20 de fevereiro de 2019

Os perversos



Há poucas coisas mais dolorosas do que um amor negado. Céline Montclaire sabe disso muito bem. Na infância conturbada, a garota fugia para o Mercado das Sombras em busca de proteção. Ela iria a qualquer lugar de Paris, ou do mundo inteiro, para escapar do sofrimento que experimentava nas mãos da família. Mas ela não esperava encontrar Valentine Morgenstern lá, muito menos que ele acreditasse em um potencial que ninguém parece ver nela.
Agora ela precisa guiar dois Caçadores das Sombras pelo Mercado de Paris em uma missão que é muito mais complexa do que os três pensam. Com a missão cumprida, Céline vai finalmente ter a chance de liberdade e de possuir o coração do homem que ama secretamente. Com uma condição, claro. No Mercado das Sombras, nada é de graça e o preço às vezes é alto. Será que Céline está disposta a pagá-lo?

Paris, 1989


Dizia-se entre os Caçadores de Sombras que não se poderia conhecer a verdadeira beleza até que se visse as torres brilhantes de Alicante. Dizia-se que nenhuma cidade na Terra poderia se comparar às suas maravilhas. Dizia-se que nenhum Caçador de Sombras poderia realmente se sentir em casa em outro lugar.
Se alguém perguntasse a Céline Montclaire sua opinião sobre o assunto, ela diria: obviamente esses Caçadores de Sombras nunca estiveram em Paris. Ela teria se exaltado falando sobre torres góticas que cresciam até as nuvens, ruas de paralelepípedos reluzindo com a chuva, a luz do sol dançando no Sena, e, bien sûr, as infinitas variedades de queijo. Ela teria apontado que Paris fora o lar de Baudelaire e Rimbaud, Monet e Gauguin, Descartes e Voltaire, que essa era a cidade que deu origem a um novo modo de falar, ver, pensar, ser – deixando até o mais mundano dos mundanos um pouco mais perto dos anjos.
Em todos os sentidos, Paris era la ville de la lumière. A Cidade Luz. Se você me perguntar, Céline teria dito, nada poderia ser mais bonito que aquilo.
Mas ninguém nunca perguntou. Como uma regra geral, ninguém nunca perguntou a Céline Montclaire sua opinião sobre nada.
Até agora.
— Você tem certeza de que não existe um tipo de Marca para deixar essas criaturas imundas longe daqui? — Stephen Herondale perguntou enquanto um trovejante bater de asas descia. Ele golpeou cegamente seu inimigo emplumado.
O bando de pombos passou rapidamente, sem causar nenhum golpe mortal.
Céline afastou um par de retardatários, e Stephen suspirou de alívio.
— Minha heroína — ele disse.
Céline sentiu suas bochechas esquentarem alarmantemente. Ela tinha um problema terrível de corar.
Especialmente quando estava na presença de Stephen Herondale.
— O grande guerreiro Herondale com medo de pombos? — Ela provocou, com esperança de que ele não ouvisse o tremor em sua voz.
— Não com medo. Simplesmente exibindo uma prudente quantidade de cautela em relação a criaturas demoníacas em potencial.
— Pombos demoníacos?
— Eu os vejo com bastante desconfiança — Stephen disse com o máximo de dignidade que um pombofóbico poderia reunir. Ele bateu de leve na espada pendurada em seu quadril. — E esse grande guerreiro está pronto para fazer o que for preciso.
Enquanto ele falava, outro bando de pombos alçou voo dos paralelepípedos, e por um momento tudo era asas e penas e o guincho estridente de Stephen.
Céline riu.
— Sim, posso ver que você não tem medo diante da face do perigo. Ou, melhor dizendo, do bico do perigo.
Stephen lançou um olhar cortante a ela. Sua pulsação acelerou. Será que fora longe demais?
Então ele deu uma piscadela.
Às vezes ela o desejava tanto que sentia que seu coração iria explodir.
— Tem certeza de que ainda estamos indo na direção certa? — ele perguntou. — Sinto que a gente está andando em círculos.
— Confie em mim — ela respondeu.
Stephen levou a mão ao coração.
Bien sûr, mademoiselle.
A menos que você tenha contado o papel de protagonista que ele interpretava em seus devaneios, Céline não tinha visto Stephen desde que ele se formou na Academia, quatro anos antes. Naquela época, ele mal a notava. Estava muito ocupado com o treino, sua namorada, seus amigos do Ciclo para dar atenção à garotinha miúda cujos olhos se pregavam em qualquer movimento seu. Mas agora, Céline pensou, suas bochechas queimando de novo, eles eram praticamente iguais. Sim, ela tinha 17 anos, ainda uma estudante, enquanto ele tinha 22, não apenas um adulto de pleno direito, mas o tenente mais confiável de Valentim Morgenstern no Ciclo – a elite de jovens Caçadores de Sombras que juraram reformar a Clave e retornar à sua pura e antiga glória. Mas Céline era finalmente um membro do Ciclo também, escolhida pelo próprio Valentim.
Valentim fora um estudante da Academia junto com Stephen e os outros membros fundadores do Ciclo – mas, ao contrário do resto deles, ele nunca pareceu muito jovem. A maioria dos estudantes e professores da Academia pensara na plateia de Valentim como nada além de um grupinho inofensivo, estranho apenas no fato de que preferia debates políticos ao anoitecer no lugar de festas. Mesmo nessa época, Céline entendia que era exatamente como Valentim queria parecer: inofensivo. Aqueles que prestavam atenção sabiam melhor. Ele era um guerreiro feroz, com uma mente ainda mais feroz – uma vez que ele fixava seu olhar negro em um objetivo, nada poderia impedi-lo de alcançá-lo. Ele fez seu círculo de jovens Caçadores de Sombras entenderem que ele sabia ser tão capaz quanto eles eram leais. Apenas o melhor deles, ele disse a ela naquele dia em que se aproximou dela em uma palestra particularmente monótona sobre a história dos Seres do Submundo.
— Todo membro do Círculo é excepcional. — Ele havia dito. — Incluindo, se aceitar minha oferta, você.
Ninguém nunca a tinha chamado de excepcional antes. Desde então, ela se sentiu diferente. Forte. Especial. E deveria ser verdade, porque mesmo que ela ainda tivesse mais um ano na Academia, aqui estava ela, passando suas férias de verão em uma missão oficial com Stephen Herondale. Stephen era um dos melhores guerreiros de sua geração, e agora – graças à inoportuna situação de lobisomem de Lucian Graymark – o agente mais confiável de Valentim. Mas Céline era quem conhecia Paris, suas ruas e seus segredos.
Era o momento perfeito para mostrar a Stephen que ela havia mudado, que ela era excepcional. Que ele não poderia fazer isso sem ela.
Essas, na verdade, foram as palavras exatas dele. Eu não poderia fazer isso sem você, Céline.
Ela amava o jeito como o seu nome soava na língua dele. Amava cada detalhe dele: os olhos azuis que brilhavam como o mar de Côte d’Azur. O cabelo loiro quase branco que resplandecia como a rotunda dourada de Plais Garnier. A curva do seu pescoço, a firmeza de seus músculos, as linhas suaves de seu corpo como algo esculpido por Rodin, um modelo da perfeição humana. De alguma forma, ele ficou ainda mais bonito desde a última vez que o vira.
Ele também havia se casado.
Ela tentou não pensar sobre isso.
— A gente pode apertar o passo? — Robert Lightwood resmungou. — Quanto mais cedo acabarmos isso, mais cedo podemos voltar para a civilização. E para o ar-condicionado.
Robert era outro ponto sobre a qual ela tentava não pensar. Sua presença rabugenta tornava substancialmente mais difícil fingir que ela e Stephen estavam tendo um passeio romântico ao luar.
— Quanto mais rápido formos, mais você vai suar — Stephen apontou. — E, confie em mim, ninguém quer isso.
Paris em agosto era aproximadamente dez graus mais quente que o inferno. Mesmo depois do anoitecer, o ar parecia um cobertor mergulhado em sopa quente.
Por uma questão de discrição, eles haviam trocado seus uniformes de Caçadores de Sombras por moda mundana, escolhendo mangas compridas para cobrir suas runas. A camiseta branca que Céline selecionara para Stephen já estava úmida. Isso não era exatamente lamentável.
Robert apenas grunhiu. Ele estava diferente do que Céline lembrava da Academia. Naquela época, ele havia sido um pouco curto e grosso, mas nunca deliberadamente cruel. Agora, porém, havia alguma coisa nos olhos dele que ela não gostava. Uma coisa fria. Isso a lembrava demais de seu pai.
De acordo com Stephen, Robert teve algum tipo de desentendimento com o seu parabatai e estava compreensivelmente rabugento. É só Robert sendo Robert, Stephen havia dito. Ótimo lutador, mas uma rainha do drama. Nada com que se preocupar.
Céline sempre se preocupava.
Eles subiram a última colina da Rue Mouffetard. De dia, esta era uma das ruas de mercado mais movimentadas de Paris, repletas de mercadorias frescas, cachecóis coloridos, vendedores de falafel, barracas de sorvete, e turistas desagradáveis. À noite, as fachadas das lojas eram fechadas e silenciosas. Paris era uma cidade comercial, mas todos os seus comércios dormiam depois de escurecer – todos exceto um.
Céline os apressou virando uma esquina, depois desceram outra estrada estreita e sinuosa.
— Estamos quase lá — ela tentou manter a antecipação longe de sua voz. Robert e Stephen haviam deixado bem claro que o Ciclo não aprovava os Mercados das Sombras. Seres do Submundo se misturando com mundanos, bens ilícitos passando de mão em mão, segredos trocados e vendidos? De acordo com Valentim, tudo isso era a inconveniente consequência da frouxidão e corrupção da Clave. Quando o Ciclo ganhasse mais poder, Stephen a assegurara mais cedo, os Mercados das Sombras seriam fechados de uma vez por todas.
Céline estava no Ciclo havia apenas alguns meses, mas já havia aprendido essa lição: se Valentim odiava alguma coisa, era seu dever odiá-la também.
Ela estava dando o seu melhor.


Não havia leis dizendo que um Mercado das Sombras deveria estar localizado em um local rico em energia sombria, marinado no sangue de um passado violento – mas ajudava.
Paris não possuía escassez de possibilidades, era uma cidade de fantasmas, a maioria deles raivosa. Revolução após revolução, barricadas espirradas com sangue e cabeças rolando das guilhotinas, os massacres de setembro, a Semana Sangrenta, a queima do Tuileries, o Terror... quando criança, Céline havia passado muitas noites acordada perambulando pela cidade, convocando visões de suas maiores crueldades. Ela gostava de imaginar que conseguia ouvir gritos ecoando através dos séculos. Eles a faziam sentir-se menos sozinha.
Isso, ela sabia, não era um hobby comum de infância.
Céline não teve uma infância comum. Ela só descobriu isso quando chegou à Academia, onde pela primeira vez encontrou Caçadores de Sombras da sua idade. Naquele primeiro dia, os alunos conversaram sobre suas vidas idílicas em Idris, cavalgando na Planície Brocelind; suas vidas idílicas em Londres, Tóquio, Nova York, treinando sob o olhar amigável de pais amorosos e tutores do Instituto; suas vidas idílicas em qualquer e todo lugar. Depois de um tempo, Céline parou de ouvir, saiu despercebida, amargamente ciumenta para ficar. Muito envergonhada pela expectativa de que alguém poderia fazê-la contar sua própria história.
Afinal, ela cresceu na propriedade dos pais em Provença, cercada de pomares de maçã, vinhas, campos ondulados de lavanda: por todas as aparências, la belle époque.
Céline sabia que seus pais a amavam, porque eles falavam para ela tão repetidamente.
Nós só estamos fazendo isso porque te amamos, sua mãe diria antes de trancá-la no porão.
Nós só estamos fazendo isso porque te amamos, seu pai diria antes de golpeá-la com o chicote.
Nós só estamos fazendo isso porque te amamos, quando eles lançaram o demônio Dragonidae nela; quando a despejaram para passar a noite, com oito anos e sem armas, em uma toca de lobisomens na mata; quando eles lhe ensinaram as consequências sangrentas da fraqueza ou da falta de jeito ou do medo.
Na primeira vez em que fugiu para Paris, ela tinha oito anos de idade. Nova o suficiente para pensar que poderia fugir para sempre. Ela havia encontrado o caminho para a Arènes de Lutèce, os restos de um anfiteatro romano do primeiro século AD. Era, talvez, a mais antiga ruína encharcada de sangue da cidade. Dois mil anos depois, gladiadores haviam guerreado até a morte perante uma multidão sanguinária, até a arena – e sua multidão – serem surpreendidos por uma horda bárbara igualmente sanguinária. Por um tempo, foi um cemitério; agora era uma armadilha de turistas, outro monte de pedras para estudantes entediados ignorarem. De dia, pelo menos. Sob a lua da meia-noite, a arena se enchia de vida com Seres do Submundo, uma bacanal de frutas e vinhos das fadas, gárgulas encantadas pela magia de feiticeiros, licantropes valentes, vampiros de boina pintando retratos em sangue, um acordeonista ifrit que poderia fazer você chorar mesmo à morte. Era o Mercado das Sombras de Paris, e desde o momento em que Céline o viu, ela finalmente se sentiu em casa.
Naquela primeira viagem, ela passou duas noites lá, assombrando-se com as barracas, fazendo amizade com um tímido filhote de lobisomem, saciando sua fome com o crepe de avelã que um Irmão do Silêncio havia comprado para ela sem fazer perguntas. Ela dormiu sob a toalha de mesa da banca de joias de um vampiro; ela girou com crianças com chifres em uma festa improvisada de fadas; ela finalmente descobriu o que significava ser feliz. Na terceira noite, os Caçadores de Sombras do Instituto de Paris a localizaram e a levaram de volta para casa.
Foi quando ela aprendeu – não pela última vez – as consequências de fugir de casa.
Nós te amamos demais para perdê-la.
Naquela noite, Céline havia se enrolado em posição fetal no porão, com as costas ainda sangrando, e pensou, então é assim que é ser amada demais.


