20 de fevereiro de 2019

Um amor mais profundo


Há três anos Tessa Gray perdeu seu amado marido William Herondale. Foram anos difíceis, e, com a ajuda da sua amiga Catarina Loss, Tessa ainda tenta encontrar seu caminho entre os mundanos.
São tempos sombrios na Europa. E Tessa e Catarina se tornam enfermeiras e fazem barganhas no Mercado das Sombras para ajudar os mundanos em sofrimento, enquanto a Segunda Guerra Mundial traz caos e destruição a Londres.
Mas, numa reviravolta do destino, o caminho de Tessa volta a cruzar o de Jem. O irmão Zacarias está gravemente ferido e precisa da ajuda de sua amada. Será que ele conseguirá suportar ver a mulher que ama sem quebrar seus votos sagrados?



29 de dezembro de 1940

— Acho que a primeira coisa — começou Catarina — vai ser bolo de limão. Ah, limões. É do que mais sinto falta.
Catarina Loss e Tessa Gray desciam a Ludgate Hill, passando pelo Old Bailey. Esta era uma brincadeira que, às vezes, faziam: qual vai ser a primeira coisa que você vai comer quando a guerra acabar? Com todas as coisas terríveis que vinham acontecendo, as mais banais tocavam fundo. A comida era racionada, as porções, pequenas: um pedaço de queijo, quatro tiras finas de bacon e um ovo por semana. Tudo vinha em pequenas quantidades. Algumas coisas simplesmente desapareciam, como limões. Às vezes, Tessa via laranjas no mercado de frutas e legumes, mas era só para as crianças, que tinham direito a uma. As enfermeiras comiam no hospital, mas as porções eram sempre limitadas, e nunca suficientes para todo o trabalho que tinham. Tessa tinha sorte de ser tão forte. Não era a força física de um Caçador de Sombras, mas havia nela um traço de resistência angelical, e era isso que a sustentava. Ela não fazia ideia de como as enfermeiras mundanas davam conta.
— Ou uma banana — continuou Catarina. — Nunca gostei muito de banana, mas agora que elas acabaram, me pego com desejo de comer. É sempre assim, não é?
Catarina Loss não se importava com comida. Ela mal comia. Mas estava jogando conversa fora enquanto caminhavam pela rua. Essa era a dinâmica — você fingia que a vida seguia normalmente, mesmo com a morte caindo do céu. Era o espírito de Londres. Você mantinha sua rotina, na medida do possível, mesmo que precisasse dormir em uma estação de metrô à noite para ter um teto ou voltasse para casa apenas para descobrir que a do vizinho ou a sua não estava mais lá. O comércio tentava se manter aberto, mesmo que explodissem as vitrines ou uma bomba atravessasse o teto. Alguns colocavam placas que diziam: “mais abertos do que nunca”.
Você seguia em frente. Conversava sobre bananas e limões.
A essa altura em dezembro, Londres estava em seu momento mais escuro. O sol se punha pouco depois das três da tarde. Por causa dos ataques aéreos, a cidade recebia ordens de restringir a iluminação por toda noite. Cortinas bloqueavam a luz em todas as janelas. Postes de rua eram desligados. Carros reduziam os faróis. As pessoas caminhavam pelas ruas carregando lanternas para se guiarem na escuridão. Toda Londres se transformou em sombra e esquinas; cada beco era um ponto cego, cada muro, um vazio escuro. Tornava a cidade misteriosa e lúgubre.
Para Tessa, parecia que a própria Londres estava de luto por seu Will, sentia sua perda, apagava suas luzes.
Tessa Gray não gostou muito do Natal este ano. Era difícil gostar de qualquer coisa com os alemães lançando bombas sempre que tinham vontade. A Blitz, como era chamada, era feita para aterrorizar Londres, para deixar a cidade de joelhos. Havia bombas mortais que podiam destruir casas, deixando uma pilha de destroços fumegantes onde crianças outrora dormiam e famílias se divertiam juntas. De manhã, era possível ver paredes faltando ou as estruturas internas das casas expostas como uma casa de bonecas; farrapos balançando contra tijolos quebrados, brinquedos e livros espalhados pela rua. Mais de uma vez, Tessa viu uma banheira pendurada na lateral do que restava de uma casa. Coisas extraordinárias também aconteciam, como a chaminé de uma casa desabar, esmagar a mesa onde uma família jantava, mas sem machucar ninguém. Ônibus apareciam revirados. Rebocos caíam, matando instantaneamente um membro da família, deixando o outro chocado e ileso. Era uma questão de sorte, de centímetros.
E não havia nada pior do que ser deixado sozinho, do que ter a pessoa amada arrancada de você.
— A visita foi boa hoje à tarde? — perguntou Catarina.
— A geração mais nova ainda está tentando me convencer a ir embora — respondeu Tessa, desviando de um buraco na calçada, que explodira. — Acham que devo ir para Nova York.
— São seus filhos — retrucou Catarina, gentilmente. — Querem o melhor para você. Eles não entendem.
Quando Will morreu, Tessa soube que não haveria lugar para ela entre os Caçadores de Sombras. Durante um tempo parecia não haver lugar no mundo que pudesse aliviar a dor do seu coração destroçado. Então, quando ela quase enlouqueceu, Magnus Bane a recebeu em sua casa, e enquanto lentamente melhorava, os amigos de Magnus, Catarina Loss e Ragnor Fell, estavam lá.
Ninguém entendia a dor de ser imortal, exceto outro imortal. Ela só conseguia se sentir agradecida pelo fato de a terem recebido.
Foi Catarina quem sugeriu a Tessa a enfermagem quando a guerra foi declarada. Catarina sempre fora curandeira: de Nephilim, de integrantes do Submundo, de mundanos. Onde precisavam dela, ela ia. Fora enfermeira na última Grande Guerra, apenas vinte anos antes, a guerra que nunca mais deveria voltar a acontecer.
As duas tinham ido morar em um pequeno apartamento na Farrington Street, perto do Instituto de Londres e do Hospital St. Bart. Não era tão luxuoso quanto as residências anteriores — apenas um apartamento pequeno, no segundo andar, com um banheiro compartilhado no corredor. Assim era mais fácil, e mais aconchegante.
Tessa e Catarina compartilhavam um quarto pequeno, dividido no meio por um lençol que elas penduraram para ter privacidade. Frequentemente trabalhavam à noite e dormiam durante o dia. Pelo menos os ataques aéreos só estavam acontecendo quando o sol se punha agora — não havia mais sirenes, aviões, bombas, nem armamentos antiaéreos ao meio-dia.
A guerra provocou e aumentou as atividades demoníacas — como todas as guerras faziam. Os demônios tiravam vantagem do caos causado pelas batalhas, o que quase sobrecarregava os Caçadores de Sombras.
Apesar de ser um pensamento terrível, Tessa encarava a guerra como uma espécie de benção pessoal. Ela podia ser útil. Uma das coisas boas de ser uma enfermeira era que sempre havia algo que precisava ser feito. Sempre. A atividade constante mantinha o luto guardado, pois não havia tempo para pensar. Ir para Nova York e ficar em segurança seria um inferno. Não haveria nada para fazer além de pensar na família. Ela não sabia como fazer isso, como continuar vivendo sem envelhecer enquanto seus descendentes aparentavam ser mais velhos do que ela.
Tessa olhou para o grande domo da Catedral de St. Paul, erguendo-se acima da cidade como fazia há séculos. Como era ver a cidade que se espalhava abaixo, sua filha, explodida em pedaços?
— Tessa? — chamou Catarina.
— Estou bem — respondeu Tessa, apertando o passo.
Nesse momento, um grito irrompeu pela cidade: a sirene aérea. Instantes depois ouviu-se o zumbido. Parecia um enxame de abelhas furiosas se aproximando. A Luftwaffe estava acima delas. As bombas logo começariam a cair.
— Pensei que seríamos poupados por mais alguns dias — comentou Catarina, com pesar. — Foi tão bom ter só dois ataques aéreos nesta semana. Acho que até a Luftwaffe quis celebrar o Natal.
As duas se apressaram. Então ouviram... aquele som inconfundível. Enquanto as bombas caíam, elas sibilavam. Tessa e Catarina pararam. O sibilo estava logo acima delas, por todo lugar. Mas esse não era o problema — o problema era quando parava. O silêncio significava que as bombas estavam a menos de trinta metros. Era então que você esperava. Será que você seria a próxima? Para onde você poderia ir quando a morte era silenciosa e vinha do céu? Ouviram uma batida e um chiado de cima. E, de repente, a rua foi iluminada por centelhas de luz fosforescente.
— Incendiárias — notou Catarina.
Tessa e Catarina correram. As bombas incendiárias eram cilindros que, de perto, pareciam inofensivos, meras garrafas térmicas. Quando tocavam o chão, espalhavam fogo. Eram lançadas por toda a rua, iluminando a estrada e cuspindo chamas nos prédios. Os bombeiros começaram a correr de todas as direções, jogando jatos d'água nas incendiárias o mais rápido possível. Catarina se abaixou sobre uma. Tessa viu um brilho azul; em seguida, a bomba se apagou. Tessa correu para outra e pisou nas faíscas até um bombeiro jogar um balde de água sobre ela. Mas agora havia centenas por todo lado.
