11 de fevereiro de 2019

Longas Sombras


Matthew Fairchild é o filho mais novo de Charlotte e Henry Fairchild e dono de um bom humor invejável; raramente se irrita. Ele tem o respeito de sua família e de seu parabatai, James Herondale, e não precisaria se incomodar com mais nada, mas seu humor, talento artístico e beleza não parecem se encaixar no modo de vida de um guerreiro. Mas Matthew recebe mais do que esperava no Mercado das Sombras, onde ele comete o maior pecado de sua vida – algo que ele nunca poderá contar ao seu parabatai ou a qualquer um dos honoráveis Caçadores de Sombras.


Londres, 1901

O viaduto ferroviário passava a um fio de cabelo da igreja de St. Savior. Os mundanos chegaram a discutir a possibilidade de demolir o templo para dar lugar aos trilhos, mas o projeto encontrou uma oposição inesperadamente feroz. Então a ferrovia seguiu uma rota um pouco mais longa, e o pináculo da igreja permaneceu, uma adaga de prata contra o céu noturno.
Durante o dia, sob os arcos, cruzes e dormentes barulhentos, tinha lugar um mercado mundano, a maior associação de merceeiros da cidade. À noite, o local pertencia ao Submundo.
Vampiros e lobisomens, feiticeiros e fadas se encontravam sob as estrelas e sob feitiços impenetráveis a olhos humanos. Suas barracas mágicas eram dispostas da mesma forma que as dos humanos, debaixo das pontes e em ruelas, mas as barracas do Mercado das Sombras não exibiam maçãs nem rabanetes. Sob os arcos escuros, elas brilhavam, enfeitadas com sinos e laços, cheias de cor: verde serpente, vermelho febril e o laranja intenso das chamas. Irmão Zachariah sentiu o cheiro de incenso queimando, e ouviu as canções dos lobisomens para a beleza distante da lua e as fadas gritando para as crianças venham, venham.
Era o primeiro Mercado das Sombras de Ano Novo inglês, apesar de ainda ser o ano velho na China. Irmão Zachariah havia deixado Xangai, na infância, e Londres, aos 17 anos, para ir até a Cidade do Silêncio, onde não se registrava a passagem do tempo, exceto pelo fato de que havia mais cinzas de guerreiros ali. Ele ainda se lembrava das celebrações de Ano Novo de sua vida humana, das gemadas e das adivinhações em Londres, dos fogos e bolinhos de Xangai.
Agora a neve caía em Londres. O ar estava frio e tenro, como uma maçã fresca, e agradável ao rosto. As vozes de seus Irmãos não passavam de um murmúrio em sua cabeça, o que dava ao Irmão Zachariah a chance de se distanciar um pouco.
Ele viera em uma missão, mas reservou um momento para apreciar o fato de estar em Londres, no Mercado das Sombras, respirando um ar sem o pó dos mortos. Parecia algo como liberdade, como ser jovem outra vez. Ele se alegrou, mas isso não significava que as pessoas do Mercado das Sombras se alegravam também. Observou muitos integrantes do Submundo, e até mundanos com a Visão, lançando olhares que eram o oposto de receptivos. Enquanto se movia, um murmúrio sombrio o perseguia através do burburinho ao redor.
Os habitantes do Submundo consideravam aquele horário do Mercado como um espaço arrancado dos anjos. Era evidente que não apreciavam sua presença entre eles.
O Irmão Zachariah era um dos Irmãos do Silêncio, uma fraternidade sem voz que vivia longamente entre velhos ossos, que jurava reclusão e tinha o coração dedicado ao pó de sua cidade e de seus mortos. Ninguém acolheria um Irmão do Silêncio, e essas pessoas provavelmente não ficariam felizes com um Caçador de Sombras tampouco.
Mesmo duvidando, ele viu algo mais estranho que qualquer coisa típica do Mercado. Um Caçador de Sombras menino dançava cancã com três fadas. Era o filho mais novo de Charlotte e Henry Fairchild, Matthew Fairchild. A cabeça estava jogada para trás, os cabelos claros brilhavam com a luz do fogo, e ele ria. Irmão Zachariah teve um instante para imaginar se Matthew estava enfeitiçado antes de o menino avistá-lo e avançar, deixando as fadas desconcertadas. O Povo das Fadas não estava acostumado a ver mortais abandonando suas danças.
Matthew não pareceu notar. Correu até o Irmão Zachariah, abraçou-o e enfiou a cabeça no capuz do Irmão do Silêncio para lhe dar um beijo na bochecha.
— Tio Jem! — exclamou alegremente. — O que está fazendo aqui?


Idris, 1899

Matthew Fairchild raramente se irritava. Quando o fazia, tentava tornar a ocasião memorável. A última vez fora há dois anos, durante a breve temporada na Academia dos Caçadores de Sombras, uma escola com o objetivo de produzir em massa perfeitos e chatos combatentes de demônios.
Começou com metade da escola amontoada no alto de uma torre, observando a chegada dos pais após certo incidente com um demônio no bosque. O bom humor habitual de Matthew já havia sido testado à exaustão. Seu melhor amigo, James, levara a culpa pelo incidente simplesmente porque tinha uma quantidade ínfima e insignificante de sangue de demônio, e a sortuda e prodigiosa — julgava Matthew — habilidade de se transformar em sombra. James fora expulso. Os verdadeiros culpados, o perfeito idiota Alastair Carstairs e seus amigos detestáveis, não.
Sem dúvida, a vida como um todo, e a Academia, em particular, era um desfile de injustiças. Matthew sequer tivera a chance de perguntar a James se ele queria ser seu parabatai. Estava planejando pedir que fosse seu parceiro de um jeito tão elaborado e estiloso que Jamie ficaria impressionado demais para recusar.
O Sr. Herondale, pai de James, foi um dos primeiros a chegar. Eles o viram atravessar a porta com os cabelos negros revoltos pelo vento e a raiva. Ninguém podia negar que o Sr. Herondale tinha um ar imponente. As poucas meninas com permissão de frequentar a Academia lançavam olhares especulativos a James, que caminhava de um lado para o outro, a cara metida em um livro; exibia um corte de cabelo infeliz e um comportamento modesto, mas uma semelhança bastante acentuada com o pai.
James, que o Anjo abençoe sua alma desligada, não notou a atenção de ninguém. Estava encolhido por ser expulso, afogado no desespero.
— Meu Deus! — exclamou Eustace Larkspear. — Seria uma coisa ter um pai assim.
— Ouvi dizer que ele é louco — comentou Alastair, e soltou uma risada alta. — É preciso loucura para se casar com uma criatura de sangue infernal e ter filhos que...
— Pare — interrompeu o pequeno Thomas baixinho. Para surpresa de todos, Alastair revirou os olhos e desistiu.
Matthew queria ser o responsável por parar Alastair, mas Thomas já o tinha feito, e ele não conseguia pensar em nenhuma maneira de conter Alastair permanentemente, exceto desafiando-o para um duelo. E não tinha nem certeza de que isso funcionaria. Alastair não era covarde, provavelmente aceitaria o duelo e, depois, ainda falaria duas vezes mais. Além disso, arranjar brigas não era exatamente o estilo de Matthew. Ele sabia lutar, mas não achava que violência resolvia muitos problemas.
Além do problema dos demônios soltos pelo mundo, é claro.
Matthew deixou o topo da torre abruptamente, e vagou pelos corredores da Academia, amuado. Apesar de estar comprometido com o mau humor, sabia que não podia perder Christopher e Thomas Lightwood de vista por muito tempo.
Quando tinha 6 anos, o irmão mais velho de Matthew, Charles Buford, e sua mãe saíram para uma reunião no Instituto de Londres. Charlotte Fairchild era a Consulesa, a pessoa mais importante entre os Caçadores de Sombras, e Charles sempre se interessou pelo trabalho, em vez de se chatear com os Nephilim lhe tomando o tempo. Enquanto se preparavam para sair, Matthew chorava no corredor, se recusando a soltar o vestido da mãe.
Mamãe se ajoelhou e pediu que Matthew tomasse conta de Papai enquanto ela e Charles estivessem fora.
Matthew levou a responsabilidade a sério. Papai era um gênio e, para a maioria das pessoas, um inválido porque não podia andar. A não ser que fosse observado com atenção, ele se empolgava com suas invenções e se esquecia de comer. Papai não podia se virar sem Matthew, razão pela qual era um absurdo que sequer o tivessem mandado para a Academia.
Matthew gostava de tomar conta das pessoas, e era bom nisso. Aos 8 anos, Christopher Lightwood tinha sido encontrado no laboratório de seu pai, realizando o que Papai descreveu como um experimento bastante intrigante. Matthew dera pela falta de uma das paredes do laboratório e passou a cuidar de Christopher também.
Christopher e Thomas eram primos de verdade, porque seus pais eram irmãos. Matthew não era primo de verdade: ele apenas chamava os pais de Christopher e Thomas de tia Cecily, tio Gabriel, tia Sophie e tio Gideon por cortesia. Seus pais eram apenas amigos. Mamãe não tinha parentes próximos, e a família de Papai não aprovava o fato de mamãe ser Consulesa.
James era primo de sangue de Christopher. Tia Cecily era irmã do Sr. Herondale. O Sr. Herondale comandava o Instituto de Londres, e os Herondale tendiam a ser discretos. Pessoas maldosas diziam que era por serem esnobes e se considerarem superiores, mas Charlotte dizia que essas pessoas eram ignorantes. Ela contou a Matthew que os Herondale eram discretos, pois já tinham sido destratados pelo fato de a Sra. Herondale ser feiticeira.
Mesmo assim, quando se dirigia um Instituto não se era completamente invisível. Matthew já encontrara James em muitas festas antes de tentar ser seu amigo, só que nunca conseguia, porque achava que deveria contribuir para o sucesso das festas e James normalmente ficava em um canto, lendo.
Matthew não tinha dificuldade em fazer amigos, mas não via razão para tanto, a não ser que encontrasse um desafio. Amigos fáceis de se fazer podiam ser fáceis de se perder, e Matthew queria manter as pessoas por perto.
Foi uma grande tristeza quando James pareceu não gostar nem um pouco de Matthew, mas Matthew o conquistou. Ele ainda não sabia exatamente como, o que o deixava inquieto, mas James recentemente havia se referido a si próprio, Matthew, Christopher e Thomas como os Três Mosqueteiros e d’Artagnan, mencionando um livro do qual gostava. Estava tudo indo maravilhosamente bem, exceto pela saudade de Papai, mas agora James tinha sido expulso e tudo fora arruinado. Mesmo assim, Matthew não poderia se esquecer de suas responsabilidades.
Christopher tinha uma relação tempestuosa com as ciências, e o professor Fell ordenara que Matthew não deixasse o outro menino entrar em contato com material inflamável depois da última vez. Thomas era tão quieto e pequeno que eles o viviam perdendo, como se fosse uma bolinha de gude humana; se ficasse por conta própria, inevitavelmente gravitaria na direção de Alastair Carstairs.
Aquela era uma situação terrível com apenas um lado bom. Era uma questão fácil localizar Thomas quando ele se perdia. Matthew só precisava seguir o som da voz irritante de Alastair.
Infelizmente isso significava ser forçado a encarar o rosto irritante de Alastair.
Ele logo o encontrou, olhando por uma janela, com Thomas parado timidamente a seu lado.
A idolatria de Thomas era inexplicável. As únicas coisas que Matthew conseguia achar boas em Alastair eram suas sobrancelhas extraordinariamente expressivas, e sobrancelhas não diziam nada sobre um homem.
— Você está muito triste, Alastair? — Matthew ouviu Thomas perguntar ao se aproximar, decidido a se recuperar.
— Pare de me incomodar, seu inútil — disse Alastair, embora sua voz soasse tolerante. Nem ele conseguia se opor muito à adoração.
— Você ouviu essa cobra vil — disse Matthew. — Vamos, Tom.
— Ah, Galinha Mãe Fairchild — desdenhou Alastair. — Você será uma ótima esposa para alguém um dia desses.
Matthew ficou furioso ao ver o sorrisinho de Thomas, apesar de o menino ter disfarçado rapidamente em respeito aos sentimentos do amigo. Thomas era dócil e muito afligido pelas irmãs. Ele parecia achar que a grosseria indistinta de Alastair era ousadia.
— Gostaria de poder dizer o mesmo sobre você — retrucou Matthew. — Nenhuma alma bondosa pensou em lhe dizer que seu penteado é, para colocar da forma mais gentil possível, contraindicado? Um amigo? Seu pai? Ninguém se importa o suficiente para impedi-lo de fazer papel de ridículo? Ou você simplesmente está ocupado demais fazendo maldades para se incomodar com sua péssima aparência?
— Matthew! — exclamou Thomas. — O amigo dele morreu.
Matthew queria muito observar que foram Alastair e os amigos que soltaram um demônio em James, e que a conclusão da pegadinha foi merecida.
Mas percebia que isso deixaria Thomas muito perturbado.
— Muito bem. Vamos — chamou. — Mas não consigo parar de pensar em quem teve a ideia de fazer esse truque horroroso.
— Espere um minuto, Fairchild. — Alastair se irritou. — Você pode ir, Lightwood.
Thomas parecia extremamente preocupado ao sair, mas Matthew podia perceber que ele detestaria desobedecer ao ídolo. Quando os olhos preocupados do menino se voltaram para Matthew, ele fez que sim com a cabeça e Thomas se foi, relutante.
Depois que ele saiu, Matthew e Alastair se prepararam para a briga. Matthew entendeu que Alastair tinha mandado Thomas se retirar por um motivo. Ele mordeu o lábio, resignado a brigar.
— Quem é você para bancar o moralista, falando sobre truques e papais, dadas as circunstâncias do seu nascimento? — disse Alastair, no entanto.
Matthew franziu o rosto.
— Do que está falando, Carstairs?
— Todo mundo fala sobre a sua mãe e suas atitudes nada femininas — respondeu o terrível e monstruoso verme Alastair Carstairs.
Matthew fez uma careta, zombando, mas Alastair levantou a voz e insistiu:
— Uma mulher não pode ser uma boa Consulesa. Mesmo assim, sua mãe prossegue na carreira, claro, considerando que tem tanto apoio dos poderosos Lightwood.
— Nossas famílias são amigas, sim — disse Matthew. — Você não conhece o conceito de amizade, Carstairs? Que coisa trágica para você, embora compreensível para todas as outras pessoas do universo.
Alastair ergueu as sobrancelhas.
— Ah, grandes amigos, sem dúvida. Sua mãe deve precisar de amigos, considerando que seu pai não consegue fazer o papel de homem.
— Como é? — perguntou Matthew.
— Estranho você ter nascido tanto tempo depois do terrível acidente de seu pai — comentou Alastair, que só faltava mexer em um bigode imaginário. — É estranho que a família de seu pai não queira saber de vocês, a ponto de pedirem que sua mãe renuncie ao nome de casada. E é curioso que você não se pareça em nada com seu pai, e a cor de seu cabelo seja tão parecida com a de Gideon Lightwood.
Gideon Lightwood era o pai de Thomas. Não foi à toa que Alastair mandou o menino se retirar antes de fazer uma acusação ridícula dessas. Absurdo! Era verdade que Matthew tinha cabelo claro, que os cabelos de sua mãe eram castanhos, e os de seu pai e de Charles Buford, ruivos. A mãe de Matthew era pequenina, mas Cook achava que Matthew seria mais alto que Charles Buford. Tio Gideon frequentemente estava com Mamãe. Matthew sabia que ele a defendera quando ela se desentendeu com a Clave. Mamãe certa vez o chamou seu grande e fiel amigo. Matthew jamais pensara muito no assunto. Sua mãe dizia que seu pai tinha um rosto tão querido, sardento e amigável. Matthew sempre quis ser parecido com ele.
Mas não era.
— Não entendo o que está querendo dizer — replicou Matthew, a voz estranha aos próprios ouvidos.
— Henry Branwell não é seu pai — disparou Alastair. — Você é o bastardo de Gideon Lightwood. Todo mundo sabe, menos você.
Com uma fúria cega, Matthew acertou em cheio o rosto do outro menino. Depois foi atrás de Christopher, limpou a área e lhe entregou fósforos.
Um tempo curto, porém, marcante, se passou até Matthew deixar a escola para nunca mais voltar. Nesse período, uma ala da Academia explodiu.
Matthew sabia que tinha sido uma coisa muito chocante a se fazer, mas, enquanto estava fora de si, também pediu que James fosse seu parabatai; por algum milagre, James concordou.
Matthew e seu pai deram um jeito de passar mais tempo na casa de Londres dos Fairchild para que o menino pudesse ficar com seu pai e seu parabatai. Matthew pensou que tudo acabara dando certo.
Se, ao menos, ele pudesse esquecer.


