1 de fevereiro de 2019

Capítulo 34


Meira

QUANDO A PORTA aparece na parede do labirinto, olho por ela e verifico o exterior em busca de outra daquelas chapas que me ajudarão no teste. Mas há somente aquela porta, luz branca invade o salão ao meu redor.
Então me lembro de qual será o último teste.
Purificação do coração.
Embora tenha me ajudado nos outros dois testes, a Ordem só iria querer que aqueles de coração realmente puro passassem pelo labirinto.
É perfeitamente possível que quisessem que todos enfrentassem esse teste sem ajuda.
Mas ajuda não será necessária. Estou pronta para isso; passarei em qualquer que seja o teste que me derem.
Limpo a mente e entro na sala.
E olho boquiaberta para quem está do lado de dentro.
Hannah.
Fico de pé ali pelo que parece uma eternidade antes que o labirinto de Sir o atire por uma porta a minha direita. Ele corre para a frente, vê Hannah e para como se o chão o tivesse agarrado pelos pés.
Ver Sir e Hannah se encarando faz surgir em minha mente a imagem de Rares e Oana. Como eram diferentes dessas duas pessoas diante de mim. E embora nunca tenha sido real, não consigo deixar de ver duas versões de uma vida: Sir e Hannah, meus pais; Rares e Oana, meus pais. Um casal sempre rigoroso e nada amoroso; o outro bondoso e gentil e tudo o que eu queria.
Uma porta se abre à esquerda e Mather entra, com armas na mão e os olhos percorrendo cada um de nós conforme se aproxima de mim.
Que bom, pelo menos um de nós é capaz de se mover.
— Vocês alcançaram o fim do labirinto. Chegaram bem longe — diz Hannah, por fim, arregalando os olhos de forma encorajadora.
— Como você pode estar aqui? — Consigo dizer.
Não falo com Hannah desde antes de sair em viagem pelo mundo, antes de achar que a barreira mágica na entrada do abismo tinha quebrado minha conexão com ela — antes de descobrir que estava mantendo Hannah afastada por conta própria, porque não precisava mais dela.
E eu estava bem com o fato de não a ver. Estava bem quando Hannah tinha desaparecido.
Ver Hannah agora, sorrindo para mim como se fôssemos apenas mãe e filha inocentes, como se eu não estivesse a minutos de morrer pelos erros que ela cometeu, incita uma frustração que irradia calor por meus braços e pernas. Por que ela estaria aqui?
Purificação do coração.
Levo a mão ao peito.
Esse é um teste de coração. Qualquer um que cultive ódio, ou revolta, seria considerado indigno.
Mas achei que tivesse feito as pazes com Hannah na casa de Rares e Oana. Abandonei o ódio que sentia por ela e Sir e percebi que todas as coisas que queria dos dois eram expectativas errôneas que jamais poderiam se realizar.
Sir avança na direção de Hannah, mas os pés dele não se movem, apenas os ombros, curvando-se antes que ele se estique.
Ele está com medo.
Estou suando frio.
— Não acho que seja ela de verdade — digo a Sir.
Hannah sorri.
— Por que acha isso, querida?
Minhas mãos se fecham em punhos frouxos.
— Porque estou bloqueando a verdadeira Hannah há semanas e não parei. Você é um teste. Você é a magia pregando peças em nós.
O sorriso dela se alarga.
— Fui magia desde sempre, não? Algum dia fui a verdadeira Hannah?
Franzo a testa.
— Você...
Uma explicação. Por favor, que haja uma explicação.
Mas quanto mais a encaro, mais percebo que Hannah pode estar certa. Tinha presumido que o condutor que nos liga por nossa linhagem manteve Hannah conectada a mim. Ou será que algum dia foi ela de verdade?
Sacudo a cabeça.
— Pare! Você só está tentando nos abalar. — Eu me viro para Sir de modo que Hannah quase fique atrás de mim. — Precisamos passar por este teste... é um teste do coração.
Sir ainda a encara, os lábios dele formam uma linha fina. Sir não me olha, não reage.
— Você poderia ter me imaginado, Meira. — A voz de Hannah é tão suave quanto me lembro, invocando sentimentos de espanto que me fazem querer ouvir cada palavra com atenção inabalável.
— Não imaginei você — digo a ela, embora continue encarando Sir, enquanto ao meu lado Mather permanece atento. — Nem mesmo conhecia você quando apareceu para mim. Como poderia ter inventado todas aquelas coisas que me contou?
— Como pode você mesma ser um condutor? — replica Hannah. — Como qualquer coisa neste labirinto é possível? Quando tocou as chaves, viu o que precisava ver para chegar aqui. Quando tocou as chapas deste labirinto, elas mostraram a você pedaços dos testes para ajudá-la a passar por eles. Talvez a magia tenha assumido a forma que precisava para ajudar você durante aqueles primeiros dias também. Criou o que você precisava... uma mãe.
