1 de fevereiro de 2019

Capítulo 7

Ceridwen

A RAINHA DE Yakim os tinha comprado dos homens de Raelyn.
Os soldados ventrallianos os deixaram às pressas e embora Giselle tivesse dado a Ceridwen e Lekan uma saída das garras de Raelyn, a rainha yakimiana jamais fazia nada sem um motivo calculado. Quando Ceridwen se plantou na rua escura da quadra sul de Rintiero, ela cruzou os braços e olhou com raiva para Giselle, que silenciosamente montou no cavalo e arrumou sua pesada saia de lã em volta da sela.
Um grito distante, mas poderoso, ecoou pela rua. Pânico disparou pelos músculos de Ceridwen. Uma sirene de aviso? Um grito de guerra?
Ela estava intimamente familiarizada com os ruídos corriqueiros de Rintiero, música e gargalhadas e conversas felizes tão diferentes da algazarra de Juli. A sirene chamou a atenção dela para a forma como os ruídos da cidade soavam subitamente... diferentes. Era noite, sim, mas mesmo nas horas mais avançadas, havia música vinda da companhia de músicos. As únicas coisas que Ceridwen conseguia ouvir agora eram gritos distantes, um chacoalhar metálico, os ruídos da guerra.
Uma onda fria percorreu o corpo dela da cabeça aos pés.
O golpe de Raelyn tinha se alastrado. Será que ao menos encontrar Meira e impedir Angra seria possível agora? Ela precisava chegar ao palácio. Imediatamente.
Lekan, montado com um dos soldados de Giselle, contraiu os lábios em uma linha fina e assentiu. Ele entendia. O que quer que Giselle tivesse planejado, Lekan poderia dar conta, e estava bem mais seguro com a incerteza de Yakim do que com a tortura garantida de Raelyn. Ceridwen poderia deixá-lo ali e...
A mão fria de alguém agarrou o ombro de Ceridwen — Giselle, inclinando-se para baixo da sela.
— Não faça nada tolo, princesa. Eles provavelmente já estão mortos.
Ceridwen grunhiu.
— Então vou destruir Raelyn.
Giselle revirou os olhos para o céu antes de tocar o flanco do cavalo com o pé.
— Não está exausta de toda essa paixão?
Antes que Ceridwen pudesse responder, soldados yakimianos se aproximaram. Com alguns movimentos ágeis, prenderam os braços de Ceridwen na frente do corpo e, com os pulsos para o alto, estava presa por uma corda à sela de um dos soldados. Lekan disparou para frente, mas o soldado no cavalo dele simplesmente golpeou o joelho ferido de Lekan com o cabo de uma espada, o que o fez gritar.
— GISELLE! — O urro de Ceridwen ecoou pelos prédios. — Assim que me desatar, vou matar você!
Alguns cavalos adiante, Giselle fez que não com a cabeça.
— Você é uma péssima negociadora.
— E você é uma péssima aliada. Durante décadas vendeu para Verão, e é assim que termina? Você me levando prisioneira? Eu sabia que Yakim era um reino egoísta, mas não achei que você não tivesse coração.
Isso fez com que Giselle parasse o cavalo subitamente. Depois de um momento, o grupo continuou, mas Giselle ficou para trás até que o cavalo se alinhasse ao lado de Ceridwen, atrapalhada entre caminhar e ser arrastada.
— Não somos sem coração... somos práticos. — As costas de Giselle estavam eretas atrás do machado lustroso de lâminas duplas que se apoiava contra a coluna dela: o condutor de Yakim. — E somos um dos poucos reinos, devo acrescentar, que não está, no momento, envolvido nesta guerra. Inverno está aqui, Verão, Ventralli, Cordell... Primavera. Outono foi invadido, ou foi o que ouvi, e Paisly jamais se incomodou em ser mais do que um reino de ratos da montanha. Ser prática é o que manterá meu povo vivo. Não finja que não faria o mesmo por seu reino se tivesse previsto que precisaria protegê-lo.
— Eu protejo meu povo!
— Você não tinha ideia de que essa tomada aconteceria até que se realizou diante dos seus olhos.
— Pelo menos ainda estou em combate. Mas e você, o que está fazendo? Fugindo para se esconder em Putnam? — Ceridwen encolheu o corpo. — Como você soube de tudo isso?
Giselle inclinou a cabeça.
— Demorou a perguntar isso.
— Eu sabia que você não me contaria.
