1 de fevereiro de 2019

Capítulo 4

Meira

MEU PRIMEIRO PENSAMENTO ao acordar é: Estou realmente cansada de desmaiar por causa de magia.
Uma pequena chama se acende e se apaga à minha esquerda, a fumaça permeia o ar. Obrigo meus olhos a se abrirem, grata por encontrar a suportável escuridão da noite em vez de uma explosão de luz do sol, minha cabeça lateja na cadência dos segundos que passam.
— Você pode se curar, sabe — diz a voz de Rares.
Viro para o lado, pressionando os dedos na testa em uma tentativa de afastar os últimos resquícios da dor. Um círculo de árvores cerca nossa clareira, folhagem densa pende de galhos baixos. Rares não ergue o olhar do trabalho; está passando uma das facas de cozinha que roubei em uma pedra de amolar.
— Se eu soubesse controlar minha magia tão bem assim, não teria seguido você — disparo. — E o que fez comigo? Como fez?
Rares testa a lâmina contra o polegar e suspira.
— Esperaria facas malcuidadas na cozinha de um pobretão, mas na do rei de Ventralli? Isso é uma desgraça.
Minha expressão de raiva se dissipa. Rares murmura que nem mesmo galinhas merecem morrer com tais lâminas.
No momento em que inspiro para gritar minhas perguntas contra ele, Rares ergue o rosto.
— Talvez eu deva ensinar paciência a você primeiro.
Fico de joelhos, lutando contra uma onda de tontura. Estou tão perto da fogueira que as faíscas liberadas pelos galhos crepitantes fazem cócegas em minha pele.
— Como você tem magia? — exijo saber, com a voz inexpressiva. — E como é capaz de usá-la em mim?
Rares apoia os cotovelos nos joelhos, brincando com a faca enquanto me avalia.
— Sua preocupação é que eu não me explique e que, mesmo se o fizer, não conte tudo, deixando você com informações incompletas. Você tem medo de ter cometido um erro ao confiar em mim, mas um medo ainda maior de não ter me encontrado mais cedo. Falei tudo, coração?
— Eu...
— E embora eu possa assegurar que não sou nada como seus mentores anteriores, farei um favor: agora que estamos em segurança, ou pelo menos tão seguros quanto possível, contarei tudo, como prometi. Cada detalhe, cada motivo, cada estremecer de cortinas que nos trouxe a este momento. Bem, não todas as cortinas... algumas eram muito extravagantes.
— Mas... por quê?
— Quase sempre são as borlas.
— Não — resmungo. — Por que me contaria tudo?
Ele pisca.
— Por que não?
Desabo no chão. Simples assim? Estou acostumada com discussões — acostumada a implorar para que Sir me explique as coisas ou para que Hannah conte mais.
Rares volta a amolar a faca, e depois de tomar fôlego, ele começa, com a voz distante, como se não se ouvisse.
— Sei que sua mãe contou a você como a Ruína assolou o mundo da primeira vez. Foi um resíduo de pessoas utilizando a magia para o mal, e os monarcas de Primoria a combateram coletando os condutores dos cidadãos por meio de um expurgo violento.
Preciso morder a língua para evitar perguntar como ele sabe o que Hannah me contou. Se eu falar, tenho medo de o quão gratuitamente Rares está me dando essa informação.
— Milhares morreram — continua ele. — Mais ainda foram possuídos pela Ruína, perderam-se para os desejos do mal. Foi uma época de desespero, e que levou os monarcas do mundo a criarem os Condutores Reais na esperança de que uma quantidade tão grande de magia pudesse limpar o mundo da Ruína... e limpou, por um tempo. Um para cada reino, quatro ligados a herdeiras mulheres, quatro a herdeiros homens. Paisly não foi diferente, exceto por nossa recusa em nos curvarmos ao poder do monarca com a mesma facilidade do restante do mundo. Vimos o início de um ciclo violento. Vimos a magia ainda em uso, grandes estoques dela conectados a oito pessoas que poderiam se tornar sedentas por poder. Como confiar que esses indivíduos não se corromperiam e reintroduziriam a Ruína a nosso mundo? Não havia lugar para magia aqui... o preço dela era alto demais. Formamos um grupo rebelde, a Ordem dos Ilustres, que enfrentou nossa rainha. — Rares faz uma pausa e ergue o olhar da faca para voltá-lo a mim. — E nossa rebelião foi bem-sucedida.
