11 de fevereiro de 2019

Filho do Amanhecer


A primeira história da nova série Fantasmas do Mercado das Sombras. Os Lightwoods, Caçadores de Sombras que administram o Instituto de Nova York, aguardam uma nova adição à sua família: o filho órfão do amigo de seu pai. Alec e Isabelle não têm muita certeza se querem um novo irmão, e seus pais não estão amenizando seus medos, muito ocupados com a notícia sombria que Raphael Santiago – o segundo no comando do clã de vampiros de Nova York – trouxe do Mercado das Sombras.

Nova York, 2000

Cada mundo contém outros em si. As pessoas vagam por todos os mundos que conseguem encontrar, procurando seus lares.
Alguns humanos achavam que seu mundo era o único. Mal sabiam que havia outros tão próximos do seu quanto outro cômodo, que demônios tentavam encontrar uma porta que os ligasse, ou que os Caçadores de Sombras bloqueavam essas portas. Sabiam menos ainda sobre o Submundo, a comunidade de criaturas mágicas que compartilhava de seu mundo e talhava um pequeno nicho ali.
Toda comunidade precisa de um coração. Tem de haver uma área comum onde todos podem se reunir, para trocar bens e segredos, encontrar amor e riquezas. Havia Mercados das Sombras, onde os integrantes do Submundo e aqueles com o dom da Visão se encontravam, em todo o mundo.
E normalmente essas reuniões aconteciam a céu aberto.
Até a magia era um pouco diferente em Nova York.
O teatro abandonado na Canal Street estava lá desde os anos de 1920; uma testemunha silenciosa, mas que não fazia parte do fervor de atividade que era a cidade. Humanos sem Visão passavam apressados pela fachada de terracota. Se resolvessem dar uma olhada no prédio, eles o veriam escuro e silencioso como sempre.
Não eram capazes de enxergar a névoa de luz de fadas que transformava o anfiteatro destruído e os corredores de concreto vazios em ouro. O Irmão Zachariah conseguia.
Ele caminhava, uma criatura feita de silêncio e escuridão, através dos corredores com azulejos amarelos como o sol e encimados por reluzentes painéis dourados e vermelhos. Havia bustos antigos, cheios de fuligem, em nichos na parede, mas naquela noite as fadas providenciaram flores e hera para envolvê-los. Nas janelas tapadas com tábuas, lobisomens haviam colocado enfeites brilhantes, que representavam a lua e as estrelas e emprestavam seu brilho às cortinas vermelhas deterioradas, ainda pendentes das molduras arqueadas. As lanternas em suas armações lembravam ao Irmão Zachariah que, muito tempo atrás, ele e o mundo eram diferentes. Do teto de um salão reverberante, pendia um lustre sem uso havia anos, mas, então, a magia dos feiticeiros tinha envolvido cada lâmpada com uma chama de cor diferente. Como gemas incandescentes, ametista, rubi, safira e opala, sua luz criava um mundo particular ao mesmo tempo novo e velho, e restaurava a glória de outrora do teatro. Alguns mundos duravam apenas uma noite.
Se o Mercado tivesse o poder de emprestar calor e luminosidade por apenas uma noite, o Irmão Zachariah teria aceitado.
Uma fada insistente tentara lhe vender um amuleto do amor por quatro vezes. Zachariah gostaria que um amuleto assim funcionasse. Criaturas inumanas como ele não dormiam, mas às vezes ele se deitava e descansava, torcendo por alguma coisa parecida com paz. Mas esta nunca vinha. E ele passava longas noites sentindo o amor escorrer pelos dedos; a essa altura mais uma lembrança que uma sensação.
Irmão Zachariah não pertencia ao Submundo. Era um Caçador de Sombras, e não apenas isso, mas um dos membros da Irmandade — vestidos de capa e capuz e dedicados a segredos arcaicos e aos mortos, jurados e marcados pelo silêncio e afastamento de qualquer mundo. Até mesmo seus semelhantes temiam os Irmãos do Silêncio, e os integrantes do Submundo normalmente evitavam qualquer Caçador de Sombras, mas já estavam acostumados à presença daquele, em particular, nos Mercados. O Irmão Zachariah frequentava Mercados das Sombras havia cem anos, em uma longa busca que ele próprio tinha começado a considerar infrutífera. Mesmo assim, continuava procurando. Tinha pouco, mas uma coisa da qual dispunha era tempo, e sempre tentara ser paciente.
Naquele dia, no entanto, ele já se decepcionara. O feiticeiro Ragnor Fell não tinha nada para ele. Nenhum de seus outros poucos contatos, dolorosamente reunidos ao longo de décadas, viera àquele Mercado. Ele continuava ali não por gostar do Mercado das Sombras, mas porque se lembrava de um dia já ter se divertido em um.
Eram como uma fuga, mas o Irmão Zachariah mal se lembrava do desejo de escapar da Cidade dos Ossos, que era seu lugar. Sempre no fundo da mente, frias como a maré esperando para cobrir e arrastar todo o resto, estavam as vozes de seus Irmãos.
Elas o chamavam para casa.
Irmão Zachariah se virou sob o brilho das janelas. Estava saindo do Mercado, passando pela multidão que ria e negociava, quando ouviu uma voz feminina dizer seu nome:
— Conte-me outra vez por que queremos esse Irmão Zachariah. Os Nephilim normais já são ruins. Anjo nas veias, sempre de cara amarrada, e aposto que com os Irmãos do Silêncio é muito pior. Com certeza, não podemos levá-lo ao karaokê.
A mulher falava em inglês, mas uma voz de menino respondeu em espanhol:
— Silêncio. Acabo de vê-lo.
Era uma dupla de vampiros, e, quando se virou, o menino levantou a mão para atrair sua atenção. Parecia ter, no máximo, 15 anos, e a outra parecia uma jovem de mais ou menos 19, mas isso não significava nada para Zachariah. Ele também parecia jovem.
Era raro que um desconhecido do Submundo quisesse sua atenção.
— Irmão Zachariah? — chamou o menino. — Vim aqui para encontrá-lo.
A mulher assobiou.
— Agora vejo por que o queremos. Olá, Irmão Gatoariah.
Para me encontrar?, o Irmão Zachariah perguntou ao menino. Ele sentiu o que outrora teria sido surpresa, e agora era ao menos intriga. Posso lhe ser útil em alguma coisa?
— Certamente. Espero que sim — respondeu o vampiro. — Sou Raphael Santiago, segundo em comando do clã de Nova York, e não gosto de pessoas inúteis.
A mulher acenou.
— Sou Lily Chen. Ele é sempre assim.
Irmão Zachariah estudou a dupla com novo interesse. A mulher tinha cabelo com mechas amarelo-neon e usava um vestido chinês escarlate, que lhe caía bem, e, apesar da observação, ria das palavras do companheiro. O cabelo do menino era ondulado, e ele tinha um rosto doce e ar desdenhoso. Havia uma cicatriz de queimadura na base da garganta, onde estaria um crucifixo.
Acredito que temos um amigo em comum, disse o Irmão Zachariah.
— Acho que não — contradisse Raphael Santiago. — Não tenho amigos.
— Ah, muito obrigada — ironizou a mulher a seu lado.
— Você, Lily — começou Raphael com frieza —, é minha subordinada. — Ele se voltou novamente para o Irmão Zachariah. — Presumo que esteja se referindo ao feiticeiro Magnus Bane. Ele é um colega sempre mais envolvido com Caçadores de Sombras do que eu aprovo.
Zachariah ficou imaginando se Lily falava mandarim. Os Irmãos do Silêncio, conversando de uma mente para outra, não precisavam de línguas, mas, às vezes, Zachariah sentia falta da sua. Havia noites — na Cidade do Silêncio, era sempre noite — em que ele não conseguia se lembrar do próprio nome, mas conseguia se lembrar da voz da mãe, do pai ou da noiva soando em mandarim. A noiva tinha aprendido um pouco da língua por sua causa, em um tempo em que ele achava que viveria para se casarem. Não teria se importado em conversar mais tempo com Lily, mas não estava gostando particularmente da atitude do outro.
Considerando que você não parece gostar muito de Caçadores de Sombras, e não tem muito interesse em nosso conhecido, observou o Irmão Zachariah, por que me abordou?
— Gostaria de falar com um Caçador de Sombras — explicou Raphael.
Por que não ir a seu Instituto?
Os lábios de Raphael se repuxaram, mostrando as presas num sorriso desdenhoso. Ninguém era melhor nisso que um vampiro, e aquele menino era particularmente bom.
— Meu Instituto, como você o chama, pertence a pessoas que são... como dizer isso sem ofender... intolerantes e assassinas.
Uma fada vendendo laços encantados passou por eles, deixando um rastro de fitas azuis e roxas.
Essa declaração é bem ofensiva, o Irmão Zachariah se sentiu obrigado a observar.
— Eu sei — concordou Rafael, pensativo. — Não sou muito talentoso nesse quesito. Nova York sempre foi um lugar de muita atividade Submundana. A luz desta cidade influencia as pessoas, como se fôssemos todos lobisomens uivando para uma lua elétrica. Um feiticeiro tentou destruir o mundo por aqui uma vez, antes de meu tempo. A líder de meu clã fez um experimento desastroso com drogas, contra meu conselho, e transformou a cidade num abatedouro. As batalhas fatais dos lobisomens pela liderança são mais frequentes em Nova York que em qualquer outro lugar. Os Whitelaw, do Instituto de Nova York, nos entendiam, e vice-versa. Eles morreram defendendo o Submundo das pessoas que agora ocupam o Instituto. Claro que a Clave não nos consultou quando nos tornou o castigo dos Lightwood. Não temos nada a ver com o Instituto de Nova York agora.
O tom de Raphael era inflexível, e o Irmão Zachariah achou que deveria se preocupar. Ele tinha lutado na Ascensão, quando um bando de jovens renegados enfrentou os próprios líderes, contra a paz com o Submundo. Ouvira a história do Círculo de Valentim caçando lobisomens em Nova York, e os Whitelaw atrapalhando, o que resultou em uma tragédia que nem mesmo aquele grupo de jovens intolerantes e odiadores do Submundo pretendia. Ele não aprovava que os Lightwood e Hodge Starkweather fossem banidos para o Instituto de Nova York, mas dizia-se que os Lightwood tinham se acertado com seus três filhos e se arrependiam verdadeiramente das ações passadas.
A dor e as brigas pelo poder do mundo pareciam muito distantes na Cidade do Silêncio.
Zachariah não imaginava que os integrantes do Submundo detestassem tanto os Lightwood a ponto de recusarem ajuda dos Caçadores de Sombras, mesmo quando precisassem. Talvez ele devesse ter pensado nisso.
Integrantes do Submundo e Caçadores de Sombras têm uma história longa e complicada, cheia de dor, e boa parte da dor foi culpa dos Nephilim, admitiu o Irmão Zachariah. Mas, mesmo assim, ao longo dos anos eles encontraram uma maneira de trabalhar juntos. Sei que, quando seguiram Valentim Morgenstern, os Lightwood fizeram coisas terríveis, mas, se realmente se arrependeram, não podem perdoá-los?
