1 de fevereiro de 2019

Capítulo 8

Meira

ACORDO NO QUARTO para o qual Oana me trouxe, incapaz de me lembrar da última vez que dormi tão bem. Tudo em mim oscila como um saco vazio ao vento, e percebo que é exatamente como estou agora: vazia. Ainda me lembro de cada emoção, de cada preocupação, dos rostos de todas as pessoas que eu precisava proteger, mas isso não está mais me consumindo. Está apenas pairando em minha mente.
Penso nessas pessoas, hesitante. Sir ainda está em Inverno, e quem sabe se está vivo ou morto? Theron poderia estar saqueando meu reino nesse exato momento a pedido de Angra. Mather... pode ser que não tenha tirado todos do calabouço. Pode ser que não tenha fugido.
E embora esteja ciente da preocupação que cada pensamento me traz, não sou freada por ela.
A emoção que prevalece em minha mente é apenas... nada. O que me permite me concentrar nas coisas pequenas e insignificantes que não esqueci.
Como os calos em minhas mãos, agora já ficando macios porque há muito tempo parei de atirar meu chakram com frequência. Ou a magreza assustadora em minhas pernas e na barriga — tenho comido? Sinceramente não me lembro.
Então como. Pratos estão à mesa, frescos e fumegantes, e pela neve, nada nunca me pareceu tão saboroso. Eu sequer consigo identificar o que são — algo salgado que parece com batatas, e algo doce que tem a textura de mel e bolo ao mesmo tempo. Como até meu estômago inchar, e sigo para a pia no canto.
Depois de esfregar a pele, abro o baú encostado na parede e encontro roupas. Túnicas; calças finas e esvoaçantes; botas de couro macio que sobem além dos joelhos; longas echarpes com um arco-íris de cores, trançadas para usar como cinto. Vasculho o baú até encontrar uma túnica azul-celeste com espirais azul-marinho nas mangas e no colarinho, os tons combinam com meu único acessório, o medalhão. Um cinto prateado completa o modelito, e de pé no centro do quarto, de olhos fechados, me permito alguns momentos respirando tranquila e silenciosamente.
Pela primeira vez em meses, anos até, consigo respirar. Consigo sentir coisas além da dúvida que me engessa, além do esforço desgastante para manter as emoções controladas.
No fundo da minha consciência ouço a batida na porta.
— Você está pronta para a próxima lição — diz a voz de Rares, e sei que ele se refere a algo além de estar acordada e vestida.
— Sim — começo a rir. — Estou.
Ao que parece, dormi durante dias. Três dias, para ser exata. Não importa o quanto meu corpo se sinta bem, minha mente lateja com culpa ao pensar em quanto tempo desperdicei.
Lembro-me da visão de Angra, do plano dele para o mundo. Será que ainda está em Rintiero? Ou será que seguiu em frente, espalhando o medo e a escuridão dele para Yakim, Verão, Outono...?
Corro atrás de Rares, esperando que ele me leve até o pátio de treino que vi na entrada, para que possamos mergulhar no tipo de treinamento que precisarei para enfrentar Angra. Quando Rares me leva para outro quarto não longe do meu, paro à porta, confusa.
É pequeno, tem a metade do tamanho daquele em que estou instalada, com uma escrivaninha entulhada de papéis e livros no chão. Mapas cobrem as paredes — mapas de Verão, Ventralli e Yakim; mapas de Inverno e Primavera. Linhas traçam caminhos desde Abril até Jannuari e Juli e...
— Você estava me rastreando — digo, sem fôlego.
Rares dá um passo adiante.
