1 de fevereiro de 2019

Capítulo 32

Mather

O ÚLTIMO TÚNEL cuspiu os três em uma pequena área quadrada ladeada por paredes lisas. Tochas tremeluziam em três das paredes, projetando luz o suficiente para que Mather voltasse os olhos para Meira, verificando qualquer ferimento que ela pudesse esconder.
Mas Meira foi a primeira a ficar de pé, com as mãos batendo distraidamente na calça para retirar a camada de poeira que se prendeu a cada espaço livre em todos eles.
— Isso foi fácil demais — sussurrou Meira.
Mather verificou que nenhuma das armas tinha se soltado durante a queda, então passou para o lado de Meira.
— O que você esperava?
Meira gesticulou com os ombros e finalmente olhou para ele, fixando o olhar em Mather. Olhando para ele de verdade, como tinha feito em Outono.
Mather se sentiu fraco.
Meira interrompeu o olhar ao inclinar a cabeça.
— O teste seguinte será de humildade — disse ela, direcionando a afirmativa para William também, que tinha ido mais para o interior da sala com passos excessivamente cautelosos. Duas quedas inesperadas em túneis misteriosos tinham deixado todos um pouco desconfiados do chão.
— Como sabia como completar aquele teste? — perguntou William a Meira enquanto analisava a sala.
Meira também começou a olhar em volta, embora seu olhar estivesse concentrado no chão. Um momento se passou, e Meira parou, de pé bem no centro da sala.
Ela se agachou e limpou poeira. As tochas iluminaram o que quer que Meira tenha revelado — um espelho? E daquele ângulo, Mather conseguia ver que o símbolo que tinha decorado o complexo de Rares e Oana estava entalhado na superfície reflexiva. O raio de luz que atingia o topo da montanha.
Meira pressionou a mão contra o espelho e permaneceu ali, com o corpo rígido. O estômago de Mather ficou ainda mais revirado de ansiedade. Quando ela ergueu o rosto, lançou um olhar fixo para William.
— A Ordem criou o labirinto para manter longe qualquer um que abusasse da magia — disse ela. — Mas no fim queriam que alguém digno o alcançasse para destruir toda a magia... então deixaram essas chapas, assim como deixaram as chaves que encontrei. — Ela gesticulou quando viu que tanto Mather quanto William franziam a testa. — Nunca contei isso a vocês, mas não importa. Isso são condutores suficientemente embebidos com magia para oferecer visões sempre que um possuidor de condutor com a intenção de alcançar o abismo tocar neles. O último espelho me mostrou o caminho que precisavam tomar para atravessar a sala.
— O que este mostrou a você? — perguntou William. Ele aceitou a explicação de Meira com muita facilidade. Não que Mather esperasse que William debatesse com ela, mas precisou trincar o maxilar para evitar fazer um monte de comentários inúteis, como: Essas pessoas colocaram muita fé em que um possuidor de condutor chegaria ao labirinto Estão ajudando você a morrer mais rápido. Odeio eles.
Meira ficou de pé, franzindo a testa para as paredes da sala. Mather acompanhou o olhar dela...
E quase deu um salto de volta ao túnel.
Esse lugar fazia coisas terríveis com os instintos de soldado dele... cada músculo de Mather estava pronto para o ataque, cada pensamento dele dizia para sacar as armas. Mas até então não tinham visto inimigos físicos, apenas a sensação dormente de uma emboscada que se aproximava a cada respiração.
Se era assim que morreriam, atraídos para algum final fantástico sem inimigos exceto por túneis místicos e plataformas reluzentes, Mather ficaria louco muito antes de morrer.
Aquilo para que Meira franzia a testa, o que Mather jurava que não estava ali momentos antes, eram portas. Três delas nas paredes ao lado de cada tocha.
Meira se aproximou da porta à esquerda, as mãos dela recaíram distraidamente sobre as faixas do coldre do chakram.
— Há três portas — disse ela. — E três de nós.
Mather se assustou.
— Precisamos nos separar?
A recusa devia estar clara na voz dele, porque os ombros de Meira se curvaram um pouco. Mather conteve mais uma réplica. Aquilo era difícil o bastante para Meira sem que ele questionasse cada pensamento dela, mas o que esperava dele? Que Mather silenciosamente concordasse com cada ideia que a aproximava da morte?
Havia três tarefas, no entanto, e aquela era apenas a segunda. Eles passariam por aquela e ainda teriam mais uma antes que Mather precisasse pensar em uma forma de salvar Meira.
E talvez aquele maldito labirinto desse a resposta.
— Tudo bem — cedeu ele. — Fico com a do meio.
