1 de fevereiro de 2019

Capítulo 5

Meira

RARES OLHA DE volta para mim franzindo a testa quando corro para a entrada. Não dou dois passos antes que uma força me coloque de joelhos.
Achou que podia escapar de mim? Debocha Angra. Jamais escapou de mim, Alteza, e jamais escapará.
Minha visão fica distorcida, o alaranjado tremeluzente da caverna ondula e dá espaço à escuridão total. Luto contra ela, vejo relances de Rares e Alin correndo de volta para mim, intercalados por Angra se materializando na escuridão de minha mente, seu rosto contorcido em um grunhido.
Em meio ao terror, um pensamento esclarecedor surge da explicação anterior de Rares: “Ser parte da mesma magia permite uma conexão mental. Tocar outro condutor intensifica a reação..”
Ignoro tudo ao redor — Rares e Alin gritando, a magia de Rares formigando em minha pele — e vejo apenas a imagem de Angra na mente. Ele está ali, inteiro, me observando das sombras.
Sem considerar as implicações, estendo a mão e agarro o pulso de Angra.
O choque é nítido no rosto dele. Talvez ele não esteja aqui fisicamente, mas está em minha mente, e eu o estou tocando.
Uso essa pequena oportunidade para vasculhar a mente dele. Quero saber tantas coisas — se pegou meus amigos; o que ele obrigou Cordell a fazer com Inverno; qual é o grande plano dele...
Sinto a última pergunta se conectar, e todas as outras sensações se dissipam ao meu redor.
Um Angra jovem está agachado nos corredores do palácio de Abril, com a cabeça de uma mulher no colo, o sangue dela mancha a obsidiana.
Já vi isso antes — ou melhor, vi a lembrança que Theron tinha disso, uma das coisas que Angra compartilhou com ele enquanto era prisioneiro em Primavera.
No colo de Angra, os lábios da mãe dele estremecem.
— Por favor — geme ela. — Por favor, impeça-o.
A cena muda e vejo um Angra mais velho, curvado em uma das universidades de Yakim, mergulhado em livros, então de pé em Verão, implorando ao rei deles que o ensine sobre magia, qualquer coisa que possa usar para destronar o pai. Como isso aconteceu há muito tempo, apenas os condutores menores existem, e para cada condutor que Angra usa, o pai dele tem um à altura.
Mas os reinos do mundo não têm tempo de ajudar um príncipe desesperado de Primavera quando as terras deles são assoladas pela Ruína.
A solução para a Ruína surge na forma dos Condutores Reais. Angra vê o pai reunir cada pequeno condutor de Primavera e retornar do abismo com um cajado de poder supremo.
Angra tenta combater o cajado. Sangue e socos e magia pelos ares, e a cada golpe ele rasteja para longe parecendo um amontoado de sangue. O pai de Angra é poderoso demais agora — mas é orgulhoso e burro e, certa noite, Angra o engana para que solte o cajado. Um momento é tudo de que precisa.
Mas embora caído e arrasado no chão do salão do trono, o pai de Angra ainda está vivo e Angra não pode usar o cajado até que ele esteja morto. Angra não quer matar o pai — não, ele quer que o pai sofra primeiro. Mas como, se Angra não tem magia própria?
A Ruína. Os outros Condutores Reais a enfraqueceram, mas ela está forte o bastante para infectar um homem triste e arrasado.
Angra mantém o pai vivo a princípio. Mas em breve a Ruína precisará alimentar-se de magia e então Angra mata o pai em um banho de sangue que é uma demonstração gloriosa de vingança.
O cajado se conecta a Angra e a Ruína se une a ele. Angra se regozija com o poder que ele e a Ruína acumulam ao longo de décadas de controle.
A partir disso outra imagem se desdobra — o futuro que Angra quer. Um futuro em que ele tenha o controle, em que todos que se opuserem a ele se acovardem, como o pai dele se acovardou, escravos de suas emoções mais sombrias. Angra tem certeza de que será medo. Apenas medo. Ele fez isso no próprio reino, e fará isso pelo mundo inteiro.
