1 de fevereiro de 2019

Capítulo 6

Mather

MATHER, PHIL E o rei ventralliano esperavam nas sombras da passagem tumultuada. Além da porta, o caos tomava conta — ordens eram gritadas, soldados marchavam.
Mather se esforçou para captar mais trechos de conversa, gritos de protesto ou lamentos de vítimas, mas se não tivesse conhecimento do levante, teria sido assustadoramente fácil presumir que o exército de Rintiero estava apenas em seus treinamentos. Será que algum dissidente já fora subjugado?
— Raelyn estará no salão do trono — sussurrou o rei ventralliano. — A não ser que...
A voz dele sumiu, mas Mather sentiu as palavras não ditas.
A não ser que esteja assassinando minha mãe.
— Onde ela aprisionaria Ceridwen? — perguntou Mather.
À luz vinda das fendas em torno da porta, o rei ficou imóvel.
— Vou descobrir.
— Como? — perguntou Phil. — Sua esposa é assustadora. Quer dizer, ela é assustadora, Vossa Alteza.
— Você nem imagina. E é Jesse. — O rei desviou o olhar. — Não sou mais rei, não é?
Mather deu de ombros.
— Não é tão ruim assim, ser destronado.
— Ah, mas pelo menos a mulher que destronou você não era uma assassina possuída.
Mather gargalhou, mas aquilo apenas o fez se sentir mais vazio. Ele relaxou o corpo contra a parede.
— Não tenho ideia de para onde Meira foi — admitiu ele. Onde poderia ao menos começar a procurar por ela? Só aquela cidade era imensa. Poderiam ter ido a qualquer lugar, de barco, a cavalo ou a pé...
— Quem era o homem com quem ela foi embora? — indagou Phil.
— Não sei. Nunca o vi antes, ou ninguém como ele. Ele estava vestindo... uma túnica? — Mather ergueu a sobrancelha. — Eu nem mesmo...
— Uma túnica? — interrompeu Jesse.
— Sim, por quê?
— Nas tapeçarias — falou Jesse, com a voz hesitante —, em nosso salão de história. Foram feitas há séculos, retratos antigos do povo de cada reino. Ventrallianos usando máscaras e yakimianos com o cobre e os dispositivos e...
— Aonde você quer chegar? — interrompeu Mather.
Armaduras tilintaram quando soldados passaram pela porta oculta dele. Mather sentiu Phil e Jesse ficarem tensos.
Jesse exalou quando os passos se afastaram.
— E paislianos... de túnica. O homem tinha pele escura? Mais escura do que a dos yakimianos?
Mather assentiu, então percebeu que Jesse não podia vê-lo.
— Tinha. Ele era paisliano?
Jesse bufou baixinho.
— Não tenho ideia de por que um paisliano estaria em meu palácio, mas parece que havia um.
— Uau. — Phil assobiou, baixo e grave. — Não esperava por essa.
E Mather também não. Um paisliano levara Meira embora? Por quê?
— Não podemos nos esconder aqui para sempre — disse Mather.
Jess inclinou a cabeça para a porta, tentando escutar.
— Está livre. Venham comigo, mas fiquem escondidos... acho que é melhor se Raelyn acreditar que estou sozinho. E... e tentem o máximo possível evitar Angra.
Mather riu com deboche.
— Quase me esqueci dele.
— Ele é eficiente por causa disso — disse Phil. — Cria várias outras ameaças, tantas que a gente se esquece da principal.
Aquilo era muito verdadeiro.
Jesse não disse nada ao abrir a porta devagar. O corredor estava vazio por um breve momento, e Jesse disparou para a direita. Para não chamar atenção, Mather enfiou as armas sob a blusa: uma faca e o condutor de Cordell, aquele lembrete terrível preso ao cinto. Ele e Phil saíram depois de Jesse. Fecharam a porta ao passar e permaneceram atrás de estátuas ou outros obstáculos que os deixassem o mais imperceptíveis possível.
Mas Jesse passou despercebido. Ele recolocara a máscara na passagem, e como ninguém esperava que o rei estivesse em qualquer outro lugar que não a cela da prisão, era apenas mais um ventralliano correndo pelos corredores.