Eu me viro para Hannah, enterrando as unhas nas palmas das mãos.
— Fiquei em paz em relação a você em Paisly. Vi como verdadeiros pais são, vi o que uma verdadeira família pode ser. E sei que qualquer que fosse o relacionamento que tive com você, estava errado. Tudo que você fez foi culpa sua, e nada disso é meu fardo. Mas consertarei seus erros, Hannah. Sou melhor do que você.
— Eu sei — diz ela, e sorri de novo. — Não é seu coração que precisa de paz.
Minha boca se entreabre.
— Quem...
Hannah se vira para encarar Sir.
— Dei ela a você para que a protegesse. Ela foi obrigada a procurar ajuda da magia porque você fracassou.
Sir.
Pânico irradia em mim. Em choque, dou dois passos na direção de Sir, mas mesmo assim ele não desvia os olhos de Hannah.
— Sir, não dê atenção a ela! Olhe para mim...
— Você falhou comigo, general — diz Hannah, e dessa vez, a amargura na voz dela é evidente. — Falhou com Inverno.
— Ele não falhou com Inverno! — Eu me viro para Hannah.
Mather surge ao meu lado, coloca a mão em meu ombro, tentando me puxar para longe.
— Ele precisa passar nesse teste.
Eu me coloco diretamente em frente a Sir, falando apenas com ele.
— Hannah causou tudo isso. Ela causou tudo isso.
Sir pisca. Um movimento que me faz suspirar aliviada, até que ele se volta para meu rosto, como se me visse pela primeira vez.
— Cresci com sua mãe. Já contei isso?
Paraliso. Mesmo Mather, ainda tentando me convencer a me afastar, para. Nós dois reconhecemos a melodia na voz de Sir, o tom que ele sempre tomava ao recitar as lições de história.
— Ambos éramos crianças na corte de Inverno. Assim como vocês dois cresceram juntos. — Sir inclui Mather com um olhar. — Eu via o desconforto dela na juventude. Via os erros dela, as crises, as falhas, o que tornou mais difícil do que eu esperava vê-la coroada rainha depois.
Sir olha além de mim, para Hannah.
— Cometi o erro de não tratá-la com o respeito devido à posição. E quando ela ficou mais solene e distante conforme a guerra se intensificava, eu a consolei como um amigo ajudaria outro, não como um soldado ajudaria a rainha. Deveria ter sido apenas o general dela, e não fui. Deveria ter guiado Inverno para longe do caminho pelo qual ela nos levava, e não o fiz.
Pego os braços de Sir.
— Você não sabia que Hannah tinha feito um acordo com Angra. Não pode esperar...
Os olhos de Sir se voltam para mim e ele ergue as mãos até meus braços. Jamais me tocou dessa forma antes — de um modo desesperado que parece muito que está implorando. Delírio percorre os olhos de Sir quanto mais ele fala, despertado por Hannah, por aquele labirinto, por tudo que suportamos durante as últimas décadas, e enquanto o observo, o terror que irradia de mim é diferente de tudo que já vivenciei.
Tenho medo por Sir. Eu tenho medo por Sir.
— Jurei para mim mesmo que não cometeria mais aquele erro — diz ele para mim, fechando os dedos ao meu redor. — Disse a mim que veria você como uma rainha em todos os momentos de sua vida, para que jamais perdesse o foco. Mas mesmo assim fracassei.
Lágrimas. No rosto de Sir.
— William. — Minha voz falha. — William, pare...
— Angra tomou meu reino — continua ele. — Não pude criar meu filho como meu. Fiz tudo que podia, mas não bastou, e o único motivo que encontrei foi... você.
— Eu? — Se Sir não estivesse segurando meus braços, eu desabaria aos pés dele.
— Foi uma tolice tão grande de minha parte. — As mãos de Sir estremecem. — Percebo agora, Meira. Culpei você durante anos. Mas você jamais aceitou essa culpa, não foi? Pela neve, lutou contra ela, lutou contra mim em todas as chances que teve. E acho que em algum lugar em meio a essa luta, percebi que essa culpa estava mal direcionada. Não era você o motivo de nosso fracasso no passado, você era o motivo da esperança no futuro. Posso não ter conseguido criar Mather como meu filho, mas pude criar vocês dois.
Meu coração salta contra as costelas, cheio até quase explodir.
— Mas você está certa — diz ele, gargalhando. — Está certa. Tudo isso, tudo o que aconteceu, foi culpa de Hannah. E de Angra. E deixei que eles tomassem ainda mais de nossas vidas ao colocar a culpa na pessoa errada por tanto tempo. — Os olhos de Sir se desviam para Mather. — Desculpe por eu não ter sido um pai melhor.
Ele se vira para mim.
— Desculpe porque não fui um pai melhor para vocês dois — diz Sir para mim, e o pedido de desculpas recai diretamente sobre meu ouvido quando ele me puxa para a frente.