— Paisly não tem rainha? — Mal ouço a pergunta preencher o espaço entre nós.
— Temos uma regente que faz o papel de rainha sempre que tal figura é necessária, mas Paisly não tem rainha, ou Condutor Real. Na noite da rebelião, a rainha de Paisly se recusou a negociar — continua Rares. — Ela viu aquilo como uma ameaça contra o reino, não a salvação que alegávamos. E na batalha, se sacrificou pelo reino dela, momentos depois que a Ordem quebrou seu Condutor Real, seu escudo.
— O quê? — digo, ofegante, cruzando os braços sobre o tronco como se me segurar fosse a única forma de me certificar de que as palavras dele fossem reais, não algum conto de fadas, daqueles que se conta em acampamentos.
Os olhos escuros de Rares permanecem fixos nos meus.
— Ninguém percebeu o que tínhamos feito até que fosse tarde demais. Todos em Paisly, desde os que apoiavam a rainha até os membros da Ordem, se imbuíram de magia. Todos nos tornamos condutores, exatamente como sua mãe queria para Inverno.
O choque me faz oscilar para a frente.
— Como você sabe disso?
Mas Rares continua.
— Os apoiadores da rainha se tornaram minoria depois da rebelião. A Ordem tomou o poder e tem governado Paisly desde então. E ainda acreditamos que a magia não tem lugar neste mundo, por isso mantivemos nosso reino o mais escondido possível. É claro que interações ocasionais com outros reinos são inevitáveis, mas é incrível o que se pode esconder quando ninguém sabe o que procurar. Principalmente quando seu reino fica em uma cadeia de montanhas. — Rares pisca um olho. — É muito fácil esconder coisas em montanhas.
Fico boquiaberta. O que Hannah queria que acontecesse em Inverno já aconteceu em outro reino — a magia se espalhou para cada cidadão quando o condutor deles se quebrou e a rainha se sacrificou. Uma terra inteira de pessoas como eu, elas mesmas sendo condutores de uma magia que jamais quiseram. Não me surpreende Rares ter dito que Paisly está a salvo de Angra.
Inclino o corpo para a frente, animada.
— Então você pode impedir Angra. Paisly pode reunir um exército e derrotá-lo em questão de...
O olhar de Rares me cala.
— Embora cada paisliano seja um condutor, não restaram muitos de nós depois da guerra. Por isso assumimos esse tipo de abordagem: por toda Primoria, nossos membros estão esperando por um possuidor de condutor cujas metas se alinhem com as nossas. A Ordem está montando uma defesa, mas as forças de Angra incluem os exércitos de pelo menos três reinos agora, cada soldado imbuído da magia dele. Poderíamos muito bem detê-lo nas montanhas de Paisly, mas não estamos em número suficiente para derrotar a ameaça sozinhos. Mas nós a ajudaremos. A Ordem pode até acreditar que a magia não tem lugar em Primoria, mas as circunstâncias nos tornaram especialistas nela. Ensinaremos você a controlar a magia para que possa usá-la da forma como planeja, para pegar as outras chaves do abismo de Angra e destruir toda a magia.
Meu coração quase salta para fora do peito.
— Você sabe sobre isso também?
Rares sorri com tristeza, o fogo refletindo um brilho amarelo nos olhos escuros dele.
— Ser parte da mesma magia permite uma conexão mental. Tocar outro condutor intensifica a reação... você já vivenciou isso pelo contato pele a pele com outros possuidores de condutores. Mas condutores realmente fortes podem acessar pensamentos e memórias sem toque físico, até que o indivíduo seja capaz de confiar na própria magia o suficiente para usá-la o tempo todo, para bloquear essas intrusões. Aliás, de nada, por eu ter tirado Angra de sua mente. Algum dia você vai precisar fazer isso sozinha, mas por enquanto, ele não consegue acessar seus pensamentos.
Toco minha têmpora.
— Espere... Angra conseguia ouvir meus pensamentos antes que eu soubesse que ele estava vivo?
— Sim.
Levo as mãos à cabeça e sou tomada por uma náusea que me derruba para a frente. Ele poderia ter ouvido qualquer coisa — todos os meus planos, todas as minhas frágeis tentativas de impedi-lo. Não tinha nada a ver com ele ter me tocado. Angra poderia ter falado comigo sempre que quisesse. Com quem mais poderia fazer isso?