A missão deles era direta. Primeiro, localizar a barraca da feiticeira Dominique du Froid no Mercado de Sombras de Paris. Segundo, encontrar alguma prova de seus negócios obscuros com dois Caçadores de Sombras desonestos.
— Eu tenho razões para acreditar que eles têm negociado sangue e partes de Seres do Submundo em troca de serviços ilegais — Valentim lhes dissera. Ele precisava de provas. Era tarefa de Céline, Stephen e Robert encontrar alguma.
Com cuidado — Valentim avisara. — Eu não quero que ela conte a seus associados. — Valentim fez a palavra “associados” soar como uma vulgaridade. Para ele, era assim: Seres do Submundo eram ruins o suficiente, mas Caçadores de Sombras se permitindo ser corrompidos por um Ser do Submundo? Aquilo era imperdoável.
O passo um se provou simples. Dominique du Froid era fácil de achar. Ela havia conjurado seu nome em luzes neon a partir do nada. Literalmente – as letras brilhavam, um metro acima da sua barraca, com uma flecha neon apontando para baixo. DOMINIQUE DU FROID, LES SOLDES, TOUJOURS!
— Exatamente como um feiticeiro — Robert disse amargamente. — Sempre para venda.
— Sempre à venda — Céline corrigiu, baixo demais para ele ouvir.
A barraca acabou por ser uma tenda elaborada com mesas de exibição e uma área com cortinas no fundo. Estava abarrotada de joias bregas e poções coloridas – nenhuma tão pegajosa ou tão colorida quanto a própria Dominique. Seu cabelo estava tingido de loiro platinado e listras cor-de-rosa, metade dele preso em um rabo de cavalo de lado. A outra metade estava frisada e reduzida a um brilho duro por causa do spray de cabelo. Ela vestia uma camisa de renda rasgada, uma minissaia de couro preto, luvas roxas sem dedos, e parecia carregar uma porção significativa de seu estoque de joias em volta do pescoço. Sua marca de feiticeiro, uma longa cauda cor-de-rosa, estava pendurada sobre os ombros como um boá.
— É como um demônio Eidolon tentando se transformar na Cyndi Lauper e acidentalmente ficando preso no meio do processo Céline brincou.
— Hã? — Robert perguntou. — Essa é outra feiticeira?
Stephen sorriu.
— É, Robert. Outra feiticeira. A Clave a executou porque ela queria apenas um pouco de diversão.
Céline e Stephen riram juntos, e a fúria óbvia de Robert por ser ridicularizado só os fez rir mais. Como a maioria dos Caçadores de Sombras, Céline cresceu inteiramente ignorante da cultura pop mundana. Mas Stephen apareceu na Academia cheio de conhecimentos misteriosos sobre bandas, livros, músicas, filmes que ninguém nunca tinha sequer ouvido falar. Quando juntou ao Ciclo, ele despejou seu amor pelo Sex Pistols com a mesma rapidez com que trocou a jaqueta de couro e o jeans desfiado pelo uniforme preto fosco que Valentim favorecia. Mesmo assim, Céline havia passado os últimos anos estudando a TV mundana, por precaução.
Posso ser o que você quiser que eu seja, ela pensou, desejando que tivesse força o suficiente para dizê-lo.
Céline conhecia Amatis, a esposa de Stephen. Pelo menos, ela conhecia o suficiente. Amatis tinha a língua afiada e era orgulhosa. Ela tinha opiniões, argumentos, teimosia, e nem era tão bonita assim. Também havia rumores de que ela ainda se associava secretamente com seu irmão lobisomem. Céline não se importava muito com aquilo – ela não tinha nada contra Seres do Submundo. Mas ela era contra Amatis, que obviamente não apreciava o que tinha. Stephen precisava de alguém que o admirasse, concordasse com ele, o apoiasse. Alguém como Céline. Se ela apenas pudesse fazê-lo ver isso.
Eles vigiaram a feiticeira por algumas horas. Dominique du Froid estava constantemente deixando sua barraca, fugindo para fofocar ou negociar com outros vendedores. Era quase como se ela quisesse que alguém roubasse seus pertences.
Stephen bocejou teatralmente.
Eu tinha esperanças de algo mais desafiador. Vamos terminar com isso logo e ir embora. Esse lugar fede a Seres do Submundo. Eu já sinto que preciso tomar um banho.
Oui, c’est terrible Céline mentiu.
Na vez seguinte que Dominique deixou a barraca, Stephen a seguiu. Robert deslizou para dentro da barraca para bisbilhotar por evidências de tratados sujos.
Céline foi deixada para ficar de vigia na tenda do lado da de Dominique, por onde ela poderia sinalizar para Robert se Dominique voltasse inesperadamente.
É claro que deixaram para ela o trabalho mais chato, o que exigia nada além de compras de joias. Eles pensavam que ela era inútil.
Céline fez o que lhe foi pedido, fingindo interesse na horrível exibição de anéis encantados, correntes de ouro grossas, pulseiras com pingentes de demônios esculpidos em latão e estanho. Então ela viu uma coisa que realmente a interessava: um Irmão do Silêncio, deslizando em direção à barraca naquele jeito inumano e desconcertante que todos tinham de se mover. Ela assistiu pelo canto do olho o modo como o Caçador de Sombras vestido de túnica estudava a exibição de joias com muito cuidado. O que alguém como ele poderia estar procurando em um lugar como este?
O lobisomem pré-adolescente desalinhado que cuidava da barraca mal havia reparado na presença da Céline. Mas ele correu direto para o Irmão do Silêncio, os olhos arregalados com medo.
— Você não pode ficar bisbilhotando por aqui — ele disse. — Meu chefe não gosta de fazer negócios com a sua espécie.
Você não é jovem demais para ter um chefe?
As palavras reverberaram na mente de Céline, e ela ponderou por um momento se o Irmão do Silêncio queria que ela o ouvisse. Mas aquilo parecia improvável – ela estava parada a vários metros de distância, e não havia motivos para ele tê-la percebido.
— Meus pais me largaram quando fui mordido, então ou é trabalho ou morrer de fome — o lobisomem disse. Ele deu de ombros. — E eu gosto de comida. É por isso que você tem que dar o fora daqui antes que o chefe volte e pense que estou vendendo para um Caçador de Sombras.
Eu estou à procura de uma joia.
— Olha cara, não tem nada aqui que você não possa arrumar em outro lugar, melhor e mais barato. Essas coisas aqui são tudo uma porcaria.
Sim, eu posso ver. Mas estou procurando por algo em particular, algo que me foi dito que eu só poderia encontrar aqui. Um colar de prata, com um pingente com o formato de uma garça.
A palavra garça fez a orelha de Céline coçar. Era um pedido tão especifico. E algo tão adequado para um Herondale.
— Hã, é, eu não sei como você ouviu sobre isso, mas é possível que tenhamos um desses aqui atrás. Mas eu te disse, não posso vender para um...
E se eu dobrasse o preço?
— Você nem sabe qual é o preço.
Não, eu não sei. E imagino que você não terá uma oferta melhor, uma vez que o colar não está disponível para clientes.
— É, eu disse isso eu mesmo, mas... — ele se inclinou para frente e abaixou sua voz. Céline tentou não parecer óbvio demais que ela estava se esforçando para ouvir. — O chefe não quer que a esposa saiba que ele está vendendo.  Ele disse que era só espalhar no boca-a-boca que um comprador nos encontraria.
E agora um comprador os encontrou. Imagine quão satisfeito seu chefe ficará quando você lhe contar que vendeu por mais do que o preço normal.
— Acho que ele nunca precisará saber quem comprou o colar...
Ele não saberá da minha parte.
O menino considerou por um momento, então desapareceu embaixo do balcão por um momento e reapareceu balançando um pingente de prata. Céline sufocou um engasgo. Era uma garça delicadamente forjada, brilhando sob a luz da lua, o presente perfeito para um Herondale orgulhoso de sua linhagem. Ela fechou os olhos, permitindo-se mergulhar em uma realidade alternativa, uma em que ela era permitida a dar presentes para Stephen. Imaginando prendendo o pingente em volta de seu pescoço, acariciando sua pele macia, sentindo o seu cheiro. Imaginando-o dizendo Eu amei. Quase tanto quanto eu amo você.
É lindo, não é?
Céline se encolheu com a voz do Irmão do Silêncio em sua cabeça. É claro que ele não poderia saber o que ela estava pensando. Mas mesmo assim, suas bochechas arderam de vergonha. O lobisomem havia retornado para o fundo da barraca para contar o dinheiro.
O Irmão do Silêncio havia agora fixado seu olhar cego nela.
Ele era diferente dos outros Irmãos do Silêncio que ela já vira, seu rosto jovem – até bonito. Seu cabelo preto era cheio de mechas prateadas, e seus olhos estavam selados, mas não fechados permanentemente. Runas cortavam ferozmente cada bochecha. Céline se lembrou de sua inveja pelos Irmãos do Silêncio. Eles tinham cicatrizes como ela; eles suportavam grandes dores como ela suportava. Mas suas cicatrizes lhes davam poder, sua dor não parecia nada, porque eles não tinham sentimentos. Não podia ser um Irmão do Silêncio se você fosse uma menina.
Isso nunca pareceu justo para Céline. Mulheres, contudo, poderiam se juntar às Irmãs de Ferro. Céline gostava da ideia quando era mais nova, mas agora ela não sentia nenhum desejo de viver enclausurada em uma planície vulcânica, sem nada para fazer além de fabricar armas de adamas. O próprio pensamento já a deixava claustrofóbica.
Perdoe-me por assustá-la. Mas eu notei seu interesse pelo pingente.
— É... É só que me lembrou de alguém.
Alguém com quem você se importa muito, eu sinto.
— Sim, eu acho.
E por acaso esse alguém é um Herondale?
— Sim, e ele é maravilhoso — as palavras escorregaram acidentalmente, mas havia uma alegria inesperada em dizê-las em voz alta. Ela nunca havia se permitido fazê-lo antes – não na frente de outra pessoa. Nem mesmo sozinha.
Essa era a coisa sobre os Irmãos do Silêncio. Estar com eles não era como estar com outra pessoa ou estar sozinho. Confiar em um Irmão do Silêncio era como confiar em ninguém, ela pensou, porque a quem ele ia contar?
— Stephen Herondale — ela falou, delicada mas firme. — Eu estou apaixonada por Stephen Herondale.
Havia um choque de poder em dizer as palavras, quase como se falar em voz alta tornasse tudo um pouco mais real.
O amor de um Herondale pode ser um grande presente.
— Sim, é incrível — ela respondeu, tão amarga que até mesmo o Irmão do Silêncio percebeu o seu tom.
Eu a magoei.
— Não, é que... falei que eu amo a ele. Ele mal sabe que estou viva.
Ah.
Era estúpido, esperar por simpatia de um Irmão do Silêncio. Era como esperar simpatia de uma pedra. O rosto dele continuou completamente impassível. Mas a voz que falou em sua cabeça era bondosa. Ela se deixou acreditar que até um pouco gentil.
Isso deve ser difícil.
Se Céline fosse outro tipo de garota, o tipo com amigos, ou irmãs, ou uma mãe que conversasse com ela de qualquer maneira que não o desdém frio, ela poderia ter contado a outra pessoa sobre Stephen. Ela poderia ter passado horas dissecando seu tom, o jeito como ele às vezes parecia estar flertando com ela, o jeito como a tocou no ombro com gratidão uma vez quando ela lhe emprestou um punhal. Talvez falar sobre isso tivesse apagado a dor de amá-lo, talvez ela até tivesse se convencido a parar de amá-lo. Falar de Stephen teria se tornado solo neutro, como falar sobre o clima. Ruído de fundo.
Mas Céline não tinha ninguém com quem conversar. Tudo o que tinha eram seus segredos, e quanto mais os guardava, mais eles doíam.
— Ele nunca vai me amar — ela disse. — Tudo o que eu sempre quis foi ficar perto dele, mas agora ele está bem aqui, e de algum modo é ainda pior. Eu sou... Eu só... isso dói tanto.
Às vezes eu penso que não há nada que doa tanto como amor negado. Amar alguém que você não pode ter, ficar ao lado do desejo do seu coração e ser incapaz de trazê-lo para seus braços. Um amor que não pode ser correspondido. Não consigo pensar em nada mais doloroso do que isso.
Era impossível que um Irmão do Silêncio pudese entender como ela se sentia. E mesmo assim... ele soava como se entendesse exatamente como ela se sentia.
— Queria que eu pudesse ser mais como você — ela admitiu.
Em que sentido?
— Você sabe, só, desligar meus sentimentos? Não sentir nada. Por ninguém.
Houve uma longa pausa, e ela se perguntou se o havia ofendido. Isso era mesmo possível? Finalmente, sua voz fria e firme falou novamente.
Esse é um desejo que você deveria esquecer. Sentimentos são o que nos faz humanos. Até os sentimentos mais difíceis. Talvez especialmente esses. Amor, perda, saudade... isso é o que realmente significa estar vivo.
— Mas... você é um Irmão do Silêncio. Você não deveria sentir nenhuma dessas coisas, certo?
Eu... Uma longa pausa. Eu me lembro de senti-los. Isso é às vezes o mais perto que consigo chegar.
— E você continua vivo, até onde sei.
Às vezes isso, também, é difícil de lembrar.
Se ela não soubesse melhor, pensaria que ele suspirou.
O Irmão do Silêncio que ela conhecera em sua primeira ida ao Mercado das Sombras havia sido gentil assim. Quando comprou o crepe para ela, ele não havia perguntado onde seus pais estavam ou porque ela estava vagando pela multidão sozinha, ou porque os olhos dela estavam vermelhos de choro. Ele apenas se ajoelhou e fixou seu olhar cego no dela.
O mundo é algo difícil de encarar sozinha, ele disse dentro de sua mente. Você não precisa disso.
Então ele fez o que os Irmãos do Silêncio faziam de melhor e caiu em silêncio. Ela sabia, mesmo quando criança, que ele estava esperando que ela lhe contasse do que precisava. Que se ela pedisse por ajuda, ele até mesmo poderia oferecê-la.
Ninguém poderia ajudá-la. Mesmo quando criança, ela sabia disso também. Os Montclaires eram uma respeitada e poderosa família de Caçadores de Sombras. Seus pais tinham os ouvidos do Cônsul. Se ela contasse para o Irmão quem ela era, ele apenas a levaria para casa. Se ela lhe contasse o que a esperava lá, o que seus pais realmente eram, ele provavelmente não acreditaria nela. Ele poderia até dizer a seus pais que ela estava espalhando mentiras sobre eles. E haveriam consequências.
Ela o agradeceu pelo crepe e se afastou.
Ela suportou tantos anos desde então. Depois desse verão, ela retornaria à Academia para seu último ano, e se formaria; nunca mais teria que morar na casa de seus pais novamente. Estava quase livre. Ela não precisava da ajuda de ninguém.
Mas o mundo ainda era algo difícil de encarar sozinha. E ela estava tão, tão solitária.
— Talvez a dor de amar alguém seja um fato da vida e tal, mas você realmente acha que, tipo, toda dor é? Não acha que seria melhor se você apenas pudesse fazer parar de doer?
Há algo ferindo-a?
— Eu... — Ela convocou sua coragem. Ela podia fazer isso. Ela quase acreditou nisso. Ela poderia contar a esse estranho sobre a casa fria. Sobre os pais que só pareciam a notar quando ela fazia algo errado. Sobre as consequências, quando ela o fazia. — É que...
Ela parou abruptamente enquanto o Irmão do Silêncio se virava. Seus olhos cegos pareciam rastrear um homem de casaco preto correndo em direção a ele. O homem parou quando viu o Irmão do Silêncio. Seu rosto imediatamente drenou de toda a cor. Então ele girou nos calcanhares e afastou-se correndo. A maioria dos Seres do Submundo assustava-se facilmente com os Caçadores de Sombras hoje em dia – notícias das façanhas do Ciclo se espalharam. Mas esse caso parecia quase pessoal.
— Você conhece esse cara?
Me desculpe, mas preciso cuidar disso.
Irmãos do Silêncio careciam de emoção, e, até onde Céline sabia, eles não a sentiam. Mas se ela não soubesse melhor, diria que esse Irmão do Silêncio estava sentindo algo muito profundo. Medo, talvez, ou entusiasmo – ou aquela combinação estranha dos dois que vinha antes de uma luta.
— Certo, eu só...
Mas o Irmão do Silêncio já tinha ido embora. Ela estava sozinha de novo. E graças ao Anjo por isso, ela pensou. Tinha sido descuidada, mesmo brincando com a ideia de trazer suas verdades escuras para a luz. Quão tola, quão fraca, querendo ser ouvida. Querendo ser vista verdadeiramente por qualquer pessoa, ainda mais um homem com os olhos fechados. Seus pais sempre diziam que ela era estúpida e fraca. Talvez eles estivessem certos.