Mercado das Sombras, Londres, 1901

Jem parou no meio das chamas dançantes e dos arcos de ferro fundido do Mercado de Londres, surpreendido pela aparição de um rosto familiar em um contexto inesperado, mais ainda pelo calor da saudação de Matthew.
Ele conhecia o filho de Charlotte, é claro. O outro menino, Charles, sempre era muito frio e distante quando encontrava o Irmão Zachariah em assuntos oficiais.
Irmão Zachariah sabia que os Irmãos do Silêncio deveriam se desligar do mundo. O filho de seu tio Elias, Alastair, deixou isso bem claro quando ele tentou procurá-lo.
É assim que deve ser, disseram os Irmãos em sua mente. Ele nem sempre conseguia distinguir as vozes. Eram um coro quieto, uma canção silenciosa sempre presente.
Jem não teria se chateado com Matthew se ele tivesse a mesma opinião de tantos outros, mas não parecia o caso. Seu rosto alegre e delicado demonstrou claramente o abalo.
— Estou sendo íntimo demais? — perguntou ele, ansioso. — Só supus que, como sou parabatai de James e ele só o chama assim, eu também poderia.
Claro que pode, tranquilizou o Irmão Zachariah. James o chamava assim, e a irmã de James, Lucie, e a de Alastair, Cordelia, tinham passado a fazer o mesmo. Zachariah os considerava as três crianças mais doces do mundo. Ele sabia que podia ser um pouco parcial, mas a fé criava a verdade.
Matthew corou. Zachariah se lembrou de sua mãe, e da gentileza ao receber três órfãos quando ela mesma era pouco mais que uma criança.
— Falam sobre você o tempo todo no Instituto de Londres — revelou Matthew. — James, Lucie, tio Will e tia Tessa também. Tenho a impressão de que o conheço muito mais que de fato conheço, então peço perdão se estiver ultrapassando os limites.
Uma pessoa sempre bem-vinda não ultrapassa limite algum, assegurou Jem.
Matthew abriu um sorriso. Era uma expressão extraordinariamente envolvente. Sua afetuosidade era mais óbvia que a de Charlotte, pensou Jem. Ele nunca aprendera a se fechar, a fazer outra coisa além de se divertir e confiar no mundo.
— Eu gostaria de ouvir sobre suas aventuras com tio Will e tia Tessa de seu ponto de vista — propôs Matthew. — Vocês devem ter se divertido muito! Nada de emocionante acontece conosco. Do jeito que as pessoas falam, é de se pensar que você teve uma paixão frustrada por tia Tessa antes de se tornar um Irmão do Silêncio. — Matthew se conteve. — Desculpe! Minha língua escapou. Estou impetuoso e animado para falar adequadamente com você. Tenho certeza de que é estranho pensar em sua vida passada. Espero não tê-lo chateado ou ofendido. Peço paz.
Paz, ecoou o Irmão Zachariah, entretido.
— Tenho certeza de que você poderia ter tido um caso tórrido com quem quisesse, é claro — garantiu Matthew. — Qualquer um pode ver isso. Céus, isso foi algo impetuoso de se dizer, não foi?
É muito gentil de sua parte, disse o Irmão Zachariah. Não é uma bela noite?
— Vejo que você é um homem de muito tato — comentou Matthew, e deu um tapinha nas costas do Irmão Zachariah.
Eles caminharam pelas barracas do Mercado das Sombras. Irmão Zachariah estava procurando por um feiticeiro em particular, que tinha concordado em ajudá-lo.
— Tio Will sabe que está em Londres? — perguntou o menino. — Vai visitá-lo? Se ele descobrir que você esteve em Londres e não o visitou, e que eu sabia disso, será meu fim! Uma vida tão jovem interrompida no auge. Uma bela flor viril colhida tão antes da hora. Tio Jem, você deveria pensar em mim e em meu triste fim.
Deveria?, perguntou o Irmão Zachariah. Estava muito claro a que Matthew se referia.
— Também seria muito gentil de sua parte se não dissesse que me encontrou no Mercado das Sombras — resmungou Matthew, com seu sorriso envolvente e um claro ar de apreensão.
Irmãos do Silêncio são péssimos fofoqueiros, garantiu o Irmão Zachariah. Mas para você, Matthew, abrirei uma exceção.
— Obrigado, tio jem! — Matthew entrelaçou o braço com o de Jem. — Dá para ver que seremos ótimos amigos.
Deve ser um péssimo contraste aos olhos do Mercado, pensou Jem, ver esse menino viçoso dando o braço de forma tão descuidada a um Irmão do Silêncio, encapuzado e encoberto pela escuridão. Matthew parecia totalmente ignorante em relação à incongruência.
Acredito que seremos, disse Jem.
— Minha prima Anna disse que o Mercado das Sombras é muito divertido — emendou Matthew alegremente. — Você conhece Anna, claro. Ela é sempre muito divertida e tem o melhor gosto para coletes em Londres. Encontrei umas fadas agradáveis que me convidaram, e pensei que devia aceitar.
As fadas com as quais Matthew estava dançando antes passaram rapidamente; raios de luz com coroas de flores. Um menino fada, com lábios manchados pelo suco de uma fruta estranha, parou e piscou para Matthew. Ele não parecia chateado por ter sido abandonado na dança, mas aparências jamais são confiáveis quando se trata de fadas. Matthew hesitou, lançando um olhar cauteloso para o Irmão Zachariah, depois retribuiu a piscadela.
Irmão Zachariah sentiu que devia alertar:
Seus amigos podem ser traiçoeiros. Fadas frequentemente o são.
Matthew sorriu, e sua adorável expressão adquiriu um ar malicioso.
— Eu mesmo frequentemente sou traiçoeiro.
Não é exatamente o que quero dizer. Também não pretendo ofender ninguém do Submundo. Há tantos integrantes confiáveis quanto há Caçadores de Sombras, o que significa que o contrário também procede. Seria prudente lembrar que nem todos no Mercado das Sombras são favoráveis aos Nephilim.
— Quem pode culpá-los? — perguntou Matthew distraidamente. — É um bando pedante. Exceto por nós, tio Jem! Meu pai tem um amigo feiticeiro do qual fala sempre. Eles inventaram os Portais juntos, sabia? Eu também gostaria de ter um amigo íntimo no Submundo.
Magnus Bane seria um bom amigo para qualquer pessoa, concordou o Irmão Zachariah.
Teria sido desrespeitoso com Magnus, que sempre foi um bom amigo do parabatai de Jem, prolongar a questão de Matthew.
Talvez ele estivesse sendo cauteloso demais. Muitos membros do Submundo certamente se encantariam com o charme do menino. Will deixara claro que seu Instituto existia para ajudar integrantes do Submundo que buscassem ajuda, da mesma forma que mundanos e Caçadores de Sombras. Talvez aquela nova geração pudesse crescer em mais harmonia com os integrantes do Submundo que qualquer uma que a antecedera.
— Anna não está aqui hoje — acrescentou Matthew. — Mas você está, então tudo bem. O que vamos fazer juntos? Você está procurando alguma coisa em especial? Pensei que poderia comprar um livro para Jamie e Luce. Qualquer um serve. Eles adoram todos.
Jem ficou contente só de ouvi-lo falar sobre James e Lucie com tanto afeto.
Se encontrarmos um livro adequado, disse ele, vamos comprar. Prefiro que não seja um volume contendo feitiços perigosos.
— Pelo Anjo, não — garantiu Matthew. — Luce certamente leria. É um tanto destemida, de um jeito silencioso, a Lu.
Quanto a mim, disse Jem, tenho uma encomenda de alguém que estimo muito. Por respeito a essa pessoa, não posso falar mais nada.
— Entendo — disse Matthew, parecendo satisfeito por ter avançado tanto na confiança de Jem. — Não vou perguntar, mas posso ajudar de alguma forma? Você pode confiar em mim, se quiser. Amamos as mesmas pessoas, não é mesmo?
Agradeço sinceramente a oferta. Não havia como essa criança ajudá-lo, não na busca atual, mas sua presença fazia com que Zachariah se sentisse contagiado pelo deslumbramento de Matthew ao observar o Mercado, e eles seguiram, assimilando os sons e imagens juntos.
Barracas vendiam frutas de fadas, apesar de um lobisomem do lado de fora comentar que fora enganado e que não se devia fazer negócios com duendes. Havia barracas com toldos listrados de vermelho e branco vendendo caramelos, mas o Irmão Zachariah tinha dúvidas quanto a procedência. Matthew parou e deu risadas ao ver uma feiticeira de pele azul que fazia malabarismo com unicórnios de brinquedo, conchas de sereias e pequenas rodas de fogo, e flertou até ela revelar que seu nome era Catarina. Ela acrescentou que ele certamente não ia visitá-la, mas, quando ele sorriu, ela sorriu de volta. Irmão Zachariah imaginou que as pessoas normalmente fizessem isso.
O Mercado das Sombras parecia um tanto perplexo com Matthew. Estavam acostumados a Caçadores de Sombras à caça de testemunhas ou culpados, sem demonstrar grande entusiasmo. Matthew aplaudiu quando outra barraca se aproximou timidamente, caminhando com pés de galinha. Uma fada com cabelos de dentes de leão espiou entre frascos de muitos líquidos e luzes coloridas.
— Olá, bonitinho — cumprimentou ela, a voz áspera como um tronco.
— Com qual de nós você está falando? — perguntou Matthew, rindo e apoiando o cotovelo no ombro do Irmão Zachariah.
A fada encarou Zachariah, desconfiada.
— Uuuuh, um Irmão do Silêncio em nosso humilde Mercado. Os Nephilim considerariam uma honra para nós.
Você se sente honrada?, perguntou Zachariah, mudando levemente a postura, de modo a se colocar de forma protetora à frente de Matthew. Sem perceber, o menino se desviou de Zachariah para examinar os frascos à frente.
