15 de fevereiro de 2019

Todas as Coisas Extraordinárias



Anna Lightwood, filha mais velha de Gabriel e Cecily, é uma adolescente à frente de seu tempo; linda e perigosamente elegante. Mas todos temos um ponto fraco, e com Anna não é diferente.

James Carstairs é um dos Irmãos do Silêncio, embora seus lábios e olhos não tenham sido costurados. E ele está em busca de pistas sobre o passado de Tess. Mas será que conseguirá lidar com as repostas que procura?
Prepare-se para conhecer a origem da história de Anna, como seu caminho se cruza com o Irmão Zachariah, e seus desdobramentos. Todas as coisas extraordinárias é um conto sobre amor, autoconhecimento e como uma família unida pode superar qualquer obstáculo, até mesmo um coração partido.




Uma estava manchada com alguma coisa roxa.
Outra tinha um buraco na manga.
Na terceira, faltavam... as costas. As costas inteiras. Era apenas a frente de uma camisa e duas mangas se segurando para sobreviver.
— Christopher — falou Anna, revirando a peça nas mãos — como você faz essas coisas?
Todos tinham seu pequeno País das Maravilhas. Para seu irmão Christopher e o tio Henry, era o laboratório. Para o primo James e o tio Will, a biblioteca. Para Lucie, a escrivaninha onde escrevia suas longas aventuras para Cordelia Carstairs. Para Matthew Fairchild, era qualquer esquina conturbada de Londres.
Para Anna Lightwood, era o guarda-roupa do irmão.
De muitas maneiras, era muito bom ter um irmão que não ligava nem um pouco para as próprias roupas. Anna poderia tirar o casaco que Christopher estivesse vestindo que ele mal perceberia. A única desvantagem era que as roupas de Christopher tinham tido destinos que nenhuma roupa deveria ter. Eram mergulhadas em ácido, queimadas pelo fogo, atingidas por objetos afiados, largadas na chuva... O guarda-roupa dele era como um museu de experimentos e desastres, tudo rasgado, manchado, queimado e com cheiro de enxofre.
Mas, para Anna, as roupas ainda eram preciosas.
Christopher estava visitando o Instituto e o primo Henry, e passaria horas fora de casa. A mãe e o pai estavam no parque com seu irmãozinho, Alexander. Era a hora certa, e não havia tempo a perder. Christopher era mais alto do que ela agora, e não parava de crescer, o que significava que as calças velhas dele serviam nela. Anna pegou uma, escolheu a camisa menos estragada, e um colete cinza listrado em bom estado. Revirou a pilha de gravatas, cachecóis, lenços, punhos e colarinhos no fundo do armário do irmão e selecionou os itens mais apresentáveis. Na penteadeira, encontrou um chapéu com um sanduíche dentro — era de presunto, Anna percebeu ao tirá-lo — e limpou as migalhas. Depois que conseguiu tudo o que precisava, ela embolou as peças embaixo do braço e foi para o corredor, fechando silenciosamente a porta.
O quarto de Anna era muito diferente do de seu irmão. As paredes estavam cobertas por papel cor-de-rosa. Via-se uma coberta branca de renda sobre a cama e, ao lado, um vaso rosa com lírios. Sua prima Lucie achava o quarto encantador. Anna tinha gostos diferentes. Se pudesse escolher, o papel de parede seria verde-escuro e a decoração, preta e dourada. Ela teria um divã onde poderia ler e fumar.
Ainda assim, tinha um espelho comprido e isso era tudo que importava agora. (O espelho de Christopher encontrara seu destino em uma experiência em que ele tentou aumentar o efeito dos feitiços de disfarce e não foi substituído). Ela fechou as cortinas por causa do sol quente de verão e começou a trocar de roupa. Há muito tempo, Anna tinha abdicado de usar espartilho — ela não tinha interesse em dar um nó nos órgãos internos, nem em realçar o busto pequeno. Tirou o vestido e o deixou cair no chão, chutando-o para longe em seguida. Tirou as meias e soltou os cabelos. Dobrou a calça até o tornozelo para ficar no comprimento certo. Alguns ajustes no colete disfarçaram os danos à camisa. Ela colocou uma das gravatas pretas no pescoço fino e deu um nó muito bem feito. Em seguida, pegou o chapéu que abrigara o sanduíche de presunto e o colocou na cabeça, prendendo os cabelos negros cuidadosamente embaixo dele e ajeitando-os até parecer que eram curtos.
Anna parou diante do espelho, examinando o efeito. O colete apertava um pouco o busto. Ela o puxou para cima e ajeitou até ficar bom. Abaixou as pernas da calça e puxou o chapéu sobre um dos olhos.
Pronto. Mesmo com essas roupas — com manchas, sanduíches de presunto e tudo mais —, sua confiança inflou. Ela não era mais uma menina desengonçada, que parecia estranha com laços e babados. Em vez disso, estava elegante, seu corpo esguio, favorecido por roupas de corte mais severo, o colete tocando a cintura fina e descendo sobre seus quadris estreitos.
Imagine o que ela poderia fazer com o guarda-roupa de Matthew Fairchild, que era um verdadeiro pavão, com seus coletes e gravatas coloridos, e os ternos lindos! Por alguns instantes, ela andou para frente e para trás, tirando o chapéu para damas imaginárias. Fez uma reverência, fingindo pegar a mão de uma bela donzela, com o olhar erguido. Sempre olhe nos olhos da donzela quando beijar-lhe a mão.
— Encantada — falou para a dama imaginária. — Gostaria de dançar?
A dama adoraria dançar. Anna passou o braço ao redor da cintura de sua bela fantasma; já tinha dançado muitas vezes com ela. Apesar de não conseguir enxergar-lhe o rosto, ela jurava que podia sentir o tecido do vestido de sua amante, o barulho suave que fazia ao arrastar no chão. O coração da dama estava acelerado quando Anna segurou sua mão. A dama usaria um perfume delicado. Flor de laranjeira, talvez. Anna chegaria o rosto perto do ouvido dela e sussurraria:
— Você é a moça mais linda daqui.
A dama ficaria vermelha e chegaria mais perto dela.
— Como é que você fica ainda mais bonita sob qualquer luz? — Anna continuaria. — O jeito como o veludo de seu vestido toca sua pele. O jeito como...
— Anna!
Ela derrubou a companheira invisível no chão com a surpresa.
— Anna! — Sua mãe chamou novamente. — Onde você está?
Anna correu para a porta e abriu apenas uma fresta.
— Aqui! — falou, em pânico.
— Você pode descer, por favor?
— Claro — respondeu ela, já puxando a gravata sobre o pescoço. —Estou indo!
Com a pressa, Anna pisoteou a companheira de dança. Tirou o colete, a calça. Tirou tudo, tudo. Enfiou as roupas no fundo do armário. Vestiu apressadamente o vestido jogado no chão; os dedos desajeitados tateando os botões. Tudo nas roupas femininas era difícil e complicado.
Muitos minutos depois, ela desceu correndo, tentando parecer recomposta. Na sala, sua mãe, Cecily Lightwood, examinava uma pilha de cartas sobre a mesa.
— Encontramos o Inquisidor Bridgestock durante nossa caminhada — falou. — Os Bridgestock acabaram de chegar de Idris e nos convidaram para jantar hoje à noite.
— Jantar com o Inquisidor — repetiu Anna. — Que maneira empolgante de passar uma noite.
— É necessário — falou a mãe simplesmente. — Temos que ir. Você pode ficar de olho em Christopher enquanto conversamos? Certificar-se de que ele não ponha fogo em nada. Nem em ninguém.
— Sim — respondeu Anna automaticamente —, é claro.
Seria terrível. Assuntos da Clave acompanhados por um bife queimado. Havia tantas outras coisas que ela poderia fazer em uma bela noite de verso em Londres. E se pudesse caminhar pelas ruas, bem-vestida, de braços dados com uma bela moça? Algum dia a dama não seria imaginária. As roupas não seriam emprestadas e com acabamento ruim. Algum dia ela andaria pela rua e as mulheres cairiam aos seus pés (sem deixarem de notar os sapatos perfeitamente engraxados) e os homens tirariam seus chapéus para uma conquistadora melhor do que eles. Só não seria hoje.