Irmão Zachariah se moveu por entre o Mercado das Sombras, com cuidado para manter certa distância entre ele e seu alvo. Era um jogo estranho, o que eles estavam brincando. O homem, que se chamava Jack Crow, certamente sabia que Zachariah o seguia. E Irmão Zachariah teria apertado o passo e ultrapassado o homem a qualquer ponto. Mas, por alguma razão, Crow não queria parar, e Irmão Zachariah não queria que ele o fizesse. Então Crow cruzou a arena e entrou no denso labirinto de ruas logo atrás de seus portões.
Irmão Zachariah o seguiu.
Ele sentia muito por deixar a menina sozinha tão abruptamente. Ele havia sentido certa afinidade com ela. Ambos haviam dado um pedaço de seus corações a um Herondale. E ambos amavam alguém que não poderiam ter.
É claro, o amor de Irmão Zachariah era uma imitação barata do amor humano de verdade. Ele amava através de uma tela borrada, e a cada ano que se passava era mais difícil lembrar-se do que ele deixou para trás. Lembrar como era a saudade de Tessa da forma como um humano vivo e respirante ansiava. Lembrar como era precisar dela. Zachariah não precisava de mais nada verdadeiramente. Nem de comida, sono, nem mesmo, por mais que ele quisesse, Tessa. Seu amor persistia, mas estava desbotado. O amor da garota tinha uma borda afiada, e conversar com ela o ajudou a lembrar.
Ela havia pedido sua ajuda também, pelo o que ele poderia dizer. Sua parte mais humana estava tentada a ficar ao lado dela. Ela havia parecido tão frágil – e tão determinada ao mesmo tempo. Isso tocava seu coração. Mas o coração de Irmão Zachariah estava envolto em pedra.
Ele tentava dizer o contrário a si mesmo. Afinal, o próprio fato da presença dele ali era uma evidência de seu coração ainda humano. Ele estava caçando há décadas – por causa de Will, por causa de Tessa, porque uma parte dele inda era Jem, o menino Caçador de Sombras que amava ambos.
Ainda ama ambos, Irmão Zachariah lembrou a si mesmo. Presente.
O pingente de garça confirmara suas suspeitas. Esse era definitivamente o homem que ele estava procurando. Zachariah não poderia deixá-lo escapar.
Crow entrou em um beco estreito. Irmão Zachariah o seguiu, tenso e alerta. Ele sentiu que sua perseguição em câmera lenta estava próximo de seu fim. E de fato, o beco era um beco sem saída. Crow se virou para encarar Zachariah, uma faca em sua mão. Ele ainda era jovem, ainda em seus vinte anos, com um rosto orgulhoso e cabelos loiros.
Irmão Zachariah tinha uma arma e era relativamente bom em usá-la. Mas ele não fez nenhum movimento para pegar seu bastão. Esse homem poderia nunca ser uma ameaça para ele.
— Tudo bem, Caçador de Sombras, você me queria, agora me tem — Crow disse, pés firmes e faca pronta, claramente esperando um ataque.
Irmão Zachariah estudou seu rosto, procurando por algo familiar. Mas não havia nada. Nada além da pretensão de coragem impetuosa. Com seus olhos cegos, Zachariah conseguia ver através das fachadas. Ele conseguia ver medo.
Houve um farfalhar atrás dele. Então a voz de uma mulher.
 — Você sabe o que dizem, Caçador de Sombras. Cuidado com o que deseja.
Irmão Zachariah se virou, devagar. E ficou surpreso. Uma mulher jovem – pouco mais nova que Crow – estava parada na entrada do beco. Ela era quase etereamente bonita, com cabelos loiros brilhantes e o tipo de lábios rosados e olhos cobalto que inspiravam milênios de poesia ruim. Ela sorria docemente. Estava mirando uma besta diretamente no coração de Zachariah. Ele sentiu uma pontada de medo. Não por causa da faca ou da besta; ele não tinha nada a temer desses dois. Ele preferiria não lutar, mas se realmente necessário, poderia desarmar ambos sem maiores danos. Eles não estavam equipados para se proteger.
Era esse o problema.
O medo resultou da percepção de que ele havia alcançado seu objetivo. Sua procura era a única coisa que ainda o conectava com Tessa, com Will, consigo mesmo.
E se hoje ele perdesse seu único laço remanescente com Jem Carstairs? E se este, hoje, fosse seu último ato realmente humano?
— Vamos, Caçador de Sombras – a mulher disse — desembuche. Se você tiver muita sorte, talvez nós o deixemos viver.
Eu não quero lutar com vocês. Pela reação deles, ele poderia dizer que não esperavam por uma voz em suas cabeças. Esses dois sabiam o suficiente para reconhecer um Caçador de Sombras – mas aparentemente, não sabiam tanto quanto pensavam. Eu estava procurando por você, Jack Crow.
— É, foi o que ouvi. Alguém deveria tê-lo avisado, pessoas que vêm me procurar tendem a se arrepender.
Eu não tenho intenções de machucá-lo. Só quero mandar uma mensagem. É sobre quem você é e de onde veio. Você pode achar isso difícil de acreditar, mas...
— Sim, sim, eu também sou um Caçador de Sombras — Crow deu de ombros — agora me diga uma coisa que eu não sei.


— Você está aqui para comprar, ou para roubar?
Céline derrubou a garrafa da poção. Ela estilhaçou no chão, soltando uma lufada de fumaça azul nociva.
Depois que o Irmão do Silêncio a descartara pelo cara gatinho de casaco, o menino lobisomem fechou a barraca. Ele encarou Céline até que ela aceitou o fato de que era hora de seguir em frente. Então ela perambulou até a barraca de Dominique du Froid, tentando parecer inofensiva. O que funcionou, até que a própria feiticeira apareceu do nada.
— Ou apenas para causar estragos? — Dominique perguntou em francês.
Céline xingou em voz baixa. Ela tinha um trabalho, um trabalho humilhantemente fácil, e mesmo assim ela conseguiu falhar. Stephen não estava em lugar nenhum que ela pudesse ver, e Robert ainda investigava na barraca da feiticeira.
— Eu estava esperando você voltar — Céline disse, alto e em inglês, de modo que Robert pudesse ouvir. — Graças ao Anjo que você finalmente o fez. Estou derretendo nesse calor ela disse essa parte ainda mais alto. Era um sinal pré-arranjado, só por precaução. Tradução: vá embora, agora. Com sorte ela poderia manter a feiticeira distraída por tempo suficiente para que ele pudesse escapar sem ser visto.
Onde estava Stephen?
Bien sûr — a feiticeira tinha um sotaque terrível, francês da maneira do Sul da Califórnia. Céline se perguntou se feiticeiros podiam surfar. — E o que você procurando, mademoiselle?
— Uma poção do amor. — Foi a primeira coisa que veio à sua cabeça. Talvez porque ela havia acabado de localizar Stephen, que corria em direção a elas – enquanto tentava com esforço parecer que não corria. Céline se perguntou como Dominique tinha conseguido escapar dele em primeiro lugar, e se tinha feito isso de propósito.
— Uma poção do amor, é? — a feiticeira seguiu o olhar de Céline e fez um som de aprovação. — Nada mal, apesar de um pouco musculoso para o meu gosto. Quanto melhor o corpo, pior a mente, eu sempre digo. Mas se você prefere burro e bonito... Chacun à son goût, não é?
— Um, oui, burro e bonito, claro. Então... — o que Robert estava fazendo lá trás, pra demorar tanto? Céline esperava que ele conseguisse escapar sem que ela a visse, mas ela não podia correr o risco. — Você pode me ajudar?
— Amor está um pouco além do meu preço, chérie. Qualquer um por aqui que diga diferente de mim está mentindo. Mas eu posso te oferecer...
Ela ficou em silêncio quando Stephen chegou, parecendo levemente atormentado.
— Tudo bem por aqui?
Ele lançou a Céline um olhar preocupado. Seu coração acelerou; ele estava preocupado com ela. Céline fez que sim.
— Totalmente bem. Estávamos só...
— Sua amiga aqui queria que eu lhe vendesse uma poção que a faria se apaixonar por você — a feiticeira disse. Céline achou que poderia cair morta no lugar. — Eu estava prestes a dizer a ela que poderia oferecer-lhe a segunda melhor coisa.
Ela tirou do bolso o que parecia uma lata de spray de cabelo e espirrou uma lufada do produto na cara de Stephen. Sua expressão ficou abobada.
— O que você fez? — Céline se desesperou. — E por que disse isso?
— Oh, relaxe. Confie em mim, nesse estado, ele não vai ligar para nada que alguém disser. Veja.
Stephen encarava Céline como se nunca a tivesse visto antes. Ele esticou a mão e tocou a bochecha dela, gentilmente, sua expressão pensativa. Ele olhava para ela como se estivesse pensando, Você poderia ser real?
— Acontece que sua amiga loira aqui tem um caso grave de varíola demoníaca. — Dominique disse para Stephen.
Céline decidiu que ela não iria, de fato, cair morta; ela iria assassinar a feiticeira.
— Varíola demoníaca é tão sexy — Stephen falou — Terá verrugas? — Ele olhou para Céline. — Você ficaria linda com verrugas.
— Viu? — a feiticeira disse. — Eu o consertei para você.
— O que você fez?
— Não é obvio? Eu fiz o que você me pediu. Bom, é uma imitação barata do que você me pediu, mas que outros fins tem o Mercado das Sombras?
Céline não sabia o que dizer. Ela estava furiosa por causa de Stephen.
Por si mesma, ela estava... algo mais.
Algo que ela não deveria ser.
— Alguém já te disse que você fica linda quando está confusa? — Stephen se emocionou. Ele deu a ela um sorriso sombrio. — Claro, você também é linda quando está com raiva, quando está triste, quando está feliz e quando está rindo e quando você está...
— O quê?
— Quando está me beijando — ele disse. — Mas isso é só uma teoria. Quer testá-la?
— Stephen, eu não sei se você realmente sabe...
Então ele a estava beijando.
Stephen Herondale a estava beijando.
Os lábios de Stephen Herondale estavam nos dela, suas mãos em seu quadril, acariciando suas costas, suas bochechas. Os dedos de Stephen Herondale passavam pelo cabelo dela.
Stephen Herondale a segurava com força, mais forte, como se quisesse mais dela do que ele poderia ter, como se quisesse tudo dela.
Ela tentou se manter a distância. Isso não era real, ela se lembrou.
Não era ele. Mas parecia real. Parecia que Stephen Herondale, em seus braços, a queria, e sua resistência cedeu.
Por um momento eterno, ela estava perdida na felicidade.
— Aproveite enquanto pode. Vai passar em uma hora, mais ou menos.
A voz de Dominique du Froid a trouxe de volta à realidade – a realidade em que Stephen era casado com outra pessoa. Céline se forçou a se afastar. Ele soltou um pequeno gemido e parecia que ia chorar.
— O primeiro teste é de graça. Se quiser permanente, tem que pagar. — A feiticeira falou. — Mas suponho que eu poderia dar a você o desconto de Caçadores de Sombras.
Céline congelou.
— Como você sabia que eu era uma Caçadora de Sombras?
— Com sua graça e beleza, o que mais poderia ser? — Stephen perguntou.
Céline o ignorou. Algo estava muito errado ali. Suas runas estavam totalmente cobertas; suas roupas eram convincentemente mundanas; suas armas estavam escondidas. Não havia nada para mostrar sua verdadeira identidade.
— Ou talvez você gostaria de comprar duas doses — a feiticeira continuou. — Uma para esse babaca aqui, e outra para o babaca atrás da cortina. Não tão bonito, é claro, mas aquela tensão pode ser muito divertida quando libertada...
A mão de Céline se moveu em direção à adaga escondida.
— Você parece surpresa, Céline — disse a feiticeira. — Acha honestamente que eu não reconheceria vocês, três patetas me observando? Achou que apenas deixaria minha barraca sem um sistema de segurança? Acho que seu namorado não é a única coisa burra e bonita por aqui.
— Como você sabe meu nome?
A feiticeira jogou a cabeça para trás e riu. Seus molares brilhavam com ouro.
— Todo Ser do Submundo em Paris conhece a pobre Céline Montclaire, vagando pela cidade como uma pequena Éponine assassina. Todos sentimos um pouco de pena de você.
Céline vivia com uma raiva constante e secreta, mas agora ela a sentia fervendo.
— Quero dizer, eu não posso me dar ao luxo de ter Caçadores de Sombras bisbilhotando meus negócios, então ainda terei que cuidar de você, mas sentirei muito por você enquanto morre.
Céline puxou sua adaga na mesma hora que um bando de demônios Halphas explodiu da barraca. As bestas aladas voaram em direção a ela e Stephen, garras afiadas como navalhas estendidas, bicos abertos para soltar um guincho sobrenatural.
— Pombos demônios! — Stephen gritou em desgosto, sua espada longa na mão. A lâmina brilhou prateada na luz das estrelas enquanto ele cortava asas grossas e escamosas.
Céline dançou e se esquivou de dois pássaros-demônios, afastando-os com o punhal enquanto puxava duas lâminas de serafim com a mão livre.
Zuphlas — ela sussurrou. — Jophiel.
Quando as lâminas começaram a brilhar, ela arremessou-as em direções opostas. Cada uma voou longe, direto para a garganta de um demônio. Ambos os demônios Halphas explodiram em uma nuvem de penas e icor sangrentas. Céline já estava em movimento, pulando pela cortina da feiticeira.
— Robert! — ela gritou.
Ele estava trancado dentro do que parecia uma gigantesca gaiola antiga, o chão coberto de penas de Halphas – assim como ele. Ele parecia ileso. E muito infeliz.
Céline quebrou a fechadura o mais rápido que pôde, e os dois se juntaram a Stephen, que havia conseguido despachar vários dos demônios, embora um punhado deles voasse longe do chão em segurança, girando e mergulhando do céu noturno. Dominique havia aberto um Portal e estava prestes a saltar por ele.
Robert agarrou-a pela garganta e depois bateu com a ponta da espada em sua cabeça com um baque retumbante. Ela caiu no chão.
— Dane-se a discrição — disse ele.
— Céline, você está ferida! — Stephen falou, parecendo horrorizado.
Céline percebeu que um bico demoníaco tinha arrancado uma lasca de sua panturrilha. O sangue atravessava seus jeans. Ela mal sentiu, mas conforme a adrenalina da batalha desaparecia, uma dor aguda e penetrante tomava o seu lugar.
Stephen já tinha sua estela na mão, ansioso para aplicar uma iratze.
— Você é ainda mais bonita quando está sangrando — disse ele.
Céline balançou a cabeça e recuou.
— Eu posso fazer isso sozinha.
— Mas seria uma honra curar sua pele perfeita — protestou Stephen.
— Ele foi atingido na cabeça? — Robert perguntou.
Céline estava muito envergonhada para explicar. Felizmente, o grasnar dos Halphas ecoou à distância, seguido pelo grito de uma mulher.
— Vocês dois ficam de olho da feiticeira — ela disse. — Eu vou lidar com o resto dos demônios antes que eles comam alguém. — Ela partiu antes que Robert pudesse fazer mais perguntas.
— Eu vou sentir sua falta! — Stephen gritou atrás dela. — Você é tão fofa quando está sedenta de sangue!


