1 de fevereiro de 2019

Capítulo 39

Meira
Seis meses depois

CONFORME PASSAMOS PELOS enormes portões que guardam Bithai, eu me apoio com tanta força nas rédeas do cavalo que fico surpresa por ele não disparar pela multidão.
As ruas se curvam em ângulos tão agudos que juro ser capaz de ouvi-las estalando. Mercadores gritam das barracas, agitando as mercadorias para atrair clientes sob o céu do meio-dia. As telhas marrons e curvas dos telhados repousam sobre fundações de pedras cinza; vinhas ainda sobem pelas paredes, irrompendo em folhas. Bandeiras oscilam, altas, à brisa, o fundo verde-escuro e a estampa da folha de bordo dourada de Cordell com o caule de lavanda. Encontro os olhos de Mather.
— Todos parecem felizes.
Ele ergue um ombro, pensa bem no que está prestes a dizer, então assente na direção da bolsa na minha sela.
— O que a carta dizia mesmo?
Adiante, Trace resmunga.
— Ainda não decorou a esta altura?
Mas Mather me encara fixamente. Ele decorou a carta; eu também. É o único contato que tive com Theron desde que mandei Greer ver como ele estava um mês depois... de tudo.
Esperava que Greer voltasse com algo além de relatórios políticos — algo que me informasse como Theron estava de verdade. Pela centésima vez, eu me pergunto se deveria ter ido pessoalmente, ou se deveria ter seguido Theron para fora daquele vale depois da batalha e me certificado de que ele estava bem.
Meu corpo instintivamente se inclina na direção de Mather.
Não — eu tinha um reino para consertar. A Ruína de Angra tinha infectado todos os invernianos em Jannuari, e quando a magia desapareceu, essas pessoas ficaram feridas, arrependidas pelas coisas que tinham permitido que Angra os obrigasse a fazer. Meu lugar depois da guerra era em Inverno.
Puxo a carta, o pergaminho se desenrola em meus dedos.

Para a rainha do reino de Inverno:
Após a destruição da magia, nosso mundo retornou ao estado de normalidade. Mas levará muitos anos até que todas as feridas sejam curadas.
Por isso eu a chamo agora. Uma carta semelhante neste momento é lida por cada monarca de Primoria. Faço a todos o mesmo pedido: que se reúnam em Bithai em três semanas para colocar em vigor o tratado que muitos de vocês assinaram antes da guerra. Os princípios daquele tratado são mais necessários do que nunca agora — princípios que nos ajudarão a esculpir uma Primoria composta de oito reinos unidos.
Apenas juntos podemos reconstruir o mundo.