O sol estava se pondo quando a família Lightwood entrou na carruagem naquela noite. Havia feirantes, floricultores a engraxates... e tantas moças adoráveis caminhando com seus vestidos de verão. Será que sabiam o quanto eram adoráveis? Será que olhavam para Anna e reparavam como ela olhava para elas? Seu irmão Christopher esbarrava suavemente nela enquanto a carruagem se movia.
— Está parecendo um caminho longo para o Instituto — observou.
— Não estamos indo para o Instituto — disse Anna.
— Não?
— Vamos jantar com o Inquisidor — disse o pai.
— Ah — respondeu Christopher. E, com isso, ele se perdeu nos pr6prios pensamentos, como sempre, inventando alguma coisa na mente, desenvolvendo um cálculo. Nessas horas, Anna se sentia próxima do irmão. Ambos passavam o tempo todo em outros lugares imaginários.
Os Bridgestock moravam em Fitzrovia, perto de Cavendish Square. Tinham uma bela casa. A tinta na porta preta brilhante parecia ainda estar fresca, e havia luzes elétricas do lado de fora. Um criado os levou até uma sala escura onde o Inquisidor e sua esposa os receberam. Mal tomaram conhecimento de Anna, exceto para observarem que moça encantadora ela era. Ela e Christopher se sentaram educadamente em cadeiras duras e passaram a figurar como elementos decorativos em uma terrível ocasião.
O sino do jantar finalmente soou e todos foram para a sala de jantar. Anna e Christopher se sentaram na extremidade da mesa, e havia um lugar vazio diante da menina. Anna tomou a sopa de aspargos e ficou olhando para o quadro de um navio na parede. O navio estava no meio de uma tempestade, prestes a se desintegrar no mar.
— Souberam que estão construindo um Portal no Gard? — o Inquisidor perguntou aos pais de Anna.
— Céus — disse a Sra. Bridgestock, balançando a cabeça — isso é uma boa ideia? E se demônios passarem?
Anna sentiu inveja do navio na parede e de todos que afundaram com ele.
— Claro — o Inquisidor continuou — tem também a questão financeira. O Cônsul rejeitou a proposta de criação de uma moeda oficial de Idris. Sábia decisão. Muito sábia. Como eu dizia mais cedo...
— Sinto muito pelo meu atraso — disse uma voz.
Na entrada da sala de jantar via-se uma garota, provavelmente da idade de Anna, com um vestido azul-escuro. Seus cabelos eram negros, como os de Anna, mas mais cheios, mais exuberantes, escuros como o céu noturno contra sua pele morena clara. Mas o que hipnotizou Anna foram seus olhos — olhos cor de topázio — grandes, com cílios grossos.
— Ah — disse o Inquisidor. — Esta é nossa filha, Ariadne. Esses são os Lightwood.
— Eu estava com meu tutor — falou Ariadne enquanto um criado puxava sua cadeira. — Nos atrasamos. Peço desculpas. Parece que entrei quando estavam debatendo a nova moeda. Caçadores de Sombras são um grupo internacional. Devemos nos misturar facilmente com muitas economias internacionais. Ter nossa pr6pria moeda seria um desastre.
Ao dizer isso, ela pegou o guardanapo, virou o rosto para Anna e Christopher e sorriu:
— Não nos conhecemos — falou.
Anna fez um esforço para engolir, e depois respirar. Ariadne era algo além do reino dos seres humanos ou dos Caçadores de Sombras. O próprio Anjo devia tê-la feito.
— Anna Lightwood — cumprimentou ela.
Christopher estava brincando com ervilhas no garfo, sem perceber que uma deusa havia sentado diante dele.
— E este é meu irmão Christopher. Às vezes, ele é um pouco distraído.
Ela o cutucou.
— Ah — falou a menino, notando Ariadne. — Eu sou Christopher.
Nem o irmão, depois de olhar para a outra menina, pôde deixar de se impressionar com ela. Ele piscou os olhos, assimilando a visão.
— Você... não é inglesa, é?
Anna morreu mil vezes por dentro, mas Ariadne simplesmente riu.
— Eu nasci em Bombaim — falou. — Meus pais comandavam o Instituto de lá ate serem mortos. Fui adotada pelos Bridgestock em Idris.
Ela falava com muita tranquilidade, no tom de alguém que há muito aceitara os fatos.
— Como foi que seus pais morreram? — perguntou Christopher casualmente.
— Um grupo de demônios Vetis — respondeu a menina.
— Ah! Eu conheci uma pessoa na Academia que foi morta por um demônio Vetis!
Christopher! — disse Anna.
— Você estuda na Academia? — perguntou Ariadne.
— Não mais. Explodi uma das alas. — Christopher pegou um pedaço de pão de uma bandeja e começou a passar manteiga alegremente.
Anna olhou para o quadro do navio outra vez, tentando se transportar para o deque e depois para as águas negras e impiedosas. A garota mais adorável do mundo tinha acabado de entrar em sua vida e em trinta segundos seu irmão tinha conseguido falar sobre a morte da família dela, uma morte na escola, e o fato de que ele tinha explodido uma parte da Academia.
Mas Ariadne não estava olhando para Christopher, mesmo quando acidentalmente ele colocou o cotovelo na manteigueira.
Você já explodiu alguma coisa? — perguntou a Anna.
— Ainda não — respondeu ela. — Mas a noite é uma criança.
Ariadne riu e a alma de Anna cantarolou. Ela esticou o braço e ergueu o cotovelo do irmão da manteigueira, sem tirar os olhos da outra menina. Será que ela sabia o quanto era linda? Será que sabia que seus olhos tinham cor de ouro liquido, e que canções poderiam ser compostas sobre a forma como ela girava o pulso para alcançar o copo? Anna já tinha visto meninas lindas antes. Já tinha até visto algumas meninas que olhavam para ela do jeito que ela olhava. Mas sempre de passagem. Elas se cruzavam na rua ou trocavam olhares um pouco demorados em uma loja. Anna era treinada na arte do olhar prolongado, que as convidava: Venha. Conte-me sobre você. Você é adorável. Havia algo na maneira como Ariadne estava olhando para Anna que sugeria...
Não. Anna devia estar imaginando coisas. Ariadne estava sendo educada e atenciosa. Ela não olhava Anna de um jeito romântico à mesa de jantar, enquanto comiam batatas assadas e pato. A perfeição de Ariadne fez com que Anna tivesse alucinações.
Ariadne continuou contribuindo com a conversa do outro lado da mesa. Anna nunca teve tanto interesse pela política econômica de Idris. Ela passaria noite e dia estudando o assunto, se pudesse se juntar a Ariadne na discussão.
De vez em quando Ariadne se voltava para ela e a encarava como se soubesse, com a boca se curvando em um sorriso feito um arco. Toda vez que isso acontecia, Anna ficava imaginando o que estava acontecendo, e por que aquele olhar especifico fazia a sala girar. Talvez estivesse doente. Talvez tivesse ficado com febre só de olhar para Ariadne.
A sobremesa veio e foi, e Anna se lembrava vagamente de ter comido. Quando os pratos foram retirados e as mulheres se levantaram, Ariadne veio e lhe deu o braço.
— Temos uma biblioteca muito boa — falou. — Quem sabe você gostaria de vê-la?
Anna, em uma demonstração de supremo autocontrole, não desabou no chão. E conseguiu dizer que “sim... a biblioteca... sim... ela adoraria conhecer... sim... biblioteca... sim... sim...”
Pensou consigo mesma que deveria parar de dizer que queria ver a biblioteca e olhou para a mãe. Cecily sorriu.
— Vá, Anna. Christopher, você poderia nos acompanhar até a estufa? A Sra. Bridgestone tem uma coleção de plantas venenosas da qual acho que você vai gostar muito.
Anna lançou um olhar agradecido a Cecily enquanto Ariadne a conduzia da sala. Sua cabeça estava cheia do perfume de flor de laranjeira e da maneira como a cascata de cabelos negros estava presa com um pregador dourado.
— É por aqui — disse Ariadne, conduzindo-a através de portas duplas até os fundos da casa.
A biblioteca era escura e fria. Ariadne soltou o braço de Anna e acendeu uma das lâmpadas.
— Vocês usam eletricidade? — perguntou Anna. Ela tinha que falar alguma coisa, e isso pareceu tão bom quanto qualquer outra.
— Convenci meu pai — falou Ariadne. — Sou moderna e tenho muitas noções avançadas.
A sala estava cheia de caixotes e apenas alguns dos livros tinham sido retirados e guardados nas prateleiras. A mobília, no entanto, fora arrumada. Havia uma mesa ampla e muitas cadeiras confortáveis.
— Ainda estamos nos ajeitando aqui — explicou, sentando-se lindamente (ela não podia fazer isso de outra forma) em uma cadeira vermelho-escura.
Anna estava nervosa demais para sentar, e foi até o outro lado da sala. Era quase excessivo olhar para Ariadne aqui nesse lugar escuro e privado.
— Parece que sua família tem uma história muito interessante — disse Ariadne.
Anna tinha que falar alguma coisa. Tinha que descobrir alguma maneira de existir perto de Ariadne. Mentalmente vestiu suas verdadeiras roupas: a calça, a camisa (na sua imaginação, não estava manchada), o colete justo. Deslizou os braços pelas mangas. Assim vestida, ela se sentiu confiante e conseguiu se sentar diante de Ariadne e olhar nos olhos dela.
— Meu avô era um verme, se é isso que quer dizer — falou.
Ariadne riu alto.
— Você não gostava dele?
— Não o conheci — disse Anna. — Ele era, literalmente, um verme.
Era evidente que Ariadne não sabia muito sobre os Lightwood. Normalmente quando o seu parente adorador de demônios adoece gravemente com varíola demoníaca e se transforma em um verme gigante com dentes enormes, a fofoca se espalha. As pessoas comentam.
— Sim — disse Anna, examinando agora a borda dourada da escrivaninha. — Ele comeu um dos meus tios.
— Você é engraçada — Ariadne comentou.
— Que bom que você acha.
— Os olhos do seu irmão são extraordinários — observou a menina.
Anna ouvia isso sempre. Os olhos de Christopher tinham cor de lavanda.
— Sim — falou. — Ele é o bonitão da família.
— Discordo totalmente! — Ariadne exclamou, parecendo surpresa. — Cavalheiros devem elogiá-la o tempo todo pelo tom dos seus olhos.
Ela ruborizou, baixou o olhar, e seu coração acelerou. Não era possível, disse a si mesma. Simplesmente não havia chance de que a filha linda do Inquisidor fosse... como ela. Que ela pudesse olhar os olhos de outra menina e notar que tinham uma bela cor, em vez de apenas perguntar quais tecidos ela usava para destacá-los.
— Temo estar muito atrasada no meu treinamento — disse Ariadne. — Quem sabe possamos... treinar juntas?
— Sim — falou Anna, um pouco rápido demais. — Sim... claro. Se você...
— Você vai me achar desajeitada. — Ariadne girou as mãos uma na outra.
— Tenho certeza de que não — respondeu Anna. — Mas esse é o objetivo de treinar, de qualquer forma. Treinar é algo delicado, apesar da violência óbvia, é claro.
— Terá que ser delicada comigo, então — falou Ariadne, muito suavemente.
Justo quando Anna achou que ia desmaiar, as portas se abriram e o Inquisidor Bridgestock entrou, com Cecily, Gabriel e Christopher a tiracolo. Os Lightwood pareciam vagamente exaustos. Anna percebeu os olhos de sua mãe nela — um olhar afiado e pensativo.
— ... e temos nossa coleção de mapas... ah. Ariadne. Ainda está aqui, é claro. Ariadne é uma leitora voraz.
— Absolutamente voraz. — A menina sorriu. — Eu e Anna estávamos discutindo meu treinamento. Achei que seria sensato fazer dupla com outra menina.
— Muito sensato — concordou Bridgestock. — Sim. Uma ótima ideia. Votes devem ser companheiras. Enfim, Lightwood, olharemos os mapas em algum momento. Agora, Ariadne, venha até a sala. Quero que toque piano para os nossos convidados.
Ariadne olhou para Anna.
— Companheiras — falou.
— Companheiras — respondeu Anna.
Foi só no caminho de casa que Anna se deu conta de que Ariadne a convidou para a biblioteca e não mostrou nenhum livro.


— Gostou da jovem Ariadne Bridgestock? — perguntou Cecily enquanto a carruagem dos Lightwood seguia para casa pelas ruas escuras da cidade.
— Achei muito simpática — respondeu Anna, olhando pela janela para Londres, brilhando na noite vasta. Ela queria estar lá fora entre as estrelas, caminhando pelas ruas do Soho, vivendo uma vida de música, aventura e dança. — E muito bonita também.
Cecily ajeitou uma mecha de cabelos rebeldes atrás da orelha da filha. Surpresa, Anna olhou para a mãe por um instante — havia um pouco de tristeza nos olhos dela, apesar de a menina não conseguir imaginar por que. Talvez estivesse apenas cansada por ter passado a noite sendo entediada pelo Inquisidor. Papai, por exemplo, dormia no outro canto da carruagem, e Christopher estava apoiado nele, piscando de sono.
— Não chega aos pés da sua beleza.
Mãe — falou Anna, exasperada, e se voltou para a janela da carruagem.


Sob os arcos do viaduto da ferrovia, perto da extremidade sul da London Bridge, acontecia um grande encontro.
Era pleno verão, e o sol se punha sobre Londres quase às dez da noite, o que significava que o tempo de venda no Mercado das Sombras era reduzido, e o local inteiro tinha uma atmosfera meio frenética. Havia vapor, fumaça e sedas esvoaçantes. Mãos esticadas enfiavam mercadorias sob o nariz dos clientes: pedras e bugigangas, livros, pingentes, pós, óleos, jogos e brinquedos para crianças do Submundo, e itens sem classificação. Havia uma confusão de aromas. O cheiro do rio e a fumaça dos trens acima se misturavam aos restos da feira mundana: frutas esmagadas, pedaços de carne, o odor dos barris de ostras. Vendedores queimavam incenso, que se mesclava a temperos e perfumes. O miasma podia ser avassalador.
Irmão Zachariah se movia entre as bancadas, imune aos cheiros e à multidão. Muitos integrantes do Submundo recuavam com a aproximação do Irmão do Silêncio. Ele vinha aqui há semanas para encontrar Ragnor Fell. Hoje também olhou em volta para ver se encontrava a vendedora que tinha visto em uma de suas visitas anteriores. A bancada que ele procurava conseguia se mover por conta própria; tinha pés como os de uma galinha. A mulher atrás dela era uma fada idosa com uma massa selvagem de cabelo. Ela vendia poções coloridas, e Matthew Fairchild havia comprado uma e dado para a mãe. Jem precisou de todos os seus esforços para trazê-la de volta do portão dos mortos. Ela não era a mesma desde então, e nem Matthew.
A bancada não tinha vindo hoje, nem, ao que parecia, Ragnor. Ele estava prestes a dar uma última volta pelo Mercado antes de partir quando viu alguém que conhecia inclinado sobre uma banca de livros. O homem tinha cabelos brancos e olhos roxos impressionantes. Era Malcolm Fade.
— É voce, James Carstairs? — perguntou ele.
Como vai, meu amigo?
Malcolm simplesmente sorriu. Sempre havia algo um pouco triste no feiticeiro; Jem já tinha ouvido fofocas sobre uma tragédia amorosa com uma Caçadora de Sombras que decidira se tornar Irmã de Ferro em vez de ficar com seu amado, e sabia que para alguns a Lei era mais importante do que o amor. Mesmo sendo quem era agora, ele não conseguia entender. Teria dado tudo para ficar com a pessoa que amava. Qualquer coisa, exceto aquilo que era mais sagrado do que a vida do próprio Jem: a vida de Tessa ou a de Will.
— Como vai a sua busca? — perguntou Malcolm. — Ragnor conseguiu para você alguma informação sobre um certo demônio que você tem procurado?
Jem lançou um olhar para que Malcolm se calasse; ele preferia que poucas pessoas soubessem sobre sua busca.
— Malcolm! Eu tenho o livro que você queria! — Uma feiticeira se aproximou, trazendo um livro de capa amarela de veludo.
— Obrigado, Leopolda — o feiticeiro agradeceu.
A mulher encarou Jem. Ele estava acostumado a isso. Apesar de ser um Irmão do Silêncio, seus lábios e olhos não tinham sido costurados. Ele não enxergava e nem falava como os seres humanos, mas o fato de que poderia fazê-lo sem Marcas parecia perturbar as pessoas mais do que a visão de um Irmão do Silêncio que tivesse se comprometido com menos relutância ao escuro silencioso.
Não nos conhecemos.
— Não — respondeu a mulher. — Não nos conhecemos. Meu nome é Leopolda Stain. Sou de Viena.
Ela tinha sotaque alemão e uma voz suave e ronronada.
— Este é o Irmão Zachariah — apresentou Malcolm.
Ela fez que sim com a cabeça. Não estendeu a mão, mas continuou encarando.
— Queira me perdoar — falou. — Não vemos Irmãos do Silêncio com frequência no nosso Mercado. Londres é um lugar estranho para mim. O Mercado em Viena não é tão agitado. É em Wienerwald, embaixo das árvores. Aqui vocês ficam embaixo desta ferrovia. É uma experiência bem diferente.
— Zachariah não é exatamente como os outros Irmãos do Silêncio —disse Malcolm.
Leopolda pareceu concluir o estudo do rosto de Jem e sorriu.
— Devo me despedir de vocês — disse. — É um prazer vê-lo, Malcolm. Fazia muito tempo, mein Liebling. Tempo demais. E foi muito interessante conhecê-lo, James Carstairs. Auf Wiedersehen.
Ela seguiu através da multidão. Jem a observou ir embora. Leopolda tinha decidido chamá-lo de James Carstairs, e não de Irmão Zachariah, e a escolha pareceu proposital. Certamente havia habitantes do Submundo que conheciam seu nome Nephilim — não era segredo —, mas, de repente, Jem se sentiu como uma borboleta espetada, presa sob o olhar do entomologista.
Pode me falar sobre ela?, ele pediu a Malcolm, que tinha voltado a examinar o livro em sua mão.
— Leopolda é um pouco estranha — disse ele. — Eu a conheci durante uma viagem a Viena. Acho que ela não sai muito da cidade. Parece se misturar a alguns mundanos famosos. Ela é...
Ele hesitou.
Sim?
— ... mais ligada, suponho, ao lado demoníaco do que ao humano, ao contrário da maioria de nós. Ao contrário de mim, certamente. Ela me deixa pouco à vontade. Fiquei feliz que você veio. Eu estava procurando uma maneira educada de escapar.
Jem olhou na direção que Leopolda havia seguido. Uma pessoa mais ligada ao lado demoníaco...
Era alguém com quem ele talvez precisasse falar. Ou observar.