— Belas poções — elogiou, abrindo um sorriso para a mulher. — Você mesma os preparou? Muito bom. Isso faz de você uma espécie de inventora, não é mesmo? Papai é inventor.
— Fico feliz por receber qualquer pessoa que se interesse por minhas mercadorias — disse a mulher, inflexível. — Vejo que tem um papo de mel para combinar com seu cabelo. Quantos anos tem?
— Quinze — respondeu Matthew prontamente. Ele começou a remexer nos frascos, os anéis batendo contra os vidros e as tampas de madeira douradas e prateadas, conversando sobre o pai e as poções de fadas sobre as quais havia lido.
— Ah, quinze verões, e, pela aparência, foram todos dias de sol. Alguns diriam que só um rio de águas rasas pode brilhar tanto — disse a fada, e Matthew olhou para ela, como uma criança vulnerável, surpresa por qualquer mágoa que lhe fosse imposta. Seu sorriso sumiu por um instante.
Antes que Jem pudesse intervir, o sorriso voltou.
— Ah, sim. “Ele nada tem, mas aparenta tudo. O que mais pode alguém desejar?” — citou Matthew. — Oscar Wilde. Conhece sua obra? Ouvi dizer que fadas gostam de roubar poetas. Você definitivamente deveria tentar roubá-lo.
A mulher riu.
— Talvez tenhamos. Quer ser roubado, doce menino?
— Não acho que mamãe, a Consulesa, gostaria disso.
O sorriso radiante de Matthew não se alterou. A fada pareceu desconcertada por um instante; em seguida, retribuiu o sorriso. Fadas poderiam espetar como espinhos, pois é sua natureza, não por desejarem fazer mal.
— Esse é um feitiço de amor — indicou a fada, acenando com a cabeça para um frasco cheio de uma borbulhante substância rosa. — Não serve para você, Nephilim. Mas isso poderia cegar um adversário em batalha.
Imagino que sim, disse o Irmão Zachariah, examinando um frasco com areia cor de carvão.
Matthew ficou claramente satisfeito por ouvir sobre as poções. Zachariah tinha certeza de que o filho de Henry teria ouvido contos sobre os elementos diversas vezes durante o jantar.
— O que é isso? — perguntou o menino, apontando para um frasco roxo.
— Ah, mais um que não interessaria aos Nephilim — respondeu a fada, indiferente. — Que utilidade teria uma poção da verdade? Vocês, Caçadores de Sombras, não têm segredos entre si, pelo que sei. Além disso, vocês têm aquela Espada Mortal para provar que a pessoa não está mentindo. Embora eu ache isso brutal.
— É brutal — concordou Matthew veementemente.
A fada quase pareceu triste.
— Você vem de um povo brutal, doce criança.
— Eu não — disse Matthew. — Acredito em arte e beleza.
— Um dia você poderá ser impiedoso por isso.
— Não, nunca — insistiu Matthew. — Não dou a mínima para os costumes dos Caçadores de Sombras. Gosto muito mais da conduta do Submundo.
— Ah, você lisonjeia uma velha mulher — disse a criatura, acenando com uma das mãos, mas seu rosto enrugou, como uma maçã, feliz ao sorrir mais uma vez. — Agora venha, como você é um menino querido, deixe-me mostrar algo muito especial. O que acharia de um frasco de estrelas destiladas, garantindo vida longa a quem o portasse?
Basta, disseram as vozes na cabeça de Zachariah.
Caçadores de Sombras não barganham pelas próprias vidas, disse o Irmão Zachariah e puxou Matthew pela manga.
Matthew balançou os braços e chiou em protesto.
As poções da mulher provavelmente são água colorida e areia, comentou Zachariah. Não desperdice seu dinheiro nem faça qualquer outra negociação com as fadas. Você precisa ter cuidado no Mercado. Vendem dor tanto quanto sonhos.
— Ah, pois bem — aquiesceu Matthew. — Veja, tio Jem! Aquele lobisomem tem uma barraca de livros. Lobisomens são leitores surpreendentemente vorazes, sabe.
Matthew correu até lá e começou a fazer diversas perguntas a uma licantrope bem-vestido, que logo começou a ajeitar o cabelo e rir das bobagens do garoto. A atenção do Irmão Zachariah, de repente, foi capturada pelo feiticeiro que ele vinha procurando.
Espere por mim aqui, pediu, e foi encontrar Ragnor Fell perto de uma fogueira acesa sob um dos arcos.
O fogo crepitava, dando origem a faíscas verdes que combinavam com o rosto inteligente do feiticeiro, iluminando os cabelos brancos ondulados em volta de seus chifres.
— Irmão Zachariah — cumprimentou o feiticeiro, acenando com a cabeça. — É um prazer, mas gostaria de trazer notícias melhores. Enfim. Notícias ruins vêm como chuva, e as boas, como raios, que quase não se notam antes de um impacto.
Um pensamento alegre, disse o Irmão Zachariah, com o coração apertado.
— Fui a muitas fontes procurar a informação que pediu — começou Ragnor. — Tenho uma pista, mas devo lhe dizer... fui alertado para o fato de que essa busca pode ser fatal: que já se provou fatal para mais de uma pessoa. Realmente quer que eu siga a pista?
Quero, respondeu o Irmão Zachariah.
Ele queria mais. Quando encontrou Tessa na ponte naquele ano, ela pareceu preocupada ao conversarem. Foi um dia cinzento. O vento soprara seus cabelos castanhos para longe do rosto, marcado pela preocupação de um jeito que o tempo não conseguia. Às vezes, parecia que seu rosto era todo o coração que ele ainda tinha. Ele não podia fazer muito por ela, mas certa vez prometera passar a vida protegendo-a do próprio vento do céu. Ele pretendia manter a palavra pelo menos nisso.
Ragnor Fell assentiu.
— Vou continuar procurando.
Eu também, disse o Irmão Zachariah.
O rosto de Ragnor assumiu uma expressão profundamente alarmada. Irmão Zachariah se virou e viu Matthew, que tinha vagado novamente para a barraca de poções da fada.
Matthew, chamou o Irmão Zachariah. Venha cá.
O garoto acenou com a cabeça e foi, relutante, ajeitando o colete.
A expressão de alarme no rosto de Ragnor se intensificou.
— Por que ele está vindo para cá? Por que você faria isso comigo? Sempre o considerei um dos Caçadores de Sombras mais sensatos, não que isso seja muito difícil!
Irmão Zachariah examinou Ragnor. Era incomum ver o feiticeiro perturbado, e normalmente ele era muito discreto e profissional.
Achei que você tivesse uma história longa e querida de estima mútua com os Fairchild, argumentou o Irmão Zachariah.
— Ah, certamente — disse Ragnor. — E também tenho uma história querida de não explodir.
O quê?, perguntou Zachariah.
O mistério foi explicado quando Matthew viu Ragnor e sorriu.
— Ah, oi, professor Fell. — Ele olhou na direção de Jem. — O professor me deu aula na Academia antes de eu ser expulso. Muito expulso.
Jem sabia que James tinha sido expulso, mas não soubera que Matthew também o fora. Achou que o menino simplesmente tivesse decidido seguir seu parabatai, como qualquer um faria se pudesse.
— Seu amigo está com você? — perguntou Ragnor Fell, e estremeceu. — Christopher Lightwood está aqui? Nosso Mercado em breve será engolido por chamas?
— Não — respondeu Matthew, soando entretido. — Christopher está em casa.
— Em casa em Idris?
— Na casa dos Lightwood em Londres, mas é longe.
— Não o suficiente! — concluiu Ragnor Fell. — Vou imediatamente para Paris.
Ele acenou com a cabeça para o Irmão Zachariah, estremeceu visivelmente ao olhar para Matthew e virou as costas. O menino acenou tristemente para ele.
— Adeus, professor Fell! — gritou. Depois olhou para o Irmão Zachariah. — Christopher não teve a intenção de causar nenhum dos acidentes, e a grande explosão foi inteiramente minha culpa.
Entendo, disse o Irmão Zachariah.
Irmão Zachariah não tinha certeza se entendia.
— Você deve conhecer Gideon muito bem — observou Matthew, sua mente veloz embarcando em outro tópico.
Conheço, disse o Irmão Zachariah. Ele é um grande amigo.
Matthew deu de ombros.
— Se você diz. Gosto mais de meu tio Gabriel. Mas não tanto quanto de tio Will, é claro.
Will também sempre foi meu favorito, concordou Jem solenemente.
Matthew mordeu o lábio inferior e era evidente que refletia sobre alguma coisa.
— Gostaria de fazer uma aposta, tio Jem, de que consigo apagar aquele fogo com o pé nas costas?
Não, respondeu o Irmão Zachariah com convicção. Matthew, espere...
Matthew avançou para as chamas que irradiavam uma luz jade, e saltou. Girou no ar, seu corpo esguio e vestido de preto voando como uma adaga arremessada por alguém bem-treinado, e aterrissou de pé na sombra do pináculo da igreja. Após um instante, diversos membros do Mercado das Sombras começaram a aplaudir. Matthew fingiu tirar um chapéu imaginário e fez uma reverência com um floreio.
Seu cabelo era dourado mesmo perto daquelas estranhas chamas; seu rosto alegre, mesmo à sombra. Irmão Zachariah ouviu a risada do menino, e um mau presságio invadiu seu coração. De repente, ele sentiu medo por Matthew, por todas as crianças alegres e amadas de seus queridos amigos. Quando tinha a idade de Matthew, ele e Will passaram por fogo e prata ardente. Sua geração sofreu para que pudessem trazer a próxima a um mundo melhor, mas agora ocorreu a Jem que aquelas crianças, que tinham aprendido a receber amor e a caminhar sem medo pelas sombras sofreriam choque e traição por um desastre. Algumas delas talvez até quebrassem.
Que tal catástrofe jamais chegasse.