Curvilínea, a assinatura de Theron aparece na base, encimada pelo selo de Cordell.
Estico o corpo e sorrio para Mather.
— Diz que tudo ficará bem.
Ele me dá um olhar de incerteza, mas assente.
— Já está.
Galhos de bordo se arqueiam sobre nós conforme viramos em uma rua ampla. O dossel acima de nós permite que a luz dourada passe, tornando os últimos momentos de nossa viagem serenos, quase oníricos.
Chegamos ao portão que dá no palácio e eu sorrio. Este costumava ser o local de duas árvores douradas. Um ato de Noam, uma exibição da riqueza de Cordell. Mas elas se foram, e uma corrente segura o portão aberto em um estado permanente de boas-vindas.
Theron abriu o palácio ao reino.
Essa imagem me faz cavalgar até o pátio com mais confiança. Descemos dos cavalos e Mather imediatamente se põe ao trabalho, dando ordens aos guardas que vieram conosco. Greer e Conall exibem no peito o símbolo de Inverno, um floco de neve, enquanto Trace, Hollis e Feige usam o uniforme do Degelo, um híbrido de floco de neve e flor selvagem marcado nos ombros — a marca da minha guarda pessoal de elite, o que o Degelo se tornou.
Quando todos são separados, Mather leva os punhos aos bolsos e não consigo evitar um sorriso. Ainda tenho dificuldades para compreender a facilidade com que meus invernianos se adaptaram à vida normal.
O olho de Mather se fixa em algo atrás de mim e ele sorri.
— Parece que não somos os únicos que decidimos vir.
Não consigo perguntar do que ele está falando antes que um corpo me empurre para a frente.
— Como ousa? — grita Ceridwen, me dando um leve soco. — Faz seis semanas desde a sua última visita. Você me abandonou, sua garota terrível.
Eu me viro e a soco de volta, mas também sorrio.
— Era sua vez de ir até Inverno!
Ceridwen suspira dramaticamente quando outro rosto familiar surge da vegetação. Jesse acena para Mather, vê o ataque que Ceridwen parece dar e sacode a cabeça para mim.
— Juntar vocês duas nunca acaba bem para mim — diz Jesse.
Ceridwen o ignora e entrelaça o braço ao meu.
— Independentemente de quem seja a vez de visitar quem, faz seis semanas desde que conversamos. — Ela nos vira na direção do palácio, Jesse e minha comitiva vêm atrás. Os olhos de Ceridwen se detêm nas pedras cinza e nas janelas reluzentes que se erguem em uma repentina onda intimidadora. — E aparentemente muita coisa aconteceu.
Ela olha para mim, e faço um gesto para sinalizar que me sinto despreocupada.
— Não faço ideia do que isso se trata, além do que a carta dizia.
Ceridwen resmunga, pouco convencida.
— Bem. Há outra notícia para compartilhar enquanto isso.
Entramos no palácio. A madeira acolhedora e polida das paredes nos envolve, um contraste aconchegante em relação ao exterior vibrante. Meus olhos se voltam com vontade própria para a direita, onde as paredes em painéis escondem uma porta e um escritório além dele. O antigo escritório de Noam. Será que Theron o ocupou?
Uma criada aparece e nos chama para nossos quartos.
— Recebemos notícias de Ventralli — começa Ceridwen, conforme seguimos a criada. — Eles se decidiram por um sistema de eleições. O processo todo é fascinante, governarão o reino totalmente sob a liderança de alguém escolhido pelo povo.
Abaixo a voz.
— Jesse não se arrepende de ceder o reino aos conselheiros dele?
Ceridwen faz que não com a cabeça.
— Nunca o vi tão feliz. Saber que Ventralli prosperará além do que ele poderia ter feito... estamos ambos felizes com o que está acontecendo.
— Está pensando em estabelecer tais eleições em Verão? — provoco, apenas porque, de fato, parece algo que tanto ela quanto eu apoiaríamos por completo.
Ceridwen resmunga.
— Talvez, depois que o estado mental do reino estiver em melhor estado. E por falar nisso, estabelecemos um comércio honesto com Yakim. Parece que Giselle desistiu da meta de tomar Verão agora que não tem magia nas montanhas Klaryn. Quase passei de abominá-la para apenas detestá-la.
— Isso é maravilhoso! — Meu sorriso se suaviza. — Fico feliz por você.
Ceridwen me cutuca.
— O sentimento é mútuo, rainha de Inverno.
Subimos uma escada e passamos para um corredor que parece familiar, candelabros de cristal e tapete castanho felpudo.
— Acredito que tenha gostado deste quarto da última vez — diz a criada, parando ao lado de uma porta aberta.
Olho para o aposento e o reconhecimento toma conta de mim — é o quarto no qual fiquei quando vim a Bithai pela primeira vez, com a cama de dossel e o tapete lavanda e as cortinas brancas pesadas.
— Sou tão cega — digo. — Mona?
A criada que me serviu quando estive aqui da última vez. Ela ri.
— Você se lembra!
— É claro! — Olho em volta. — Onde está...
— Rose se casou. Mora na costa agora. Mas isso me garantiu uma promoção! — Mona se abaixa em uma reverência. — Se precisar de alguma coisa, me avise. Estou tão feliz por você estar aqui, rainha Meira.
Ela pisca um olho, a ênfase em meu título me remete a todas aquelas aulas de etiqueta cordelliana.
Sorrio.
— Eu também. — E sou sincera, mais do que achei que seria.
— O resto de sua comitiva ficará nos quartos em volta do seu — continua Mona. — Tem algumas horas antes que a refeição da noite comece, com música no salão de baile. Aproveite a estadia.
Quando ela sai, Jesse se vira para Ceridwen.
— Deveríamos deixá-los descansar. Esta noite muito provavelmente será longa.
Ceridwen concorda com um resmungo fraco e aponta um dedo para mim.
— Encontre-nos quando terminar de descansar. — Os lábios dela se curvam em um sorriso malicioso quando Ceridwen acena para Mather. — Ou o que quer que planejem fazer.
Mather dá uma gargalhada e avança, enterrando o rosto em meu pescoço com um som parecido com um latido conforme nos empurra porta adentro. Conall e Greer, coitados, saem procurando os quartos deles, e as reações do Degelo variam de risinhos até gargalhadas em soluços histéricos.
Mather chuta a porta para fechá-la quando consigo me desvencilhar dele.
Ele segura meu braço.
— Espere... Ceridwen teve uma boa ideia...
Sorrio.
— Vamos descansar. Precisaremos de toda a força que conseguirmos esta noite.
Mather se move na minha direção de novo, mas o tom brincalhão desapareceu.
— Você está bem?
Que pergunta.
— Sim. Não. — Eu me abraço. O amor pelo frio ainda ressoa por todos os invernianos, mas era uma característica que se desenvolveu depois de anos de influência mágica. Será que sumirá aos poucos? Só sei que acho que estou com um frio desconfortável. Ou talvez apenas sobrecarregada.
Mather coloca as mãos em meus ombros, leva a testa à minha.
— Não está sozinha.
Eu me aninho nele, abraço a cintura de Mather. Com a cabeça baixa sobre o peito dele, meus olhos recaem em uma pintura ao lado de um armário.
A luz da manhã se reflete em bancos de neve, os arcos curvos dos galhos de árvores também estão cobertos de neve e de adagas formadas por estacas de gelo. Essa pintura é tão familiar quanto a cidade, quanto o palácio.
Theron me mostrou essa pintura. Um dos primeiros lampejos que tive de Inverno. “Posso mandar pendurar em seu quarto se quiser.”
Aninho a bochecha contra Mather, respirando no mesmo ritmo que ele.
Theron está bem. Só pode estar.


