1 de fevereiro de 2019

Capítulo 36

Ceridwen

CERIDWEN SOUBE QUE algo tinha mudado. A felicidade maníaca de Angra tinha murchado e, através da conexão dele com a magia dentro dela, soube que era como se o cavaleiro tivesse puxado as rédeas do cavalo.
Algo tinha acontecido.
Não havia nada controlado pelo poder de Angra agora — o poder fluía dele em rompantes desesperados de força e magia e ódio, cada necessidade multiplicada por um pensamento súbito e pulsante. Ninguém vai tirar isto de mim.
Enquanto Ceridwen se debatia contra os veranianos que a seguravam, lutando para evitar matá-los e lutando para matá-los — pelas chamas, não queria nada além de arrancar até o último pedaço de carne dos ossos deles, enterrar os dedos nos corações dos veranianos e extingui-los — ela observava Angra, de pé, imponente, sobre o exército.
Ele abaixou os braços e os tendões de magia sombria cessaram. Angra vacilou, mas se conteve. Ninguém vai tirar isto de mim.
Ele podia ter parado de impulsionar magia, mas não significava que tinha perdido o controle. Como sementes enterradas no calor e nas profundezas da terra, a escuridão continuaria a crescer em todos que Angra tinha infectado, mesmo depois que o sol se pusesse.
E ele se pôs.
Angra pegou alguém ao seu lado — Theron, cujo olhar refletia o ódio furioso e lívido que Ceridwen sentia queimando dentro dos próprios olhos — e juntos desapareceram sem olhar duas vezes para a batalha perdida. Theron gritou quando a magia o agarrou de formas que não deveria.
Poucos outros notaram o sumiço de Angra. Soldados gritaram, atacando a infantaria restante de Caspar, espadas deixavam um rastro de sangue no ar. O frenesi deles os levou a lutar como nunca antes, não apenas primaverianos e ventrallianos, mas outonianos e yakimianos também. A maioria dos veranianos tinha conseguido resistir à magia de Angra, e tentara formar linhas de defesa. Mas estavam em número tão menor que a vitória era impossível agora. As pessoas que conheciam, antigos aliados, agora os atacavam desesperadamente, com os olhos semicerrados em um ódio torturado. Não havia nada além de inimigos, armas, morte ao redor — de onde Ceridwen estava, amarrada no meio do grupo de Caspar, não conseguia encontrar uma gota de esperança sequer em meio à carnificina.
Se Angra tinha partido, só podia ser para ir atrás de Meira.
Se ele a encontrasse, tinham fracassado.
Mas a escuridão em Ceridwen se intensificou com alegria. Ela não vai tirar este poder. Ninguém vai tirar isto de mim.
— Lekan — disse Ceridwen, o corpo dela ficou inerte contra os soldados que a seguravam.
Lekan e Caspar conversavam a poucos passos, ambos cobertos de sangue e lacerações, os sinais óbvios de homens arrasados pela guerra. Mas Lekan avançou para Ceridwen. Os olhos dele se alegraram e mostraram a mesma luz que ele reservava para Amelie quando ela perguntava se teriam um lar permanente fora do campo de refugiados. A luz da mentira.
Lekan se ajoelhou ao lado de Ceridwen quando os soldados deixaram que ela desabasse no chão.
— Cerie...
— Desculpe — disse ela, ofegante. — Desculpe... Eu o deixei entrar... Desculpe... eu...
Um grito foi ouvido de algum lugar próximo conforme as fileiras dos soldados de Angra se aproximavam, dilacerando as defesas deles com a magia que Angra lhes dera.
Kaleo jamais a perdoaria se Ceridwen deixasse Lekan morrer.
E Jesse...
Fora por isso que ela se casara com ele. Porque sabia que a vida seria curta demais.
Lekan colocou a mão no ombro de Ceridwen. Um apertão, uma oferta silenciosa de conforto. Estou aqui. Estou com você.
Ceridwen o encarou. Era tudo o que ela conseguia fazer.
Uma explosão entrecortou os gritos de guerra de repente — canhões, todos disparando em uma sucessão rápida e deliberada do lado de Inverno do vale. Dezenas, pelo menos. Será que os soldados de Angra tinham levado tantos assim? Ceridwen gemeu, pronta para que um canhão dilacerasse o grupo a qualquer momento.
Lekan franziu a testa, confuso, e se colocou de pé para se juntar a Caspar, que estava em cima de uma caixa virada e olhava para o vale.
