentada ao seu lado.
— Eu poderia estender algumas roupas no banheiro, mas papai detesta isso.
— Você sabe que agora precisa descansar. A essa altura, a maioria das mulheres fica com as pernas para cima.
— Ah, ainda falta muito tempo — respondeu Margaret.
— Menos de doze semanas, pelos meus cálculos.
— As mulheres africanas apenas desovam os filhos atrás de um arbusto e continuam trabalhando.
— Você não é africana. E duvido que alguém “desove” um bebê como se fosse… — Letty percebeu que não tinha nenhum conhecimento de causa para falar sobre parto.
Então ela continuou torcendo a roupa em silêncio. A chuva martelava ruidosamente o fino teto do anexo da casa, e o cheiro doce da terra recém-encharcada entrava pelas janelas abertas. O espremedor de roupa guinchou, obrigando-a a fazer um esforço indesejado.
— Daniel teve uma reação bem pior do que eu imaginava — disse Margaret, por fim.
Letty continuava ocupada com a manivela, gemendo cada vez que a girava na própria direção.
— Ele ainda é jovem e teve que lidar com muita coisa nos últimos dois anos.
— Ele realmente ficou muito zangado. Eu não esperava que ficasse bravo.
Letty fez uma pausa.
— Ele se sente abandonado, imagino. É como se perdesse a mãe e agora você…
— Não é como se eu tivesse feito de propósito.
Margaret pensou no acesso de raiva do irmão, nas palavras “egoísta” e “detestável” com as quais ele a agredira até o tapa do pai encerrar a discussão.
— Eu sei — concordou Letty, parando o que estava fazendo e endireitando o corpo. — Eles também sabem. Inclusive Daniel.
— Mas quando Joe e eu nos casamos, sabe, eu não pensava em deixar papai e os meninos. Também não imaginava que alguém se importaria tanto.
— Claro que eles se importam. Todo mundo ama você.
— Eu nem liguei quando Niall foi embora.
— Ele foi para a guerra. Você sabia que ele precisava ir.
— Quem vai tomar conta de todos eles? Papai consegue, no máximo, passar uma camisa ou lavar a louça, se for preciso, mas nenhum deles é capaz de preparar uma refeição. E deixariam os lençóis nas camas até que aprendessem a ir sozinhos para o cesto de roupa suja.
Enquanto falava, Margaret quase começou a acreditar nessa imagem que criara de si mesma como o ponto central da casa, posição que ocupara com certo ressentimento ao longo dos dois últimos anos. Ela nunca imaginara que precisaria cozinhar e lavar para alguém. Até mesmo Joe entendera quando ela explicou que não levava jeito para essas coisas e, mais importante, que não tinha intenção de mudar isso. Agora, forçada a passar várias horas do dia se ocupando com os irmãos, que antes considerara iguais a ela, lutavam dentro dela os sentimentos de tristeza, culpa e uma raiva silenciosa.
— É uma grande preocupação, Letty. Acho que eles não vão conseguir dar conta de tudo sem… Bem, sem uma mulher por perto.
Houve um longo silêncio. A cadela ganiu enquanto dormia, mexendo as pernas como se perseguisse algo invisível.
— Acho que eles podem contratar alguém, talvez uma empregada — sugeriu
Letty com um falso tom despreocupado.
— Papai não ia querer pagar para isso. Você sabe como ele insiste nessa história de economizar. Além do mais, não sei se algum deles gostaria de ter uma pessoa desconhecida na cozinha. Você sabe como eles são. — Ela olhou de relance para a tia. — Niall não suporta mais ter gente estranha em casa desde que voltou da guerra. Ah, não sei…
A chuva estava diminuindo. O barulho no telhado se tornara mais fraco, e partes do céu azul surgiam entre as nuvens cinzentas que seguiam para o leste. As duas mulheres ficaram em silêncio por alguns minutos, ambas aparentemente concentradas na paisagem emoldurada pela janela.
Como não ouviu resposta, Margaret voltou a falar:
— Na verdade, estou me perguntando se devo deixá-los. Quer dizer, não faz sentido ir embora se vou passar o tempo inteiro preocupada com a família, não é mesmo?
Esperou a tia falar alguma coisa. Como isso não aconteceu, ela prosseguiu:
— Porque eu…
— Imagino que eu possa ajudar — arriscou Letty.
— Como?
— Não pergunte “como”, minha querida. Se está tão preocupada assim com eles — acrescentou Letty lentamente —, talvez eu possa vir aqui quase todos os dias. Só para dar uma ajuda.
— Ah, Letty, você faria isso?
Margaret fazia questão de que sua voz demonstrasse o nível exato da sua surpresa e gratidão.
— Eu não gostaria de pegar o lugar de ninguém.
— Não… Não… Claro que não.
— Também não gostaria que você ou seus irmãos pensassem que… eu estaria tentando ocupar o lugar da sua mãe.