Passaram por diversos cômodos, muitos deles vazios, outros entulhados de membros da nobreza. Uma breve olhada para dentro informou a Mather que, de fato, estavam todos subjugados, acovardando-se em grupos silenciosos com soldados de pé em torno deles.
Será que Angra tinha feito aquilo com eles de alguma forma? Qualquer que fosse a causa, tornou ainda mais fácil passarem de fininho pelo palácio, pois havia poucos soldados patrulhando, nenhum dissidente significava que não havia necessidade de ampla guarda.
Pouco tempo depois Jesse parou diante de portas. O corredor era branco e estava vazio, as paredes cobertas por espelhos de moldura dourada. Mather se esquivou contra a parede ao lado das portas, com Phil ao lado. Jesse o encarou e acenou brevemente com a cabeça antes de empurrar as portas para dentro. Jesse não entrou mais do que poucos passos, para a confusão de Mather, que olhou por fora da moldura para observar a ameaça do lado de dentro.
Nos fundos do salão do trono verde e marrom havia duas cadeiras espelhadas. Em uma estava Raelyn, relaxada enquanto admirava algo nas mãos.
O condutor quebrado de Ventralli, a coroa prateada.
Jesse congelou.
— Onde está Ceridwen?
O grito dele ecoou pelo salão. Mather se encolheu, certo de que soldados viriam correndo.
Raelyn sem dúvida tinha um contingente aguardando por perto. Ele xingou baixinho, já se arrependendo da decisão. Deveriam ter simplesmente ido embora, corrido para fora do palácio, para a liberdade...
Mas se fosse Meira quem Raelyn tivesse capturado, Mather estaria exatamente onde estava Jesse, por mais tolo e inconsequente que pudesse ser.
Raelyn gargalhou.
— Ah, meu caro marido, por que você pensaria que ela ainda está viva?
— Você não a teria matado tão facilmente.
Raelyn passou as pernas para frente, para se sentar com a postura ereta. Um sorriso se abriu em seu rosto, lento e indulgente, como se ela tivesse a intenção de saborear cada músculo que se ergueu.
— Você me conhece tão bem. Vamos jogar um jogo, então. O que eu faria se tivesse tomado um reino de meu marido inútil apenas para que a mãe desse marido inútil tentasse salvá-lo?
Mesmo antes de uma porta se abrir, Mather soube o que estava acontecendo.
Os soldados de Raelyn tinham descoberto que o rei aprisionado deles tinha mudado de lugar; tinham encontrado Brigitte nos aposentos vazios dela. E tinham levado a mulher até ali para ser morta por Raelyn.
Mather oscilou, os joelhos quase cedendo sob o corpo.
Jesse veria a mãe morrer. E não havia como salvá-la.
O peso disso intensificou a dor no peito de Mather. Ele pensou em Alysson, em uma poça de sangue manchando o vestido dela enquanto a mulher caía, inerte e sem vida, nos braços dele.
Phil estendeu o braço sobre o peito de Mather, que olhou para ele e soltou o ar. Phil sabia. Ele sabia, e estava ali, com olhos suplicantes, mas tristes.
— Seja forte — sussurrou Phil.
Mather voltou a cabeça para trás da estrutura da porta. Brigitte estava ao lado do altar, aparentando ser a dura oponente que era. Toda a atenção de Raelyn se concentrava em Jesse, que se virou para a mãe com os punhos trêmulos.
— O que eu faria, meu caro marido, já que você me conhece tão bem? — perguntou Raelyn. — Como eu recompensaria traidores? Será talvez assim? — Raelyn estendeu a mão, apontando para algo na entrada do salão, à esquerda de Jesse. Jesse se virou, mas Mather não conseguia enxergar nada de sua posição. O que quer que fosse, lançou um espasmo de horror no rosto de Jesse.
— O que você... — Jesse cambaleou para trás. — Por que, Raelyn?
— Troféus de nossa vitória. Os velhos modos de fazer as coisas estão mortos, e a Primavera chegou. E agora tenho mais um para acrescentar à coleção! Bem, mais quatro, na verdade.
