1 de fevereiro de 2019

Capítulo 38

Mather

MATHER DISSE A si mesmo que foi o rompante final de magia de Meira que o fez deixar o abismo. Que ela imbuiu a própria vontade nele, um único comando ressoando no coração de Mather até que ele não conseguisse conceber nenhuma outra opção.
Mas isso era mentira.
Meira dissera a Mather que corresse com uma falha tão óbvia na voz que Mather teve vontade de largar o corpo cambaleante de Theron e disparar de volta para ela. Não, algo mais poderoso o fez manter o príncipe — rei — cordelliano apoiado no pescoço e correr para o túnel de saída. Algo que, depois que Mather viu, lançou uma sensação ainda mais forte pelo corpo dele: esperança.
Mather e Phil tinham carregado o condutor de Cordell pelo mundo inteiro. De Rintiero até Paisly e então até as planícies Rania, de lá até Outono. Mather o levara para o labirinto porque esperava que Theron aparecesse na batalha acima, e não queria que nenhum membro do Degelo o tivesse, para o caso de Theron de alguma forma conseguir tirar o objeto dele. Mather não considerava o condutor mais do que isso, em grande parte devido ao ódio que tomava conta do sangue em suas veias sempre que pensava na palavra Cordell. Mas agora Mather percebia o quanto fora cego.
Aquela era a solução. O condutor de Cordell.
Theron o entregara. Ele abrira mão do objeto em Rintiero. Era isso que precisava acontecer — um condutor precisava ser sacrificado e devolvido ao abismo. O condutor de Cordell fora sacrificado, e estava agora retornando ao abismo —, mas pelas mãos de Meira, não por aquelas de quem o possuía.
Seria o bastante para destruir toda a magia? Permitiria que Meira sobrevivesse? Precisava funcionar. Tinha que funcionar.
A única luz no túnel de saída vinha do abismo de magia abaixo, então, conforme Matherarrastou Theron para cima, a escuridão os engoliu por inteiro. Ele parou logo do lado de dentro do túnel. Os ouvidos de Mather se esforçaram para captar um sinal de Meira atrás dele, correndo para a saída. Mas ele só ouviu o chiado e o estalar contínuos da magia eletrizando o abismo...
Então um estrondo. Como se as montanhas Klaryn estivesse despertando depois de um longo sono, esticando os ombros para trás conforme se erguia das profundezas da terra. O túnel vibrou com tanta força que rochas rolaram do teto e das paredes, algumas delas se partindo na cabeça e nos braços de Mather. Ele cambaleou, Theron gemeu com um gorgolejo semiconsciente conforme os dois se chocaram contra a parede. As vibrações não cessaram, e depois do estrondo inicial, uma explosão ondulou pelo abismo, subindo pelo túnel.
Mather não se virou para ver o que vinha atrás deles. Foi tomado por um instinto de sobrevivência e nunca se sentiu tão grato pelo torpor. Apenas clareza, nenhum pensamento que o destruiria.
Pensamentos como: A magia está explodindo. Porque o condutor de Cordell caiu nela? Ou foi o de Inverno?
Mather ajustou Theron sobre o ombro e correu como nunca antes, as pernas saltando como se a velocidade pudesse consertar tudo. Mas mesmo isso fracassou, e quando um lampejo de luz dolorosamente branca iluminou o túnel, o calor intenso se chocou contra as costas de Mather. Ele gritou, as pernas cederam sob o bombardeio de fogo que formigava ao subir pelo corpo, enterrando-se nos músculos de Mather.
Mas quando ele caiu, não atingiu o chão.
Mather caiu para cima, carregado por aquela onda de magia com Theron disparando pelo ar diante dele. A magia irrompeu abaixo dos dois, como uma onda quebrando incessantemente na praia. Sangue disparou para a cabeça de Mather, ou talvez fosse a magia, ou as explosões contínuas abaixo deles — a intensidade ensurdecedora do túnel era equiparada apenas ao brilho da luz branca. Quanto mais os dois voavam mais ela aumentava, brilhando mais e mais forte, a magia queimando mais quente...