Anna estava deitada na cama, com os olhos fechados, tentando dormir. Mentalmente, dançava de novo, vestindo sua mais bela roupa imaginária: um terno cinza escuro, um colete amarelo como o sol, com luvas combinando. Em seu braço estava Ariadne, como ela a vira hoje, com o vestido azul.
O sono não vinha. Anna se levantou da cama e foi até a janela. A noite era quente e úmida. Ela tinha que fazer alguma coisa. As roupas de seu irmão ainda estavam no guarda-roupa. Ela pegou tudo e ajeitou sobre a cama. Pretendia devolver, mas... Quem ia sentir falta? Christopher é que não era. A lavadeira talvez, mas ninguém questionaria o fato de que Christopher pudesse simplesmente perder a calça, possivelmente no meio de uma pista de dança lotada. E as roupas mais velhas... ele não precisaria delas, não na velocidade em que estava crescendo. A calça era comprida demais, mas ela poderia fazer bainha. A camisa poderia ser costurada atrás. Alguns pontos seriam mais do que suficientes.
Anna não tinha dotes de costureira, mas como todos os Caçadores de Sombras, tinha as habilidades básicas para consertar uniformes de luta. Não sabia bordar e nem fazer costuras precisas, mas conseguia fazer esse serviço.
Ajeitou a camisa e o colete atrás para fazer com que coubessem e realçassem seu corpo. O paletó foi um pouco mais complicado, exigindo reparos nas costas e laterais. Os ombros ficaram um pouco desiguais e o efeito um pouco triangular, mas, em geral, ficou aceitável. Ela treinou a caminhada com a calça justa, e agora não arrastava mais no chão.
Ela sempre adorou o uniforme de luta quando era criança, a praticidade, a maneira como permitia que ela se movesse sem restrições. E sempre se surpreendeu com o fato de que outras meninas, ao contrário dela, não detestassem ficar presas em vestidos e saias quando o treinamento acabava. O fato de que não detestassem a perda da liberdade.
Mas era mais do que o conforto das roupas. Anna se sentia ridícula com sedas e babados, como se fingisse ser quem não era. Quando usava vestidos na rua, ela era ignorada como uma menina desajeitada ou encarada por homens de um jeito que não gostava. Só tinha saído com as roupas do irmão duas vezes, sempre tarde da noite — mas, ah, mulheres olharam para ela, mulheres sorridentes, mulheres conspiratórias, mulheres que sabiam que, usando roupas de homem, Anna tinha o poder e o privilégio deles. Elas olhavam para os lábios macios, os cílios longos, os olhos azuis; olhavam para seus quadris na calça justa, a curva dos seios sob uma camisa masculina de algodão, e os olhos delas falavam na linguagem secreta das mulheres: você se apropriou do poder dos homens. Você roubou o fogo dos deuses. Agora venha e faça amor comigo, coma Zeus fez amor com Danae, sob uma chuva de ouro.
Em sua mente, Anna se curvou para pegar a mão de Ariadne, e isso pareceu real.
— Você está tão linda hoje — falou. — Você é a menina mais bonita que já vi.
— E você — respondeu Ariadne — é a pessoa mais bela que já conheci.
No dia seguinte, Anna passou duas horas escrevendo um bilhete que acabou dizendo:

Querida Ariadne,
Foi um prazer conhecê-la. Espero que possamos treinar juntas algum dia.
Por favor, venha me visitar.
Saudações,
Anna Lightwood

Duas horas e uma pilha de rascunhos para isso. O tempo não tinha mais significado, e talvez nunca mais voltasse a ter.
À tarde, ela tinha pianos de encontrar os primos, James, Lucie e Thomas, junto com Matthew Fairchild. James, Matthew, Thomas e Christopher eram inseparáveis, e sempre se encontravam numa das casas ou em seu esconderijo. Hoje eles iam invadir a casa de sua tia Sophie e seu tio Gideon. Anna só comparecia ocasionalmente a essas reuniões, assim como Lucie; as meninas tinham muitas ocupações com as quais se divertir. Hoje ela precisava desesperadamente de alguma coisa para fazer, alguma coisa que a mantivesse com a cabeça no lugar, que a impedisse de ficar de um lado para o outro no quarto.
Ela foi andando com Christopher, que falava animadamente sobre algum dispositivo que voaria pelos ares graças a quatro lâminas giratórias. Parecia que ele estava descrevendo um inseto mecânico. Anna emitiu ruídos que sinalizavam que ela estava ouvindo, embora certamente não estivesse.
Não demoraram muito para chegar a casa dos primos. Suas primas Barbara e Eugenia estavam na sala, Barbara estava esticada no sofá enquanto Eugenia bordava furiosamente, como se realmente odiasse aquilo e a única forma de expressar seu sentimento fosse golpeando o tecido esticado da forma mais vigorosa possível.
Anna e Christopher subiram para os quartos que tinham sido dominados pelo grupo. James estava lá, sentado próximo à janela, lendo. Lucie estava sentada à mesa, escrevendo sem parar. Tom arremessava uma faca na parede oposta.
Christopher cumprimentou a todos e imediatamente foi até o canto reservado para o seu trabalho. Anna se sentou ao lado de Lucie.
— Como vai Cordelia?
— Ah, esta ótima! Eu estava escrevendo rapidamente para ela antes de Thomas me ajudar a estudar para a minha aula de persa. — Lucie vivia escrevendo para sua futura parabatai, Cordelia Carstairs. Lucie vivia escrevendo. Lucie conseguia escrever em uma sala cheia de pessoas conversando, gritando, cantando. Anna tinha certeza de que a menina provavelmente conseguiria escrever no meio de uma batalha. Ela aprovava muito esse comportamento — era muito bom ver duas meninas tão devotadas uma a outra, mesmo que de forma platônica. Mulheres deveriam valorizar outras mulheres, mesmo que a sociedade não o fizesse. Ariadne veio até sua mente outra vez.
— O que houve, Anna? — perguntou James.
Ele a olhava curioso. Anna amava todos os primos, mas tinha um carinho especial por James. Ele fora um menino um tanto desajeitado, gentil, quieto e estudioso. E se tornara um jovem que Anna sabia que era extraordinariamente bonito, como o pai. Ele tinha os cabelos negros e macios dos Herondale; de sua mãe, ele herdara o traço demoníaco: os olhos dourados que não pareciam humanos. Anna sempre os achou bonitos, apesar de Christopher ter contado que ele era constantemente provocado na Academia por causa disso. Foram as provocações que fizeram com que Matthew arrumasse os explosivos e Christopher providenciasse para que uma ala do prédio fosse pelos ares.
Era honroso defender seus amigos, seu parabatai. Anna tinha orgulho deles por isso. Ela teria feito o mesmo. James era um menino tímido e adorável — Anna ficava furiosa ao pensar que ele tinha sido provocado. Ele era mais velho agora, mais propenso à reflexão e a olhar para o nada, mas ainda era gentil.
— Nada — respondeu ela. — Eu só... preciso de um livro novo para ler.
— Um pedido muito sensato — disse James, balançando as pernas compridas. — Que tipo de livro? Aventura? História? Romance? Poesia?
Todos os primos mais novos adoravam ler. Anna culpava a influência do tio Will e da tia Tessa. Eles raramente permitiam que alguém saísse do Instituto sem um livro que achavam que a pessoa devia ler. Agora que estavam falando sobre isso, talvez fosse útil para conversar com Ariadne. Ela era uma leitora voraz, afinal.
— Vou treinar com uma pessoa nova — disse Anna. — O nome dela é Ariadne. Ela lê muito, então...
— Ah! Ariadne. É um nome mitológico. Podemos começar por aí. Quer começar por O Ramo de Ouro, de Frazer? Tem uma nova edição em três volumes. A não ser que você queira começar pelo básico. Tem sempre a Bibliotheca Classica, de Lemprière...
James foi passando graciosamente pelos livros na parede. Ele era um bom lutador e um ótimo dançarino. Talvez fossem essas características, somadas ao fato de que ele estava cada vez mais bonito, que, de repente, o tornaram tão popular com as meninas. Ele não podia entrar em um recinto sem que elas suspirassem e dessem risadinhas. Anna supunha que se sentia feliz por ele, ou se sentiria, se ele notasse que acontecia. Ele logo tinha pegado uma dezena de livros da prateleira, entregando um a Christopher quase como se tivesse pensado nisso na hora. Uma pulseira prateada brilhou em seu pulso quando ele estendeu o braço — um presente amoroso?, Anna pensou. Talvez uma das meninas risonhas e suspirantes tivesse despertado o seu interesse, afinal. Anna achava que devia ser mais solidária com elas — ela mesma se sentia prestes a suspirar e dar risinhos por causa de Ariadne.
A porta se abriu e Matthew Fairchild entrou e se jogou dramaticamente em uma das cadeiras.
— Boa tarde, maravilhosos vilões. James, por que está limpando as prateleiras?
— Anna me pediu alguma coisa para ler — respondeu o menino, examinando um índice com olhos furiosos. Ele pôs o livro de lado.
— Anna? Lendo? Que magia negra é essa?
— Não sou nenhuma iletrada — retrucou Anna, jogando uma maçã nele. Ele a pegou com facilidade e sorriu. Matthew normalmente era muito meticuloso. Ele e Anna frequentemente conversavam sobre moda masculina, mas hoje a menina notou que o cabelo dele estava um pouco bagunçado, e um dos botões do colete desabotoara. Eram detalhes pequenos, certamente, mas em Matthew davam a entender que algo não ia bem.
— Qual é o seu interesse? — Matthew quis saber.
— Querer ser mais culta é crime?
— De jeito nenhum — respondeu o menino. — Adoro literatura. Inclusive, descobri um local maravilhoso. É um salão, cheio de escritores e poetas. Mas tem uma certa... reputação negativa.
Anna inclinou a cabeça com interesse.
— Pronto — falou James, trazendo uma pilha de uns dez livros e pousando-a pesadamente. — Algum desses chama a atenção? Dê uma olhada e veja. Claro, posso recomendar outros. Espere. Não. Esses não. Esses não.
Ele descartou os livros e voltou para as prateleiras. James estava claramente absorvido pela tarefa. Christopher lia alegremente o próprio livro, que tinha um título científico terrível. Lucie e Thomas estavam à mesa, Thomas ajudava a menina a revisar algumas frases: Lucie estava estudando por causa de Cordelia, e Tom gostava de idiomas, já que falava espanhol com o tio Gideon e galês com os primos. Que o Anjo abençoasse suas almas estudiosas, pois nenhum deles parecia propenso a ouvir Anna e Matthew tramando uma coisa sombria. Mesmo assim, Matthew falou bem baixo:
— Que tal se eu passar para pegá-la à meia-noite? — sugeriu. —Podemos ir juntos. Eu gostaria de uma companhia que sabe como se divertir. Mas você vai precisar de um disfarce. Nenhuma moça de boa reputação caminha pelas ruas de Londres à meia-noite.
— Ah — disse Anna. — Acho que consigo alguma coisa.


