1 de fevereiro de 2019

Capítulo 30

Meira

— MEIRA — diz Theron, se adiantando devagar, com as mãos estendidas.
Deixo a porta se fechar atrás de mim, a batida ecoa e se iguala ao ritmo do meu coração batendo contra as costelas. Theron parece tão feliz.
Parece tão ansioso.
— Estava me esperando — digo, uma leve provocação para ver até que altura vão as chamas.
Outro passo para mais perto.
— Eu sabia que viria.
— Não saiu com seus homens.
Os lábios de Theron se erguem.
— Você também não.
Ele fica de pé ali, observando, e as peças se encaixam.
Greer, nos dizendo que os soldados esperavam acima. Theron, sozinho no salão de baile. Eu, mandando meu único apoio para longe, para criar uma distração.
Era parte da armadilha de Angra. Me fazer ficar sozinha.
Somos realmente apenas Theron e eu — e subitamente, essa ideia é apavorante.
Theron continua se aproximando, sua cabeça está inclinada para um lado, de forma que o cabelo dourado forma uma cortina sobre o ombro.
— Não sabe a dor que me fez passar — diz ele, agora apenas a dois braços de distância de mim.
Deixo Theron se aproximar lentamente, meus olhos estão fixos nele conforme tento avaliar a situação. Theron não tem armas, o uniforme cordelliano verde e dourado dele não tem adornos. Há uma leve saliência no peito, logo à direita do colarinho. As chaves?
Um pouco da minha tensão se dissipa. Theron está com elas.
Mas uma nova preocupação surge rapidamente. Angra deu a Theron as chaves pelo mesmo motivo que eu sabia que daria — para me fazer ficar aqui. Quanto mais permaneço aqui, falando com Theron, maior as chances dele de me enfraquecer. Se aquelas chaves não estivessem aqui, eu pegaria Sir, Mather e Greer e partiria antes que pudéssemos cair em qualquer armadilha.
Agora, no entanto, estou presa. Exatamente como Angra quer.
— Igualmente — respondo. Mas qualquer que seja o significado que Theron apreende de minhas palavras lança alívio pelas feições dele, e Theron sorri quando percorre a distância entre nós.
— Eu sabia — declara ele, e pega minha mão.
Tocar em Theron acende a conexão que sinto sempre que tenho contato pele a pele com outro possuidor de condutor. Vejo o passado dele, as memórias, até mesmo as emoções naquele momento — Theron se abre para mim quando a pele dele toca a minha.
Vejo Theron esperando por mim, caminhando de um lado para outro nos corredores de meu palácio, supervisionando meu reino com a mesma arrogância que atribuí ao pai dele. Theron, falando com Angra em Verão, em Inverno; os dois planejando este momento, sabendo que eu viria até ele.
Reverência toma conta de Theron com cada lembrança de Angra. Adoração e devoção tão puras que me parte o coração.
Eu me desvencilho do toque porque tudo em mim dói. Ele me quer — mas essa necessidade não é humana. É algo cultivado pela Ruína. Mesmo a expressão no rosto de Theron é uma que ele jamais estamparia, caso fosse ele mesmo — um controle sombrio na forma como os olhos dele me seguem, sem piscar, conforme recuo.
Eu me obrigo a encarar Theron de volta. Obrigo-me a permanecer calma, a ignorar o zumbido de aviso que percorre meu corpo. Meus instintos não veem apenas Theron — veem um perigo, um homem que me olha de uma forma quase familiar.
Herod.
Angra o transformou em Herod.
Meus joelhos tremem e eu caio para a frente. Theron desliza os braços em volta de minha cintura, me prendendo contra o corpo dele. Não toca minha pele de novo, mas está muito perto, perto demais... Não consigo falar, não consigo me mover. Sabia que Angra o havia infectado — aprisionado —, mas jamais me permiti imaginar que ele iria tão longe. É claro que iria — Angra conhece meus medos. Conhece minhas fraquezas.
E ele as combinou em Theron.
— Meira — diz Theron de novo, e a boca dele está sobre a minha antes que eu consiga me mover. O braço de Theron em volta da minha cintura é como um torno; os lábios dele são insistentes e famintos e me ferem, o oposto de qualquer outro beijo que já recebi dele.
Mais emoções, tão claras que são palavras ditas da mente de Theron para a minha. Isso será perfeito. É assim que deveria ser. Ela vai me amar com toda a devoção que conquistei dela.
Frio me envolve, a frigidez de meu reino se agarrando a meu pânico crescente. O toque de Theron me queima, os pensamentos dele, o único desejo que ele cultivou por tanto tempo que até nesse breve sussurro cada sensação parece real demais, marcando o corpo de Theron contra o meu...
Na altura do peito, sinto um pequeno volume por baixo do casaco de Theron. As chaves.
Concentre-se!
Agito minha magia para finalmente bloquear os pensamentos de Theron — nunca estive tão feliz pelo treinamento de Rares — e apoio a mão no casaco dele. Algo duro e de ferro e com a forma distinta de uma chave está ali dentro. O veludo suave desliza entre meus dedos quando levo a mão para dentro do bolso de Theron.
As mãos dele beliscam meus ombros e Theron se sobressalta e recua para longe de mim.
— Você... — Os olhos dele se voltam para o bolso, então para minha mão, os dedos se estendem na direção dela. — Não veio atrás de mim — afirma Theron. As palavras ecoam ao meu redor, e a atmosfera do salão de baile passa de silenciosa e vigilante para mortal. Os dedos dele se enterram mais em meus ombros. — Não veio atrás de mim — repete Theron. — Veio atrás das chaves. Veio para impedir Angra.
— Ele infectou você — digo, contendo o grito de dor quando a mão de Theron quase me racha um osso. — Mas prometi que o salvaria...
— Prometeu. — Theron contrai os lábios. — Que outras promessas andou fazendo?
Ele me solta ao me atirar contra as portas fechadas. Eu me choco contra a madeira e uso a energia do movimento para desviar de Theron, não permitindo que ele me mantenha presa no canto.
Meus ombros gritam quando sinto os novos hematomas que Theron deixou enquanto tropeço mais para o interior do salão de baile.
— Angra está deixando o mundo doente — tento dizer, com as mãos estendidas na direção de Theron em algo parecido com submissão. Mas me preparo ao dar passos longos e lentos para mantê-lo afastado.
O ato de atrair um objeto até mim parece familiar agora, e estendo a mão para Theron, disparando a magia para as chaves a fim de puxá-las de dentro do casaco dele. Theron vê o meu movimento e reage, abaixando o ombro e erguendo a mão para me bloquear, uma névoa da Ruína o envolvendo como um escudo.