Sir está me abraçando.
Em Paisly eu também tinha ficado em paz em relação a ele. Eu me resignei aos papéis que Sir tinha escolhido para nós, e estava bem com isso.
Só que não estava.
Porque, envolta nos braços de Sir, eu desabei.
Na visão que Angra arrancou de mim em Abril, tenho dezesseis anos e estou abraçando Sir. Tenho dez anos e choro no colo dele depois das mortes de Gregg e Crystalla. Tenho seis anos, me balançando para trás e para a frente nos braços de Sir depois de um pesadelo, a única vez em que ele me abraçou voluntariamente, e o episódio está marcado em meu coração, erguendo-se como um farol para tudo que sempre quis de nossas vidas.
Abraço Sir pela cintura agora, enterro o rosto nele. Poeira do labirinto gruda na camisa dele, as formas de pequenas facas em bainhas pelo peito de Sir pressionam meu rosto. O coração dele bate em meu ouvido, seus pulmões se enchem com fôlegos roucos parecidos com os meus.
Isso é melhor do que todos aqueles momentos. Isso os apaga e começa de novo.
Eu me levanto e olho para Sir, e estendo a mão para Mather, chamando-o.
— Nós consertaremos isso, juntos, e o mundo será curado.
As lágrimas que caem pelo rosto de Sir brilham nas bochechas dele, caindo nas rugas em torno dos olhos. Ele ergue a cabeça para olhar para Hannah de novo. Ela ainda está ali? Não importa. Passamos por esse teste, todos nós. Estamos curados agora, e podemos seguir em frente. Juntos.
Uma fenda se abre em minha alegria.
Não, não estaremos juntos. Mas morrerei sabendo que Sir me ama. Morrerei sabendo que tudo que sempre quis para nós não era um desejo vazio — ele se realizou.
A fenda faz um barulho tão alto ao se abrir que ecoa em meus ouvidos quando o olhar de Sir passa de uma alegria amarga para apenas tristeza.
Tristeza impiedosa, gritante.
— Um teste de coração — sussurra ele. — Devemos perdoá-la.
— Perdoamos — digo a Sir, mas o olhar dele... — Podemos ir...
O chão retumba quando a porta à esquerda se abre, algo preto e alto começa a se formar em minha visão periférica.
— Uma porta! — grita Mather. — Venham, podemos...
Mas o chão não para de retumbar. E Sir não se move.
Puxo os braços dele, e Mather dispara para ajudar, nós dois puxamos e gritamos conforme o chão treme. As pilastras em volta da sala reagem às vibrações, pedaços de rocha se partem e se estilhaçam em pequenas explosões a nossa volta.
Sir pega meus ombros. Seus olhos estão calmos demais, compreensivos demais.
— Corra.
— Você também precisa correr! — grito, por cima do rugido crescente da sala se desfazendo.
Mas Sir sacode a cabeça. Ele indica as pernas, dobra os joelhos subitamente para demonstrar.
Sir parou de andar conforme entrava na sala, como se o chão tivesse agarrado os pés dele. E agarrou. Sir não perdoou Hannah. A sala não o deixará partir até que a perdoe.
— Precisa perdoá-la! — Minha voz grita, desesperada, meus dedos estão agarrados à camisa de Sir. Mather segura o braço de Sir, os olhos dele passam de nós para a porta, os escombros se acumulam a cada desabamento, os azulejos do piso se quebram e...
Pela neve... o chão está começando a se desintegrar, como das outras vezes em que nos engoliu. Mas esses buracos não são túneis para nos jogar no próximo teste nem estão envoltos em chamas como na primeira sala, estão apenas vazios. São apenas escuridão.
— Não, Meira. — Sir solta meus dedos da camisa, ainda muito calmo. — Eu precisava perdoar você. Mas não posso perdoar Hannah, principalmente pelo destino que ela causou a você. A todos nós. — Sir sacode a cabeça. — Não posso. Sinto muito.
Mather para.
— Você não... não. Precisa vir conosco!
Sir olha para ele.
Coloca a mão no ombro do filho.
E o empurra para a porta.
Então me encara. , indica ele com os lábios.
Choco meu corpo contra Mather, travando os braços em torno dele e nos impulsionando na direção da porta. Buracos imensos entravam nosso caminho, me fazendo puxá-lo para trás e para a frente conforme saímos aos tropeços, nos debatendo. Mather cambaleia ao meu lado e solta um grito doloroso que martela meu coração.
Chegamos à porta e empurro Mather por ela, parando apenas uma vez.
A cena atrás de mim é uma confusão de pedras e azulejos e buracos se abrindo. No meio de tudo, Sir e Hannah estão de pé, imóveis, se encarando.
Uma pilastra cai, aterrissando a dois passos de mim, e salto para a saída assim que o chão inteiro desaba para o nada.

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