Residência dos Fairchild, Londres, 1901

No dia seguinte, Matthew ainda estava pensando na visita ao Mercado das Sombras. De certa maneira, foi puro azar encontrar tio Jem daquele jeito, embora ele tivesse ficado feliz pela chance de conhecê-lo melhor. Talvez o tio achasse que Jamie acertara em escolher Matthew como seu parabatai.
Ele se levantou cedo para ajudar Cook na cozinha. Cook tinha artrite, e a mãe de Matthew perguntou se ela, com a idade avançada, não gostaria de se aposentar, mas Cook não queria, e ninguém precisava ficar sabendo que Matthew a ajudava logo pela manhã. Além disso, o menino gostava de ver os pais, e mesmo Charles, tomando o café da manhã preparado por ele. Sua mãe sempre trabalhou muito duro, as rugas entre as sobrancelhas e ao redor da boca jamais desapareciam, mesmo quando Matthew conseguia fazê-la rir. Ela gostava de bolos com cranberries na massa, então ele os preparava sempre que podia. Era tudo que Matthew podia fazer. Não era um forte apoio como Charles.
— Charles Buford é tão sério e confiável. — Uma das amigas da mãe disse quando elas tomavam chá em Idris. E mordeu um de seus bolos especiais. — E Matthew, bem, ele é... encantador.
Naquela manhã, durante o café, Charles Buford alcançou o prato de bolos de Mamãe. Matthew sorriu para ele e balançou decididamente a cabeça, movendo o prato mais para perto da mãe. Charles Buford fez uma careta para o irmão.
Charlotte lhe lançou um sorriso distraído, depois voltou a contemplar a toalha de mesa. Estava imersa em pensamentos. Matthew gostaria de poder dizer que isso era um evento raro atualmente, mas não era o caso. Há meses tinha algo de errado na atmosfera da casa, não só com a mãe, mas o pai e mesmo Charles Buford pareciam distantes e ocasionalmente se irritavam com Matthew. Às vezes, ele morria de medo de pensar no que poderia ouvir: que era hora de saber a verdade, que sua mãe iria embora para sempre. Às vezes, Matthew achava que, se soubesse, poderia suportar a verdade.
— Querida — disse Papai. — Você está se sentindo bem?
— Perfeitamente, Henry — retrucou Mamãe.
Matthew amava o pai mais que tudo, mas o conhecia. Sabia muito bem que havia momentos que toda a família poderia ter as cabeças substituídas por cabeças de periquitos que o homem simplesmente contaria para as aves tudo sobre seu último experimento.
Agora ele observava a mãe, preocupado. Matthew conseguia imaginá-lo dizendo Por favor, Charlotte. Não me deixe. O coração bateu forte no peito. Matthew dobrou o guardanapo três vezes nas mãos e disse:
— Alguém poderia me dizer...
Então a porta se abriu e Gideon Lightwood entrou. Sr. Lightwood. Matthew se recusava a continuar pensando nele como tio Gideon.
— O que está fazendo aqui? — perguntou Matthew.
— Senhor! — corrigiu Mamãe rispidamente. — Sério, Matthew, chame-o de senhor.
— O que está fazendo aqui? — exigiu Matthew. — Senhor.
O Sr. Gideon Lightwood teve a audácia de esboçar um sorriso para Matthew antes de se aproximar e colocar a mão no ombro de Mamãe. Na frente do pai.
— É sempre um prazer vê-lo, senhor — cumprimentou Charles Buford, aquele miserável. — Posso lhe oferecer um pouco de salmão?
— Não, não, de forma alguma, já tomei café — respondeu o Sr. Lightwood. — Apenas pensei em acompanhar Charlotte pelo Portal para Idris.
Mamãe sorriu adequadamente para o Sr. Lightwood, de um jeito que não tinha sorrido para Matthew.
— É muita gentileza, porém não é necessário, Gideon.
— É muito necessário — assegurou o Sr. Lightwood. — Uma dama sempre deve ser acompanhada por um cavalheiro.
Ele falou em tom de brincadeira. Matthew normalmente esperava o café terminar para levar o pai até o laboratório, mas não podia suportar isso.
— Tenho de encontrar James com urgência! — declarou então, levantando-se subitamente.
Ele bateu a porta da sala de café da manhã atrás de si, mas não antes de escutar a mãe pedir desculpas por ele e o Sr. Lightwood dizer:
— Ah, não tem problema. Ele está em uma idade complicada. Acredite, eu lembro bem.
Antes de Matthew sair, ele correu para o espelho do quarto e ajeitou o cabelo, os punhos e o novo colete verde. Ficou encarando o próprio rosto no vidro, emoldurado em ouro. Um rosto bonito, porém não inteligente como os de todos em sua família. Ele se lembrou das palavras da fada alguns diriam que só um rio de águas rasas pode brilhar tanto.
Matthew inclinou a cabeça enquanto olhava para o vidro. Muitas pessoas achavam que seus olhos eram escuros como os da mãe, mas não. Eram de um verde tão escuro que enganava as pessoas, exceto quando a luz incidia de certa forma e as profundezas brilhavam em esmeralda. Como o restante do garoto, seus olhos eram uma ilusão.
Ele tirou o frasco de poção da verdade da manga. Tio Jem não o vira comprando aquilo. Mesmo que suspeitasse de algo, não o chatearia com isso. Quando tio Jem falava alguma coisa, você acreditava: ele era esse tipo de pessoa.
Matthew não mencionou nenhum de seus pensamentos sobre Gideon para James, pois ele era a discrição personificada, e Jamie, às vezes, tinha um gênio do cão. No último verão, um Caçador de Sombras muito cordial chamado Augustus Pounceby visitara o Instituto de Londres em sua viagem ao exterior, e Matthew o deixou sozinho com James por menos de meia-hora. Quando voltou, descobriu que Jamie havia jogado Pounceby no Tâmisa. Tudo o que James disse foi que o outro o ofendera. Foi um feito e tanto, considerando que Pounceby era um Caçador de Sombras adulto e Jamie tinha 14 anos na época. Mesmo assim, por mais impressionante que fosse, não podia ser considerado um ato educado.
Nem James nem tio Jem comprariam poções sorrateiramente, ou considerariam utilizá-las. Mas que mal teria finalmente descobrir a verdade? Matthew considerou acrescentar uma gota ao café da manhã daquele dia; então o pai e a mãe teriam de lhe contar tudo o que estava acontecendo. Agora que o Sr. Gideon Lightwood aparecera logo cedo, ele desejou ter feito isso.
Matthew balançou a cabeça para o próprio reflexo e resolveu banir a melancolia e os lamentos.
— Estou bonito? — perguntou ao Sr. Oscar Wilde. — Estou elegante e gracioso?
O Sr. Oscar Wilde o lambeu no nariz porque o Sr. Oscar Wilde era um filhote de cachorro que Jamie lhe dera de aniversário. Matthew interpretou como um sinal de aprovação.
E apontou para o reflexo.
— Você pode ser um desperdício de espaço dentro de um colete — disse a Matthew Fairchild. — Mas, pelo menos, seu colete é fantástico.
Ele checou o relógio de bolso e, em seguida, guardou-o, e o frasco, no colete. Não podia demorar. Tinha um compromisso importante em um clube muito exclusivo.


