19 de abril de 2019

Divulgação: Mar de piratas


Sinopse:
A água lhe enchia os pulmões, sufocando a sua alma e reprimindo seus sonhos. Ártemis sentia, aos poucos, a vida esvaindo-se de seu corpo. Mas quando um pirata a salvou, Ártemis renascera. Não como a criança ingênua e fraca que era, mas como uma amante do mar. Uma pirata.
A sua fama se espalhou por além dos Noves Mares e Seis Reinos de Farpos. Ártemis se tornou a primeira mulher a comandar uma tripulação, despertando a ira de muitos. O "Capitã Pirata dos Olhos de Corvos" era um nome a se temer.
Entretanto, maus agouros sopravam as velas dos quatros clãs piratas de Farpos: os Irmãos de Ferro, os Olhos de Corvo, os Pernas de Pau e os Barbas Negras, os obrigando a colocar seus capitães a navegarem em busca de um antigo artefato conhecido como Mapa Celestial. E então, uma verdadeira caçada aos piratas se inicia ao passo que forças sobrenaturais emergem das sombras, colocando Ártemis contra todo o passado de um povo enquanto é atormentada por seus próprios fantasmas.
Uma guerra pelo poder, pela glória e pela liberdade se inicia e o mar é o palco principal.

Categorias: ficção, aventura, ação, história original
Classificação: +16
Autor: Mateus Rosa

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Capítulo 01
Condenação

O som dos tambores sussurrava uma sentença para as quinze garotas no porto de Vila das Rosas: a morte estava a caminho.
O mar de águas escuras se agitava rudemente, com suas ondas quebrando-se umas nas outras. Até o sol parecia temê-lo, escondendo-se por entre as nuvens acinzentadas como uma criança que se agarra à borda da saia da mãe. Era como se estivesse de luto pelas Condenadas.
Mas não a multidão que se reunia para assistir ao espetáculo do vilarejo portuário. Ártemis observava as pessoas gritando, eufóricas, com o que viam, suas vozes preenchendo o ar como o zunido de insetos. Não eram pessoas tão diferentes dela ou de qualquer outra das catorze ao seu lado. Mas ainda assim preferiram comemorar a sua desgraça ao invés de lamentar. 
Será que realmente acreditavam que aquela era a punição justa por seus crimes? Fora vergonhoso o bastante ter de roubar comida para seu sustento e agora... estava sujeita às vaias daquele multidão.
Eles abriram caminho para um dos capitães da Marinha Real, que pulou sobre a cerca improvisada para separar as pessoas das quinze.
Os caracóis dourados que lhe enchiam a cabeça combinavam com o castanho claro de seus olhos. Sob a cota de malha que cobria-lhe o peito, via-se o Grande Urso, símbolo da Casa do rei de Métlis, bordado cuidadosamente em fio de ouro. Dava sorrisos abertos conforme se dirigia aos seus guardas.
— Ele parece um anjo! — gritou alguém em meio ao povo.
— Um anjo da morte. — Ártemis murmurou com desdém para ninguém em especial.
Um corvo, empoleirado em um poste próximo, grasnou: anjo da morte, anjo da morte. Ártemis encarou a ave de penas escuras, a mais confiável criatura para transportar mensagens entre reinos. Ela podia jurar que os olhos negros como carvão a fitaram de volta.
O capitão gesticulou um comando e as quinze foram obrigadas a se levantaram do chão em sequência, uma a uma, puxadas pelos grilhões que lhes prendiam as mãos e os pés, ligando-as umas às outras.
Olhando-as, se perguntou o porquê de Asor, deusa do mar, pedir a vida de cem garotas como forma de pagamento pelos pecados de outros. Algumas não haviam nem ter de sangrado pela primeira vez. Não mereciam isso. Mas a opinião de Ártemis não valia de nada, afinal era uma criança e, ainda por cima, menina. Após o décimo ano, as portas de cem garotas, espalhadas pelos cinco reinos de Farpos, voltariam a ser banhadas em sangue de cervo. A Condenação voltaria a acontecer, independente do que Ártemis Bernon pensava, ou qualquer outro.
Concluiu então que aquilo era obra de homens, não de deuses. Afinal, os deuses eram bons... Não eram?
Uma brisa fria soprou-lhe o rosto e fez as pequenas embarcações tremularem e até mesmo o poderoso Devastação, navio que as levaria ao seu destino, oscilou.
O odor de peixe infestou suas narinas. A Vila das Rosas se sustentava a base da pesca desde a Era dos Heróis, mas o seu nome era proveniente dos inúmeros campos de rosas que se espalhavam por entre as montanhas. Ah, se ao menos cheirasse igual as roseiras. Mas não: o fétido odor dos peixes se impregnava entre as pedras, nas roupas das pessoas e em suas casas. Há tempos atrás, Ártemis chegou a tentar colher rosas, como é aconselhável para mulheres, mas achou demasiado dolorido para seu gosto. Os espinhos cravaram-lhe a pele e demorara dias para se livrar deles.
A multidão abriu caminho uma segunda vez e Ártemis vira, de início, dois guardas de armaduras cinzas se apoiando sobre lanças maiores que eles. No encalço, homens e mulheres que ela acreditava ser a família das Condenadas. E então, algo chamou a sua atenção: uma décima sexta garota. Esta usava um pano em volta da cabeça, cobrindo o cabelo. Os olhos azuis escuro eram desprovidos de sentimentos. Vinha, possivelmente, do Cerrado de Cima e por isso a demora. Cada reino tinha um ponto de encontro, onde todas as meninas Condenadas, de cada canto do reino, se uniam para só assim zarpar rumo a Garganta dos Deuses; o destino final.
— A última Condenada chegara! — gritou um guarda que mais parecia o urso que eles esbanjavam sobre o peito.
— Dizem que essa é uma bruxa. — sussurrou alguém. — Circulam boatos de que própria família a enviou para cá. Seu nome é Morgana.
Com olhos curiosos, Ártemis a fitou até ocupar o lugar ao fim da fila. Uma mecha de cabelo escapou-lhe ao pano, revelando sua coloração avermelhada. Cabelos vermelhos não era bem vistos pelas pessoas; trazia má sorte e estava inteiramente ligado aos círculos do abismo. Tolos supersticiosos.
Entretanto, ela estava certa quanto aos homens e mulheres que vira chegar. Estes aproximaram-se das Condenadas, dizendo-lhes palavras bonitas e forçando sorrisos, quando tudo que queriam era chorar.
Ninguém veio em sua direção.