— Como alma condenada, não tenho objeção moral aos Lightwood — argumentou Raphael, com um tom profundamente moralista. — Mas tenho fortes objeções a ter a cabeça cortada. Os Lightwood acabariam com meu clã sem pestanejar.
A única mulher que Zachariah um dia amou era uma feiticeira. Ele a viu chorar por causa do Círculo e de seus efeitos. O Irmão Zachariah não tinha motivo para apoiar os Lightwood, mas todo mundo merecia uma segunda chance se realmente a desejasse.
E uma das ancestrais de Robert Lightwood fora uma mulher chamada Cecily Herondale.
Digamos que não o fizessem, sugeriu o Irmão Zachariah. Não seria preferível restabelecer relações com o Instituto em vez de torcer para encontrar um Irmão do Silêncio no Mercado das Sombras?
— Claro que seria — concordou Raphael. — Reconheço que esta não é uma situação ideal. Não é a primeira vez que sou forçado a empregar um estratagema para uma reunião com um Caçador de Sombras. Há cinco anos, tomei café com um Ashdown de visita por aqui.
Ele e a acompanhante tiveram um calafrio de aversão.
— Detesto os Ashdown — observou Lily. — São tão chatos. Se eu me alimentasse de um deles, acho que pegaria no sono na metade, sem nem terminar.
Raphael lançou a ela um olhar de advertência.
— Não que algum dia eu sonhasse em tomar o sangue de algum Caçador de Sombras de forma não consensual, porque isso violaria os Acordos! — Lily informou ao Irmão Zachariah em voz alta. — Os Acordos são extremamente importantes para mim.
Raphael fechou os olhos com uma expressão de sofrimento no rosto, mas após um instante ele os abriu e fez que sim com a cabeça.
— Então, Irmão Bonitinhoariah, pode nos ajudar? — perguntou Lily alegremente.
Um peso frio de reprovação se fez presente, emanava de seus Irmãos do Silêncio, como pedras pressionando sua mente. Enquanto Irmão, Zachariah podia fazer muitas coisas, mas suas visitas frequentes aos Mercados das Sombras e seu encontro anual com uma dama na Blackfriars Bridge já testavam bastante os limites do que era permitido. Se ele começasse a se relacionar com integrantes do Submundo para lidar com questões que poderiam ser perfeitamente resolvidas por um Instituto, corria o risco de ter os privilégios suspensos.
Ele não podia perder aquele encontro anual. Qualquer coisa, menos isso.
Os Irmãos do Silêncio são proibidos de interferir nas questões do mundo externo. Seja qual for o problema, disse o Irmão Zachariah, recomendo que consultem seu Instituto.
Ele abaixou a cabeça e começou a virar as costas.
— Meu problema são lobisomens contrabandeando yin fen para Nova York — revelou Raphael às suas costas. — Já ouviu falar em yin fen?
Os sinos e canções do Mercado das Sombras pareceram silenciar.
Irmão Zachariah se virou rapidamente para os dois vampiros. Raphael Santiago o encarou com olhos brilhantes, que não deixaram dúvida de que o vampiro sabia muito sobre sua história.
— Ah! — exclamou o morto-vivo. — Vejo que sim.
Zachariah normalmente tentava preservar as lembranças da vida mortal, mas agora precisou se esforçar para impedir o despertar do pavor invasivo, como uma criança cujos entes queridos estavam todos mortos, o fogo de prata queimando em suas veias.
Onde ouviu falar sobre o yin fen?
— Não pretendo lhe contar — respondeu Raphael. — Mas também não pretendo deixar que essa coisa circule livremente por minha cidade. Uma grande quantidade de yin fen está vindo para cá, a bordo de um navio trazendo cargas de Xangai, Ho Chi Minh, Viena e até mesmo Idris. O navio descarrega no terminal de passageiros de Nova York. Vai me ajudar ou não?
Raphael já havia mencionado que a líder de seu clã fizera experimentos desastrosos com drogas. O palpite de Zachariah era que muitos clientes em potencial no Submundo comentavam sobre o carregamento de yin fen no Mercado. Foi pura sorte o fato de que um de seus integrantes, com ideias conservadoras a respeito, descobrisse.
Vou ajudá-lo, disse o Irmão Zachariah. Mas temos de consultar o Instituto de Nova York. Se quiser, posso acompanhá-lo e explicar a situação. Os Lightwood vão apreciar a informação, além do fato de que você a forneceu. Esta é uma oportunidade para melhorar as relações entre o Instituto e todos os integrantes do Submundo de Nova York.
Raphael não pareceu convencido, mas, após um instante, assentiu.
— Você vai comigo? — perguntou. — Não vai faltar? Eles não dariam ouvidos a um vampiro, mas suponho que seja possível que escutem um Irmão do Silêncio.
Farei o que for possível, assegurou o Irmão Zachariah.
Astúcia invadiu a voz de Raphael.
— E se eles não me ajudarem? Se eles ou a Clave se recusarem a acreditar em mim, o que você fará?
Ainda assim eu o ajudarei, prometeu o Irmão Zachariah, ignorando o uivo frio dos Irmãos em sua mente e pensando nos olhos límpidos de Tessa. Ele morria de medo de perder um encontro com Tessa, mas, quando a encontrasse, queria olhar em seus olhos. Não poderia deixar que nenhuma criança sofresse o que ele sofrera, se pudesse evitar.
Zachariah não mais vivenciava tudo o que sentia quando era mortal, mas Tessa ainda o fazia. Não permitiria que ela se decepcionasse com ele. Era sua última estrela-guia.
— Vou ao Instituto com vocês — ofereceu Lily.
— Não vai mesmo. — Raphael se irritou. — Não é seguro. Lembre-se, o Círculo atacou Magnus Bane.
O gelo na voz de Raphael poderia ter congelado Nova York por uma semana no verão. Ele encarou o Irmão do Silêncio com ar de reprovação.
— Magnus inventou seus Portais, não que receba algum crédito dos Caçadores de Sombras. Ele é um dos feiticeiros mais poderosos do mundo e tem um coração tão mole que corre para ajudar assassinos maléficos. É o de melhor o Submundo tem a oferecer. Se o Círculo o alvejou, eles acabariam com qualquer um de nós.
— Seria uma pena — confirmou Lily. — E Magnus também dá as melhores festas.
— Não sei — disse Raphael, lançando um olhar de desgosto à alegria do Mercado. — Não gosto de pessoas. Nem de reuniões.
Um lobisomem usando um capacete de lua cheia de papel machê encantado passou por Raphael, gritando “Auuuuu!”. Raphael se virou para encará-lo, e o lobisomem recuou com as mãos erguidas, murmurando:
— Hum, desculpe. Foi mal.
Apesar da simpatia pelo lobisomem, o Irmão Zachariah relaxou um pouco ao perceber que o menino vampiro não era totalmente terrível.
Entendo que valoriza muito Magnus Bane. Eu também. Certa vez, ele ajudou uma pessoa muito querida a...
— Não, eu não! — interrompeu Raphael. — E não me importo com sua história. Não diga a ele que eu falei essas coisas. Posso ter opiniões sobre meus colegas. Não significa que tenha sentimentos por eles.
— Oi, amigo, que bom vê-lo — cumprimentou Ragnor Fell, passando por ele.
Raphael parou para saudar o feiticeiro verde antes de Ragnor desaparecer entre as bancadas, os sons e as luzes multicoloridas do Mercado. Lily e o Irmão Zachariah o observaram.
— Ele é outro colega! — protestou Raphael.
Gosto de Ragnor, revelou o Irmão Zachariah.
— Que bom para você — Raphael se irritou. — Aproveite seu hobby de gostar e confiar em todos. A mim me parece tão bom quanto um banho de sol.
Zachariah teve a impressão de que conhecera outro motivo, além da ex-vampira maldosa de Magnus, pelo qual o feiticeiro parecia ter uma enxaqueca cada vez que alguém mencionava o clã de vampiros de Nova York na sua frente. Ele, Lily e Raphael foram caminhando pelo Mercado.
— Amuleto do amor para o mais belo Irmão do Silêncio? — perguntou a fada pela quinta vez, encarando-o através do cabelo floral. Às vezes, desejava que o Mercado das Sombras não tivesse se acostumado tanto a ele.
Ele se lembrava daquela mulher, pensou, recordando-se vagamente da criatura machucando uma criança de cabelos dourados. Fazia tanto tempo. Na época, ele se importara muito.
Lily desdenhou.
— Duvido de que o Irmão Sexyariah precise de um amuleto do amor.
Não, obrigado, o Irmão Zachariah respondeu à fada. Fico muito lisonjeado, embora o Irmão Enoch seja um belo homem.
— Ou talvez você e a dama quisessem algumas lágrimas de fênix para uma noite de intensa paix... — De repente, ela se calou e a banca inteira saiu correndo pelo chão de concreto com pequenos pés de galinha. — Ops, deixe para lá! Não o vi aí, Raphael.
As sobrancelhas finas do vampiro subiram e desceram como uma guilhotina.
— Mais estraga-prazeres que o Irmão do Silêncio — murmurou Lily. — Nossa, que vergonha!
Raphael tinha um ar convencido. Na mente de Zachariah, o Irmão Enoch estava irritado por ter sido alvo de uma piada. A luz e o redemoinho do Mercado das Sombras brilhavam com um fulgor claro diante dos olhos do Irmão do Silêncio. Ele não gostava da ideia de yin fen se espalhando como um incêndio prateado em outra cidade, matando tão depressa quanto as chamas ou tão lentamente quanto a fumaça inalada. Se estava a caminho, ele tinha de impedir. Aquela ida ao Mercado fora útil, afinal. Se ele não podia sentir, podia agir.
Talvez amanhã à noite os Lightwood conquistem sua confiança, disse o Irmão Zachariah, enquanto ele e os vampiros entravam no agito mundano da Canal Street.
— Duvido — retrucou Raphael.
Sempre achei melhor ter esperança que me desesperar, retrucou Zachariah calmamente. Esperarei por você do lado de fora do Instituto.
Atrás do grupo, luzes encantadas brilhavam e o som da música das fadas ecoava pelos corredores do teatro. Uma mulher mundana se virou e observou o prédio. Um raio estranho de luz azul brilhante cruzou aqueles olhos que nada viam.
Os dois vampiros seguiam na direção leste, mas, no meio da rua, Raphael se virou para onde estava o Irmão Zachariah. À noite, longe das luzes do Mercado, a cicatriz do vampiro era branca, e seus olhos, negros. Olhos que enxergavam demais.
— Esperança é para tolos — avisou o vampiro. — Eu o encontrarei amanhã à noite, mas, lembre-se disso, Irmão do Silêncio: um ódio como aquele não desaparece. O trabalho do Círculo ainda não acabou. O legado Morgenstern fará mais vítimas. Não pretendo ser uma delas.
Espere, chamou o Irmão Zachariah. Você sabe o motivo de o navio descarregar no terminal de passageiros?
Raphael deu de ombros.
— Eu disse que o navio traz uma carga de Idris. Acho que tem algum moleque Caçador de Sombras a bordo.
Irmão Zachariah se afastou do Mercado sozinho, pensando em uma criança em um navio com uma carga letal e na possibilidade de mais vítimas.