Pouco antes da meia-noite, como prometido, Anna ouviu batidas na janela do quarto. Matthew Fairchild estava lá, dançando no parapeito. Anna abriu.
— Ora, ora! — falou ele em tom de aprovação. — É do Christopher?
Ela estava usando as roupas do irmão. A costura tinha ajudado muito.
— Um disfarce — se limitou a dizer.
Ele riu, girando descuidadamente. Ela pôde perceber que ele tinha bebido — os reflexos estavam lentos, e ele só evitou cair no chão meio segundo antes de acontecer. — Ficam melhor em você do que nele, mas mesmo assim... precisamos arrumar algo melhor do que isso para você. Aqui.
Ele tirou a própria gravata e entregou a ela.
— Eu insisto — falou. — Jamais poderia permitir que uma dama saísse com roupas masculinas inferiores.
Anna ouviu o próprio suspiro lento e sorriu ao colocar a gravata.
Os dois saltaram da janela, aterrissando silenciosamente no jardim da frente da casa.
— Onde é o lugar? — perguntou Anna.
— Em uma esquina nefasta do Soho — respondeu ele com um sorriso.
— Soho! — Anna estava em êxtase. — Como ficou sabendo?
— Ah, graças às minhas andanças.
— Você faz isso muito.
— Tenho uma alma perifrástica.
Matthew estava mais bêbado do que pareceu inicialmente. Se equilibrava nos calcanhares e dava voltas em postes enquanto andavam. Ele vinha fazendo muito isso nas últimas semanas — o que havia de divertido e leve em Matthew tinha se elevado. De certa forma, ela sentiu um pouco de preocupação emergindo. Mas este era Matthew, e ele não funcionava bem confinado. Talvez a noite de verão tivesse provocado algum efeito em seu humor.
A casa para onde Matthew levou Anna era na parte mais populosa do Soho, perto da Brewer Street. Estava pintada de preto e tinha uma porta verde.
— Você vai gostar daqui — observou o menino, sorrindo para ela.
A porta foi aberta por um homem alto e pálido com um fraque vermelho-escuro.
— Fairchild — disse, olhando para Matthew. — E...
— Uma pessoa muito amiga de Fairchild — respondeu Matthew.
Anna pôde sentir o olhar do vampiro coletando informações a seu respeito quando ele a encarou por um longo tempo. Ele pareceu intrigado, tanto por ela quanto por Matthew, apesar de sua expressão ser ilegível. Finalmente chegou para o lado e permitiu que entrassem.
— Viu? — falou o menino. — Ninguém resiste à nossa companhia.
A sala era extremamente escura; a bandeira da porta tinha sido coberta por uma cortina de veludo. A única luz vinha de velas. A casa era decorada em um estilo que Anna aprovava totalmente: papel de parede verde pesado com cortinas douradas de veludo e móveis. Cheirava a charuto e estranhos cigarros cor-de-rosa minúsculos, e gim.
A sala era preenchida por uma mistura de mundanos e integrantes do Submundo, todos muito bem-vestidos. Anna notou muita gente observando-a com suas roupas masculinas e acenando em apreciação. Os homens pareciam satisfeitos e entretidos, e as mulheres pareciam admirar ou... se interessar. Algumas a encararam abertamente, os olhares presos ao corpo feminino revelado sob as roupas justas. Era como se, ao tirar o vestido, ela pudesse retirar a expectativa da sociedade sobre a modéstia de uma mulher e se permitisse ser admirada, desejada. Sua alma voava com nova confiança: ela se sentia uma criatura maravilhosa; não era um cavalheiro e nem uma dama. Era uma cavalheira, pensou, e deu uma piscadela para uma das únicas pessoas que reconheceu: o lobisomem Woolsey Scott, líder da Praetor Lupus. Ele vestia um paletó verde-garrafa e fumava um narguilé enquanto era admirado por um grupo de mundanos fascinados.
— Claro — Anna o ouviu dizer —, eles tiveram dificuldade para colocar minha banheira em uma das casas de árvore, mas eu não podia deixá-la para trás. A pessoa sempre deve levar a própria banheira.
— Aquele ali é o Alguma Coisa Yeats — disse Matthew, indicando um homem alto e de óculos. — Ele leu uma obra nova na última vez em que estive aqui.
— E foi maravilhoso — disse uma voz.
Veio de uma mulher sentada perto de Matthew e Anna. Ela era uma feiticeira belíssima com a pele escamosa de uma cobra, de cor prateada, quase opalescente. Seus longos cabelos verdes caíam sobre os ombros e estavam presos com uma delicada rede dourada. Ela usava um vestido vermelho justo no corpo. E inclinou a cabeça de forma elegante para Matthew e Anna.
— Todos os Caçadores de Sombras de Londres são tão bonitos quanto vocês? — perguntou, com sotaque alemão.
— Não — Anna respondeu simplesmente.
— Definitivamente não — Matthew concordou.
A feiticeira sorriu.
— Seus Caçadores de Sombras de Londres são mais interessantes do que os nossos — disse ela. — Os nossos são muito tediosos. Os seus são lindos e divertidos.
Alguém resmungou alguma coisa ao ouvir isso, mas o resto do grupo riu, concordando.
— Sentem-se conosco — disse a mulher. — Eu sou Leopolda Stain.
A maioria das pessoas em volta de Leopolda era de mundanos em adoração, como o grupo que cercava Woolsey Scott. Um homem usava uma túnica preta coberta por símbolos que Anna não reconheceu. Matthew e Anna se sentaram no tapete, contra uma pilha de almofadas que funcionava como um sofá. Perto deles havia uma mulher com um turbante dourado e uma safira.
— Vocês dois são dos Escolhidos? — perguntou a Matthew e Anna.
— Certamente — disse Matthew.
— Ah. Deu para perceber pela forma como Leopolda reagiu a vocês. Ela é um tanto incrível, não é mesmo? É de Viena e conhece simplesmente todo mundo: Freud, Mahler, Klimt, Schiele...
— Incrível — disse Matthew, provavelmente achando aquilo sensacional; Matthew adorava arte e artistas.
— Ela vai nos ajudar — disse a mulher. — Obviamente tivemos problemas. Ora, Crowley sequer foi reconhecido aqui em Londres! Ele teve que ir até o Templo Ahatoor, em Paris, para ser iniciado no grau de Adeptus Minor, tenho certeza de que souberam.
— Assim que aconteceu — Matthew mentiu.
Anna mordeu o lábio e baixou o olhar para não rir. Era sempre divertido encontrar mundanos com noções fantásticas sobre como a magia funcionava. Leopolda, ela percebeu, estava sorrindo de forma indulgente para todo o grupo, como se fossem crianças adoráveis, porém, um tanto limitadas.
— Bem — emendou a mulher. — Eu frequentava o templo de Ísis-Urânia, e posso garantir que era rigorosamente...
Ela foi interrompida por um homem no meio da sala erguendo uma taça de alguma coisa verde.
— Meus amigos! — falou. — Exijo que lembremos de Oscar. Ergam suas taças!
Ouviu-se um ruído geral de concordância, e as taças foram levantadas. O homem começou a recitar “A Balada do Cárcere de Reading”, de Oscar Wilde. Anna se emocionou com uma das estrofes:

Uns amam pouco tempo, outros, tempo demais
Uns vendem, e outros compram;
Alguns cumprem o ato em lágrimas,
E outros, sem um suspiro sequer:
Pois todo homem mata aquilo que ama,
Mas nem por isso todo homem vai morrer.

Ela não sabia exatamente o que significava, mas o espírito daquilo a assombrou. Pareceu ter um efeito ainda mais forte em Matthew, que afundou no chão.
— É um mundo horroroso que permite que um homem como Wilde morra — disse Matthew. Havia uma dureza em sua voz que era nova, e um pouco alarmante.
— Você está parecendo um pouco lúgubre — falou Anna.
— É verdade — respondeu ele. — Ele era nosso maior poeta, e morreu na miséria e na obscuridade, há não muito tempo. Foi preso por amar um homem. Não acho que o amor possa ser errado.
— Não — disse Anna. Ela sempre soube que amava mulheres da forma como se esperava que ela amasse homens. Que achava mulheres lindas e desejáveis, enquanto os homens eram bons amigos, parceiros, e nada mais. Nunca fingiu o contrário, e seus amigos próximos pareciam aceitar essa característica dela como um fato conhecido.
Mas era verdade que, apesar de Matthew e dos outros sempre brincarem com ela sobre partir os corações de belas moças, esse não era um assunto que ela já tivesse discutido com a mãe. Anna se lembrou da mãe tocando o seu cabelo carinhosamente na carruagem. O que Cecily realmente pensava sobre sua estranha filha?
Agora não, disse a si mesma. Ela se voltou para a mulher de turbante, que estava tentando chamar a sua atenção.
— Sim?
— Querida — disse a mulher —, você precisa vir aqui em uma semana. Os fiéis serão recompensados, eu prometo. Os anciãos, há tanto escondidos de nós, serão revelados.
— Claro — disse Anna, piscando. — Sim. Não perderíamos por nada.
Apesar de estar apenas conversando, Anna se deu conta de que gostaria de voltar a este lugar. Ela tinha vindo aqui vestida como estava, e só havia recebido aprovação. Inclusive, tinha certeza de que uma das meninas vampiras a olhava com um olhar que não era inteiramente saudável. E Leopolda, a bela feiticeira, não tinha tirado os olhos dela. Se a cabeça e a alma de Anna não estivessem completamente tomadas por Ariadne... Bem, só dava para imaginar.


Quando Matthew e Anna deixaram a casa naquela noite, não notaram uma figura do outro lado da rua, na sombra.
Jem imediatamente reconheceu Matthew, mas no princípio ficou confuso em relação a quem estava com ele. A pessoa lembrava seu parabatai, Will Herondale — não Will como era agora, mas aos dezessete anos, com seu andar confiante e o queixo erguido. Mas não podia ser. E a pessoa claramente não era James, o filho dele.
Ele demorou alguns minutos para perceber que o jovem não era um menino. Era Anna Lightwood, a sobrinha de Will. Ela tinha os cabelos escuros e o perfil do lado Herondale da família, e claramente herdara a postura do tio. Por um instante, Jem sentiu uma pontada no coração. Era como ver seu amigo jovem outra vez; como eles dois eram quando moravam juntos no Instituto e lutavam lado a lado; como eram quando Tessa Gray chegou à porta deles.
Será que realmente tinha tanto tempo assim?
Jem afastou o pensamento e se concentrou no presente. Anna vestia um tipo de disfarce, e ela e Matthew tinham acabado de participar de uma reunião do Submundo com a feiticeira que ele tinha vindo observar. Ele não imaginava o que eles estavam fazendo ali.


Uma semana inteira se passou. Uma semana inteira em que Anna correu para receber o correio, ficou de olho na janela, e foi até a metade do caminho de Cavendish Square antes de virar e voltar. Uma vida. Foi uma agonia, e quando estava se transformando em aceitação, ela foi chamada na manhã de sexta-feira e encontrou Ariadne esperando por ela no primeiro andar, com um vestido amarelo e um chapéu branco.
— Bom dia — disse Ariadne. — Por que não está pronta?
— Pronta? — repetiu Anna, com a garganta seca pela súbita aparição de Ariadne.
— Para treinar!
— Eu...
— Bom dia, Ariadne! — disse Cecily Lightwood, entrando com Alexander.
— Ah! — Os olhos de Ariadne brilharam ao ver o bebê. — Ah, eu preciso pegá-lo no colo; simplesmente amo bebês.
A aparição de Alexander fez com que Anna ganhasse tempo suficiente para subir, recuperar o fôlego, jogar água no rosto, e juntar seu uniforme. Cinco minutos depois, estava sentada ao lado de Ariadne na carruagem Bridgestock, indo para o Instituto. Estavam a sós agora, perto uma da outra na carruagem quente. O cheiro do perfume de flor de laranjeira de Ariadne envolveu Anna.
— Eu interrompi alguma coisa? — perguntou Ariadne. — Simplesmente torci para que... pudesse estar livre para treinar comigo... — Ela pareceu preocupada. — Espero não ter sido presunçosa. Está chateada?
— Não — respondeu Anna. — Eu jamais poderia me chatear com você.
Anna tentou falar casualmente, mas um tom rouco de verdade transpareceu.
— Ótimo.— Ariadne pareceu satisfeita e radiante com isso e cruzou as mãos sobre o colo. — Eu detestaria desagradá-la.
Quando chegaram ao Instituto, Anna se trocou mais rápido do que Ariadne. Ela esperou na sala de treinamento, andando nervosa de um lado para o outro, pegando facas das paredes e arremessando para se acalmar.
É só um treino. Um simples treino.
— Você tem um braço bom — disse Ariadne.
Ariadne era linda com seu vestido, mas o uniforme revelava outra coisa. Ela ainda era feminina, com seus cabelos longos e suas curvas, mas livre dos quilos de tecido, ela se movia com graça e agilidade.
— Como gostaria de começar? — perguntou Anna. — Tem alguma arma de preferência? Ou vamos escalar? Trabalhar na viga?
— O que você achar melhor — respondeu a outra menina.
— Vamos começar com lâminas? — disse Anna, pegando uma da parede.
O que quer que Ariadne estivesse fazendo em Idris, não envolvia muito treinamento. Ela tinha sido precisa quanto a isso. Quando lançou, seu braço era fraco. Anna se aproximou e a guiou, se forçando a manter a compostura ao pegar a mão da outra menina e instruir o arremesso. Ela era surpreendentemente boa em escalada, mas uma vez na viga, levou um tombo feio. Anna desceu com um pulo e a segurou com firmeza.
— Ah, impressionante! — disse Ariadne, sorrindo.
Anna ficou ali por um instante, com Ariadne em seus braços, sem saber ao certo o que fazer. Havia algo no olhar de Ariadne, na forma como observava Anna... como se estivesse hipnotizada... Como ela poderia perguntar?
Como isso aconteceu com alguém como Ariadne?
Era demais.
— Bela tentativa — disse Anna, colocando Ariadne gentilmente de pé. — Só... cuidado com onde coloca os pés.
— Acho que já fizemos o suficiente por hoje — disse Ariadne. — Como uma pessoa se diverte em Londres?
Ah, de tantas maneiras.
— Bem — começou Anna —, tem o teatro, e o zoológico é...
— Não. — Ariadne agarrou um dos pilares e girou delicadamente em volta dele. — Diversão. Certamente você conhece algum lugar.
— Bem — disse Anna, vasculhando a mente. — Conheço um lugar cheio de escritores e poetas. Tem péssima reputação. Fica no Soho e abre depois da meia-noite.
— Então presumo que vá me levar — disse Ariadne, com os olhos brilhando. — Esperarei por você perto da minha janela hoje à meia-noite.


