1 de fevereiro de 2019

Capítulo 35

Meira

A PORTA SE fecha assim que Mather e eu passamos. Ela bate a um palmo de meu rosto enquanto estou de pé ali, piscando para afastar as partículas, meu peito inflando com uma respiração difícil que pode ser choro.
— Meira — resmunga Mather.
O som de meu nome me afasta do escudo protetor que tinha usado para nos tirar dali. Ergo as mãos até o rosto, sacudindo a cabeça em um Não repetitivo porque não consigo fazer nenhuma palavra sair.
— Meira — repete Mather, puxando meu braço. Eu me viro, me atiro contra ele, que me segura ao dizer todas as palavras que não consigo encontrar. — Não... talvez ele tenha sobrevivido... podemos voltar...
As possibilidades se desfazem antes de Mather sequer terminar de dizê-las. Fecho os olhos, forçando cada fôlego a combater o choro que sobe por minha garganta como ondas em uma tempestade.
A luz bate contra minhas pálpebras, e quase choro de gratidão pela distração.
Mas quando abro os olhos, só me sinto mais vazia.
Estamos em um corredor longo e estreito. As paredes são de uma rocha saliente preta, o chão é irregular — e na ponta mais afastada, um halo de luz brilha em laranja e amarelo e roxo e azul, em tons alternados.
— Mather — sussurro, e me afasto dele.
Mather recua, virando a cabeça para seguir a minha.
— O abismo de magia — diz ele.
Exatamente.
Mather sacode a cabeça em uma recusa longa e lenta.
— Não.
— Mather...
— É cedo demais. Meu pai... e agora... — A voz dele falha e Mather esfrega a palma da mão na testa. Não digo nada, permaneço imóvel com as mãos no peito. — Não consigo pensar em uma forma de salvar você — diz Mather, por fim, toda a dor da vida dele naquelas poucas e breves palavras.
Ergo a mão até a bochecha de Mather.
— Depois que eu entrar naquela câmara, uma saída se abrirá, parte da magia do labirinto. Corra até ela o mais rápido possível, quando se abrir, significa que pessoas poderão acessá-la pelo lado de fora por um breve momento também. E não quero dar a Angra a chance de...
— Meira, não.
Mas continuo falando, incapaz de parar.
— ... não quero dar a Angra a chance de descer até aqui. Então corra, não pare de correr, e eu vou correr também.
— Meira.
— Ceridwen e Caspar precisarão de você. O mundo precisará de você para ajudar a juntar os cacos...
Mather me cala ao tocar meus lábios com os dele. Não achei que restava algo em mim para se desfazer, mas o beijo dele dissolve minha força.
Esse momento — é nosso último.
Então me atenho a ele o máximo possível, memorizando as linhas ásperas dos lábios dele e a forma como Mather tem gosto de sal e almíscar e felicidade e os músculos que se flexionam quando deslizo os dedos pelo maxilar dele.
Não tivemos tempo suficiente. Mas o restante do mundo terá. Jesse e Ceridwen, Caspar e Nikoletta — até mesmo Theron, algum dia. E Mather. Pela neve, Mather — ele também terá isso algum dia. Com alguém melhor do que eu.
Com alguém que não partirá seu coração.
Eu me afasto de Mather, lágrimas escorrem por minhas bochechas. Ele me olha, seus olhos azuis como joias são tão familiares e perfeitos na forma como parecem meu lar.
Mather entrelaça os dedos com os meus e sorri. O sorriso que definiu tanto da minha vida, me derretendo e preenchendo por inteiro com resiliência. O fato de ele poder sorrir aqui, agora, afasta minhas últimas gotas de medo e preocupação.
Mather perdeu tudo. Os pais, e agora eu também. E mesmo assim, aqui está ele, comigo, ao meu lado, oferecendo apoio e a mão para que eu segure.
Eu me viro com Mather para encarar a luz no fim do corredor. Ela pulsa e se afasta, reluz forte e diminui, um caleidoscópio interminável de cores.
Se eu tivesse que escolher uma forma de morrer, seria assim — em um arco-íris de vida e energia. Sabendo que minha vida é valorizada por outros.
Olho para a parede sólida atrás de nós.
Sabendo que eu fui amada.