Quase dois mil anos antes, o Caçador de Sombras Tobias Herondale havia sido acusado de covardia. Um crime punível com a morte. A Lei, nesses dias, não era apenas dura, era sem piedade. Tobias ficou louco e fugiu antes que pudesse ser executado, então, em sua ausência, a Clave jogou sua punição sobre sua mulher, Eva. Morte para ela. Morte para a criança Herondale que ela carregava.
Essa, pelo menos, era a história.
Muitas décadas atrás, Zachariah havia aprendido a verdade por trás desse conto. Ele havia conhecido a feiticeira que salvara a criança de Eva – e então, depois da morte da mãe, criou a criança como se fosse dela.
Aquela criança deu origem a uma criança, que deu origem a uma criança, e assim por diante: uma linhagem secreta de Herondales, perdidos para o mundo de Caçadores de Sombras. Até agora.
O membro sobrevivente dessa linhagem estava em grave perigo. Por muito tempo, isso era tudo que Zachariah sabia. Por Tessa, por Will, ele havia se dedicado a saber mais. Seguira migalhas de pão, correra diretamente para becos sem saída, quase morreu nas mãos de uma fada que queria que o Herondale perdido permanecesse assim. Ou pior, Zachariah temia.
O descendente perdido de Tobias Herondale havia se apaixonado por uma fada.
O filho deles e todos os filhos de seus filhos eram parte Caçador de Sombras, parte fada.
O que significava que Zachariah não era o único a procurar. Ele suspeitava fortemente, no entanto, que ele era o único buscador que não era uma ameaça. Se um emissário fada estava disposto a atacar não apenas um Caçador de Sombras, mas um Irmão do Silêncio – disposto a quebrar os Acordos da maneira mais notória – simplesmente para impedir sua busca, então certamente a busca era imperativa. Certamente o perigo era mortal.
Décadas de investigações silenciosas levaram até o Mercado das Sombras de Paris. Rumores de um homem ter em sua posse um pingente em forma de garça preciosa, uma herança Herondale. O homem chamado Crow, que assumiu ser um mundano com a Visão, conhecido como experiente mas não confiável, um homem muito satisfeito com a vida nas sombras.
Zachariah descobrira sobre o pingente primeiro – uma feiticeira parisiense tinha ouvido falar da sua pesquisa e contatou-o com confirmação. Ela disse a ele que suas suspeitas estavam corretas: o dono do pingente, como quer que ele quisesse se chamar, era um Herondale.
O que, aparentemente, era uma notícia antiga para todos, exceto para o próprio Zachariah.
Você sabe sobre sua herança esse tempo todo? E ainda assim nunca se revelou?
— Querida, acho que você pode abaixar a besta — Crow disse à mulher. — O monge psíquico não parece estar nos atacando.
Ela abaixou a arma, embora não parecesse muito feliz com isso.
Obrigado.
— E talvez você devesse nos deixar em paz para conversarmos — acrescentou Crow.
— Eu não acho que seja uma boa ideia.
— Rosemary, confie em mim. Está tudo sob controle.
A mulher, que devia ser sua esposa, suspirou. Era o som de alguém que conhecia a teimosia e há muito tempo desistiu de tentar lutar contra isso.
— Tudo bem. Mas você... — Ela cutucou o irmão Zachariah com a besta, forte o suficiente para que ele pudesse sentir através de suas vestes grossas. — Algo acontece com ele e eu vou caçá-lo e fazer você pagar.
Eu não tenho intenção de deixar nada acontecer com qualquer um de vocês. Foi por isso que eu vim.
— Sim, tanto faz. — Ela tomou Crow em seus braços. Os dois se abraçaram por um longo momento. Zachariah ouvira muitas vezes a expressão “segurando a vida”, mas raramente tinha visto isso decretado. O casal se abraçava como se fosse a única maneira de sobreviver.
Ele se lembrava de amar alguém assim. Ele se lembrou da impossibilidade de dizer adeus. A mulher sussurrou algo para Crow, depois colocou a besta nas costas e desapareceu na noite de Paris.
— Somos recém-casados, e ela é um pouco superprotetora. — Crow comentou. — Você sabe como é.
Temo que não.
Crow o olhou de cima a baixo, e Irmão Zachariah se perguntou o que o homem viu. O que quer que tenha sido, ele não pareceu impressionado.
— É, acho que não saberia.
Eu venho procurando-o faz um bom tempo, mais tempo que você imagina.
— Olha, sinto muito por desperdiçar o seu tempo, mas eu não quero nada com o seu tipo.
Acho que você não sabe o perigo que está correndo. E eu não sou o único procurando por você...
— Mas você é o único que pode me proteger, né? “Venha comigo se quiser viver” e tal? É, eu já vi esse filme. Não estou interessado em vivê-lo.
Ele estava bem convencido de si mesmo, Irmão Zachariah pensou, e sentiu a estranha vontade de sorrir. Talvez houvesse um traço do familiar ali, afinal.
— Um homem como eu, ele faz o seu quinhão de inimigos. Eu cuidei de mim por toda a vida, e não vejo nenhum motivo para...
O que ele disse em seguida foi abafado por um guincho profano. Um pássaro-demônio gigante atacou, fechou o bico afiado no casaco de Crow e levantou-o no ar.
Irmão Zachariah agarrou uma das lâminas serafim que trouxera apenas por precaução. Mebahiah, ele a nomeou, e atirou-a contra o demônio que parecia um pássaro. A lâmina entrou no esterno coberto de penas, e o demônio explodiu no ar. Crow caiu a vários metros no chão, aterrissando em uma pilha barulhenta de penas e icor.
Zacarias correu para ajudar o homem a ficar de pé, mas sua ajuda foi rejeitada.
Crow examinou o grande buraco irregular em seu casaco com desgosto.
— Isso era novinho em folha!
É realmente um casaco muito bom. Ou... era.
Zacarias se absteve de apontar a boa sorte que o demônio Halphas não houvesse aberto um buraco em algo mais valioso. Como sua caixa torácica.
— Então é desse perigo que você veio me alertar? Salvar meu casaco novo de uma gaivota demoníaca?
Pareceu-me mais como um pombo demoníaco.
Crow se afastou. Ele lançou vários olhares desconfiados para o céu, como se esperando outro ataque.
— Olha, senhor...
Irmão. Irmão Zachariah.
— Certo, é, mano, posso ver que um cara como você poderia ser útil em uma briga. E se você está determinado a me proteger de um perigo grande e assustador, suponho que eu não vá te contrariar.
Irmão Zachariah ficou surpreso com a súbita mudança de ideia. Possivelmente quase ser bicado até a morte por um pombo demoníaco às vezes tivesse esse efeito sobre as pessoas.
Eu gostaria de levá-lo a algum lugar seguro.
— Certo. Bem. Me dê algumas horas para amarrar algumas pontas soltas, e Rosemary e eu o encontraremos na Pont des Arts ao amanhecer. Nós faremos o que você quiser. Prometo.
Eu posso acompanhá-lo enquanto você amarra essas pontas.
— Ouça, irmão, os tipos de pontas de que estou falando, eles não aceitam gentilmente Caçadores de Sombras bisbilhotando em seus negócios. Se você entende a minha deixa.
A sua deixa parece levemente criminosa.
— Você quer fazer uma prisão de cidadãos?
Estou preocupado apenas com a sua segurança.
— Eu fiz isso por vinte e dois anos sem a sua ajuda. Acho que posso fazer por mais seis horas, não é?
O irmão Zachariah investiu décadas nessa busca. Parecia descontroladamente insensato deixar esse homem escapar com apenas uma promessa de que ele voltaria.
Especialmente considerando o que descobriu sobre a reputação do homem. Não inspirava exatamente confiança em sua palavra.
— Olha, eu sei o que você está pensando, e sei que não posso impedi-lo de me seguir. Então, apenas pergunto: Você quer que eu confie em você? Então tente confiar em mim. E eu estou jurando, em nome do que você quiser, que o seu precioso Caçador de Sombras perdido estará na ponte esperando-o ao amanhecer.
Contra o seu juízo, o irmão Zachariah assentiu.
Vá.


Céline não gostava de tortura. Não que fosse assim que eles chamariam o que quer que tenham feito à feiticeira para fazê-la falar. Valentim ensinara ao Ciclo a ter cuidado com suas palavras. Robert e Stephen iriam “interrogar” Dominique du Froid usando todos os métodos que considerassem necessários. Quando eles obtivessem as respostas de que precisavam – nomes de seus contatos de Caçadores de Sombras, detalhes de crimes cometidos – eles iriam entregá-la, assim como um inventário de seus pecados, a Valentim.
A feiticeira estava presa a uma cadeira dobrável no apartamento barato que estavam usando como uma base. Ela estava inconsciente, sangue escorrendo da ferida superficial na testa.
Foi assim que Robert e Stephen se referiram a ela, não pelo nome, mas como a feiticeira, como se ela fosse algo além de uma pessoa.
Valentim queria que eles conduzissem essa investigação sem alertar a feiticeira de sua presença. Era apenas meia-noite do primeiro dia em Paris e eles já estragaram tudo.
— Se nós levarmos algumas respostas, ele não pode ficar muito louco — disse Stephen. Soava mais como desejo que como previsão.
Stephen parara de comentar sobre a beleza unânime das pernas de Céline e das qualidades de sua pele de porcelana. Ele alegou não lembrar-se dos efeitos da poção da feiticeira, mas seu olhar se desviava para Céline toda vez que pensava que ela não estava olhando. Ela não pôde deixar de pensar.
E se ele se lembrava?
E se, depois de finalmente tocá-la, abraçá-la, beijá-la, ele descobriu um novo desejo em si mesmo?
Ele ainda era casado com Amatis, claro; mesmo que desejasse Céline – talvez até mesmo amasse Céline, um pouco – não havia nada a ser feito sobre isso.
Mas e se?
— Tem mais alguém com fome? — Céline perguntou.
— E eu alguma hora não estou com fome? — Stephen rebateu. Ele deu um tapa amargamente na feiticeira. Ela se mexeu, mas não acordou.
Céline recuou em direção à porta.
— Por que eu não encontro algo para comer, enquanto vocês... cuidam disso?
Robert puxou o cabelo da feiticeira para trás com força. Ela gritou e seus olhos abriram.
— Não deve demorar muito.
— Ótimo. — Céline esperava que eles não pudessem dizer como ela estava desesperada para sair do apartamento. Ela não tinha estômago para esse tipo de coisa, mas não poderia deixar que relatassem o fato para Valentim. Ela trabalhou muito para ganhar seu respeito.
— Ei, você está mancando — notou Stephen. — Precisa de outra iratze?
Ele estava preocupado com ela. Ela disse a si mesma para não pensar nisso.
— Não está mais doendo — ela mentiu. — Estou bem.
Ela aplicara a runa de cura sem entusiasmo e não fechou completamente a ferida. Ela preferia, às vezes, sentir a dor.
Quando era criança, seus pais frequentemente recusavam suas iratzes após as sessões de treinamento, especialmente quando seus ferimentos foram causados ​​por seus próprios erros.
Permita que a dor a lembre de fazer melhor da próxima vez, eles diziam a ela. Todos esses anos depois, e ela ainda cometia tantos erros.
Céline estava no meio da escada precária quando percebeu que tinha esquecido sua carteira. Ela andou dolorosamente de volta, então hesitou na porta do apartamento, e parou ao som de seu nome.
— Eu e a Céline? — Ela ouviu Stephen dizer.
Sentindo-se um pouco ridícula, Céline retirou sua estela e desenhou uma runa cuidadosamente na porta. As vozes amplificadas soaram altas e claras.
Stephen riu.
— Só pode estar brincando comigo.
— Parecia um beijo muito bom...
— Eu estava sob influência!
— Mesmo assim. Ela é bonita, você não acha?
Houve uma pausa excruciante.
— Eu não sei, nunca pensei sobre isto.
— Percebe que o casamento não significa que você nunca está autorizado a olhar para outra mulher, certo?
— Não é isso — disse Stephen. — É que...
— O jeito como ela te segue como um cachorrinho babando?
— Isso não ajuda — disse Stephen. — Ela é apenas uma criança. Tipo, não importa quantos anos ela tenha, ela sempre precisará de alguém dizendo a ela o que fazer.
— Mas Valentim parece convencido de que há algo mais para ela — Robert apontou.
— Ninguém está certo o tempo todo — Stephen devolveu, e agora ambos estavam rindo. — Nem mesmo ele.
— Não deixe que ele ouça você dizer isso!
Céline não percebeu que estava em movimento até sentir a chuva no rosto. Ela desmoronou contra a pedra fria da fachada do edifício, desejando que pudesse derreter depois disso. Se transformar em pedra; fechar seus nervos, seus sentidos, seu coração; não sentir nada... se apenas fosse possível.
A risada deles ecoou em seus ouvidos.
Ela era uma piada.
Ela era patética.
Ela era alguém em quem Stephen nunca havia pensado, nunca se importou, nunca havia procurado. Nunca desejaria, sob quaisquer circunstâncias.
Ela era uma criatura patética. Uma criança. Um erro.
As calçadas estavam vazias. As ruas brilhavam com a chuva. O holofote no topo da Torre Eiffel tinha sido desligado, junto com o resto da cidade.
Céline se sentiu totalmente sozinha. Sua perna latejava. Suas lágrimas não paravam. O coração dela gritou. Ela não tinha para onde ir, mas não podia voltar para o andar de cima. Para o quarto, para aquele riso. Ela saiu cegamente para a noite de Paris.