Ele quer transformar Primoria inteira em Primavera.
Ar frio preenche meus pulmões.
Estou agachada no penhasco do lado de fora da entrada da caverna, os dedos enterrados na beirada. Rares e Alin estão ajoelhados de cada lado, com as mãos nos meus ombros. Luto violentamente para respirar.
— Meira — diz Rares. — Desculpe. Retirei a proteção cedo demais...
— Não. — Sacudo a cabeça, incapaz de controlar a respiração. — Eu... fico feliz por isso.
Rares me encara, incrédulo. Fico ali, buscando uma explicação, até que percebo que não preciso explicar nada.
Em vez disso, me viro na direção dele e aperto a mão de Rares, desejando que ele se abra e veja o que vi.
Rares fica sentado ali, e só consigo decifrar de sua expressão sombria um terror antigo. Rares vira a mão e aperta meus dedos, depois volta o olhar para Alin.
— Fique a postos — diz ele. — Se alguém se aproximar... qualquer pessoa... me avise imediatamente.
Rares se levanta com um salto e dispara para baixo em uma trilha sinuosa sulcada na montanha. Fico de pé com dificuldade enquanto Alin retorna à caverna, a muralha se fechando atrás dele com um sopro de ar.
— Espere! Vamos ficar aqui? — Corro atrás de Rares. — Agora já sabemos o que Angra quer, precisamos avisar a todos...
— Com que propósito? — Rares não para, nos forçando a chegar mais perto do leito do vale. — Ainda pretende enfrentá-lo, não é? Isso só faz com que nosso treinamento seja mais urgente. Agora que sabemos o que Angra fará pelo mundo, e que ele sabe que você sabe, você será um alvo ainda maior depois que ressurgir. — Agora Rares para, virando-se para me encarar. — O que torna ainda mais imperativo que você saia daqui o mais preparada possível. Não é?
Fecho os lábios com força. As batidas de meu coração parecem fazer um buraco no peito, e embora minha reação inicial seja gritar com Rares, me obrigo a processar o que ele disse, cada palavra.
— Sim — admito. Mas odeio isso, e a mim, e a ele, tudo isso, tudo que impede que eu possa ajudar as pessoas com quem me importo. Mas isso os ajudará.
Se não ajudar, Angra vai me matar, e qualquer chance de livrar o mundo da magia dele desaparecerá. Angra vai espalhar o controle dele por cada reino em Primoria como já começou a fazer em Ventralli. Eu vi como aquele reino começou a mudar depois de uma única noite sob domínio de Angra. Quanto tempo levaria para conquistar o mundo?
Passo por Rares em disparada, com passos pesados. Abaixo está o castelo, com estilo semelhante ao do castelo Langlais de Yakim. Pedras cinzentas estão aninhadas uma ao lado da outra, sua superfície lisa graças aos séculos de existência; se o ângulo da lua for propício, janelas de vidro refletem seus raios. No canto superior direito da muralha, uma bandeira oscila, o fundo avermelhado exibe uma montanha sob um raio de luz.
O símbolo da Ordem dos Ilustres.
— Por que vocês se intitulam a Ordem dos Ilustres? — pergunto.
— Lustrar significa purificar por sacrifício — explica Rares. — Nós achávamos que éramos nobres nesse sentido, por estarmos dispostos a sacrificar a magia para sustentar a pureza do nosso reino.
Cruzo os braços.
— Sacrifício — repito. Não consegui mais dizer essa palavra desde que descobri que é isso que a magia requer. Mas, ao dizê-la agora, ao sentir cada letra sair aos tropeços da boca... não sinto nada. Mas preciso sentir, não é? Precisa ser um sacrifício voluntário. Precisa ser algo que eu quero.