Um passo, depois outro, Mather e eu caminhamos lado a lado pelo corredor de pedras afiadas. Nossos passos se aceleram quando mais nos aproximamos, até estarmos correndo. O mais rápido possível. O mais rápido possível. Isso acabará em breve, antes que Angra sequer consiga encontrar a saída que surge, antes que a batalha acima precise se prolongar muito.
O corredor termina, nos jogando em uma caverna ampla que se estende em um espaço rochoso em todas as direções. Um teto se ergue intangivelmente alto acima; estalactites escorrem para baixo como dentes cruéis. O chão se nivela até virar um penhasco sólido que, depois de alguns passos, termina em um poço amplo e sem fundo.
E nesse poço, pendendo abaixo da borda, aguarda a fonte de magia.
Eu a vi uma vez antes, em uma das muitas visões que Hannah mostrou — ou o que quer que fosse aquilo. A magia é exatamente como era então, uma esfera brilhante de energia que estala e chia, pairando por pura vontade no poço. Maior do que o palácio, maior do que toda Jannuari, a magia parece ser uma criatura viva, respirando, oscilando logo além do penhasco, seus dedos de energia serpenteando para fora para acariciar tochas e embebê-las com o poder que fez os condutores, há tantos milhares de anos antes.
O produto daquela magia brilha em todos os cantos, rochas em tons de laranja, dourado, roxo, vermelho, brilhos tênues em cada cor. Exatamente como na entrada, o ar paira pesado e úmido, cada partícula chiando com magia. Condutores, magia, por toda parte, um campo de poder pronto para colheita. Um campo de poder que acabará em breve.
O penhasco se curva de um dos lados do poço, e assim que nossos pés o tocam, as vibrações familiares nos dizem que uma porta se abre onde o penhasco sobe na direção do teto, afastado à esquerda.
É isso.
Afrouxo os dedos e me desvencilho de Mather, incapaz de me permitir fazer outra coisa que não mirar o penhasco, mergulhar em torno de estalagmites e saltar sobre pilhas de escombros brilhantes.
Nunca mais voltarei a vê-lo.
Mas não choro, nem mesmo hesito ao correr. Insisto, porque preciso, porque...
A mão dele desliza de volta para a minha.
Franzo a testa para Mather, mas ele corre mais rápido, acompanhando meu passo.
Mather não correu para a saída.
Mather...
Mas não posso discutir com ele. Não há tempo, não há palavras, nada além de meu coração pulsando e um soluço subindo até meus lábios fechados.
Eu poderia usar a magia para transportar Mather daqui, para a segurança. Mas ele escolheu ficar aqui comigo — fazê-lo partir seria forçar Mather a fazer algo que não quer. Ele quer isso. E não posso fazer nada a não ser deixar que fique.
Acho que parte de mim sempre soube que Mather não me deixaria de novo.
Dois passos até a beira do penhasco. A magia se acende, estalando no ar, chiando para dentro de meu corpo a cada fôlego que tomo.
Um passo até a borda do penhasco.
Os dedos de Mather se apertam sobre os meus.
Devolvo o aperto dele quando nós dois aterrissamos na beira do penhasco. Rochas rolam ao se soltarem, rochas normais, livres de magia, que mergulham para a fonte. Elas se desintegram em rompantes estrondosos da energia que as consome.
Nós também nos desintegraremos.
A magia se intensifica, uma onda de calor cristalizante se estende até mim, até nós.
Estou pronta, penso, construindo um abrigo em torno de mim com essas palavras. Acabe com isso.
Todo o ar deixa meus pulmões e salto. O abismo abaixo de mim se move, me atraindo.
Então estou voando para trás.
Rochas roçam meu ombro. Pedrinhas luminosas se esparramam ao meu redor, novos hematomas se abrem em minha pele quando sou atirada ao chão perto do corredor pelo qual acabamos de correr. Minha mão puxa Mather de volta e ele cai sobre mim e resmunga quando os ombros dele se chocam com a parede de rochas.
Eu me apoio nos cotovelos, desorientada.
Porque quando olho, o mundo está mudando.
O mundo está gritando.
Angra está de pé do lado de dentro da saída recém-surgida, dando passos dolorosos na minha direção. Uma das mãos dele se estende, a sombra da magia de Angra se retrai em torno do braço em uma nuvem negra.
Angra nos puxou de volta.
Ele está aqui. Ele encontrou o abismo.
E ainda estou viva.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!