Não. Ártemis só tinha ao irmão, Killian, que fora arrancado de casa para servir a Guarda Branca há dois anos antes. Provavelmente estava alheio a tudo que acontecia com sua irmã.
E então, uma batida vibrou o ar, se sobrepondo ao som dos tambores e fazendo a jovem de cabelos negros acompanhar o olhar da multidão por além das barracas de mercadores, subindo pela colina íngreme da rua de paralelepípedos e repousando na torre do relógio.
 — Chegou a hora. — o capitão proclamou.
E então, as Condenadas desataram-se a chorar em desespero; os corações batendo lépidos contra o peito e o sangue correndo mais rápido nas veias.
— Presenciam, amigos, a justiça. — prosseguiu o capitão, voltando-se para a população. — Com isso, Métlis cumpre a sua parte no Tratado de Condenação e entrega ao seu povo dez anos de prosperidade.
Uma onda se quebrou em uma rocha próxima como se a própria deusa do mar negasse as palavras.
— Asor ceifará a vida dessas criaturas de alma imunda, livrando-nos das suas maldades. — ele apontou com o dedo as Condenadas.
Ártemis duvidou que as pessoas sequer respirassem. Caladas, de olhos arregalados, ouviam atentas. Os tambores ainda cantavam uma marcha fúnebre que ressoava contra seus ossos. Os guardas começaram a apartar os abraços entre as meninas e suas famílias, que gritavam de braços estendidos, como se para um último toque.
— Que esse dia fique marcado em suas memórias, pois a paz retorna.
As dezesseis colocaram-se a andar, sobre o comando de um segundo guarda, rumo ao Devastação, seus grilhões arrastando-se pela madeira.
— Hoje é dia de celebrar!
A menina que antes estava ao seu lado, uma de cabelos cor de mel, se jogou ao chão em prantos. Tinha a vaga lembrança de que a chamavam de Elena. Como consequência dos grilhões, outras também caíram, incluindo Ártemis.
— Hoje começa uma nova Era! — o homem nem sequer olhou para trás.
Um lamento esganiçado saiu da garganta de uma das mães conforme o guarda as chicoteavam para colocarem-se de pé outra vez. Uma dor lancinante atingiu Ártemis quando a corda acertara-lhe as costas. Limitou-se a apenas um abafado gemido de indignação. 
— Justiça sobre as Condenadas! — gritou.
 — Justiça sobre as Condenadas! — o povo seguiu o mesmo tom em uníssono.
Justiça, justiça, o corvo tornou a grasnar, esticando as asas sobre a cabeça antes de abrir voo no céu sem vida.
Os pés descalços reclamaram em protesto ao primeiro toque no gélido convés. Novamente em fila, elas esperaram enquanto a tripulação as fitavam e trocavam cochichos entre si. Com todos aqueles olhares, Ártemis se sentiu nua, mesmo com a toga branca - que todas as outras também usavam - cobrindo-lhe o corpo, se sentiu nua.
Guardas se aproximaram por trás: dezesseis guardas para dezesseis Condenadas. Algumas fecharam os olhos e morderam o lábio inferior para reprimir o choro que implorava para sair.
— Capitão Clengor. — disse um deles seguido de uma reverência assim que ele pisou ao convés.
Ele respondeu com nada mais que um breve aceno de cabeça. O castanho-claro de seus olhos caiu sobre as dezesseis; um olhar cheio de malícia. Ártemis sentira medo. Medo, pois ninguém jamais a olhara daquele modo.
— Façam elas dormirem e depois troquem esses grilhões. — longe das pessoas, sua voz soava como a própria Morte.
Foi quando os guardas pressionaram um pano com algum líquido contra as narinas de cada uma. Elas debateram-se, mas eles continuaram firmes atrás de si. A pequena Ártemis lembrava-se vagamente daquele cheiro: uma erva que o pai dera a ela quando machucou o tornozelo em tempos anteriores, o que a concedeu sonhos perturbadores. Sua visão se tornou turva e seus ossos fraquejaram; os sentidos a abandonando aos poucos.
Quando a escuridão lhe reivindicou, desejou que fosse eterna.