— Temos que ir — disse Catarina. — Parece que hoje a noite vai ser longa.
Londrinos que passavam tiravam os chapéus. Eles viam o que Tessa e Catarina queriam que vissem — apenas duas jovens enfermeiras indo para o hospital, não seres imortais tentando conter uma onda interminável de sofrimento.


Do outro lado do Tâmisa, uma figura caminhava no escuro por baixo do viaduto, passando por onde normalmente o próspero mercado Borough Market acontecia durante o dia. Geralmente o lugar era cheio de atividades e restos do mercado. Hoje tudo estava silencioso e havia poucas coisas sobrando no chão. Todos os repolhos velhos e frutas amassadas tinham sido levados por pessoas famintas. As cortinas escuras, a falta de luz na rua e a ausência de mundanos tornavam este canto de Londres perigoso. Mas a figura encapuzada caminhava sem hesitar, mesmo quando a sirene aérea cortava a noite. Seu destino era logo na esquina.
Apesar da guerra, o Mercado das Sombras continuava funcionando, embora fragmentado. Assim como os mundanos com seus cartões de racionamento, seus suprimentos limitados de comida, roupas, e até mesmo água para o banho, as coisas aqui estavam em falta. As barracas de livros velhos tinham sido reviradas. Em vez de centenas de poções e pós, apenas algumas dezenas enchiam as mesas dos vendedores. A faísca e o fogo não eram nada comparados às chamas em fúria do outro lado do rio, ou às máquinas que derrubavam a morte do céu, então não parecia haver motivo para produzir shows de luz.
Crianças continuavam correndo por ali — os jovens licantropes, as crianças de rua e órfãos que foram Transformados nos cantos escuros da cidade e agora vagavam, procurando alimento e orientação paterna. Um pequeno vampiro, Transformado cedo demais, caminhava ao lado do Irmão Zachariah, puxando sua capa para se divertir. Zachariah não o perturbou. A criança parecia solitária e suja, e, se ficava feliz por seguir um Irmão do Silêncio, então Zachariah não ia impedir.
— O que você é? — quis saber o garotinho.
Uma espécie de Caçador de Sombras, respondeu o Irmão Zachariah.
— Você veio nos matar? Soube que é isso que fazem.
Não. Não é isso que fazemos. Onde está a sua família?
— Eles morreram — respondeu o garotinho. — Jogaram uma bomba na gente, e meu mestre me buscou.
Era muito fácil pegar esses pequenos dos destroços de uma casa, segurá-los pela mão, levá-los até um beco escuro e, depois, Transformá-los. As atividades demoníacas também estavam a mil. Afinal de contas, quem poderia saber se um membro arrancado era de uma pessoa morta por uma bomba ou destruída por um demônio? Fazia diferença? Mundanos tinham suas próprias vias demoníacas.
Um grupo de outras crianças vampiras passou correndo, e o garotinho foi com eles. O céu rugiu, espesso com o barulho dos aviões. Irmão Zachariah ouvia o som do bombardeio com o seu ouvido musical. As bombas sibilavam quando eram derrubadas, mas havia um estranho silêncio pontuado ao se aproximarem da terra. Silêncios na música eram tão importantes quanto o som. Neste caso, os silêncios falavam muito da história por vir. Naquela noite, as bombas estavam caindo como chuva do outro lado do rio — uma sinfonia trovejante com muitas notas. Aquelas bombas cairiam perto do Instituto, perto do Hospital St. Bart, onde Tessa trabalhava. O medo por ela percorreu Zachariah, frio como o rio que cortava a cidade. Nesses dias vazios desde a morte de Will, a emoção era uma visita rara, mas quando se tratava de Tessa, os sentimentos sempre brotavam.
— Hoje está fraco — disse uma fada com escamas prateadas, que vendia sapos encantados. Eles pulavam pela mesa, esticando as línguas douradas. — Quer um sapo?
Ela apontou para um de seus sapos de brinquedo, que ficou azul, depois, vermelho e verde, então, pulou de costas e girou, antes de se transformar em pedra. Depois voltou a ser sapo e o ciclo continuou.
Não, obrigado, respondeu Zachariah. Ele se virou para ir embora, mas a mulher falou outra vez:
— Ele está esperando você.
Quem?
— Aquele que veio encontrar.
Há meses ele vinha estabelecendo uma série de contatos pelo mundo das fadas, tentando descobrir mais sobre o que Belial comentara a respeito dos Herondale perdidos. Zachariah não tinha ido encontrar ninguém naquela noite — alguns contatos ofereciam informações pessoalmente —, mas alguém queria vê-lo.
Obrigado, respondeu educadamente. Para onde devo ir?
— King's Head Yard — disse a fada, com um sorriso largo. Seus dentes eram pequenos e pontudos.
Irmão Zachariah assentiu.
O King's Head Yard era um beco próximo — uma continuação, em forma de ferradura, saindo da Borough High Street. Era acessível através de um arco entre os prédios. Ao se aproximar, ele ouviu o som de aviões no alto, depois, o sibilo de uma carga sendo derrubada. Nada a fazer além de continuar.
Zachariah passou por baixo do arco.
Estou aqui, falou para a escuridão.
— Caçador de Sombras — disse uma voz.
Da curva no fim da rua, uma figura emergiu. Era um homem fada, claramente integrante da Corte. Era extremamente alto, e tinha uma aparência quase humana, a não ser pelas asas, que eram marrons e brancas, e estavam abertas, quase tocando as paredes de um lado a outro.
Você quer falar comigo, o Irmão Zachariah afirmou educadamente.
A fada se aproximou, e Zachariah pôde ver uma máscara de cobre em forma de falcão tapando a parte superior de seu rosto.
— Você anda interferindo — disse o homem fada.
Em que exatamente?, Zachariah perguntou. Ele não recuou, mas apertou com força o bastão.
— Em coisas que não lhe dizem respeito.
Venho perguntando sobre uma família de Caçadores de Sombras perdida. Isso é algo que me diz muito respeito.
— Você veio aos meus irmãos. Perguntou às fadas.
Isso era verdade. Desde o encontro com Belial na feira no Tennessee, o Irmão Zachariah vinha buscando muitas pistas na Terra das Fadas. Afinal, ele tinha visto um descendente Herondale com uma esposa e um filho fadas. Eles fugiram assim que o reconheceram, mas não era dele que tinham medo. Qualquer que fosse o perigo que ameaçava o Herondale perdido, Zachariah descobriu que vinha do Reino das Fadas.
— O que você sabe? — perguntou o homem, dando um passo para a frente.
Eu recomendo que não se aproxime mais.
— Você não imagina o perigo que procura. Isso é assunto das fadas. Pare de se meter no que envolve nossas terras, e somente nossas terras.
Repito, Zachariah disse calmamente, apesar de a mão no bastão estar firme agora, estou perguntando sobre Caçadores de Sombras. Isso é assunto meu.
— Então você o faz por sua conta e risco.
Uma lâmina brilhou na mão do sujeito. Ele a empunhou na direção de Zachariah, que rapidamente desviou, rolou para o chão e parou próximo da fada, atingindo seu braço e derrubando a espada.
O sibilo das bombas havia cessado. Isso significava que estavam logo acima deles.
Em seguida, três delas caíram sobre as pedras na abertura do arco e começaram a cuspir chamas fosforescentes. Isso distraiu a fada por um instante, e Zachariah aproveitou a oportunidade para correr para o outro lado da ferradura e sair por lá. Ele não queria continuar com essa luta e provocar problemas entre os Irmãos do Silêncio e as fadas. Zachariah não fazia ideia do motivo da agressividade do sujeito. Com sorte, ele simplesmente voltaria para o lugar de onde tinha vindo.
Zachariah seguiu pela Borough High Street, desviando dos cilindros cadentes. Mas ele mal tinha iniciado sua fuga quando a fada surgiu atrás dele. Zachariah girou, com o bastão pronto.
Não somos inimigos. Vamos seguir nossos próprios caminhos.
Sob a máscara de falcão, os dentes da fada estavam cerrados. Ele atacou com a espada, cortando o ar em frente ao Irmão Zachariah e acertando sua capa. Zachariah pulou e girou, e seu bastão rasgou o ar para acertar a espada. Enquanto lutavam, os cilindros aterrissavam cada vez mais próximos, tossindo fogo. Nenhum dos dois hesitou.
Irmão Zachariah tomou cuidado para não ferir a fada e apenas bloquear os ataques. Seu objetivo deveria permanecer secreto, mas o homem fada vinha cada vez mais forte. Ele moveu a espada para cima, com a intenção de cortara garganta de Zachariah — e o Irmão do Silêncio a arrancou de sua mão, jogando-a pela rua.
Vamos encerrar assim. Declarar o fim de uma luta justa. Vá embora.
O sujeito estava sem ar. Sangue pingava de um machucado na têmpora.