Mather seguiu na direção dela, mas Meira o interceptou. O corpo dela tocou o de Mather, a boca de Meira foi até a dele em um beijo imóvel, congelado, como se quisesse simplesmente absorver a sensação.
— Este é um labirinto de humildade — disse ela. — Estamos por conta própria nele. Foi tudo o que esta chapa me mostrou, um labirinto, cada um de nós sozinho.
Mather riu.
— Por que tenho a sensação de que está preocupada comigo?
— Bem, você não é o homem mais humilde que conheço.
— Minha senhora, estou magoado por ter tão pouca fé em mim.
Quando Meira o soltou, tinha estampado no rosto o mesmo olhar que dera a Mather no último teste, confiança e seriedade e atenção destemida.
Ela olhou para William, que permanecia à porta à direita, observando os dois com uma expressão que mais uma vez impulsionou a necessidade de Mather de defender seu relacionamento com Meira. Mas William apenas abaixou a cabeça em uma reverência respeitosa.
— Nos vemos do outro lado — disse ele a Meira. — Onde quer que seja.
Meira e William ergueram a tocha ao lado das respectivas portas e as levaram consigo, entrando na escuridão que se dissipava graças à poça constante de luz das chamas das tochas. Mather inspirou e esperou, imóvel, até que as luzes de Meira e de William fossem engolidas pela escuridão adiante. Quando nenhum dos dois gritou por ajuda, Mather endireitou os ombros e se aproximou da porta no centro, a luz tremeluzindo quando ele ergueu a tocha. Ferro compunha a base de um compartimento de combustível, mais provavelmente óleo, e Mather estremeceu ao se perguntar como aquilo ainda estava ali depois de tantos milhares de anos.
A chama fazia o calor escorrer pelos dedos de Mather, e ele passou pela porta, avançando devagar, aos poucos. Paredes se erguiam em torno dele, terminando antes do teto, mas ainda assim altas demais para que Mather escalasse. Uma camada espessa de escombros e poeira cobria o chão.
Mather dera apenas dois passos para dentro quando uma lufada de ar o atingiu pelas costas.
Ele pegou uma faca e se virou, agachando-se, percorrendo com o olhar a parede atrás de si.
parede atrás de si? A porta, a abertura que levava de volta à sala em que tinham sido jogados, sumira.
Mather empurrou com o ombro a parede recém-surgida, sabendo, mesmo ao fazê-lo, que ela não cederia. Aquele teste tinha realmente a intenção de separar os três.
A chama brilhou mais forte por um segundo quando Mather — a respiração presa na garganta — virou de costas para ver o corredor. Nenhum lugar para ir agora, além de seguir em frente.
Os passos dele se tornavam menos cautelosos à medida que avançava, adentrando mais no labirinto. Curvas se abriam vez ou outra, corredores se ramificavam à esquerda ou à direita, bifurcações dividiam o caminho em dois, corredores sem saída surgiam em cantos cegos. Mather bateu em outra parede sem saída, a quinta até então. Agora sabia por que Meira temera por ele — jamais fora bom nessas coisas, tarefas que requeriam paciência, análise e uma mente aguçada e inteligente. Meira não teria problemas com aquilo. William também não. Os dois deviam estar esperando por Mather naquele momento, onde quer que o teste os tenha largado, conspirando sobre qual seria a melhor forma de entrar no labirinto para salvá-lo.
Ótimo — Mather fizera aquela jornada para salvar Meira e seria ela quem precisaria salvar a ele.
Mather se virou, marchando de volta para o último lugar no qual tinha virado errado. Não — ele atravessaria aquele maldito labirinto. Descobriria os segredos dele e pensaria em alguma forma de tornar aquilo tudo nada mais do que uma história de aventura que contariam aos filhos um dia.
Mather abriu uma faca para entalhar um X do lado esquerdo da parede na qual tinha virado à esquerda. Agora, se passasse por ela de novo, saberia que estava andando em círculos e que deveria virar à direita.
Depois de mais alguns passos, Mather entalhou outro X.
Uma ramificação de quatro corredores. Dessa vez à direita. X.
Mather moveu a bolsa que estava presa ao peito dele, o conteúdo dela roçando contra as costas. Suor escorria pela coluna e descia em gotas oleosas pelo rosto de Mather, mas ele afastou o cabelo cheio de poeira usando o pulso e entalhou um X ao virar à direita de novo.
Outro corredor ramificado. Mather fez menção de entalhar uma marca ao virar à esquerda...
Mas então resmungou para a pedra quando um já o encarava de volta. Ele estava andando em círculos.
Mather disparou para trás, mergulhou para o corredor à direita e parou apenas para entalhar um trêmulo nesse. Direita, direita, esquerda, reto...