Mas ela não foi. Ártemis acordou algumas horas depois e estava no convés inferior do navio. As mãos agora estavam presas acima da cabeça, em grilhetas encrostadas no próprio casco da embarcação. Tentou se mover e o corpo se negou a obedecer o comando. Ali embaixo era úmido e seu cabelo molhado e a toga que perdera a sua coloração alva, aderiam ao corpo.
Algumas das Condenas, ela notou, já estavam acordadas. Uma delas, com uma cicatriz no rosto, proferia uma oração antiga que embalava uma promessa de vingança. Barris de pólvora e pequenas barras de ferros ocupavam o espaço vazio em volta da escada que levaria ao convés principal.
O fedor do sal, ainda mais forte agora que estavam em pleno alto-mar, era uma punição em si próprio. E, acompanhado do ranger do mundo ao seu redor e o chacoalhar do seu corpo, se tornava um pesadelo para ela. Nenhuma delas tinham sequer pisado em uma embarcação antes daquele dia lúgubre. O mar não é lugar para mulheres, diziam-lhes.
— Será que vai doer? — perguntou uma de pele escura.
— Eu não sei. — respondera outra com desânimo.
A dor em seus ossos a incomodava. Estava fraca e sonolenta; todas pareciam estar. As ondas continuavam a bater contra o casco da embarcação e Ártemis percebeu que odiava aquela oscilação constante.
Pelas frestas da madeira, ela observou a noite salpicada de estrelas que pintavam os céus. Uma saudade a abateu. Mas saudade do quê? Já não lhe restara nada além do velho casebre ao sopé da colina. Ártemis nunca fora uma boa menina, como a mãe dizia. Ninguém se lembraria de seu nome.
As pessoas apenas voltariam para suas casas, encheriam as bocas e deitariam em suas camas como se o que tivessem dito e feito não fosse nada. Como se não as tivesse ferido, machucado e as feito chorar quando tudo o que mais precisavam era de apoio.
— Caminhemos unidos, caminhemos unidos — uma das dezesseis, que tinha grossas sobrancelhas que davam-lhe ao rosto sempre uma expressão de raiva, cantarolou.
Fitaram-na e ela retribuiu o olhar com seus olhos vermelhos de tanto chorar. Seus rostos eram iluminados por apenas pequenos feixes da luz do luar, entrando sorrateiramente pelas frestas na madeira, que dançavam no convés por conta do chacoalhar da embarcação. A menina engoliu em seco antes de se arriscar a continuar:
— Mesmo que os homens nos separem — sua voz adquiriu entonação. Todas se entreolharam, sem entender ao certo o que acontecia.
— E nos arranque de nossos lares. — completou a roliça de olhos verdes com uma voz fanha que colocou todas a derem pequenos sorrisos. Até a garota de olhar frio e cabelos vermelhos esboçou uma risada.
Ártemis as observava com atenção. Via em seus olhos, mesmo que quase invisível, esperança. Por que se entregariam ao medo, afinal? Eram seus últimos dias. Puxou em sua memória o pai cantando-lhe a música à mesa, coçou a garganta e se arriscou a cantar também:
— Ergam a cabeça e cantem comigo, cantem comigo.
— Estamos prontos para sermos os maiores vivos! — a voz de Elena era mágica quando proferiu as palavras. Cheias de rancor e medo e desespero, mas ainda... esperança.
— Caminhemos unidos, caminhemos unidos. — cantaram em coro.
Caminhemos unidos, caminhemos unidos
Mesmo que os homens nos separem
E nos afaste de nossos lares
Ergam a cabeça e cantem comigo, cantem comigo
Estamos prontos para sermos os maiores vivos
Caminhemos unidos, caminhemos unidos;
A cantoria se desfez quando fortes pés forçaram-se contra piso em um aviso seguido de um murmúrio irritadiço.
Ainda assim, todas continuaram a dar sorrisos silenciosos e, estranhamente, já não se sentiam mais tão sozinhas. Compartilharam histórias, aventuras com que só sonharam, mas também contos reais que causavam calafrios. Falaram das promessas não cumpridas, das metas que não poderiam ser alcançadas e de suas famílias.
Ela não percebeu quando caíra no sono pela segunda vez.