A magia entregou o corpo de Mather à superfície. Bancos de neve o seguraram quando ele caiu no chão, virando-se e rolando para baixo de uma encosta íngreme salpicada de pedregulhos e tufos de grama. Mather se chocou contra o tronco de uma árvore, deslocando uma chuva de folhas douradas e gelo. O túnel os tinha largado em algum lugar entre Outono e Inverno, na encosta das montanhas Klaryn. Deviam estar perto da batalha.
Esses detalhes foram registados pela mente de Mather, mas muito levemente, um lampejo que sumiu quando ele se viu encarando as montanhas ao longe.
A explosão que o ejetara com Theron do túnel continuava. O chão tremeu com tanta força que Mather precisou se equilibrar na árvore para ficar de pé, e Theron, acordando devagar, apoiou as mãos em uma rocha e inclinou a cabeça para bloquear o ruído crescente. Porque crescer foi o que ele fez — as vibrações recuaram, como um fôlego profundo antes do grito de guerra, e enquanto Mather assistia, uma chuva de folhas douradas pelo ar, as montanhas explodiram.
Vermelho, laranja, prateado, verde — tendões de cor irradiaram pelo céu azul limpo, irrompendo para o alto como se um vulcão tivesse disparado um arco-íris para o mundo. Rochas se partiram em estilhaços ensurdecedores; a faísca e o chiado da magia evaporando acenderam o ar como os pavios de mil canhões sendo preparados para a batalha. Mas nenhuma batalha veio na sequência — aquela era a batalha, aquela enorme explosão que abafara o azul do céu dando lugar a faixas de cor e magia que fizeram com que cada nervo no corpo de Mather sentisse.
A ausência de emoção permitiu que Mather por um momento assistisse aquela demonstração sem ser perturbado. E, naquele momento, Mather quase achou que parecia bonita a destruição da magia...
Mas acabava ali.
Aquela explosão era a magia se desintegrando. As cores que espiralavam para fora da montanha se dissolveram no ar e a cada segundo diminuía aquela sensação faiscante, a sensação do ar saturado pela magia. Ela estava indo embora, como Meira quisera.
Mather disparou para longe da árvore. Pedras fecharam o túnel de saída, depositadas pela erupção contínua. Ele puxou uma, mas ela não cedeu. Não... Meira tem que ter saído. Talvez a magia a tivesse jogado em outro lugar, mais para baixo...
Embora a terra ainda estremecesse com as vibrações do caos, Mather desceu a encosta com dificuldade, atirando-se de uma rocha a uma árvore e então para a rocha de novo. As pedras afiadas abriram cortes na palma das mãos, mas ele não conseguia parar, não iria parar, o coração vibrava junto com a terra.
— Meira! — gritou Mather. O desespero percorreu o corpo dele, o luto doloroso que brotara no estômago assim que vira o pai morrer. Mather se agarrou a esse minúsculo poço de esperança, mas mesmo isso escureceu, derretendo como gelo na palma da mão dele.
Mather cambaleou, saindo de trás de um último aglomerado de árvores para o campo de batalha. Ou o que um dia fora o campo de batalha.
Soldados dos dois lados estavam imóveis, olhando boquiabertos para a erupção contínua de magia que se dissipava. A maioria deles caiu de joelhos, como se tivessem todos sido levados ao chão pela mesma revelação que lhes alterava a vida. Alguns choraram, encarando as mãos como se as vissem pela primeira vez. A maioria simplesmente ficou ajoelhada ali, absorvendo o vazio que permeava o ar.
Mather também sentiu. Mesmo aqueles no campo que não tinham sido possuídos pela magia de Angra sentiram, todos de olhos arregalados e com o peito inflado com o fôlego profundo que fora reservado ao momento de inspirar um ar puro depois de passarem tempo demais na miséria. Eles se viraram para os que estavam ajoelhados, e gritos de alegria irromperam, como acontecera em Abril, quando Mather pensou que tudo aquilo tinha terminado e Meira se erguera triunfante sobre os campos de trabalhos forçados de Angra.
— MEIRA! — A dor na voz de Mather ecoou de volta para ele, contrapondo-se à felicidade do campo. Deveria ter funcionado, a adaga de Cordell deveria ter sido sacrifício o suficiente...
