5 de fevereiro de 2019

O servo

Tap. Tap tap. Tap.
No tempo que levou para ela compreender o barulho, Ceridwen se levantou, uma adaga desembainhada em sua mão. Sono entorpeceu sua mente por tempo suficiente para o som vir novamente, com mais insistência.
Tap. Tap tap. Tap.
O padrão acalmou um pouco do seu pânico. Lekan.
Mas uma carranca pressionou seus lábios enquanto ela rolava para fora da cama e se esgueirava até a segunda janela à partir do canto, aquela em que vinhas subindo pela parede criavam uma escada perfeita para o seu quarto no terceiro andar.
Passaram-se apenas doze horas desde o ataque – ele não deveria estar de volta tão cedo.
Uma brisa quente entrou enquanto ela abriu a janela, sua camisola na altura dos joelhos flutuando ao redor das pernas. Ela estreitou os olhos para Lekan enquanto ele se pendurava às vinhas a um braço de distância dela.
— Você é de longe o mais idiota saqueador que eu já tive o infortúnio de comandar.
Lekan se inclinou para trás, uma mão no peito em um gesto de dor fingida.
— Ai, milady.
— Não diga “ai” pra mim. — Ceridwen escancarou a janela e puxou Lekan para dentro. Ele tropeçou para perto dela, suas roupas ainda empoeiradas da viagem como se ele tivesse escalado a janela dela logo depois de retornar – o que Ceridwen percebeu que provavelmente era verdade.
— Eu apenas os acompanhei em parte do caminho — ele começou, sempre negócios primeiro. — Eles deverão estar no acampamento em poucos...
Ceridwen revirou os olhos e empurrou Lekan para trás até ele cair na cadeira atrás dele. Ele não lutou enquanto ela se movia ao redor do quarto, servindo um copo de água, pegando comida para ele.
— Isso não é necessário — ele falou.
— Você diz isso toda vez. E toda vez, é necessário, sim.
Lekan suspirou, mas mesmo enquanto o fazia, seus ombros afundaram na cadeira. Ceridwen colocou o copo de água e um punhado de frutas secas em uma bandeja, e empurrou-a nas mãos dele enquanto ela se sentava de pernas cruzadas no chão na frente dele.
Isso o fez se mover para a ponta da poltrona.
— Não – você fica com a cadeira.
Ela lhe atirou um olhar cortante.
— Há cinco outras cadeiras aqui. Estou sentada no chão porque eu quero sentar. Além disso, você realmente é capaz de ficar de pé agora? Você está exausto. Sente, ou a sua posição como servo na nobre casa de Preben será revista.
Lekan sorriu para ela, um sorriso descrente e grato.
— Eu acabei de descobrir como cair nas boas graças de seu irmão e me tornar um de seus servos. Você nunca tirará isso de mim.
Qualquer intenção de brincadeira escorreu para fora de Ceridwen como as frutas que Lekan recolheu da bandeja. Ela deixou seus olhos desviarem por meia batida de coração antes de travarem nele, mas o foco de Lekan estava na água agora, a repentina tensão em seu rosto traindo o que eles dois estavam pensando.
— Por que você não foi até o acampamento? — Ceridwen sussurrou. — Você poderia, sabe, você poderia tê-los visitado.
Lekan soltou o ar.
— Você me pediu da outra vez.
— E pedirei de novo, e de novo, até eu entender porque você não visita a sua família tanto quanto poderia. E quando os visita, você volta rápido demais.
Lekan a encarou com um olhar que quebrou qualquer formalidade entre um servo e sua mestra. Um olhar que ela vira nele apenas algumas vezes, geralmente quando ela fazia essa mesma questão.
— Eu não os deixei — ele rosnou.
— Aposto que Amelie sente diferente.
— Amelie é uma garota forte. Ela entende por que não posso vê-la tão frequentemente quanto eu gostaria – ela não é mais uma criança.
— Oito anos de idade, e você não considera sua filha uma criança? — Ceridern zombou.
Os dedos de Lekan apertaram a bandeja que enquanto ele se inclinava para frente.
— Ela é crescida o suficiente para entender o que eu preciso fazer. E Kaleo... — a aspereza em sua voz sumiu, como se mesmo dizer o nome de Kaleo negasse a raiva que Ceridwen erguera. — Kaleo tem seus próprios deveres, e ele, mais do que ninguém, entende a importância dos meus. E não penso que ele me deixaria ficar por mais tempo se eu quisesse. Especialmente agora que...
Ele se recostou na cadeira. Ele não podia olhar para Ceridwen, e o peso de suas palavras pressionava com mais força sobre ela enquanto ele falava.
— Cada reino que Simon convence a vender para ele cria mais vítimas. Vítimas como Amelie. Eu sou necessário aqui, agora mais do que nunca. Você sabe disso, Cerie.
Ceridwen viu a memória cruzar seu rosto, a maneira como os músculos de seu pescoço tensionaram, adrenalina correndo pelas linhas de seus braços e peito. Ela não estiveram com ele quando o seu grupo libertou a caravana de Amelie, mas a história fora contada várias e várias vezes, em volta de fogueiras e canções de ninar e eventualmente em celebrações quando Lekan e Kaleo tornaram Amelie parte de sua família. Ela estivera na caravana com vinte outros escravos yakimianos. O ataque fora particularmente brutal, os soldados implacáveis contra os saqueadores, e terminou com cinco mortos – incluindo a mãe de Amelie. Não que o campo de refugiados não estivesse repleto de órfãos, mas algo sobre a Amelie de um ano de idade cativara Lekan e Kaleo, e ver os três juntos...