Isabelle Lightwood não estava acostumada a se sentir nervosa com nada, mas qualquer pessoa poderia ficar apreensiva diante da perspectiva de uma nova adição à família.
Daquela vez, não era como antes do nascimento de Max, quando Isabelle e Alec fizeram apostas sobre o sexo do bebê e, depois, os pais confiaram o suficiente para deixar que o segurassem no colo, o menor e mais fofo pacotinho que se podia imaginar.
Um menino mais velho que Isabelle estava sendo jogado em sua porta e moraria lá. Jonathan Wayland, o filho do parabatai de seu pai, Michael Wayland. Muito longe, em Idris, Michael havia morrido e Jonathan precisava de um lar.
Quanto a ela, Isabelle se sentia um pouco animada. Ela gostava de aventuras e de companhia. Se Jonathan Wayland fosse tão divertido e tão bom lutador quanto Aline Penhallow, que, às vezes, os visitava com a mãe, Isabelle ficaria feliz em recebê-lo.
Mas ela não era a única a ser considerada.
Seus pais estavam brigando por causa de Jonathan Wayland desde a notícia da morte de Michael. Isabelle concluiu que a mãe não gostava de Michael Wayland. A garota também não tinha certeza se o pai gostava. Ela mesma nunca o havia encontrado. Nem soubera que o pai tinha um parabatai. Os pais jamais falavam sobre quando eram jovens, mas a mãe dissera, certa vez, que eles tinham cometido muitos erros. Às vezes, Isabelle ficava imaginando se tinham se metido na mesma encrenca que seu tutor, Hodge. Sua amiga Aline havia dito que ele era um criminoso.
Não importava o que os pais tinham ou não feito, Isabelle não achava que a mãe queria que Jonathan Wayland se tornasse um lembrete de seus erros na própria casa.
O pai não parecia feliz quando falava sobre seu parabatai, mas parecia determinado quanto a Jonathan morar com eles. O menino não tinha para onde ir, insistiu papai, e seu lugar era ali. Era isso que significava ser parabatai. Uma vez, quando estava espionando uma briga do casal, Isabelle ouviu o pai dizer “devo isso a Michael”.
A mãe concordou em deixar que Jonathan ficasse por um período de experiência, mas agora, que as gritarias tinham cessado, ela não falava com seu pai. Isabelle estava preocupada com os dois, principalmente com a mãe. E também precisava pensar em seu irmão.
Alec não gostava de gente nova. Sempre que novos Caçadores de Sombras chegavam de Idris, o menino desaparecia misteriosamente. Uma vez Isabelle o encontrou escondido atrás de um vaso imenso, alegando ter se perdido enquanto procurava a sala de treinamento.
Jonathan Wayland vinha de navio para Nova York e deveria chegar ao Instituto em dois dias.
Isabelle estava na sala de treinamento, praticando com o chicote e refletindo sobre o problema de Jonathan, quando ouviu passos acelerados e a cabeça do irmão surgiu no vão da porta. Os olhos azuis brilhavam.
— Isabelle — chamou. — Venha depressa! Tem um Irmão do Silêncio reunido com mamãe e papai no Santuário. E trouxe um vampiro!
Isabelle correu até o quarto para tirar o uniforme e colocar um vestido. Os Irmãos do Silêncio eram uma companhia chique, quase como se o Cônsul tivesse vindo visitá-los.
Quando chegou lá embaixo, Alec já estava no Santuário, observando, e seus pais, imersos em uma conversa com o Irmão do Silêncio. Isabelle ouviu a mãe dizer algo que soou como “Iogurte! Inacreditável!” para o Irmão do Silêncio.
Talvez não fosse iogurte. Talvez fosse outra palavra.
— No navio com o filho de Michael! — exclamou o pai.
Não podia ser iogurte, a não ser que Jonathan fosse muito alérgico a laticínios.
O Irmão do Silêncio era muito menos assustador do que Isabelle imaginava. Na verdade, ela conseguia enxergar por baixo do capuz, e ele parecia um dos cantores mundanos que vira em cartazes pela cidade. Pelo jeito como Robert acenava com a cabeça para ele e Maryse estava inclinada em sua direção na cadeira, Isabelle pôde perceber que se entendiam.
O vampiro não estava conversando com seus pais. Ele se reclinara sobre uma das paredes, braços cruzados, olhando com raiva para o chão. Não parecia interessado em se entender com ninguém. Parecia um menino, pouco mais velho que eles, e seria quase tão bonito quanto o Irmão do Silêncio se não fosse pela expressão amarga. Usava uma jaqueta de couro preta que combinava com sua careta. Isabelle queria poder enxergar as presas.
— Você quer um café? — ofereceu Maryse em um tom frio e supostamente formal.
— Eu não bebo... café — respondeu o vampiro.
— Estranho — retrucou Maryse. — Soube que tomou um café muito bom com Catherine Ashdown.
O vampiro deu de ombros. Isabelle sabia que vampiros estavam mortos, não tinham alma e tudo mais, mas não entendia por que precisavam ser grosseiros.
Ela cutucou Alec nas costelas.
— Olhe só o vampiro. Dá para acreditar nisso?
— Pois é! — sussurrou Alec em resposta. — Ele não é incrível?
— Quê? — exclamou Isabelle, agarrando o cotovelo do irmão.
Alec não olhou para ela. Estava examinando o vampiro. Isabelle começou a ter a mesma sensação desconfortável que tinha sempre que flagrava o irmão encarando os mesmos pôsteres de cantores mundanos que ela. Alec sempre ficava vermelho e irritado quando ela o flagrava olhando. Às vezes, Isabelle achava que seria legal conversar sobre os cantores, da forma como via meninas mundanas fazerem, mas sabia que Alec não ia querer. Uma vez a mãe perguntou a eles o que estavam olhando, e Alec pareceu apavorado.
— Não chegue perto dele — alertou Isabelle. — Vampiros são nojentos.
Ela estava acostumada a sussurrar para o irmão em uma multidão. O vampiro virou levemente a cabeça, e a menina se lembrou de que eles não tinham a audição ridícula dos mundanos. E, com certeza, era capaz de ouvi-la.
Aquela terrível percepção fez com que Isabelle relaxasse o aperto em Alec. Horrorizada, ela viu o irmão se afastar e avançar, com uma determinação nervosa, na direção do vampiro. Sem querer ficar de fora, deu alguns passos atrás do garoto.
— Olá — cumprimentou Alec. — É, hum, um prazer conhecê-lo.
O menino vampiro lhe deu um olhar que sugeria que, por mais distantes que estivessem, ainda era muito próximo e que gostaria de curtir aquela bendita solidão bem longe dali.
— Olá.
— Sou Alexander Lightwood — disse Alec.
— Eu me chamo Raphael — apresentou-se o vampiro, fazendo uma careta, como se a apresentação fosse uma informação vital extraída sob tortura.
Quando ele fez aquela cara, Isabelle viu os caninos. Não eram tão legais quanto havia imaginado.
— Eu tenho quase 12 anos — emendou Alec, que acabara de completar 11. — Você não parece muito mais velho que eu. Mas sei que é diferente com os vampiros. Acho que vocês meio que ficam na idade em que param, não é? Como se você tivesse 15 anos, mas tem 15 há cem. Há quanto tempo você tem 15 anos?
— Tenho 63 — respondeu Raphael, seco.
— Ah — disse Alec. — Ah. Ah, que legal.
Ele deu mais alguns passos em direção ao vampiro. Raphael não recuou, mas parecia querer.
— Além disso — acrescentou Alec timidamente —, sua jaqueta é legal.
— Por que você está falando com meus filhos? — perguntou a mãe rispidamente.
Ela já levantara da cadeira em frente ao Irmão do Silêncio e, enquanto falava, segurou Alec e Isabelle. Seus dedos beliscavam; ela apertava com tanta força que o medo pareceu entrar em Isabelle pelo toque, apesar de ela não ter se assustado antes.
O vampiro não estava olhando para eles como se fossem deliciosos. Mas talvez fosse assim que eles atraíam as pessoas, cogitou Isabelle. Talvez Alec só estivesse enfeitiçado pelo menino. Seria bom poder culpar os integrantes do Submundo pelas preocupações.
O Irmão do Silêncio levantou e deslizou até eles. Isabelle ouviu o vampiro sussurrando, e tinha certeza de que ele dissera: “Isto é um pesadelo.”
A menina lhe mostrou a língua. O lábio de Raphael se curvou minimamente, se afastando das presas. Alec olhou para Isabelle nesse momento, para ter certeza de que não estava assustada. Isabelle não se assustava com frequência, mas Alec vivia preocupado.
Raphael veio por estar preocupado com uma criança Caçadora de Sombras, esclareceu o Irmão do Silêncio.
— Não, não vim — desdenhou Raphael. — É melhor ficar de olho em seus filhos. Certa vez matei uma gangue inteira de meninos não muito mais velhos que seu garoto aqui. Devo interpretar isso como uma recusa em ajudar com o carregamento? Estou muito chocado. Bem, tentamos. Hora de ir, Irmão Zachariah.
— Espere — pediu Robert. — Claro que vamos ajudar. Vou encontrá-los no local de desembarque em Nova Jersey
Naturalmente seu pai ajudaria, pensou Isabelle indignada. Aquele vampiro era um idiota. Independentemente dos erros que tivessem cometido quando eram mais jovens, os pais comandavam todo o Instituto e mataram muitos e muitos demônios do mal. Qualquer pessoa sensata saberia que sempre poderia contar com seu pai.
— Pode nos consultar sobre outras questões relativas a Caçadores de Sombras a qualquer momento — acrescentou a mãe, sem soltar as duas crianças até que o vampiro e o Irmão Zachariah tivessem partido.
Isabelle achou que a visita seria divertida, mas acabou se sentindo péssima. Queria que Jonathan Wayland não viesse. Hóspedes eram terríveis, e Isabelle nunca mais queria um.