As explosões continuavam, incitando gritos sofridos de dor. Mesmo assim, Ceridwen esperou. Tantos canhões assim significavam que um certamente invadiria as fileiras deles...
A escuridão em Ceridwen se agitou, enfurecida. Não vou terminar dessa forma. Tenho força agora.
Mas, além disso, a pequena parte lúcida de Ceridwen se encolheu, silenciosa e cansada e... pronta.
— Soldados — disse Caspar a Lekan, mas as palavras dele se dirigiam a todos os lados, para cada combatente à espera, exausto, escondido naquele aglomerado. — Sob a bandeira de Yakim.
Apenas um punhado de yakimianos permanecia com eles, mas comemoraram imediatamente, agitando os punhos e gritando para o céu.
— Estão disparando armas — continuou Caspar. — Como os canhões de Angra, mas menores.— Os canhões de Angra? — A expressão de Lekan se contraiu. — Estão lutando ao lado dos soldados deles?
Mas Caspar sorriu.
— Não. Mas só os yakimianos para descobrirem como recriar a arma de Angra para usá-la contra ele.
A área que aquele grupo ocupava estava entulhada de soldados, mas tinham aberto espaço em torno de Caspar, o suficiente para permitir movimentos para ver o campo. Naquela clareira, uma grande onda de luz amarronzada partiu o ar vazio, dobrando-se e contraindo-se até que um homem surgiu.
Um homem surgiu.
Nem mesmo a magia em Ceridwen reagiu a ele, o choque dela era poderoso demais. Não era Angra. Soldados imediatamente se viraram para ele, com armas em punho, mas o homem não pareceu nada preocupado. Sua pele escura se esticou quando ele sorriu, uma cicatriz do lado direito do rosto dele trazendo uma lembrança à mente abatida de Ceridwen.
Ela vira aquele homem antes, em Putnam. Era o criado que tinha escoltado o grupo à universidade e mostrara a biblioteca a ela e a Meira.
Rares.
Ele olhou diretamente para Ceridwen.
— Você fez algo corajoso — disse ele, e incluiu os soldados. — Vocês todos fizeram. Mas a rainha de Inverno chegou ao abismo. O fim se aproxima, e viemos ajudar a apressá-lo. Viemos?
Ceridwen ficou de pé de novo, os braços atados contra a coluna. Quando se levantou, viu mais daquela luz brilhando pelo campo de batalha. Perto dela, entre os soldados deles; longe, próxima ao exército que vinha marchando para a batalha com pequenos canhões sobre rodas. Tudo que Meira contara a Ceridwen passou pela mente dela como a luz do sol por uma janela suja. Paisly. A Ordem dos Ilustres.
Rares sacou uma espada do cinto, as mangas longas e pesadas da túnica dele oscilaram quando ergueu a arma no ar.
— Aqueles que ainda desejam lutar, que o façam sabendo que esta guerra terminará em breve — gritou ele.
Para Ceridwen, Rares lançou um único olhar determinado.
— Aguente firme — disse ele, antes de disparar para longe, na direção dos soldados de Angra. Rares os enfrentou com velocidade ainda maior do que aquela que os soldados mostravam, bloqueando os ataques com rompantes invisíveis que os lançavam pelos ares. De algum lugar no fim do vale, um estalo de trovão irrompeu por cima das constantes explosões das armas yakimianas, e um raio mergulhou do céu em uma seta fervilhante que destruiu um dos canhões.
Os paislianos estavam combatendo os soldados de Angra com magia. Os yakimianos tinham vindo ajudar também — Giselle devia ter mudado de ideia.
Ceridwen vacilou quando as vozes em torno dela se elevaram. Os murmúrios de soldados à beira da derrota viraram a comemoração de pessoas que ganhavam esperança. Era daquilo que precisavam — algo para nivelar a batalha. Uma vantagem para manter o combate por tempo o suficiente para ajudar Meira.
Mas Angra tinha ido atrás dela.
Ceridwen tomou as palavras de Rares, repetindo-as diversas vezes para combater a maré de ódio e necessidade que ainda tomava conta dela.
— Aguente firme — disse Ceridwen, uma súplica que aumentava até que ela estivesse gritando, implorando a Meira para que a ouvisse e continuasse lutando. Era tudo que Ceridwen podia fazer agora. Todos tinham se unido para lutar por aquele mundo, para lutar por Meira, e, que tudo se incendiasse, ela conseguiria.
— Aguente firme — implorou Ceridwen. — Aguente firme.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!