— Como queira — falou. — Mas esteja avisado.
Ele se virou para seguir seu caminho. Irmão Zachariah relaxou o aperto no bastão por um instante. A fada girou, com uma lâmina curta na mão, e mirou o coração de Zachariah.
Com a velocidade de um Irmão do Silêncio, ele tentou desviar, mas não podia se mover tão rápido assim. A lâmina afundou em seu ombro e saiu do outro lado.
A dor. O ferimento imediatamente começou a chiar, como se ácido estivesse dissolvendo a carne de Zachariah. Dor e dormência desceram pelo braço, fazendo com que derrubasse o bastão. Ele cambaleou para trás, e a fada recuperou a espada e correu para cima dele.
— Você se meteu com as fadas pela última vez, Grigori — falou. —Nosso povo é nosso povo, e nossos inimigos, os nossos inimigos. Nunca serão seus!
As incendiárias agora caíam ao redor deles, batendo forte contra a calçada e as pedras, acendendo luz e lançando chamas contra os prédios. Zachariah tentou se afastar, mas sua força estava diminuindo. Ele não podia correr — só conseguia cambalear como um bêbado. Não era um ferimento normal. Tinha veneno invadindo seu corpo. A fada vinha em sua direção, e ele não escaparia.
Não. Não sem ver Tessa mais uma vez.
Ele olhou para baixo e viu uma das incendiárias que tinha caído do céu. Não tinha detonado. Irmão Zachariah utilizou suas últimas forças para se virar, girando com o cilindro. Pequenas bombas ainda caíam. Muitas outras caíram por perto. O cilindro voou pelo ar e acertou o homem no peito, se rompendo e fazendo-o berrar. Zachariah caiu de joelhos enquanto a chama queimava.


O hospital estava agitado. No St. Bart, os andares superiores eram considerados perigosos demais para serem utilizados. A atividade se concentrava toda no andar inferior e no porão, onde médicos e enfermeiras corriam para atender os feridos e doentes. Os bombeiros eram trazidos, arfando e com a pele coberta de fuligem. Havia ferimentos dos ataques: as queimaduras, os esmagamentos, as pessoas atingidas por escombros ou com cortes provocados pela explosão de vidro. E todas as questões normais de Londres permaneciam — pessoas ainda tinham filhos, ficavam doentes e sofriam acidentes normais. Mas a guerra multiplicava os incidentes. As pessoas caíam ou batiam no escuro. Enfartavam quando as bombas eram lançadas. Havia muita gente precisando de ajuda.
Desde que chegaram, Catarina e Tessa correram de uma ponta a outra do hospital, cuidando dos feridos que entravam, buscando suprimentos, carregando vasilhas de água ensanguentadas, fazendo e retirando curativos. Por ser Caçadora de Sombras, Tessa conseguia lidar facilmente com alguns dos aspectos mais medonhos do trabalho, como o fato de que, por mais que você tentasse manter seu avental limpo, sempre acabaria coberta de sangue e sujeira em minutos. Por mais que você lavasse, não saía. E assim que você limpasse seus braços, outro paciente chegaria e sua pele estaria coberta de sujeira outra vez.
Com tudo isso, as enfermeiras lutavam para manter um ar de competência tranquila. Você se movia depressa, e não apressadamente. Você falava alto quando precisava de assistência, mas nunca gritava.
Tessa ficava na porta, orientando os paramédicos enquanto eles traziam dezenas de novos pacientes. Agora eram grupos de bombeiros, alguns caminhando, outros em macas.
— Ali — apontou Tessa, enquanto os paramédicos traziam vítimas de queimaduras. — Para a Irmã Loss.
— Tem um perguntando por você, irmã — avisou o paramédico, pousando uma maca com um vulto embrulhado em um cobertor cinza.
— Estou indo — falou Tessa.
Ela foi rapidamente até a maca e se abaixou. O cobertor estava puxado até metade do rosto do homem.
— Você está bem — disse Tessa, tirando o cobertor. — Está tudo bem agora. Você está no hospital. Está aqui no St. Bart...
Ela demorou um instante para perceber o que estava vendo. As marcas na pele não eram ferimentos. E o rosto, embora coberto de fuligem e sangue, era mais familiar que o dela mesma.
Tessa, disse Jem, o eco dentro da cabeça era como a lembrança de um sino tocando.
Então ele amoleceu.
— Jem! — Não podia ser. Tessa pegou a mão dele, torcendo para estar sonhando, para a guerra ter mexido totalmente com seu senso de realidade. Mas as mãos esguias e cheias de cicatrizes eram familiares, mesmo flácidas e sem força. Esse era Jem, o seu Jem, usando a túnica cor de osso de um Irmão do Silêncio, as marcas do pescoço pulsando enquanto o coração batia furiosamente. A pele queimava quando Tessa o tocou.
— Ele está mal — disse o paramédico. — Vou buscar o médico.
— Não — respondeu Tessa rapidamente. — Deixe-o comigo.
Jem estava disfarçado, mas não podia ser examinado. Nenhum médico mundano poderia ajudar com os ferimentos, e ficariam chocados com os símbolos, as cicatrizes, e até mesmo com o sangue dele.
Tessa rasgou a túnica cor de pergaminho. Levou apenas um minuto para encontrar a fonte do trauma: um ferimento enorme, que atravessou seu ombro. O machucado estava preto e tinha uma borda prateada, e a túnica estava coberta de sangue até a cintura. Tessa examinou o corredor. Estava tão cheio que ela não conseguiu encontrar Catarina de primeira. E não podia gritar.
— Jem — falou ao ouvido dele. — Estou aqui. Vou buscar ajuda.
Ela se levantou, o mais calmamente possível, e avançou apressadamente pelo caos instalado no corredor, com o coração batendo tão depressa que sentiu que podia ir para sua garganta e sair pela boca.
Encontrou Catarina cuidando do homem queimado, as mãos já nos ferimentos. Apenas Tessa conseguia enxergar o brilho branco que emanava de debaixo do cobertor enquanto a feiticeira trabalhava.
— Irmã Loss — falou, tentando controlar a voz. — Preciso imediatamente de você.
— Só um minuto — pediu Catarina.
— Não pode esperar.
Catarina olhou por cima do ombro. Então o brilho desapareceu.
— Você vai se sentir melhor em um instante — falou para o homem. — Uma das outras irmãs já vai chegar.
— Já estou me sentindo melhor — disse o homem, admirado, enquanto apalpava o braço.
Tessa levou Catarina até Jem. Catarina, ao ver a expressão tensa da amiga, não fez perguntas; apenas se curvou e puxou o cobertor. E olhou para Tessa.
— Um Caçador de Sombras? — perguntou, a voz baixa. — Aqui?
— Rápido — disse Tessa. — Me ajude a levá-lo.
Tessa pegou um lado da maca, Catarina, o outro, e levaram Jem pelo corredor. Houve outra explosão mais próxima. O prédio sacudiu com o impacto. As luzes falharam e se apagaram por um instante, provocando gritos de alarme e confusão. Tessa congelou onde estava, certificando-se de que o teto não estava prestes a desabar e enterrá-los. Após um momento, as luzes voltaram e o movimento continuou.
— Vamos — falou Tessa.
Havia uma pequena sala no final do corredor que era utilizada para os intervalos de chá e cochilo das enfermeiras, ou como quarto quando elas não conseguiam voltar para casa por causa dos bombardeios. Colocaram gentilmente a maca de Jem na cama vazia na lateral do cômodo. Jem estava quieto, com as feições imóveis e a respiração entrecortada. Estava perdendo a cor.
— Segure a luz — pediu Catarina. — Preciso examinar isso.
Tessa tirou uma pedra de luz enfeitiçada do bolso. Era mais segura e confiável, mas ela só podia usar reservadamente.
Catarina pegou uma tesoura e cortou o tecido da túnica para expor o ferimento. As veias no peito e no braço de Jem estavam pretas.
— O que é? — perguntou Tessa, a voz trêmula. — Parece péssimo.
— Não vejo isso há muito tempo — respondeu Catarina. — Acho que é um cataplasma.
— O que é isso?
— Nada de bom — disse Catarina. — Seja paciente.
Ela deve ser louca, pensou Tessa. Ser paciente? Como poderia? Este era Jem, não um paciente anônimo sob um cobertor cinza.
Mas todo paciente anônimo era precioso para alguém. Ela se forçou a respirar mais fundo.
— Pegue a mão dele — disse Catarina. — Vai funcionar melhor se você o fizer. Pense nele, no que significa para você. Dê sua força a ele.
Tessa já tinha praticado um pouco de feitiçaria antes, mas não acumulara muitos conhecimentos. Enquanto Catarina observava, segurou a mão esguia de Jem. Curvou os dedos em volta dos dele, os dedos de violinista, lembrando do cuidado com que ele tocava. De quando compôs para ela. A voz de Jem ecoou em seu coração.
As pessoas ainda utilizam a expressão “zhi yin” para falar de “amigos próximos” ou “almas gêmeas”, mas o que realmente significa é “compreensão musical”. Quando eu toquei, você viu o que vi. Você entende minha música.