O plano era entrar escondido no navio, prender os contrabandistas e jogar fora o yin fen. A criança jamais precisaria saber.
Era uma sensação quase agradável estar em um dos lustrosos barcos dos Caçadores de Sombras outra vez. O Irmão Zachariah tinha passeado em trimarãs — aqueles barcos com três cascos — nos lagos de Idris quando era criança, e, certa vez, seu parabatai roubou um e eles remaram pelo Tâmisa.
Agora ele, um Robert Lightwood nervoso e dois vampiros estavam em um barco, que saía do porto de Camden para navegar as negras águas noturnas do rio Delaware. Lily não parou de reclamar que estavam praticamente na Filadélfia até o barco se aproximar do navio de carga. O nome Mercador do Amanhecer estava pintado em letras azul-escuro na lateral cinzenta.
Esperaram o momento, e, então, Robert lançou um gancho.
Ele, o Irmão Zachariah, Raphael e Lily entraram no barco por uma cabine deserta. O trajeto, por mais curto e rápido que tivesse sido, deixou a impressão de que não havia nenhum mundano a bordo. Escondidos, contaram as vozes dos contrabandistas e perceberam que havia muito mais do que supunham.
— Ah, não, Irmão Gostosariah — sussurrou Lily. — Acho que vamos ter de lutar.
Ela pareceu muito animada com a possibilidade. Ao falar, deu uma piscadela e pegou a tiara de melindrosa do cabelo de mechas amarelas.
— É dos anos 1920, não quero estragar — explicou, e acenou com a cabeça para Raphael. — Tenho isso há mais tempo que tenho aquele ali. Ele é dos anos 1950. Fãs de jazz e jaquetas de couro dominam o mundo.
Raphael revirou os olhos.
— Desista dos apelidos. Estão piorando.
Lily riu.
— Não desistirei. Uma vez Zachariah, nunca voltará atrásariah.
Tanto Raphael quanto Robert Lightwood pareciam em choque, mas Zachariah não se importava com os apelidos. Ele não ouvia risos com frequência.
O que o preocupava era a criança.
Não podemos permitir que Jonathan saia machucado ou ferido, avisou.
Robert fez que sim com a cabeça, e os vampiros pareciam totalmente despreocupados quando ouviram a voz de um menino do lado de fora da porta.
— Não tenho medo de nada — foi o que disse.
Jonathan Wayland, supôs Zachariah.
— Então por que está perguntando sobre os Lightwood? — questionou uma voz feminina. Ela parecia irritada. — Eles vão recebê-lo. Não serão maldosos com você.
— Eu só estava curioso — respondeu Jonathan.
Era evidente que ele fazia o melhor que podia para parecer despreocupado e desinteressado, e seu melhor não era ruim. A voz quase parecia arrogante. O Irmão Zachariah pensou que ele teria convencido quase todo mundo.
— Robert Lightwood tem alguma influência na Clave — observou a mulher. — Um homem correto. Tenho certeza de que está pronto para ser um pai para você.
— Eu tinha um pai — disse Jonathan, tão frio quanto o ar noturno.
A mulher ficou calada. Do outro lado da cabine, Robert Lightwood abaixara a cabeça.
— Mas a mãe — continuou Jonathan, arriscando um pouco. — Como é a Sra. Lightwood?
— Maryse? Eu mal a conheço — respondeu a mulher. — Ela já tem três crianças. Quatro é muito.
— Não sou criança — argumentou Jonathan. — Não vou incomodá-la. — Ele pausou e observou. — Tem muito lobisomem neste navio.
— Ah, crianças criadas em Idris são cansativas — disse a moça. — Lobisomens são um fato da vida, infelizmente. Há criaturas por todos os lados. Vá deitar, Jonathan.
Eles ouviram a outra porta se fechar e uma tranca girar.
— Agora — disse Robert Lightwood. — Vampiros, estibordo; Irmão Zachariah e eu, bombordo. Contenham os lobisomens do jeito que for preciso. Em seguida, localizem o yin fen.
Eles foram para o deque. A noite estava difícil, o vento soprava o capuz de Zachariah ainda mais violentamente, e o deque balançava sob seus pés. Zachariah não conseguia abrir a boca para sentir o gosto do sal no ar. Nova York era um brilho no horizonte, cintilando como as luzes do Mercado das Sombras. Não podiam permitir que o yin fen chegasse à cidade.
Havia alguns lobisomens no deque. Um deles assumira a forma de lobo, e Zachariah podia ver um tom prateado em seu pelo. O outro perdera a cor nas pontas dos dedos. O Irmão do Silêncio ficou imaginando se eles sabiam que estavam morrendo. Ele se lembrava, de forma vívida demais, da sensação de quando o yin fen o estava matando.
Às vezes, era bom não ter sensações. Às vezes, ser humano doía demais, e Zachariah não podia se dar ao luxo de sentir pena agora.
Ele bateu com seu bastão na cabeça de um deles, e, quando se virou, Robert Lightwood já tinha cuidado do outro. Ficaram ali de prontidão, ouvindo o uivo do vento e o agito do mar, esperando que os outros viessem de baixo. Em seguida, Zachariah ouviu os ruídos do outro lado do navio.
Fique onde está, ordenou a Robert. Eu vou até os vampiros.
Irmão Zachariah teve de lutar para chegar até os dois. Havia mais lobisomens do que imaginara. Por cima de suas cabeças, dava para ver Raphael e Lily, saltando como se fossem leves feito sombras, os dentes brilhando ao luar.
Também dava para ver os dentes dos lobisomens. Zachariah derrubou um deles pela lateral do navio e arrancou os dentes de outro no mesmo golpe, depois precisou se desviar de um ataque de garras que quase o derrubou. Eles eram muitos.
Foi com vaga surpresa que ele achou que aquele pudesse ser o fim.
Deveria haver mais que surpresa na ideia, mas tudo o que ele conhecia era o vazio que sentia caminhando pelo Mercado e o som das vozes de seus Irmãos, mais frias que o mar. Não se importava com aqueles vampiros. Não se importava consigo mesmo.
Ouviu o rugido de um lobisomem e, depois, o barulho de uma onda quebrando. Os braços do Irmão Zachariah doíam de tanto manejar o bastão. Devia ter acabado havia muito tempo, de qualquer forma. Ele mal conseguia lembrar por que lutava.
Do outro lado do deque, um lobisomem, quase totalmente transformado, girou e esticou a garra na direção do coração de Lily. Ela já estava com as mãos no pescoço de outro licantrope. Não tinha chance de se defender.
Uma porta se abriu, e uma Caçadora de Sombras correu para cima dos licantropes. Ela não estava preparada. Um lobo abriu sua garganta, e, quando Zachariah tentou pegá-la, um lobisomem lhe bateu nas costas. O bastão caiu de seus dedos sem força. Um segundo lobisomem pulou para cima do Irmão do Silêncio, enterrando as garras em seu ombro e deixando-o de joelhos. Outro subiu, e a cabeça de Zachariah bateu na madeira. A escuridão surgiu diante de si. A voz de seus irmãos poderia desaparecer, assim como o barulho do mar e toda a luz do mundo que não mais o tocava.
Os olhos da morta o encararam, o último brilho vazio antes de a escuridão consumir tudo. Parecia que ele estava tão vazio quanto ela. Por que nem sequer lutou?
Só que ele se lembrava. Ele não se permitia esquecer.
Tessa, pensou. Will.
O desespero jamais era tão forte quanto esse pensamento. Ele não podia traí-los, desistindo.
Eles são Will e Tessa, e você era Ke Jian Ming. Você era James Carstairs.
Você era Jem.
Jem sacou uma adaga do cinto. Fez um esforço para se levantar, empurrando um lobisomem pela porta aberta da cabine. E olhou para Lily.
Raphael estava na frente da vampira, o braço esticado para protegê-la, e seu sangue era um esguicho escarlate macabro pelo deque. À noite, sangue humano era negro, mas sangue de vampiro nunca era diferente de vermelho.
Lily gritou seu nome.
Irmão Zachariah precisava do bastão, que rolava pelo chão de madeira, prateado sob o luar, batendo como osso. O entalhe se deslocara e agora era uma sombra escura contra a prata, enquanto o cajado rolava para os pés de um menino que acabara de chegar à cena de caos e sangue.
O garoto, provavelmente Jonathan Wayland, olhou em volta, para o Irmão Zachariah, para os lobos, para a mulher com a garganta aberta. Uma licantrope se aproximava. O menino era jovem demais até mesmo para ter símbolos de guerreiro.
Irmão Zachariah sabia que não seria veloz o bastante.
O menino virou a cabeça, os cabelos dourados brilhando sob o luar prateado, e pegou o bastão de Zachariah. Pequeno e magro, a mais frágil das possíveis barreiras contra a escuridão, ele avançou contra os dentes expostos e as garras. E venceu.
Mais dois avançaram, mas Zachariah matou um, e o menino girou e acertou o outro. Quando rodou no ar, o Irmão do Silêncio não pensou em sombras, como aconteceu ao ver os vampiros, mas em luz.
Quando o menino bateu no deque, com os pés separados e o bastão girando nas mãos, estava rindo. Não era o riso doce de uma criança, mas um som selvagem e exuberante que soava mais forte que o mar, o céu ou as vozes silenciosas. Ele era jovem, desafiador, alegre e um pouco louco.
Mais cedo, o Irmão Zachariah tinha pensado que não ouvia risos o suficiente. Fazia tempo demais que não escutava uma risada como aquela.
Ele atingiu um lobisomem que corria para cima de Jonathan, e depois outro, lançando seu corpo entre o menino e os lobos. Um passou por cima do homem e foi para cima do garoto, e Zachariah o ouviu emitir um ruído baixinho entre dentes.
Você está bem?, perguntou o Irmão.
— Estou! — gritou o menino. O Irmão Zachariah podia ouvi-lo arfando atrás de si.
Não tenha medo, disse o Irmão Zachariah. Estou lutando com você.
O sangue de Zachariah corria mais frio que o mar, e seu coração bateu forte até ele ouvir Robert Lightwood e Lily vindo em seu socorro.
Assim que os lobisomens restantes foram derrotados, Robert levou Jonathan para a ponte. Zachariah voltou a atenção para os vampiros. Raphael estava sem a jaqueta de couro, e Lily tinha rasgado um pedaço da própria camisa e amarrado o tecido no braço do chefe. Estava chorando.
— Raphael — chamou ela. — Raphael, você não devia ter feito isso.
— Sofrido um ferimento que vai se curar em uma noite em vez de perder um membro valioso do clã? — retrucou Raphael. — Agi em benefício próprio. Normalmente é o que faço.