Céline se sentia em casa nas ruas escuras e adormecidas. Ela vagou por horas.
Através do Marais e passando pelo imenso Pompidou, cruzando da margem direita para a esquerda e direita novamente. Ela visitou as gárgulas de Notre Dame, aqueles medonhos demônios de pedra agarrados a torres góticas, aguardando a chance de devorar os fiéis. Parecia injusto que a cidade fosse tão cheia de criaturas de pedra que não podiam sentir nada, e aqui estava ela, sentindo insuportavelmente tanto.
Ela estava nas Tuileries – mais fantasmas sangrentos, mais criaturas esculpidas em pedra – quando viu o rastro de icor. Ela ainda era uma Caçadora de Sombras, e era uma Caçadora de Sombras em necessidade desesperada de distração, então ela o seguiu. Ela alcançou o demônio Shax no bairro da Ópera, mas permaneceu nas sombras, querendo ver o que ele estava tramando. Os demônios Shax eram rastreadores, usados ​​para caçar pessoas que não queriam ser encontradas. E esse demônio estava definitivamente rastreando alguma coisa.
Céline o rastreou, por sua vez.
Ela o seguiu pelos pátios adormecidos do Louvre. Icor escorria de uma ferida, mas ele não estava se movendo como uma criatura se esgueirando para cuidar dos ferimentos. Suas pinças gigantescas deslizaram nos paralelepípedos enquanto ele hesitava nos cantos, decidindo que caminho seguir. Este era um predador, rastreando sua presa.
O demônio fez uma pausa no arco do Louvre, no sopé da Pont des Arts. A pequena ponte de pedestres se estendia através do Sena, com seus corrimãos lotados com cadeados de amantes. Dizia-se que se um casal prendesse um cadeado na Pont des Arts, seu amor duraria para sempre. A ponte estava quase deserta a essa hora com exceção de um jovem casal, unido em um abraço. Completamente alheios ao demônio Shax saindo das sombras, pinças se fechando em ansiosa antecipação.
Céline sempre carregava uma lâmina de misericórdia. Sua ponta estreita era exatamente o que ela precisava para penetrar na carapaça do demônio insetoide.
Ou assim ela esperava.
Gadreel — sussurrou Céline, nomeando uma lâmina serafim.
Ela rastejou por trás do demônio Shax, tão firme e silenciosa como ele. Ela também podia ser uma predadora. Em um movimento suave e seguro, ela enfiou a misericórdia através da carapaça, então deslizou a lâmina serafim na ferida que abriu.
O demônio se dissolveu.
Tudo aconteceu tão rápido, tão silenciosamente, que o casal na ponte nem mesmo se separou de seu abraço. Eles estavam muito interessados ​​um no outro para perceber quão perto chegaram de ser um lanche de fim de noite de demônio. Céline se demorou tentando imaginar: de pé na ponte com alguém que a amava, um homem olhando tão intensamente em seus olhos que não teria notado o fim do mundo.
Mas a imaginação de Céline desistiu. A realidade a prendia. Enquanto ela achava que Stephen não a tinha notado, ela poderia fantasiar sobre o que poderia acontecer se ele alguma vez o fizesse.
Agora ela sabia. Ela não podia não saber.
Céline limpou e embainhou sua lâmina, depois se aproximou do casal, perto o suficiente para ouvir o que eles diziam. Ela estava encantada, afinal, então não havia perigo em fazer uma pequena espionagem. O que um homem dizia para a mulher que amava quando achava que ninguém mais podia ouvir? Ela poderia nunca descobrir se esperasse que alguém as dissesse para ela.
— Eu odeio dizer que te avisei — a mulher disse — mas...
— Quem saberia que ele estaria tão disposto a confiar em uma feiticeira?
— Quem saberia que alguém acreditaria que você era o descendente perdido há muito de alguma linhagem nobre Caçadora de Sombras? — ela devolveu, então riu. — Oh espere, eu sabia. Admita, no fundo você sabia que iria funcionar. Você simplesmente não queria que funcionasse.
— Claro que eu não queria. — Ele tocou a bochecha dela, impossivelmente gentil. — Eu odeio isso. Eu odeio deixá-la aqui.
— Não é por muito tempo. E é o melhor, Jack, prometo.
— Você vai me encontrar em Los Angeles assim que for resolvido? Você jura?
— No Mercado das Sombras. No nosso antigo lugar. Eu juro. Assim que eu puder ter certeza de que a trilha ficou fria.
Ela o beijou longa e fortemente. Quando apertou a mão em sua bochecha, Céline viu o brilho de uma aliança de casamento.
— Rosemary...
— Eu não quero você em nenhum lugar perto dessas pessoas. Não é seguro.
— Mas é seguro para você?
— Você sabe que estou certa — disse ela.
O homem baixou a cabeça e enfiou as mãos nos bolsos do casaco. Parecia caro, exceto pelo enorme buraco aberto no lado esquerdo.
— Sim.
— Está pronto?
Ele assentiu e ela puxou uma pequena garrafa da bolsa.
— É melhor isso funcionar como deveria.
Ela entregou ao marido, que a destampou, engoliu seu conteúdo, e jogou o resto no rio.
Um momento depois, ele apertou as mãos no rosto e começou a gritar.
Céline entrou em pânico. Não era o lugar dela interferir, mas ela não podia ficar de pé aqui e observar enquanto esta mulher assassinava...
— Jack, Jack, tudo bem, você está bem.
Ela se abraçou a ele enquanto o homem gemeu e estremeceu, e, finalmente, caiu em silêncio nos braços dela.
— Acho que funcionou — disse ele.
Quando se afastaram um do outro, Céline ofegou. Mesmo na luz baça da rua, ela podia ver que o rosto dele havia se transformado. Ele tinha sido um loiro de brilhantes olhos verdes e feições afiadas e esculpidas, por volta da idade de Stephen, e quase tão bonito quanto. Agora parecia dez anos mais velho, seu rosto esculpido com linhas de preocupação, o cabelo cor de lama, seu sorriso torto.
— Medonho — a mulher chamada Rosemary disse com aprovação. Então ela o beijou novamente, tão desesperadamente quanto antes, como se nada tivesse mudado. — Agora vá.
— Tem certeza?
— Tanta certeza quanto estou certa de que eu amo você.
O homem escapou para a noite, seu casaco se confundindo na escuridão.
— E livre-se do casaco! — Rosemary falou atrás dele. — É óbvio demais!
— Nunca! — Ele gritou de volta, e então se foi.
Rosemary caiu contra a ponte e enterrou o rosto nas mãos. Então ela não viu a gárgula atrás dela piscar os olhos e girar seu focinho de pedra em sua direção.
Céline de repente se lembrou: a Pont des Arts não possuía gárgulas. Este era um demônio Achaieral de carne e sangue, e parecia faminto.
Com um rugido furioso, a sombra monstruosa se desprendeu da ponte e desdobrou um par enorme de asas de morcego que apagaram a noite. Ele abriu sua mandíbula e arreganhou os dentes que pareciam lâminas, depois se lançou diretamente para a garganta de Rosemary. Com velocidade chocante, Rosemary levantou uma espada e cortou. O demônio gritou de dor, agarrando a lâmina de metal com suas garras com força suficiente para tirá-la das mãos da mulher. Rosemary tropeçou no chão, e o demônio se aproveitou do momento. Ele saltou para o peito dela, imobilizando-a sob suas enormes asas, e sibilou. Dentes se aproximaram da carne.
Sariel — Céline sussurrou, e apunhalou sua lâmina de serafim através do pescoço do demônio. Ele uivou de dor e se virou para ela, suas entranhas irrompendo de seu couro mesmo enquanto tentava, nos seus últimos momentos restantes, atacar.
Rosemary levantou a espada e cortou a cabeça da criatura, segundos antes de a cabeça e tronco explodirem em uma nuvem de poeira. Satisfeita, ela caiu para trás, a ferida em seu ombro sangrando livremente.
Céline poderia dizer o quanto doía – e quão determinada a mulher estava para não revelar a dor. Ela se ajoelhou ao lado dela. Rosemary se afastou.
— Deixe-me ver, eu posso ajudar.
— Eu nunca pediria ajuda de um Caçador das Sombras — a mulher falou amargamente.
— Você não pediu, exatamente. E de nada.
A mulher suspirou e depois examinou sua ferida ensanguentada. Ela tocou cautelosamente, estremeceu.
— Já que está aqui, quer me dar uma iratze?
Era óbvio que a mulher não era mundana. Mesmo um mundano com a Visão não poderia ter lutado da maneira que ela o fez. Mas isso não significava que ela poderia suportar a iratze. Ninguém além de um Caçador das Sombras poderia.
— Olha, eu realmente não tenho tempo para explicar, e eu não posso exatamente ir para o hospital e dizer que fui mordida por um demônio, posso?
— Se você sabe sobre iratzes, sabe que apenas um Caçador de Sombras pode suportar uma runa — disse Céline.
— Eu sei. — Rosemary encontrou seu olhar com firmeza.
Ela não carregava a runa da Visão. Mas o jeito como se movia, o jeito como tinha lutado...
— Você já usou uma runa antes? — ela perguntou, hesitante.
Rosemary sorriu.
— O que você acha?
— Quem é você?
— Ninguém com quem precise se preocupar. Você vai ajudar ou não?
Céline puxou sua estela. Aplicar uma runa em quem não era um Caçador de Sombras significava morte provável, e agonia com certeza. Ela respirou fundo e depois aplicou cuidadosamente a estela na pele.
Rosemary soltou um suspiro aliviado.
— Vai me dizer quem mandou um demônio Shax atrás de você? — perguntou Céline. — E se foi a mesma pessoa que garantiu que um demônio Achaieral estivesse aqui para terminar o trabalho?
— Não. Você vai me dizer por que está vagando no meio da noite parecendo alguém acabou de afogar sua pedra de estimação no rio Sena?
— Não.
— Está bem então. E obrigada.
— Aquele cara que estava aqui com você antes...
— Você quer dizer aquele que você não viu e não comentar nada sobre, se sabe o que é bom para você?
— Você o ama e ele ama você, certo? — perguntou Céline.
— Acho que ele deve amar, porque há algumas pessoas perigosas por aí procurando por mim — disse Rosemary. — E ele fez o seu melhor para se certificarem de que acham que são procurando por ele em vez disso.
— Eu não entendo.
— E você não precisa. Mas sim. Ele me ama. Eu o amo. Por quê?
— Eu só... — Ela queria perguntar como era, como era o sentimento. Ela queria, também, estender a conversa. Estava com medo de ficar sozinha de novo, encalhada nesta ponte entre o negro sem fim do rio e do céu. — Eu só gostaria de me assegurar que você tem alguém para cuidar de você.
— Nós cuidamos um do outro. É assim que funciona. Falando nisso... — Ela deu a Céline um olhar avaliador. — Eu estou em sua dívida agora, por me ajudar com o demônio. E por manter meu segredo.
— Eu não disse que iria...
— Você irá. E eu não acredito em dívidas, então deixe-me fazer um favor a você.
— Eu não preciso de nada — disse Céline, o que significava que não preciso de nada que alguém pode me dar.
— Eu mantenho meus olhos abertos e vejo o que está acontecendo no mundo dos Caçadores de Sombras. Você precisa de mais do que pensa. Acima de tudo, você precisa ficar longe de Valentim Morgenstern.
Céline endureceu.
— O que você sabe sobre Valentim?
— Eu sei que você é o tipo dele, jovem e impressionável, e sei que não se pode confiar nele. Eu presto atenção. Você deveria também. Ele não está contando tudo. Eu sei disso. — Ela olhou por cima do ombro de Céline e seus olhos se arregalaram. — Alguém está vindo. Você deveria sair daqui.
Céline se virou. Um Irmão do Silêncio flutuava ao longo da margem esquerda, aproximando-se da borda da ponte. Não havia como saber se era o mesmo que ela encontrou no Mercado das Sombras, mas ela não podia correr o risco de esbarrar nele novamente. Não depois do que lhe contou. Foi humilhante demais.
— Lembre-se — disse Rosemary. — Valentim não é confiável.
— E por que eu deveria confiar em você?
— Por nenhuma razão — Rosemary respondeu. Sem outra palavra, ela desceu a ponte em direção ao Irmão do Silêncio.
O céu estava ficando cor-de-rosa. A noite interminável finalmente deu lugar ao amanhecer.