Primeiro, Matthew tinha de ir até o Instituto de Londres e pegar um pacote conhecido como James Herondale. Ele tinha uma boa ideia de onde James deveria estar, então disse a Oscar para ficar de guarda em um poste de luz. Oscar obedeceu: era um cãozinho muito bem-comportado, e as pessoas diziam que Matthew devia ter-lhe dado um bom treinamento, mas o menino apenas o amava. Matthew jogou um gancho na janela da biblioteca, subiu com cuidado, para não amarrotar a calça, e cutucou o vidro.
James estava sentado perto da janela, a cabeça de cabelos pretos abaixada — que surpresa! — sobre um livro. Levantou o olhar ao ouvir a batida e sorriu.
Ele nunca precisou, de fato, de Matthew. James era tão tímido, e Matthew queria tomar conta dele, mas, agora que estava crescendo, ficando com as feições angulares e se acostumando a ter a companhia constante de três amigos, ele aparentava muito mais segurança nas reuniões sociais. Mesmo quando Jamie era tímido, nunca parecia ter dúvida ou querer mudar a si mesmo. Jamais olhava para Matthew em busca de socorro.
Havia uma segurança discreta e profunda em James que o próprio Matthew gostaria de possuir. Desde o começo, havia mais afinidade entre eles do que entre ele e Thomas ou ele e Christopher. Algo que fazia com que Matthew quisesse se provar para James. Ele não tinha certeza se algum dia já conseguira fazê-lo.
James nunca parecia aliviado nem ansioso em ver Matthew. Apenas satisfeito. Ele abriu a janela, e o menino entrou, empurrando o livro e seu leitor para longe do parapeito.
— Oi, Matthew — cumprimentou James, com tom levemente irônico.
— Oi, Matthew! — repetiu Lucie, de sua escrivaninha.
Ela estava deliciosamente desalinhada, sem dúvida, no meio de uma criação. Os cachos castanho-claros estavam presos com um laço azul, um sapato balançava precariamente na ponta do pé calçado de meia. Tio Will frequentemente fazia leituras dramáticas do livro que estava escrevendo sobre varíola demoníaca, e eram sempre divertidas. Lucie não mostrava o que escrevia. Matthew costumava pensar em pedir-lhe que lesse uma página para ele, mas não conseguia pensar em nenhum motivo pelo qual a menina abriria uma exceção.
— Abençoados sejam, meus Herondale — disse Matthew de forma grandiosa, levantando do chão e fazendo uma reverência para Lucie. — Venho em missão urgente. Digam-me com sinceridade: o que acham de meu colete?
Lucie sorriu.
— Arrasador.
— O que Lucie disse — concordou James de forma pacífica.
— Não é fantástico? — perguntou Matthew. — Não é absolutamente impressionante?
— Suponho que eu esteja impressionado — disse James. — Mas será que estou absolutamente impressionado?
— Não faça jogos de palavras com seu único e eterno parabatai — pediu Matthew. — Cuide da própria roupa, por favor. Deixe esse livro enorme aí. Os Srs. Lightwood nos aguardam. Precisamos ir.
— Não posso ir como estou? — perguntou James.
Ele arregalou os olhos dourados para Matthew. Os cabelos negros estavam desalinhados, a camisa de linho, amassada, e ele não vestia sequer um colete. Matthew o repreendeu nobremente com um tremor convulsivo.
— Certamente está brincando — disse o garoto. — Sei que só diz essas coisas para me magoar. Vá. Penteie o cabelo!
— O motim da escova está por vir — alertou James, indo para a porta.
— Volte vitorioso com seus soldados da escova! — gritou Matthew atrás dele.
Quando Jamie se retirou, Matthew se virou para Lucie, que escrevia, concentrada, mas que levantou o olhar, como se sentisse o dele, e sorriu.
Matthew ficava imaginando como seria ser autossuficiente e gostar daquilo, como uma casa com paredes sólidas e um farol sempre aceso.
— Devo escovar o cabelo? — provocou Lucie.
— Como sempre, você está perfeita — respondeu Matthew.
Ele gostaria de poder ajeitar o laço em seu cabelo, mas isso seria uma ousadia.
— Gostaria de comparecer à reunião de nosso clube secreto? — perguntou o menino.
— Não posso, estou estudando. Minha mãe e eu estamos aprendendo farsi — explicou Lucie. — Eu deveria saber falar as línguas que minha parabatai fala, não?
James recentemente tinha passado a chamar os pais de mãe e pai, em vez de mamãe e papai, pois soava mais adulto. Lucie o imitou sem perda de tempo.
Matthew gostava de ouvir o galês em suas vozes quando chamavam os pais, vozes carinhosas e suaves como canções.
— Certamente — concordou Matthew, tossindo e tomando a decisão íntima de retomar suas aulas de galês.
Ninguém cogitou sobre a ida de Lucie para a Academia dos Caçadores de Sombras. Ela jamais demonstrara nenhuma habilidade como James, mas o mundo era suficientemente cruel com mulheres que sequer tivessem a suspeita de ser um pouquinho diferentes.
— Lucie Herondale é uma criança doce, mas com sua condição, quem se casaria com ela? — perguntara Lavinia Whitelaw, certa vez, à mãe de Matthew enquanto tomavam chá.
— Eu ficaria feliz se um de meus filhos se casasse com ela — assegurou Charlotte, com seu melhor tom de Consulesa.
Matthew considerava James muito sortudo por ter Lucie. Ele sempre quis uma irmã caçula.
Não que quisesse Lucie como sua irmã.
— Está escrevendo seu livro, Luce? — perguntou, hesitante.
— Não, uma carta para Cordelia — respondeu a menina, arruinando o roteiro frágil de Matthew. — Espero que Cordelia venha nos visitar muito em breve — acrescentou, ansiosa. — Você vai gostar tanto dela, Matthew. Sei que vai.
— Hmmm — disse Matthew.
Matthew tinha dúvidas quanto a Cordelia Carstairs. Lucie ia ser parabatai de Cordelia um dia, quando a Clave decidisse que eram moças suficientemente crescidas e capazes de fazer as próprias escolhas. Lucie e James conheciam Cordelia de aventuras de infância das quais Matthew não participara, e das quais tinha um pouco de inveja. Cordelia devia ter boas qualidades, ou Lucie não a aceitaria como sua parabatai, mas era irmã do Detestável Verme Alastair Carstairs, então seria estranho se fosse totalmente amigável.
— Ela mandou uma foto recente. Essa é Cordelia — emendou Lucie, orgulhosa. — Não é a menina mais bonita que você já viu?
— Ora, bem — disse Matthew. — Talvez.
Ele ficou secretamente surpreso com a foto. Imaginava que a irmã de Alastair poderia ter a aparência desagradável do parente, como se estivesse comendo os limões que rejeitava. Não era o caso. Em vez disso, Matthew se lembrou de um verso em um poema que James havia declamado uma vez, sobre amor não correspondido. “Filha da chuva e do sol” descrevia bem o rosto vívido que sorria para ele.
— Tudo o que sei é... — prosseguiu ele — ... que você deixa todas as meninas de Londres no chão.
Lucie ruborizou levemente.
— Você vive provocando, Matthew.
— Cordelia a convidou para ser parabatai — perguntou Matthew casualmente — ou foi o contrário?
Lucie e Cordelia queriam ser parabatai antes de se separar, mas foram alertadas de que, às vezes, as pessoas se arrependiam de laços firmados tão cedo, e, às vezes, uma ou outra mudava de ideia. Particularmente, dissera então Laurence Ashdown, considerando que as moças podem ser muito caprichosas.
Lucie não era caprichosa. Ela e Cordelia se correspondiam todos os dias, religiosamente. Lucie até contou a Matthew sobre a vez que escreveu uma longa história para entreter Cordelia, já que a amiga estava sempre tão longe.
Matthew nunca ficava imaginando por que alguém como Lucie achava difícil levar alguém como Matthew a sério.
— Eu a convidei, é claro — respondeu Lucie prontamente. — Não quis perder minha chance.
Matthew fez que sim com a cabeça, confirmando a ideia de que Cordelia Carstairs deveria ser especial. Ele tinha certeza de que, se não tivesse convidado James para ser seu parabatai, James nunca teria pensado em convidá-lo.
James voltou para o recinto.
— Satisfeito? — perguntou.
— Essa não é a palavra certa, Jamie — replicou Matthew. — Considere minha fúria do colete bastante apaziguada.
James ainda estava com o livro embaixo do braço, mas Matthew sabia que não deveria travar batalhas perdidas.
Ele contou a Matthew sobre o livro enquanto caminhava pelas ruas de Londres. Matthew gostava de coisas modernas e bem-humoradas, tais como as obras de Oscar Wilde ou a música de Gilbert e Sulivan, mas a história grega não era tão ruim quando Jamie a narrava. Matthew tinha passado a ler cada vez mais literatura antiga e histórias de amores condenados e nobres batalhas. Não conseguia se enxergar em nenhuma, mas via James, e isso era o suficiente.
Caminharam sem disfarce, como Matthew insistiu que fariam em sua missão de deixar James menos desconfortável depois do desastre na Academia. Uma jovem, hipnotizada pela estrutura óssea de Jamie, parou no caminho de um veículo. Matthew a pegou pela cintura e a girou para deixá-la em segurança, oferecendo-lhe um toque de chapéu e um sorriso. Jamie pareceu não ter visto nada do incidente, mexendo em algo nos punhos da camisa.
Uma multidão protestava contra a guerra mundana do lado de fora do Parlamento.
— A guerra Bore? — perguntou Matthew. — Isso não pode estar certo.
— A guerra Boer — corrigiu James. — Francamente, Matthew.
— Faz mais sentido — admitiu Matthew.
Uma moça com um chapéu sem graça agarrou a manga de Matthew.
— Posso ajudar, senhora? — perguntou Matthew.
— Estão cometendo atrocidades impronunciáveis — disse a moça. — Há crianças presas em campos. Pense nas crianças.
James agarrou a manga de Matthew e o puxou dali, com um gesto de desculpas do chapéu para a mulher.
Matthew olhou por cima do ombro.
— Espero que fique tudo bem com as crianças — falou.
James pareceu pensativo pelo caminho. Matthew sabia que ele gostaria que os Caçadores de Sombras pudessem resolver problemas, como a guerra mundana, embora achasse que já estavam ocupados demais com todos os demônios.
Para animá-lo, Matthew roubou seu chapéu. Jamie começou a gargalhar e perseguiu o amigo, ambos correndo e pulando alto o bastante para impressionar os mundanos sob a sombra da Torre de St. Stephen. O cachorrinho de Matthew perdeu a cabeça, esqueceu o treinamento e correu atrás dos garotos, saltitando pela alegria de estar vivo. Seus passos acelerados corriam mais que o firme tique-taque do Grande Relógio, sob o qual estava escrito no adorado latim de James, Ó Senhor, proteja nossa Rainha Vitória Primeira, e suas risadas se misturaram às batidas do sino.
Mais tarde, Matthew olharia para trás e se lembraria daquele como seu último dia feliz.


— Estou dormindo, estou sonhando ou estou tendo visões? — Matthew quis saber. — Por que tia Sophie e as duas irmãs de Thomas estão tomando chá no mesmo estabelecimento de nosso clube privado e exclusivo?
— Elas me seguiram — respondeu Thomas, na defensiva. — Mamãe foi compreensiva, ou elas teriam nos seguido diretamente para a sala do clube.
Tia Sophie era legal, mas isso não deixava Matthew menos inquieto em relação à chegada das irmãs de Thomas. Elas não eram legais e costumavam se meter em tudo o que o irmão mais novo fazia, achando uma tolice.
Matthew adorava a sala do clube e não permitiria interferências. Ele mesmo tinha escolhido o tecido da cortina, se certificado de que James colocasse as obras de Oscar Wilde em sua extensa coleção de livros e reforçado, com placas de aço nas paredes, o canto que funcionava como laboratório de Christopher.
O que levou o menino a mais uma reclamação. Ele olhou friamente para Christopher.
— Você dormiu com essas roupas, Christopher? Sei que tia Cecily, tio Gabriel e a prima Anna jamais permitiriam que você impusesse esse horror à população. Que manchas peculiares cor de lavanda são essas na frente de sua camisa? Você ateou fogo nas mangas?
Christopher olhou para as mangas, como se nunca as tivesse visto antes.
— Um pouco — respondeu, culpado.
— Ah, bem — disse Matthew. — Pelo menos, as manchas roxas combinam com seus olhos.
Christopher piscou os olhos, que tinham o improvável tom de violetas no verão, e lentamente abriu o sorriso. Era evidente que não entendia as objeções de Matthew, mas ficou vagamente satisfeito por tê-las superado.
Não era igual a James, que, de fato, tinha uma aparência muito apresentável. Christopher era incorrigível. Ele conseguia amarrotar botas de couro. E, certamente, conseguia atear fogo a qualquer coisa. Matthew não teve a intenção de que Christopher fosse convidado a se retirar da Academia dos Caçadores de Sombras, mas, ao que parece, não era permitido ao transgressor permanecer na escola depois de explodir uma parte desta. Além disso, o professor Fell ameaçou deixar a Academia para sempre se Christopher ficasse. Thomas completou o ano, mas não viu razão para continuar sem seus amigos, e com Alastair “Endeusado” Carstairs formado.
Então, por sorte, a proximidade entre as famílias e a atitude irresponsável em relação a materiais inflamáveis permitiram que, frequentemente, os melhores amigos de Matthew morassem próximos, em Londres.
Eles treinavam e estudavam juntos em diversas salas de aula do Instituto local; Lavinia Whitelaw se referia a eles como “aquele bando notável de meninos encrenqueiros”.
Matthew e James passaram um bom tempo se autochamando de Encrenqueiros das Sombras depois dessa observação. Resolveram que já havia passado da hora de terem uma sala própria, longe dos pais — por mais bem-intencionados que fossem — e protegida contra seus irmãos; embora as primas Anna e Luce sempre fossem bem-vindas por serem legais. Então alugaram uma sala do dono da Taverna do Diabo, que devia algum favor aos Herondale. Pagavam uma taxa mensal e a tinham para si.
Matthew olhou para o cômodo com grande satisfação. Era muito bonito, pensou, e ficava ainda melhor com os quatro sentados ali. Em homenagem ao Clube Apolo, de Ben Jonson, que outrora fez suas reuniões naquela mesma taverna, um busto do deus se encontrava acima da lareira, com palavras talhadas no mármore abaixo da cabeça e dos ombros:

Sejam todos bem-vindos, líderes ou seguidores,
Ao Oráculo de Apolo
Todas as respostas são divinas,
A própria verdade flui em vinho.

Havia, é claro, um assento na janela para Jamie, que já se instalara com o livro no colo. Christopher estava sentado em seu laboratório, acrescentando um líquido assustadoramente laranja a um borbulhante líquido roxo, e seu rosto era o retrato do contentamento. Thomas cruzara as pernas no sofá, treinando, concentrado em suas lâminas. Thomas temia não ser um Caçador de Sombras bom o suficiente em função da baixa estatura.
Suas irmãs eram muito mais altas. Assim como todo mundo. Tia Sophie, a mãe de Tom, tinha certeza de que ele espicharia um dia. Ela acreditava que um de seus avôs, um ferreiro gigantesco, foi minúsculo até os 17 anos.
Tia Sophie era uma mulher gentil, muito bonita e muito interessante com seus contos sobre os mundanos. Matthew não sabia como o Sr. Gideon Lightwood era capaz de ter a consciência tranquila.
Matthew girou a poção da verdade em seu colete.
— Amigos, agora que estamos todos aqui reunidos, vamos compartilhar segredos?
Jamie mexeu novamente no punho da camisa, coisa que fazia em certas ocasiões, e fingiu não escutar. Matthew desconfiava de que ele tinha algum amor secreto. Às vezes, ficava imaginando se James confiaria nele se fosse outro tipo de pessoa, mais sério e confiável.
Matthew riu.
— Vamos. Algum ódio mortal cultivado em seus âmagos? Alguma dama em seus corações?
Thomas ruborizou violentamente e derrubou a faca.
— Não.
Oscar pegou a faca para Thomas, e o menino afagou as orelhas do cão.
Matthew foi mais para perto do canto do laboratório, embora soubesse que isso era precipitado.
— Alguém chamou sua atenção? — perguntou a Christopher.
Alarmado, Christopher olhou para Matthew, que suspirou e se preparou para explicar melhor.
— Alguma dama na qual você se pegue pensando mais que em outras? — perguntou. — Ou algum rapaz — acrescentou, hesitante.
O rosto de Christopher clareou.
— Ah! Ah, sim. Entendi. Sim, tem uma dama.
— Christopher! — exclamou Matthew, em deleite. — Seu cachorrão! Eu a conheço?
— Não, não posso imaginar que conheça — respondeu o menino. — Ela é mundana.
— Christopher, seu malandro — disse Matthew. — Qual é o nome dela?
— Senhora...
— Uma mulher casada! — disse Matthew, impressionado. — Não, não. Perdoe. Por favor, continue.
— Sra. Marie Curie — continuou Christopher. — Acredito que ela seja uma das maiores cientistas da época. Se você lesse jornais, Matthew, acho que se interessaria muito...
— Você já se encontrou com essa dama? — perguntou Matthew em tom perigoso.
— Não? — respondeu Christopher, ignorando o perigo, como frequentemente fazia perto de professores furiosos e chamas.
Christopher teve a audácia de parecer surpreso quando Matthew começou a interrogá-lo fervorosamente.
— Cuidado com os tubos de ensaio! — gritou Thomas. — Tem um buraco no chão da Academia que o professor Fell chama de Abismo Christopher Lightwood.
— Suponho que detesto algumas pessoas — começou James. — Augustus Pounceby. Lavinia Whitelaw. Alastair Carstairs.
Matthew olhou com profunda aprovação para seu parabatai.
— É por isso que somos parceiros de guerra, porque compartilhamos de um perfeito laço de solidariedade. Venha cá, Jamie, para darmos um abraço másculo.
Ele foi em direção ao menino. James bateu na cabeça dele com o livro. Era um livro grande.
— Traído — disse Matthew, se contorcendo no chão. — É por isso que insiste em carregar livros enormes para todos os cantos, para que possa usar de violência em pessoas inocentes? Atacado por meu melhor amigo, meu irmão de coração, meu próprio parabatai querido...
Ele puxou James pela cintura e o jogou no chão pela segunda vez no dia. James bateu novamente em Matthew com o livro; em seguida, parou, apoiando o ombro no do amigo. Ambos estavam totalmente amarrotados, mas Matthew não se importava de ficar desalinhado por uma boa causa.
Matthew empurrou James, muito agradecido por ele ter tocado no nome de Alastair e oferecido uma abertura para compartilhar seu segredo.
— Alastair não é tão ruim — comentou Thomas inesperadamente do sofá. Todos olharam para ele, e Tom se encolheu como uma lacraia, mas prosseguiu: — Sei que Alastair agiu mal com James. Alastair também sabe muito bem disso. Por isso, ficava tão irritado quando alguém tocava no assunto.
— Em que isso difere de seu péssimo comportamento habitual? — Matthew quis saber. — Além de ter ficado particularmente terrível no dia em que os pais de todo mundo foram até a Academia.
Ele parou a fim de considerar como contar aos outros, mas ofereceu a Thomas a chance de falar.
— Sim, exatamente. O pai de todo mundo foi, menos o de Alastair — retrucou Thomas baixinho. — Alastair ficou com ciúme pelo Sr. Herondale ter corrido para defender Jamie, quando ninguém o fez por ele.
— E alguém pode culpá-lo por isso? — perguntou Matthew. — Se eu tivesse um filho tão detestável e, graças ao Anjo, ele fosse estudar longe, não sei se me obrigaria a vê-lo antes de as malditas férias de verão trazê-lo de volta.
Thomas não pareceu convencido pelo ótimo argumento de Matthew, que respirou fundo.
— Você não sabe o que ele me falou no dia em que fomos expulsos.
Tom deu de ombros.
— Alguma bobagem, imagino. Ele sempre diz as piores bobagens quando está perturbado. Você não deveria lhe dar ouvidos.
O ombro de Jamie estava tenso contra o de Matthew. James era o principal alvo da malícia de Alastair. Thomas claramente pretendia defender Alastair com veemência. A linha de argumentação certamente chatearia James ou Thomas. Matthew não ia acalentar os próprios sentimentos às custas dos amigos. Ele desistiu.
— Não consigo imaginar por que alguém lhe daria ouvidos.
— Bem, enfim — disse Tom. — Gosto das bobagens dele. — Ele pareceu saudoso. — Acho que Alastair disfarça a dor com frases habilidosamente invertidas.
— Que bobagem — disse Matthew.
Thomas era muito gentil, esse era o problema. As pessoas provavelmente permitiriam que você fizesse qualquer coisa desde que tivesse alguma dor secreta ou não se desse bem com seu pai.
Definitivamente era algo a ser pesquisado.
Seu pai era o melhor pai do mundo, então Matthew não tinha a oportunidade de ser cruelmente oprimido ou tristemente negligenciado. Talvez devesse passar seu tempo sofrendo por um amor proibido, como James.
Matthew decidiu dar uma chance ao amor não correspondido. Ficou olhando pela janela com toda a força reflexiva que conseguiu invocar. Estava se preparando para passar a mão na testa febril e murmurar “ó, meu amor perdido” quando foi subitamente agredido na cabeça com um livro.
Sinceramente, Jamie era letal com aquilo.
— Você está bem, Matthew? — perguntou o menino. — Seu rosto sugere que está sofrendo de angústia.
Matthew fez que sim com a cabeça, mas a abaixou até o casaco de Jamie e ficou ali um instante. Jamais havia ocorrido a Matthew que Alastair poderia estar com ciúme do pai de James. Ele não conseguia se imaginar invejando o pai de ninguém.
Por ter o melhor pai do mundo, Matthew sentia total satisfação. Se ao menos pudesse ter a certeza de que Henry era seu pai.