Tessa sentiu cheiro de açúcar queimado. Ela sentiu os lábios quentes de Jem nos seus, o tapete abaixo deles, os braços dele apertando-a contra o coração. Ah, meu Jem.
O Irmão do Silêncio se debateu na maca, arqueando as costas. Ele engasgou e o ruído enviou um choque através de Tessa.
Jem era silencioso há tanto tempo.
— Consegue nos ouvir? — perguntou Catarina.
Eu... consigo, a resposta veio engasgada na mente de Tessa.
— Você precisa dos Irmãos do Silêncio — disse Catarina.
Não posso ir até os meus irmãos com isso.
— Se não for até eles, morrerá.
As palavras atingiram Tessa como um golpe.
Não posso ir até a Cidade dos Ossos assim. Vim aqui com a esperança de que pudessem me ajudar.
— Não é hora de ser orgulhoso — retrucou Catarina com firmeza.
Não é orgulho, disse Jem.
Tessa sabia que era verdade; ele era a pessoa menos orgulhosa que ela conhecia.
— Jem — Tessa implorou. — Você tem que ir!
Catarina se espantou.
— Esse é James Carstairs? — perguntou.
Claro, Catarina sabia o nome do parabatai de Will Herondale, apesar de nunca o ter conhecido. Ela não entendia tudo que tinha se passado entre Tessa e Jem. Não sabia que eles tinham sido noivos. Que antes de haver Tessa e Will, houve Tessa e Jem. Tessa não falava disso por causa de Will, e depois por causa da ausência de Will.
Vim aqui porque é o único lugar para onde podia vir, disse Jem. Contar a verdade para os Irmãos seria colocar em risco uma vida que não é a minha. Não farei isso.
Tessa olhou desesperada para Catarina.
— Ele está falando sério — disse. — Ele nunca vai procurar ajuda se isso significar que alguém vai se machucar. Catarina, ele não pode morrer. Ele não pode morrer.
Catarina respirou fundo e abriu uma fresta da porta para espiar o corredor.
— Vamos ter que levá-lo para o apartamento — falou. — Não posso cuidar dele aqui. Não disponho do que é necessário. Pegue nossas capas. Temos que agir depressa.
Tessa pegou a maca de Jem. Ela entendia as complicações envolvidas. Eram enfermeiras, encarregadas de muitas pessoas doentes que chegariam durante o ataque. A cidade estava sendo bombardeada. Estava pegando fogo. Chegar em casa não era uma tarefa simples. Mas era o que iam fazer.


A cidade na qual saíram não era a mesma de uma hora antes. O ar estava tão quente que respirar queimava os pulmões. Uma parede laranja alta emergiu dos prédios ao redor, e a silhueta da Catedral de St. Paul se destacou em intenso relevo. A cena era ao mesmo tempo assustadora e quase linda, como a imagem de um sonho de Blake, um poeta que seu filho James sempre adorou. Com que asas ousou ele o voo? Que mão ousou pegar o fogo?
Mas não havia tempo para pensar em coisas como Londres em chamas. Havia duas ambulâncias na rua. Perto de uma, o motorista fumava um cigarro enquanto conversava com um bombeiro.
— Charlie! — chamou Catarina.
O homem jogou o cigarro fora e veio correndo.
— Precisamos da sua ajuda — falou ela. — Esse homem está com uma infecção. Não podemos mantê-lo aqui.
— Precisa que eu o leve até o St. Thomas, irmã? O caminho será duro. Quase todas as ruas estão pegando fogo.
— Não podemos ir tão longe — disse Catarina. — Temos que removê-lo depressa. Nosso apartamento é na Farrington Street. Terá que servir.
— Está certo, irmã. Vamos levá-lo para a ambulância.
Ele abriu a traseira e ajudou a colocar Jem lá dentro.
— Já volto — Catarina disse a eles. — Só preciso de alguns suprimentos.
Ela correu de volta para o hospital.
Tessa foi atrás com Jem, e Charlie se sentou no banco do motorista.
— Não costumo levar pacientes para a casa das enfermeiras — disse Charlie —, mas não tem outro jeito. A Irmã Loss sempre cuida deles. Quando minha Mabel estava tendo nosso segundo filho, a situação foi grave. Achei que fosse perder os dois. A Irmã Loss, abençoada seja, salvou os dois. Eu não teria Mabel ou meu Eddie sem ela. O que ela precisar.
Tessa já tinha ouvido muitas histórias assim. Catarina era uma enfermeira tanto de feiticeiros quanto de mundanos, com mais de cem anos de experiência. Ela fora enfermeira na última grande guerra. Soldados veteranos sempre vinham até ela e falavam sobre como era “a cópia exata da enfermeira que me salvou na última”. Mas, é claro, não podia ser. Tinha sido há mais de vinte anos, e ela continuava muito jovem. Catarina chamava a atenção deles por causa da pele escura. Eles não enxergavam uma mulher azul com cabelo branco — viam uma enfermeira das Índias Ocidentais. Ela enfrentou bastante preconceito, mas era evidente que Catarina era boa no que fazia, que era a melhor de toda Londres. Qualquer um que recebia os cuidados dela era considerado sortudo. Até o mais miserável preconceituoso desejava viver, e Catarina cuidava de todos da mesma forma. Ela não conseguia salvar a todos, mas sempre havia alguém, pelo menos um por dia, que sobrevivia a alguma coisa impossível porque estava sob os cuidados da Irmã Loss. Alguns a chamavam de Anjo do St. Bart.
Jem se esticou e resmungou levemente.
— Não se preocupe, companheiro — disse Charlie. — São as melhores enfermeiras da cidade. Você não podia estar em melhores mãos.
Jem tentou sorrir, mas em vez disso tossiu, uma tosse feia e borbulhante, que saiu com um rastro de sangue do canto da boca. Tessa imediatamente limpou com a borda da capa e se inclinou para perto dele.
— Aguente firme, James Carstairs — falou, tentando soar corajosa. Ela agarrou a mão dele. Tinha se esquecido de como era incrível segurar a mão de Jem, as mãos longas e graciosas, aquelas que produziam músicas tão bonitas no violino.
— Jem — sussurrou, se inclinando —, você precisa aguentar. Precisa. Will precisa que aguente. Eu preciso que aguente.
A mão de Jem apertou a dela. Catarina veio correndo do hospital carregando uma pequena bolsa de lona. Ela pulou para a traseira da ambulância, batendo as portas atrás de si e puxando Tessa de volta.
— Vá, Charlie — falou.
Charlie deu partida na ambulância e eles avançaram. No alto, o zumbido da Luftwaffe voltara, semelhante ao barulho de um enxame. Catarina imediatamente foi para perto de Jem e entregou uma atadura para Tessa desenrolar.
A ambulância balançou, e Jem foi arremessado na maca. Tessa se inclinou sobre ele para mantê-lo no lugar.
— Catarina — disse Tessa —, o que é isso? O que aconteceu com ele?
— Me parece um cataplasma — respondeu ela, baixinho. — É um concentrado raro de beladona com adição de veneno demoníaco. Até eu encontrar o antídoto, precisamos evitar que se espalhe para a corrente sanguínea, ou, pelo menos, desacelerar isso. Vamos fazer alguns torniquetes e começar a dificultar a circulação.
Parecia incrivelmente perigoso. Ao amarrarem os membros, arriscariam perdê-los. Mas Catarina sabia o que estava fazendo.
— Não será confortável — disse ela, desenrolando uma atadura — mas vai ajudar. Segure-o.
Tessa pressionou o corpo mais um pouco sobre o de Jem enquanto Catarina enrolava a atadura no braço e no ombro feridos. Ela deu um nó, e em seguida pegou as pontas das ataduras e apertou. Jem arqueou contra o peito de Tessa.
— Está tudo bem, Jem — falou. — Você está bem. Estamos aqui. Eu estou aqui. Sou eu. Tessa. Sou eu.
Tessa, ele repetiu. A palavra soou como uma pergunta. Jem se contorceu enquanto Catarina amarrava a atadura com força em volta do ombro e do braço. Um mundano não teria aguentado; Jem mal deu conta. O suor escorria por seu rosto.
— Vai ser duro, irmãs — Charlie avisou. — Estão tentando incendiar a St. Paul, os malditos. Vou ter que dar a volta. Há fogo por todos os lados.
Charlie não exagerou. Na frente deles, havia um laranja sólido contra as silhuetas escuras dos prédios. Os incêndios eram tão altos que parecia que o sol estava nascendo da terra, tirando o dia do chão. Ao prosseguirem, foi como se estivessem entrando em uma parede de calor. O vento tinha acelerado, e agora o fogo encontrava o fogo, criando paredes em vez de bolsões. O ar chiava e cozinhava. Algumas vezes, eles dobraram ruas que pareciam não existir mais.
— Por aqui também não está bom — disse Charlie, virando a ambulância outra vez. — Vou ter que tentar outro caminho.
