5 de fevereiro de 2019

O ataque


Ceridwen se posicionou próxima da curva no tronco de árvore e esperou que a caravana se aproximasse. Os intoxicantes aromas da manhã de Verão tomou seus sentidos: suas ondas de calor, árvores secando com o calor do sol, o chão ardendo e implorando pelas chuvas de meio de ano.
Ela pressionou seus dedos nos sulcos da casca áspera. Simon costumava persegui-la por árvores como esta. Às vezes depois de seus estudos, ele saía com Ceridwen para a floresta de plantas no jardim de seu palácio – rosas-do-deserto com seus núcleos marfim-claros e magenta, aloe que curandeiros poderiam colher frescas do jardim, e tantas variedades de suculentas, flores e árvores que levaria dias para recitar seus nomes.
Seu jardim enclausurado poderia tê-los mantido a salvo quando crianças, mas agora que Simon era rei, não mais o salvaria de bandidos.
Especialmente quando Ceridwen era um deles.
Tunc-tunc.
Rodas de carruagem.
Ceridwen se moveu, o lenço bege que usara para cobrir o rosto se enroscando na casca da árvore enquanto ela observava de lado. A árvore reta, que crescia com um tronco delgado, cortava a paisagem vazia. Um ponto de luz brilhou de um dos galhos, sinalizando para ela.
Estamos em posição.
Ceridwen deslizou uma adaga de sua bainha no quadril e permaneceu perto do galho, invisível com suas roupas. Ela esperou, tornando sua respiração mais lenta, controlando suas expirações, até que cada movimento, cada pensamento, cada parte dela se tornou parte da árvore.
Então ela as viu. Três carruagens, suas traseiras completamente fechadas como caixas de viagem, vindo pela estrada, poeira redemoinhando ao redor de suas rodas de madeira. Bois puxavam cada uma delas, seus chifres de marfim e couro peludo sujos da viagem com mestres negligentes. Um condutor para cada carroça, e um soldado trotando ao lado. Seis homens.
O solo de Verão beberia muito sangue hoje.
A caravana se aproximou, cada carroça balançando no chão não-nivelado. Os raios do sol iluminavam o monte, incidindo direto nos olhos dos soldados. Em alguns momentos, o primeiro deles estaria cego pelos mais breves segundos, tempo suficiente para não vê-la chegando.
A aspereza do tronco da árvore lacerou as palmas de Cerridwen quando ela se impulsionou para longe dele, o corpo se curvando através do ar, adaga pronta em um punho fechado. O soldado mal teve tempo de olhar para cima antes de ela pousar no cavalo atrás dele e enfiar sua adaga no pescoço dele. Algo quente espirrou na mão de Ceridwen quando ela libertou sua lâmina e se virou para o corpo do soldado no chão. Ela habilmente limpou o sangue com a ponta do casaco e agarrou o cavalo pelas rédeas, incitando o corcel para frente, rápido, bloqueando a caravana de seguir em frente.
O resto de seu bando surgiu ao redor da caravana, arrancando condutores de seus bancos e plantando flechas em seus corpos. Em menos de duas respirações tudo foi feito, o chão coberto por homens morrendo.
Ceridwen incitou seu cavalo até a primeira carruagem enquanto outros membros de seu bando se aproximavam das duas remanescentes. Ela desmontou logo em frente à porta, próxima da grande corrente de ferro que mantinha a carga a salvo do lado de dentro.
— Chave? — Ceridwen pediu enquanto embainhava sua adaga e arrancava o seu lenço da cabeça. Mechas de cabelo cor de fogo a envolveram e ela respirou fundo, mas mesmo a carícia do calor do sol fez pouco para desacelerar a adrenalina que corria através dela. Seus membros tremiam com cada movimento das carruagens que permaneciam trancadas.
Uma agitação se seguiu, com seus companheiros procurando nos bolsos dos homens caídos.
— Sim — veio um chamado. Lekan se aproximou, um aro com uma chave em sua mão.
Ela a pegou dele. A pesada corrente caiu, fazendo um clangor na sujeira aos pés de Ceridwen. Ela passou o aro para o homem perto dela, que se apressou até a próxima carruagem. Lekan continuou perto de Ceridwen, sua presença um peso confortador.
Um inspirar, um expirar, e ela abriu as portas da carruagem.
Luz penetrou na escuridão da carroça, revelando um aglomerado de faces piscando para ela ao brilho do sol de Verão. Alguns sangravam, alguns tinham arranhões, mas todos tinham uma marca na bochecha direita.
Apenas os mais baixos dos mais baixos recebiam marcas: os prisioneiros que seriam levados para os bordeis.
A despeito do preço pago pelos cativos atraentes, marcar uma posse era uma maneira inegável de os veranianos mostrarem seu triunfo, além de ser menos provável que eles escapassem ou fossem roubados. O “V” seria elegante se não fossem os inchaços de carne derretida e chamuscada ao redor, vermelho e em carne viva.
Os companheiros de Ceridwen a contornaram, enchendo a carruagem com água, oferecendo bandagens ou nutrição aos prisioneiros atordoados.
Vamos rápido, por favor, nós temos que nos apressar, eles murmuravam. Quanto mais ficarmos aqui, menor a chance de conseguirmos levá-los até a fronteira.
— Vocês estão nos libertando?
