1 de fevereiro de 2019

Capítulo 3

Ceridwen

O INTERIOR DA carruagem-bordel de Simon cheirava a suor e incenso de pluméria, o ar estava embaçado com a fumaça que não tinha sido expelida adequadamente, o chão coberto de almofadas de seda e colchas de cetim. Ceridwen jamais estivera em uma das carruagens do irmão, apesar da insistência incansável de Simon para que ela “fosse uma verdadeira veraniana” e se juntasse às explorações dele. Conforme Ceridwen puxava os joelhos até o queixo naquele momento, só conseguia ouvir as reprimendas de provocação que odiara por tanto tempo.
E o estalo áspero do pescoço de Simon quando Raelyn o partiu.
Puxada por bois, a carruagem seguia aos solavancos pelas ruas de Rintiero e Ceridwen permitiu que o corpo oscilasse com o veículo, exausta demais para combater os movimentos.
— Cerie. — Lekan se agachou diante dela, o corpo estremecendo até que esticou a perna e se jogou no chão da carruagem. Seu joelho tinha uma laceração, outra percorria sua bochecha, Ceridwen sabia que o restante do corpo de Lekan devia estar igualmente coberto de ferimentos. — Cerie...
Mas a voz de Lekan falhou. O que ele diria? O que ela diria?
Ceridwen fechou os olhos. O rosto de Simon lampejou em sua mente, roxo, devido à magia de enforcamento de Raelyn.
— Pare... Raelyn... deixe-a em paz!
Simon implorara pela vida de Ceridwen. Embora minutos antes Ceridwen tivesse corrido até a praça determinada a, ela mesma, assassinar o irmão.
E antes de conseguir proferir mais do que um fraco protesto, a cabeça de Simon caíra para o lado, levando a vida dele com o movimento.
Ceridwen abriu os olhos.
Lekan rasgou um pedaço de cobertor e começou a limpar o sangue dos braços de Ceridwen.
— Deixe — disparou ela, entre os dentes trincados.
Lekan não ouviu.
— Ele era seu irmão. Você o amava — sussurrou o homem, baixinho.
Os músculos de Ceridwen se tornaram pedra.
— Eu o odiava.
Os dedos de Lekan se apertaram sobre o retalho gasto de cetim e ele esfregou o ombro de Ceridwen com mais força. Lekan permaneceu em silêncio, de olho no trabalho, como se fosse apenas um escravo normal e Ceridwen fosse uma princesa normal e as manchas no corpo dela não fossem o sangue do irmão.
Ceridwen encarou as manchas. A alegria de Raelyn lhe parecera insana quando ordenara que a cabeça de Simon fosse cortada. E quando um soldado começou a serrar o pescoço do irmão dela, Ceridwen não conseguiu recuar do sangue que jorrou sob a pressão da faca.
Simon estava morto. O corpo dele fora decapitado na frente de Ceridwen.
Ela empurrou Lekan e cambaleou na tentativa de ficar de pé. A pouca altura da carruagem impossibilitava o movimento, e as costas da princesa roçavam no teto manchado. Ela caiu para frente, seus pulsos estalaram ao aparar o peso do corpo e a carruagem balançou com a agitação de Ceridwen.
— Quietos aí! — gritou um soldado ventralliano de fora.
Ceridwen ficou de pé de novo e trombou o corpo inteiro contra a lateral da carruagem até que esta balançasse ainda mais, mas o veículo não perdeu o ritmo à medida que seguia arrastando-os pela cidade. Ela gritou, se atirou para trás, se chocou de novo, porque se não extravasasse aquilo de alguma forma, seu corpo não conseguiria suportar a tristeza dentro de si.
Não deveria se sentir extremamente infeliz pela morte de Simon. Ela desejou que ele morresse — quis que ele sentisse apenas um lampejo do terror que infligia aos escravos. Quis que aquele maldito sorriso constante em seu rosto queimasse a ponto de fazê-lo chorar por perdão em vez de se alegrar na presença dela.
Ceridwen engasgou, os soluços estremecendo a garganta.
Simon sempre se alegrava ao vê-la. Sorria como se Ceridwen fosse sua pessoa preferida em todo o reino de Verão, e isso fazia Ceridwen sentir como se seu corpo inteiro estivesse sendo incinerado. Ela se lembrou de quando Simon conheceu Meira no bordel, no que deveria ter sido alguma demonstração política, mas a preocupação principal dele tinha sido onde estava Ceridwen, se poderia vê-la.
Pela chama e pelo calor, Simon sempre a amara, mesmo ao destruir o reino deles e levar o povo à destituição. Ceridwen queria, mais do que tudo, que o irmão a odiasse, porque...
Porque talvez então ela pudesse odiá-lo.
Lekan passou os braços em volta do corpo de Ceridwen e a puxou para baixo quando uma lâmina entrou pela estreita janela, aquela que tinha sido fechada com tábuas logo após os dois terem sido jogados dentro da carruagem. Um lampejo de prata lambeu o ar acima da cabeça de Ceridwen.