Mas só consigo pensar em algumas coisas que quero de verdade. Estar de volta a Inverno, aconchegada com Mather e Sir e Nessa e todos que amo; brandir chakram contra alguma coisa diversas vezes até que meu coração não doa mais.
Rares para subitamente. Consigo ver os olhos dele sobre mim ao luar, e a suavidade neles parece quase empatia.
— O desejo não é fraqueza — diz ele. O portão de ferro sólido na muralha começa a ranger e se abrir. — O desejo é uma motivação. Uma meta. O que seríamos sem desejo? Vazios, eu acho.
A boca de Rares permanece aberta enquanto ele me observa, vendo através de mim.
— Sei que foi uma viagem longa. Mas... acho que vai precisar falar com ela antes de descansar.
Franzo a testa.
— Ela?
Assim que faço a pergunta, uma porta se fecha dentro do complexo. Rares me chama.
As paredes cercam um complexo iluminado por lanternas. Estábulos e um ringue de treinamento ocupam a direita, um jardim preenche a esquerda — e diante de nós, correndo para fora do castelo, vem uma mulher da idade de Rares, com um longo cabelo preto preso em dezenas de tranças que oscilam e se chocam, miçangas pendendo das pontas e penas oscilando no centro. Ela usa um robe cor de rubi, com o decote e os punhos adornados com espirais douradas. Por baixo há uma saia com uma fenda nos joelhos, por onde se vê de relance botas marrons e calça bege que aparecem ainda mais quando ela segura o robe para correr mais rápido.
— Você chegou! — grita ela. Antes que eu possa protestar, a mulher me abraça, me esmagando contra o peito. Ela tem cheiro de tecido desgastado que secou ao sol, de canela e tomilho e outras ervas menos familiares. E quando recua, os olhos dela brilham e não consigo conter um sorriso. Algo a respeito dela reúne essas características. Algo antigo e brilhante.
Rares envolve o pescoço dela em um abraço.
— Uma bela primeira impressão, querida.
— Ah, eu não assustei você, assustei? — pergunta ela, com os olhos suplicantes.
Faço que não com a cabeça.
— Você é de longe a coisa menos assustadora que encontro há um tempo.
Ela gargalha e dá um beijo em Rares. Depois de um momento bastante longo e esquisito em que me pergunto se eu deveria me ausentar enquanto eles se reencontram, Rares se vira para mim.
— Desculpe, coração... Meira, esta é minha mulher, Oana.
Oana puxa a manga larga do robe até que envolva a mão dela e só então a oferece para mim. Encaro a mão, o tecido cobrindo-lhe a pele.
Ela se espanta.
— É uma formalidade em Paisly. Pode ser bastante intrusivo se alguma das partes não for capaz de bloquear a mente. Se preferir, não precisamos...
— Não, tudo bem. — Coloco a mão na dela. — Perfeito, na verdade.
Oana deixa o aperto de mão se estender por mais tempo que o normal, os olhos dela percorrendo cada trecho de meu rosto.
— Você é linda, querida.
Eu me desvencilho dela.
— Hã... obrigada.
— Agora você está assustando a garota — diz Rares, rindo.
Oana dá um tapa no marido.
— Besteira... toda mulher gosta de ouvir o quanto é linda. Achei que depois de séculos casado você saberia disso.
Olho boquiaberta para eles. Devo ter ouvido errado.
— Não achou que Angra fosse o único com o dom da longevidade, certo? — pergunta Rares.
Observo o rosto dele, e então o de Oana.
— Vocês não podem ter mais de cinquenta anos.
Rares dá um risinho.
— Sigo um regime de beleza rigoroso.
Quando não respondo, ele suspira.
— Magia, em qualquer das formas mais poderosas, a Ruína ou ser um condutor, preserva o hospedeiro. A morte ainda pode encontrar aqueles que são especialmente inconsequentes, e sim, nós envelhecemos, mas bem devagar. Quase imperceptivelmente. O que foi bem divertido nos primeiros séculos, mas...