A espera naquela noite foi uma tortura. Anna remexeu o jantar e ficou olhando o relógio do outro lado da sala. Christopher estava fazendo uma pirâmide com as cenouras e inventando alguma coisa em sua mente. A mãe dava a comida para Alexander. Anna contava seus batimentos cardíacos. Ela tinha que tentar não parecer suspeita. Passou um tempo com seu irmãozinho; pegou um livro, que folheou sem ler. Às nove, conseguiu se espreguiçar e dizer que ia tomar banho e se recolher.
No quarto, Anna esperou até ouvir o restante da família se deitar antes de trocar de roupa. Ela tinha tido o cuidado de limpar a roupa e ajeitá-la da melhor maneira possível. Quando se vestiu, parecia elegante e perigosa. Agora tinha decidido que era assim que se vestiria em suas aventuras, mesmo que fosse para se encontrar com Ariadne.
Às onze, saiu pela janela, descendo por uma corda que jogou de volta para dentro. Ela poderia ter pulado, mas tinha demorado para arrumar o cabelo sob o chapéu. Caminhou para Belgravia e desta vez não se incomodou em evitar os postes de luz. Ela queria ser vista. Esticou a coluna e alargou os passos. Quanto mais andava, mais se sentia pegando o jeito, a atitude. Ela tocou a ponta do chapéu para uma dama que passava em uma carruagem; a dama sorriu e desviou o olhar timidamente.
Agora Anna sabia que nunca mais voltaria a usar vestidos. Ela sempre amou o teatro, sempre adorou a ideia de representar um papel. A primeira vez que usou as roupas do irmão foi assim, mas a cada vez que o fazia, isso se tornava mais a sua realidade. Ela não era um homem e não queria ser — mas por que os homens deveriam ficar com todas as partes boas da masculinidade para si por causa de um acaso no nascimento? Por que ela, Anna, não deveria usar também as roupas deles, além de seu poder e confiança?
Você roubou o fogo dos deuses.
O andar de Anna ficou menos firme ao dobrar a esquina para a Cavendish Square. Será que Ariadne a aceitaria assim? Parecia tão bom há um instante, mas agora... Ela quase virou para voltar, mas se forçou a seguir em frente.
A casa dos Bridgestock estava escura. Anna levantou o olhar, temendo que Ariadne tivesse falado só de brincadeira. Mas então viu uma movimentação nas cortinas e a janela se abriu. Ariadne olhou para ela.
E sorriu.
Ela jogou uma corda pela janela, e desceu por ela, com mais graciosidade do que no treino. Agora Ariadne usava um vestido azul-claro que esvoaçou quando ela desceu.
— Nossa — disse, caminhando até Anna. — Você está... um tanto arrasadora.
Anna não teria trocado o olhar de Ariadne naquele momento nem por mil libras. Elas pegaram uma carruagem para o Soho. Apesar de estarem com feitiços de disfarce para esconderem suas Marcas dos mundanos, Anna gostou do olhar que recebeu do motorista quando ele percebeu que o belo cavalheiro em sua carruagem era uma bela dama. Ele tirou o chapéu quando ela e Ariadne saltaram, murmurando algo sobre “os jovens de hoje”.
Elas chegaram à casa, mas desta vez, quando Anna bateu, o homem que atendeu foi menos receptivo. Ele olhou para Anna, depois para Ariadne.
— Sem Caçadores de Sombras — falou.
— Não era essa a política anteriormente — disse Anna.
Ela percebeu que as janelas agora estavam cobertas por cortinas pesadas de veludo.
— Voltem para casa, Caçadoras de Sombras — falou. — Eu fui bem claro.
A porta bateu na cara delas.
— Agora estou curiosa — falou Ariadne. — Temos que entrar, não acha?
Ariadne certamente tinha um traço perverso que complementava bem a sua alegria leve, um amor por coisas que eram um pouco... erradas. Anna sentiu que deveria incentivar este impulso.
Não havia entrada para a casa na frente, então elas foram para o final da rua e encontraram um beco estreito no fundo das casas, feitas de tijolos até o terceiro andar. Mas havia um cano de drenagem, e Anna o segurou e subiu. Ela não conseguia chegar até as janelas do terceiro andar assim, mas podia subir no telhado. Olhou para baixo e viu Ariadne atrás dela, novamente demonstrando mais habilidade do que no treino. Elas conseguiram abrir uma janela do sótão. De lá, desceram pela escada em caracol, Anna na frente, Ariadne atrás. A menina ficou com a mão na cintura de Anna, possivelmente para se guiar enquanto andavam ou...
Anna não ia pensar nisso.
Estavam queimando muito incenso na casa hoje, que se espalhava pelo corredor e pelas escadas, e quase fez Anna tossir. Não era um cheiro agradável — era pungente e forte. Anna detectou absinto, artemísia e mais alguma coisa — algo com um vestígio metálico, como sangue. O grupo estava em silêncio. Tinha apenas uma voz, falando baixo. Uma voz feminina com sotaque alemão, que entoava feitiços.
Anna reconhecia uma invocação quando ouvia uma. Ela se voltou para Ariadne, que tinha um olhar de preocupação no rosto.
Alcançou sua lâmina serafim e indicou que ia seguir em frente e olhar. Ariadne fez que sim com a cabeça. Anna desceu sorrateiramente até a base da escada, depois seguiu pelo corredor. Ela abriu um pouco a cortina de veludo que isolava a sala principal. Todos ali estavam voltados para o centro do cômodo, então ela basicamente viu costas e brilhos fracos de luz de vela.
Anna podia distinguir um círculo desenhado no chão. A mulher de turbante estava na borda, com o rosto inclinado para cima em êxtase. Vestia uma longa túnica preta e segurava um livro com um pentagrama sobre a cabeça. O livro tinha uma capa estranha. Parecia pele.
Acima de todos, estava a feiticeira Leopolda, com os olhos fechados e os braços erguidos. Ela segurava uma adaga curvada nas mãos e entoava um cântico em linguagem demoníaca. Depois olhou para a mulher de turbante e fez que sim com a cabeça. A mulher deu um longo passo para dentro do círculo. Chamas verdes brilharam em volta, fazendo com que os mundanos murmurassem e recuassem. Não havia, Anna notou, integrantes do Submundo presentes.
— Venha! — gritou a mulher. — Venha, bela morte. Venha, criatura, para podermos venerá-la! Venha!
Anna sentiu um cheiro terrível e a sala foi preenchida por escuridão. Ela sabia que não podia mais ficar parada.
— Saiam! — berrou ao entrar. — Todos vocês!
O grupo não teve tempo para se surpreender. Um enorme demônio Ravener irrompeu da escuridão. A mulher de turbante se ajoelhou diante dele.
— Milorde — disse ela. — Milorde das trevas...
O Ravener girou a cauda e separou com facilidade a cabeça com turbante do pescoço da mulher. Os reunidos soltaram um grito coletivo e correram para a porta. Anna teve que lutar para chegar até o demônio. O Ravener estava dando cabo rapidamente dos restos da mulher.
Leopolda Stain simplesmente observava a cena com suave divertimento.
Era difícil combater um demônio tão perto sem matar também todas as pessoas. Anna empurrou diversos mundanos para o lado e se lançou contra o demônio, com a lâmina serafim erguida. Ele emitiu um ruído agudo e furioso porque algo tinha acabado de atingir um de seus olhos. Ariadne estava ao lado dela, segurando um chicote elétrico e sorrindo.
— Bela mira — disse Anna quando o demônio furioso girou. Ele deu um salto e quebrou uma das janelas frontais. As duas meninas o seguiram, e Anna saltou com facilidade em suas roupas novas. Ariadne passou pela porta, mas foi veloz, balançando o chicote no ar.
As duas acabaram rapidamente com o Ravener. Elas ouviram um estalo estranho e ao girarem descobriram que o demônio não tinha vindo sozinho — um grupo de Raveners menores passou pela janela quebrada; as mandíbulas pingando líquido verde.
Anna e Ariadne se viraram para encará-los, com as armas sacadas. Um pequeno Ravener pulou para frente primeiro. Ariadne o cortou com o chicote. Outro se lançou, mas assim que apareceu, um bastão girou pelo ar ao lado de Anna, atingindo-o na cabeça. Ela se virou enquanto ele desaparecia, e se viu diante do Irmão Zachariah. Conhecia bem o parabatai de seu tio, apesar de não ter ideia do que ele estava fazendo aqui.
Quantos?, ele perguntou.
— Não sei — respondeu ela enquanto outro demônio vinha da casa. — Eles estão vindo de um círculo dentro da casa. Há pessoas feridas.
Ele acenou com a cabeça e indicou que entraria, enquanto Anna e Ariadne lutavam do lado de fora. Uma das criaturas estava prestes a descer sobre um mundano em fuga. Anna saltou nas costas dela, desviando da cauda furiosa que se debatia, e enfiou a lâmina serafim em sua nuca. O mundano em choque engatinhou para trás como um caranguejo enquanto o Ravener caía morto no chão. Ela se virou para olhar para Ariadne, que destruía um dos Raveners, cortando o ar com seu chicote elétrico e depois as pernas do demônio. Anna estava surpresa — o único outro chicote elétrico que ela já tinha visto pertencia à Consulesa, Charlotte Fairchild.
Ariadne e Anna estavam com as costas coladas uma na outra, lutando como duas parabatai, com os movimentos sincronizados. Embora definitivamente não fossem parabatai. Seria muito errado sentir por um parabatai o que Anna sentia por Ariadne. Não havia como negar, a menina pensou, embora fosse uma conclusão estranha de se tirar no meio de uma luta contra demônios. Ela definitivamente estava apaixonada por Ariadne Bridgestock.