Soldados entraram no salão, e antes que Mather tivesse tempo de fazer mais do que xingar consigo mesmo, ele e Phil foram puxados para o salão do trono atrás de Jesse.
Mather conseguia vê-los agora, os troféus de Raelyn. A visão fez o estômago dele se revirar. Banhados em sombras, três homens estavam de pé entre as pilastras nos fundos do salão, e de relance parecia que eram apenas soldados a postos fora do campo de visão.
Mas estavam longe de serem soldados. Estavam longe de estarem vivos.
Lanças mantinham os corpos erguidos. A cabeça do rei veraniano estava inclinada para o lado, o sangue seco em seu pescoço formava um colar espesso. O condutor de Verão tinha sido removido do pulso de Simon e estava na base da lança, um troféu ainda mais proeminente. Ao lado dele, o pescoço de Noam exibia um corte menor, a marca do chakram que Theron tinha lançado. E ao lado dele...
Mather enrijeceu o corpo. Garrigan estava de pé no fim da fileira, com o chakram de Meira ainda no peito.
— Não são maravilhosos? — Raelyn suspirou. — Um pouco mórbido, sim, mas é tão satisfatório...
— Raelyn... — A voz de Jesse sumiu quando ele por fim percebeu que Mather e Phil tinham sido descobertos. Phil manteve os olhos fixos no chão, com os ombros voltados para longe dos troféus, e embora Mather desejasse ter o bom senso de fazer o mesmo, não conseguia.
Ele não conhecia o rei veraniano e não se importava muito com a morte dele. Noam ele odiara, e não podia negar a satisfação que sentiu por saber que o homem estava morto. Mas ninguém merecia ser exibido daquela forma, ninguém exceto talvez Raelyn ou Angra. Mas principalmente não Garrigan.
Os olhos de Mather se fixaram no chakram no peito dele.
— Agora, quem será o primeiro? — Os sapatos de Raelyn soavam sobre o altar à medida que caminhava até Brigitte. — Você será um acréscimo maravilhoso para minha coleção, duquesa.
Jesse deu um passo ameaçador para a frente, mas um dos soldados o interceptou antes que conseguisse ir longe. Um soco no estômago que fez Jesse se curvar.
Phil sibilou em aviso, mas Mather já estava se movendo, dando um passo após o outro na direção dos corpos como se a visão o hipnotizasse.
— Pare — grunhiu um soldado, lançando o punho contra o estômago de Mather. Mather desviou, fazendo o papel do prisioneiro espantado conforme cambaleava para mais perto dos corpos.
A atenção de Raelyn se voltou para eles. Ela estava com os braços estendidos, os dedos esticados. Mather quase conseguia sentir o gosto da crueldade de Angra emanando da mulher.
O soldado marchou até Mather, que saltou o restante do caminho até Garrigan, disparando para as sombras entre as colunas, e arrancou o chakram do receptáculo ensanguentado. Tentou não pensar no rangido e na resistência da carne que se arrastou contra a lâmina. Usando a mesma energia que o alavancou até Garrigan, Mather virou para trás e cortou a bochecha do soldado, separando metade do maxilar dele do rosto.
— Não... — O grito de Raelyn foi cortado quando a velha rainha se chocou contra a mulher, lançando-a para fora do altar.
Brigitte se virou.
— FUJAM!
Mather disparou o chakram de Meira, cortando o braço e o peito dos dois soldados que seguravam Jesse. Phil se abaixou para segurar o rei ventralliano agora livre e o empurrou na direção das portas quando o chakram voltou para Mather. Mather o usou em combate corpo a corpo, cortando os inimigos para abrir caminho enquanto Phil conseguiu arrancar a adaga de um soldado e golpear para trás, agitando a mão em estocadas e golpes frenéticos. Jesse ainda olhava boquiaberto para a mãe.
— Vamos! — gritou Mather, e sacudiu Jesse com força. Raelyn poderia recuperar a compostura a qualquer momento...
Antes que Mather conseguisse piscar, Jesse tirou a máscara do rosto, partiu-a ao meio e deixou que as metades caíssem no piso de mármore manchado do salão.
— Que este seja um de seus troféus — sibilou Jesse, e então se virou, disparando para fora do salão. Mather puxou Phil consigo e os dois foram derrubando os guardas que restavam antes de se atirarem para o corredor e dispararem atrás de Jesse.