— Não contaria? — Giselle voltou a atenção para a rua. Um toque de orvalho tingia o ar, certamente se aproximavam do rio Langstone. — Ele veio até Yakim. Depois da sua visita, há alguns dias. — Quando Ceridwen não perguntou quem, Giselle insistiu. — Angra. Ele veio com uma proposta para unir Primoria, mas diferentemente do resto do mundo, percebi o que realmente oferecia. E não era liberdade, como ele alegava.
Ceridwen arriscou olhar para cima. A noite os envolvera completamente àquela altura, mas ela ainda conseguia distinguir Giselle observando-a com aquele olhar irritantemente estudioso que os yakimianos fazem tão bem.
— Ele foi embora quando eu disse que iria pensar a respeito, como é a natureza de meu povo. Pensar e ponderar e viver em um mundo de ideias, o exato motivo pelo qual não posso permitir que Angra alastre a magia dele.
Ceridwen ficou boquiaberta.
— Já vi o que resulta de um governo dele. O mundo inteiro viu. — Giselle segurou as rédeas com mais força. — Primavera apodreceu durante séculos, estagnada mesmo para os parâmetros dos reinos Estação. E ele deseja espalhar o mesmo para meu reino? Angra sinceramente esperava que eu aceitasse algo que transformaria as pessoas cultas do meu povo em cascas possuídas e descerebradas. Não deixarei que nossas mentes sejam maculadas por ele.
Giselle sorriu como se fosse uma adulta falando com uma criança.
— E é aí que você entra.
Ceridwen hesitou.
— O quê? Como?
O sorriso de Giselle se suavizou.
— Quando perguntei quem mais estava envolvido nos planos dele, Angra deu uma lista impressionante, com planos ainda mais impressionantes para sufocar o resto do mundo até a submissão, exceto por Inverno. “Aquele reino vai queimar”, disse ele. O único motivo pelo qual um homem destruiria algo assim seria considerar esse algo uma ameaça. Eles estão há tanto tempo em guerra que Inverno deve saber coisas sobre Angra que ele teme. E a rainha de Inverno chama você de aliada.
— Sim. Mas...
— E você tem um exército à disposição. — Giselle gesticulou com a mão antes que Ceridwen pudesse dizer que não, que Simon fora morto, e que Raelyn ou Angra sem dúvida tomariam os bens de Verão. — Não, criança, seu exército. Aquele que acha que está escondido de todos.
O rosto de Ceridwen se contraiu antes que ela tropeçasse, se chocasse contra o cavalo de Giselle e se virasse de forma a ficar o mais longe possível da rainha.
Os refugiados dela. Os combatentes da liberdade. Giselle sabia sobre eles?
— Se tiver tocado neles... — disparou Ceridwen.
Giselle a impediu com outro gesto mínimo. Ceridwen queria muito decepar aquela mão.
— Não me importo com seus sobreviventes, mas é claro que sei sobre eles. Você achou que durante todos esses anos eu estava vendendo pessoas ao seu reino por dinheiro? Não, princesa, eu buscava um prêmio muito melhor... o próprio reino de Verão.
Ceridwen piscou.
— Do que você está falando?
— As pessoas que Verão comprou de Yakim. Algumas eram camponesas, bastante inúteis, mas a maioria não era tão inútil assim. — A sobrancelha de Giselle se arqueou para cima. — Soldados, princesa. Espiões, se prefere assim chamá-los, enviados para montar um exército dentro das suas muralhas. Não planejei a invasão tão cedo, mas eventos recentes me forçaram a reavaliar as prioridades de Yakim.
Suor se acumulou pela coluna de Ceridwen.
— Você estava... — A mente dela deu um estalo. — Você mandou seu povo para ser torturado! O que faz você pensar que esse mesmo povo ainda seria leal a você depois disso? Crianças, Giselle. Você vendeu crianças a meu irmão para que pudesse conquistar Verão?
Giselle emitiu um estalo com a língua.
— Não contei isso a você para que me questionasse. Contei porque você tem trezentos dos meus soldados em seu campo, e quero que os utilize.
Trezentos?
Ceridwen não conseguia mais ver o rosto de Giselle. Ela não conseguia ver a rua ou assombras da noite, ou Rintiero. A única coisa visível era o campo de refugiados. As centenas de escravos libertos que moravam no limite da floresta do sul de Eldridge, em segurança e anonimato, ou ao menos era o que pensava.
O sangue de Ceridwen ferveu.
Giselle pegou algo em um dos bolsos do vestido e se virou para Ceridwen com a mão estendida.
— Meu selo real, para que possa convencê-los de que dei a ordem para que lutassem por você.
O selo caiu da palma da mão de Giselle e Ceridwen o pegou. Um pequeno anel com um sulco no topo, o metal curvado no formato de um machado.