Até que deu com um corredor com letras entalhadas em todas as curvas.
— Droga! — xingou Mather.
Ele disparou correndo, reto, à esquerda, reto, tomando o caminho mais diretamente adiante que conseguiu. Bastava de círculos, bastava de curvas se pudesse evitar...
De novo de volta ao corredor com um em cada curva.
Se o labirinto queria jogar daquela forma...
Mather jogou a tocha no chão, a chama subiu quando bateu na pedra, mas continuou acesa. Mather não pensou na chama se extinguindo; não pensou muito em nada além da frustração daqueles corredores, da escuridão que se estendia sempre adiante, as paredes se fechando ao redor em disposições que pareciam quase debochadas. Será que as paredes podiam debochar dele? Aquelas paredes podiam, e quando Mather atacou a mais próxima, jurou ter ouvido a parede gargalhar.
A adaga de Mather raspou furiosamente a pedra, entalhando um tosco apoio para o pé. E outro, um pouco mais alto; e mais um, e outro, até que Mather precisou se levantar sobre os primeiros apoios para entalhar mais. Devagar, foi entalhando até subir, lascando a rocha e lançando uma chuva de projéteis.
Mather enterrou a adaga na parede a cerca de um braço do topo. Mais um apoio para o pé e ele conseguiria ficar no topo e ver aquele labirinto — pelo menos até onde a luz mostraria.
Mas enquanto Mather se esforçava para arrancar mais um pedaço de rocha, a parede... tremeu.
Mather enrijeceu, as pernas dele se agarraram aos apoios de pé improvisados, as duas mãos envolveram a adaga cravada na parede. Um segundo tremor percorreu a pedra até o alto, esse mais deliberado e sem nenhum aviso, e cada apoio de pé que Mather tinha entalhado sumiu.
Ele se agitava contra a parede agora lisa, apenas a faca restando como apoio. Mas mesmo isso deixou Mather na mão quando a parede pareceu ejetar a arma como uma flecha saindo do arco.
Mather caiu, chocando-se contra a pedra conforme deslizou por pelo menos duas vezes a própria altura antes de desabar com um estampido...
Sobre a tocha.
A luz se apagou sob Mather, envolvendo o labirinto em escuridão.
Ele achou que entendia a escuridão. O tempo que passara nas planícies Rania dera novo significado à palavra, quando noites sem luar caíam e as fogueiras deles se extinguiam. Nuvens de tempestade avançavam às vezes, projetando tons de cinza à escuridão, e Mather se lembrou de ficar de pé na fronteira do acampamento, petrificado, mas se forçando a suportar a sensação crepitante de estar cego, porém cercado. Inimigos podiam estar bem diante dos olhos dele, mas Mather, perdido, desorientado, era incapaz de vê-los, não importava o quanto se esforçasse.
Era o que ele mais temia: ser incapaz de perceber o perigo mesmo que estivesse bem diante dos olhos dele.
Como com Meira.
Mather se levantou com um salto, lâminas novas nas duas mãos, os ouvidos se esforçando para compensar a falta de visão. Pensar em Meira impulsionava a vontade dele, levando-o a um frenesi.
Sim, como com Meira. Da forma que, mesmo deitado ao lado dela à noite, mesmo beijando-a e tocando-a e tendo Meira bem ao seu lado, Mather não conseguisse ver que tipo de perigo a possuía. Não podia protegê-la.
Não podia protegê-la.
Mather atacou o nada.
— Droga! — gritou ele, ao se chocar contra uma parede, a pedra rasgando seu ombro. — DROGA!
Mather se virou, esfaqueando o ar, o suor escorria por seu corpo em ondas.
Se não saísse dali, não poderia proteger Meira. Ela seguiria com William para o teste seguinte, e, depois disso, William deixaria que Meira morresse. Ela caminharia para qualquer que fosse o fim que tinha planejado, um que Mather não podia ver, um inimigo agachado na escuridão, sorrateiro, esperando com mãos ansiosas e impiedosas para destruir a melhor parte da vida dele.
— Não! — Uma das lâminas de Mather atingiu a parede e saiu da mão dele, tilintando na escuridão. Os músculos doíam, a garganta queimava com sede, e ele se curvou contra a parede, com a testa contra a pedra empoeirada.
Não. Ela não morreria. Não morreria. Mather a salvaria. Ele sairia dali — droga, ele sairia dali...
Mather caiu no chão, os joelhos contra a pedra. Jamais tinha se sentido tão impotente, nem mesmo quando Herod tinha capturado Meira. Algo a respeito daquele lugar, daquela escuridão, a ameaça iminente de perdê-la, fazia com que cada medo e dúvida e ódio se reunissem no coração dele. Cada osso do corpo de Mather doía, e ele desabou para a frente, querendo se descontrolar, querendo se dissolver.