Então, a menina passou a ver por olhos que não eram seus. Observou ao redor e viu uma sala de grande opulência, com teto abobadado e extensas prateleiras cheias de livros. Algo dentro de si sussurrava que ela que não pertencia àquele lugar e tentava a expulsar.
Escondia-se atrás de uma poltrona de veludo escuro, uma terrível angústia lhe subindo pela garganta e ameaçando enforca-la. Sentia medo sem saber o porquê.
O calor das mãos de uma mulher a envolveu, fazendo-a se sentir confortável. Mas o toque era íntimo demais. Sequer sabia quem era. A mulher se afastou com pressa. Ártemis se manteve parada, não ousou levantar a cabeça. Era uma intrusa em um corpo que não conhecia.
De súbito, alguém irrompeu pelo salão trajado em uma armadura dourada resplandecente empunhando uma grande espada de gume afiado. O som abafado de um sorriso escorreu do elmo com respingos de sangue. Como se fossem um só, Ártemis sentira o pavor de quem quer que pertencesse aquele corpo.
O cavaleiro a avistou. Descuidada. Ele correu em seu rumo, mas a mulher colocou-se em sua frente. Esbravejaram entre si, mas Ártemis não conseguia entender sobre o que conversavam. Seus pensamentos se embaralhavam com o de outra pessoa, gritando entre si e lutando para tomar o controle.
Foi quando a espada atravessou o peito da mulher.
O cavaleiro resmungou algo e depois torceu a lâmina antes de a retirar do corpo com frieza. A mulher caiu inerte no chão logo em seguida em um baque assustador. Era uma mistura de carne e sangue e aço.
As lágrimas rolaram sobre o seu rosto. Estava chorando. Não, não, não. Ela não podia chorar, não podia se permitir dar esse prazer ao cavaleiro. O estranho afeto por aquela mulher que nunca vira antes se tornou a sua muleta. Ela saiu de trás da poltrona e colocou-se em pé em cima da mesma.
O encarou, seu corpo ainda tremendo.
O homem de armadura dourada ergueu o visor e sustentou o olhar, um sorriso de divertimento dançando em seus lábios. Ártemis sequer hesitou. Quando a raiva a consumiu por inteiro, ela pulou em direção ao cavaleiro e ele brandiu a espada no ar.