Ceridwen pegou um menininho enquanto ele tropeçava para fora da carruagem. Ele olhou para cima, para ela, o V ainda recente repuxando a pele de sua bochecha e fazendo o seu olho saltar de uma maneira nada natural. Suas pupilas assentavam-se em um vórtex cor de amêndoa que se destacava de sua pele dourada. Ele tocou a área ao redor de seu olho com estranheza, piscando para o brilho do sol, o calor, e...
Pela chama e pelo calor.
Ele não estava piscando por causa do brilho do sol. Ceridwen vira essa reação antes.
— Sim — ela se forçou a dizer.
O garoto se equilibrou na poeira e aceitou o cantil de água que um dos companheiros dela lhe ofereceu. Ceridwen moveu seus olhos para a mulher que veio atrás do garoto, e o homem atrás dela, e para os outros prisioneiros que agora saíam para o sol quente de Verão. Todos eles oscilavam, seguravam as cabeças ou tocavam a pele ao redor dos olhos, alguns pressionando suas novas marcas cautelosamente, mas a maioria explorando seus próprios rostos como se não estivessem acostumados a estar tão expostos.
Porque eles não estavam. Se esses prisioneiros eram de onde Ceridwen achava, então cada cidadão daquele reino costumava usar máscaras. Mas coisas como essas eram consideradas frívolas em Verão, onde rostos que precisavam ser descobertos para alcançar o mais alto preço.
— Vocês são de onde? — ela se ouviu perguntar.
Todos os relatórios de seus companheiros falavam de coletas na capital de Yakim, Putnam. Mas veranianos reverenciavam yakimianos por sua pele escura, seus olhos castanhos, seus cabelos negros iluminados por tons de castanho, não os matizes do dourado outoniano. E pelo o que Ceridwen vira até agora, nada de pele azeitonada. Nada de olhos cor de avelã. Essas pessoas eram de...
— Ventralli — uma mulher completou o pensamento de Ceridwen.
A boca de Ceridwen caiu aberta e todo o ar evaporou para fora dela. Ela olhou para Lekan, concentrou-se em seus olhos escuros, sua pele morena, o modo como seus cachos vermelhos assemelhavam-se mais com um buquê de rosas do que com cabelo. Ela viu a mesma preocupação cruzar seu rosto com uma careta tensa: Simon comprara apenas poucas dúzias de pessoas de fora de Verão a cada ano. Uma vez que eles não eram veranianos e não podiam ser influenciados pelo condutor de Verão, esses escravos não podiam ser controlados via mágica como veranianos. Poucos escravos estrangeiros garantiam que eles não se ergueriam contra Simon ou causariam problemas. Embora Simon se vangloriasse que um dia estenderia suas compras a outros reinos, Ceridwen esperava que ele não fosse estúpido o suficiente para tentar.
Mas algo sempre dissera a ela que ele tentaria. Algo que a fez implorar que o rei de Ventralli protegesse seu povo de Simon. Porém mais que política, Jesse não teria vendido ninguém a Simon porque Ceridwen estava...
Porque eles ainda estavam...
Os olhos de Lekan vincaram quando ele forçou um sorriso reconfortante.
— Talvez tenham feito isso sem o conhecimento dele. Talvez não tenha sido ele?
Ceridwen sentiu a refutação dançar em sua língua, as palavras queimando buracos em sua boca. Mas ela sentiu algo ainda maior a sobrepujá-la. Ela sabia quem mais poderia ter feito isso.
A rainha ventralliana.
Da última vez que ela estivera em Ventralli, mais de seis meses atrás para alguma celebração em honra a um rei morto há muito tempo – ou pelo menos essa foi a sua frágil desculpa – Jesse jurara para ela que nunca permitiria que as conquistas de seu irmão chegassem a Ventralli. Antes de Simon, quase não se ouvia falar de coletas fora de Verão. Mas quanto mais seu pai ficara, mais Simon exercera seu controle sobre os recursos de Verão até que o rei finalmente morreu e Simon não precisou mais fingir. Ele varreu Primoria com um deleite infantil, firmando mais comércio humano com Yakim e Primavera. Tomou tudo o que Ceridwen tinha evitar mesmo um punhado dos negócios de Simon, e Jesse prometera que ajudaria.
Pela chama e pelo calor, Jesse jurara para ela. Ele dissera que colocaria mais homens nas fronteiras de Ventralli. Prometera que checaria pessoalmente cada patrulha. Ela o fez jurar que não deixaria nem mesmo sua mulher demovê-lo disso.
Ele prometera.
Ceridwen enterrou seus dedos no antebraço de Lekan.
— Tire-os daqui — ela grunhiu, as palavras queimando contra o barulho dos prisioneiros balbuciando sua apreciação.
Lekan se virou para a multidão.
— Por favor, todo mundo, se puderem prestar atenção em mim, nós temos que nos mover rápido se quisermos que vocês saiam em segurança de Verão. Nós temos carruagens do outro lado desses montes que os levarão até um campo de refugiados. Vocês estarão a salvo lá, mas temos que nos apressar...
Ceridwen se afastou, suas botas formando redemoinhos de poeira. Eles não precisavam da ajuda dela com o transporte, e justo agora ela não precisava estar ali.
Ela pulou por cima de uma árvore caída, correndo até o calor de Verão entorpecer cada nervo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!