Logo cedo, Matthew destampou o frasco da fada e pingou uma gota entre as frutas do bolo de sua mãe. Os bolos saíram do forno macios, dourados e cheirosos.
— Você é o melhor garoto de Londres — elogiou Cook, dando-lhe um beijo.
— Sou totalmente egoísta — declarou Matthew. — Pois te amo, Cook. Quando podemos nos casar?
— Tome jeito, menino — disse Cook, balançando a colher de pau de forma ameaçadora.
Quando Jamie era pequeno, ele tinha a própria colher especial favorita. A família sempre se lembrava disso. Jamie morria de vergonha, principalmente quando tio Gabriel o presenteava com uma colher nas reuniões de família. Pais sempre achavam que qualquer brincadeira era boa ideia.
Jamie guardava as colheres que o tio lhe dava. Quando perguntavam o motivo, ele dizia que era porque amava seu tio Gabriel. James conseguia dizer essas coisas com uma sinceridade que constrangeria qualquer outra pessoa.
Depois que disse isso, tio Will perguntou em voz alta de que adiantava ter um filho, mas tio Gabriel pareceu comovido. Ele amava Anna e Christopher, mas Matthew não tinha certeza se entendia completamente os filhos. James parecia muito com tia Cecily e se esforçava muito em ser um Caçador de Sombras, ao passo que Christopher talvez nem soubesse que algum deles era Caçador de Sombras. Tio Gabriel gostava particularmente de James. Claro, quem não gostaria?
Matthew roubou a colher para dar a James.
— Suponho que isso seja para alguma brincadeira absurda — disse Charles Buford ao ver a colher no café da manhã. — Queria que você crescesse, Matthew.
Matthew considerou a declaração; em seguida, mostrou a língua para o irmão mais velho. Oscar não podia frequentar a sala do desjejum, pois Charles Buford dizia que não era higiênico.
— Se ao menos você fizesse um esforço para ser sensato — disse Charles.
— Não posso — retrucou Matthew. — Posso sofrer uma lesão da qual eu não me recuperaria jamais.
Sua mãe não sorriu com seu teatro. Ela fitava a xícara de chá, aparentemente perdida em pensamento. O pai a observava.
— O Sr. Gideon Lightwood vai acompanhá-la a Idris hoje? — perguntou Matthew, e empurrou o prato de bolos para a mãe.
Mamãe pegou um bolo, passou muita manteiga e mordeu um pedaço.
— Sim — respondeu ela. — Eu agradeceria se você fosse civilizado com ele dessa vez. Não pode imaginar, Matthew, quanto eu...
Mamãe parou de falar. A mão pequena voou até a boca. Ela se levantou, parecia tentar resolver uma emergência, como sempre fazia. Sob o olhar horrorizado do filho, lágrimas correram por seus olhos e, subitamente, passaram a traçar dois rastros longos e brilhantes no rosto. À luz da manhã, Matthew identificou um leve tom violeta em suas lágrimas.
Em seguida, ela caiu, os cabelos se soltando do penteado firme, a saia cinza, de repente, bagunçada pelo chão.
— Charlotte! — gritou o pai.
Henry Fairchild utilizava todos os seus recursos engenhosos para se mover, mas durante o desjejum da família ele só tinha uma cadeira normal. Não que isso importasse. Ele simplesmente se atirou da cadeira em sua ansiedade de chegar até a mulher, e caiu pesadamente no chão. Mal pareceu perceber a queda e foi se arrastando com os cotovelos em direção ao monte inerte que era Mamãe, puxando dolorosamente o corpo pelo carpete enquanto Matthew assistia, congelado em horror.
Ele alcançou mamãe e a agarrou nos braços. Ela era sempre muito pequena, mas agora parecia pequena como uma criança. Seu rosto estava imóvel e branco como o rosto dos bustos de mármore nos túmulos mundanos.
— Charlotte — murmurou papai, como se estivesse rezando. — Minha querida. Por favor.
— Mamãe — sussurrou Matthew. — Papai. Charlie!
Ele se virou para o irmão, como fazia quando era pequeno, quando sempre seguia Charlie por todos os cantos e acreditava que o menino fosse capaz de qualquer coisa.
Charles tinha pulado da cadeira, gritando e pedindo ajuda. Olhou para trás na entrada, encarando os pais com uma expressão esgotada, nada característica.
— Eu sabia como ia ser, viajar de Portal o tempo todo de Londres para Idris, para que Matthew pudesse ficar perto de seu precioso parabatai...
— Quê? — perguntou Matthew. — Eu não sabia. Eu juro que não sabia...
Cook apareceu na entrada em resposta aos gritos de Charlie e arfou.
— Sra. Fairchild!
— Precisamos do Irmão Zachariah... — sugeriu Matthew com voz entrecortada.
O Irmão Zachariah saberia o que ele tinha dado à mãe, e saberia o que fazer. Matthew começou a explicar a coisa terrível que fizera, mas Charlotte emitiu um ruído e a sala se calou.
— Ah, sim — começou mamãe, a voz assustadoramente fraca. — Sim, por favor. Chame Jem.
Charles e Cook correram de lá. Matthew não ousou se aproximar dos pais. Finalmente, após um tempo longo e terrível, o Irmão Zachariah chegou, com sua capa cor de pergaminho esvoaçando, como as vestes de uma presença anunciando julgamento e castigo.
Matthew sabia que os olhos fechados do Irmão Zachariah ainda enxergavam. Ele conseguia enxergar até as profundezas do coração pecador de Matthew.
O Irmão Zachariah se curvou e pegou Mamãe no colo. Ele a levou para longe.
Durante todo o dia, Matthew ouviu os sons das idas e vindas. Viu a carruagem do Instituto de Londres parar na porta, e tia Tessa emergir com uma cesta de remédios. Ela andava estudando magia.
Matthew entendia que precisavam de um Irmão do Silêncio e de uma feiticeira, e, mesmo assim, talvez sua mãe não ficasse boa.
Charles não retornou. Matthew ajudara o pai a voltar para a cadeira. Ficaram sentados juntos na sala do café da manhã, enquanto a luz passava de brilho da manhã a fulgor do dia e desbotava nas sombras da noite. O rosto de Papai parecia talhado em pedra antiga. Quando ele finalmente falou, soava como se morresse por dentro:
— Você deveria saber, Matthew... sua mãe e eu, nós estávamos...
Nos separando. Terminando nosso casamento. Ela amava outro homem.
Matthew se preparou para o horror, mas, quando veio, foi maior que qualquer coisa que poderia ter imaginado.
— Estávamos esperando um... um evento feliz — disse papai, e a voz ficou presa na garganta.
Matthew o encarou com uma incompreensão vazia. Ele simplesmente não conseguia entender. Doeria demais.
— Sua mãe e eu tivemos de esperar um tempo por Charles Buford e por você, e achamos que vocês dois valiam a espera — disse papai, e, mesmo em meio ao horror, ele tentou sorrir para Matthew. — Dessa vez, Charlotte estava torcendo por... por uma menina.
Matthew se engasgou com o horror. Achou que nunca mais fosse conseguir falar outra palavra ou dar outra mordida. Ele ficaria engasgado com o horror por anos.
Achamos. Estávamos esperando. Era evidente que o pai tinha certeza (e tinha motivos para tal) de que os filhos eram seus.
— Estávamos preocupados, considerando que você e Charles agora estão crescidos — disse Henry. — Gideon, o bom amigo, tem acompanhado Charlotte às reuniões da Clave. Ele sempre foi amigo de sua mãe, emprestando o nome dos Lightwood sempre que ela precisava de apoio, e aconselhando-a quando necessitava. Temo que nunca entendi verdadeiramente o funcionamento de um Instituto, menos ainda da Clave. Sua mãe é uma maravilha.
Gideon vinha ajudando sua mãe. Foi Matthew que a atacou.
— Pensei que poderíamos chamá-la de Matilda — emendou Papai, com uma voz lenta e triste. — Tive uma tia-avó chamada Matilda. Ela era muito velha quando eu era pequeno, e os outros meninos costumavam me provocar. Ela me dava livros e me dizia que eu era mais inteligente que todos eles. Tinha esplêndidos cabelos brancos ondulados, mas eram louros na juventude. Quando nasceu, você já tinha lindos cachos claros. Eu a chamava de tia Matty. Nunca lhe contei isso, pois achei que poderia não gostar de ter o nome em homenagem a uma senhora. Você já tem muito o que aturar com seu tolo pai e com aqueles que falam de sua mãe e seu parabatai. E lida com tudo de forma muito graciosa.
O pai de Matthew tocou seu cabelo com uma mão gentil e amorosa. O menino gostaria de poder pegar uma lâmina e cortar a própria garganta.
— Queria que você tivesse conhecido sua tia-bisavó. Ela era muito parecida com você. A mulher mais doce que Deus já criou — continuou o pai. — À exceção de sua mãe.
Irmão Zachariah então chegou, uma sombra entre as outras sombras que preenchiam aquele recinto, para chamar o pai de Matthew.
Matthew ficou sozinho.
Na escuridão, ele fitou a cadeira derrubada da mãe, o bolo caído e os farelos que não iam a lugar algum, os restos gordurosos do café sobre a mesa bagunçada.
Ele, Matthew, vivia arrastando seus amigos e sua família para galerias de arte, sempre ansioso para bailar pela vida, sempre falando em verdade e beleza, como um tolo. Ele foi até um Mercado das Sombras, confiou plenamente em certa integrante do Submundo, porque os membros do Submundo pareciam interessantes, porque ela chamou os Caçadores de Sombras de brutais e ele concordou, acreditando que sabia mais que eles. Não era culpa da fada nem de Alastair, nem de nenhuma outra alma. Foi ele que escolheu não confiar na mãe. Ele tinha dado veneno para a mãe com as próprias mãos. Não era um tolo. Era um vilão. Matthew abaixou a cabeça clara que herdara do pai, de sua parente mais amada. Ficou sentado na sala escura e chorou.


Irmão Zachariah desceu as escadas após uma longa batalha contra a morte para dizer a Matthew que a mãe sobreviveria. James e Lucie tinham vindo com Tessa e passaram o dia esperando no corredor. As mãos de Lucie estavam frias quando ela o abraçou.
— Tia Charlotte, ela está bem? — perguntou ela.
Sim, meus queridos, respondeu Jem. Sim.
— Graças ao Anjo. — James suspirou. — Matthew ficaria de coração partido. Todos nós ficaríamos.
O Irmão Zachariah não sabia ao certo sobre o coração de Matthew, depois do que o garoto fizera, mas queria oferecer a James e Lucie todo o conforto possível.
Vão para a biblioteca. Tem uma lareira acesa. Vou mandar Matthew irá em seguida.
Quando foi até a sala do café da manhã, encontrou o menino, que era todo risos e tons dourados, encolhido na cadeira, como se não pudesse suportar o que estava por vir.
— Minha mãe — sussurrou ele afinal, a voz fria e seca como ossos antigos.
Ela vai viver, disse Jem, e suavizou ao ver a dor do menino.
James conhecia o coração de seu parabatai melhor que Jem. Houve um tempo em que Will foi o menino do qual todo mundo esperava o pior, e com motivos para tal, exceto Jem. Ele não queria aprender o julgamento duro dos Irmãos do Silêncio, nem queria aprender a ter um coração menos clemente.
Matthew levantou a cabeça e encarou o Irmão do Silêncio. Seus olhos estavam cheios de agonia, mas ele manteve a voz firme.
— E a criança?
A criança não sobreviveu, respondeu o Irmão Zachariah.
As mãos de Matthew fecharam em torno da cadeira. Suas juntas estavam brancas. Ele parecia mais velho que há duas noites.
Matthew, disse o Irmão Zachariah, e ignorou os Irmãos tanto quanto podia.
— Sim?
Pode confiar em um Irmão do Silêncio para não dizer nada, disse Jem. Não vou contar a ninguém sobre o Mercado das Sombras ou sobre qualquer negociação que tenha feito ali.
Matthew engoliu em seco. Jem achou que estivesse prestes a ouvir um agradecimento, mas ele não havia feito aquilo em troca de agradecimento.
Não vou contar a ninguém, continuou ele, mas você deveria. Um segredo guardado por muito tempo pode matar uma alma aos poucos. Vi um segredo quase destruir um homem certa vez, o melhor homem de todos. Um segredo assim é como guardar um tesouro em um túmulo. Pouco a pouco, o veneno corrói o ouro. Quando a porta for aberta, pode não haver nada além de poeira.
Irmão Zachariah encarou o jovem rosto que fora tão alegre. Esperou e torceu para ver aquele rosto se iluminar outra vez.
— Tudo isso sobre o Mercado das Sombras — começou Matthew, com dificuldade.
Sim?, inquiriu Jem.
O menino levantou a cabeça dourada.
— Sinto muito — lamentou Matthew friamente. — Não sei do que está falando.
Zachariah sentiu uma pontada no peito.
Que seja, decidiu Zachariah. James e Lucie estão o esperando na biblioteca. Permita que o confortem como puderem.
Matthew se levantou da cadeira, movendo-se como se, de repente, tivesse envelhecido ao longo do dia. Às vezes, a distância dos Irmãos do Silêncio os conduzia à indiferença, distantes da compaixão.
Levaria muito tempo, o Irmão Zachariah sabia, até que pudesse haver algum conforto para Matthew Fairchild.