— Mas eu envelheço normalmente — exclamo.
— Faz pouco tempo que você acessou seu poder. Sua magia estava dormente até que tivesse consciência dela.
Fico mais uma vez maravilhada com a facilidade com que Rares oferece tudo isso. Sir teria me feito brigar com ele durante meses para obter esse tipo de informação.
Mas estou muda de choque. Rares é como Angra. E esse também será meu destino, agora que despertei minha magia do estado dormente em que esteve durante minha infância. Embora a ideia de jamais morrer seja um alívio glorioso, as consequências também me atingem.
Eu poderia ver todos que amo morrerem. Poderia cair nas mãos de Angra e ele me torturaria para sempre com qualquer que seja o destino terrível que desejar.
Rares inclina a cabeça sem tirar os olhos de mim.
— Por isso, antes de continuarmos com qualquer treinamento, insisto que fale com Oana. Nem mesmo o melhor professor do mundo consegue fazer uma lição ser absorvida se você não estiver pronta. Vá com ela. Ela ajudará você. Considere a lição número três, e, de verdade, pense nela como uma das mais valiosas.
Sinto um aperto no peito. Cautela.
— Sobre o que vamos conversar? Magia?
Oana sacode a cabeça.
— Não, querida. Sobre você.
Eu. Vamos desperdiçar tempo falando sobre mim quando...
Trinco o maxilar para evitar olhar para a parede e, além dela, para a guerra que nos aguarda. Há tantas perguntas, tanto a aprender — mas o que eu esperava? Passar algumas horas conversando com Rares e sair dali uma rainha completa, forte, capaz de liderar uma ofensiva vitoriosa contra Angra? Isso seria fácil demais.
E sei o que acontece quando rainhas invernianas fazem as coisas às pressas.
Respiro fundo e concordo. Preciso fazer isso. Mather manterá todos a salvo e meus aliados manterão Angra afastado enquanto eu mesma me torno mais capaz, mais habilidosa em controlar minha magia. Assim, ao enfrentar Angra, poderei obter as duas últimas chaves derramando o mínimo de sangue possível, e impedirei essa guerra antes que tenha a chance de ceifar mais vidas.
Oana me oferece o braço, e eu aceito. Ela se certifica de envolver a mão na manga antes de apertar forte meus dedos e então me leva por uma trilha na direção do castelo.
— Fico feliz por você estar aqui, Meira — diz Oana. — Não temos muitos visitantes.
Parece que ela é grata por mais do que minha iminente destruição da magia. A forma como me olha me faz sentir... apreciada. Valorizada.
Quero pressioná-la para obter mais informações, mas Oana gesticula com a mão para as portas e o castelo se abre para nós.
Dentro, o frio das pedras alivia parte da tensão em meus músculos. Candelabros pendem a cada poucos passos, projetando uma luz amarelo-esbranquiçada em uma decoração tão calorosa e selvagem quanto o estilo de Oana — toques de castanho-escuro e mobília de madeira confortável.
Salas se abrem a partir desse corredor, e Oana para diante de uma, o estalar de nossos sapatos cessando com um silêncio repentino.
Percebo então — não há sons aqui dentro. Nenhum criado se apressando com afazeres; nenhum soldado marchando em treinamento.
Oana sorri para mim.
— Não temos muita serventia para os criados em Paisly. — Ela acena na direção do candelabro mais próximo, e, enquanto observo, Oana usa magia para fazer a chama das velas diminuir e então ganhar vida.
Meu choque não é tão intenso quanto foi antes. Mas fica maior quando vejo os olhos de Oana. Não perguntei sobre a falta de criados.
Oana hesita antes de tocar a maçaneta e ergue o olhar sob os cílios pretos e espessos.
— Rares só consegue bloquear seus pensamentos quando está com você, querida. Ninguém pode invadi-la pela barreira de Paisly estando longe, mas de perto...