Segundos depois um grito cortou o ar. Jesse hesitou, perdendo o ritmo por tempo o bastante para que Mather o alcançasse, passasse o braço pelo dele e o empurrasse para a frente.
— Não deixe que o sacrifício dela seja em vão — disse Mather.
O rosto de Jesse ficou pálido.
— Vire... — Ele conseguiu dizer. — Tem uma entrada de criados...
Mather puxou Jesse para a esquerda, com Phil logo atrás, e os três dispararam para o ar frio da noite. Um caminho estreito ao longo de uma parede de pedra dava para a frente do palácio. Ali, os sons do golpe que tomava conta da cidade estavam mais altos — os gritos de inocentes ainda não subjugados ecoavam junto com os gritos de soldados, o estrondo de botas no chão e o clangor de armas se chocando.
Mather arrastou Jesse para o outro lado da parede antes de pressionar os dois contra ela, ocultos por um trecho de sombras. O pátio do palácio se estendia pela penumbra da noite e cinco soldados vigiando uma longa carruagem estavam perto de um aglomerado de tochas. A mente de Mather percorreu planos de fuga possíveis. Eles não podiam voltar para o palácio, não podiam atravessar o pátio sem serem vistos, aquilo era outra porta na parede, adiante? Para onde levava? Não importava; tinha de ser melhor do que...
Jesse enrijeceu o corpo.
— Aquela carruagem... não. Ela não teria...
Ele cambaleou para a frente, quase à luz das tochas, quando Mather o agarrou pelo braço.
— Não seja idiota...
Mas as palavras dele foram abafadas pelo eco de uma súbita explosão.
Uma sirene de aviso disparou do telhado do palácio, dando ordens sem palavras para os cinco soldados em torno da carruagem. Eles se esticaram nos postos de guarda, revelando a silhueta cinza da coroa ventralliana nos uniformes roxos, as máscaras prateadas reluzindo à luz da tocha.
Um assentiu para os outros dois.
— Vocês dois, montem guarda. Vamos descobrir o que está acontecendo.
Mather entrou mais para as sombras quando três dos guardas se separaram. Por sorte o grupo foi em direção à entrada principal do palácio, correndo para receber as ordens de dentro.
Assim que eles se foram, Jesse avançou.
— Você!
Os dois soldados restantes se sobressaltaram em estado de alerta. Quando viram Jesse, os olhares passaram de alerta para interessados.
Mather resmungou e saiu das sombras, Phil o seguiu.
E lá se vai a discrição.
Jesse apontou para a carruagem.
— Quem está aí dentro?
Um dos soldados deu um risinho.
— A rainha Raelyn nos informou que você poderia...
— Não temos tempo para isso. — Mather atirou o chakram, que cortou a coxa do soldado, deixando-o de joelhos, e voltou para Mather. O outro soldado sacou uma lâmina com a mão direita e Mather revidou cortando seu ombro direito. O soldado gritou, soltou a arma e Mather avançou, apontando o chakram ensanguentado em tom de ameaça.
— Quem. Está. Na. Carruagem?
Os soldados cederam. Por medo diante do ar impiedoso de Mather ou pelo olhar igualmente assustador que Jesse lançou.
— É veraniana...
Era tudo que Jesse precisava ouvir. Ele avançou, puxando as portas trancadas.
— Ceridwen! Cerie! Você está bem? Responda!
Foi preciso mais um corte do chakram para que os soldados entregassem as chaves, e com a corneta ainda berrando sobre eles, Jesse se apressou para abrir a carruagem. As portas se escancararam.
Mas ao brilhar do lado de dentro, a luz das tochas revelou apenas as paredes manchadas do mesmo tom de vinho que havia do lado de fora, e alguns travesseiros e colchas no chão.
Jesse se virou, pegou o soldado mais próximo e o atirou no chão da carruagem vazia.
— Onde ela está? — gritou Jesse.
— Yakim! — gritou o soldado. — Um yakimiano nos pagou por ela. Pagou para que trouxéssemos a carruagem de volta para que a rainha Raelyn não soubesse...