— Você não é o homem mais humilde que conheço — disse uma voz.
Mather exalou, a poeira foi soprada como uma nuvem que cobriu o rosto dele.
— Este é um teste de humildade. Você não é o homem mais humilde que conheço.
— Meira! — Mather se colocou de pé, cambaleando para a frente. — Meir...
Ele parou. Não era ela. Meira dissera aquilo para ele antes de partirem.
Mather tomou fôlego para se acalmar. Será que estava alucinando?
Um teste de humildade. Os testes tinham sido projetados para se certificar de que apenas aqueles que eram dignos chegassem ao abismo de magia. E humildade significava ser capaz de reconhecer a própria falta de valor e admitir coisas como... derrota.
A reação instintiva de Mather a isso foi um estrondoso Nunca. Admitir que não pudesse fazer algo ia contra tudo que Mather jamais fora, principalmente quando esse algo envolvia Meira. Não... ele pensaria em uma forma. Sairia dali. Ele a salvaria.
Mather se ajoelhou de novo, com as mãos espalmadas e vazias sobre as coxas.
Humildade.
— Não consigo... — Ele começou a falar, a determinação envolvendo as palavras. Mas ele conseguiria. Se tentasse com mais afinco; se conseguisse escalar as malditas paredes; se, se, se...
Se admitisse que não pudesse fazer aquilo, que outras palavras sairiam em uma torrente da boca de Mather?
Não consigo salvá-la.
Sei que não consigo salvá-la.
Ela morrerá, e ficarei ali de pé, incapaz de fazer qualquer coisa a não ser vê-la partir.
Mather se curvou, levando a testa aos joelhos.
Aquele teste estava invadindo a mente dele. Ele precisava sair. Mas ao sair... ainda assim Meira iria morrer.
— Não posso fazer isso — disparou Mather, e a fúria fervilhava em seu estômago.
Nada aconteceu. Mather se levantou, olhando com raiva para a escuridão. A magia presente ali conhecia o que havia em seu coração. Mather precisava ser honesto, humilde.
Tudo bem.
Ele podia não ser capaz de salvar Meira. Mas não permitiria que ela fizesse aquilo sozinha.
Mather engoliu em seco, desejando que os lábios se movessem e liberassem palavras com intenção, com submissão.
— Não consigo — disse ele, com os músculos tensos — fazer isso.
O chão tremeu de novo, uma lufada de ar soprou frio em um rompante muito necessário de alívio. A tensão de Mather arrefeceu assim que ele viu um buraco se abrir na parede.
Luz branca vazou para o labirinto, inundando a total escuridão dos corredores. Mather se levantou com um salto e mergulhou para a luz.
— Meira! — gritou ele. — William...
Os nomes ecoaram de volta para Mather alto demais, um eco de barulho que ricocheteava de paredes muito mais lisas do que a pedra entalhada do labirinto até então. Os olhos de Mather se ajustaram à luz, a dor na cabeça dele era lancinante quando Mather observou a sala. Um piso de azulejos de quadrados pretos e brancos se estendia em um retângulo perfeito, pilastras brancas guardando cada lado. O teto... não havia teto. Apenas aquelas pilastras se estendendo infinitamente, terminando em uma nuvem de luz marfim brilhante.
Os instintos de Mather despertaram novamente conforme ele procurava mais armas. Uma adaga e uma das espadas que usava às costas. Mather se virou, as armas em punho, o corpo ansiando por uma luta enquanto a mente tentava falar racionalmente contra a euforia de ter um inimigo que pudesse ver.
Porque... bem, esse inimigo ele podia ver.
E poder vê-lo era um conflito com todas as explicações lógicas em que Mather conseguia pensar.
Três figuras estavam na sala. Uma era Meira, um pouco mais coberta de poeira do que estivera, mas sem ferimentos; outra era William, com as mãos livres de armas e o rosto completamente lívido como uma expressão tão assustadora quanto a morte que Mather não compreendia.
Até que ele reconheceu a última pessoa na sala com os dois.
Quando eram crianças, William encontrara diversos livros sobre o reino de Inverno, e em um, um retrato da rainha Hannah a estampava como uma mulher de estatura pequena e bela, com cabelo branco e longo e uma expressão serena. Mather olhava para aquela foto sempre que podia, desesperado por sentir alguma conexão com a mulher que, na época, ele achava ser sua mãe.
Agora aquela pintura tomava vida diante de Mather, e ele se viu encarando a rainha Hannah Dynam.
— Vocês alcançaram o fim do labirinto — disse Hannah, sorrindo. — Chegaram bem longe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!