1 de fevereiro de 2019

Capítulo 9

Meira

FINALMENTE, RARES ME leva para fora, para o pátio de treino. O sol do fim da manhã brilha forte no estábulo e nos ringues de terra marcados no chão. A grama oscila ao ar frio, me preenchendo com os cheiros de feno e madeira velha e quebradiça — aromas que compuseram tanto de minha infância.
Tudo o que falta é o odor pungente de terra do gramado das pradarias e Sir gritando comigo por causa da minha postura.
Meu coração se aperta, e observo Rares quando ele para no meio do ringue mais largo. Meses antes, não teria questionado meu instinto de querer Sir comigo no labirinto. Mas a incerteza abre um buraco em minha barriga. Tanta coisa mudou. Meu relacionamento com Sir não é o que costumava ser, ou o que quero que seja. Mas o que é agora?
Rares me olha, ignorando meus pensamentos, e cruza as mãos às costas.
— Há armas naquela caixa. — Ele indica uma caixa de madeira, com a cabeça. — Pegue uma.
Passo a corrente da chave em volta do pescoço e enfio dentro da túnica, entre ela e a camisa que uso por baixo, para evitar contato com a pele. Quando toquei as outras chaves, tive visões poderosas do que precisava saber para acessar o abismo de magia. O que quer que essa chave possa me mostrar, não quero no momento, quero aprender como controlar minha magia, estar um passo mais perto de partir para ajudar meus amigos.
Chega de distrações, chega de outras lições, chega de crises emocionais. Apenas ação.
Começo a caminhar na direção da caixa quando Rares emite um estalo com a língua.
— Não — cantarola ele. — Sem sair do lugar. Você trata sua magia com confusão, incerteza e medo, e, por isso, ela responde com o caos. Para usar magia de condutor, você precisa saber o que quer. Precisa acreditar que é digna sem hesitar. Confiança é essencial para dominar a magia, e você já usou sua magia de tal forma quando olhou dentro da mente de Angra. Ao usar sua magia para tocá-lo, foi uma vontade canalizada. Você é capaz, coração. Confie em si mesma.
Reviro os olhos.
— Confiar em mim mesma... Você me conhece, não é?
Rares ri.
— Você consegue. E se perder o controle, não se preocupe, sou mais do que capaz de controlar você. — Ele gesticula para o complexo. — Este é o único lugar em Primoria em que você não precisa temer usar sua magia.
Coloco o corpo em uma posição mais firme e olho para a caixa, a tampa torta que está entreaberta no topo. Consigo fazer isso. Mesmo que estrague tudo, Rares está certo, este é o único lugar em que estou livre para cometer erros. Não há muitos invernianos por perto que eu conseguiria ferir.
Ou será que poderia acidentalmente afetar Rares e Oana, de alguma forma, pois eles também são condutores?
— Não pense demais — diz Rares, em uma reprimenda ríspida. — Apenas queira.
Solto o ar longa e lentamente, e estendo a mão.
Quero poder enfrentar Angra e obter aquelas chaves. Quero poder proteger Inverno. Quero poder impedir isso, tudo isso...
Quero sobreviver.
Ao fazer isso, protegerei todos que amo. Roubarei as chaves de volta e passarei pelo labirinto e salvarei o mundo de se tornar uma prisão de medo governada por Angra. Mas Mather virá comigo para aquele labirinto. Ele não hesitará se eu pedir, e estará lá até o fim. Não é esse o fim que quero para nós.
Eu sequer quero um fim em relação a ele.
Tapo o rosto com as mãos em concha.
Quero Sir lá comigo também. Mas será que virá? Eu sinceramente não sei mais. Da última vez em que nos falamos eu estava muito magoada — a que Sir é leal agora? Eu quero...
Eu quero, eu quero, eu quero...
Com um grunhido curto, estendo a mão. A tampa da caixa se abre com um rangido. E quando meus olhos se arregalam, uma espada dispara para fora. O cabo se choca contra minha mão, mas meu choque me consome tanto que me esqueço de segurar a arma e a lâmina cai na terra.
Rares aplaude.
— Demorou para chegar lá, e o final precisa de ajustes, mas é um começo.
Encaro a espada, depois minha mão. Meus dedos formigam, gelados e enrijecidos, com a magia que disparou por meu braço ao comando não dito.
É um começo.
Aqui estou eu, lançando espadas em um pátio de treino, enquanto lá fora, além de Paisly, o mundo poderia estar em chamas.
— Não é bom o bastante — disparo, e estico a mão sobre a espada. Como fiz aquilo. Sequer foi um pensamento, mas veio do fundo de emoções como todas as outras vezes em que usei magia.
Que emoção?
Mather, Sir, o labirinto, meu destino...
Não tiro os olhos da espada.
— Teve alguma notícia de Angra? A Ordem ainda está monitorando ele, certo? Eles informaram algo a respeito do que Angra está fazendo?
Rares percebe o que quero e pigarreia.
— A barreira da Ordem o tem mantido longe de Paisly, e parece que ele desistiu de tentar derrubá-la. A magia de Angra parou de testar nossas defesas. O que é bom, mas também é preocupante. Ele sabe que você vai ressurgir em algum momento, então, por enquanto, voltou a atenção para o restante do mundo. Durante os quatro dias desde a tomada, as forças de Angra asseguraram Ventralli para ele; com Raelyn supervisionando o reino no lugar de Angra. Ela está preparando o exército, supõe-se que para se juntar a ele. Angra está seguindo na direção dos reinos Estação com Theron ao seu lado, provavelmente para solidificar o poder deles sobre Verão ou... — Rares hesita. — Ou Inverno.
Sinto uma pontada no coração. Angra fez de Theron um aliado, não um prisioneiro. O que mais será que o obrigou a fazer?