Jem entrou na casa pela porta aberta, com o bastão em punho. A sala parecia vazia, quieta. Havia uma quantidade enorme de sangue no chão, e os restos rasgados de uma pessoa.
— Aqui! — disse uma voz. — Eu estava torcendo para que viesse.
Jem se virou. Leopolda Stain estava sentada na antessala em uma cadeira de brocado grande, segurando a cabeça de uma mulher no colo. Jem ergueu o bastão.
Você matou mundanos inocentes, falou.
— Eles se mataram — respondeu Leopolda. — Estavam brincando com fogo. Se queimaram. Você conhece essas criaturas. Eles acham que entendem de magia. Precisam entender a verdadeira natureza. Eu faço um serviço a eles. Nunca mais invocarão outro demônio. Se eu queria dar uma lição, qual o problema? Há fogo demoníaco em mim, mas eu não acho que sou sua maior preocupação.
Jem estava dividido. Seu instinto era o de atacá-la pelo que tinha feito, no entanto...
— Você hesita, James Carstairs — falou ela com um sorriso.
Meu nome é Irmão Zachariah.
— Você era James Carstairs, o Caçador de Sombras viciado em yin fen. Conheceu Axel Mortmain, aquele que chamavam de Magistrado, não é?
Ao ouvir o nome de Mortmain, Jem abaixou o bastão.
— Ah. — Leopolda disse com novo sorriso. — Você se lembra do querido Axel.
Você o conhecia?
— Muito bem — disse ela. — Eu sei de muitas coisas. Sei que uma feiticeira ajuda a dirigir o Instituto daqui, certo? Tessa Herondale. Ela é Caçadora de Sombras, e não consegue receber Marcas. Ela é casada com seu parabatai.
Por que me perguntaria sobre Tessa?, Jem disse. Era como se dedos frios estivessem tocando sua espinha. Ele não gostava dessa feiticeira. Ele não gostava do seu interesse em Tessa e Will.
— Porque você andou pelo Mercado das Sombras fazendo muitas perguntas sobre ela. Sobre o pai dela. Sobre o pai demoníaco dela.
Ela deixou a cabeça cair do colo.
— Como disse, eu conhecia Mortmain. Como você andou perguntando sobre ele e sobre como Tessa foi criada, a notícia chegou até mim; um dos últimos amigos dele que ainda restam. Acredito que você tenha curiosidade sobre como Mortmain criou Tessa. Você procura pelo demônio que ele invocou para ser o pai dela. Se guardar a sua arma, talvez possamos conversar.
Jem não guardou o bastão.
— Ela pode não ter tido muita curiosidade sobre o pai demônio antes... — Leopolda brincou coma rede dourada no cabelo — mas agora ela tem filhos... e eles apresentam sinais de sua herança demoníaca... Imagino que as coisas sejam bem diferentes, não é?
Jem congelou no lugar. Era como se ela tivesse invadido sua mente e tocado suas lembranças. Na Blackfriars Bridge com Tessa em um janeiro frio há dois anos. O medo no rosto dela. Não quero perturbar Will... mas me preocupo muito com Jamie e Lucie... James detesta seus olhos, que chama de portas do Inferno, como se detestasse o próprio rosto, a própria linhagem. Se ao menos eu conhecesse meu pai demônio, talvez pudesse saber, prepará-los e preparar a mim... e a Will. Jem temeu, mesmo naquele instante, que fosse uma tarefa perigosa, que saber só trouxesse mais dúvidas e preocupações. Mas era algo que Tessa queria por causa de Will e das crianças, e ele os amava demais para recusar.
— As investigações de seu amigo Ragnor finalmente deram resultado — disse Leopolda. — Eu sei quem era o pai de Tessa. — Ela cerrou os olhos. — Em troca, só preciso de uma coisa pequena. Só uma pequena quantidade de sangue de um Caçador de Sombras vivo. Você não vai nem sentir. Eu ia pegar da menina, a que se veste de homem. Gosto muito dela. Gostaria de levá-la, se pudesse.
Você vai ficar longe dela.
— Claro que vou — disse Leopolda. — Vou ajudá-lo também. Só uma quantidade mínima de sangue e posso lhe contar sobre o verdadeiro pai de Tessa Herondale.
— Irmão Zachariah! — Ele ouviu Anna gritar.
Jem se virou por apenas um instante, e Leopolda foi na direção dele. Ele manejou o bastão, jogando-a para trás. Ela sibilou e correu mais rápido do que parecia possível, erguendo sua lâmina curva.
— Não brinque comigo, James Carstairs. Não quer saber sobre a sua Tessa?
Ouviu-se mais um grito do lado de fora. Jem não teve escolha e correu na direção da voz de Anna.
Anna e a outra menina travavam uma batalha voraz com, pelo menos, seis Raveners. Elas recuaram para uma das paredes, de costas uma para a outra. Jem empunhou seu bastão e acertou o mais próximo. E continuou atacando até as duas meninas ganharem um pouco de espaço. Jem derrubou mais um enquanto Anna acabou com dois ao mesmo tempo com um golpe longo de sua lâmina. Só restara um Ravener. Ele estendeu a cauda espinhosa e a apontou para o peito da outra menina. Em um segundo, Anna estava mergulhando no ar, tirando a companheira do caminho. Elas rolaram juntas, os braços de Anna em volta da menina, protegendo-a. Jem atacou esse último demônio, acertando um golpe em sua cabeça.
A rua silenciou. Imóvel, Anna estava nos braços da menina.
Anna. Jem correu para ela. A Caçadora de Sombras já estava rasgando a manga de Anna para cuidar do ferimento. A menina sibilou com o veneno ardendo em sua pele.
Atrás delas, Leopolda saiu da casa e simplesmente começou a ir embora.
— Estou bem — falou Anna. — Vá atrás dela, Ariadne.
A outra menina, Ariadne, suspirou e recuou, ainda sentada.
— O veneno não entrou no seu corpo. Mas tocou sua pele. Temos que lavar o local imediatamente com algumas ervas. E o ferimento é profundo. Vai precisar de muitos iratzes.
A menina olhou para Jem.
— Vou cuidar dela — falou. — Tenho bom treinamento em cura. Aprendi com Irmãos do Silêncio quando morava em Idris. Anna está certa. Vá atrás da feiticeira.
Tem certeza? Anna precisará de um amissio, um símbolo de reposição de sangue...
— Tenho — disse a menina, ajudando a outra a se levantar. — Acredite em mim quando digo que Anna prefere perder um pouco de sangue a permitir que os pais descubram o que fizemos hoje.
— Sim, sim — Anna concordou.
Cuide dela, disse Jem.
— Cuidarei. — Ariadne falou com confiança, e do jeito que estava cuidando do ferimento, suas palavras pareciam verdadeiras. — Vamos — disse a Anna. — Minha casa não é longe. Você consegue andar?
— Com você — falou Anna —, eu consigo ir a qualquer lugar.
Tranquilizado, Jem virou na direção de Leopolda Stain.


Elas caminharam até a casa de Ariadne, com Anna se apoiando ocasionalmente na amiga. O veneno na pele começava a fazer efeito, como se ela tivesse tomado muito vinho, muito rápido. Ela tentou se manter firme. Estavam disfarçadas agora, caminhando pela rua sem serem vistas.
Quando chegaram, Ariadne abriu silenciosamente a porta da frente. Elas subiram as escadas devagar, para não acordar ninguém. Por sorte, o quarto era do outro lado da casa, longe do dos pais. Ariadne levou Anna para dentro e fechou a porta.
O quarto de Ariadne era como a pessoa que dormia nele: perfumado, perfeito, delicado. Nas janelas amplas, havia cortinas bordadas. As paredes eram cobertas por papel prateado e rosa, e viam-se lírios e rosas frescos em vasos pelo quarto.
— Venha — falou Ariadne, conduzindo Anna até a cômoda, onde se via uma bacia de água.
Ariadne tirou o paletó e enrolou a manga da camisa. Após misturar algumas ervas na bacia, jogou a mistura sobre o machucado, que ardia.
— É uma ferida feia — disse Ariadne —, mas eu sou uma boa enfermeira.
Ela molhou um pano e limpou gentilmente a ferida com movimentos suaves, com o cuidado de retirar o veneno que tivesse caído na pele de Anna. Então pegou sua estela e fez um símbolo amissio para acelerar a reposição de sangue e um iratze para estimular a cura. A ferida começou a fechar.
Durante todo o tempo, Anna ficou em silêncio, sem fôlego. Ela não sentiu dor. Sentiu apenas as mãos cuidadosas de Ariadne nela.
— Obrigada — falou afinal.
Ariadne pousou a estela.
— Não foi nada. Você se feriu para me salvar. Você se colocou na minha frente. Me protegeu.
— Eu sempre a protegeria — falou Anna.
Ariadne olhou para Anna por um longo instante. A única claridade vinha através do desenho na renda.
— Meu vestido — falou baixinho. — Está arruinado. Estou assustadora.
— Bobagem — respondeu Anna. Um segundo depois, ela acrescentou: — Você nunca esteve tão linda.
— Está sujo de sangue e icor. Ajude-me a tirar, por favor.
Com dedos trêmulos, Anna desabotoou os muitos botões da frente do vestido, que formou um montinho no chão. Ariadne se virou para que a menina pudesse soltar seu espartilho. Ela vestia uma camisola de algodão por baixo, com uma renda delicada na beirada. A camisola e a calça eram muito brancas contra a pele morena. Seus olhos brilhavam.
— Você precisa descansar um pouco, Anna — falou Ariadne. — Não pode ir embora agora. Venha.
Ela pegou Anna pela mão e a levou para a cama. Ao se sentar, Anna percebeu que a luta a deixara exausta, embora jamais tivesse se sentido tão acordada e viva.
— Recline-se — disse Ariadne, afagando o cabelo dela.
Anna deitou no travesseiro. Seus sapatos tinham sumido. O cabelo estava solto, e ela o puxou para trás impacientemente.
— Eu gostaria de beijá-la — disse Ariadne. Sua voz tremia com um medo que Anna entendia bem demais. Ariadne temia que ela fosse afastá-la, rejeitá-la, fugir correndo. Mas como podia não saber como ela se sentia? — Por favor, Anna, posso beijá-la?
Sem conseguir falar, Anna assentiu. Ariadne se inclinou para frente e pressionou os lábios nos de Anna.
Anna já tinha vivido esse momento em sua mente cem vezes ou mais. Ela não sabia que seu corpo ia esquentar tanto, que Ariadne teria um gosto tão doce. Retribuiu o beijo, depois beijou Ariadne na bochecha, no queixo, no pescoço. Ariadne emitiu um ruído baixo de prazer, tocou novamente os lábios de Anna, e elas caíram sobre os travesseiros. Estavam entrelaçadas, rindo e calorosas, atentas apenas uma na outra. A dor desapareceu, substituída por êxtase.


Durante o dia, podia ser complicado andar pelas ruas e becos do Soho. À noite, eles se tornavam uma rede confusa e perigosa. Jem estava com o bastão preparado. A essa hora as únicas pessoas ali eram bêbados e damas da noite. Os becos cheiravam a lixo, e viam-se vidros quebrados e detritos acumulados de um dia londrino. Jem foi ate a frente de uma loja na Wardour Street. Ele bateu e a porta foi aberta por dois jovens lobisomens, que não pareceram surpresos em vê-lo.
Woolsey Scott está esperando por mim.
Eles assentiram e o conduziram por uma loja escura e vazia que vendia botões e laços, e passaram por uma porta. Do outro lado, havia uma sala com pouca luz, mas com móveis de bom gosto.
Woolsey Scott estava esticado sobre um divã. Sentada diante dele, estava Leopolda Stain, cercada por mais meia dúzia de lobisomens. Ela parecia calma e recomposta, e estava até tomando uma xícara de chá.
— Ah, Carstairs — disse Scott. — Finalmente. Achei que fôssemos passar a noite inteira aqui.
Obrigado, disse Jem, por cuidarem dela por mim.
— Não foi nada — disse Scott. Ele esticou o queixo para Leopolda. — Como sabe, essa aí chegou há algumas semanas. Estamos de olho nela desde então. Não achei que fosse tão longe quanto foi hoje. Não podemos deixar que atraia mundanos idiotas para invocarem demônios. É o tipo de coisa que inspira sentimentos anti-Submundo.
Leopolda não pareceu se ofender pela forma como ele falava.
Woolsey se levantou.
— Você disse que queria falar com ela — emendou. — Devo deixar o assunto por sua conta?
Sim, Jem respondeu.
— Ótimo. Tenho uma reunião com uma garrafa de vinho tinto. Tenho certeza de que ela não causará mais problemas, não é mesmo, Leopolda?
Scott fez que sim com a cabeça, e os licantropes deixaram a sala ao mesmo tempo.
Leopolda olhou para Jem e sorriu.
— É bom vê-lo novamente — falou. — Fomos interrompidos tão grosseiramente antes.
Você vai me dizer o que sabe sobre Tessa.
Leopolda alcançou o bule em uma mesa baixa e encheu novamente sua xicara.
— Essas feras terríveis — disse ela, acenando com a cabeça para a porta. — Foram muito brutos comigo. Quero sair daqui agora.
Não vai sair até me dizer o que quero saber.
— Ah, direi. Sua Tessa... e ela foi sua, não foi? Posso não ver seus olhos, mas enxergo no seu rosto.
Jem enrijeceu. Ele não era mais aquele menino, o jovem que planejou se casar com Tessa, que a amou tanto quanto seu coração aguentou. Ele ainda a amava, mas sobreviveu suprimindo aquele menino, suprimindo seus amores humanos, assim como tinha abandonado o violino. Instrumentos para outro momento, outra vida.
Mesmo assim, não havia alegria em relembrar tão cruelmente.
— Imagino que os poderes dela sejam enormes — disse Leopolda, mexendo o chá. — Tenho inveja dela. Axel tinha... tanto orgulho.
Não havia nada além do barulho da colher batendo nas laterais da louca. Nas profundezas de sua mente, Jem ouvia o murmúrio dos outros Irmãos do Silêncio, mas o ignorou. Esta missão era só sua.
Fale-me sobre o pai de Tessa.
— O sangue — disse ela. — Primeiro, vai me dar o sangue. É uma quantidade mínima.
Isso nunca vai acontecer.
— Não? — ela insistiu. — Você sabe que sou apenas a humilde filha de um demônio Vetis, mas sua Tessa...
Ela esperou para ver o efeito em Jem.
— Sim — falou. — Eu sei de tudo. Você vai esticar o braço. Eu vou pegar o sangue, vou contar o que quer saber, e vou me retirar. Nós dois ficaremos satisfeitos. Garanto a você que o que vou dar é muito mais do que o que estou pedindo. É uma incrível barganha.
Você não tem as vantagens que pensa que tem, Leopolda Stain, ele disse. Soube que estava aqui desde que colocou os pés nessas terras. Eu sabia que era amiga de Mortmain. Sei que quer esse sangue para continuar o trabalho dele, e jamais permitirei isso.
Os lábios dela se curvaram.
— Mas você é gentil — retrucou. — É famoso por isso. Não vai me machucar.
Jem pegou o bastão, girando-o entre as mãos, e o equilibrou entre ele e Leopolda. Conhecia cem maneiras diferentes de matá-la com ele. Poderia quebrar o pescoço dela.
Aquele era o eu, Caçador de Sombras, falou. Já matei com esse bastão, embora prefira não faze-lo. Conte-me o que quero saber ou morrerá. A escolha é sua.
Irmão Zachariah percebeu, pela expressão dos olhos de Leopolda, que ela acreditava nele.
Diga-me o que eu quero saber e vou deixá-la viver.
Leopolda engoliu em seco.
— Primeiro, jure pelo seu Anjo que vai me deixar ir embora hoje.
Eu juro pelo Anjo.
Leopolda sorriu um sorriso longo e vulpino.
— O ritual que criou sua Tessa foi magnifico — falou. — tão glorioso. Nunca pensei que uma coisa dessas poderia ser feita, acasalar uma Caçadora de Sombras com um demônio...
Não enrole. Conte-me.
— O pai de sua Tessa foi o maior dos demônios Eidolon. A mais bela criatura de qualquer inferno, pois ele tem mil formas.
Um Demônio Maior?, era o que Jem temia. Não era à toa que James conseguia se transformar em fumaça e a própria Tessa podia assumir qualquer forma, mesmo a de um anjo. Uma linhagem de Nephilim e Demônios Maiores. Não havia registro de criaturas tão impossíveis. Mesmo agora, ele não conseguia pensar neles como novas e estranhas criações com incríveis poderes. Eram simplesmente Tessa e James. Pessoas que ele amava desmedidamente. Está dizendo que o pai de Tessa era um Demônio Maior?
A Clave jamais poderia saber. Ele não poderia contar. Seu coração saltou. Será que poderia contar a Tessa? Seria melhor que ela soubesse ou não?
— Estou dizendo — falou Leopolda — que ele era um Príncipe do Inferno. Que honra nascer dele. Mais cedo ou mais tarde, Jem Carstairs, o sangue vai sair e um belo poder brilhará por essa cidade.
Ela se levantou.
O maior dos Eidolons? Preciso de mais do que isso. Como ele se chamava?
Ela balançou a cabeça.
— O preço pelo nome é o sangue, James Carstairs, e, se não pagar, outro pagará.
Ela tirou a mão de trás das costas e jogou um punhado de pó em Jem. Se ele não tivesse os olhos protegidos por magia, provavelmente teria ficado cego. Mas ele só cambaleou o suficiente para que ela corresse e fosse até a porta. Ela a alcançou em segundos e abriu.
Do outro lado, havia dois enormes lobisomens cercando Woolsey Scott.
— Como esperado — disse Woolsey, olhando com desprezo para Leopolda. — Matem-na, meninos. Deixem que sirva de exemplo para outros que ousem derramar sangue sobre nossa cidade.
Leopolda gritou e girou para Jem, com os olhos arregalados.
— Você disse que me deixaria ir embora! Você jurou!
Jem estava exaurido.
Não sou eu que estou impedindo.
Ela gritou quando os lobisomens, já semitransformados, pularam para cima dela. Jem virou as costas enquanto o barulho de carne rasgando e berros dominavam a sala.


