5 de fevereiro de 2019

O rei

O palácio de Juli fora grande uma vez, construído em uma elegante mistura de madeira polida e pedra areada. Mas os anos não foram gentis com ele, e com a vegetação rastejante e o clima duro, cada governante de Verão deixara o seu palácio decair mais e mais em desordem. Apenas uns poucos cômodos foram mantidos – as câmaras reais, o salão de celebração, e a ala de Madame Tia. O resto do palácio permanecia a bagunça do sol – pedras caídas, vinhas verdes intrusas, raízes que destruíram muros até o pó. Era como se cada terra tivesse se cansado da preguiça do governante e estivesse fazendo a sua parte para ajudar Ceridwen a pôr tudo abaixo, peça por peça.
Ceridwen se apressou através dos longos e arruinados corredores, o pó do palácio se juntando àquele que já cobria suas botas. Era quase o anoitecer; Simon estaria começando seu entretenimento da noite, e se ele percebesse que ela não estivera na corte o dia todo...
Não. Simon nunca estaria sóbrio o suficiente para juntar as peças das ausências dela com os ataques às suas caravanas. Além disso, ele pensava que suas viagens por Verão eram para fazer patrulhas contra ataques, e não por que ela era um deles. Ela era cuidadosa, também – sempre se assegurava de que alguns ataques fossem realizados enquanto ela permanecia à vista de todos na corte, assim ninguém poderia conectá-los a ela.
Embora fosse impossível mascarar os olhares que ela queria atirar em Simon agora. Olhares que ela poderia atirar diretamente para Jesse.
Sempre foi rotina esconder seu desdém do irmão, mas algo sobre aqueles escravos em particular, sobre aquele reino em particular – aquilo soava como um desafio. Simon sabia o que Ventralli significava para ela – ou pelo menos, o que o rei de lá significava. Mas Simon não sabia que era ela que liderava os ataques contra ele, então como isso poderia ser um desafio? Como algo disso poderia ter algo a ver com ela? Não tinha, não tinha. Ceridwen soltou uma respiração trêmula.
— Irmã!
A voz de Simon explodiu atrás dela, ecoando por todo o corredor. Ceridwen parou, olhos se fechando antes de ela se virar e notar as duas garotas sob os braços de Simon, ambas tão intoxicadas quanto seu rei, vestindo espartilhos e pouco mais que isso. Elas eram veranianas, suas marcas de “V” há muito curadas, seus corpos aceitando a nuvem de alegria que Simon espalhava com seu condutor. Ele meramente usava mágica para torná-las maleáveis.
Nenhuma quantidade de magia veraniana poderia afetar um estrangeiro, no entanto. Nada poderia fazê-los gostar da vida que Simon forçava a eles.
O trio cambaleou pelo corredor até ela, chutando partes do teto quebrado em seu caminho, mãos esticadas traçando linhas ao longo das paredes. O brilho das poucas arandelas que funcionavam os iluminava, colorindo mechas reluzentes em seus cabelos ruivos enquanto eles paravam, Simon dando seu usual sorriso torto.
— Irmã, esqueça os seus compromissos nesse fim de semana. Nós daremos início à semana de festejos em honra a — ele pausou, lábios torcendo — novos visitantes. Deveremos ter algum entretenimento.
Ele quis dizer os ventrallianos, sem dúvida. Não houvera tempo suficiente para ele ouvir sobre os saqueadores que impediram sua última importação.
Ela grunhiu para ele, e os olhos de Simon se estreitaram. Mas discutir com ele seria óbvio demais, e negar completamente levaria à suspeita, o que poderia trazer à luz o que ela estava realmente fazendo. Ela não poderia arriscar.
Então Ceridwen inalou, enchendo seus pulmões com os aromas de sua juventude. Pó e vinhas geminando e calor, sempre calor, descendo sobre ela e preenchendo-a e dançando sobre sua pele com a energia de um milhão de sóis. Calor permitiu-lhe saber que ela não estava sozinha. Ela era parte de Verão, e Verão era parte dela, e a terra também não a abandonaria.
— É claro, meu rei — ela disse, clara e sonoramente. — O que meu lorde desejar.
O sorriso torto de Simon retornou. Ele desenrolou os braços das garotas e se inclinou na direção de Ceridwen, balançando através dos redemoinhos de partículas de poeira.
— Bom — ele falou. Seus olhos encontraram os dela, castanhos escuros, profundos e injetados de sangue. Ele parecia tanto com o pai deles. — Porque você é minha irmã, Cerie — ele continuou, afastando o cabelo do rosto dela. Ela se encolheu quando o metal quente do bracelete dele roçou sua bochecha, o condutor, um bracelete de ouro com uma única pedra turquesa no centro. — Você trabalha tão duro para manter nosso reino salvo, e eu quero apenas que você seja feliz.