Flâmulas pendem do teto do salão de baile — oito cores diferentes com oito símbolos diferentes. O tema se repete pelo salão, desde os vasos contendo oito flores, uma de cada cor, até os aglomerados de comida em oito bandejas, uma iguaria de cada reino.
Enterro os dedos na manga índigo do casaco de Mather conforme descemos a escada. Hollis e Trace, alguns passos atrás de nós, verificam a sala com o ar treinado de segurança.
— Está lindo — digo.
Um canto da boca de Mather se ergue e ele me olha, os olhos percorrem meu vestido marfim plissado. Mather desliza para a minha frente na base da escada e entrelaça os dedos nas faixas do coldre do meu chakram. O couro é estampado com flocos de neve, um coldre muito mais cerimonial do que estou acostumada, mas o chakram que ele contém é digno de tal beleza. Madeira polida forma o cabo curvo, e a própria lâmina é entalhada com os galhos expostos das árvores invernianas. Um presente de Caspar e Nikoletta, um que não consegui ter coragem de atirar. Tê-lo é um lembrete do que sou, uma rainha guerreira, exatamente como o medalhão que ainda uso.
Mas gosto de não precisar usá-lo. Gosto que minha arma seja meramente decorativa.
Mather leva os lábios à minha testa.
— Você está linda — diz ele, contra minha pele.
Um gritinho agudo que conheço muito bem chama a nossa atenção. Eu me viro a tempo de ver um pequeno borrão preto e escarlate sair às cambalhotas da multidão.
— Shazi! — grito, e me abaixo para interceptá-la.
Nikoletta surge da multidão e sorri para pedir desculpas conforme desenrosca Shazi de mim.
— Ela ainda nem tem quatro anos e já desisti de prendê-la.
Atrás de nós, Trace se inclina para fazer uma pergunta a Mather, o que tira a atenção dele do olhar que Nikoletta subitamente me dá.
— Falou com ele?
A mudança de assunto me choca e involuntariamente enrijeço o corpo.
Nikoletta entende isso como minha resposta e indica as portas de vidro com o queixo.
— Ele está na floresta dourada. Além do labirinto. — Ela estende o braço para pegar minha mão. — Sei que quer ver você.
Faço que sim, mas uma pergunta me faz inclinar o corpo para mais perto dela.
— Ele está bem?
O luto no rosto de Nikoletta não se dissipa.
— Tanto quanto todos nós.
Ela sai para encontrar Caspar e sigo para as portas de vidro, dando o braço a Mather quando passo. Ele tropeça ao meu lado, deixando Trace e Hollis com um grito de confusão.
Mas Mather vê o olhar em meu rosto, repara nas portas que se aproximam.
— Tem certeza de que está pronta? — Na voz de Mather não há nada além de calor e apoio e tudo que amo a respeito dele.
Estampo um sorriso nos lábios.
— Pronta para tudo.