A manhã de verão chegou cedo. Ariadne estava dormindo suavemente, e Anna ouviu a camareira no andar de baixo. Ela ainda não tinha dormido, mesmo depois que Ariadne apagou. Anna não queria se mexer deste lugar caloroso. Ficou brincando com as beiradas de renda do travesseiro e olhando os cílios de Ariadne se movendo, como se ela estivesse nas profundezas de um sonho. Mas o céu passava de preto a cor suave de pêssego do alvorecer. Logo haveria uma criada na porta com uma bandeja. Logo, a vida se intrometeria.
Ariadne só seria prejudicada se ela fosse encontrada aqui. Era sua obrigação it embora.
Ela beijou Ariadne suavemente para não acordá-la, em seguida, se vestiu e saiu pela janela. A escuridão não a escondia agora enquanto caminhava pela bruma matutina de Londres com suas roupas masculinas. Algumas pessoas viraram a cabeça para dar uma segunda olhada nela, e ela teve quase certeza de que alguns dos olhares foram de admiração, mesmo que estivesse sem uma de suas mangas e tivesse perdido o chapéu.
Ela tinha decidido seguir o caminho mais Longo para casa, através do Hyde Park. As cores eram suaves no nascer do sol, as águas do lago Serpentine, plácidas. Ela sentiu amizade pelos patos e pombos. Sorriu para estranhos.
Era isso que era o amor. Era total. E a conectava com tudo. Anna pouco ligava se chegaria em casa antes de alguém notar o seu desaparecimento. Ela queria se sentir assim para sempre — exatamente assim, esta manhã suave, fragrante e amigável, com a sensação de Ariadne ainda na pele. Seu futuro, antes tão confuso, estava claro. Ela ficaria com Ariadne para sempre. Elas viajariam pelo mundo, lutariam lado a lado.
Depois de um tempo, teve que ir para casa, onde subiu a janela com facilidade. Tirou as roupas do irmão e se deitou na cama. Em poucos segundos, caiu nos braços tranquilos do sono e se sentiu novamente nos braços de Ariadne.


Ela acordou pouco antes do meio-dia. Alguém tinha trazido uma bandeja de chá e deixado ao lado da cama. Bebeu o chá, que agora estava gelado. Tomou um banho frio e examinou o ferimento em seu braço. Os símbolos de cura de Ariadne fizeram efeito. A área ainda estava vermelha e irritada, mas ela poderia cobrir com um xale. Vestiu seu vestido mais simples e com corte mais reto — era tão estranho agora, se vestir como menina — e colocou um xale de seda sobre os ombros, enrolando-o cuidadosamente sobre o braço machucado. Desceu. Sua mãe estava sentada em um canto ensolarado da sala, com o pequeno Alexander no colo.
— Aí está você — falou ela. — Está doente?
— Não — retrucou Anna. — Fui tola. Fiquei acordada até muito tarde lendo um livro.
— Agora sei que está doente — a mãe disse com um sorriso, que Anna retribuiu.
— Preciso caminhar no sol. O dia está tão bonito. Vou visitar Lucie e James, acho, e discutir meu livro com eles.
Sua mãe a olhou curiosa, mas concordou.
Anna não foi até a casa dos Herondale. Em vez disso, virou na direção de Belgravia, parando para comprar violetas de uma senhora que vendia na rua. Seus passos eram leves. O mundo estava perfeitamente organizado, e todas as coisas e seres eram dignas de amor. Anna poderia ter feito qualquer coisa naquele instante: combatido cem demônios de uma vez, erguido uma carruagem sobre a cabeça, dançado em um fio. Ela passou pelas calçadas onde havia estado poucas horas antes, de volta para o seu amor.
Na casa perto da Cavendish Square, Anna bateu uma vez, e depois ficou parada nervosa no degrau, olhando para cima. Será que Ariadne estava no quarto? Será que olharia para baixo?
A porta foi aberta sem sorrisos pelo criado dos Bridgestock.
— A família está recebendo convidados no momento, Srta. Lightwood. Talvez queira esperar no...
Nesse momento, uma porta se abriu e o Inquisidor saiu com um jovem que tinha feições familiares e cabelos ruivos — Charles Fairchild, o irmão de Matthew.
Anna raramente via Charles. Ele estava sempre em algum lugar, normalmente Idris. Ele e o Inquisidor estavam no meio de uma conversa.
— Ah — o Inquisidor Bridgestock falou ao ver Anna. — Srta. Lightwood. Que bom. Conhece Charles Fairchild?
— Anna! — Charles disse com um sorriso caloroso.
— Sim, claro. — Charles será o diretor interino do Instituto de Paris — disse o Inquisidor.
— Ah — disse Anna. — Parabéns. Matthew não me contou.
Charles revirou os olhos.
— Imagino que ele pense que coisas como aspirações políticas sejam crassas e burguesas. Mas o que está fazendo aqui?
— Anna e Ariadne estão treinando juntas — explicou o Inquisidor.
— Ah — falou Charles. — Excelente. Você precisa nos visitar em Paris em algum momento, Anna.
— Oh — disse Anna, sem saber a quem Charles se referia. — Sim. Obrigada. Eu vou.
Ariadne saiu da sala. Ela usava um vestido rosa, cor de peônias frescas, e os cabelos presos. Ao ver Anna, suas bochechas coraram. Charles Fairchild foi na frente com o Inquisidor Bridgestock e Ariadne foi até ela.
— Não esperava vê-la tão cedo — murmurou para Anna.
— Como eu poderia ficar longe? — respondeu a menina.
Ariadne estava usando seu perfume outra vez, e ele pairou levemente no ar. Agora flor de laranjeira era o cheiro preferido de Anna.
— Talvez possamos nos encontrar mais tarde — falou Ariadne. — Nós vamos...
— Volto em um ano — disse Charles, concluindo qualquer que fosse a conversa com o Inquisidor Bridgestock. Ele olhou novamente para elas, fez uma reverência, pegou a mão de Ariadne e a beijou formalmente.
— Espero vê-la mais quando voltar. Não deve ser mais do que um ano.
— Sim — respondeu Ariadne. — Gostaria muito.
— Anna! — disse a Sra. Bridgestock. — Temos um papagaio. Você precisa ver. Venha.
De repente, Anna notou que a Sra. Bridgestock a tinha segurado pelo braço e a conduzia gentilmente para uma das outras salas, onde se via um papagaio grande e colorido em uma gaiola dourada enorme. O pássaro piou alto quando se aproximaram.
— É um belo pássaro — disse Anna, confusa, quando a Sra. Bridgestock fechou a porta atrás delas.
— Peço desculpas, Anna — falou ela. — Eu só precisava dar aos dois a chance de se despedirem adequadamente. Essas coisas podem ser tão delicadas. Tenho certeza de que entende.
Anna não entendeu, mas havia um torpor intruso subindo por ela.
— Temos esperança de que se casem em alguns anos — a Sra. Bridgestock prosseguiu. — Nada foi providenciado, mas é um pretendente tão bom.
O pássaro guinchou e a Sra. Bridgestock continuou falando, mas Anna só ouviu chiados. Ainda sentia o gosto do beijo de Ariadne em seus lábios; via os cabelos escuros de Ariadne espalhados pelo travesseiro. Essas coisas tinham acontecido há poucas horas, e ao mesmo tempo era como se centenas de anos tivessem passado e o mundo tivesse se tornado frio e estranho.
A porta se abriu novamente, e uma Ariadne quieta se juntou a elas.
— Minha mãe a apresentou a Winston? — perguntou, olhando para o pássaro. — Ela o adora. Você não é uma fera terrível, Winston? — Ela disse calorosamente, e Winston, o papagaio, veio dançando pelo poleiro e estendeu o pé para Ariadne.
— Tiveram uma boa conversa? — perguntou a mãe.
— Mãe! — Ariadne protestou. Ela estava um pouco pálida, mas a mãe não pareceu notar. — Por favor, posso falar com Anna?
— Sim, claro — disse a Sra. Bridgestock. — Tenham uma boa conversa. Vou pedir à cozinheira que providencie uma limonada de morango e alguns biscoitos.
Depois que ela saiu, Anna encarou Ariadne.
— Você vai se casar? — perguntou, com a voz seca. — Não pode se casar com ele.
— Charles é um bom partido — falou Ariadne, como se estivesse discutindo a qualidade de um tecido. — Nada foi arranjado, mas devemos chegar a um acordo em breve. Mas venha, Anna, venha. Sente-se.
Ariadne pegou a mão de Anna e a conduziu até um dos sofás.
— Isso não acontecerá por, pelo menos, um ano — falou. — Você ouviu Charles. Ainda falta um ano para que eu sequer precise vê-lo novamente. E passarei todo esse tempo com você.
Ela desenhou um pequeno círculo com o dedo na parte de trás da mão de Anna, um movimento suave que tirou o fôlego da menina. Ariadne era tão linda, tão calorosa. Era como se Anna estivesse sendo estilhaçada.
— Certamente não pode querer se casar com Charles — falou. —Não há nada de errado com ele, mas ele é... você o ama?
— Não — respondeu Ariadne, segurando a mão de Anna com mais força. — Não o amo desse jeito, nem nenhum homem desse jeito. Durante toda a minha vida, eu olhei para mulheres e soube que só elas poderiam tocar meu coração. Como você fez, Anna.
— Então por quê? — perguntou Anna. — Por que se casar com ele? Por causa dos seus pais?
— Por causa do jeito que o mundo é — respondeu Ariadne, com a voz trêmula, como aconteceu da primeira vez em que perguntou a Anna se podia beijá-la. — Se eu contasse a verdade sobre mim para os meus pais, se eu revelasse quem realmente sou, eles me detestariam. Eu ficaria sem amigos, rejeitada, sozinha.
Anna balançou a cabeça.
— Não fariam isso — disse ela. — Eles a amariam. Você é filha deles.
Ariadne afastou a mão da de Anna. — Sou adotada, Anna. Meu pai é o Inquisidor. Não tenho pais compreensivos como os seus devem ser.
— Mas o importante é o amor — disse Anna. — Eu não aceitaria ninguém, além de você. Você é tudo para mim, Ariadne. Não me casarei com um homem. Só quero você.
— E eu quero ter filhos — falou Ariadne, abaixando a voz, caso sua mãe estivesse voltando. — Anna, eu sempre quis ser mãe, mais do que tudo no mundo. Se eu tiver que suportar o toque de Charles, vai valer a pena. — Ela estremeceu. — Eu nunca, nunca vou amá-lo como eu a amo. Achei que entendesse, que esse seria o pouquinho de felicidade que poderíamos ter antes do mundo nos separar. Podemos nos amar pelo resto do ano, antes de Charles voltar, podemos ter esse tempo e nos lembrar para sempre, guardá-lo próximo...
— Mas quando Charles voltar acaba — disse Anna friamente. — Ele a teria. É isso que está dizendo.
— Eu não seria infiel a ele, não — murmurou Ariadne. — Não sou mentirosa.
Anna se levantou.
— Acho que está mentindo para si mesma.
Ariadne ergueu o rosto adorável. Lágrimas corriam por suas bochechas, e ela as limpou com as mãos trêmulas.
— Ah, Anna, pode me beijar? — ela pediu. — Por favor, Anna. Não me deixe. Por favor, me beije.
Ela olhou suplicante. A respiração de Anna estava curta, e o coração batia tristemente em seu peito. O mundo perfeito com que tinha sonhado se quebrou em milhões de pedaços, virou pó, e desapareceu. O que ficou no lugar foi algo estranho e cruel. Não havia ar suficiente para respirar. Lágrimas quentes queimaram seus olhos.
— Adeus, Ariadne — ela conseguiu dizer, e cambaleou para fora da sala.