Mas eu sei. Ele fez isso com Theron — poderia fazer isso com qualquer um que não estivesse ativamente protegido da Ruína por magia pura de condutor.
Olho com raiva para as chamas à minha frente.
— Então você o afugentou por mim? Mas como? Não sou paisliana, e a magia de Paisly só deveria afetar seu povo.
— As regras da magia são diferentes para condutores humanos — diz Rares. — Eu não poderia afetar um inverniano normal, mas você está cheia da mesma magia que percorre meu corpo. Estamos ligados, e tenho certeza de que você também já descobriu que está conectada a outros possuidores de condutor. Embora os Condutores Reais tenham sido criados para obedecer apenas a  certas linhagens, a magia que possuem no fundo é a mesma, e, sendo assim, todos os possuidores de condutores estão conectados. Sinto muito pela perda de consciência, mas sua resistência aumentará. Você só ficou apagada por umas três horas, não foi tempo o bastante nem para que eu a carregasse para fora de Ventralli.
Olho para Rares boquiaberta. Desperdicei três horas dormindo.
Qualquer coisa poderia ter acontecido durante esse tempo. Mather e os invernianos poderiam ter saído com segurança de Rintiero — ou tudo que temo poderia ter acontecido. E não só isso, mas se vamos para Paisly, a viagem levará semanas — cada momento que desperdiçamos é outro momento que a presença de Angra no mundo se expande.
E eu nem sequer sei qual é o plano dele. Não sei o que pretende fazer a seguir, quem matará, que reino quer destruir primeiro...
Um gosto metálico toma conta de minha garganta por conta da ansiedade. Fica impossível engolir, respirar ou fazer qualquer coisa a não ser encarar Rares conforme a dor latejante na minha cabeça retorna.
Não podemos perder tempo.
— Você disse que me ajudaria a pegar as chaves dele — me forço a dizer. — Com todo o conhecimento da Ordem, você deve ter perguntado à sua magia como destruí-la também. E a resposta deve ter sido a mesma que você me deu, certo? Sacrificando um condutor e devolvendo-o ao abismo?
Rares assente, devagar.
— E você vai me ajudar a pegar as chaves de Angra — repito. — Vai me ajudar a destruir toda a magia. Então...
Lembranças surgem em flashes na minha mente. O abismo e seus dedos elétricos e destruidores, possuidores de uma magia que só pode habitar objetos. Quando as pessoas tentaram deixar que essa magia as tocasse, ela as incinerou completamente, como um raio.
Minha ansiedade é substituída por pesar quando o olhar de Rares não desvia do meu.
— Não há outra forma de destruir a magia — sugiro, e as palavras vindas de algum lugar profundo dentro de mim, algum lugar dormente. — Você vai me ajudar a morrer.
Isso faz com que Rares solte a faca e a pedra de amolar. Ele se apoia sobre as mãos e os joelhos e se aproxima de mim, perto o bastante para que eu consiga sentir a seriedade irradiando dele com a mesma certeza com que sinto o calor do fogo ao nosso lado.
— Durante quase dois mil anos, meu povo viveu em um estado de arrependimento pelo que a Ordem fez a Paisly — conta Rares. — Quando pudemos usar nossa magia para descobrir como destruí-la, percebemos que precisaríamos pedir que cada paisliano voluntariamente se atirasse no abismo. Somos todos os condutores de Paisly agora. Sendo assim, viemos observando em segredo os governantes do mundo em virtude do nosso elo com a magia deles, escondendo o que sabemos a respeito dos verdadeiros limites dos condutores de qualquer um que buscasse abusar deles, esperando que um governante chegasse à mesma conclusão a que tínhamos chegado: que a magia é perigosa demais. Esperávamos, é claro, que esse monarca só precisasse atirar o objeto condutor dele no abismo. Mas você é a primeira possuidora de condutor em séculos que decidiu que a parte negativa da magia supera qualquer benefício. Nem mesmo sua mãe buscou tal coisa.
Encolho o corpo à menção de Hannah, esperando a voz dela em minha mente de novo — mas não há nada. Ela se foi. E isso parece muito mais libertador do que deveria.