— Depois que a Ordem descobriu que Hannah estava no caminho certo, torcemos para que alguém em sua linhagem tomasse a decisão de se livrar de vez da magia. Eu só fiquei de olho até você encontrar seu poder. O que fez, aqui. — O dedo de Rares vai até Abril no mapa. — E aqui é o ponto onde encontrou a porta na mina Tadil — Rares desliza o dedo até Gaos — e aqui onde...
— Tudo bem, entendi. — Tiro a mão dele do mapa. — Você é um homem mágico, com séculos de idade, que tem usado o tempo livre para espionar uma adolescente.
Rares ri.
— Alguém recuperou a ousadia! Mas não, não tenho espionado... estava rastreando. Os únicos pensamentos que obtive de você foram relacionados à magia, e a ocasional preocupação com a guerra. Preciso lembrá-la de que certos membros da Ordem têm rastreado os monarcas de Primoria há milhares de anos, esperando que um decidisse o que você decidiu?
Desabo em uma poltrona acolchoada, mas todas as outras funcionam como mais espaço para livros e papéis.
— Bem, é estranho.
Ele dá de ombros.
— Vou deixar que você desconte em mim depois. Até lá...
Eu me inclino para frente, a ansiedade me deixando mais atenta. Sim, treinamento — não há tempo a perder.
Rares se senta na beirada da escrivaninha, movendo uma pilha de livros para o lado. Um deles me chama a atenção — Magia de Primoria.
— Esse livro!
Rares abaixa o rosto para o livro antes de me lançar um sorriso.
— Já o viu antes?
Faço que sim enquanto meus olhos percorrem as letras douradas familiares. Essa cópia está tão gasta quanto a que li em Bithai, meses antes. A Ordem o escreveu; faz sentido que Rares tenha um exemplar.
Eu me mexo na poltrona, pronta, esperando, desesperada.
Dormi por três dias. Faz quatro dias desde que Angra tomou Ventralli.
Fique calma. Estou aqui. Estou fazendo o que preciso fazer.
Estico os ombros e ergo o rosto para Rares.
— Qual é a próxima lição?
Os olhos de Rares brilham.
Meus lábios se abrem em um ínfimo sorriso.
— Surpreendi você?
Ele gargalha.
— Você se surpreendeu?
A pergunta de Rares me desconcentra e agora sou eu quem dá de ombros.
— Estou... cansada, em grande parte — admito. — Estou cansada de ter que lutar por tudo na minha vida. Sou o condutor de Inverno; sou a rainha de Inverno; sou aquela que pode impedir Angra e a Ruína. Não que eu tenha aceitado meu destino, só estou cansada de negá-lo. Passei anos analisando cada escolha e resistindo a cada mudança. Não gosto da pessoa na qual isso me transformou. Não é essa a pessoa que quero ser.
— Quem você quer ser? — pergunta Rares, a única pergunta que estou evitando há semanas.
Não achei que importasse. Eu disse a mim mesma que não importava para não desmoronar ao me dar conta do quão longe eu estava de quem eu realmente queria ser. Mas já cheguei tão longe, me desapeguei de tantas coisas, que talvez também consiga me desapegar dos obstáculos que eu mesma criei.
Então encaro Rares.
— Quero ser o bastante.
Ele dá um leve sorriso.
— Você já é, coração. Sentir-se como se fosse o bastante não tem nada a ver com de fato ser o bastante, você escolhe se é ou não.
Outra escolha. Isso me leva de volta ao assunto em questão, e pigarreio, trocando esse tópico por outro igualmente sério.
— A próxima lição? — Tento de novo, e Rares gesticula com a mão em concordância.
— Sim, a lição quatro, sabe o que aconteceu com o abismo de magia?
Semicerro os olhos.
— Não estamos prontos para seguir para o uso de magia? — É assim que Angra será derrotado, afinal de contas. Ele é poderoso demais para ser derrubado com uma simples espada. Precisarei combater a Ruína de Angra com magia, bloquear qualquer um de meu povo usando magia, salvar o mundo com magia.