Ceridwen olhou para o objeto com raiva. Ela quase perdeu a calma com a rainha yakimiana, quase gritou o que realmente faria com aquela informação. Usaria para ajudar a impedir Angra, sim, mas no exato segundo após sua queda ela convenceria cada escravo yakimiano a passar para seu lado. Contaria aos inocentes o que a rainha tinha feito com eles, e os reuniria contra a megera insensível que tentara usá-los. Malditos condutores de magia... Ceridwen tinha a impressão de que em qualquer lugar que olhasse encontraria pessoas corruptas fazendo mau uso de um poder que ela daria tudo para ter.
— Você é doente — sibilou Ceridwen. Então puxou a corda, atraindo a atenção de Giselle para ela. — Se fez isso para ajudar, por que sou sua prisioneira?
O grupo virou em uma esquina e o porto se estendeu adiante, longos dedos de madeira que tocavam a água azul-acinzentada do rio Langstone. Barcos oscilavam ao longo das docas, pequenas embarcações ao lado de outras maiores e imponentes, suas velas recolhidas contra o vento da noite e bandeiras ondulando nos mastros. Um barco, com as velas abertas, estava no fim de um pequeno cais. Soldados corriam pelo deque e os olhos de Ceridwen se voltaram para a bandeira tremulando acima. Um machado em um fundo escuro.
— Se eu a libertar agora, você vai correr de volta em uma tentativa inútil de salvar Ventralli, e não me importo com Ventralli — disse Giselle. — Você será levada até seu campo para se preparar para a batalha. Espero que o povo da rainha de Inverno esteja trabalhando com agilidade para ajudá-la a escapar também, mas mesmo que ela não sobreviva a esta noite, espero que você seja aliada de Yakim. Eu mesma a acompanharia, mas tenho a sensação de que Angra tentará se aproximar do meu reino, então preciso partir.
— Terá que me matar se quiser me tirar de Ventralli — grunhiu Ceridwen. — Não vou deixar ninguém aqui para ser morto.
Giselle abaixou o rosto para ela.
— Você é útil demais viva. Já consciente...
Ceridwen se abaixou em um rompante de instinto. O soldado que tinha vindo de fininho por trás dela avançou e o cabo de sua espada golpeou o lugar em que estivera a cabeça de Ceridwen segundos antes.
Lekan gritou, mas o soldado que o acompanhava não apenas o golpeou dessa vez — ele enterrou os dedos no ferimento de Lekan, incitando gritos que espiralaram nos ouvidos de Ceridwen.
— Pare! — gritou ela.
O soldado que segurava Lekan estava dois cavalos adiante, inalcançável. Mas se o que estava atacando golpeasse e errasse, Ceridwen poderia usar a distração para arrancar a espada das mãos dele e se armar.
Ceridwen se inclinou com os punhos na altura do peito, as pernas abertas para se manter no lugar. O soldado golpeou de novo, com o cabo da espada se arqueando na direção de Ceridwen, a lâmina para trás, e ela contou os segundos até o último momento possível...
Tac.
O soldado grunhiu e estremeceu quando uma flecha se enterrou em seu ombro. A espada caiu das mãos dele, tilintando no chão da rua, e não tinha parado completamente sobre os paralelepípedos quando Ceridwen a pegou, segurando com as duas mãos atadas, e se virou na direção de Giselle.
— Solte-o — exigiu Ceridwen, com os olhos se voltando por um segundo para Lekan. Ele mal estava consciente agora, mas o soldado tinha parado de torturá-lo.
A maioria das pessoas sentiria pânico se um prisioneiro estivesse armado e alguém tivesse atirado contra um de seus soldados, mas Giselle pareceu apenas curiosa enquanto analisava a rua atrás de Ceridwen.
— Eu obedeceria a ela, Giselle — disse uma voz. — Achei que a tivesse perdido duas vezes hoje. Esse tipo de estresse mexe com a cabeça de um homem.
Ceridwen soluçou e mordeu os lábios antes que mais lágrimas viessem.
Jesse.
Ela não foi capaz de se virar para vê-lo, por medo de que pudesse ser uma alucinação, de que, se tirasse os olhos de Giselle, perderia sua única e breve vantagem. Então Ceridwen ficou parada ali até que Jesse surgisse em sua visão periférica, com a flecha engatilhada no arco em suas mãos, um dos dedos segurando o fio perto do canto da boca.
Ele tinha atirado a flecha no soldado? E acertado?