Mesmo quando Hannah tentou me ajudar, ela nunca me ajudou de fato — estava apenas buscando consertar os próprios erros. E agora, olhando para Rares, à espera de ver nele alguma outra emoção além da estranha mistura de remorso e ansiedade, tudo que vejo é uma porta. A mesma porta para a qual Hannah me guiou, uma que leva para longe de um mundo de caos e de dor, controle e destruição.
Mas, diferentemente de Hannah, Rares está disposto a me ajudar a entender tudo isso. Ele pode me ajudar a controlar minha magia para que eu tenha uma arma mais eficaz quando enfrentar Angra para pegar as outras duas chaves do abismo. Rares e o povo dele tiveram séculos para estudar a magia que possuem — talvez possam me ajudar a chegar a um estado em que meu medo se transforme em determinação.
— Tem certeza de que me contar tudo isso é uma boa ideia? — pergunto. — Não quer esconder de mim para evitar que eu entenda algo errado e acabe falhando?
Rares coloca a mão em meu ombro, uma pressão firme que me assusta.
— Você não é o que fez. Neste momento, você é quem escolhe ser.
— Quem escolho ser — repito. — Ultimamente tenho sido incapaz de fazer as escolhas certas. Deixei todos com quem me importo no calabouço de Rintiero. Desperdicei três horas. Eu...
Rares ergue a mão, dobra o dedo e me dá um peteleco na testa.
Levo a palma da mão ao ponto dolorido.
— O que...
Mas ele agita o dedo agressor contra mim.
— Considere esta a primeira lição em meu ensinamento sobre como reunir sua magia completamente: não aceitarei tais observações a respeito da pessoa que nos salvará, principalmente vindas da própria pessoa.
— Como isso pode ser uma lição? — digo, com a voz esganiçada.
— Da próxima vez você vai pensar duas vezes antes de tentar ser dura demais consigo mesma. Agora, já que começamos nossas lições, vamos seguir para a de número dois, está bem?
Abaixo a mão.
— E quanto a todos que ficaram em Rintiero? Podemos descobrir o que aconteceu com eles primeiro? E se Angra...
Não consigo terminar a pergunta.
Rares semicerra os olhos.
— Angra não encontrou seus amigos em Rintiero. Pelo menos não todos eles. Se seus aliados estivessem sob o poder dele, Angra não se incomodaria em tentar nos encontrar. Simplesmente os mataria e deixaria que você o procurasse para se vingar.
Tudo a respeito disso me deixa ansiosa.
— O quê? Como você sabe? E... espera aí... Ele ainda está nos rastreando? Achei que você o tivesse bloqueado?
— Bloqueei a entrada dele em sua mente, mas a magia de Angra ainda vasculha o mundo em busca de nós. Quando chegarmos a Paisly devemos estar completamente a salvo das intrusões dele, a Ordem mantém uma barreira. Agora. — Rares emite um estalo com a língua como se estivesse se punindo por me deixar imersa em preocupações, então pega uma folha do chão ao lado dele. — Lição dois. — Rares coloca a folha na palma da mão. — Erga esta folha no ar. Sua magia permite que afete qualquer coisa ou indivíduo no mundo. Como fez em Putnam, quando não tão graciosamente atirou seus guardas.
Conall e Garrigan. Eles foram arremessados no ar em virtude do meu desespero para que se afastassem de mim. Ironicamente, tudo isso para que eu não usasse minha magia contra os dois.
— Eram invernianos — digo. — Mas eu não deveria ser capaz de afetar pessoas ou objetos não relacionados a Inverno.
Mas eu afetei algo não relacionado a Inverno — em Verão, quando entrei em pânico no telhado do complexo do palácio e fiz nevar.
— Normalmente, Condutores Reais só têm magia o suficiente para fazer coisas como cultivar plantações ou fazer chover em momentos de seca — explica Rares — e mesmo então, apenas nos respectivos reinos. Mas ser um condutor estende esse limite. Como já viu pelo contato pele a pele com outros possuidores, você é magia, então está conectada de uma forma mais ampla. Isso permite que você afete outras terras também. Não outras pessoas que não estejam conectadas com seu reino, a não ser que elas tenham conexões mágicas também, mas objetos. Permite que você manipule o que...
— Não — disparo. — Não vou manipular nada.
— Não quis dizer manipular como um ato maligno que pode alimentar a Ruína. Esta folha — Rares a agita — não sabe nada sobre bem ou mal. Um ato maligno ocorre apenas quando interfere com a habilidade do outro de fazer a própria escolha e, portanto, resulta em dor, tristeza, medo ou afins. Assassinato, por exemplo. Quando alguém é morto e, portanto, privado da habilidade de escolher viver.