Talvez tivesse sido, mas Meira estivera tão perto da destruição.
Talvez Angra tivesse conseguido dar um último golpe antes do fim.
Mather tropeçou em uma rocha e bateu com a palma da mão contra ela, espancando a tristeza contra a pedra.
— NÃO! — gritava ele, lançando a palavra para a montanha, obrigando-a a sentir tudo que tomara dele.
A mão de alguém tocou o ombro de Mather.
— Mather?
Ele se virou, se afastou, lágrimas lhe borravam a visão — não, era desespero o que lhe embaçava a visão, o desejo o deixando cego, de forma que ele sussurrou o nome dela, “Meira” como uma súplica silenciosa, esperançosa.
Mas era Trace. E Hollis atrás dele, Kiefer, Eli, Feige.
O Degelo.
Mather não os perdera.
Ele caiu no chão, curvado perto das rochas que davam para onde antes havia a saída do abismo. Trace se ajoelhou com ele e disse algo, palavras baixas que Mather se recusou a ouvir. Talvez um dia ele conseguisse, mas agora, naquele campo, só era capaz de sentir revolta em meio às comemorações e ao alívio e à vitória que Meira quisera.
Ela deveria estar ali. Se alguém deveria sobreviver àquele labirinto, deveria ter sido ela.
De alguma forma, Mather se viu de pé, talvez puxado por Trace ou Hollis. Ceridwen estava atrás deles agora, arrasada pela batalha, com as sobrancelhas unidas acima dos olhos cheios d’água. Ela já sabia — todos que se reuniram sabiam. Caspar, os generais deles; Rares e Oana — como tinham chegado ali? Dendera, com a expressão contraída como se estivesse chorando por horas — e Henn não estava com ela.
Não. Pelo gelo, chega de perdas.
Mather estudou os rostos deles.
O mundo precisará de você depois disso.”
Fora uma das últimas súplicas de Meira para ele, e Mather se agarrou a ela, desejando que a ordem consumisse cada emoção dele. Algo para fazer além do luto, enquanto todos em volta olhavam para Mather em busca de explicações ou liderança.
Mather caminhou. Os olhos se alegraram com o movimento. Ele pigarreou e Ceridwen tapou a boca com as mãos, seus olhos se enchendo de lágrimas, o que fez com que seus ombros se curvassem para a frente com um soluço. Caspar sorriu. Rares também riu, ou melhor, gargalhou, quase caindo no chão enquanto Oana o segurava e se juntava a ele na gargalhada. Até mesmo Dendera sorriu, mas sorriu entre lágrimas e fechou os olhos para se preparar.
Mather franziu a testa e olhou para o Degelo em busca de uma explicação.
Mas nenhum deles ofereceu qualquer palavra, chocados demais para falar.
Dois dedos tocaram a nuca de Mather.
Era um jogo de quando eram crianças. Um que Mather fazia com ela, na maioria das vezes, se aproximando de fininho e pressionando dois dedos no pescoço de Meira no lugar de uma arma. “Você está morta!” era o que Mather dizia a despeito dos protestos dela de que não era justo, de que o derrotaria em uma luta de verdade, de que não estava preparada para aquilo.
Ele não estava preparado. Nunca estava, e sempre que se aproximava dela de fininho, o giro violento de confiança de Meira o deixava sem palavras com o choque. Não importava quantas vezes Mather a visse lutar, sempre ficava embasbacado ao se maravilhar com o quanto alguém podia ser tão inconscientemente forte.
Então não deveria ter ficado surpreso quando aqueles dedos repousaram sobre seu pescoço. Não deveria ter duvidado da habilidade dela de sobreviver, nem por um segundo.
Tudo em Mather se enlevou do luto para o torpor e para a alegria quando ele se virou.
Meira. Coberta com a poeira cinza e espessa do abismo e suja de sangue.
Mas Meira.
Viva.
Ela sorriu, lutando contra a exaustão conforme oscilava para a frente. Mather não hesitou, não poderia, mesmo que quisesse — disparou para pegá-la e Meira passou os braços em volta do pescoço dele. A cabeça dela se recostou no peito de Mather e cada vez que ela soltava o ar morno, inundava o coração de Mather com as mais puras e inacreditavelmente perfeitas ondas de alegria.