A floresta dourada surge, como Nikoletta falou, no final do labirinto de sebe. O crepúsculo caiu a essa altura, cobrindo a área com o cinza enevoado da noite, iluminado apenas por lanternas que brilham pelo caminho.
Mather para ao meu lado.
— O que é isso? — sussurra ele.
Adiante, mudas de bordo dourado se erguem em fileiras perfeitas acima de colinas gramadas. Pequenas folhas douradas pendem dos galhos finos, cada árvore só um pouco mais baixa do que eu, dezenas delas oscilando dentro de uma cerca de pedra da altura da minha cintura que as mantém separadas do restante do jardim.
Eu me aproximo do portão de ferro, meus dedos se fecham sobre o metal esculpido. Mather espera ao meu lado, desejando me seguir para onde quer que eu precise dele.
Pressiono a mão contra o peito de Mather.
— Você me espera aqui?
Ele faz que sim.
— Sempre, minha rainha.
Dou um rápido beijo em Mather e entro na floresta.
O portão range ao se fechar atrás de mim, interrompendo a melodia das folhas douradas que tocam os galhos da mesma cor. Cada árvore pela qual passo tem entalhes no tronco, nomes e datas e trechos de poesia. Não — um poema em especial, um que ouvi há muito tempo, de lábios moribundos que ecoam em minha memória.
O poema de Cordell. Sir o recitou no campo de batalha do lado de fora de Bithai antes de eu achar que ele tivesse morrido pela primeira vez, antes de eu ser capturada, antes de minha vida mudar de formas que ainda estou descobrindo.
“Cordell, Cordell, se na batalha, na viagem ou na morte
Precisarmos nosso reino deixar,
Que aqueles que não retornam
Possam sempre em sua presença descansar.”
E sob aquelas linhas de poesia, a frase Aqui jaz proclama que Cordell enterra a realeza morta sob árvores de bordo douradas. Tal lugar existe em Jannuari, mas com marcações simples para os corpos que queimamos. A marca de Sir está ali. E de Nessa, e Garrigan, tantas pedras com entalhes de flocos de neve.
Então sei onde está Theron, sobre qual túmulo ele está de pé, antes que o alcance. Sei sobre que túmulo eu estaria de pé, para onde iria meu coração.
Um braço está sobre o peito dele, o outro segura a nuca em concha enquanto Theron curva a cabeça, de olhos fechados, diante de duas mudas douradas em montes de terra. Um é mais velho; o outro, está fresco demais. Lanternas espalhadas ao longo do caminho projetam luz sobre nós, mas sombras ainda passam, distorcendo detalhes. Theron não se move quando me aproximo, e isso me dá tempo para observá-lo.
O cabelo antes longo foi cortado curto, misturando-se a uma barba que deixa o rosto de Theron mais severo. O uniforme cordelliano tem mais medalhas do que da última vez que o vi, e o material é mais refinado, um veludo esmeralda profundo com detalhes dourados. No todo, Theron parece muito mais com o pai, no melhor dos sentidos apenas. A certeza e a confiança e o autocontrole de Noam, mas nada da severidade ou da pompa.
Paro dois passos atrás de Theron, segurando punhados da saia.
Respire, Meira.
— Nikoletta disse que você estaria aqui.
Theron, ainda de olhos fechados, sorri, mas o sorriso não permanece quando ele olha para mim.
— Ela se tornou protetora demais — diz Theron. — Mandou você para ver se estou bem?
— Estava bastante implícito. — Tento sorrir. — Mas queria falar com você de qualquer forma.
Theron abaixa o olhar para uma das árvores. A muda de Noam, o nome dele aparece à luz fraca. Theron fica em silêncio, massageando a nuca, antes de se esticar e prender os polegares no cinto que segura uma espada decorativa.
— Bem, como eu disse a Nikoletta, e Jesse, meus conselheiros, estou bem. — Theron me encara de novo. — Vossa Majestade não me deve nada. Estou feliz simplesmente por ter vindo participar da unificação do mundo.
