1 de fevereiro de 2019

Capítulo 31

Meira

TOCHAS ILUMINAM UMA sala que se parece exatamente com o que eu me lembrava — o piso com padrão de diamantes; a condensação úmida de magia no ar; a porta com os entalhes elaborados alguns passos atrás de onde nos posicionei, bem em frente à sala ao lado da barreira invisível, nosso primeiro obstáculo para alcançar o abismo.
Da última vez em que estive aqui, o mundo era um lugar completamente diferente. Theron estava comigo, era meu aliado e não inimigo; fiquei parada diante daquela porta com espanto e apreensão, não determinada e decidida.
A maior diferença agora, no entanto, são os soldados que nos esperam ao longo da parede da frente.
Puxo o chakram e deixo sair voando.
Minha lâmina está coberta de sangue antes que Mather e Sir sequer tenham se situado na sala.
Mais uma onda de magia livra os corpos deles dos efeitos da viagem. Os dois se viram, se juntam à luta, e em segundos os cordellianos estão mortos, rios densos de sangue escarlate preenchem os entalhes do assoalho.
Embainho a arma e marcho até a porta imponente, com as mãos fechadas, os olhos determinados.
Dedos seguram meu braço.
— Meira, espere...
— Não — disparo, incapaz de olhar para Mather. — Se eu parar para pensar, desabo. Por favor, Mather.
Não consigo pensar nos desejos de Theron ou em Ceridwen e Caspar travando minha guerra ou em Conall e Nikoletta no acampamento, ou em Rares e Oana — pela neve, o que devem estar fazendo? Será que foram bem-sucedidos em reunir apoio? Será que algo aconteceu com eles?
Mather para, a mão dele se afrouxa.
— Tudo bem. Como entramos?
Esfrego os olhos e me volto para a porta.
— Juntos.
Sir se coloca do meu outro lado, e o silêncio dele, que geralmente me lançaria em uma espiral de frustração, me deixa infinitamente agradecida agora.
Nós três formamos uma fila, encarando a porta.
— Lembrem-se — sussurro —, precisamos estar unidos em nosso desejo de chegar ao abismo.
Mather aperta minha mão, entrelaçando nossos dedos.
— Estamos com você.
Sir também pega minha mão.
— Até o fim — diz ele. Isso é tudo. Nada de minha rainha, apenas apoio.
Eu sei, então, que tomei a decisão certa. Não há mais ninguém que eu preferiria que estivesse comigo.
Começamos a andar, dando passos lentos e deliberados pela sala. Cada passo nos aproxima da barreira, e prendo o fôlego, meu corpo se lembrando da terrível sensação da barreira destroçando meus nervos.
Tento não encolher o corpo conforme atravessamos o meio da sala, a barreira invisível. Mas continuamos andando, sem obstáculos ou dor, e assim que passamos, cada partícula de ar parece um fôlego coletivo. A densidade da magia assume uma nova aura — se antes parecera presente, mas quieta, com a umidade sufocando o ar com poder, agora ela faísca contra minha pele, pequenos rompantes de um estado de alerta que me inundam com um inegável senso de propósito.
O labirinto nos quer aqui — a magia nos quer aqui.
Talvez durante todo o tempo em que Primoria queria redescobrir o abismo de magia, o próprio abismo queria ser redescoberto.
Paramos logo diante da porta. Mather estremece ao meu lado.
— Isto é... incrível.
Sir repete o espanto dele soltando o ar ruidosamente.
— E agora?
Sempre o pragmático. Solto as mãos deles e deslizo para frente com mais um passo cauteloso. A porta está a poucos passos de distância, mas não há maçaneta que eu consiga ver, apenas aqueles buracos para as chaves nos entalhes de vinhas, livros e máscaras perto do símbolo da Ordem dos Ilustres no centro.
Tiro as chaves da corrente em torno do meu pescoço e entrego uma a Sir e uma a Mather. Eles se aproximam das fechaduras de cada lado daquela que escolhi e erguem as chaves.
Importa qual chave entra em qual fechadura? Acho que descobriremos.
— No três — digo, e conto. Mergulhamos as chaves nas fechaduras, giramos e... esperamos.
Todas se encaixam, mas nada acontece.
Recuo um passo da parede.
— Talvez precisemos...
Mas minha voz é arrancada da garganta por um ataque súbito de escuridão.
Mather e Sir gritam. Meu corpo registra a leveza da queda conforme a luz das tochas some acima de mim. A queda faz com que meu pânico precise correr para me alcançar quando me choco contra a parede de um túnel que se inclina infinitamente para baixo, me guiando para dentro da terra.
Mather e Sir não estão nesse túnel comigo — não que eu consiga ver, pelo menos. Quando recupero o fôlego, o túnel me joga em um piso de pedra lisa, a escuridão dá espaço a uma luz intensa e clara que é de alguma forma... antiga.
Não tenho certeza se há um lugar de meu corpo que não esteja ferido. Um gemido gorgoleja da minha garganta quando me viro sobre os cotovelos, com a cabeça ainda girando.
Mas essa desorientação recua com um rompante de clareza quando me viro e descubro que o piso de pedra simplesmente termina.
Recuo às pressas, com o coração galopando de novo.
Estou na beirada de uma queda, a pelo menos sete andares de altura, sobre uma longa sala retangular. O túnel que me jogou aqui oferece a única saída, mas uma olhada para a pedra lisa das paredes me informa que escalar não é uma opção.
Fico de pé, levo uma das mãos a um machucado especialmente ruim na têmpora. O pânico residual da queda deixa um gosto metálico em minha língua. Deve ser o primeiro teste de nosso valor. O que dizia a pista da Ordem?