O fato de esse ter sido o pensamento de Ceridwen a fez querer rir. Mas então ela reparou na forma como Jesse tremia, nas vibrações que oscilavam até a ponta da flecha. Pela chama e pelo calor, será que ele por algum momento tinha de fato mirado no soldado? Jesse era completamente inútil quando se tratava de armas.
Por sorte, Giselle não sabia disso.
— Você escapou — observou Giselle.
Jesse aumentou a tensão no arco, dessa vez mirando no soldado que segurava Lekan.
— Desculpe desapontar você.
Giselle gargalhou.
— Desapontar a mim? Certamente não. Isso torna as coisas muito mais fáceis.
Ela gesticulou para o soldado, que rapidamente jogou Lekan para fora do cavalo. Ceridwen saltou para frente e passou o braço de Lekan por cima do próprio ombro para ajudá-lo a se erguer. Ele oscilou contra Ceridwen, o corpo frio de suor, e ela o puxou para o mais perto possível, esperando que parte de seu calor emanasse para Lekan. Ele caíra no meio dos homens de Giselle, e Ceridwen lutava para mantê-lo de pé com apenas um dos braços, já que segurava a espada com o outro. Jesse estava a postos do lado de fora do círculo de soldados.
— Ainda pode usar meu barco. Ele a levará para o campo bem mais rápido — disse Giselle.
Ceridwen grunhiu.
— Pode pegar seu barco e enfiar no...
— Campo? — Jesse baixou levemente o arco. — Você estava levando Ceridwen para o campo de refugiados?
Giselle assentiu.
— Agora que você está aqui ela não ficará tentada a fugir para perseguir objetivos menos produtivos. — Curvou a sobrancelha outra vez. — A não ser que tenha restado mais alguém no palácio que você sinta a necessidade de resgatar? Porque o mundo está se dissolvendo, rei Jesse, e para mim não é problema mostrar a você a mesma força. — Giselle inclinou a cabeça na direção de Lekan e Ceridwen.
Jesse sacudiu a cabeça.
— Não. Não temos motivo para retornar. — Ele parou. — Por enquanto.
Giselle agitou a cabeça.
— Excelente. Vamos?
Ela seguiu para o cais, deixando alguns dos homens para se certificar de que ninguém que lhe fosse útil se desgarrasse para Rintiero. Ceridwen teria mostrado mais algumas caretas a Giselle não fosse por Jesse, naquela rua, ali.
A escuridão da noite e o surgimento de nuvens de tempestade tornaram difícil para Ceridwen discernir a imagem de Jesse, então era quase possível imaginar que ele fosse parte de um sonho. Solto, o cabelo de Jesse oscilava e as mangas de sua camisa preta estavam enroladas até os cotovelos, mostrando a forma como os antebraços de Jesse seguravam o arco.
Ele pigarreou e colocou a flecha de volta na aljava.
Os soldados em torno deles estampavam o ar de distanciamento habitual dos yakimianos. Recostado em Ceridwen, Lekan permanecia em silêncio, o que subitamente deu a ela a sensação de estar sozinha com Jesse. Sua cabeça latejava, um calor atordoante, inominável. Seria ódio? Alívio? Ceridwen não sabia o que sentia.
Ela só sabia que ele parecia... diferente.
Jesse pigarreou de novo.
— Encontrei a carruagem. Não achei que Giselle seria ousada o bastante para aportar onde sempre aporta quando visita, mas precisava tentar. Eu precisava... salvar você.
Ceridwen ajustou o peso de Lekan.
— Não preciso ser salva.
Jesse avançou para passar o outro braço de Lekan pelo pescoço, tomando parte do peso dele.
— Não, você não precisa me ajudar — protestou Lekan, inclinando-se mais sobre Ceridwen.
— Por favor — interrompeu Jesse. — Me deixe ajudar.
Mas os olhos dele estavam sobre Ceridwen.
Ela não conseguia respirar.
— Seus... seus filhos? — Ceridwen ousou perguntar. A voz dela ficou mais forte. — E os invernianos? Soube de alguma coisa sobre eles? Como você escapou?
Ceridwen e Jesse começaram a puxar Lekan para o cais, um trabalho lento que fazia doer a coluna de Ceridwen. Quanto antes entrassem no barco de Giselle, mais cedo poderiam encontrar um lugar onde pudessem ficar sozinhos, longe de Jesse.
Fora ela quem terminara o relacionamento com ele. E o único motivo pelo qual pretendia voltar para salvar Jesse era para consertar as injustiças de Raelyn. Ceridwen estava preparada para ver Jesse sob tais circunstâncias, quando teria sido ela a salvadora, e ele quem precisaria dela.