— As tomadas dele, com sorte, não envolverão derramamento de sangue — continua Rares, com o tom de voz ainda ríspido e distante, como se soubesse que não demonstrar emoção vai me dar espaço para acumular emoções próprias. — O método dele é se aproximar de uma cidade, assim como fez em Rintiero, e espalhar a magia entre os residentes. A maioria será levada voluntariamente e se curvará a Angra. Irão se juntar ao exército dele ou cederão ao medo que a magia de Angra incute. As pessoas não sabem como resistir a ela. Por que saberiam? Acontece tão rápido que elas não têm tempo de entender quem ele é. Mas aqueles que resistem...
Aqueles que resistem. Mather. Ceridwen e Nessa e Conall...
Quero impedir isso. EU VOU impedir isso. Vou me tornar ainda mais poderosa do que Angra é e devolverei cada gota de preocupação que ele me causou vezes dez.
A espada oscila, disparando direto para cima com o cabo na minha direção. Seguro a arma.
Rares solta um uivo de aprovação e, em meio ao suor que agora escorre por meu rosto, olho para ele. Frustração, ódio e determinação formam um redemoinho tóxico que por pouco não me cega. Preciso estar no controle das minhas emoções para melhor utilizar a magia — e essas emoções são, no momento, as mais fáceis de controlar.
Quero sobreviver a isso. Mas quero também acabar com isso.
Preciso acabar com isso.
Infelizmente, preciso manter esse desejo o tempo todo na mente.
Rares não passa direto para a luta — por dois dias, ele me obriga a recuperar cada espada da caixa e colocar de volta para se certificar de que eu “entendo os fundamentos da magia”.
Dois dias.
Três que passei dormindo.
Seis, no total, desde que Angra tomou Rintiero.
Cada minuto que passa me lembra de tudo que estou deixando acontecer em minha ausência, e isso é potencializado quando peço a Rares que inclua notícias de Angra em nosso treinamento. Rares só consegue me atualizar com base no que a Ordem observa — o que significa que ele não pode me contar nada específico a respeito de meu reino ou meus amigos. Embora isso também queira dizer que Angra não espalhou o mal até eles ainda, o que é infinitamente preferível a ter notícias mais concretas a respeito de meus amigos. Eles escaparam de Rintiero. Angra não chegou a Inverno ainda. Preciso acreditar que estão todos bem.
As outras notícias basicamente não se alteram — Angra se aproxima de Verão; Ventralli está sob o controle dele, as tropas de Raelyn se preparam para avançar; Cordell mandou soldados extras para complementar o exército de Angra; outra força se reúne em Primavera, presume-se que para se unir a Angra também. Yakim permanece intocado; Outono é um mistério. Rares pode me dizer o estado dos cidadãos em cada reino que Angra tomou conforme alastra a magia dele. A conexão é fraca — pequenas correntes que permitem apenas que Rares saiba que sucumbiram a Angra —, mas é o suficiente para me tornar muito, muito boa em recuperar espadas.
Quando a última espada se choca contra as demais sob o céu alaranjado da noite do segundo dia, suor escorre por meu rosto apesar da frieza do ar da primavera verdadeira. Fecho a tampa com um ínfimo pensamento e volto o olhar irritado para Rares.
— Quantas vezes mais...
Mas ele não está me olhando. Durante cada espada que ergui atrapalhadamente, ele me observou, com braços cruzados e os olhos brilhando. No momento, contudo, Rares encara a parede principal do complexo. Pela primeira vez desde que o conheci ele parece preocupado e o pânico incendeia meu coração.
Estou buscando a caixa para atrair outra espada de volta para mim quando Rares se vira.
— Não — diz ele. — Alin encontrou...
Rares diz uma palavra que não processo, não aqui, então sacudo a cabeça.
— O que você...
— Invernianos — repete Rares.
Meus músculos ficam inertes.
— O quê? — É tudo o que consigo dizer.
— Dois — diz ele para mim. — Alin diz que um está ferido, está inconsciente.
Todo o choque que me paralisou se dissolve diante dessa afirmação, permitindo que um turbilhão se inicie.
Invernianos.
Ele está inconsciente.
Mather?
Disparo para o portão, as barras de ferro já estão rangendo ao se abrirem ao meu comando.
Antes que eu dê dois passos adiante, Rares aparece, cravando as mãos nos meus ombros.
— Alin os trará até aqui — assegura ele. — Está a caminho.
Olho com irritação para Rares.
— Mas como eles chegaram aqui?
A pergunta atinge Rares, fazendo com que ele se encolha.
— O quê? — Eu o sacudo. — O quê?
— Assim que chegamos em Paisly — diz Rares — Angra encontrou você imediatamente. Como ele sabia onde procurar por você? Simplesmente supus que tivesse descoberto por conta própria onde estaríamos. Mas e se... alguém contou a ele?
Fico entorpecida. Como um rio totalmente congelado.
Ainda não sei toda a história — pode ser que Mather e um dos membros do Degelo dele tenham me seguido sozinhos.
Não é... não pode ser... porque Angra os capturou, arrancou deles minha localização e os infiltrou aqui para mim.
Mas meu coração sussurra a verdade, e olho por cima da muralha.
Rares aperta meus ombros de novo.
— Alin os trará aqui — promete ele de novo.
Eu me desvencilho de Rares e o portão desce e bate na terra.
— Apenas os traga até aqui — digo, antes de me plantar diante do portão de braços cruzados, dentro do peito o murmúrio de uma emoção que conheço muito bem: terror.
E dessa vez, não é algo que consigo afastar, porque a ideia de Mather inconsciente fica mais insuportável a cada segundo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!