Três pessoas o labirinto clama
As que nele entrem com intuito sincero
Para enfrentar um teste de liderança,
Um labirinto de humildade,
E purificação do coração.
Que será concluído apenas pelos verdadeiros.

Este será o teste de liderança.
Abaixo o braço. Rares mencionou que não foi dito à Ordem quais seriam as verdadeiras tarefas, além dessa mensagem, e eu também não me perguntei o que seriam. Em parte porque não tinha ideia de por onde ao menos começar a me perguntar, e em parte porque um pedaço de mim não acreditava de fato que eu chegaria até aqui.
Mas estou aqui. No labirinto. Um lugar que ninguém mais alcançou em séculos.
Respiro fundo. Cheguei até aqui. Posso passar por esses testes também.
Poços de fogueiras crepitantes cobrem a sala. Um altar circular espera diretamente abaixo de mim, longe demais para saltar sem que isso me garanta diversos ossos quebrados. Além dele, uma parede se ergue pela metade, dividindo a sala inteira ao meio.
Fico de joelhos e me curvo sobre a beirada, tentando ver melhor. Como o chão da câmara da entrada, esse piso parece ser entalhado, embora não com diamantes e sim plataformas. Formas desencontradas se espalham de uma parede a outra em cada lado da divisória, e os limites têm entalhes mais profundos do que o normal, o que causa a ilusão de que cada plataforma é independente das demais.
Isso já teria sido estranho o bastante, mas quando me inclino para enxergar melhor, meus dedos tocam algo frio na beirada. Recuo sobressaltada, minha mão formiga de um jeito que conheço bem demais — é magia de condutor.
Uma pequena forma oval prateada está embutida na rocha, coberta com a poeira fina e marrom da idade. Uso a bainha da manga para limpar a poeira — e sou obrigada a rir.
É um espelho. A princípio, parece um espelho qualquer, mas quando inclino a cabeça para o lado, a luz o alcança e revela uma imagem luminosa — o selo da Ordem dos Ilustres. Exatamente como aquele que encontrei na biblioteca de Yakim. Esse, no entanto, está firmemente plantado na pedra; não é um dispositivo para ser manuseado como aquele em Yakim. Franzo a testa para o selo, então toco a superfície reflexiva com o dedo.
Imediatamente, as plataformas abaixo de mim começam a brilhar em tons suaves — verde, branco, marrom, vermelho, castanho, prateado, dourado e roxo. Pela neve — são as cores dos condutores. Branco para Inverno, marrom para Outono, vermelho para Verão, prateado para Ventralli, dourado para Yakim e roxo para Cordell. O verde e o castanho devem ser para Primavera e Paisly.
De novo, minha mão começa a formigar, e sei que essa chapa espelhada foi embebida em magia, assim como as chaves. Quando as toquei, elas me mostraram visões do que eu precisava fazer para alcançar o abismo. Talvez a chapa me mostre o que preciso fazer a seguir? Faz sentido — se a Ordem criou este labirinto para manter de fora as almas indignas, mesmo assim gostariam que uma alma digna passasse por ele algum dia, para livrar o mundo da magia segundo o objetivo original. Mas como se certificar de que uma alma digna passaria nos testes quando chegasse o momento?
Desço as barreiras que tenho na mente e me abro para qualquer ajuda que o lugar possa oferecer. Uma única cena flui em minha mente — nas plataformas abaixo de mim, as cores brilham mais forte, em pares. Uma plataforma verde do lado esquerdo; uma verde do lado direito. E assim por diante, começando na outra ponta da sala e terminando abaixo de mim, no altar logo abaixo da beirada em que estou.
Recuo, confusa. Não tenho muito tempo para pensar nisso — gritos me fazem ficar de pé para que possa olhar para baixo, para a extensão da sala. Em cada uma das pontas, pequenos buracos pretos soltam duas figuras em altares circulares exatamente como aquele abaixo de mim. Mather e Sir saem aos tropeços, um de cada lado da divisória, separados de mim pela longa extensão de plataformas iluminadas.
— Vocês estão bem? — grito, a pergunta ecoando pelas paredes imponentes.
Minha voz faz Mather erguer a cabeça.
— Estamos. — Ele se coloca de pé com um salto e segue aos tropeços até a beirada do altar. — E você?
Sir também se levanta, percorrendo a sala com os olhos. Quando me olha, estica o corpo como se esperasse que uma luta acontecesse a qualquer momento.
— Estou bem — grito, ignorando cada ferimento que diz o contrário. — O labirinto está nos testando.