O som de madeira rangendo a fez entreabrir a pálpebras, pesadas demais, e ela semicerrou os olhos para enxergar. Estava de volta ao convés do Devastação. A sua cabeça latejava e uma dormência tomava conta da sua perna esquerda.
 A madeira rangeu uma segunda vez e ela vislumbrou um par botas de couro escuro tentando descer as escadas. O mar estava agitado novamente, como no dia em que partiram.
Ártemis reconheceria aqueles cabelos dourados em qualquer lugar.
Capitão Clengor.
Ele desceu o último degrau e se segurou em uma viga de madeira quando o navio tremulou. Seus olhos se encontraram e um sorriso se formou no rosto do homem. Ele chegou mais perto e o navio balançou de novo, fazendo-o cair no chão. Estava bêbado, descobriu, quando o cheiro de vinho inundou o ambiente.
O sentimento de repugnância recaiu sobre ela.
O capitão engatinhou de encontro com Ártemis, colocando o dedo em frente aos lábios, pedindo silêncio, sempre com o mesmo sorriso. Ela esperneou, na esperança de atingi-lo, mas foi em vão. Ele subiu em cima dela e prendeu as suas pernas com o peso do corpo.
Com os braços presos sobre a cabeça, estava impotente conforme Clengor aproximava o rosto do dela. Ela virou a cabeça para o lado, na esperança de fugir do seu olhar fulminante. Ele deu uma risada esganiçada contra o seu pescoço e o ar quente de seu hálito beijou a pele nua.
— Que tal se formos lá pra cima? — ele sussurrou ao pé de seu ouvido. — O quarto do capitão é extremamente confortável.
— Tire as mãos de mim! — berrou.
A cor pálida do rosto do capitão se esvaiu, dando espaço a um tom de avermelhado.
— Cale a boca ou eu o farei.
O som retumbante de um trovão partiu suas palavras. Um feixe de luz atravessou o rosto do capitão, como se o cortasse, tornando sua feição ainda mais assustadora.
Desejou que seu valente irmão a salvasse. Que qualquer um a salvasse.
Os dedos do Capitão escorregaram pelos braços esticados da menina, descendo pelos cabelos na altura dos ombros e se demorando nas bochecha naturalmente coradas.
Socorro, socorro, alguém me ajude!
Lembrou-se da mulher que se sacrificou em seu sonho, o quanto fora corajosa. E ali estava ela, recuada, sem ação, com medo.
 Socorro, socorro, alguém me ajude!
Sua respiração se tornou irregular, o coração batia acelerado em seu peito ela temeu que o capitão também pudesse ouvir.
Alguém me ajude, alguém me ajude!
Então os seus dedos se detiveram sobre os lábios rosados e sua expressão se tornou fria como gelo ao entoar com calmaria:
— Há beleza no seu medo, menina.
Não havia espaço para hesitação. Não deixaria de lutar. Abocanhou o dedo de Clengor com toda a força restante. Ele, por sua vez, soltou um grito estrangulado e em seu momento de desatenção, Ártemis movera as pernas, jogando-o ao chão em um baque surdo.
— Sua imunda! — vociferou.
Ártemis cuspiu em seu rosto com um desprezo que jamais sentira. O peito subia e descia, os cabelos grudavam em sua testa e os seus braços tremiam. Seu olhar cheio de amargura se fixou no homem se erguendo.
Ela escutou o som passos correndo no convés acima antes de ver três marujos apareceram nas escadas:
— Mas o que raios está acontecendo aqui? — resmungou um de cabelos na altura dos ombros.