Olho para ele, boquiaberta.
— Então quando atirei Conall e Garrigan...
Pela neve, não. Será que sem saber fiz algo que alimentou a Ruína?
— Seus guardas exalavam lealdade a você — diz Rares. — O que fez com eles não interferiu com a habilidade de tomar as próprias decisões. Eles teriam escolhido fazer qualquer coisa que pedisse a eles. Eles devem ter ficado com alguns galos e hematomas, certo? Mas, de novo, foi algo que aceitaram de bom grado, por mais que inconscientemente.
Isso faz surpreendentemente pouco para aliviar meu horror.
— Erga a folha — insiste Rares. — Não deixarei que perca o controle.
Felizmente, desde o colapso mais cedo, minha magia permaneceu quieta e não estou com pressa de despertá-la.
— Eu conseguiria continuar controlada se a magia na mina Tadil não tivesse feito algo comigo. Sempre que me abro para minha magia, ela jorra de mim, e eu...
Rares me impede bufando.
— A barreira de magia a teria machucado, mas não teria afetado sua magia dessa forma. Magia tem tudo a ver com escolha, e em algum lugar da sua mente, mesmo que fosse uma pontada ínfima de desejo ou pânico ou preocupação, você queria todas as coisas que fez.
Emito um ruído, como se as palavras dele tivessem feito um buraco em minha barriga.
— Isso tudo... fui eu?
A mão de Rares permanece firme.
— Essa será outra lição. Para a de agora você só precisa olhar para esta folha e querer erguê-la no ar.
Minha mente lateja com as revelações e estremeço, esfregando os braços. Cada minuto que passa queima minha pele como as faíscas da fogueira. Precisamos partir — precisamos chegar a Paisly para que eu possa obter qualquer que seja a ajuda que a Ordem possa oferecer. E então voltar, pegar as chaves com Angra, alcançar o abismo de magia e salvar a todos.
Para que eu possa morrer.
Trinco os dentes quando Rares me encara.
Quando enchi Sir de força em Gaos, quando bloqueei Hannah de falar comigo, quando fiz nevar em Juli, quando atirei Conall e Garrigan — nada disso foi por querer. Isso é por querer — e quero que esse pedaço enrugado de vegetação acerte a cara de Rares.
Um calafrio vibra em meu peito e só tenho tempo de piscar antes que a folha saia voando até Rares e o acerte bem na testa.
Levo as duas mãos à boca.
Rares sorri quando a folha flutua até o colo dele.
— Acho que mereci isso — admite ele. — Mas agora você vai entender melhor o resto de nossa jornada.
— Como assim?
Rares fica de pé com um salto e chuta areia para a fogueira. As chamas se extinguem com um chiado, deixando nós dois nas sombras. Mal consigo distinguir Rares estendendo a mão para mim.
— Porque será exatamente como isso que você acabou de fazer, mas em maior escala.
Fico tão aliviada por partir que aceito a mão dele.
Rares me puxa de pé, mas não vejo nada. Não apenas isso — não consigo ver, pois assim que fico de pé, a floresta evapora em escuridão, a umidade quente é substituída por um frio gélido, a brisa delicada por um vento fustigante e congelante. Fico sem ar diante da atmosfera subitamente rarefeita e tudo que sei, além do choque que sinto, é que não estamos mais em Ventralli.
Rares está nos movendo. E não apenas levemente para cima e depois para baixo — sinto a distância que estamos percorrendo com a mesma certeza que tenho noção da escuridão a nossa volta.
Um rompante de magia nos conduz em espiral, o ar se acende com uma eletricidade que fere minha pele. Meu coração se aloja tão apertado na garganta que me pergunto se algum dia voltará à posição original; as palmas de minhas mãos estão tão escorregadias de suor que temo perder o toque da mão de Rares e descer girando rumo ao nada.
Rares deve ter sentido meu terror, pois me envolve com os braços. O silêncio por estarmos suspensos seja lá onde for, o fato de estar na segurança de braços fortes e protetores, leva minha mente até a última vez em que alguém me envolveu dessa forma — Sir, na visão cruel de Angra, meses antes. Quando me ajoelhei no chão do chalé em Inverno e ele me abraçou e tudo estava perfeito. Não, tudo não estava perfeito. O verdadeiro Sir jamais me abraçaria daquela forma. Dessa forma.