— Você não entende a magia dele — diz Theron, com os olhos semicerrados como fendas. — Não viu o quanto somos poderosos agora, como não temos amarras. Mas entenderá, porque eu a farei usá-la.
— Theron...
Ele recua como se para me dar um soco, mas está longe demais para me tocar — até que reparo na sombra que ainda envolve a mão dele.
Theron vai lutar comigo usando a Ruína.
Cruzo os braços diante do corpo, disparando a magia para atrair neve do céu — dentro do salão. É minha magia, meu reino, e não me será negado o inverno em Inverno.
Nuvens se formam acima de mim, lençóis de gelo que respondem ao meu chamado.
Mas é tarde demais.
Assim que o primeiro lençol de neve recai sobre nós, a sombra de Theron dispara pelo ar e me lança com toda força contra o chão. Tenho ânsia de vômito, perco o fôlego, mas como Theron atravessa o salão, fico de pé e faço descer uma parede de gelo quando ele lança outra explosão da Ruína.
— Me ataque! — grita ele. — Foi assim que Angra disse que abriu a mente dele: usou magia para si mesmo. Ninguém jamais permitiu que você fizesse isso, não é? Seja egoísta uma vez na vida, Meira. Lute comigo! Vai sentir o poder dela. Verá o quanto estava errada.
Minha parede de gelo reverbera com a força dos golpes de Theron, formando rachaduras que eu cubro com mais gelo. Não posso ficar aqui para sempre. Poderia combatê-lo com magia — seria defesa, então não alimentaria a Ruína.
Mas não quero lutar com ele.
Elimino a parede derretendo-a. O chão fica coberto de água. Theron espera com uma das mãos em punho puxada para trás.
Sacudo a cabeça, permitindo que parte de minha verdadeira exaustão transpareça.
— Estou cansada de lutar — digo a ele, e não é mentira. — Se é paz que você oferece, eu quero.
Theron relaxa, abaixando a mão. Quase digo mais, quase alimento a mentira quando Theron gesticula com o pulso e cada músculo de meu corpo reclama de dor.
Theron caminha em minha direção, os lábios inclinados em um meio sorriso.
Não consigo me mover — a magia de Theron me mantém presa, de pé, diante dele, com os músculos estremecendo de forma que nem sequer consigo me encolher quando ele para, quase me tocando. Usei minha magia apenas quando tinha uma forma de canalizá-la, apontando ou estendendo o braço para fora, e antes que consiga tentar usar sem me mover, Theron inclina a cabeça, o sorriso dele lança um pânico incandescente por meu corpo.
— Essa paz tem um preço, embora não seja um preço alto a pagar, posso lhe assegurar. — Theron se inclina contra mim, os lábios dele param à distância de um dedo dos meus.
A magia se afasta de minha cabeça, mantendo o resto de meu corpo preso. Theron não me beija, apenas fica ali, esperando que eu inicie. Que aceite.
Recuo, apenas um leve tremor, o suficiente para colocar mais um milímetro entre nós.
E esse único tremor em resposta basta.
Theron entrelaça os dedos em minha trança e puxa minha cabeça para trás de forma que me encare diretamente.
— Seria tão fácil para você — dispara ele, metade como súplica, metade como grunhido. — Só que mais uma vez você me rejeita. Mesmo quando a paz está tão próxima, quando a salvação do mundo está ao seu alcance. — O rosto de Theron fica sombrio e ele se abaixa para levar o lábio ao meu ouvido, se aproximando devagar, com os movimentos provocadores e carinhosos de um amante.
A magia de Theron me mantém parada, meu corpo grita com a necessidade de lutar, o mesmo pânico ofuscante e avassalador que tomou conta de mim no quarto de Herod, em Abril.
Este é Theron, não Herod — este é Theron, não Herod...
Mas meu coração não acredita nisso conforme bate dolorosamente contra minhas costelas.
— É o antigo rei de Inverno, não é? Onde esteve esse tempo todo, me pergunto... com ele? — Theron inspira contra minha bochecha. — Você fede a ele. Mas sempre foi minha, desde o momento em que a salvei em Abril você pertence a mim, e eu a lembrarei disso até que se esqueça de como era ser tocada por ele.
Theron recua, todo indício de felicidade sumiu de sua expressão, dando lugar à determinação.
— Mais uma chance — diz Theron para mim. — Mais uma chance.
É quase uma súplica. Ele está tão perto de implorar que me pergunto com quem está mais preocupado, consigo mesmo ou comigo, caso eu não obedeça.
A magia que mantém meu corpo imóvel solta meu braço direito.
— Me ataque — ordena Theron. — Abrace este novo mundo, Meira. Por favor.
Ele está definitivamente me implorando. A tensão no rosto, a preocupação.
— Tudo bem, Theron. — Ergo a mão.
Ele começa a sorrir, esperando, querendo, precisando.
Até que pego o chakram nas costas.
O rosto de Theron se fecha.
— Com sua magia!
Mas usarei minha magia — mais ou menos.
A tempestade de neve ainda paira sobre nós, e chamo lençol após lençol de gelo para envolver a lâmina de meu chakram.
Sinto muito mesmo, Theron.
Meu chakram dispara para Theron no momento em que ele salta até mim, e os dois colidem.
O gelo que cobre a lâmina do chakram se transforma em um nó denso que golpeia a cabeça dele.
Theron cai no chão ao lado da arma, inconsciente, aos meus pés.
A magia de Theron se dissipa assim que ele apaga, e cambaleio na direção dele, com a mão imediatamente disparando para seu pescoço. Suspiro aliviada: há pulsação. Fraca, mas constante.
Levo a mão ao bolso dele. Pedaços frios de metal tocam minha palma, e os puxo para fora, encarando as duas chaves que passei semanas procurando há não muito tempo. Aguardo, esperando que o alívio percorra meu corpo, mas só sinto o empurrão gentil do dever.
Para o labirinto agora. Isso ainda não acabou.
Então percebo que estou tocando as chaves, mas não tenho visões. Nada a respeito do que preciso fazer para acessar a magia; nada para me preparar, como aconteceu da primeira vez que toquei aquelas chaves. Eu as verifico, mas são definitivamente aquelas que encontrei semanas antes.
Isso quer dizer... que eu devo estar pronta.
Libero o gelo do chakram e o coloco no coldre. Theron nem sequer geme quando disparo para as portas, e cada passo que dou para longe dele se iguala a quantas vezes prometi silenciosamente que o salvaria.