Rares ergue uma sobrancelha para mim.
— Paciência, coração. Sabe o que aconteceu com o abismo de magia?
Ansiedade estremece em meu estômago — três dias aqui, quatro dias desde a tomada...
Mas obrigo meus olhos a encararem os de Rares.
— Ele desapareceu há séculos. Ninguém sabe como. — Paro. — Mas acho que você sabe.
Ele sorri.
— Se alguém cavasse fundo o bastante nas montanhas Klaryn, em qualquer reino Estação, não apenas em Inverno, encontraria a mesma porta que você encontrou. Você só a encontrou graças à habilidade do povo de Inverno na mineração; a Ordem orginalmente construiu a porta pelas montanhas de Verão, pronta para surgir onde qualquer um escavasse além de certo ponto, em qualquer local das Klaryn. Mas esse é apenas o primeiro de muitos obstáculos para evitar que o abismo de magia fosse facilmente acessado. Você encontrou outro desses obstáculos em sua busca pelas chaves.
Rares mexe no colarinho e puxa de dentro da roupa a chave em uma longa corrente. Ele a remove do pescoço e estende para mim. Seguro o objeto com delicadeza pela corrente enquanto Rares continua.
— As chaves foram deixadas em Verão, Yakim e Ventralli à medida que os criadores do abismo foram viajando por esses reinos a partir de Paisly. Separar as chaves foi um modo de se certificarem que não seria fácil encontrar o abismo de magia e de que se alguém tentasse abri-lo, a busca pelas chaves desse tempo à Ordem de garantir que alguém que nós quiséssemos chegasse ao abismo. Mas a dificuldade seguinte que encontrará, além de recuperar as outras duas chaves, é o labirinto que está atrás da porta.
Faço uma conexão.
— A Ordem escondeu o abismo de magia. Paisly o escondeu.
Rares suspira.
— Só queríamos evitar que a pessoa errada chegasse à magia até que pudéssemos destruí-la. Não pretendíamos que seus reinos Estação levassem a culpa pelo sumiço do abismo. Mas muitas coisas que não pretendíamos aconteceram, coração.
Um reino Ritmo é responsável pelo ato que fez o restante do mundo odiar os reinos Estação. E embora eu pudesse facilmente nutrir essa chama de raiva, não o faço. Deixo que se esvaia, porque é parte de outras coisas que já aconteceram. Tudo para que tenho espaço, tudo que consigo ver, é o que está adiante. A única meta em torno da qual as demais fervilham: destruir toda a magia.
— Esse labirinto — começo a dizer, com os dedos fechados em torno da corrente da chave. — Precisarei usar magia para ele também? Mas você não pode vir comigo? Você virá, certo?
Rares se vira para uma pilha de livros no canto. Quando ele se vira de volta, segura um papel velho e amarelado que parece a um sopro de se desfazer em milhões de partículas de poeira.
— O labirinto foi criado por um pequeno grupo formado pelos condutores mais poderosos da Ordem. O objetivo era proteger a magia de ser facilmente acessada, e caso ainda assim ela fosse, o labirinto foi elaborado de modo que apenas aqueles dignos pudessem alcançá-la. Eles mantiveram cada detalhe em segredo. Mesmo quando o criaram, eles... — A voz de Rares falha e ele contrai os lábios. — Bem. Eles levaram os segredos ao túmulo.
Meu maxilar se contrai. Não sou a única que sacrificou tudo para proteger Primoria. A Ordem dos Ilustres não esperava que eu fizesse nada que eles mesmos não tenham feito.
— Mas — Rares ergue uma sobrancelha — eles nos deixaram uma pista.
Rares estende o papel para mim e fico de pé para pegá-lo.