Então veio o forte sibilo do ar. Desta vez, o som era diferente. Não eram bombas incendiárias — eram explosivos grandes. Após o fogo, a ideia era matar. Charlie parou a ambulância e esticou o pescoço para ver onde a bomba provavelmente aterrissaria. Todos congelaram, atentos ao fim do sibilo. O silêncio significava que a bomba estava a menos de trinta metros e vinha depressa.
Foi um longo instante. E então veio. O impacto foi na outra extremidade da rua, enviando uma onda de choque pelo asfalto e uma explosão de escombros pelo ar. Charlie voltou a andar.
— Malditos — falou baixinho. — Desgraçados e malditos. Estão bem aí atrás, irmãs?
— Estamos — respondeu Catarina.
As duas mãos estavam sobre o ombro de Jem, e havia um brilho azul fraco nas ataduras. Ela estava contendo o que quer que estivesse avançando pelo corpo dele.
Tinham acabado de fazer mais uma curva quando veio mais um apito e mais um silêncio. Pararam outra vez. O impacto foi à direita, dessa vez, em uma esquina. A ambulância balançou quando o canto de um prédio explodiu. O chão tremeu. Charlie virou a ambulância e se afastou.
— Não vamos passar por aqui — falou. — Vou tentar a Shoe Lane.
A ambulância virou em outra rua. Na maca, Jem tinha parado de se mover. Tessa não sabia se o calor pulsante vinha do ar ou do corpo dele. Havia fogo dos dois lados da rua, mas o caminho parecia quase livre. Havia dois bombeiros na avenida, jogando água em um armazém incendiado. De repente, ouviram um estalido. Um arco de fogo começou a se formar pela rua.
— Droga — disse Charlie. — Segurem firme, irmãs.
A ambulância deu ré e começou a recuar pelo beco. Tessa ouviu um estalo — inconfundível, quase alegre — e um grande tilintar. Então, simultaneamente, os tijolos do prédio explodiram, e o edifício ruiu em uma confusão de fogo e escombros, as chamas se erguendo com um rugido. Os homens com a mangueira desapareceram.
— Santo Deus — disse Charlie, freando a ambulância. Ele saltou do banco do motorista e começou a correr até os homens, dois dos quais cambaleavam para fora do fogo. Catarina olhou pelo para-brisa.
— Aqueles homens — falou. — O prédio caiu em cima deles.
Vocês precisam ajudá-los, disse Jem.
Catarina olhou de Jem para Tessa por um instante. Tessa sentiu uma ansiedade insuportável. Ela tinha que deixar Jem em segurança, mas, diante deles, homens estavam sendo consumidos pelas chamas.
— Serei rápida — disse Catarina, e a amiga fez que sim com a cabeça.
Sozinhos na ambulância, Tessa olhou para Jem.
Se precisam de você, então você tem que ir, disse Jem.
— Precisam de Catarina — respondeu Tessa. — Você precisa de mim, e eu preciso de você. Não vou deixá-lo. Não importa o que aconteça, não vou deixá-lo.
A ambulância estava aquecendo como um forno, presa entre muitos incêndios. Não havia água para esfriar a testa de Jem, então Tessa secou e abanou com a própria mão.
Após um minuto, Catarina abriu a traseira da ambulância. Ela estava coberta de fuligem e água.
— Fiz o que pude — falou. — Eles vão sobreviver, desde que cheguem ao hospital. Charlie terá que levar a ambulância.
Os olhos de Catarina refletiam sua dor.
Sim, Jem disse. De algum jeito, ele encontrou força o suficiente para se apoiar sobre os cotovelos. Precisam deixá-los em segurança. Eu sou um Caçador de Sombras. Sou mais forte do que esses homens.
Ele sempre fora forte. Não porque era um Caçador de Sombras. Mas sim porque sua força de vontade era como uma estrela, ardendo na escuridão e se recusando a ser apagada.
Charlie veio com os bombeiros feridos, carregando um deles no ombro.
— Vocês ficarão bem, irmãs? — falou. — Podem voltar comigo?
— Não — respondeu Catarina, entrando para ajudar Tessa a levantar Jem. Tessa se colocou sob o ombro ferido do Irmão do Silêncio. Ele se encolheu. Estava claro que Jem não conseguia andar, mas tinha resolvido fazê-lo assim mesmo. Ele se colocou de pé por pura força de vontade. Catarina se apressou em apoiá-lo em um lado, e Tessa ficou do outro, cedendo toda a sua força para apoiá-lo completamente. Era estranho sentir o corpo de Jem no dela depois de tanto tempo. Eles saíram da alameda e voltaram para a rua.
Bela noite para uma caminhada, disse Jem, claramente tentando alegrá-la. Ele estava completamente suado e não conseguia mais sustentar a própria cabeça. As pernas estavam flácidas. Era como uma marionete mole.
O caminho seguido por Charlie levou até depois de onde elas moravam, então tiveram que voltar pela rua. Os prédios ao redor também estavam em chamas, mas o fogo ainda estava contido do lado de dentro. Tessa estava coberta de suor, e a temperatura cozinhava todos eles. O ar estava inchado de calor, e cada vez que respirava pela boca, queimava até a garganta. Era a mesma sensação de quando aprendeu a se transformar: a dor estranha e intensa.
A rua agora estreitava a ponto de mal conseguirem caminhar os três lado a lado; Catarina e Tessa roçavam as laterais do corpo nas paredes quentes. Os pés de Jem já se arrastavam pelo chão, incapazes de dar um passo. Quando emergiram na Fleet Street, Tessa engasgou com o ar relativamente frio. O suor no seu rosto esfriou por um instante.
— Vamos — disse Catarina, levando-os até um banco. — Vamos pousá-lo por um instante.
Elas apoiaram Jem cuidadosamente no banco vazio. Sua pele estava grudenta de suor. O ferimento havia ensopado a túnica.
Catarina abriu a roupa para expor seu peito e refrescá-lo, e Tessa pôde ver as Marcas dos Irmãos do Silêncio na pele e as veias pulsando no pescoço de Jem.
— Não sei até onde conseguiremos levá-lo nesse estado — disse Catarina. — O esforço é muito grande.
Uma vez no banco, os membros de Jem começaram a chacoalhar e tremer enquanto o veneno se espalhava pelo corpo outra vez. Catarina voltou a cuidar dele, colocando as mãos no machucado.
Tessa examinou a rua. Ela identificou uma sombra grande vindo em sua direção, com duas luzes reduzidas que pareciam olhos com pálpebras pesadas.
Um ônibus. Um grande ônibus vermelho de dois andares percorria a noite, pois nada parava os ônibus de Londres, nem mesmo uma guerra. Eles não estavam em um ponto, mas Tessa pulou para a rua e começou a acenar. O motorista abriu a porta e gritou:
— Está tudo certo, irmãs? — perguntou. — Seu amigo não parece bem.
— Ele está machucado — disse Catarina.
— Então entrem, irmãs — respondeu o motorista, fechando a porta depois que elas entraram, arrastando Jem. — Vocês têm a melhor ambulância particular de Londres ao seu dispor. Querem ir ao St. Bart?
— Viemos de lá. Está cheio. Vamos levá-lo para casa para cuidar dele, e precisamos ir depressa.
— Então me dê o endereço e é para lá que vamos.
Catarina gritou o endereço acima do som de outra explosão relativamente mais distante, e elas levaram Jem para um banco. No mesmo instante ficou evidente que ele não conseguiria se sustentar sentado, pois estava exaurido do esforço de tentar caminhar. Elas o apoiaram no chão do ônibus e se sentaram com ele, uma de cada lado.
Só em Londres, Jem disse, com um sorriso fraco, um ônibus continuaria cumprindo sua rota durante um intenso bombardeio.
— Fique calmo e segure firme — disse Catarina, sentindo o pulso dele. — Pronto. Chegaremos em casa em um instante.
Tessa percebeu, pela forma como Catarina estava se tornando cada vez mais tagarela, que as coisas estavam piorando rapidamente.
O ônibus não podia seguir em alta velocidade — ainda era um ônibus londrino, em uma noite escura, durante um bombardeio aéreo —, mas estava indo mais rápido do que qualquer ônibus que ela já vira.
Tessa não se iludia quanto à segurança do veículo. Ela já tinha visto um daqueles virado após um ataque, caído na rua como um elefante de costas. Mas se moviam, e Jem permanecia apoiado no chão, com os olhos fechados.
Tessa olhou para as propagandas nos muros — imagens alegres de pessoas temperando a comida com caldo de carne ao lado de pôsteres que diziam para tirarem os filhos de Londres por motivos de segurança. Londres não desistiria, nem Tessa.


Tiveram mais um pouco de sorte no apartamento. Tessa e Catarina moravam no andar de cima de uma pequena casa. Os vizinhos, ao que parecia, tinham ido para os abrigos, então não havia mais ninguém para vê-las arrastando um homem ensanguentado para cima.
— O banheiro — disse Catarina ao repousarem Jem no andar escuro. — Encha a banheira de água. Muita água. Fria. Vou buscar meus suprimentos.