— Ah, acho que ninguém pensaria isso.
As duas fizeram uma pausa para assimilar o que finalmente havia sido dito em voz alta.
— Pode ser que alguém… interprete mal as coisas. As pessoas da cidade ou dos arredores.
Num gesto inconsciente, Letty alisou o cabelo.
— É, pode ser — concordou Margaret, ainda muito séria.
— Mas não é como se eu tivesse um emprego ou algo assim. Não agora que fecharam a fábrica de munição. E a família deve vir em primeiro lugar.
— Com certeza.
— Quer dizer, esses garotos precisam de uma influência feminina. Especialmente Daniel. Ele está naquela idade… Também não é como se eu estivesse fazendo alguma coisa errada. Alguma coisa… você sabe…
Se Margaret reparou no leve rubor de prazer que surgiu no rosto da tia, não comentou nada. Se havia alguma intenção na expressão da tia, no seu batom novo, que fazia Margaret se sentir um pouco constrangida com a proposta, ela fez um enorme esforço para afastar essa impressão. Se o preço a pagar para usufruir de uma liberdade sem culpa era ter o lugar da sua mãe usurpado, ela tomaria o cuidado de ver apenas os benefícios disso.
O rosto magro de Letty se iluminou com um sorriso.
— Neste caso, minha querida, se vai ajudá-la, tomarei conta de todos. E de Maudie também. Vou tomar conta da sua cachorrinha. Não precisa se preocupar.
— Ah, não estou preocupada com ela. — Margaret se ergueu com grande esforço. — Vou…
— Sim, vou garantir que todos fiquem bem — continuou Letty. A expectativa parecia tê-la deixado prolixa. — Se isso vai realmente facilitar as coisas para você, Maggie querida, farei o possível. Sim, você não vai precisar se preocupar com nada.
Com energia renovada, ela torceu a última camisa com a mão e a enfiou na cesta de roupa lavada, pronta para a próxima sessão de secagem. Enxugou as mãos grandes e ossudas no avental.
— Certo, então. Que tal se agora eu for preparar uma boa xícara de chá para nós? Você escreve sua carta para a Marinha dizendo que aceita, e então saberemos que está tudo acertado. Você não quer perder seu lugar, quer? Não como aquela pobre coitada.
Margaret sorriu sem muito entusiasmo. O artigo na revista Glamour dissera que talvez ela nunca mais visse a família. Era preciso estar preparada para isso.
— Sabe de uma coisa, Maggie, vou dar uma olhada nas suas gavetas lá em cima, para ver se encontro alguma coisa que eu possa costurar para você. Sei que não é muito boa com a agulha, e queremos que esteja linda quando reencontrar Joe.
Você não deve ficar magoada com seu marido, aconselhara a revista. Precisa prometer que nunca o julgará culpado por separá-la da família. Naquele momento, a tia estava arrastando a cesta pela sala com a mesma possessividade que sua mãe demonstrara.
Margaret fechou os olhos e respirou fundo quando a voz de Letty ecoou pela lavanderia:
— Posso consertar algumas camisas do seu pai quando vier aqui. Não pude deixar de reparar, querida, que parecem um pouco surradas e não gostaria que alguém dissesse que eu não… — Ela fulminou Margaret com um olhar de soslaio. — Farei o que for possível para que tudo corra bem aqui. Ah, sim. Você não vai ter que se preocupar com nada.
Margaret não queria imaginar deixá-los sozinhos. Mas seria melhor assim do que com alguém que ela não conhecesse.
— Maggie?
— Hum?
— Você acha… Você acha que seu pai vai se importar? Comigo, quer dizer.
De repente, a expressão de Letty parecia ansiosa, e seu rosto, aos quarenta e cinco anos, estava tão radiante quanto o de uma jovem recém-casada.
Depois, durante as diversas noites em que pensou na conversa daquele dia, Margaret não sabia direito o que a teria levado a dizer aquilo. Ela não era má pessoa. Afinal de contas, não queria que Letty e o pai se sentissem sozinhos.
— Acho que ele vai adorar — respondeu ela, curvando-se para acariciar a cachorrinha. — Ele gosta muito de você, Letty, e os meninos também. — Ela olhou para baixo e tossiu. — Ele já disse várias vezes que a considera… uma irmã. Alguém que pode conversar com ele sobre a mamãe, que se lembra de como ela era… E, claro, se ainda por cima você lavar as camisas deles, ficarão agradecidos para sempre.
Por alguma razão, Margaret não conseguia erguer os olhos, mas notava a total imobilidade da saia de Letty, das suas pernas finas e fortes a alguns metros de distância. As mãos dela, em geral ativas, agora estavam apoiadas no avental.
— Sim, claro — disse Letty, por fim, a voz um pouco embargada. — Bem, como já disse, vou… fazer um chá para nós.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!