Eu esperava encontrar seu marido nessa ponte. Mas mesmo quando ele formou as palavras, Irmão Zachariah sentiu sua inverdade.
Ele confiara em um homem que sabia não ser confiável. Ele tinha deixado sua simpatia pela linhagem Herondale, seu desejo de acreditar que algum vínculo entre os Carstairs e os Herondales permanecera – mesmo que esse homem mal fosse um Herondale e Zachariah mal fosse um Carstairs – nublar seu julgamento. E agora Jack Crow é quem poderia suportar as consequências.
— Ele não vem. E você nunca mais vai vê-lo novamente, Caçador de Sombras, então sugiro que não se preocupe em procurar.
Entendo que os Caçadores de Sombras deram à sua família todas as razões para desconfiar de nós, mas...
— Não leve para o lado pessoal, eu não confio em ninguém — disse ela. — Foi como eu conseguiu permanecer viva.
Ela era teimosa e rude, e o irmão Zachariah não pôde deixar de gostar dela.
— Quero dizer, se eu fosse confiar em alguém, não seria em um culto de fundamentalistas violentos que se divertem executando os seus próprios… mas, como eu disse, eu não confio em ninguém.
Exceto Jack Crow.
— Esse não é mais o nome dele.
Qualquer que seja o nome que ele escolha, ele sempre será um Herondale.
Ela riu e, quando o fez, seu rosto assumiu uma forma estranhamente familiar.
Familiar no modo como Jack Crow nunca havia sido.
— Você não sabe nem de perto tanto quanto pensa que sabe, Caçador de Sombras.
Irmão Zachariah enfiou a mão no manto e tirou o colar de garça que comprou do Mercado das Sombras. O colar, ele lembrou, que Crow vendera sem a permissão ou conhecimento de sua esposa. Como um homem poderia fazer se não fosse verdadeiramente seu para vender. O pingente brilhou na luz do amanhecer. Zachariah observou sua surpresa e ofereceu a corrente.
Ela abriu a palma da mão e permitiu que ele colocasse o pingente gentilmente em sua posse. Algo no fundo dela pareceu se acomodar quando a mão dela envolveu o amuleto de garça – como se ela tivesse perdido alguma parte essencial de sua alma, e agora fosse devolvido a ela.
— Um pombo? — Ela ergueu as sobrancelhas.
Uma garça. Talvez você reconheça?
— Por que eu deveria?
Porque eu comprei do seu marido.
Seus lábios estavam pressionados juntos em uma linha fina e apertada. A mão formou um punho ao redor da corrente. Ficou claro que a criança na barraca falara a verdade: ela não sabia que o pingente estava à venda.
— Então por que dar a mim?
Ela podia fingir falta de interesse, mas Zachariah se perguntou o que ela faria diga se ele o pedisse de volta. Ele suspeitava que teria uma luta em suas mãos.
Porque tenho a sensação de que pertence a você e à sua família.
Ela endureceu, e o irmão Zachariah marcou o movimento de sua mão, como se instintivamente pegando uma arma. Ela tinha instintos afiados, mas também autocontrole – e arrogância, graça e lealdade, e a capacidade de grande amor, e uma risada que poderia iluminar o céu.
Ele viera a Paris à procura do Herondale perdido.
E ele a encontrara.
— Eu não sei do que você está falando.
Você é a Herondale. Não o seu marido. Você. A herdeira perdida de uma nobre linhagem de guerreiros.
— Eu não sou ninguém — ela retrucou. — Ninguém de interesse para você, pelo menos.
Eu poderia entrar em sua mente e confirmar a verdade.
Ela se encolheu. Zachariah não teve que ler sua mente para entender seu pânico, ou sua crescente insegurança quando ela se esforçou para descobrir como ele tinha visto através de seu truque.
Mas eu não violaria os seus segredos. Eu quero apenas ajudá-la.
— Meus pais me disseram tudo o que preciso saber sobre os Caçadores de Sombras — ela falou, e Irmão Zachariah entendeu que isso era o mais próximo de uma admissão ele conseguiria. — Sua preciosa Clave. Sua Lei. — Ela cuspiu aquela última palavra como se fosse veneno.
Eu não estou aqui como representante da Clave. Eles não têm ideia de que vim até você – ou até mesmo que você existe. Tenho minhas próprias razões para encontrar você, para querer protegê-la.
— E elas são?
Eu não violaria seus segredos, e peço para que não viole os meus. Saiba apenas que devo muito à sua família. Os laços que me ligam aos Herondale correm mais fundo que sangue.
— Bem, é legal da sua parte e tudo, mas ninguém pediu para você pagar qualquer dívida — Rosemary disse. — Jack e eu estamos indo bem, cuidando um do outro, e é isso o que continuaremos fazendo.
Foi inteligente da sua parte fazer parecer que seu marido era quem eu procurava, mas...
— Foi inteligente de Jack. As pessoas o subestimam. E pagam por isso.
Mas, se eu pude penetrar no seu truque, outros que o procuram também podem. E eles são mais perigosos do que você imagina.
— Esses “outros” sobre os quais você fala mataram meus pais. — O rosto de Rosemary traía nenhuma expressão. — Jack e eu estamos fugindo há anos. Confie em mim, eu sei exatamente o quanto é perigoso. E eu sei exatamente quão perigoso é confiar em um estranho, mesmo um estranho com poderes ninja psíquicos e um estranho senso de moda.
Uma das coisas que o Irmão Zachariah aprendeu na Irmandade do Silêncio foi o poder da aceitação. Às vezes, era melhor reconhecer uma briga invencível e aceitar a derrota – o melhor para começar a lançar as bases para a próxima batalha.
Embora isso não fosse uma batalha, ele lembrou a si mesmo. Você não pode lutar pela confiança de uma pessoa; você só poderia merecê-la.
Seu colar de garça agora possui um encantamento. Se você encontrar problemas que não pode enfrentar sozinha, só precisa me chamar, e eu irei.
— Se você acha que pode nos rastrear através dessa coisa...
Seu marido sugeriu que a única maneira de ganhar a confiança é oferecê-la. Eu não vou tentar encontrá-la se preferir não ser encontrada. Mas com esse pingente, você pode sempre me encontrar. Eu confio que me convocará para ajudar, se e quando precisar. Por favor, confie que eu sempre responderei.
— E quem é você, exatamente?
Você pode me chamar de irmão Zachariah.
— Eu poderia, mas se eu acabar nesta situação hipotética, onde preciso da minha vida salva por algum monge sanguinário, prefiro saber seu nome verdadeiro.
Eu era... Fazia tanto tempo. Ele quase não se sentia com direito ao nome. Mas havia um profundo prazer quase humano em permitir-se reivindicá-lo. Eu era conhecido como James Carstairs. Jem.
— Então, quem você vai convocar quando encontrar problemas que não pode enfrentar sozinho, Jem? — Ela prendeu o pingente no pescoço, e Zachariah sentiu uma pontada de alívio. Pelo menos ele tinha conseguido isso.
Eu não antecipo isso.
— Então você não está prestando atenção.
Ela o tocou no ombro então, inesperadamente, e com inesperada gentileza.
— Obrigada por tentar — disse ela. — É um começo.
Então ele a assistiu ir embora.
Irmão Zachariah observou o fluxo de água sob a ponte. Ele pensou sobre aquela outra ponte, em outra cidade, onde uma vez por ano ele retornava para lembrar-se do homem que ele fora um dia e dos sonhos que aquele homem já tivera.
No final da Pont des Arts, um jovem músico de rua abriu um estojo de violino e ergueu o instrumento até o queixo. Por um momento, Zachariah pensou que ele estava imaginando – que ele evocara uma fantasia de seu antigo eu. Mas enquanto se aproximava – porque ele não poderia ficar longe – ele percebeu que o músico era uma garota. Ela era jovem, não mais do que catorze ou quinze anos, com os cabelos puxados embaixo um chapéu de jornaleiro, uma gravata borboleta elegante e antiquada na gola da blusa branca.
Ela curvou as cordas e começou a tocar uma melodia assombrosa. Irmão Zachariah reconheceu: um concerto de violino de Bartók que havia sido escrito bem depois que Jem Carstairs havia deixado o violino.
Irmãos do Silêncio não tocavam música. Eles não ouviam música também, não da maneira comum. Mas mesmo com os seus sentidos selados aos prazeres mortais, eles ainda ouviam.
Jem ouviu.
Ele estava encantado; a musicista deve ter assumido que estava sozinha. Ali não havia público para sua música, nenhuma possibilidade de pagamento. Ela não estava tocando por trocados, mas para seu próprio prazer. Ela encarou a água, o céu. Esta era uma canção para receber o sol.
Distantemente, ele se lembrou da pressão suave no queixo. Ele se lembrou das pontas dos dedos saltando pelas cordas. Ele se lembrou da dança do arco. Ele se lembrava de como, às vezes, parecia que a música estava tocando nele.
Não havia música na Cidade do Silêncio; não havia sol nem amanhecer. Havia apenas escuridão. Havia apenas silêncio.
Paris era uma cidade que se deleitava nos sentidos – comida, vinho, arte, romance.
Todos os lugares eram um lembrete do que ele havia perdido, os prazeres de um mundo não mais dele. Ele aprendeu a viver com a perda. Era mais difícil, quando ele se imergia em um mundo assim, mas era suportável.
Isso era outra coisa, no entanto.
O nada que ele sentia, enquanto ouvia a melodia, assistia ao arco subir e descer as cordas – o grande buraco aberto dentro dele, ecoando apenas com o passado? Isso o fez sentir completa e desanimadoramente desumano.
A saudade que sentiu de realmente ouvir, querer, sentir? Isso o fez sentir-se quase vivo.
Venha para casa, os irmãos sussurraram em sua mente. É hora.
Ao longo dos anos, quando ganhou mais controle, Irmão Zachariah aprendeu como se isolar das vozes de seus irmãos quando necessário. Era um coisa estranha, a Irmandade. A maioria assumia que era uma vida solitária – e era, na verdade, solitária. Mas ele nunca esteve verdadeiramente sozinho. A Irmandade estava sempre ali, no limite de sua consciência, observando, esperando. Irmão Zachariah precisava apenas estender a mão, e a Irmandade iria reivindicá-lo.
Logo, ele lhes prometeu. Mas ainda não. Eu tenho mais negócios aqui.
Ele era mais Irmão do Silêncio do que não era. Mas ainda era menos do que os outros. Era um limiar estranho que lhe permitia um mínimo de privacidade – e desejo por privacidade que seus irmãos haviam abandonado há muito tempo.
Zachariah se isolou deles por enquanto. Ele sentiu um profundo arrependimento sobre seu fracasso aqui, mas era bom, era humano, sentir arrependimento, e ele queria saborear tudo por conta própria.
Ou talvez não tudo sozinho.
Havia, de fato, mais uma parte do negócio antes que ele pudesse voltar à Cidade do Silêncio. Ele precisava se explicar para a única pessoa que se importava tanto com os Herondale quanto ele.
Ele precisava de Tessa.