A biblioteca na casa de Matthew era muito menor e menos cultuada e habitada que a do Instituto de Londres, mas aquele dia havia uma lareira acesa e os Herondale esperavam ali dentro. Matthew entrou aos tropeços, como se viesse do meio do inverno, com os membros frios demais para se mexerem.
Ao mesmo tempo, como se estivessem apenas esperando por ele, James e Lucie o encararam. Estavam sentados juntos no sofá perto da lareira. Próximos da luz do fogo, os olhos de Lucie eram tão misteriosos quanto os de James, os dela mais claros e com um azul mais ardente que os do pai. Era como se o dourado de James fosse a coroa do fogo, e o azul de Lucie, o coração da chama.
Eram uma dupla estranha, esses Herondale, plantas espinhosas e misteriosas na estufa dos Nephilim. Matthew não podia amá-los mais do que já amava.
Lucie se levantou e correu para ele com os braços abertos. Matthew estremeceu e se afastou. Ele percebeu, com dor, que não se sentia digno de ser tocado por ela.
Lucie o encarou fixamente; em seguida, fez que sim com a cabeça. Ela sempre enxergava demais, sua Lucie.
— Vou deixá-los a sós — decidiu ela. — Podem levar o tempo que for necessário.
Ela esticou a mão para tocar a dele, e Matthew se esquivou outra vez. Dessa vez, ele percebeu que a ferira, mas Lucie apenas murmurou seu nome e se retirou. Ele não podia contar a Lucie e ver o nojo que ela sentiria, mas ele e James eram ligados. Talvez James tentasse entender.
Matthew avançou, cada passo um pequeno esforço, em direção ao fogo. Quando estava perto o suficiente, James esticou o braço e segurou Matthew, puxando-o mais para perto do sofá. Colocou a mão do amigo sobre seu coração, e a cobriu com a própria mão.
Matthew olhou nos olhos de fogo de James.
— Mathew — disse ele, pronunciando seu nome com o sotaque galês que dizia que era uma expressão de carinho. — Sinto muito. O que posso fazer?
Ele sentia que não poderia viver com essa imensa pedra de um segredo lhe esmagando o peito. Se um dia fosse contar para alguém, deveria contar para seu parabatai.
— Ouça — pediu Matthew. — Eu estava falando sobre Alastair Carstairs ontem. O que eu queria dizer era que ele insultou minha mãe. Ele disse...
— Eu entendo — disse James. — Você não precisa me contar.
Matthew respirou fundo, com dificuldade. Ficou imaginando se James realmente poderia entender.
— Sei o tipo de coisa que falam sobre tia Charlotte — continuou James, com uma raiva contida. — Dizem coisas semelhantes sobre minha mãe. Você se lembra daquele homem, Augustus Pounceby, no ano passado? Ele esperou até ficarmos sozinhos e disse coisas horríveis sobre minha mãe. — Um sorriso triste se esboçou na boca de James. — Então, eu o arremessei no rio.
Tia Tessa ficara tão feliz por receber um Caçador de Sombras visitante, Matthew se lembrou, entorpecido. Ela expunha brasões de famílias de Caçadores de Sombras em suas paredes para receber os viajantes no Instituto de Londres.
— Você nunca me contou — disse Matthew.
Jamie estava contando agora. Tom havia lhe dito que Alastair só falava bobagem, fosse o que fosse. Se Matthew tivesse perguntado ao pai sobre o que Alastair havia dito, ele teria contado sobre a tia-avó Matty, e eles poderiam até ter rido do absurdo que era um menino malicioso e estúpido fazer com que duvidasse de sua família.
A boca de James curvou um pouco para baixo.
— Ora, bem. Sei que você já tem de ouvir muito sobre mim e meus antecedentes infelizes. Não quero que pense que sou insuportável e que você fez um péssimo negócio com seu parabatai.
— Jamie — começou Matthew, com respiração entrecortada, como se tivesse sido golpeado.
— Sei que deve ser péssimo precisar lembrar qualquer maldade que aquele verme Carstairs tenha dito sobre sua mãe — continuou James. — Principalmente quando ela não está... não está bem. Na próxima vez que o virmos, vamos socá-lo na cabeça. Que tal, Matthew? Vamos fazer isso juntos.
O pai, mãe, o irmão e o parabatai de Matthew tentavam fazer com que não se sentisse tão culpado, mas Matthew não se achava um bom sujeito e lidava muito bem com isso sozinho. James não teria feito o que Matthew fez. Nem Christopher ou Thomas. Eram leais. Eram honrosos. Quando alguém insultou a mãe de James, ele o jogou no rio.
Matthew pressionou a mão contra a camisa de linho de James, sobre os batimentos firmes do coração leal. Em seguida, cerrou a mão em um punho.
Não podia contar a ele. Nunca poderia.
— Muito bem, velho amigo — disse Matthew. — Faremos isso juntos. Pode me deixar sozinho um instante?
James hesitou, em seguida, recuou.
— É isso que você quer?
— É — respondeu Matthew, que nunca quisera ficar sozinho na vida, e jamais desejara a solidão tanto quanto agora.
James hesitou novamente, mas respeitou a vontade de seu parabatai. Baixou a cabeça e se retirou, provavelmente para encontrar a irmã, imaginou Matthew. Ambos eram bons e puros. Deveriam ficar juntos e confortar um ao outro. Mereciam o conforto de um jeito que ele não merecia.
Depois que James se retirou, Matthew não pôde ficar de pé. Caiu sobre o assoalho e ajoelhou-se diante do fogo.
Acima da lareira, havia uma estátua de Jonathan Caçador de Sombras, o primeiro Caçador de Sombras, rezando para que o mundo fosse libertado do mal. Atrás dele estava o Anjo Raziel, voando a fim de lhe conceder a capacidade de derrotar as forças da escuridão. O primeiro Caçador de Sombras ainda não conseguia enxergá-lo, mas estava firme porque tinha fé.
Matthew virou o rosto para longe da luz. Engatinhou, do mesmo jeito que seu pai fizera no começo daquele dia interminável, até estar no canto mais distante e escuro do recinto. Ele não tinha acreditado. Encostou a bochecha no soalho frio e se recusou a chorar outra vez. Ele sabia que não poderia ser perdoado.


Já havia passado muito da hora do Irmão Zachariah voltar para a Cidade dos Ossos. Tessa estava com ele no corredor e tocou sua mão antes que partisse.
A mulher mais doce que Deus já fez, ouvira Henry dizer mais cedo. Jem amava Charlotte, mas tinha a própria imagem do que de mais doce o mundo podia oferecer.
Ela sempre foi sua âncora em mares frios, sua mão calorosa, seus olhos firmes, e era como se uma chama saltasse entre eles e uma esperança louca. Por um instante, Jem foi o que havia sido outrora. Parecia possível se unirem na tristeza, juntos como amigos e família estavam, dormirem sob o teto do Instituto e descerem de manhã para tomar café, tristes, porém, seguros no calor de uma lareira compartilhada e corações humanos.
Sim, me peça para ficar, pensou ele.
Adeus, Tessa, despediu-se.
Ele não podia. Ambos sabiam que não podia.
Ela engoliu em seco, os cílios longos bloqueando o brilho nos olhos. Tessa sempre foi corajosa. Não permitiria que ele carregasse a lembrança de suas lágrimas até a Cidade do Silêncio, mas o chamou pelo nome que sempre tomava o cuidado de não utilizar quando qualquer um além dos dois pudesse ouvir.
— Adeus, Jem.
Irmão Zachariah abaixou a cabeça, deixando o capuz cair sobre o rosto, e seguiu pelo inverno frio de Londres.
Finalmente você vai embora, disse o Irmão Enoch em sua mente.
Todos os Irmãos do Silêncio falavam quando o Irmão Zachariah estava com Tessa, como pequenos animais em árvores, atentos à aproximação daquilo que não entendiam. De certa forma, eram todos apaixonados por ela, e alguns se ressentiam por isso. Irmão Enoch já tinha deixado claro que estava cansado dos dois nomes ecoando incessantemente em suas mentes.
Irmão Zachariah estava na metade da rua na qual os Fairchild moravam quando uma sombra alta cruzou com a dele na rua mal-iluminada. Ele tirou os olhos da sombra e viu Will Herondale, diretor do Instituto de Londres. Ele segurava uma bengala que outrora pertencera a Zachariah, antes de Zachariah pegar um bastão em suas mãos.
Charlotte vai viver, disse o Irmão Zachariah. A criança nunca teve chance.
— Eu sei — disse Will. — Eu já sabia. Não vim até você para isso.
Ele realmente já deveria saber. É claro que Tessa avisara Will, e, embora sempre utilizasse a função do Irmão Zachariah como Irmão do Silêncio para exigir seus serviços e consequentemente sua presença, ele raramente falava com Zachariah sobre suas atribuições de Irmão do Silêncio, como se pudesse fazer com que Zachariah não fosse o que era por pura determinação.
Se alguém fosse capaz de fazer isso, seria Will.
Will jogou a bengala, que devia ter roubado do quarto de James, para ele, ao mesmo tempo que pegou o bastão. Jem tinha pedido a ele que desse a James seu quarto no Instituto, que o preenchesse com a presença alegre de seu filho, e não o mantivesse como uma espécie de altar doloroso. Ele não estava morto. Quando se tornou Irmão do Silêncio, sentiu como se tivesse sido cortado, como se tudo o que havia dentro de si fosse arrancado. Mas restava aquilo que não podiam lhe tirar.
— Segure-a um pouco — disse Will. — Alegra meu coração vê-lo com ela. Todos nós precisamos de corações alegres hoje.
Ele traçou uma marca no bastão, e o anel Herondale piscou ao luar.
Para onde devo levá-la?
— Para onde quiser. Pensei em caminhar um pouco com você, meu parabatai.
Até onde?, perguntou Jem.
Will sorriu.
— Você precisa perguntar? Vou com você até onde for possível.
Jem retribuiu o sorriso. Talvez houvesse mais esperança e menos tristeza para Matthew Fairchild do que ele temia. Ninguém melhor que Jem entenderia que alguém poderia ser amado, mesmo que não fosse totalmente compreendido; lhe perdoado todos os pecados, e amado em oculto. James não deixaria que seu parabatai percorresse nenhum caminho sombrio sozinho. Independentemente da catástrofe que viesse, Jem acreditava que o filho tinha um coração tão grande quanto o pai.
Novas luzes de rua exibiam as silhuetas de Will e Jem, caminhando juntos por sua cidade, como sempre fizeram. Mesmo que ambos soubessem que deveriam se separar.
Por toda Londres os sinos soaram ao mesmo tempo em um clamor súbito e assustador. Pássaros amedrontados voaram, de repente, e projetaram longas sombras pela noite da cidade, e Jem soube que a Rainha estava morta.
Uma nova era começava.

2 comentários:

  1. Matthew gosta da Lucie, parece... hmmm...
    E ah não, o que ele fez... :/ pelo visto ele não vai falar pra ninguém e a culpa vai mudá-lo com o tempo... ah, Matthew... (T_T)

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  2. Eu vou morrer de ansiedade por The Last Hours. Vou morrer. Nem Os Artifícios das Trevas me deixou assim. Mor-rer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!