Não estava preparada... para o que estava acontecendo.
Jesse se encolheu à menção dos filhos, mas pareceu fazer um esforço físico para afastar a preocupação.
— Estão bem. Os invernianos também, na verdade. Eles me ajudaram a fugir. Todos nos separamos, mas vamos nos encontrar em seu campo de refugiados.
A tensão em volta da boca de Jesse chegou aos olhos dele.
Ceridwen engasgou.
Era por isso que parecia diferente. Não estava usando máscara.
Quando Jesse viu que Ceridwen o observava, os cantos dos olhos dele se levantaram.
— Eu a quebrei — sussurrou Jesse. — Minha máscara. Acabou, com Raelyn.
Ceridwen não conseguia se lembrar de quando tinha respirado profundamente pela última vez. Antes de Jesse aparecer, provavelmente, e agora seu peito chiava ao respirar e flashes de luz giravam em seu campo visual.
Jesse quebrara a máscara. Tinha terminado o relacionamento com Raelyn.
Ele tinha feito. Finalmente tinha feito o que Ceridwen queria que ele fizesse há tanto tempo que o desejo tinha se tornado um nó permanente em seu coração.
Mas Jesse não fizera aquilo até agora. Depois que Ceridwen o deixara. Depois que Raelyn se revelou perigosa.
Por uma tábua de madeira que o ligava ao cais, entraram no deque do navio. Em um canto havia uma pilha de sacos vazios, e quando apoiaram Lekan sobre ela, Jesse se agachou ao lado dele, mantendo os olhos nos de Ceridwen.
Ela não conseguia retribuir. Não agora, enquanto Lekan precisava dela, enquanto a guerra de Angra ainda era travada — enquanto desejava odiar Jesse. Pela chama e pelo calor, Ceridwen queria muito odiar Jesse — e assim que reconheceu essa necessidade, o sentimento rugiu forte e dolorosamente por seu corpo.
Ceridwen tinha esperado por Jesse durante quatro anos. E fora preciso um golpe e o retorno da magia sombria para que ele lutasse por ela de volta.
— Cerie — disse Jesse. — Por favor, fale comigo. Me deixe...
— Não. — Ceridwen se esforçava para verificar a perna de Lekan. Ele precisava de um curativo decente, e ela quase agradeceu ao homem por ter se ferido, pois assim tinha algo para fazer.
Jesse não cedeu.
— Por favor, eu sei que...
— Não! — disparou Ceridwen. — Não, você não sabe. Vá embora, Jesse. Me deixe sozinha.
As últimas palavras dela perderam o calor, esmaecidas como uma chuva fina caindo do céu.
Os olhos de Jesse se voltaram para os de Ceridwen. Algumas lanternas pendiam em torno do deque do navio, não o suficiente para chamar atenção indesejada ou para fazer mais do que destacar o brilho acobreado da pele de Jesse.
— Tudo bem — concordou ele, arrasado.
Jesse hesitou, esperando que talvez Ceridwen mudasse de ideia. Mas, por fim, ficou de pé e seguiu pelo deque a passos firmes, até onde Giselle conversava com seus homens.
Os dedos frios de Lekan tocaram o braço de Ceridwen.
— Ele veio atrás de você.
Ceridwen enrijeceu o corpo.
— Você precisa de curativos.
Ela começou a gesticular para um soldado que passava para pedir suprimentos quando Lekan lhe segurou a mão.
— Você também — sussurrou ele. Com uma respiração profunda e um estremecer do corpo, Lekan afrouxou o toque. — Ele buscou uma aliança com a rainha de Inverno. Antes do golpe, logo depois de você terminar tudo com ele. Pretendia destronar Raelyn antes que tudo isso acontecesse.
Ceridwen ficou boquiaberta e quase imediatamente fechou a boca. Lekan a conhecia bem demais, e isso iria obrigá-la a confrontar coisas para as quais ainda não tinha forças.
Ceridwen tinha uma guerra a ser planejada. Os soldados de Giselle no campo de refugiados. A ameaça de Angra se espalhando pelo mundo. Dezenas de outros problemas, todos muito mais imediatos e terríveis do que... Jesse.
Então Ceridwen encontrou ataduras e água, limpou o ferimento de Lekan, e enquanto isso, continuou ignorando a forma como Jesse observava cada movimento dela.

Um comentário:

  1. Leituras a Meia-noite7 de fevereiro de 2019 23:13

    KARINA, EU AMO TEU TRABALHO
    NAO VIVERIA SEM VOCE

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Boa leitura, E SEM SPOILER!