— C-capitão...? — murmurou outro ao notar a presença de seu superior.
Um ar gélido soprou pelo alçapão aberto e brincou com os cabelos de Ártemis conforme ela ainda tentava recuperar o fôlego.
— Preparem a prancha. — Clengor disse com monstruosa calmaria, se levantando do piso com dificuldade. A embriaguez nublava seus pensamentos.
— Senhor?
— Está surdo? — ele lançou um olhar mortal para trás. — Prepare a prancha!
— Capitão, se me permite dizer, não podemos perder nenhuma das garotas. — o homem que segurava o alçapão disse. — Dezesseis saíram do caís e dezesseis devem chegar em Garganta dos Deuses.
— Maldição! — bufou. — O que farei com você, garotinha?
— Capitão, esqueça a menina. Há coisas mais importantes a se tratar... O mar perturba o sono da tripulação. Está feroz.
— Esses homens nunca navegaram antes? Se temem o mar, então não deviam de estar aqui. — repreendeu-o. — O mar não cede lugar para os fracos.
Mesmo em meio ao breu, viu os olhos azuis escuros e melancólicos que a secavam de longa distância. Transbordando fria compreensão. A bruxa, ou seja lá o que fora. Não, não bruxa, mas apenas Morgana.
— Amarrem-na ao mastro. — ordenou por fim, caminhando até as escadas. — Veremos o quão durona ela é. — e saiu cambaleando por entre seus homens.
Quisera ter algum sentimento, qualquer que fosse, mas só lhe restara ódio. Ódio de Clengor, ódio do homem de armadura dourada, ódio das outras quinze e ódio dos malditos deuses.
O marujo de cabelos na altura dos ombros andou até ela, com o molho de chaves a chacoalhar em suas mãos. Ela o conhecia. Durante os dias que ficara presa nas celas de Vila das Rosas, esperando pela Condenação, ele levara comida para ela e lhe entregara um cobertor para se esquentar nas noites frias.
Não sabia o seu nome, no entanto. Nunca ousou perguntar, com medo de que ele reconsiderasse a sua compaixão.
Com destreza, abriu ambas as grilhetas que prendiam seus pulsos, que caíram inertes sobre suas coxas. Estavam roxos e formigavam. Concluiu que aquele seria somente o início. Não a matariam, não o podiam fazer. Mas a morte certamente seria melhor do que qualquer outra coisa que viesse do capitão.
O marinheiro a pegou nos seus braços fortes com estranha gentileza e a carregou para fora, para a imensidão escura e tempestuosa.
— Que Asor a proteja. — o marujo balbuciou.
Ártemis não protestou.
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Saiba mais: https://fanfiction.com.br/historia/768688/Mar_de_Piratas

7 comentários:

  1. Acompanho a história pelo Nyah e recomendo demaaaaaaaais esse hino de livro <3 Não vão se arrepender!

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  2. Respostas
    1. Clicando no link em "Saiba mais" tem a continuação da história. Acredito que ela esteja em andamento

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  3. Karina, como faz para vocês divulgarem uma história aqui?

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    1. É só me mandar por e-mail. Envie o primeiro capítulo, sinopse, capa e link para livroson-line@hotmail.com

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Boa leitura, E SEM SPOILER!