Meus olhos se arregalam quando percebo o que ela quis dizer. Isso é parte da lição três? Oana vasculhando minha mente?
Pela neve, espero que não.
Oana abre a porta. Cinza e frio, o quarto tem uma cama de colchão irregular com uma grossa colcha violeta, um baú encostado à parede e uma mesa amassada sobre a qual há pratos que me deixam fraca de fome.
— Presumi que preferiria um quarto sem lareira. O frio pode incomodar os outros, mas para você é aconchegante, certo? — Oana enruga o nariz com um sorriso sábio. — Coma, por favor.
Não preciso de mais incentivos. Duas cadeiras estão à mesa, e quando me sento em uma delas, temo jamais conseguir me levantar. Meus braços tremem quando os estendo para o prato mais próximo, a fome, o estresse e o cansaço me percorrem.
Oana puxa a outra cadeira, mas não se senta, fica de pé diante dela, de mim, enquanto tomo um ensopado grosso de uma caneca de madeira rústica.
Limpo a boca com o dorso da mão.
— Então... o que é essa lição?
Oana sorri suavemente, os ombros se curvando para frente.
— Só vai conseguir controlar sua magia se primeiro tiver controle sobre si mesma. Como tenho certeza de que aprendeu, a magia está ligada às suas emoções. Se elas estiverem instáveis, sua magia será instável também. Vou ajudá-la a alcançar um estado de aceitação e, sobretudo de prontidão para receber o treinamento de Rares.
Era isso que eu temia, penso, então encolho o corpo. Ela ouve esse pensamento e novamente lança aquele olhar, como se eu fosse uma pepita de ouro minerada das montanhas Klaryn.
— Espero, por meio disso, que consiga ver o quanto você é incrível — sussurra Oana.
O olhar, as palavras de Oana — subitamente tudo isso parece criar uma corda em volta de meu pescoço. Eu sei que estou aqui para salvá-los da terrível existência de serem todo-poderosos e, aparentemente, imortais; eu sei que estou aqui para que possam me contar sobre magia e o abismo e me ajudar a morrer.
Não basta? Ela precisa me fazer sentir ainda mais como um sacrifício, intocável e desumanizada? Precisamos mesmo vasculhar o que tenho por dentro?
Oana dá um passo adiante.
— Não foi por isso que...
Solto a caneca na mesa e me curvo para frente, com as mãos sobre a cabeça.
— Pare.
Ela não se move.
— Não se segure, querida. Por que isso é algo que teme?
Contenho um riso com as mãos, é metade gargalhada, metade uma súplica silenciosa.
Tenho medo de quebrar.
Tenho mantido cada gota sobressalente de força atrás dessa porta em minha mente, aquela que contém todas as emoções que me enfraquecem. Manter essa porta fechada foi a única coisa entre um colapso nervoso e eu, mas estou cansada, a porta está ficando mais pesada e Oana não vai embora.
Mas essa lição é sobre mim. Não podemos seguir para as próximas, aquelas que me ajudarão a controlar minha magia, até confrontarmos esta. Maldito seja Rares, mas sei que ele está certo. Não posso enfrentar Angra se metade da minha força for sempre empregada para me conter.
Então abro a porta e deixo que tudo saia aos tropeços.
Jamais deveria ter confiado meu reino a Noam. Deveria ter visto a queda de Theron, mas o afastei de minha vida — e por mais que devesse, não me arrependo. Não consigo me lembrar de como era amar Theron sem complicações.
Lembro-me de amar Mather. Minhas lembranças dele são nítidas e claras, penso em como — independentemente do que tenha acontecido, de quem tenha morrido, dos males que enfrentamos — ele sempre esteve no pano de fundo da minha vida.