— Meu rei é tão bom — as palavras prenderam na língua dela como sujeira da estrada. Simon manteve o condutor tocando a bochecha dela, enviando uma fagulha através do seu corpo que fez seus membros formigarem. Ela lembrava desse sentimento, como seu pai costumava passar os dedos por seu cabelo e ela sentia a maior onda de adoração por ele, uma névoa que a fazia ignorar tudo de ruim que acontecia ao redor dela.
Despertar dessa névoa tinha sido muito fácil uma vez que ela percebeu que outras pessoas não eram tomadas por ela. Os veranianos que não eram escravos, os pobres, o povo nas vilas afastadas. Pessoas tristes e marcadas que a lembravam de ratos correndo mais à visão de um gato que de fogo, veranianos imparáveis que ela conheceu em Juli. Veranianos que dançavam tarde na noite, girando seus corpos ao redor de chamas rugidoras; veranianos que bebiam e riam e nunca paravam de sorrir.
Ela pensava em seu reino como um reino de luz. Foi um golpe quando ela percebeu que aquela luz vinha do condutor de Verão, e mesmo que fosse uma magia escura, em declínio e drenada, era usada tão frequentemente para manter a corte de Verão feliz que mal restava qualquer poder.
E agora Simon estava tentando usar parte do que restava nela. Algo mudou nos olhos dele, surgindo de seu ignorante estupor ébrio e trazendo uma aparência que ela conhecia bem nele – cruel, satisfeito, perdido no poder daquela coisa em seu punho. Alguma parte do garoto com quem ela cresceu ainda existia no homem? Ele sequer considerara deixar seu condutor descansar, regenerar, assim eles teriam magia suficiente para curar sua terra?
— Você tem sorte por eu ser bom — Simon crocitou, e Ceridwen sentiu o desperdício de seu desejo. Não, ele nunca considerou nada além do momento à frente. Assim como todo rei de Verão.
Simon encheu uma mão dos cachos dela, correndo os fios por entre os dedos enquanto um canto de sua boca se curvava em um sorriso severo.
— Você tem sorte que tudo o que eu queira seja trazer alegria a todos sob meu comando, eles temam ou não essa felicidade. Eu apenas quero que você seja feliz, irmã.
Ceridwen estremeceu, suas mãos segurando o pulso de Simon por instinto, enquanto ele continuava a brincar com o cabelo dela. O condutor enviou calor através de seus dedos, uma onda de sugestão a atingindo vindo das vontades de Simon. Me ame, irmã. Me obedeça, irmã. Poder, tanto poder, poder em que o pai deles afundou, poder que Simon usou para transformar Verão em seu parque de prazeres, poder contra o qual ela nunca poderia lutar, nunca se defender.
Ceridwen fechou os olhos, respirando profundamente, acalmando sua raiva e frustração e a corrente de ódio que rugia que a enfraquecia contra o condutor de Simon. Então ela se rearranjou, olhou para ele e sorriu como se seu poder a tivesse afetado.
— Você é o mais bondoso dos reis — ela falou. — Eu me juntarei a você para a chegada dos novos visitantes.
Simon sorriu e a soltou, seus lábios retornando ao confortável sorriso de bêbado. Ele abraçou uma das garotas de Madame Tia e segurou a outra pelo pescoço, fazendo a garota dar risadinhas enquanto o trio se afastava.
Ceridwen permaneceu no corredor, ouvindo a risada deles até se esvanecer. Ela esfregou sua bochecha, os efeitos persistentes do condutor fazendo a sua pele doer.
Se o condutor de Verão fosse ligado à linhagem feminina, ela poderia desviar sua magia das ondas de prazer que Simon irradiava em sua corte e nos veranianos capturados, das névoas de intoxicação que mesmo seu avô costumava usar para controlar a terra. A névoa de felicidade – qual era o bem disso? Ninguém via o lado ruim de uma coisa, ninguém além de Ceridwen e seu pequeno bando de combatentes da liberdade.
Ceridwen continuou a seguir pelo corredor, Verão não era de uma linhagem feminina. Era pela linhagem masculina, e por causa disso, seu condutor poderia apenas ser usado para coisas que Simon julgasse divertidas. Enquanto os pobres morriam, enquanto os doentes pioravam, enquanto suas tropas permaneciam bêbadas em suas barracas. Enquanto Ceridwen se desdobrava para encontrar aliados que pudessem oferecer assistência onde Verão precisava, apenas para descobrir cidadãos daquele reino mais próximo de um aliado na caravana de seu irmão.
Ela passou por um poço de fogueira, e onde o nascimento do calor costumava revigorá-la, agora ela sentiu apenas uma coisa.
Fraqueza.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!