Trêmula, cambaleio para trás quando retornamos à terra firme. Não estamos mais na floresta — é uma caverna. Atrás de mim, uma luz laranja dança.
Esses detalhes são registrados por minha mente quando tudo em meu estômago sobe para a garganta e curvo o corpo para a frente, vomitando.
Rares se agacha ao meu lado.
— Você lidou melhor do que eu lidei na minha primeira vez. Vomitei, desmaiei, acordei e vomitei de novo, tudo isso antes de sequer chegar a meu destino.
Vomito mais uma vez.
— Não estou tão longe de desmaiar.
Rares pega meu cotovelo.
— Vamos colocar você de pé, então. Não há tempo para inconsciência aqui.
As palavras de protesto que balbucio não são ouvidas, e assim que estou na vertical, Rares se vira, apontando para o túnel.
— Não dá para ver, mas ele dá para o vale mais amplo no limite oeste das montanhas Paisel. Poucos conhecem este caminho, mas o túnel corta pelas montanhas até Paisly. Tomando outra rota, a viagem é de duas semanas. Este atalho era meu plano B caso você não tivesse conseguido entender o conceito da folha em movimento, mas graças à nossa afortunada magia você conseguiu, porque eu odeio viajar, mesmo que apenas por alguns dias. A única coisa a respeito de ser um condutor de que vou sentir falta é a facilidade de transporte.
— Você usou magia para nos trazer voando até Paisly? — Contenho mais uma onda de náusea. — Quem mais é capaz de usar magia assim?
Mas sei a resposta antes que Rares me olhe.
— Como eu disse, Paisly mantém a barreira erguida para evitar a invasão de qualquer magia externa. O único forasteiro que pode usar a própria magia para viajar é Angra, pois, assim como nós, ele é um condutor. Contudo, ele só pode usar essa habilidade nos cidadãos de Primavera ou em si mesmo. Não é tecnicamente um aspecto da Ruína, a não ser que ele pretendesse ferir alguém com isso. Basicamente, Angra seria um tolo de usar isso, pois não pode transportar o exército inteiro dele. Isso, mais a barreira, indica que você está a salvo aqui.
De novo, a explicação de Rares não faz muito para apaziguar meu terror. Mas faço que sim, aceitando.
Rares franze o rosto.
— Enfim. Ainda não estamos exatamente em Paisly.
Ele se vira. Atrás de nós, um homem está de pé sob o brilho das tochas. A exaustão faz meus braços e pernas estremecerem, mas prendo os polegares às alças do coldre vazio do chakram.
Rares acena para o homem.
— Alin, Meira... Meira, Alin.
Alin inclina a cabeça para mim, mas se vira para encarar uma muralha sólida de rocha: o fim do túnel. Quando Alin apoia a mão contra a muralha, Rares se inclina para mim.
— Ele é um soldado hierarquicamente abaixo de mim na Ordem. Não se preocupe; posso evitar que ouça seus pensamentos. Esta entrada está sob minha guarda há... bem, desde sempre. O reino se estende por um vale, o que torna o controle de quem vai e vem uma posição de muito respeito.
Meus olhos se arregalam quando Alin empurra a muralha, fazendo com que se mova. Como Conall e Garrigan quando os atirei; como a folha na palma da mão de Rares; como nós disparando de Ventralli até o túnel. O que antes era um sólido beco sem saída aos poucos se transforma para revelar... Paisly.
A noite envolve a área, mas graças à lua, consigo ver o castelo cinza que está logo abaixo dessa entrada e, ainda mais longe, uma cidade envolta em sombra. Mesmo a silhueta de picos distantes no horizonte é visível, um contraste de escuridão contra o céu mais pálido, cinzento.
Rares e Alin dão um passo adiante, conversando no penhasco do outro lado da entrada, dando a oportunidade muito necessária para que eu descanse sozinha na caverna.
Meira.
Meu coração para subitamente.
Rares retirou a proteção que tinha colocado em minha mente? Ele disse que a Ordem mantinha uma barreira em torno de Paisly, para que Angra não pudesse me alcançar aqui.
Olho para o chão da caverna e então para Rares do lado de fora, uma pedra parece afundar em meu estômago.
Não estou em Paisly ainda.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!