Olho pela sala de novo. Mather está do lado esquerdo da divisória; Sir está do direito. A visão das plataformas gêmeas criou um caminho irregular deles até mim.
A percepção surge como um fogo selvagem.
— Acho que vocês precisam vir até mim. — Aponto para o altar que está onde a parede divisória termina, abaixo de mim.
Sir verifica as plataformas.
— Isso parece elaborado para uma tarefa tão simples.
Mas Mather gesticula com os ombros.
— Não vou simplesmente ficar parado aqui.
E ele dá um passo para fora do altar, até uma plataforma que brilha prateada. A plataforma desce sob o peso de Mather. Ele cambaleia, os braços se agitam, e quando o chão afunda sob seus pés, as fendas em torno da plataforma liberam algo que me faz gritar em aviso. Não que Mather precise disso — assim que as chamas irrompem em torno da plataforma, disparando até a altura da cintura dele, Mather xinga e recua aos tropeços até o altar, chegando antes do fogo que pegou em sua calça.
A plataforma volta ao normal e as chamas se extinguem como se jamais tivessem existido. Cambaleio para frente, rochas se soltam sob minhas botas e se quebram no chão abaixo. Reconheço isso também. De onde encontrei a chave em Verão — o poço que se abriu, o círculo de fogo no fundo. Isto é muito mais grave, no entanto, e cair nesses poços parece um jeito rápido de ser incinerado.
Sir caminha de um lado para outro na plataforma dele, desviando a atenção de mim para a parede que separa ele e Mather.
— O quê? O que aconteceu?
— Fogo — grita Mather de volta. — Parece que precisamos atravessar a sala sem pisar nas plataformas.
Sir cruza os braços, analisando o restante do espaço em torno dele.
— Poderíamos...
— Esperem! — grito. — Vocês precisam pisar nas mesmas plataformas de cada lado. Guiarei os dois.
Mather me olha, com as mãos ainda estendidas como se esperasse que o chão inteiro cedesse. Sir parece igualmente pensativo, mas avança para a beira do altar dele. Os dois esperam.
Meu coração dá um salto. Esse é o teste — liderança. Testando minha habilidade de liderar, e a habilidade deles de seguirem.
Meses atrás — pela neve, até mesmo semanas atrás — eu teria me encolhido ao pensar em ser aquela dando ordens e esperando que fossem seguidas. Teria me atormentado com pensamentos de que Sir seria melhor do que eu nessa situação, ou Mather, e que deveria ter sido aquela a obedecer, um soldado destinado a executar missões anonimamente.
Mas não posso me dar o luxo de duvidar. Sim, abriguei o medo o tempo todo, mas ser uma líder competente e digna não significa ser apenas competente e digna — significa ser isso apesar das emoções que possam surgir.
Inspiro, meu coração se agita até que a concentração afaste todo o resto.
— Mather... para a plataforma verde. Sir, verde, à direita. Mather, vermelho, logo adiante. Sir, passe por cima da plataforma marrom e caia na outra vermelha...
Minhas mãos se estendem para apontar as plataformas que correspondem às que vi na visão; minhas ordens são claras e determinadas. Cada músculo formiga com adrenalina, cada nervo faísca em alerta enquanto vou catalogando as plataformas em volta deles e calculo quais precisam alcançar.
Mather e Sir pulam de uma plataforma para outra, vacilando conforme cada uma se encaixa. Eles não hesitam ao me ouvir, não questionam como sei o que precisam fazer, como se obedecer a ordens minhas seja um estado natural para os dois.
Mal reconheço a mulher de pé na beirada acima da sala, gritando ordens com toda a confiança de uma rainha. Uma vez, Mather desce na plataforma um segundo antes de Sir e a coisa toda mergulha para baixo, o fogo sobe em um rompante em torno dele como uma espiral laranja e amarela de calor. Mas grito para Sir pular, agora, e ele obedece a tempo, de forma que as plataformas dos dois se nivelem com segurança.
O destino de todos que amo depende de eu conseguir fazer Mather e Sir atravessarem aquilo. E sei, acima de tudo, que não fracassarei.
Por fim, os dois saltam ao mesmo tempo no altar circular abaixo de mim. Fico de joelhos, sorrindo para eles quando Mather e Sir compartilham um olhar de alívio.
Quase digo algo aos dois, mas o labirinto não nos permite esse luxo dessa vez.
A beirada em que estou se inclina, junto com o altar.
— De novo não — resmunga Mather quando nós três mergulhamos para outro túnel, dessa vez juntos, um emaranhado de braços e pernas e armas embainhadas e gritos que se abafam na escuridão empoeirada do labirinto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!