— Theron. — A amargura em minha voz sobe pelo nó embolado em meu estômago. — Não precisa me tratar assim.
A risada dele é amarga.
— Eu disse algo semelhante a você certa vez. Lembra do que disse em resposta? “Você é Cordell, tanto quanto sou Inverno. Sempre precisará escolher seu reino em vez de mim”. Bem, minha senhora... escolheu bem.
Não respondo, abrindo o silêncio como uma porta que projeta luz inundando uma sala escura. Theron continua com os olhos em mim, a risada áspera se dissolve no rosto dele e dá lugar a um resmungo entrecortado. Theron umedece os lábios, sacode a cabeça para mim, para si mesmo, para os túmulos diante de nós.
— Lembro de tudo — começa ele, sussurrando suavemente. — E peço desculpas, Meira. Não sei por onde começo a pedir desculpas. É parte do motivo pelo qual convidei todos para cá. Eu ajudei a destruir este mundo, então ajudarei a reconstruí-lo. Mas você... pelas folhas douradas, devo muito mais do que isso a você.
— Não vim aqui em busca de desculpas. — Minha voz falha. — Eu vim até aqui para... bem, pedir desculpas a você, por não ter vindo antes. Por não ter checado como você estava. Essa guerra começou como um problema de Inverno, e eu o arrastei para dentro dela, eu coloquei você no caminho de Angra e...
— Angra. — Theron praticamente soluça o nome, um tremor violento o faz abaixar o queixo até o peito. — Você pode ter me colocado no caminho dele, mas eu escolhi caminhar ali.
Meu coração pesa no estômago. Temia isso desde o início, que as coisas que Theron fez tivessem sido mais ele do que Angra. Mas o olhar de Theron afasta minha preocupação.
— A Ruína me fez querer coisas que jamais ousei me permitir admitir. Era tão libertadora. — Theron para, cruza os braços sobre o peito. — Até que Angra...
As lágrimas dele caem livremente. Theron as enxuga, rindo consigo mesmo e observando o céu que escurece.
— Matei meu pai por causa dele. Fiz coisas terríveis por causa dele. E mesmo assim o admirava. Eu o idolatrava. Era tão forte, e eu me senti fraco durante tanto tempo.
Theron me olha.
— Mas serei forte agora. Sozinho. — As palavras dele são uma promessa, Theron nunca soou tão vivo. Eu me mexo sem pensar e coloco a mão no braço dele.
— Você tem a maior capacidade de amar que qualquer um que já conheci. Amava seu pai apesar das falhas dele; me amava mesmo quando não sabia nada a meu respeito, a não ser o fato de eu ser tão invisível quanto você. É tão mais forte do que eu. Mais forte do que Angra também. E com você nos guiando, sei que Primoria alcançará um estado de paz e igualdade que honrará todos os que perdemos.
Theron não se move, lágrimas ainda brilham nos olhos dele.
— Desculpe por não ter podido ser o suficiente para você — sussurra ele.
Meus dedos se apertam sobre ele.
— Desculpe por eu também não ter sido o suficiente para você.
Theron se afasta para esfregar as últimas lágrimas do rosto.
— Deveríamos nos juntar ao resto — diz ele, com a voz clara agora. — Há muitas coisas importantes a discutir.
Concordo e dou um passo para trás, mas Theron não me acompanha.
— Você vem? — pergunto.
Ele pisca o olho para mim, os lábios estremecendo.
— Mais alguns momentos. Pode ir na frente.
Quando ergo as sobrancelhas, Theron se abaixa em uma reverência.
— Por minha honra como o rei de Cordell, prometo que estou bem. Só preciso de um momento.
— Tudo bem. — Faço uma pausa. — Nós ficaremos. Bem, eu quero dizer.
Theron inclina a cabeça.
— Lady Meira — diz ele.
Eu me viro, deixando Theron de pé sobre os túmulos dos pais.
O importante, no entanto, é que ele está de pé.