O pátio está um caos.
Cordellianos aos gritos se aglomeram em grupos, passando informações sobre onde os agressores invernianos foram vistos pela última vez. Alguns dizem oeste, outros, leste — mas graças a minha magia, sei que se espalharam. Um disparou por cima dos telhados ao norte do palácio, outro para leste e um para oeste, cada um deles atirando qualquer que fosse o projétil à mão para atrair os soldados para o ataque.
Então, quando saio pelos degraus da frente, os soldados já coléricos se voltam contra mim.
— A rainha!
— Atrás dela!
A neve cobre a cidade, espessa e cinza, inchada de condensação. Ergo as mãos, reunindo cada floco em um puxão furioso.
Estilhaços de gelo são levados por ventanias de tirar o fôlego; lufadas brancas cegam a todos no pátio. Os cordellianos uivam diante do ataque da nevasca, com as armaduras tilintando e os pés batendo forte.
Para Mather, Sir e Greer, disparo um desejo poderoso para que me encontrem no norte do palácio, então também corro até lá. Minha magia me atira à rua a poucos passos de soldados cordellianos se debatendo, punhos socando desesperadamente na tempestade. Outras formas ficam visíveis em meio ao ataque de fúria gélida — Mather e Sir, agachados contra um prédio do outro lado da rua.
Disparo a magia para eles, impulsionando-os com uma certeza silenciosa para que corram até mim. Mather avança aos tropeços, às cegas, e percebo quando minha magia não mais precisa guiá-lo — ele me distingue na nevasca e mergulha para a frente, me puxando para um abraço esmagador tão terrivelmente diferente do de Theron que gemo.
Sir nos alcança, mas não tenho tempo para palavras — pego a mão dele.
— Onde está Greer? — grito, por cima da ventania.
Sir sacode a cabeça.
— Ele vai cuidar das coisas por nós.
Não tenho tempo de discutir. Enterro o rosto em Mather, cravo os dedos em Sir, e nos lanço em espiral para a entrada do abismo, deixando Theron e minha cidade em meio ao nada da nevasca.

Um comentário:

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!