— É bom mesmo — murmurou Lily, limpando as lágrimas violentamente com as costas da mão. — O que eu faria se alguma coisa acontecesse a você?
— Alguma coisa prática, espero — disse Raphael. — Por favor, salve material de um dos muitos lobisomens mortos da próxima vez. E pare de envergonhar o clã na frente de Caçadores de Sombras.
Lily seguiu o olhar de Raphael, por cima do ombro, até o Irmão Zachariah. Havia sangue manchado e misturado ao delineador, mas ela arreganhou as presas num sorriso.
— Talvez eu queira tirar a camisa para o Irmão Olhe-pros-meuspeitosariah.
Raphael ergueu os olhos para o céu. Como não a encarava, Lily podia olhar para ele. E foi o que fez. Irmão Zachariah a viu levantar a mão, com as unhas pintadas de vermelho e dourado, e quase tocar os cabelos cacheados do vampiro. Sua mão se movia como se ela pudesse afagar as sombras acima da cabeça de Raphael; em seguida, ela se fechou em um punho. Não se permitiu esse luxo.
Raphael fez um gesto para que se afastasse, e, depois, se levantou.
— Vamos achar o yin fen.
Não foi difícil. Estava em uma caixa grande em uma das cabines inferiores. Lily e o Irmão do Silêncio carregaram a caixa para cima, e a vampira estava pronta para fazer uma cena se Raphael tentasse ajudar.
Mesmo após todos esses anos, ver o brilho do yin fen sob o luar embrulhou o estômago de Zachariah, como se aquela imagem o tivesse jogado em um barco em outro mar, um barco no qual jamais conseguia manter o equilíbrio.
Lily fez um gesto, como se fosse jogar a caixa no mar, para que fosse engolida pelas águas famintas.
— Não, Lily! — advertiu Raphael. — Não vou permitir que sereias viciadas infestem os rios de minha cidade. E se acabarmos com jacarés prateados e reluzentes nos esgotos? Ninguém vai se surpreender, mas vou saber que a culpa é sua, e ficarei extremamente desapontado.
— Você nunca deixa que eu me divirta — resmungou Lily.
— Jamais deixo ninguém se divertir — disse Raphael, e assumiu um ar convencido.
Irmão Zachariah fitou a caixa cheia de pó prateado. Certa vez aquilo significou para ele a diferença entre uma morte lenta ou uma rápida. Ele fez fogo com um símbolo conhecido apenas pelos Irmãos do Silêncio, para queimar qualquer magia nefasta. Vida e morte não passavam de cinzas no ar.
Obrigado por me contar sobre o yin fen, agradeceu a Raphael.
— De meu ponto de vista, eu me aproveitei de sua fraqueza em relação a isso — argumentou Raphael. — Soube que você já teve de usá-lo para se manter vivo, mas, pelo que vejo, não deu certo. Enfim, seu estado emocional não me importa, e minha cidade está segura. Missão cumprida.
Ele limpou as mãos, que brilhavam com sangue e prata, sobre as ondas.
Sua líder sabe alguma coisa sobre essa missão?, perguntou Zachariah a Lily.
Ela estava de olho em Raphael.
— Claro — admitiu ela. — Meu líder contou tudo a você. Não contou?
— Lily! Isso é burrice e traição. — A voz de Raphael estava tão fria quanto a brisa do mar. — Se eu recebesse ordens para executá-la por isso, não se engane, eu o faria. Não hesitaria.
Lily mordeu o lábio e tentou não transparecer a mágoa que evidentemente sentia.
— Ah, mas tenho uma sensação boa quanto ao Irmão Zachagostosão. Ele não vai contar nada.
— Tem algum lugar onde um vampiro possa se esconder em segurança do nascer do sol? — perguntou Raphael.
Irmão Zachariah não tinha considerado que a luta demorada com os lobisomens significava o iminente nascer do sol. Raphael o encarou quando ele não respondeu.
— Só tem lugar para um? Lily precisa estar segura. Sou responsável por ela.
Lily virou o rosto para que Raphael não notasse sua expressão, mas Zachariah viu. Ele reconheceu a expressão de um tempo em que ele mesmo tinha sido capaz de se sentir como ela. A vampira parecia doente de amor.
Havia espaço para os dois vampiros no porão. Enquanto caminhava para examinar o local, Lily quase tropeçou na Caçadora de Sombras morta.
— Oooh, Raphael! — exclamou alegremente. — É Catherine Ashdown.
Ver que ela pouco se importava com a vida de um ser humano foi como um borrifo de água marinha fria. Irmão Zachariah a observava quando ela se deu conta, atrasada, de sua presença.
— Oh, não — acrescentou ela, em um tom nada convincente. — Que tragédia terrível!
— Vá para o porão, Lily — ordenou Raphael.
Vocês não vão juntos?, perguntou o Irmão Zachariah.
— Prefiro esperar o máximo possível até o amanhecer a fim de me testar — respondeu Raphael.
— Ele é católico. Muito, muito católico — suspirou Lily.
A mão de Lily se movia sem parar ao lado do corpo, como se ela quisesse esticar o braço e puxar Raphael. Em vez disso, ela acenou novamente para Zachariah, o mesmo cumprimento que dera quando eles se conheceram.
— Irmão Saradoriah — brincou a vampira. — Foi um prazer.
Igualmente, disse o Irmão Zachariah, e a ouviu descendo silenciosamente a escada.
Pelo menos, ela dissera o nome da mulher. Irmão Zachariah poderia levá-la de volta à família e à Cidade dos Ossos, onde ela poderia descansar, mas ele não.
Ele se ajoelhou ao lado da falecida e lhe fechou os olhos.
Ave atque vale, Catherine Ashdown, murmurou.
Zachariah se levantou e viu Raphael ainda a seu lado, embora não estivesse olhando nem para ele nem para a mulher morta. Os olhos do vampiro estavam fixos no mar negro tocado pela luz do luar, o céu escuro riscado pela linha prateada mais delicada.
Fico feliz por ter conhecido vocês dois, acrescentou Zachariah.
— Não consigo imaginar o motivo — disse Raphael. — Aqueles nomes que Lily inventou eram péssimos.
As pessoas não costumam brincar com os Irmãos do Silêncio.
A possibilidade de não ter de ouvir piadas deixou Raphael esperançoso.
— Parece bom ser um Irmão do Silêncio. Tirando o fato de que Caçadores de Sombras são irritantes e patéticos. E eu não sei se ela estava brincando. Eu ficaria de olhos abertos na próxima visita a Nova York, se fosse você.
Claro que ela estava brincando, assegurou o Irmão Zachariah. Ela está apaixonada por você.
O rosto de Raphael se contorceu.
— Por que Caçadores de Sombras sempre querem falar sobre sentimentos? Por que ninguém consegue ser só profissional? Para sua informação, não tenho interesse em romances, nem nunca terei. Agora podemos parar com esse assunto ridículo?
Eu posso, disse o Irmão Zachariah. Talvez você queira falar sobre a gangue de meninos que diz ter matado?
— Matei muita gente — respondeu Raphael de forma distante.
Um grupo de crianças?, disse Zachariah. Em sua cidade? Isso foi nos anos de 1950?
Maryse Lightwood pode ter sido enganada. O Irmão do Silêncio sabia como era quando alguém se culpava e se odiava pelo que havia acontecido com as pessoas amadas.
— Tinha um vampiro caçando crianças nas ruas em que meus irmãos brincavam — começou Raphael, a voz ainda distante. — Levei minha gangue até a toca para contê-lo. Nenhum de nós sobreviveu.
Irmão Zachariah tentou ser gentil.
Quando um vampiro é recém-nascido, ele não consegue se controlar.
— Eu era o líder — argumentou Raphael, e a voz de aço não permitia réplica. — Eu era responsável. Bem. Nós conseguimos conter o vampiro, e minha família sobreviveu.
Todos, menos um.
— Normalmente faço o que decido fazer — avisou Raphael.
Isso está extremamente claro, disse o Irmão Zachariah.
Ele ouviu o ruído das ondas batendo na lateral do barco, conduzindo-os para a cidade. Na noite do Mercado, quase se havia desligado da cidade e de todos, e certamente não sentira nada por um vampiro determinado a não sentir nada.
Mas, então, veio uma risada, e o som despertou coisas que ele temia que estivessem mortas. Uma vez desperto para o mundo, Zachariah não queria deixar de enxergar nada.
Hoje você salvou algumas pessoas. Os Caçadores de Sombras salvaram pessoas, mesmo que não tenham conseguido salvá-lo quando você era uma criança tentando combater monstros.
Raphael se contorceu, como se aquela implicação quanto a seus motivos para não gostar dos Caçadores de Sombras fosse uma mosca.
— Poucos se salvam — disse Raphael. — Ninguém é poupado. Já tentaram me salvar uma vez, e um dia vou retribuir. Não quero ter outra dívida, e nem quero que alguém me deva. Todos conseguimos o que queríamos. Eu e os Caçadores de Sombras encerramos por aqui.
Sempre pode haver outro momento para ajuda ou colaboração, disse o Irmão Zachariah. Os Lightwood estão tentando. Considere permitir que os outros integrantes do Submundo saibam que você sobreviveu depois de ter lidado com eles.
Raphael emitiu um ruído incompreensível.
Existem mais tipos de amor que estrelas, continuou o Irmão Zachariah. Se você não sente um, existem muitos outros. Você sabe o que é se importar com família e amigos. O que conservamos sagrado nos mantém a salvo. Pense que, ao tentar se privar da dor, você fecha as portas para o amor e vive na escuridão.
Raphael cambaleou até a grade e fingiu vomitar. Em seguida, se levantou.
— Ah, espere, sou um vampiro e não sinto enjoo — ironizou. — Fiquei totalmente nauseado por um segundo. Não sei por quê. Até onde eu sabia, Irmãos do Silêncio são reservados. Eu estava ansioso por alguém reservado!
Não sou um Irmão do Silêncio comum, observou o Irmão Zachariah.
— Que sorte a minha cair com o Irmão do Silêncio sensível. Posso solicitar um diferente no futuro?
Então você acha que pode haver um momento quando seu caminho volte a cruzar com o dos Caçadores de Sombras?
Raphael emitiu um ruído enojado e deu as costas para o mar. Seu rosto parecia tão pálido quanto o luar, branco como a bochecha de uma criança há muito morta.
— Vou descer. A não ser, é claro, que você tenha mais alguma sugestão brilhante?
O Irmão Zachariah assentiu. A sombra de seu capuz baixou sobre a cicatriz de cruz na garganta do vampiro.
Tenha fé, Raphael. Sei que se lembra como.