Tessa correu para o banheiro no corredor, rezando para que a água não tivesse sido cortada pelo bombardeio. O alívio a invadiu quando o líquido correu da torneira. Elas só podiam encher a banheira até doze centímetros, que eram indicados por uma linha pintada na parte interna da banheira. Tessa ignorou o fato.
Ela abriu a janela. Havia um pouco de ar fresco vindo de onde não havia fogo. Ela se apressou pelo corredor. Catarina tinha removido a túnica de Jem, deixando seu peito à mostra. Tinha retirado as ataduras, e o ferimento estava exposto e furioso, as marcas pretas correndo por suas veias mais uma vez.
— Cuide do outro lado dele — falou Catarina.
Juntas elas levantaram Jem. Ele era como um peso morto enquanto o manobravam pelo corredor e o colocavam cuidadosamente na banheira. Catarina o posicionou de modo que seu braço ferido e seu ombro pendessem pela lateral, depois pegou dois frascos do bolso de seu avental. Ela entornou o conteúdo de um deles na água, deixando-a azul clara. Tessa sabia que não deveria perguntar se Catarina achava que ele ia sobreviver. Ele ia sobreviver, porque elas fariam o possível. Além disso, ninguém fazia esse tipo de pergunta quando temia a resposta.
— Continue passando a esponja nele — disse Catarina. — Precisamos mantê-lo frio.
Tessa se ajoelhou e encharcou a esponja, depois, passou a água tingida de azul na cabeça e no peito de Jem. Cheirava a uma estranha combinação de enxofre e jasmim, e parecia diminuir a temperatura dele.
Catarina esfregou o conteúdo do outro frasco em suas mãos e começou a tratar do ferimento do braço e do peito, massageando a escuridão que se espalhava novamente em direção à abertura.
A cabeça de Jem caiu para trás, a respiração ficou mais pesada. Tessa esfregou a testa dele, tranquilizando-o o tempo todo. Fizeram isso por uma hora. Tessa logo se esqueceu do barulho das bombas do lado de fora, da fumaça e dos escombros em chamas que flutuavam até elas. Tudo se resumia ao movimento da água e da esponja, à pele de Jem, ao rosto contorcido de dor, depois imóvel e relaxado. Catarina e Tessa estavam encharcadas, e a água se acumulava no chão ao seu redor, formando uma poça.
Will, Jem disse, a voz na cabeça de Tessa estava perdida, mas tentando se encontrar. Will, é você?
Tessa fez um esforço para engolir o bolo em sua garganta enquanto Jem sorria para o nada. Se ele estivesse vendo Will, que visse Will. Talvez Will estivesse ali, afinal, para ajudar seu parabatai.
Will, Tessa pensou, se estiver aqui, tem que ajudar. Não posso perdê-lo também. Will, juntos nós vamos salvá-lo.
Talvez tivesse imaginado, mas Tessa sentiu alguma coisa guiando seu braço enquanto trabalhava. Estava mais forte agora.
De repente, Jem se debateu na água e ergueu metade do corpo para fora da banheira, a coluna arqueando em um formato que não deveria ser possível, e jogando a cabeça para a água.
— Segure-o — disse Catarina. — Não deixe que se machuque! Essa é a pior parte!
Juntas, e com qualquer que fosse a força ajudando Tessa, elas seguraram Jem enquanto ele se contorcia e gritava. Por estar molhado, elas tiveram que se agarrar aos braços e pernas dele para tentar evitar que se agitasse, que batesse a cabeça nos azulejos. Jem empurrou Catarina, que caiu no chão e bateu na parede, mas a feiticeira voltou e colocou os braços em volta do peito dele outra vez.
Os gritos de Jem se misturaram ao caos da noite — a água espirrou e a fumaça entrou. Ele implorou por yin fen e chutou tão forte que Tessa foi lançada contra a torneira. Então, subitamente, parou de se mover e caiu para trás na banheira. Parecia morto.
Tessa se arrastou pelo chão molhado e o alcançou.
— Jem? Catarina...
— Ele está vivo — respondeu Catarina, como peito inchando ao recuperar o fôlego. Ela estava com os dedos no pulso dele. — Fizemos tudo que era possível aqui. Vamos colocá-lo na cama. Logo saberemos.


O sinal de que tudo estava bem soou por Londres pouco depois das onze, mas não havia nada de bom ou de seguro. A Luftwaffe podia ter voltado para casa, e as bombas podiam ter deixado de cair por algumas horas, mas os incêndios só aumentavam. O vento os alimentava e os fazia se alastrar. O ar estava cheio de fuligem quente e pedacinhos de escombros voando, e Londres brilhava.
Elas tinham levado Jem até o quartinho. O resto de sua roupa molhada teve que ser removido. Tessa já tinha vestido e despido diversos homens a essa altura, e Jem era um Irmão do Silêncio, para o qual a intimidade era impossível. Talvez ela devesse ter conseguido fazer com calma e profissionalismo, mas não podia ser uma enfermeira com Jem. Outrora pensou que o veria, que eles se veriam, nus na noite de núpcias. Isso era íntimo e estranho demais — não era assim que Jem gostaria que Tessa o visse pela primeira vez. Então ela deixou a tarefa para Catarina, a enfermeira, que a cumpriu rapidamente e secou Jem. Elas o colocaram na cama e o cobriram com todos os cobertores do apartamento. As roupas secaram facilmente — foram penduradas na janela ao ar quente dos incêndios. Depois, Catarina foi para a sala e deixou Tessa segurando a mão de Jem. Era tão estranho estar novamente ao lado do leito do homem que amava, esperando, torcendo. Jem era... Jem. Exatamente como há tantos anos, exceto pelas marcas de Irmão do Silêncio. Ele era Jem, o menino do violino. Seu Jem. A idade não o havia consumido como fizera com seu Will, mas ele poderia ser tirado dela mesmo assim.
Tessa alcançou seu pingente de jade, escondido sob o colarinho. Sentada ali, escutou os rugidos e ganidos do lado de fora enquanto segurava a mão de Jem.
Estou aqui, James, disse mentalmente. Estou aqui, e sempre estarei.
Tessa só soltava a mão de Jem para ir de vez em quando até a janela se certificar de que o fogo não estava perto demais. Havia uma aureola laranja por todo lado. As chamas estavam a apenas poucas ruas de distância. Era estranhamente bonito, aquele brilho terrível. A cidade queimava; centenas de anos de história, vigas antigas e livros estavam acesos.
— Eles querem nos queimar dessa vez — disse Catarina, surgindo atrás da amiga. Tessa não a tinha ouvido entrar. — Esse anel de fogo está cercando a St. Paul. Querem que a Catedral queime. Querem destruir a nossa força de vontade.
— Bem — falou Tessa, fechando a cortina —, não vão conseguir.
— Por que não tomamos um chá? — sugeriu Catarina. — Ele vai dormir por um bom tempo.
— Não. Tenho que estar aqui quando Jem acordar.
Catarina olhou para o rosto da amiga.
— Ele é muito importante para você — falou.
— Jem, o Irmão Zachariah, e eu sempre fomos próximos.
— Você o ama — observou Catarina. Não foi uma pergunta.
Tessa agarrou um pedaço da cortina. Elas ficaram em silêncio por um tempo. Catarina esfregou o braço da amiga em consolo.
— Vou fazer o chá — falou ela. — Até deixo que fique com os últimos biscoitos do pote.
Biscoitos?
Tessa girou. Jem estava sentado. Ela e Catarina correram para ele. Catarina começou a checar o pulso, a pele. Tessa olhou para o rosto, o rosto querido e familiar. Jem estava de volta; estava aqui. Seu Jem.
— Está melhorando — afirmou Catarina. — Vai precisar descansar, mas vai sobreviver. Você escapou por pouco.
Razão pela qual procurei as melhores enfermeiras de Londres, disse Jem.
— Talvez possa explicar esse ferimento? — perguntou Catarina. — Sei de onde vem. Por que foi atacado com uma arma de fada?
Estava buscando informações, disse Jem, se mexendo dolorosamente para se sentar direito. Minhas perguntas não foram bem recebidas.
— Óbvio, se foi atacado com um cataplasma. A intenção é matar. Não fere. Normalmente não se sobrevive. Suas Marcas de Irmão do Silêncio ofereceram alguma proteção, mas...
Catarina sentiu novamente o pulso dele.
Mas?, Jem perguntou, curioso.
— Não achei que fosse sobreviver a essa noite — disse ela simplesmente.
Tessa piscou os olhos. Ela sabia que era sério, mas a forma como Catarina falou a atingiu fisicamente.
— Talvez deva evitar fazer essas perguntas no futuro — disse Catarina, colocando o cobertor de volta em Jem. — Vou preparar um chá.
Ela se retirou do quarto silenciosamente, fechou a porta e deixou Tessa e Jem juntos na escuridão.
O ataque parece pior do que qualquer outro anterior, Jem finalmente falou. Às vezes, acho que mundanos fazem mais mal uns aos outros do que qualquer demônio poderia fazer.