Céline não foi ao apartamento de Valentim com intenção de invadir. Isso teria sido loucura. E, de qualquer maneira, depois de uma noite e dia vagando cegamente pela cidade, ela estava privada demais de sono para formar intenções claras de qualquer coisa. Ela simplesmente seguiu um capricho. Ela queria ter certeza na presença de Valentim, o poder que ele tinha de fazê-la acreditar. Não só nele, mas em si mesma.
Depois de seu estranho encontro na ponte, ela pensou em voltar para o apartamento no Marais. Ela sabia que Stephen e Robert deveriam ser informados sobre a atividade demoníaca inesperada, sobre a possibilidade de um Caçador de Sombras renegado estar causando problemas e espalhando suspeitas sobre o Ciclo.
Ela não podia enfrentá-los. Deixe que eles se preocupem com o que aconteceu com ela. Ou não se preocupassem. Ela não se importava mais.
Pelo menos, ela estava se esforçando muito para não se importar.
Ela passou o dia no Louvre, assombrando galerias que nenhum dos turistas se importava de ver, com velhas máscaras etruscas e moedas da Mesopotâmia. Ela passou horas ali quando era mais jovem, misturando-se com as hordas de crianças em idade escolar. Era fácil, quando criança, passar despercebido.
O desafio, Céline compreendia agora, era ser vista – e uma vez vista, suportar o julgamento.
Ela não conseguia parar de pensar no casal na ponte, na maneira como eles olharam um para o outro. A maneira como eles se tocaram, com tanto carinho e tanta necessidade. Nem conseguia parar de pensar no aviso da mulher sobre Valentim. Céline tinha certeza de que poderia confiar em Valentim com sua vida.
Mas se ela estivera tão errada sobre Stephen, como poderia ter certeza de que estava certa sobre qualquer coisa?
Valentim estava hospedado em aposentos opulentos na sexta arrondissement, descendo a rua de uma famosa chocolatier e uma loja onde chapéus personalizados custavam mais do que a maioria das pessoas gasta com aluguel. Ela bateu forte. Quando ninguém respondeu, foi bastante fácil arrombar a fechadura.
Estou invadindo o apartamento de Valentim Morgenstern, ela pensou. confusa por si só. Não parecia exatamente real.
O apartamento era elegante, quase presidencial, paredes cobertas de fleurs-de-lis douradas, móveis cobertos de veludo. Tapetes pontilhavam o piso de madeira reluzente. Pesadas cortinas douradas diminuíam a luz. O único anacronismo da sala era uma grande caixa de vidro no centro, dentro da qual estava Dominique du Froid, amarrada, espancada e inconsciente.
Antes que ela pudesse decidir o que fazer, ouviu o som de uma chave abrindo a fechadura. A maçaneta girou. Sem pensar, Céline mergulhou atrás das cortinas espessas. Ela se manteve muito, muito quieta.
De seu esconderijo, ela não podia ver Valentim andando de um lado para o outro na sala de estar. Mas podia ouvir tudo o que precisava.
— Acorde — ele rosnou.
Houve uma pausa, um farfalhar e depois um grito de dor de mulher.
— Demônios Halphas? — ele perguntou, parecendo meio divertido e enraivecido. — Mesmo?
— Você me disse para fazer parecer real — choramingou Dominique.
— Sim, eu lhe disse para fazer com que parecesse real – não colocá-los em perigo.
— Você também me disse que pagaria, mas aqui estou eu, em algum tipo de gaiola. Com uma carteira vazia. E um par de galos indecorosos na cabeça.
Valentim suspirou pesadamente, como se isso fosse uma imposição irritante em seu tempo.
— Você disse a eles exatamente o que nós concordamos, sim? E assinou a confissão?
— Não foi isso o que os pirralhos disseram quando me largaram aqui? Então que tal você me pagar pelos meus serviços, e podemos esquecer que isso aconteceu.
— Com prazer.
Houve um som estranho, que Céline não conseguiu identificar. Então um cheiro, um que ela poderia: carne queimada.
Valentim limpou a garganta.
— Você pode sair agora, Céline.
Ela congelou. Nem suspirou enquanto perdia a capacidade de respirar.
— Não muito bons em subterfúgios ultimamente, não é? Venha agora, mostre-se.
Ele bateu as mãos com força, como se convocasse um animal de estimação.
— Sem mais jogos.
Céline saiu de trás das cortinas, sentindo-se uma tola.
— Você sabia que eu estava aqui? O tempo todo?
— Você ficaria surpresa com tudo o que sei, Céline. — Valentim sorriu friamente.
Como sempre, ele estava vestido de preto, o que fazia seu cabelo loiro branco parecer brilhar com fogo pálido. Céline supôs que, por padrões objetivos, Valentim era tão bonito quanto Stephen, mas era impossível pensar nele dessa forma. Ele era bonito do jeito que uma estátua era bonita: perfeitamente esculpida, inflexível como pedra. Às vezes, na Academia, Céline o observava com Jocelyn, imaginando como um simples toque dela poderia derreter seu gelo. Uma vez Céline os tinha flagrado em um abraço e tinha assistido das sombras como eles se perdiam um no outro. Quando eles se separaram do beijo, Valentim ergueu a mão até a bochecha de Jocelyn em um toque incrivelmente terno, e seu expressão, enquanto olhava para o seu primeiro e único amor, era quase humana.
Não havia nenhum traço disso nele agora. Ele abriu os braços, como se dando-lhe as boas-vindas para fazê-la se sentir em casa na opulenta sala de estar. A gaiola no centro estava vazia, exceto por uma pilha latente de renda e couro negros.
Dominique du Froid havia partido.
Valentim seguiu seu olhar.
— Ela era uma criminosa — disse ele. — Eu simplesmente apressei a inevitável sentença.
Havia rumores sobre Valentim, sobre a mudança que veio sobre ele quando seu pai foi morto. Sussurros obscuros sobre as crueldades que ele realizou não apenas ao esbarrar com Seres do Submundo, mas com qualquer um que cruzasse com ele. Qualquer um que o questionasse.
— Você parece preocupada, Céline. Até... receosa.
— Não — ela disse rapidamente.
— É quase como se você pensasse que invadir meu apartamento para me espionar poderia causar algum tipo de consequência desagradável.
— Eu não estava espionando, estava apenas...
Ele a favoreceu com um sorriso então, tão quente, tão ensolarado, que ela se sentiu ridícula por ter tido tanto medo.
— Você se contentaria com o chá? E talvez alguns biscoitos. Parece que não come há um ano.
Ele preparou um banquete: não apenas chá e biscoitos, mas uma baguete fatiada, queijo fresco de cabra e um pequeno pote de mel, uma tigela de mirtilos que pareciam ter acabado de ser colhidas do galho. Céline não sabia que estava com fome até o gosto de mel tocou em sua língua. Ela percebeu que estava faminta.
Eles tiveram uma conversa fiada sobre Paris: seus cafés favoritos, seus lugares preferidos para piquenique, a melhor barraca de crepe, os méritos relativos de Orsay e de Pompidou.
Então Valentim deu uma mordida calorosa na baguete coberta de queijo e disse, quase alegremente:
— Você sabe, é claro, que os outros pensam que você é fraca, e não particularmente brilhante.
Céline quase engasgou com um mirtilo.
— Se dependesse da maior parte do Ciclo, você não estaria nele. Felizmente, isto não é uma democracia. Eles acham que a conhecem, Céline, mas não sabem da metade, não é?
Lentamente, ela balançou a cabeça. Ninguém a conhecia, não de verdade.
Eu, por outro lado, acreditei em você. Confiei em você. E você paga essa confiança com suspeita?
— Eu realmente não...
— Claro, você não tinha suspeitas. Só pensou em fazer uma visita social. Atrás das minhas cortinas. Enquanto eu estava fora.
— Ok. Oui. Eu estava desconfiada.
— Vê? Você é inteligente. — Aquele sorriso de novo, quente e aprovador, como se ela tivesse cumprido suas intenções. — E o que descobriu sobre mim, com sua investigação intrépida?
Não havia sentido em fingir. E Céline estava quase tão curiosa quanto apavorada. Então ela disse a verdade, como supôs.
— Dominique du Froid não tinha negócios com dois Caçadores de Sombras. Ela tinha negócios com você. Você está tentando incriminar alguém, e está nos usando para fazer isso.
— Nos?
— Eu. Robert. Stephen.
— Robert e Stephen, sim. Eu estou realmente usando-os. Mas você? Você está aqui, não está? Está recebendo a história completa.
— Estou?
— Se você quiser...
Céline não tinha o tipo de pais que liam contos de fadas. Mas ela leu suficiente para conhecer a regra fundamental dessas histórias: tenha cuidado o que você deseja.
E como todo Caçador de Sombras, ela sabia: todas as histórias são reais.
— Eu quero saber — disse ela.
Ele disse que ela estava certa. Ele estava incriminando dois Caçadores de Sombras, inocentes desses crimes, mas culpados de um muito maior – estavam no caminho do Ciclo.
— Eles estão atolados na tradição, em dívida com a corrupção da Clave. E estão decididos a me destruir. Então eu agi primeiro.
Ele usara a feiticeira para plantar evidências, ele admitiu. Agora usaria Stephen e Robert como testemunhas de sua confissão. Desde que ela, infelizmente, não era mais capaz de testemunhar.
— E a Espada Mortal? — perguntou Céline. — Você não está preocupado com o que vai acontecer quando os Caçadores de Sombras acusados forem interrogados?
Valentim estalou a língua, como se estivesse desapontado por ela não ter pulado para a conclusão correta.
— É muito lamentável, eles nunca chegarão tão longe. Sei que estes dois Caçadores de Sombras farão uma tentativa de fuga durante o seu transporte para a Cidade do Silêncio. Eles serão mortos no caos que se seguir. Trágico.
As palavras pesaram entre eles. Céline tentou processar. Valentim não estava apenas incriminando dois Caçadores de Sombras, dois Caçadores de Sombras inocentes. Ele estava planejando matá-los a sangue frio. Este era um crime impensável, porque a Lei exigiria a morte.
— Por que você está me dizendo isso? — perguntou ela, tentando manter sua voz sem tremer. — O que o faz pensar que eu não vou te entregar? A não ser que...
A não ser que ele não tivesse intenção de deixá-la sair desse apartamento viva.
Um homem que poderia matar dois Caçadores de Sombras a sangue frio poderia presumivelmente matar um terceiro. Tudo nela dizia que ela deveria pular de pé, sacar sua arma, lutar para sair daqui, correr direto para o Instituto de Paris, contar tudo a eles.
Impedir isso – impedi-lo – antes que ele fosse mais longe.
Valentim a observou calmamente, palmas em cima da mesa, como se dissesse, sua vez.
Ela não se mexeu.
A família Verlac, que administrava o Instituto de Paris, era amiga de seus pais.
Mais de uma vez, um Verlac procurou seu esconderijo e a atirou de volta em casa. Naquela primeira vez, ela implorou por asilo no Instituto, onde todos Caçadores de Sombras tinham supostamente um lar seguro garantido. Céline recebeu a resposta de que ela era jovem demais para fazer tais pedidos, jovem demais para saber o que era seguro. Foi-lhe dito que seus pais a amavam e ela deveria parar de causar-lhes tanto problemas.
Ela não devia nada a essas pessoas.
Valentim, por outro lado, a havia escolhido. Lhe dera uma missão, uma família. Ela lhe devia tudo.
Ele se inclinou para ela, estendeu a mão. Ela se obrigou a não recuar.
Ele tocou o pescoço dela, levemente, onde o demônio Achaieral a havia arranhado.
— Você está ferida.
— Não é nada — disse ela.
— E você estava mancando.
— Estou bem.
— Se você precisar de outro iratze...
— Eu estou bem.
Ele assentiu, como se ela tivesse confirmado uma suspeita.
— Sim. Você prefere assim, não é?
— Assim como?
— Com dor.
Agora Céline se encolheu.
— Eu não prefiro — ela insistiu. — Isso seria doentio.
— Mas você sabe por que prefere? Por que persegue a dor?
Ela nunca entendera isso sobre si mesma. Só sabia disso, da maneira profunda e sem palavras, como você conhece sua verdade mais essencial.
Havia algo na dor que a fazia se sentir mais sólida, mais real.
Mais no controle. Às vezes a dor parecia a única coisa que ela podia controlar.
— Você cobiça a dor porque sabe que isso te faz forte — Valentim disse.
Ela sentiu como se ele tivesse dado nome à sua alma sem nome.
— Você sabe porque eu a entendo melhor que o resto deles? Porque somos iguais. Nós aprendemos cedo não foi? Crueldade, dureza, dor: ninguém nos protegeu das realidades da vida, e isso nos fortaleceu. A maioria das pessoas é governada pelo medo. Elas fogem do espectro de dor, e isso as torna fracas. Você e eu, Céline, sabemos que o único jeito de atravessar a dor é enfrentar a dor. Convidar a crueldade do mundo – e dominá-la.
Céline nunca havia pensado em si assim, dura e forte. Ela certamente nunca se atreveu a pensar em si mesma como algo parecido com Valentim.
— É por isso que eu queria você no Ciclo. Robert, Stephen, os outros? Eles estão ainda são apenas garotos. Crianças brincando em jogos para adultos. Eles ainda não foram testados – eles serão, mas ainda não. Você e eu, no entanto? Somos especiais. Nós não fomos crianças por um longo tempo.
Ninguém jamais a chamara de forte. Ninguém a chamara de especial.
— As coisas estão acelerando — disse Valentim. — Eu preciso saber quem está comigo e quem não está. Então você pode ver porque eu te contei a verdade sobre esta — ele apontou para o monte chamuscado de roupas de bruxo — situação.
—É um teste — ela adivinhou. — Um teste de fidelidade.
— É uma oportunidade — ele corrigiu. — Para convidá-la para a minha confiança, e recompensá-la pela sua. Minha proposta: você fica em silêncio sobre o que aprendeu aqui e permite que os eventos prossigam como pretendo, e eu vou te entregar Stephen Herondale em uma bandeja de prata.
— O quê? Eu... eu não... eu...
— Eu te disse, Céline. Eu sei de coisas. Eu conheço você. E posso te dar o que você quiser, se você realmente quiser.
Cuidado com o que você deseja, ela pensou novamente. Mas oh, ela desejava Stephen. Mesmo sabendo o que ele pensava dela, mesmo com seu riso zombeteiro zumbindo em seus ouvidos, até mesmo acreditando no que Valentim disse, que ela era forte e Stephen era fraco, mesmo sabendo o que ela sabia ser verdade, que Stephen não a amava e nunca iria, ela o desejava. Para todo o sempre.
— Ou você pode sair deste apartamento, correr para a Clave, contar a eles qualquer história que você gostaria. Salvar esses dois Caçadores de Sombras “inocentes” – e perder a única família que já se importou verdadeiramente com você — Valentim disse. — A escolha é sua.