Com os vampiros em segurança no andar de baixo e Robert Lightwood conduzindo o navio para Manhattan, o Irmão Zachariah assumiu a tarefa de limpar o deque, escondendo os corpos. Ele chamaria seus irmãos para ajudar a cuidar disso e dos sobreviventes, que no momento estavam trancados em uma das cabines. Enoch e os outros podiam não aprovar sua decisão de ajudar Raphael, mas, mesmo assim, cumpririam sua missão de manter o Mundo das Sombras oculto e seguro.
Depois que Zachariah terminou, só restou esperar que o navio os levasse até a cidade. Ele se sentou e aguardou, aproveitando a sensação da luz de um novo dia no rosto.
Fazia muito tempo que não sentia a luz, e mais tempo ainda que não tinha esse simples prazer.
Sentou perto da ponte, de onde podia ver Robert e o jovem Jonathan Wayland sob a luz da manhã.
— Tem certeza de que está bem? — perguntou Robert.
— Tenho — respondeu Jonathan.
— Você não se parece muito com Michael — acrescentou Robert, meio sem jeito.
— Não — concordou Jonathan. — Sempre quis parecer com ele.
As costas magras do menino se prepararam para a decepção.
— Tenho certeza de que é um bom menino — disse Robert.
Jonathan não parecia seguro. Robert se poupou do desconforto, examinando cuidadosamente os controles.
O menino saiu da ponte com graciosidade, apesar da arrancada do barco e da exaustão que certamente sentia. Zachariah ficou espantado quando o jovem Jonathan avançou até onde ele estava.
Irmão Zachariah puxou o capuz para perto do rosto. Alguns Caçadores de Sombras ficavam inquietos com um Irmão do Silêncio que não tinha exatamente a aparência do restante de sua classe, embora os Irmãos do Silêncio parecessem suficientemente temíveis. De qualquer forma, ele não queria perturbar a criança.
Jonathan levou o bastão de volta para ele, segurando-o reto nas palmas das mãos, e o pousou com uma reverência respeitosa nos joelhos de Zachariah. O menino se movia com uma disciplina militar incomum a alguém tão jovem, mesmo entre os Caçadores de Sombras. O Irmão Zachariah não conhecera Michael Wayland, mas supôs que devia ter sido um homem duro.
— Irmão Enoch? — arriscou o menino.
Não, respondeu o Irmão Zachariah. Ele conhecia as lembranças de Enoch tão bem quanto as próprias. Enoch o tinha examinado, embora suas lembranças fossem cinzentas com a falta de interesse. Irmão Zachariah desejou brevemente que ele pudesse ser o Irmão do Silêncio ao dispor daquele menino.
— Não — repetiu o menino lentamente. — Eu devia ter sabido. Você se move de maneira diferente. Só achei que pudesse ser porque me deu o bastão.
Ele inclinou a cabeça. Zachariah lamentou que o menino não esperasse nenhuma misericórdia de um estranho.
— Obrigado por me deixar usá-lo — acrescentou Jonathan.
Fico feliz que tenha sido útil, retrucou Irmão Zachariah.
O olhar do menino para seu rosto foi chocante, o brilho de sóis gêmeos quando ainda era praticamente noite. Não eram os olhos de um soldado, mas de um guerreiro. Irmão Zachariah conhecera ambos e sabia a diferença.
O menino deu um passo para trás, nervoso e ágil, mas parou com o queixo erguido. Aparentemente tinha uma pergunta.
Zachariah não a antecipou.
— O que significam as iniciais? Em seu bastão. Todos os Irmãos do Silêncio têm?
Eles olharam juntos o bastão. As letras foram gastas pelo tempo e pela pele do próprio Zachariah, mas tinham sido marcadas profundamente na madeira nos lugares precisos em que ele colocaria as mãos ao lutar. Para que, de certa forma, sempre estivessem lutando juntos.
As letras eram W e H.
Não, revelou o Irmão Zachariah. Sou o único. Marquei meu bastão em minha primeira noite na Cidade dos Ossos.
— Eram suas iniciais? — perguntou o menino, em voz baixa e um pouco tímida. — Dos tempos em que era um Caçador de Sombras, como eu?
Irmão Zachariah ainda se considerava um Caçador de Sombras, mas era evidente que Jonathan não teve a intenção de ofender.
Não, respondeu Jem, porque ele sempre era James Carstairs quando falava do que lhe era mais caro. Não as minhas. As de meu parabatai. W e H. William Herondale. Will.
O menino parecia espantado e, ao mesmo tempo, cauteloso. Exibia alguma reserva, como se desconfiasse de qualquer coisa que Zachariah pudesse dizer, antes mesmo que ele tivesse a chance de dizê-lo.
— Meu pai diz... dizia... que um parabatai pode ser uma grande fraqueza.
Jonathan falou a palavra fraqueza com horror. Zachariah ficou imaginando o que um homem que treinara um menino para lutar daquele jeito poderia considerar fraqueza.
Irmão Zachariah decidiu que não ia ofender o pai morto de um menino órfão, então organizou cuidadosamente seus pensamentos. Aquele menino era muito solitário. Ele se lembrava de como uma nova ligação podia ser preciosa, principalmente quando não se tinha outra. Poderia ser a última ponte que o ligava a uma vida perdida.
Ele se lembrava de viajar através dos mares, após ter perdido a família, sem saber que conheceria seu melhor amigo.
Suponho que possam ser uma fraqueza, respondeu. Depende de quem é seu parabatai. Eu marquei as iniciais aqui porque sempre lutei melhor com ele.
Jonathan Wayland, o menino que lutava como um anjo guerreiro, pareceu intrigado.
— Acho que... meu pai se arrependia de ter um parabatai — explicou o menino. — Agora tenho de ir morar com o homem do qual meu pai se arrependia. Não quero ser fraco, e não quero lamentar. Quero ser o melhor.
Se você fingir não sentir nada, isso pode se tornar verdade, disse Jem. E seria uma pena.
Seu parabatai tentou não sentir nada, por um tempo. Exceto pelo que sentia por Jem. Isso quase o destruiu. E todos os dias Jem fingia sentir alguma coisa, ser gentil, para consertar o que estava quebrado, para se lembrar de nomes e vozes quase esquecidos, e torcia para que se tornasse verdade.
O menino franziu o rosto.
— Por que seria uma pena?
Lutamos mais vigorosamente quando aquilo que nos importa mais que nossas próprias vidas corre risco, explicou Jem. Um parabatai é, ao mesmo tempo, lâmina e escudo. Vocês pertencem um ao outro não por serem iguais, mas porque seus corpos diferentes se encaixam para formar um inteiro melhor, um grande guerreiro com um propósito maior. Sempre achei que não éramos apenas melhores juntos, mas que éramos muito melhores que o melhor que qualquer um de nós pudesse se tornar sozinho.
Um sorriso lento se formou no rosto do menino, como o nascer do sol explodindo como uma surpresa brilhante na água.
— Eu gostaria disso — admitiu Jonathan Wayland, acrescentando rapidamente: — Ser um grande guerreiro.
Ele jogou a cabeça para trás, em um gesto súbito e apressado de arrogância, como se ele e Jem pudessem ter imaginado que ele tinha querido dizer que gostaria de pertencer a alguém.
Aquele menino, determinado a lutar em vez de encontrar uma família. Os Lightwood, se protegendo contra um vampiro quando deveriam ter demonstrado alguma confiança. O vampiro, afastando qualquer amigo.
Todos eles tinham suas feridas, mas o Irmão Zachariah não podia deixar de se lamentar, ainda que fosse pelo privilégio de sentirem dor.
Todas essas pessoas lutando para não sentir, tentando congelar os corações no peito até o frio rachá-los e quebrá-los. Jem daria cada amanhã gelado em troca de mais um dia com o coração quente, para amá-los como um dia amou.
Mas Jonathan era uma criança que ainda tentava orgulhar um pai distante, mesmo quando a morte tornara a distância entre eles impossível. Jem deveria ser generoso.
Ele pensou na velocidade do menino, nos golpes destemidos com uma arma desconhecida em uma noite estranha e sangrenta.
Tenho certeza de que será um grande guerreiro, assegurou Zachariah.
Jonathan Wayland abaixou a cabeça dourada e desgrenhada para disfarçar a cor nas bochechas.
O desamparo do menino fez com que Jem se lembrasse vividamente da noite em que marcara aquelas iniciais no bastão, uma noite longa e fria com toda a estranheza gélida dos Irmãos do Silêncio muito recente em sua cabeça.
Ele não queria morrer, mas teria escolhido a morte em lugar da separação do amor e do calor. Se ao menos pudesse ter uma morte nos braços de Tessa, segurando a mão de Will. Ele tinha sido privado de sua morte.
Parecia impossível ser qualquer coisa humana entre os ossos e a escuridão infinita.
Quando a cacofonia estranha dos Irmãos do Silêncio ameaçou engolir tudo o que já fora, Jem se agarrou a isso. Não havia nada mais forte, e só mais uma coisa tão forte quanto. O nome de seu parabatai era um grito no abismo, um choro que sempre tinha resposta. Mesmo na Cidade do Silêncio, mesmo com o uivo silencioso insistindo que a vida de Jem não era mais sua, mas uma vida compartilhada. Não eram mais seus pensamentos, mas nossos pensamentos. Não mais sua vontade, mas nossa vontade.
Ele não aceitaria essa despedida. Meu Will. Essas palavras significavam algo diferente para Jem, elas significavam: meu desafio a essa escuridão dominante. Minha rebeldia. Meu, para sempre.
Jonathan arrastou o sapato contra o deque e olhou para Jem, e Jem percebeu que ele tentava ver o rosto do Irmão Zachariah sob o capuz. Puxou o capuz, e as sombras, para perto. Mesmo tendo sido rejeitado, Jonathan Wayland lhe deu um pequeno sorriso.
Jem não tinha procurado nenhuma gentileza naquela criança ferida. Fez com que o Irmão Zachariah pensasse que Jonathan Wayland poderia crescer para ser mais que um grande guerreiro. Talvez Jonathan tivesse um parabatai um dia, para ensinar que tipo de homem ele queria ser.
Essa é a ligação mais forte que qualquer mágica, disse Jem a si mesmo naquela noite, com a faca na mão, fazendo cortes profundos. Esse é o laço que eu escolho.
Ele tinha feito sua marca. Tinha escolhido o nome Zachariah, que significava lembrar. Lembre-se dele, pediu Jem a si mesmo. Lembre-se deles. Lembre-se do motivo. Lembre-se da única resposta para a única pergunta.
Não se esqueça.
Quando olhou novamente, Jonathan Wayland não estava mais lá.
Gostaria de poder agradecer à criança tê-lo ajudado a lembrar.