Tessa sentiu uma onda de emoção — tudo que aconteceu naquela noite veio de uma vez, e ela enterrou a cabeça na lateral da cama e chorou. Jem se sentou e a puxou para perto, e ela apoiou a cabeça no peito dele, que agora estava quente, e o coração batia forte.
— Você poderia ter morrido — disse. — Eu poderia ter perdido você também.
Tessa, falou ele, Tessa, sou eu. Estou aqui. Eu não morri.
— Jem. Por onde esteve? Faz tanto tempo desde que...
Ela se levantou e esfregou as lágrimas das bochechas. Ainda não conseguia dizer as palavras desde que Will morreu. Desde aquele dia em que se sentou ao lado dele e ele adormeceu suavemente para nunca mais acordar. Jem estava lá, é claro, mas nos últimos três anos ela passou a vê-lo cada vez menos. Ainda se encontravam na Blackfriars Bridge, mas fora isso, ele estava longe.
Achei melhor ficar longe de você. Sou um Irmão do Silêncio, ele disse, e a voz na cabeça de Tessa era baixinha. Não sirvo para você.
— O que quer dizer? — perguntou, desamparada. — Para mim é sempre melhor estar com você.
Sendo o que sou, como posso confortá-la?
— Se você não pode, ninguém no mundo pode.
Tessa sempre soubera disso. Magnus e Catarina tentaram conversar com ela cuidadosamente sobre vidas imortais e outros amores, mas mesmo se ela sobrevivesse até o fim dos tempos, não haveria mais ninguém para ela além de Will e Jem, aquelas almas gêmeas, as únicas almas que amou.
Não sei que conforto uma criatura como eu poderia trazer, disse Jem. Se eu pudesse morrer para trazê-lo de volta, morreria, mas ele se foi, e com sua morte o mundo parece ainda mais perdido para mim. Luto por cada gota de emoção que tenho, mas, ao mesmo tempo, Tessa, não posso vê-la sozinha e não desejar estar com você. Não sou o que eu era. Não queria lhe causar ainda mais dor.
— O mundo inteiro parece ter enlouquecido — falou ela, com lágrimas ardendo em seus olhos. — Will se foi, e você também, ou, pelo menos, foi o que pensei por muito tempo. Mas esta noite percebi que ainda poderia perdê-lo, Jem. Poderia perder a esperança, a pequena esperança da possibilidade de que um dia...
As palavras pairaram pelo ar. Eram palavras que nunca disseram um ao outro em voz alta, nem antes e nem depois da morte de Will. Ela tinha pegado a parte que amava Jem desgovernada e violentamente e trancado em uma caixa; Tessa amou Will, e Jem foi seu melhor amigo, e eles jamais falaram sobre o que poderia acontecer se ele deixasse de ser um Irmão do Silêncio. Se de algum jeito a maldição daquele destino frio pudesse ser quebrada. Se o silêncio desaparecesse, se ele voltasse a ser humano, capaz de viver, respirar, sentir. E então? O que fariam?
Sei o que está pensando. A voz dele em sua mente era suave. A pele sob as mãos de Tessa era quente. Ela sabia que era por causa da febre, mas disse para si mesma que não era. Ela levantou o rosto e o encarou, as Marcas cruéis fechando os adoráveis olhos para sempre, o semblante inalterado. Eu também penso nisso. E se acabasse? E se fosse possível para nós dois? Um futuro? O que faríamos?
— Eu agarraria esse futuro — disse ela. — Eu iria com você para qualquer lugar. Mesmo que o mundo estivesse em chamas, que os Irmãos do Silêncio nos perseguissem até o fim do mundo, eu ficaria feliz se estivesse com você.
Ela não conseguia ouvi-lo propriamente em sua mente, mas podia senti-lo: um turbilhão de emoções, seu desejo agora tão desesperado quanto quando caíram juntos no tapete da sala de música e ela implorou para que eles se casassem o quanto antes.
Jem a pegou nos braços. Era um Irmão do Silêncio, um Grigori, um Observador, mal era humano. Mas parecia suficientemente humano, com o peito esguio e quente contra a pele de Tessa, enquanto ela inclinava a cabeça para frente. Seus lábios encontraram os dela, suaves e tão doces que ela sentiu dor. Fazia tantos, tantos anos, mas ainda era igual.
Quase igual. Não sou quem eu era.
Quase como o fogo das noites perdidas, como o som da sua música apaixonada aos seus ouvidos. Ela colocou os braços sobre os ombros magros de Jem e o abraçou forte. Podia amar o suficiente pelos dois. Qualquer parte de Jem era melhor do que qualquer homem vivo inteiro.
As mãos de músico passaram pelo rosto de Tessa, pelo cabelo, pelos ombros, como se ele estivesse aproveitando uma última chance de memorizar aquilo que jamais voltaria a tocar. Mesmo quando ela o beijou e insistiu desesperadamente para si mesma que era possível, ela sabia que não era.
Tessa, ele disse. Mesmo sem conseguir enxergar, você é tão linda. Em seguida, ele a pegou pelos ombros com suas belas mãos e gentilmente a afastou. Sinto muito, minha querida, disse a ela. Não foi justo de minha parte, nem correto. Quando estou com você, quero me esquecer do que sou, mas não posso mudar. Um Irmão do Silêncio não pode ter uma esposa, nem um amor.
O coração de Tessa estava acelerado, sua pele ardendo como os incêndios por toda Londres. Ela não sentia tanto desejo desde Will. E sabia que não sentiria por mais ninguém; só por Will ou Jem.
— Não se afaste de mim — sussurrou ela. — Não pare de falar comigo. Não volte ao silêncio. Pode me contar como se feriu? — Ela perguntou, agarrando a mão de Jem.
Ele a colocou novamente sobre o coração. Ela podia senti-lo batendo forte contra as costelas.
— Por favor, Jem, o que você estava fazendo?
Jem suspirou.
Estava procurando por Herondale perdidos, falou.
— Herondale perdidos?
Foi Catarina quem perguntou ao parar na entrada do quarto, segurando uma bandeja com duas xícaras de chá. A bandeja tremeu em suas mãos, tão trêmula quanto Tessa se sentia. Ela nem tinha pensado na presença de Catarina.
Catarina segurou a bandeja com mais firmeza e rapidamente a pousou sobre a cômoda.
A sobrancelha de Jem se levantou.
Sim. Sabe algo sobre eles?
Catarina ainda estava visivelmente abalada. Ela não respondeu.
— Catarina? — chamou Tessa.
— Você já ouviu falar em Tobias Herondale? — retrucou ela.
Claro, Jem respondeu. A história é conhecida. Ele fugiu de uma batalha e seus companheiros Caçadores de Sombras foram mortos.
— Essa é a história — disse Catarina. — A verdade é que Tobias estava enfeitiçado, e o fizeram acreditar que a esposa e o filho que ainda nem tinha nascido estavam em perigo. Ele correu para ajudá-los. Temia pela segurança deles, mas mesmo assim transgrediu a Lei. Como a Clave não o encontrou, puniram a esposa. Eles a mataram, mas não antes que eu ajudasse com o parto da criança. Eu a enfeiticei, de modo que ficou parecendo que ainda estava grávida quando foi executada. Na verdade, ela teve um filho. Seu nome era Ephraim.
Ela suspirou e se apoiou contra a parede, entrelaçando as mãos.
— Levei Ephraim para os Estados Unidos e o criei lá. Ele nunca soube o que era, ou quem era. Foi um menino feliz, um bom menino. O meu menino.
— Você teve um filho? — perguntou Tessa.
— Nunca lhe contei — respondeu Catarina, olhando para baixo. — Deveria ter contado. É que... já faz tanto tempo. Mas foi um período maravilhoso da minha vida. Por um tempo, não houve caos. Não houve luta. Fomos uma família. Só fiz uma coisa para conectá-lo à sua herança secreta: dei a ele um colar com uma garça esculpida. Não podia permitir que sua ascendência de Caçador de Sombras desaparecesse completamente. Mas, é claro, ele cresceu. Teve a própria família. E os familiares dele tiveram suas próprias famílias. Eu continuei a mesma e desapareci gradualmente de suas vidas. É o que nós, imortais, temos que fazer. Um de seus descendentes era um menino chamado Roland. Ele se tornou um mágico, e era famoso no Submundo. Tentei avisar para que não usasse magia, mas ele não me ouviu. Tivemos uma briga horrorosa e nos afastamos. Tentei encontrá-lo, mas ele tinha sumido. Nunca consegui localizar o rastro dele. Eu o afastei quando tentei salvá-lo.
Não, disse Jem. Não foi por isso que ele fugiu. Ele se casou com uma fugitiva. Roland se escondeu para protegê-la.
Catarina olhou para ele.
— Quê? — falou.
Eu estive nos Estados Unidos há pouco tempo com uma Irmã de Ferro, ele disse, para recuperar adamas. Enquanto estava lá, encontramos um Mercado das Sombras ligado a um parque de diversões. Era organizado por um demônio. Nós o enfrentamos, e ele nos contou que havia Herondale perdidos no mundo, que estavam em perigo, e estavam por perto. Disse que se escondiam de um inimigo que não era mortal nem demoníaco. E também nesse Mercado vi uma fada com um homem mortal. Eles tinham um filho. O nome do homem era Roland.