O salão de baile está lotado quando Mather e eu voltamos. Músicos tocam melodias alegres em uma plataforma entre as escadas, complementando o burburinho da conversa dos dignitários. Ceridwen, Lekan e Kaleo estão de pé com Caspar e Nikoletta; Giselle fala com o general de Primavera, um homem que conheci quando ele foi até Inverno há algumas semanas para formar uma ponte sobre a mágoa entre nossos dois reinos. Um grupo de ventrallianos chegou e conversa em tom animado com Jesse.
Mas não são os únicos atrasados.
Alguém se move na nossa direção. Vejo a túnica dele, a cicatriz que se estende pela pele escura, e solto a mão de Mather para abraçar Rares.
— Você veio!
Rares me aperta com tanta força que acabo tossindo em protesto.
— É claro, coração! Paisly tinha que ser representado. — Ele me coloca no chão e mantém as mãos em meus ombros. — E considero você responsável pelo puro sofrimento que é viajar agora. Lembro especificamente de dizer o quanto eu odiava viajar, e que uma das poucas coisas boas que a magia nos dava era a habilidade de chegar a qualquer lugar imediatamente. Mas não, você precisava mandar tudo embora... e nos dar algo muito melhor em troca.
Com isso, Rares se vira e revela Oana atrás dele.
Levo as mãos à boca e dou um grito contra as palmas.
— Você está...
Ela me abraça, a leve saliência na barriga é pressionada entre nós.
— Quatro meses agora.
Não consigo fazer mais do que dar gritinhos, minhas mãos passam dos ombros de Oana para a barriga dela e então de volta. Rares comemora minha falta de palavras e avança para me dar um beijo na testa.
— Imagino que também andou ocupada nos últimos meses. — Ele acena para Mather e se aproxima para dar um peteleco na testa dele. — Trate-a bem.
Mather esfrega o local, contendo uma gargalhada.
— Eu trato, prometo.
Rares me olha em busca de confirmação, e sorrio, passando o braço pela cintura de Mather.
— Não que eu tenha achado que você escolheria alguém que não a tratasse assim — diz ele para mim, piscando o olho. — Acho que devemos dar uma circulada. Que bela reunião que temos aqui. Totalmente mágica.
— Não há nada mágico a respeito disso — diz Oana. — Merecemos tudo que acontece aqui.
Rares concorda.
— O que parece mágico para mim, meu amor. — Ele me dá mais um abraço. — Onde está o rei Jesse? Soube que Ventralli está evoluindo de forma muito curiosa.
Mather aponta para a multidão.
— Ele está do outro lado da sala... vou lhe mostrar.
Mather guia os dois para longe. Tantas pessoas me chamam atenção — representantes de cada reino, todos reunidos para negociar a melhor forma de continuar nossa paz.
E essa união faz os espaços na multidão parecerem completos. Onde Sir deveria estar, ao lado de Mather, enquanto ele fala com Jesse, Rares e Oana; onde Nessa e Garrigan deveriam seguir Conall enquanto ele ziguezagueia na minha direção em meio à multidão; onde Henn e Finn deveriam estar conversando com Greer na ponta do salão; onde Noam deveria estar rindo com Nikoletta e Caspar.
Não contenho o sorriso que se abre em meus lábios, as lágrimas que embaçam as cores e a luz do salão de baile, formando um caleidoscópio fluido e brilhante.
Rares e Oana estavam certos. Somos a nossa magia agora. E nada pode nos deter.

3 comentários:

  1. Lega mas o final ficou sem sal pakas

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  2. Ahhh!! Não consigo crer que acabou!! Não to pronta pra deixar Meira, Mather, Theron... foram muitas perdas. Queria que a Nessa visse esse recomeço, com esperança e alegria que ela sempre buscou.
    Ansiosa pelos contos!!

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  3. Ameeiii, cada pedacinho, ja estou com saudades de cada personagem,

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Boa leitura, E SEM SPOILER!