Três pessoas o labirinto clama
As que nele entrem com intuito sincero
Para enfrentar um teste de liderança,
Um labirinto de humildade,
E purificação do coração.
Que será concluído apenas pelos verdadeiros.

Leio duas vezes. Três vezes. E antes de conseguir me impedir, sou atingida por um pensamento doloroso:
Theron saberia o que isso quer dizer.
Solto o papel sobre a escrivaninha.
— Uma charada. — Recuo e esbarro na poltrona; ao tropeçar, consigo me apoiar no braço dela. A corrente da chave dói na palma da minha mão, a própria chave acerta minha coxa. — É só isso? Porque eu... eu preciso...
O cômodo é pequeno demais. Apesar de todo meu progresso, não consigo tomar fôlego e caio na poltrona, sem ar devido à familiaridade de ler passagens antigas sobre magia. Minhas memórias de Theron se agitam, sentada na biblioteca dele, ouvindo-o falar do outro lado daquele livro, Magia de Primoria. Eu me permiti contemplar a ideia de amar Theron porque ele era doce, bondoso e nós dois queríamos mais das nossas vidas. Embora fosse um casamento arranjado, embora fosse político, embora eu soubesse que jamais poderia ser a pessoa que precisava ser para amar Theron. Ele sempre seria o herdeiro de Cordell; eu sempre estaria presa a Inverno.
Pressiono a mão livre contra a testa, engolindo os rompantes gélidos de magia que sobem rodopiando pela minha garganta. Não quero mais combater essa culpa, mas não sei como consertar isso — porque não posso salvar Theron. Tudo que aconteceu com ele ficará com ele para sempre, da mesma forma que todos os invernianos ainda estremecem depois de anos de escravidão.
Então o que posso fazer?
Poderia fazer o que fiz recentemente com todo o resto. Reconhecer, sentir, e então deixar que caia no abismo, uma presença constante, mas que não me paralisa.
Rares não se moveu da posição ao lado da escrivaninha, o que me dá espaço para respirar. E quando levanto o rosto para ele, Rares faz que sim, mas em silêncio. Ele me permite me curar sozinha.
— O que isso quer dizer? — Gesticulo para o papel, minha voz falha.
— Primeiro, significa que apenas duas pessoas podem acompanhar você. O labirinto só aceita três pessoas de cada vez, para limitar aqueles que podem ter acesso à magia.
— Então você pode vir comigo?
— A porta e o labirinto foram feitos de modo que apenas os dignos alcancem o abismo de magia. Você reparou na barreira que repele qualquer um que tente se aproximar da porta? A única forma de passar por ela é se três pessoas passarem juntas, todas acreditando que são dignas de alcançar a magia. A segunda parte do enigma, As que nele entrem com intuito sincero. Um esforço conjunto. Bem simples, não? Mas não completamente. Pois assim que passar pela porta, o labirinto a fará provar essa crença. Testará todos os três em aspectos que meçam esse merecimento: liderança, humildade e coração. Não sei quais são os testes exatamente, além das pistas no enigma, mas você deve estar o mais preparada possível para isso. De todas as pessoas no mundo, quais duas vai querer ao seu lado quando enfrentar tais provações?
Rostos lampejam em minha mente. Mather e Sir.
Enrugo a testa. Mather, sim. Já Sir... Há um abismo entre nós. Mas sei que se fosse necessário ele me defenderia com a própria vida.
— Depois que completar o labirinto e chegar ao abismo, terá apenas alguns segundos para destruí-lo — continua Rares. — Quando os criadores o elaboraram, começaram pela construção de uma saída que se abre apenas quando alguém acessa o abismo. Um modo de qualquer alma digna que alcance a magia sair. Mas a quantidade de magia necessária para selar essa saída foi imensa, e assim que se abrir, cada condutor de Primoria vai sentir. Saberão onde está, e conseguirão acessar a magia também. Por isso que você não pode hesitar em sua missão, coração.
Minha missão. Morrer.
Engulo em seco. Não posso pensar nisso — não posso me permitir enfraquecer mais.
— Mas para completar com sucesso as tarefas do labirinto, você precisará daquilo que veio até aqui obter: o controle da sua magia. — Rares gesticula com a mão e um armário do outro lado do quarto se abre. Uma adaga sai de dentro, o cabo desce na palma da mão de Rares. Ele fecha os dedos em torno da arma, sorrindo.
O barulho que faço é totalmente patético, algo entre um gritinho e um soluço.
Quero entender de que formas ele consegue controlar a magia — não apenas para poder enfrentar Angra e proteger aqueles que amo, mas porque não fazia ideia de que podia usar essa energia turbulenta de maneira tão graciosa. A magia fez muito mais mal do que bem, mas como Nessa observou em Putnam, precisaremos de todas as armas que pudermos obter. Qualquer ferramenta que eu puder reunir será valiosa.
— Ah, coração — diz Rares, e o entusiasmo dele é contagioso. — Você ainda não aprendeu o significado da palavra valiosa.

3 comentários:

  1. sla, acho q ela vai acabar encontrando um jeito de contornar essa historia de morrer

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu espero também KKK Não tô preparada psicologicamente pra ver ela morrer 💔

      Excluir
    2. To com umas teorias de que ela vai levar a Cerie junto, que é atualmente a portadora do condutor de verão, embora não possa usa-lo, então ela vai sacrificar o condutor de verão, pq ela odeia a magia e já manifestou sua vontade de destruí-la diversas vezes, então na minha opnião quem vai fazer o derradeiro sacrifício será a Ceridwen

      Excluir

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!