Mil coisas se acumularam nos lábios dele, mas tudo que Mather disse foi:
— O condutor de Cordell.
Meira assentiu. Pelo gelo, cada movimento dela fazia Mather querer gritar.
— Não percebi o que faria até que estávamos caindo — disse ela, mantendo o rosto aninhado contra Mather como se precisasse tocá-lo tanto quanto ele. — Mas atingimos a magia e vi Angra se desintegrar. Esperava que a magia também me queimasse, mas a adaga a tocou antes de mim. Então tudo ficou branco e eu estava voando pelas montanhas. Achei... achei que estivesse morta... mas ela me salvou. A adaga.
Meira sacudiu a cabeça, incapaz de dizer mais ao segurar Mather com mais força em um apertão resistente antes de se afastar, rindo. A risada de Meira o tornou leve o suficiente para que flutuasse no céu limpo. Qualquer resquício de magia tinha sumido; qualquer vibração ressoante tinha se dissipado.
Tinha acabado.
Ceridwen disparou para abraçar Meira, que ainda tinha as mãos de Mather em torno da cintura. O Degelo se juntou a seguir, rindo e colidindo em uma confusão de braços e sorrisos e lágrimas conforme Dendera, Oana e Rares também se aproximaram. Eles não passavam de um emaranhado de felicidade, agarrados à vitória pela perda, o triunfo pelo luto.
Os olhos de Mather se fixaram em algo fora do grupo.
Soldados cordellianos se reuniram em torno de um conjunto de árvores não muito longe. Theron mancava até eles, com uma das mãos envolta na lateral do corpo, o rosto destituído de... tudo.
Estava livre da escuridão de Angra. Como reagiria ao que tinha feito?
E quanto do que tinha feito fora de fato ele?
Theron devia ter sentido os olhos sobre ele, porque instintivamente se virou e então imediatamente se encolheu, arrependido. Não queria encará-los ainda — Mather não podia culpá-lo.
Mas o motivo pelo qual os braços de Mather não estavam vazios agora era Theron. Todo o ódio que sentira por Cordell, a raiva de Noam e o ciúme de Theron — tudo trouxera Meira de volta a ele.
Então, antes que Theron virasse o rosto, Mather fez uma reverência com a cabeça.
Theron piscou. O maxilar dele se contraiu. Então o rei fechou os olhos e assentiu em resposta.
A boca de Meira roçou a orelha de Mather.
— Obrigada. Por salvá-lo.
Mather sorriu e foi empurrado quando mais pessoas se juntaram à comemoração. Ele levantou a mão para segurar a cabeça de Meira, mantendo o rosto dela logo abaixo do dele.
— Obrigado por nos salvar.
Meira ficou séria e Mather viu um pensamento distinto no rosto dela: William.
— Estamos livres agora — disse Meira, a Mather, a si mesma. Ela se virou para encarar parte da multidão que comemorava com uma das mãos no peito de Mather. A luz havia retornado aos olhos dela, a linda resiliência com a qual Mather queria passar o resto da vida se deleitando. — Estamos livres!
O grito de Meira disparou pelo ar, incitando outros gritos mais altos. Era difícil sentir qualquer coisa que não alegria ali, um deslumbre contagioso no qual cada pessoa no vale mergulhou de cabeça.
Meira se virou de volta para Mather, o sorriso dela era radiante, e não deu qualquer aviso ou chance para que ele a beijasse primeiro — ela saltou sobre Mather, pressionando os lábios contra os dele. Mather pensou que jamais faria aquilo de novo. Segurar Meira, beijá-la, sentir seus lábios de outra forma que não pela memória. O beijo irradiou por cada nervo de Mather, enroscando-se no luto e afrouxando esse nó em seu estômago.
Mather riu contra a boca de Meira e a pegou nos braços de novo, erguendo-a para poder girar enquanto ela o beijava, cercados pelo caos e pela felicidade e pelas risadas, o princípio do recomeço deles.

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