Isabelle jamais entrara no terminal de passageiros do porto de Nova York.
Não ficou muito impressionada. O terminal era como uma cobra de vidro e metal, e eles tinham de se sentar na barriga e esperar. Os navios eram como armazéns na água, mas Isabelle imaginava um barco de Idris como um navio pirata.
Estava escuro quando acordaram, e agora mal tinha amanhecido, fazia muito frio. Alec se encolhera no casaco por causa do vento que soprava da água azul, e Max reclamava com a mãe, de mau humor por ter sido acordado tão cedo. Basicamente tanto ela quanto os irmãos estavam de mau humor, e Isabelle não sabia o que esperar.
Ela viu o pai caminhando pelo passadiço com um menino. O amanhecer traçava uma linha dourada e fina sobre a água. O vento formava pequenas cristas brancas em cada onda no rio e brincava com os cachos dourados do cabelo do menino. Suas costas eram retas e esguias, como uma rapieira. Ele usava roupas escuras e justas que pareciam um uniforme de combate. E estavam sujas de sangue. Ele, de fato, tinha participado da luta. O pai e a mãe ainda não haviam deixado ela e Alec combaterem um único demoniozinho!
Isabelle se virou para Alec, certa de que ele compartilharia de seu senso de traição por tal injustiça, e o viu encarando o recém-chegado com olhos arregalados, como se observassem uma revelação da manhã.
— Uau! — suspirou Alec.
— E o vampiro? — Isabelle quis saber, indignada.
— Que vampiro? — retrucou Alec.
A mãe mandou que se calassem.
Jonathan Wayland tinha olhos e cabelos dourados, e aqueles olhos não tinham profundidade, apenas uma superfície brilhante e refletida, exibindo tão pouco quanto portas metálicas de um templo fechado. Ele nem sequer sorriu ao parar diante deles.
Tragam de volta aquele Irmão do Silêncio, foi o pensamento de Isabelle.
Ela olhou para a mãe, mas a mulher encarava aquele novo menino com uma expressão estranha no rosto.
O menino estava olhando para ela.
— Sou Jonathan — apresentou-se, com firmeza.
— Olá, Jonathan — retrucou a mãe de Isabelle. — Sou Maryse. É um prazer.
Ela esticou a mão e tocou o cabelo do menino. Jonathan se encolheu, mas ficou parado, e Maryse ajeitou as ondas douradas e brilhantes que o vento bagunçara.
— Acho que precisamos cortar seu cabelo — disse a mãe.
Era uma frase tão maternal que fez com que Isabelle sorrisse enquanto revirava os olhos. Na verdade, o menino Jonathan, de fato, precisava de um corte de cabelo. As pontas estavam caindo pelo colarinho, tão desgrenhadas que era como se quem o cortara pela última vez — havia muito tempo — não tivesse se importado em fazer um bom trabalho. Ele tinha um ar singelo de vira-lata, com os pelos compridos e prestes a rosnar, embora isso não fizesse sentido para uma criança.
A mãe deu uma piscadela.
— Aí você vai ficar ainda mais bonito.
— Tem como? — perguntou Jonathan secamente.
Alec riu. Jonathan pareceu surpreso, como se não tivesse notado o outro menino até então. Isabelle achava que ele não tinha prestado atenção em mais ninguém além de sua mãe.
— Meninos, digam oi para Jonathan — pediu o pai de Isabelle.
Max encarou Jonathan com fascínio. Largou o coelho de pelúcia no chão de cimento, correu para a frente e abraçou a perna do menino. Jonathan se encolheu novamente, mas dessa vez foi um instinto, até o gênio perceber que não estava sendo atacado pelo garotinho de 3 anos.
— Oi, Jonathing — disse Max, abafado pelo tecido da calça de Jonathan.
Ele afagou as costas de Max, com muito cuidado.
Os irmãos de Isabelle não estavam demonstrando a menor solidariedade fraterna na questão de Jonathan Wayland. Foi pior ainda quando chegaram ao Instituto e ficaram jogando conversa fora quando, na verdade, todo mundo queria voltar a dormir.
— Jonathing pode dormir em meu quarto porque a gente se ama — propôs Max.
— Jonathan tem o próprio quarto. Diga “durma bem, Jonathan” — pediu Maryse. — Você poderá vê-lo depois que todos tivermos descansado um pouco mais.
Isabelle foi para o quarto, mas ainda estava agitada e não conseguia dormir. Pintava as unhas do pé quando ouviu um pequeno rangido na porta no final do corredor.
Levantou, as unhas de um dos pés pintadas de preto, o outro pé ainda enfiado em uma meia cor-de-rosa felpuda, e correu para a porta. Abriu-a, colocou a cabeça para fora e notou Alec fazendo a mesma coisa do próprio quarto. Ambos viram a silhueta de Jonathan Wayland percorrendo sorrateiramente o corredor. Isabelle fez uma série de gestos complicados para saber se Alec queria segui-lo junto com ela.
O menino a encarou com total espanto. Isabelle amava o irmão mais velho, no entanto, às vezes temia suas caçadas a demônios no futuro. Ele era péssimo em decorar seus sinais militares superlegais.
Ela desistiu, e os dois se apressaram atrás de Jonathan, que não conhecia o Instituto e só conseguiu refazer seus passos até a cozinha.
Onde os dois o encontraram. Jonathan estava com a camisa levantada e passava uma toalha úmida sobre o corte na lateral do corpo.
— Pelo Anjo! — exclamou Alec. — Você está machucado. Por que não avisou?
Isabelle bateu no braço de Alec por ele não ter sido furtivo.
Jonathan os encarou, com o rosto cheio de culpa, como se estivesse roubando um biscoito, em vez de estar ferido.
— Não contem para seus pais — pediu ele.
Alec saiu de perto de Isabelle e correu para o outro menino. Examinou o corte, em seguida, levou-o até um banquinho, fazendo com que se sentasse.
Isabelle não se surpreendeu. Alec sempre ficava nervoso quando ela ou Max caíam.
— É superficial — decretou o irmão após um instante. — Mas nossos pais iam querer saber. Mamãe aplicaria um iratze ou coisa do tipo...
— Não! É melhor que seus pais não saibam o que aconteceu. Foi só por azar que um deles me atingiu. Sou um bom lutador — protestou Jonathan vorazmente.
Ele foi tão veemente que pareceu quase alarmante. Se não tivesse 10 anos, Isabelle pensaria que estava com medo de ser punido por não ser um bom soldado.
— É óbvio que você é muito bom — disse Alec. — Só precisa de alguém na retaguarda.
Ele colocou a mão gentilmente no ombro de Jonathan ao falar. Foi um pequeno gesto que Isabelle nem teria notado, exceto pelo fato de que jamais vira Alec fazer isso por ninguém que não fosse da família, e por Jonathan Wayland ter ficado imóvel com o toque, como se temesse que o menor dos movimentos pudesse afastá-lo.
— Está doendo muito? — perguntou Alec, solidário.
— Não — sussurrou Jonathan.
Isabelle achou que estava bem claro que Jonathan Wayland diria que ter sua perna amputada não doía, mas Alec era muito honesto.
— Certo — disse o irmão. — Deixe-me pegar algumas coisas da enfermaria. Vamos cuidar disso juntos.
Alec assentiu encorajadoramente e foi buscar os suprimentos na enfermaria, deixando Isabelle e o estranho menino ensanguentado a sós.
— Você e seu irmão parecem... muito próximos — falou Jonathan.
Isabelle piscou os olhos.
— Evidente.
Que estranho, ser próximo da família. Isabelle conteve o sarcasmo, tendo em vista que Jonathan estava mal e era um convidado.
— Então... suponho que vão ser parabatai — arriscou ele.
— Ah, não, acho que não — disse ela. — Ser parabatai é um pouco fora de moda, não é? Além do mais, não gosto da ideia de abrir mão de minha independência. Antes de ser filha de meus pais ou irmã de meus irmãos, sou uma pessoa independente. Já sou alguma coisa de muita gente. Não preciso ser mais nada de ninguém, não por um bom tempo, sabe?
Jonathan sorriu. Ele tinha um dente quebrado. Isabelle ficou imaginando como aquilo teria acontecido, e torceu para que tivesse quebrado em uma luta incrível.
— Não sei. Não sou nada de ninguém.
Ela mordeu o lábio. Jamais se dera conta de que tinha como certa a sensação de segurança.
Jonathan havia olhado para Isabelle ao falar, mas, no mesmo instante, voltou os olhos para a porta através da qual Alec desaparecera.
Isabelle não podia deixar de observar que esse menino morava em sua casa havia menos de três horas e já estava tentando garantir um parabatai.
Em seguida, ele se esticou mais na cadeira, retomando sua atitude de sou legal demais para o Instituto, e ela esqueceu o pensamento ao se irritar por Jonathan ser tão exibido. Ela, Isabelle, era a única exibida de que aquele Instituto precisava.
Os dois ficaram se encarando até Alec voltar.
— Ah... prefere que eu faça os curativos ou você mesmo quer fazer?
A expressão de Jonathan era impenetrável.
— Posso fazer sozinho. Não preciso de nada.
— Ah — disse Alec, descontente.
Isabelle não sabia dizer se o rosto sem expressão de Jonathan era para afastá-los ou se proteger, mas ele estava machucado. Alec ainda era tímido com estranhos, e Jonathan era um ser humano fechado, então eles ficariam constrangidos apesar de ela perceber que gostavam um do outro. Ela suspirou. Meninos não tinham jeito, e ela precisava tomar as rédeas da situação.
— Fique parado, idiota — ordenou a Jonathan, pegando a pomada das mãos de Alec e começando a espalhar sobre o corte. — Vou ser sua boa samaritana.
— Hum — disse Alec. — É muita pomada.
Era como quando você aperta com força o meio da pasta de dentes, mas Isabelle não acreditava em resultados sem a disposição para fazer bagunça.
— Tudo bem — disse Jonathan rapidamente. — Está ótimo. Obrigado, Isabelle.
A menina levantou o olhar e sorriu para ele. Alec desenrolou de forma eficiente uma atadura. Quando as coisas engrenaram, Isabelle se afastou. Seus pais protestariam se acidentalmente transformasse o convidado em uma múmia.
— O que está acontecendo? — disse Robert Lightwood da porta. — Jonathan! Você disse que não tinha se machucado.
Quando Isabelle olhou, viu a mãe e o pai parados na entrada da cozinha, com os braços cruzados e os olhos semicerrados. Imaginou que eles teriam ressalvas quanto a ela e Alex brincarem de médico com o garoto novo. Fortes ressalvas.
— Só estávamos ajeitando o Jonathan — anunciou Alec ansiosamente, se colocando diante do banquinho. — Nada demais.
— Foi minha culpa ter me machucado — explicou Jonathan. — Sei que desculpas são para os incompetentes. Não vai acontecer de novo.
— Não vai? — perguntou a mãe. — Todos os guerreiros se ferem de vez em quando. Você está planejando fugir e se tornar um Irmão do Silêncio?
Jonathan Wayland deu de ombros.
— Eu queria ser uma Irmã de Ferro, mas elas me enviaram uma recusa dolorosa e sexista.
Todo mundo riu. Jonathan pareceu ligeiramente espantado outra vez, depois, divertido, antes de congelar sua expressão, como se estivesse fechando a tampa de um baú do tesouro. A mãe de Isabelle foi quem cuidou do machucado enquanto seu pai continuava perto da porta.
— Jonathan? — disse Maryse. — Alguém o chama de outra coisa?
— Não — respondeu o menino. — Meu pai costumava fazer uma piada sobre ter outro Jonathan, caso eu não fosse bom o suficiente.
Isabelle não achou uma boa piada.
— Sempre achei que chamar um de nossos filhos de Jonathan seria como os mundanos chamando os filhos de Jebediah — comentou a mãe de Isabelle.
— John — disse o pai. — Mundanos frequentemente chamam os filhos de John.
— Chamam? — perguntou Maryse, e deu de ombros. — Eu jurava que era Jebediah.
— Meu nome do meio é Christopher — disse Jonathan. — Você pode... pode me chamar de Christopher, se quiser.
Maryse e Isabelle trocaram um olhar eloquente. Ela e a mãe sempre conseguiram se comunicar assim. Isabelle achava que era porque eram as únicas meninas e eram especiais uma para a outra. Ela não conseguia imaginar sua mãe lhe dizendo nada que ela não quisesse ouvir.
— Não vamos mudar seu nome — disse a mãe, com voz triste.
Isabelle não sabia ao certo se a mãe estava triste por Jonathan pensar que fariam isso, mudar seu nome como se ele fosse um animal de estimação, ou triste porque ele teria deixado que mudassem.
O que Isabelle sabia era que a mãe olhava Jonathan do mesmo jeito que olhava para Max quando ele estava aprendendo a andar, e não haveria mais conversa sobre período de experiência. Jonathan obviamente tinha vindo para ficar.
— Talvez um apelido — propôs Maryse. — O que acha de Jace?
Ele ficou quieto por um instante, observando cuidadosamente a mãe de Isabelle com o canto do olho. Finalmente deu um sorriso, fraco e frio como a luz do início da manhã, mas que se aqueceu com esperança.
— Acho que Jace vai funcionar — concordou Jonathan Wayland.