Era nesse quadro que Ceridwen pensava quando ouvia a palavra família. Lekan, alto e mortal, com uma expressão que poderia dar calafrios no sol queimante do meio-dia em sua intensidade, mas que poderia facilmente aquecer a mais frígida das almas com sua gentileza. Kaleo, tão ligado ao dever quanto seu marido, mas de maneira mais suave, calma – mais sintonizado com comandar o acampamento de refugiados do que com usar uma lâmina. E Amelie, mais feroz que seus pais adotivos veranianos, a mistura perfeita de despreocupação e solenidade.
Rasgava o coração de Ceridwen cada vez que ele retornava a Juli, sem visitar ou sem ficar por tempo suficiente. Ele tinha uma família, uma família completa e inteira que não era tocada por mágica e era livre, e ainda assim retornava para cá. Para um mundo de dor e sofrimento. Para um mundo onde felicidade era sufocada por condutores perigosos.
Para um mundo onde amor não era suficiente.
— Por favor, Lekan — ela se ouviu dizer, as palavras frágeis além do desespero em seu tom. — Você precisa ir. Eu preciso que você vá. Enquanto você puder, enquanto um de nós pode ser feliz. Eu não sei o que isso significa, Ventralli está vendendo para Simon agora, mas está ficando maior do que posso controlar. Você tem que se afastar disso.
Lekan colocou a bandeja na mesa perto dele e sentou mais frente na cadeira, tomando a sua mão.
— Não – você precisa de mim aqui. E além disso — ele forçou um sorriso — nós nunca fomos capazes de controlar isso.
Isso era ele confortando-a sobre a dor e a necessidade dela de tê-lo escapando desta vida.
Ela puxou sua mão da dele e se levantou, virando as costas para ele.
— Você pensa que preciso da sua ajuda agora que Simon tem Ventralli também. Agora que nós temos que ver outro reino produzindo escravos. Mas nós não precisamos de você, Lekan, e seria melhor se você apenas saísse.
Ceridwen falou com o seu quarto, a cama se tornando dourada com a luz do sol nascente que entrava pela janela aberta. Tecidos drapeavam todo o redor, laranja e vermelho, tão leves que se moviam com a brisa como a sua camisola flutuou. Apenas uma não balançou – uma pesada tapeçaria pendurada acima da cama dela.  Feita à mão, cada fio se entrelaçando dolorosamente com o próximo para formar um cenário de duas pessoas se buscando, separadas pela luz que cercava uma delas, e a escuridão que cercava a outra.
Jesse dissera a ela para escolher qualquer tapeçaria que ela gostasse. Qualquer uma, e ele a compraria para ela. Quando ela escolheu esta, a dor no rosto dele foi tão satisfatória. Sim, nos machuca, ela pensara. Machuca por causa da separação que você causou. Mas então ela se lembrou da própria dor, que afastou dela qualquer gratificação vaidosa.
Ceridwen ouviu Lekan levantar atrás dela.
— Eu não vou deixá-la até que todos nós sejamos felizes — ele prometeu, um sentimento silencioso e assegurador que seria suficiente para fazê-la deixar o assunto de lado se ela fosse mais fraca. De volta quando ela começara sua luta contra Simon, ela pensara que talvez pudesse encontrar a felicidade com Lekan – até eles libertarem alguns veranianos capturados e Kaleo se tornar um deles, e a maneira como Lekan olhava para ele era o tipo de perfeição que faz tudo parecer tolo em comparação.
— Eu não preciso de você — Ceridwen falou para ele. — Quantas vezes vou ter que dizer isso?
Lekan se aproximou mais até que seu calor a engolfasse atrás dela e seus braços a circulassem, segurando-a contra ele.
— Até que você esteja falando isso verdadeiramente para mim, não para Jesse.
Ela ficou rígida contra ele, a tapeçaria ficando borrada na frente dela, deixando-a encarar uma imagem levemente diferente. Duas pessoas, separadas, buscando uma pela outra. Jesse, encapsulado em uma névoa de luz; Ceridwen, presa em uma bruma de escuridão. Buscando, se esticando, querendo tanto que ela se desfizesse e derramasse, adicionando mais escuridão ao negrume já sem fim.
Mas Jesse permanecia na luz. Luz pura e intocada. Apenas como Simon, barricado na proteção da aura de seu Condutor Real. Um lugar onde ninguém poderia tocá-los – mesmo aqueles que os amavam. Especialmente aqueles que os amavam.
No entanto, ela afundou por conta própria, sendo puxada para baixo nas ondas de todos os problemas de sua vida. Nada além de dor, e ela se aprofundou dentro dela nesta concha vazia que permanecia segurada nos braços de Lekan, sem chorar, sem gritar. Apenas... vazia.
— Obrigada — Ceridwen falou, e isso soou mais forte que sua promessa infrutífera.
Lekan suspirou.
— Sempre, milady. Sempre.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!