Anna se sentou à beira da cama e chorou por um bom tempo. Chorou até acabarem as lágrimas e o corpo tremer involuntariamente.
Ouviu uma batida suave à sua porta e seu irmão colocou a cabeça para dentro do quarto.
— Anna — falou, piscando os olhos cor de lavanda. — Você está bem? Pensei ter ouvido alguma coisa.
Ah, Christopher. Doce Christopher.
Anna limpou apressadamente o rosto.
— Estou bem, Christopher — disse ela, limpando a garganta.
— Tem certeza? — perguntou o menino. — Posso fazer alguma coisa para ajudar? Posso executar um ato científico salvador.
— Christopher, vá. — Era a mãe de Anna, aparecendo, silenciosa como um gato, atrás do filho, no corredor. — Vá fazer outra coisa. Alguma coisa sem explosivos — acrescentou, mandando o filho do meio embora.
Anna limpou apressadamente os últimos rastros de lágrimas de seus olhos quando sua mãe entrou no quarto, carregando uma caixa grande e fechada com um laço. Ela se sentou na cama e olhou placidamente para a filha.
Como sempre, Cecily estava perfeitamente vestida e parecia perfeitamente calma, seus cabelos escuros em um coque perfeito atrás da cabeça, o vestido num lindo tom de azul. Anna não pôde deixar de imaginar o quão horrível devia estar de camisola, como rosto vermelho e inchado.
— Sabe por que eu a chamei de Anna? — perguntou Cecily.
Anna balançou a cabeça, confusa.
— Fiquei muito doente durante a gravidez — disse Cecily. Anna piscou os olhos; não sabia disso. — Passei o tempo todo preocupada que você não fosse sobreviver até nascer ou que seria doente. E então você nasceu, e era a criança mais linda, saudável e perfeita. — Ela sorriu. — Anna significa graça, como graça de Deus. Achei que o Anjo tivesse me agraciado com você, e eu ia me certificar de que você sempre fosse feliz e contente. — Ela esticou o braço para tocar a bochecha de Anna. — Ela partiu seu coração, não foi? Ariadne?
Anna perdeu a fala. Então a mãe sabia. Ela sempre achou que sua mãe soubesse que ela gostava de mulheres, e que seu pai também soubesse... mas nunca falaram sobre isso até agora.
— Sinto muito. — Cecily beijou a testa da filha. — Minha querida amada. Sei que não adianta ouvir isso, mas aparecerá outra pessoa, e ela vai tratar seu coração como o dom precioso que ele é.
— Mamãe — disse ela —, você não se importa... que eu possa não me casar e nem ter filhos?
— Existem muitas crianças Caçadoras de Sombras órfãs, como Ariadne, em busca de lares amorosos, e não vejo razão para que você não possa oferecer um algum dia. Quanto a se casar... — Cecily deu de ombros. — Disseram que seu tio Will não podia se casar com sua tia Tessa, que sua tia Sophie e seu tio Gideon não podiam ficar juntos. Mas acho que você sabe que todos erraram, e teriam errado mesmo que o casamento fosse proibido para todos eles. Mesmo que as leis sejam injustas, os corações encontram uma forma de se unir. Se você amar alguém, não tenho dúvida de que encontrará uma maneira de passar a vida com ela, Anna. Você é a criança mais determinada que eu conheço.
— Não sou criança — disse Anna, mas sorriu, um tanto impressionada. Ariadne podia tê-la desapontado, mas sua mãe foi impressionante do jeito oposto.
— Ainda assim — disse a mãe —, você não pode continuar usando as roupas do seu irmão.
Anna sentiu um aperto no peito. Pronto. A compreensão de sua mãe tinha limite.
— Achei que não soubesse — murmurou.
— Claro que sabia. Sou sua mãe — Cecily falou como se estivesse anunciando que era a Rainha da Inglaterra. Ela tamborilou na caixa grande, com um laço. — Aqui tem uma roupa nova para você. Espero que ache adequada para acompanhar sua família até o parque.
Antes que Anna pudesse protestar, um grito exigente ecoou pela casa. Exclamando “Alexander!”, Cecily saiu pela porta, instruindo Anna a encontrá-la lá embaixo, na sala, quando estivesse pronta.
Melancolicamente, Anna desamarrou o laço que fechava a caixa. Ela já tinha ganhado muitas roupas da mãe na vida. Outra seda em tom pastel? Mais um vestido elaborado, feito para realçar suas discretas curvas?
O laço e o papel caíram, e Anna engasgou.
Dentro da caixa estava o terno mais lindo que ela já tinha visto. Preto com uma linha fina azul, o paletó, sob medida. Um lindo colete de seda com belos tons de azul complementava uma camisa branca. Sapatos, suspensórios — nada tinha sido esquecido.
Entorpecida, Anna se vestiu e olhou no espelho. As roupas estavam perfeitas — a mãe deve ter dado suas medidas ao alfaiate. Mas alguma coisa ainda não estava certa.
Ela enrijeceu a mandíbula, atravessou o quarto e pegou um par de tesouras. Na frente do espelho, puxou uma parte do seu cabelo.
Hesitou por apenas um instante. A voz suave de Ariadne em seus ouvidos.
Achei que entendesse, que esse seria o pouquinho de felicidade que poderíamos ter antes do mundo nos separar.
O cabelo fez um barulho satisfatório ao ser cortado. Caiu em uma chuva no tapete.
Ela pegou mais um punhado, e depois outro, até o cabelo estar na altura do queixo. O corte realçou suas feições. Ela aparou um pouco mais na frente, foi cortando atrás, até sobrar apenas o bastante para um penteado masculino.
Agora estava perfeito. O reflexo olhou de volta para ela, com os lábios curvados em um sorriso incrédulo. O colete realçava seus olhos; a calça, a elegância das pernas. Ela se sentiu capaz de respirar, mesmo com a dor da perda de Ariadne no peito: podia ter perdido a menina, mas ganhou a si mesma. Uma nova Anna, confiante, bonita, poderosa.
Corações se partiam em Londres todos os dias. Talvez a própria Anna pudesse partir um ou dois. Haveria outras — adoráveis meninas passariam pela sua vida, e ela continuaria tendo controle do coração. Jamais sofreria assim outra vez.
Ela era uma Caçadora de Sombras. Aceitaria o golpe. Ficaria calejada e riria na cara da dor.
Anna desceu as escadas logo depois. Era fim de tarde agora, apesar de o sol ainda estar brilhando pela janela. Esse dia seria eterno.
Sua mãe estava na sala com uma bandeja de chá; o bebê Alex em uma cesta ao seu lado. O pai estava sentado do lado oposto, concentrado no jornal.
Anna entrou. Os pais olharam para ela. Ela os viu assimilando suas novas roupas, assim como o cabelo curto. Ficou parada na entrada, se preparando para qualquer que fosse a reação.
Um longo instante se passou.
— Eu disse que o colete azul era o certo — Gabriel disse a Cecily. —Realça os olhos dela.
— Eu não discordei — respondeu Cecily, embalando o bebê. — Eu só disse que ela também ficaria linda de vermelho.
Anna começou a sorrir.
— Muito melhor do que as roupas do seu irmão — disse Gabriel. — Ele acaba com elas com ácidos e enxofre.
Cecily examinou os cabelos curtos de Anna.
— Muito sensato — falou. — Cabelo atrapalha muito na batalha. Gostei muito. — Ela se levantou. — Sente-se — acrescentou. — Fique um pouco com seu irmão e com seu pai. Tenho que buscar uma coisa para você.
Quando sua mãe saiu do recinto, Anna sentiu os membros formigarem ao sentar. Ela esticou o braço para Alex. Ele tinha acabado de acordar e estava olhando em volta, assimilando tudo, maravilhado, como bebês sempre ficam quando acordam e descobrem que o mundo ainda está ali, para ser entendido com todas as suas complexidades.
— Entendo como se sente — falou ela para o irmão.
Ele sorriu um sorriso banguela e esticou a mãozinha. Ela estendeu a dela, e ele agarrou seu dedo.
Sua mãe só voltou alguns minutos mais tarde, com uma pequena caixa azul.
— Sabe — disse Cecily, sentando e enchendo novamente a xícara de chá —, meus pais não queriam que eu fosse Caçadora de Sombras. Eles fugiram da Clave. E seu tio Will...
— Eu sei — disse Anna.
Gabriel olhou com carinho para a esposa.
— Mas eu era Caçadora de Sombras. Eu já sabia desde então, quando tinha quinze anos. Sabia que estava no meu sangue. Pessoas tolas dizem muitas coisas. Mas sabemos quem somos por dentro.
Ela colocou a caixa azul sobre a mesa e a empurrou para Anna.
— Se aceitar — falou.
Na caixa, havia um colar com uma pedra vermelha brilhante. Havia palavras em latim escritas na parte de trás.
— Para protegê-la — emendou ela. — Você sabe como funciona.
— Ele sente demônios — disse Anna, espantada. Sua mãe o usava sempre que saía para o combate, apesar de isso agora acontecer com menos frequência, em função da chegada de Alexander.
— Não pode proteger seu coração, mas pode proteger o restante —disse Cecily. — É uma herança de família. Deve ser seu.
Anna lutou contra as lágrimas que queriam encher seus olhos. Pegou o colar e o colocou diante da garganta. Levantou e se olhou no espelho acima da lareira. Um belo reflexo olhou de volta para ela. O colar se encaixava bem, assim como o cabelo curto.
Não preciso ser uma coisa só, Anna pensou. Posso escolher o que combina comigo, quando combina. As calças e o paletó não me tornam um homem, e o colar não me torna uma mulher. São apenas coisas que fazem com que eu me sinta bonita e poderosa neste momento. Sou exatamente como escolho ser. Sou uma Caçadora de Sombras que veste lindos ternos e um colar lendário.
Ela olhou para o reflexo da mãe no vidro.
— Você tinha razão — falou. — O vermelho combina comigo.
Gabriel riu baixinho, mas Cecily apenas sorriu.
— Eu sempre a conheci, meu amor — disse Cecily. — Você é a joia do meu coração. Minha primogênita. Minha Anna.
Anna pensou novamente em toda a dor do dia — o machucado que abriu seu peito e expôs seu coração. Mas agora era como se a sua mãe tivesse desenhado um símbolo sobre ele e fechado a ferida. A cicatriz estava lá, mas ela estava inteira. Era como ser Marcada outra vez, definindo quem ela era. Esta era Anna Lightwood.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!