Tessa estava chocada pela enxurrada de informações que vinha de todos os lados, mas se concentrou na ideia de um homem jogando toda a vida fora para fugir com a mulher amada, dando tudo que tinha para protegê-la e achando que isso não era nada. Parecia mesmo coisa de Herondale.
— Ele estava vivo? — perguntou Catarina. — Roland? Em um parque de diversões?
Quando me dei conta do que estava acontecendo, tentei encontrá-lo, mas não consegui. Saiba que não foi de você que ele fugiu. O Demônio Maior me contou que estavam sendo perseguidos e que corriam grave perigo. Agora sei que é verdade. O homem fada que veio atrás de mim hoje tinha a intenção de me matar. As forças que procuram pelos Herondale não são mortais nem demoníacas, são fadas, e as fadas querem guardar algum segredo.
— Então... eu não o afastei? — perguntou Catarina. — Por todo esse tempo... Roland...
Catarina se sacudiu e se recompôs. Pegou a bandeja de chá e a apoiou na beira da cama.
— Torne seu chá — falou. — Usei o último leite e os últimos biscoitos.
Você sabe que Irmãos do Silêncio não bebem, falou Jem. Catarina deu um sorriso triste.
— Achei que talvez ainda encontrasse algum conforto segurando a xícara quente.
Ela limpou os olhos disfarçadamente e se retirou do quarto.
Você não sabia disso?, Jem perguntou a Tessa.
— Ela nunca me disse. Tantos problemas são provocados por segredos desnecessários.
Jem virou o rosto e passou o dedo pela borda da xícara. Tessa segurou sua mão. Se era tudo que poderia ter, iria se agarrar a isso.
— Por que ficou tão longe? — insistiu ela. — Nós dois estamos sofrendo por Will. Por que sofrer separadamente?
Sou um Irmão do Silêncio, e Irmãos do Silêncio não podem... Jem se interrompeu.
Tessa apertou a mão dele tão forte que poderia ter quebrado.
— Você é Jem, o meu Jem. Sempre meu Jem.
Sou o Irmão Zachariah, respondeu.
— Que seja! — disse Tessa. — Você é o Irmão Zachariah, e é o meu Jem. É um Irmão do Silêncio. Isso não significa que não seja tão querido quanto sempre foi e sempre será. Acha que alguma coisa poderia nos separar? Algum de nós é fraco assim? Depois de tudo que vimos e fizemos? Passo todos os dias grata por você existir no mundo. Enquanto você estiver vivo, podemos manter Will vivo.
Ela viu o impacto das palavras em Jem. Ser um Irmão do Silêncio significava destruir algumas de suas partes humanas, queimá-las, mas o seu Jem ainda estava ali.
— Temos tanto tempo, Jem. Você precisa me prometer que não o passaremos separados. Não fique longe de mim. Deixe-me fazer parte desta busca também. Posso ajudar. Você precisa ter mais cuidado.
Eu não a colocaria em perigo.
— Perigo? — repetiu ela. — Jem, eu sou imortal. E olhe só lá para fora. Veja a cidade em chamas. A única coisa de que tenho medo é de ficar longe daqueles que amo.
Finalmente, ela sentiu a pressão dos dedos dele segurando os dela.
Lá fora, Londres queimava. Ali dentro, naquele momento, tudo estava bem.


A manhã chegou, fria e cinza, com o cheiro das chamas que ainda ardiam. Londres acordou, sacudiu a poeira, pegou em vassouras e baldes e começou seu ato diário de reparação.
As cortinas foram abertas para o ar matutino. As pessoas saíram para trabalhar. Os ônibus circularam, as chaleiras ferveram, as lojas abriram. O medo não venceu. A morte e o fogo não venceram.
Tessa pegou no sono mais ou menos ao amanhecer, sentada ao lado de Jem, segurando a mão dele, coma cabeça apoiada na parede. Quando acordou, viu que a cama estava vazia. O cobertor tinha sido afastado cuidadosamente, e as roupas não estavam mais penduradas.
— Jem — chamou, exasperada.
Catarina estava dormindo na pequena sala, com a cabeça apoiada nos braços sobre a mesa.
— Ele se foi — constatou Tessa. — Você o viu sair?
— Não — respondeu Catarina, esfregando os olhos.
Tessa voltou para o quarto e olhou em volta. Será que tinha sido tudo um sonho? Será que a guerra a tinha enlouquecido? Ao se virar, viu um bilhete dobrado na penteadeira, endereçado a ela. Abriu:

Minha Tessa,
Não haverá separação entre nós. Onde você estiver, eu estarei. Onde nós estivermos, Will estará.
Não importa o que mais eu seja, sempre serei
Seu Jem



Irmão Zachariah caminhou por Londres. A cidade estava cinza, os prédios, reduzidos a restos quebrados do que outrora foram, até parecer uma cidade feita de cinzas e ossos. Talvez todas as cidades se tornassem a Cidade do Silêncio um dia.
Ele conseguiu esconder algumas partes dos seus Irmãos, apesar de eles terem pronto acesso à sua mente. Não conheciam todos os seus segredos, mas sabiam bastante. Esta noite todas as vozes em sua mente sussurravam, impressionadas com o que ele tinha sentido e com o que quase tinha feito.
Ele estava profundamente envergonhado do que dissera. Tessa ainda estava de luto por Will. Eles compartilhavam a dor e se amavam. Ela ainda o amava. Ele acreditava nisso. Mas ela não podia sentir o que outrora sentiu por ele. Graças ao Anjo, ela não tinha vivido como ele, nos ossos e no silêncio, e nas lembranças do amor. Ela teve Will, e o amou por tanto tempo, e agora Will se fora. Jem tinha medo de ter se aproveitado da tristeza dela. Ela podia muito bem se agarrar ao que era familiar em um mundo enlouquecido e estranho.
Mas ela era tão corajosa, sua Tessa, esculpindo uma nova vida agora que a velha tinha se perdido. Ela já tinha feito isso uma vez, ainda menina, vindo dos Estados Unidos. Ele sentiu aquilo como um laço entre os dois há muito tempo, o fato de que ambos tinham atravessado os mares para encontrarem um novo lar. E achou que pudessem encontrar um novo lar um no outro.
Agora sabia que tudo aquilo tinha sido um sonho, mas o que foram sonhos para ele podia ser real para Tessa. Ela era imortal e valente. Ela viveria novamente neste novo mundo e construiria uma nova vida. Talvez voltasse a amar, se conseguisse encontrar um homem à altura de Will, apesar de, em quase cem anos, Zachariah não ter encontrado ninguém que pudesse. Tessa merecia a melhor das vidas e o maior dos amores imagináveis. Tessa merecia mais do que um ser que jamais poderia ser verdadeiramente um homem outra vez, que não poderia amá-la com um coração inteiro.
Embora ele a amasse com todos os fragmentos que restavam, não era suficiente. Ela merecia mais do que ele tinha a oferecer. Ele nunca deveria ter feito aquilo.
Mesmo assim havia uma alegria egoísta em Jem, um calor que poderia levar até para o frio mortal da Cidade dos Ossos.
Ela o beijou e o abraçou. Por uma noite inteira, ele a teve em seus braços novamente.
Tessa, Tessa, Tessa, pensou. Ela jamais poderia voltar a ser dele, mas ele seria dela para sempre. E isso-bastava.


Naquela noite, Catarina e Tessa caminharam em direção ao St. Bart.
— Um sanduíche de bacon — disse Catarina. — Tão grande que mal dá para segurar. E tão cheio de manteiga que o bacon desliza do pão. É a primeira coisa que eu vou comer. E você?
Tessa sorriu e iluminou a rua com sua lanterna, passando por cima de alguns rebocos. Ao redor delas havia esqueletos de prédios. Tudo tinha sido reduzido a tijolos queimados e cinzas. Mas Londres já estava se reerguendo, afastando os escombros. A escuridão era como um abraço. Toda Londres estava junta sob um cobertor, segurando firme.
— Um sorvete — decidiu Tessa. — Com morangos. Muitos e muitos morangos.
— Hum, gostei disso — respondeu Catarina. — Vou trocar o meu.
Um homem que caminhava na direção delas tirou o chapéu.
— Boa noite, irmãs — falou. — Viram só?
Ele gesticulou para a Catedral de St. Paul, a grande construção que permanecia protegendo Londres há centenas de anos.
— Quiseram derrubá-la ontem à noite, mas não conseguiram, não é mesmo? — O homem sorriu.
— Não, não conseguiram. Não podem nos quebrar. Tenham uma boa noite, irmãs. Fiquem bem.
O homem seguiu caminho, e Tessa olhou para a catedral. Tudo ao seu redor tinha acabado, mas a construção estava a salvo — impossível e improvavelmente salva de milhares de bombas. Londres não a deixaria morrer, e a catedral havia sobrevivido. Tessa tocou o pingente de jade no pescoço.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!