A boca de Jesse se abriu.
— Yakim? — Ele olhou para a parede de árvores que compunha o limite sul do complexo do palácio, como se pudesse ver o reino de Yakim dali.
— O quê? — Mather avançou. — Por que Yakim a levaria?
O soldado agitou as mãos de novo.
— Eu juro! Eles a levaram!
Quando Jesse se virou, Mather esperava que o rei estivesse lívido. Ou aqueles homens estavam mentindo ou tinham vendido Ceridwen para Yakim por nenhum motivo compreensível. No entanto, o rosto de Jesse estava leve, quase sorridente, e ele soltou o soldado e pegou o braço de Mather.
— Acho que sei aonde a teriam levado.
O soldado, ainda no chão da carruagem, se colocou de pé.
— Não posso permitir que você...
Mas Jesse se virou e desferiu um soco no queixo do homem. A cabeça dele foi arremessada para trás e o estalo assustador do crânio batendo no piso de madeira o deixou inconsciente.
Jesse se virou para o outro soldado e o enfiou dentro da carruagem. Ele tirou a arma do homem — um arco e uma aljava de flechas — antes de bater as portas e trancá-las. A carruagem oscilou, mas os gritos do soldado que estava consciente foram abafados pela madeira.
Jesse olhou de volta para Mather enquanto prendia a aljava às costas.
— Yakim é aliado de Verão. No comércio, ao menos... talvez tenham ouvido falar da tomada e tentado interceder.
— Mas interceder para que lado?
Jesse segurava distraidamente o arco. A esperança nos olhos dele estremeceu com dúvida.
— O rio. Yakim fica a uma curta viagem de barco daqui, e tem um cais reservado especificamente para uso da rainha. Estão lá. — Ele parou. — Só podem estar.
— Certo. — Mather não precisava de mais explicações. Aquela era a missão de Jesse, e quanto antes a completassem, mais cedo Mather poderia dar atenção à tensão nos músculos que o impelia a Paisly.
Mas Jesse soltou o ar calmamente.
— Não. Você já fez o bastante. Sua rainha precisa de você.
Embora tenha sentido uma descarga de alívio por ser liberado do dever, Mather não se moveu.
— Tem certeza?
Jesse assentiu.
— Sim. Vejo você no campo de refugiados. — Ele lançou um sorriso. — Obrigado.
Jesse disparou na direção da parede de árvores ao sul, desaparecendo nas sombras. Mather observou o rei ir embora, esperando por gritos de alarme de quaisquer soldados que pudessem estar à espera, mas houve apenas silêncio.
Voltou-se para Phil.
— Agora nós...
Cada músculo no corpo de Mather entrou em alerta e ele ergueu o chakram de Meira.
Phil, com o corpo rígido, estava de pé e uma espada formava um sulco ameaçador sobre seu pescoço. A mão que segurava a espada pertencia a Theron.
Todas as sensações foram drenadas de Mather quando soldados correram para cercá-los, disparando para fora pela entrada de criados. Mas não chegava a ver de fato nenhum dos homens, concentrado demais na malícia que irradiava do novo rei de Cordell.
Pela primeira vez, Mather sentiu-se grato por Meira estar tão longe daquilo tudo.
Os soldados formaram um círculo, encurralando Mather ao lado da carruagem enquanto mais homens tentavam libertar os companheiros aprisionados do lado de dentro. E quando algo se moveu à direita de Mather, ele enfim compreendeu tudo e percebeu cada burrice que tinha feito.
Tinham sido pegos. Estavam cercados. E não iriam para o calabouço desta vez, não com a loucura no olhar de Theron, e principalmente não com o sorriso de satisfação que Angra lhe lançava.
Angra parou, observando Mather primeiro, depois Phil. Theron mantinha a espada contra o pescoço de Phil como se ainda houvesse chance de Mather revidar, mas todos sabiam quem tinha vencido.
— Só vocês dois? — observou Angra, erguendo uma sobrancelha.
Mather trincou o maxilar e abaixou o chakram de Meira.
— Esperava mais?
A outra sobrancelha de Angra se ergueu para acompanhar a primeira. Ele sacudiu a cabeça e uma faísca iluminou o ar. Conforme soldados avançavam, Mather percebeu o que era.