Enquanto um menino era apresentado a uma família e vampiros dormiam com frio, mas aninhados no porão de um navio, o Irmão Zachariah caminhava por uma cidade que não era sua. As pessoas apressadas não conseguiam vê-lo, mas ele enxergava a luz em seus olhos, como se fossem novas. O barulho das buzinas dos carros e dos pneus dos táxis amarelos e as conversas de muitas vozes em muitas línguas formavam uma canção longa e viva. O Irmão Zachariah não podia cantar a música, mas podia ouvi-la.
Não era a primeira vez que isso acontecia com ele, ver um traço do passado no presente. As cores eram diferentes. O menino não tinha nada a ver com Will, de fato. Jem sabia disso. Jem — pois nos momentos em que se lembrava de Will, ele sempre era Jem — estava acostumado a ver seu Caçador de Sombras mais querido e perdido em milhares de rostos e gestos de Caçadores de Sombras, nos movimentos de cabeça e em algumas notas vocais. Nunca a cabeça amada, nunca a voz há muito silenciada, mas, às vezes, mais e mais raramente, algo próximo.
A mão de Jem estava cerrada firmemente em torno do bastão. Ele não parara para prestar atenção às marcas sob sua palma havia muito tempo.
Isso é um lembrete de minha fé. Se tem alguma parte de Will que pode estar comigo, e eu acredito que tenha, então ele está a meu alcance. Nada pode nos separar. Ele se permitiu um sorriso. Sua boca não podia se abrir, mas ele ainda podia sorrir. Ainda podia falar com Will, apesar de não poder mais ouvir a resposta.
A vida não é um barco, a maré cruel e implacável nos afastando de todos que amamos. Você não se perdeu de mim para sempre em uma costa distante. A vida é uma roda.
Do rio, ele podia ouvir as sereias. Todas as faíscas da cidade ao amanhecer acendiam um novo fogo. Um novo dia nascia.
Se a vida é uma roda, ela vai trazê-lo de volta para mim. Tudo que preciso fazer é manter a fé.
Mesmo quando ter um coração parecia insuportável, era melhor que a alternativa. Mesmo quando o Irmão Zachariah sentia que estava perdendo a batalha, perdendo tudo o que um dia fora, havia esperança.
Às vezes, você parece muito distante de mim, meu parabatai.
A luz na água não rivalizava com o sorriso ardente e contraditório do menino, que, de algum jeito, era, ao mesmo tempo, indomável e muito facilmente ferido. Ele era uma criança indo para uma casa nova, assim como Will e o menino que Zachariah foi, que viajaram em uma tristeza solitária para um lugar onde se encontraram. Jem torcia para que ele encontrasse felicidade.
E sorriu para um menino que havia muito tempo não existia.
Às vezes, Will, disse então, você parece muito próximo.

3 comentários:

  1. Adorei poder ver pelo ponto de vista de Isabelle e a vinda de Jace... xD mas achei um pouco estranho o Jem não ter percebido sua descendência... hmm, sei lá né (x_x)

    E lendo assim pelo ponto de vista do Jem, é tão triste (ToT) eu quero dizer, triste ver como ele sofre por "não poder mais sentir"... dá para entender melhor. E a perda do Will... (+_+)

    Ah, e as cenas do Raphael também são boas xD
    Eu queria poder ver pelo ponto de vista dele também, ele é um personagem tão interessante...
    #feels

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  2. Chuvas de purpurina aqui! Abandonei tudo que estava fazendo para ler este livro. Pelo anjo. Adoro esta série e que saudades do meu perssonagem favorito Jeeem Deliciosoriah! Ashuashu...
    Obrigada Karina sua fofa por me dar este presente:))

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Boa leitura, E SEM SPOILER!