Nessa — ela cresceu em uma jaula de Angra; o quanto estaria apavorada por estar em uma jaula novamente sob o controle dele? Eu não tinha direito algum de abandonar Nessa ou Conall, especialmente depois de... Garrigan. Ele cantava para Nessa dormir quando ela acordava gritando dos pesadelos. Ele me protegeu com a mesma devoção que mostrou à irmã. Não merecia morrer.
Mas nada neste mundo acontece de acordo com o merecimento das pessoas. Coisas horríveis acontecem sem causa ou explicação, deixando seu rastro de horror e arrebatamento. As pessoas tomam decisões sem pensar nos resultados — simplesmente agem e disparam rumo à escuridão, sem jamais admitir seus erros, sem jamais pedir desculpas por me fazer ser morta.
Hannah. Hannah.
Pela neve, eu a odeio tanto, e odeio acima de tudo o fato de ela ter me feito odiá-la. Ela era minha mãe — deveria ter me amado. Deveria ter feito centenas de outras coisas que não fez, e agora ela é apenas um dos muitos pedaços do meu coração que doem quando toco.
Oana se ajoelha diante de mim.
— Meira, querida...
Mas estou perdida demais agora. Acho que não estou mais na cadeira, mas sim enroscada no chão com as mãos sobre a cabeça e lágrimas descendo pelo rosto.
E agora sei exatamente como será o mundo se eu fracassar. Eu suspeitava do tipo de mal que Angra libertaria, e lembro bem das ruas de Abril, de como estavam completamente vazias, todos acovardados exceto os soldados, que empunhavam poder como cães acorrentados aos pés de seus mestres. Preciso impedir esse cenário, mas não quero fazer isso. Não quero fazer isso. Deve ser um sacrifício voluntário, entregar meu condutor para a fonte de magia. Mas será tudo em vão, porque meu último pensamento ao morrer será Não, Hannah escolheu isto.
Quero viver. Quero voltar para Inverno e ficar velha e... Não quero ser usada.
Oana segura meu queixo e ergue minha cabeça para poder olhar em meus olhos. Ela deve estar me bloqueando, porque toca minha pele, passa os dedos por minhas bochechas.
— Não queremos usar você — declara ela, com rispidez, apesar das lágrimas nos olhos. — Olhamos para você dessa forma porque é a primeira criança que temos em casa em mais de dois mil anos. Nós envelhecemos lentamente, mas nossos corpos só conseguem abrigar um tipo de força, e, portanto, a magia torna impossível a concepção. Então olhamos para você assim porque Rares e eu queremos um filho há muito tempo e porque nos deixa arrasados aquilo que precisamos ajudar você a fazer.
Meu coração dá um salto. A magia estraga isso também? Outro destino decidido por mim.
Oana força um sorriso dolorido.
— Nós olhamos para você dessa forma porque sentimos muito, Meira. Nos perdoe. Você merece uma vida melhor do que esta.
Hannah jamais pediu desculpas. Não tenho certeza se ela algum dia me viu como mais do que um receptáculo para realizar as coisas a que deu início. Mesmo agora, faz tanto tempo desde que falei com ela. Parte de mim escolheu não falar com ela, porque sei o que sou para Hannah. Não uma filha... um condutor.
Sir jamais pediu desculpas. Era meu dever e eu deveria fazer o que fosse necessário. Uma vez que eu sempre quis ajudar, não tinha direito de reclamar quando demandada.
Um receptáculo não merece um pedido de desculpas; um soldado cumprindo ordens também não.
Mas Oana, alguém que mal conheço, diz coisas que me fazem sentir, pela primeira vez em anos, como se eu fosse alguém que tem escolha em meio aos eventos terríveis que me cercam. Como alguém que importa.
Eu me agarro às suas vestes pesadas de lã, enterrando o rosto na articulação de seu braço e despejo todas as emoções que tenho segurado. Enquanto isso, Oana me segura, e sinto, em algum lugar no fundo do peito, as rachaduras começando a ser preenchidas — o formigamento leve e fresco do processo de cura.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!