Tessa Grey tomou fôlego na cidade que uma vez, breve, mas indelevelmente, foi sua casa. Quantas noites ela esteve nesta mesma ponte, olhando para a imensa sombra de Notre Dame, as águas ondulantes do Sena, a orgulhosa construção da Torre Eiffel – tudo isso, a beleza desoladora de Paris, borrada por suas incessantes lágrimas. Quantas noites ela procurou no rio por seu reflexo sem idade, imaginando os segundos, dias, anos, séculos que ela poderia viver, e cada um deles em um mundo sem Will.
Não, não imaginando.
Porque isso era inimaginável.
Inimaginável, mas aqui estava ela, mais de cinquenta anos depois, ainda viva. Ainda sem ele. Coração partido para sempre, mas ainda batendo, ainda forte.
Ainda capaz de amar.
Ela fugiu para Paris depois que ele morreu, ficou até que ela estava forte o suficiente para enfrentar seu futuro, e não voltou desde então. Em face das coisas, a cidade não havia mudado. Mas então, em face das coisas, ela também não. Não se podia confiar na face de coisas para lhe mostrar a sua verdade. Não se precisava ser um metamorfo para saber disso.
Eu sinto muito, Tessa. Eu a tinha, e a soltei.
Mesmo depois de todos esses anos, ela não estava acostumada com isso, essa versão fria da voz de Jem falando dentro de sua mente, ao mesmo tempo tão íntima e tão distante. A mão dele repousava sobre o corrimão a poucos centímetros da dela. Ela poderia tê-lo tocado. Ele não se afastaria, não dela. Mas sua pele seria tão fria, tão seca, como pedra.
Tudo sobre ele era como pedra.
— Você a encontrou, foi o que nos propusemos a fazer, certo? Nunca foi sobre trazer o Herondale perdido de volta ao mundo dos Caçadores de Sombras, ou escolher um caminho para ele.
Havia conforto no peso familiar do pingente de jade em volta do seu pescoço, quente contra o seu peito. Ela ainda o usava todos os dias, como fazia desde o dia em que Jem lhe deu, mais de um século antes. Ele não sabia.
O que você diz é verdade, mas ainda assim... não parece certo que um Herondale esteja em perigo enquanto não fazemos nada. Temo ter falhado com você, Tessa. Ter falhado com ele.
Entre ela e Jem, só havia um ele.
— Nós a encontramos, por Will. E você sabe que Will gostaria que ela escolhesse por si mesma. Assim como ele fez.
Se ele ainda fosse Jem, ela teria colocado os braços ao redor dele. Ela teria deixado ele sentir, em seu abraço, sua respiração, seu batimento cardíaco, como era impossível para ele falhar com ela ou com Will.
Mas ele tanto era quanto não era Jem. Ainda ele e insondável outro, e ela só podia ficar ao lado dele, assegurá-lo com palavras inúteis que ele tinha feito suficiente.
Ele a avisara uma vez o que aconteceria, quando ele se tornasse menos ele mesmo, mais Irmão do Silêncio – prometeu a ela que a transformação nunca seria completa.
Quando eu não mais vir o mundo com meus olhos humanos, ainda serei em parte o Jem que você conhecia, ele dissera. Eu a verei com os olhos do meu coração.
Quando ela olhou para ele agora, seus olhos e lábios selados, seu rosto frio, quando ela respirava seu cheiro desumano, como papel, como pedra, como nada que já tivesse vivido ou amado, ela tentou se lembrar disso. Ela tentou acreditar que alguma parte ele ainda estava lá, vendo-a e desejando ser visto.
Ficou mais difícil a cada ano. Houve momentos, ao longo das décadas, quando o Jem que ela se lembrava verdadeiramente irrompeu. Uma vez, durante uma das inúmeras guerras mundanas, eles até roubaram um beijo – e quase mais. Jem a afastou antes que as coisas pudessem ir longe demais. Depois disso, ele se manteve mais distante de Tessa, quase como se temesse o que poderia acontecer se ele se aproximasse da beirada. Aquele abraço, que ela pensava quase todos os dias, foi mais de quarenta anos atrás – e todos os anos, ele parecia um pouco menos Jem, um pouco menos humano. Ela temia que ele estivesse se esquecendo, pedaço por pedaço.
Ela não podia perdê-lo. Não ele também.
Ela seria sua memória.
Eu conheci uma garota aqui, ele falou, apaixonada por um Herondale.
Ela imaginou que podia ouvir um leve sorriso em sua voz.
— Ela lembrou você de alguém? — Tessa brincou.
Seu amor parecia causar-lhe grande dor. Eu teria gostado de ajudá-la.
Era uma das coisas que ela amava sobre ele, seu desejo permanente de ajudar alguém em necessidade. Isso era algo que a Irmandade não poderia arrancar.
— Eu costumava vir a esta ponte o tempo todo quando morei em Paris. Depois de Will.
É muito pacífico aqui. E muito bonito.
Ela queria dizer a ele que não era isso. Ela não vinha pela paz ou pela beleza – ela vinha porque esta ponte a lembrava da Ponte Blackfriars, a ponte que pertencia a ela e Jem. Ela vinha porque aqui, suspensa entre terra e água, as mãos apertadas na grade de ferro, o rosto erguido para o céu, a lembrava de Jem. A ponte lembrava a ela que ainda havia alguém no mundo que ela amava. Que mesmo que metade de seu coração tivesse ido para sempre, a outra metade ainda estava aqui. Inacessível, talvez, mas aqui.
Ela queria dizer a ele, mas não podia. Não seria justo. Seria pedir algo de Jem que ele não poderia dar, e o mundo já tinha pedido muito dele.
— Ele teria odiado isso, a ideia de um Herondale lá fora em algum lugar que acha que não pode confiar nos Caçadores de Sombras. Que acha que somos os vilões.
Ele poderia muito bem ter entendido.
Era verdade. Will foi criado para desconfiar dos Caçadores de Sombras. Ele sabia, melhor do que a maioria, quão severamente a Clave tratava aqueles lhe davam as costas. Ele teria ficado furioso ao saber sobre esse ramo perdido de sua família, com o pensamento da Clave tentando executar mãe e filho pelos pecados do pai. Tessa temia pela segurança desta Herondale perdida, mas da mesma forma, ela desejava convencê-la de que alguns Caçadores de Sombras podiam ser confiáveis. Ela queria fazer essa jovem entender que eles não eram todos duros e insensíveis: que alguns deles eram como Will.
— Eu fico tão brava com eles algumas vezes, os Caçadores de Sombras que vieram antes de nós, os erros que eles cometeram. Pense quantas vidas foram arruinadas pelas escolhas de uma geração anterior.
Ela estava pensando em Tobias Herondale, mas também Axel Mortmain, cujos pais foram assassinados na frente dele, e Aloysius Starkweather, que pagou por seu pecado com a vida de sua neta. Ela estava pensando, até mesmo, em seu próprio irmão, cuja mãe se recusou a reivindicá-lo como seu. Que poderia ter encontrado o caminho para ser um homem melhor se tivesse sido mais amado.
Seria injusto culpar o passado pelas escolhas feitas no presente. Nem podemos justificar escolhas atuais invocando os pecados do passado. Você e eu sabemos disso, melhor que a maioria.
Jem também viu seus pais serem assassinados na frente dele. Jem tinha sofrido um vida de dor, mas ele nunca se deixou ser deformado por isso – nunca tentou se vingar ou se tornou vingativo. E Tessa foi concebida como uma ferramenta demoníaca, literalmente. Ela poderia ter escolhido aceitar esse destino; ela poderia ter escolhido fugir do Mundo das Sombras completamente, voltar para a vida mundana que ela conhecia e fingir que via a escuridão. Ou ela poderia ter reivindicado a escuridão como sua própria.
Ela escolheu um caminho diferente. Ambos escolheram.
Nós sempre temos uma escolha, Jem disse, e pela primeira vez, a voz em sua mente soava como ele, quente e próxima. Nem sempre é a escolha que gostaríamos, mas é uma escolha mesmo assim. O passado nos acontece. Mas nós escolhemos o nosso futuro. Nós só podemos esperar que a nossa Herondale perdida finalmente escolha se salvar.
— Essa é a melhor esperança para qualquer um de nós, suponho.
Jem deslizou a mão pelo corrimão e a colocou sobre a dela. Era como ela sabia que seria, fria. Desumana.
Mas também era Jem: carne e sangue, inegavelmente vivo. E onde havia vida, havia esperança. Talvez não agora, ainda não, mas algum dia, eles ainda poderiam ter seu futuro. Ela escolheu acreditar.


A Igreja de Saint-Germain-des-Prés foi fundada em 558 d.C. A abadia original foi construída sobre as ruínas de um antigo templo romano, em seguida, destruída dois séculos depois, em um cerco normando. Reconstruída no século X d.C., a igreja agora suportou, de uma forma ou de outra, por um milênio. Os reis merovíngios estão enterrados em suas tumbas, assim como o coração envasado de João II Casimir Vasa e o corpo sem cabeça de René Descartes.
Na maioria das manhãs a abadia via um fluxo constante de turistas e observadores locais vagando por suas entranhas, acendendo velas, curvando cabeças, sussurrando orações para quem quer que possa estar ouvindo. Mas nesta manhã chuvosa de agosto, um sinal na porta indicava que a igreja estava fechada ao público. No interior, o Conclave de Paris se reunia. Caçadores de Sombras de toda a França ouviram solenemente as acusações apresentadas contra dois dos seus.
Jules e Lisette Montclaire ficaram em silêncio, as cabeças inclinadas, enquanto Robert Lightwood e Stephen Herondale testemunhavam seus crimes.
Sua filha, Céline Montclaire, não foi chamada para falar. Ela, é claro, não esteve presente durante a revelação da feiticeira dos crimes de seus pais.
A cena se desenrolou como se Valentim tivesse feito o roteiro, e como todos os presentes, Céline fez exatamente o que Valentim pretendia: nada.
Em seu interior, ela estava em guerra consigo mesma. Furiosa com Valentim por fazê-la cúmplice na destruição de seus pais; furiosa consigo mesma por sentar-se silenciosamente enquanto seus destinos eram selados; mais furiosa com seu próprio instinto de misericórdia. Afinal, seus pais nunca tinham mostrado nada para ela. Seus pais fizeram o melhor para ensiná-la que essa misericórdia era fraqueza e crueldade era força. Então ela se preparou para ser forte. Disse a si mesma que isso não era pessoal; isso era sobre proteger o Ciclo. E se Valentim acreditava que este era o caminho certo para o futuro, então este era o único caminho a seguir.
Ela assistiu seus pais tremerem de medo sob o olhar de aço do Inquisidor, e ela se lembrou dos dois se afastando dela, ignorando seus gritos, fechando-a na escuridão – e ela não disse nada. Ela sentou-se imóvel, a cabeça abaixada e aguentou. Eles também haviam lhe ensinado isso.
Todos os Caçadores de Sombras da França conheciam Céline, ou pensavam que sim: aquela doce e filha obediente do campo Provençal. Eles sabiam quão devotada ela era para seus pais. Uma filha tão obediente. Ela, naturalmente, herdaria sua propriedade.
Céline suportou o peso dos olhares com dignidade. Ela não reconheceu os olhares de pena. Manteve os olhos no chão quando o julgamento foi emitido e por isso não viu o horror nos rostos de seus pais. Ela não os assistiu serem colocados sob a custódia dos Irmãos do Silêncio, para serem transportados para a Cidade do Silêncio. Ela esperava que eles sobrevivessem tempo suficiente para enfrentar a Espada Mortal.
Ela não falou com Robert ou Stephen, e os deixou acreditar que isso era porque eles tinham acabado de condenar seus pais à morte.
Valentim alcançou Céline do lado de fora da igreja. Ele ofereceu-lhe um crepe de avelã.
— Da barraca do lado oposto de Les Deux Magots — disse ele. — Seu favorito, certo?
Ela deu de ombros, mas pegou o que ele tinha para oferecer. A primeira mordida – chocolate quente com avelã, massa doce – estava tão perfeita quanto sempre, e a fez sentir-se como uma criança novamente.
Às vezes era difícil acreditar que ela havia sido jovem.
— Você poderia ter me dito — disse ela.
— E arruinar a surpresa?
— Esses são meus pais.
— De fato.
— E você os matou.
— Eles ainda estavam vivos, da última vez que chequei — Valentim disse. — Eles provavelmente poderiam ficar dessa forma com uma palavra sua. Mas eu não ouvi nada.
— Você assumiu um grande risco, não me contando toda a história. Esperando que eu deixasse você... que os deixasse ir.
— Assumi? Ou eu simplesmente a conheço bem o suficiente para saber exatamente o que você escolheria? Saber que eu estava lhe fazendo um favor.
Ele encontrou seus olhos. Ela não conseguia desviar o olhar. Pela primeira vez, ela não queria.
— Você não precisa admitir, Céline. Apenas saiba que eu sei. Você não está sozinha nisso.
Ele a via; ele entendia. Era como se ela tivesse um músculo tensionado toda a vida finalmente liberado.
— Um acordo é um acordo, no entanto — disse ele. — Mesmo que você consiga mais do que negociou. Stephen é todo seu – supondo que ainda seja o que você quer?
— Como exatamente você faria isso acontecer? — ela perguntou, claro agora exatamente do que Valentim era capaz. — Você não iria… você não o machucaria, não é?
Valentim parecia desapontado com ela.
— Stephen é meu melhor amigo, meu tenente de mais confiança. O fato de você sequer perguntar isso me faz questionar sua lealdade, Céline. Você quer que eu questione sua lealdade?
Ela balançou a cabeça.
Então aquele sorriso quente e amanteigado apareceu em seu rosto novamente. Ela não sabia dizer se este era o verdadeiro Valentim rompendo, ou a máscara caindo de volta em seu rosto.
— Por outro lado, seria tolice da sua parte não perguntar. E como nós discutimos, não há nada tolo em você. Não importa o que as pessoas possam pensar. Então, sua resposta: não. Eu juro para você, pelo Anjo, eu não vou causar a Stephen nenhum mal na promulgação deste acordo.
— E nenhuma ameaça de dano?
— Você pensa tão pouco de si mesma que acha que um homem precisaria ser ameaçado antes que pudesse te amar?
Ela não respondeu. Ela não precisava: ele certamente poderia ler todo o rosto dela.
— Stephen está com a mulher errada — Valentim disse a ela, quase gentilmente. — Bem no fundo, ele sabe disso. Vou simplesmente deixar isso claro para ele como é para nós, e o resto será tão fácil quanto cair de um penhasco. Você só precisa relaxar e deixar a gravidade fazer o seu trabalho. Não tenha medo de buscar as coisas que realmente quer, Céline. Está abaixo você.
O que ela realmente queria...
Não era tarde demais para falar, para salvar seus pais.
Ou ela poderia manter sua palavra e manter seu segredo. Ela poderia deixar seus pais pagarem pelo que fizeram com ela. Pela rede de cicatrizes em sua pele e seu coração. Pelo gelo em seu sangue. Se ela fosse o tipo de filha que poderia condenar os pais à morte, então eles não tinham ninguém para culpar além de si mesmos.
Mas isso não significava que ela tinha que aceitar todo o acordo. Mesmo se ficasse em silêncio, ela poderia ir embora: para longe de Valentim, agora que sabia do que ele era capaz. Longe de Stephen, agora que sabia o que ele pensava dela.
Ela poderia fechar a porta para o passado, começar de novo. Ela poderia escolher uma vida sem dor, sem sofrimento ou medo.
Mas quem seria ela, sem dor?
Qual era a força, se não a resistência do sofrimento?
Não há nada mais doloroso do que o amor negado, o estranho Irmão do Silêncio disse ela. Um amor que não pode ser correspondido. Eu não consigo pensar em nada mais doloroso que isso.
Se Valentim disse que poderia lhe dar Stephen Herondale, ele quis dizer isso. Céline não duvidava. Ele podia fazer qualquer coisa, e isso incluía encontrar uma maneira de forçar Stephen Herondale em sua vida e seus braços. Mas mesmo Valentim não poderia fazer Stephen amá-la.
Ter Stephen significaria não tê-lo – significaria saber em cada momento, cada abraço, que ele queria outra pessoa. Isso significaria uma vida de saudade da única coisa que ela não poderia ter. O Irmão do Silêncio era sábio, e falou a verdade. Não poderia haver dor maior que essa.
— Tome o seu tempo — disse Valentim. — É uma grande escolha.
— Eu não preciso de tempo — ela respondeu. — Quero isso. Eu quero Stephen.
Não parecia uma escolha, porque era a única escolha que ela tinha.

5 comentários:

  1. Grande azar ela teve, se apaixonar pela fruta podre dos Herondale

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    1. Dá pra ver que Stephen não é tão ruim... o problema é Valentim. Olha como ele consegue distorcer tudo. Ele é inteligente demais pro bem das pessoas, consegue enxergar fundo e manipulá-las. Olha como ele dobrou Céline direitinho!

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  2. Estou aguardando ansiosamente pelo próximo conto

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  3. caralho a Celine é tão trágica. Alguém faz uma fic do q teria acontecido se ela tivesse contado a vdd pro Jem

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Boa leitura, E SEM SPOILER!