A magia de Angra. Ele emitiu uma ordem para os homens com a mesma naturalidade com que Condutores Reais davam ordens a soldados durante a batalha, mas Mather também conseguiu sentir. Ele imaginou a magia serpenteando por cada pessoa ali presente, mergulhando para dentro daqueles que já haviam se entregado a Angra — enrolando-se na pele de Mather ao reconhecer alguém que ainda não tinha possuído.
A magia rastejou sobre o corpo de Mather, lançando imagens de poder, força e determinação imbatível. A magia sussurrou para ele, uma carícia suave que Mather lutou para afastar, fazendo um grande esforço contra o anseio de absorvê-la. Se era daquela forma que Angra atraía pessoas para o lado dele, Mather quase não conseguia culpá-las por se entregarem.
Dois dos soldados de Angra agarraram Mather e o chutaram para que ficasse de joelhos enquanto os outros dois lhes tomavam as armas. O chakram de Meira — droga, droga — a faca ventralliana e...
— Ora, isso é uma surpresa. — Angra pegou o condutor de Cordell do soldado que o encontrou. Ele olhou para Theron. — É sua, acredito.
Theron soltou Phil, empurrando-o ao chão. Ele pegou o condutor, a joia roxa no cabo ficando opaca na palma de sua mão. Mather, ainda preso como um homem que se curvava para o rei, estremeceu em desafio quando Theron se abaixou até ele.
— Acho que isto será muito mais útil em suas mãos. Não preciso mais dela. — Theron pressionou a ponta da lâmina contra a bochecha de Mather, mas não com força o bastante para cortar a pele.
Mather se remexeu, mas os soldados o mantiveram preso. A ameaça de Theron não fez sentido — ele deixou que Mather ficasse com o condutor, a adaga?
Theron girou a lâmina. Sangue pingou do rosto de Mather em uma gota quente, e ele imaginou o sangue drenando seu ódio, liberando-o para que se empoçasse aos pés de Theron.
Um sorriso, então Theron afastou a lâmina para se aproximar ainda mais de Mather, levando a boca ao ouvido dele.
— E sempre que a vir, quero que pense nela comigo. Quero que saiba que quando eu vencer esta guerra, o farei sem esta magia fraca. Quando isso acabar, e Meira for minha, não haverá nada que você pudesse ter feito para me impedir.
Mather deu uma cabeçada na têmpora de Theron. O rei cordelliano gritou, mas quando se recuperou, fez menção de avançar de novo, com a lâmina do condutor erguida bem no alto.
Angra intercedeu com um toque no braço de Theron.
— Basta. Podemos usá-lo.
Mather grunhiu. Theron parecia igualmente furioso, mas recuou, observando Angra.
— Esse foi meu erro da última vez — disse Angra a Theron, mas o tom da voz deixava claro que as palavras pretendiam agir como uma adaga na pele de Mather tanto quanto o condutor de Theron. — Deixei que governantes fracos vivessem embora tivesse a chave para um poder maior do que qualquer coisa que eles pudessem imaginar. Desta vez, vou até o fim, até sobrarem apenas aqueles que irão trazer um mundo novo, desperto. E esses garotos vão me ajudar a obrigar a rainha de Inverno a escolher um lado, principalmente ele.
Mather respirava com dificuldade.
— Nada que possa fazer vai me obrigar a ajudá-lo.
Angra, ainda encarando Theron, sorriu. Então ele abaixou a cabeça para Mather.
— E o que o faz pensar que estava falando de você?
A compreensão destruiu o autocontrole que restava a Mather.
Os olhos dele se voltaram para Phil.
— Não — disse Mather, chiando, então gritou. — Não toque nele!
A expressão de Phil se desfez. Ele cambaleou, tentando ficar de pé, mas os homens de Angra avançaram primeiro.
Mather se contorceu contra os soldados e conseguiu ficar sobre um dos pés a fim de impulsionar o corpo. Os homens logo o derrubaram no chão e prenderam seus braços às costas; a única coisa que ele podia ver eram as rodas da carruagem.
Ele não conseguiu fazer nada quando Phil começou a gritar.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!