Os vestígios dos gritos dela faziam a garganta arder, dor irradiava pela boca de Ceridwen. Era adequado que a mágoa doesse, principalmente essa mágoa, essa... traição.
Era isso o que era. Ceridwen tinha dado as costas a Simon. E ele ainda assim a amava.
A princesa desesperadamente se agarrou a Lekan, incapaz de relaxar por medo do que poderia fazer de novo. Não restava nada dentro dela, havia muito pouco que Raelyn poderia tomar-lhe. Abrira mão de Jesse horas antes, e agora Raelyn tomara Simon e Verão também.
Mas não, não fora Raelyn. Fora Angra, se as palavras insanas de Raelyn fossem verdade. Ceridwen se viu desejando que fosse tudo Raelyn. Não tinha a menor ideia de como desfazer o que Angra tinha feito. Nem mesmo sabia direito a extensão de tudo que tinha acontecido — ele dera magia a Raelyn. Dera a Simon o poder de controlar não veranianos.
A guerra que viviam era muito maior do que ela. De reis corruptos Ceridwen poderia dar conta, mas daquilo? Magia negra e teias do mal que se estendiam por toda Primoria?
Ceridwen quase se sentiu totalmente impotente pelo terror, mas inspirou o ar fumacento e enjoativamente doce, usando Lekan para se orientar.
— Meira escapou — disse Ceridwen a ele, porque precisava acreditar nisso. — Ela impedirá... isso.
Um dos braços de Lekan se desvencilhou de Ceridwen e emitiu um ruído surdo ao se chocar contra o piso da carruagem. Ele flexionou os dedos, esfregou a perna ferida e sibilou de dor devido a um dos movimentos.
Ceridwen arrancou partes de outra colcha e fez uma compressa patética antes que Lekan pudesse protestar. Ela apertou a faixa sobre o joelho dele e esfregou as mãos nas próprias coxas, esforçando-se para voltar a pensar de maneira racional.
— Eles trancaram as portas? — perguntou Ceridwen, mais para si mesma do que para Lekan.
Ele ajustou a compressa.
— Raelyn deixou cinco guardas tomando conta de nós, levou o restante consigo. — Lekan parou e Ceridwen soube que ele ocultou outra informação que percorreu sua mente.
Ela também levou a cabeça de Simon consigo.
Ceridwen rastejou até as portas na traseira da carruagem e empurrou-as. É claro que não se moveram, sendo assim, a princesa mexeu nas beiradas das portas em busca de um ponto fraco na estrutura, ou de um pedaço de madeira que pudesse arrancar para usar como arma, já que as suas lhes tinham sido tiradas. Não funcionou.
Mas os cobertores e os travesseiros — eles podiam ser amarrados como um tipo de corda, a qual poderia ser usada para sufocar soldados distraídos quando abrissem a carruagem. A abertura sem dúvida aconteceria no complexo do palácio, onde Raelyn teria muito mais do que apenas cinco soldados esperando para subjugar os prisioneiros. Ceridwen poderia usar um dos soldados como refém, mantendo a corda de cetim apertada contra o pescoço dele até que ela e Lekan fugissem.
Mas Raelyn ainda tinha o controle da cidade. A rainha estava cheia da magia negra de Angra. E pretendia assassinar Jesse e os filhos dele.
Ceridwen pegou o cobertor mais próximo e começou a rasgar. Lekan se moveu para recostar o corpo quase todo contra a parede, seu olhar estava fixo no teto em um esforço de ignorar a dor.
Estava ferido demais para ser útil em uma luta. Ceridwen precisava levar Lekan a um local seguro, retornar e... o quê? Derrotar todo o exército ventralliano sozinha? Certamente alguém em Rintiero ainda era leal a Jesse e a ajudaria a salvar o rei e os filhos. Precisaria encontrar essa pessoa... ou Meira. Meira ajudaria.
A não ser que Raelyn já a tivesse matado. A cidade inteira poderia ter se curvado ao golpe de Raelyn, Jesse e os filhos poderiam estar mortos, e até o último vestígio de esperança poderia ter se extinguido enquanto Ceridwen estava sentada, impotente, em uma carruagem.
As mãos de Ceridwen ficaram imóveis. O vazio dentro dela sussurrou que ela não deveria se importar tanto com o que Raelyn fizesse a Jesse. Havia quatro anos que Ceridwen fingia não se importar com o que Raelyn fizesse a Jesse — por que começar agora?
Mas cada outra parte dela gritava em protesto. Isso era totalmente diferente de como as coisas tinham sido durante aqueles quatro anos. Não era apenas ignorar o fato de que Raelyn dormiria com Jesse na mesma cama em que a própria Ceridwen tinha dormido com ele — era ignorar o fato de que Raelyn o mataria. E não apenas Jesse, mas os filhos dele, e, independentemente do que acontecera recentemente entre ela e Jesse, Ceridwen não deixaria que os filhos dele fossem assassinados. Parte do que sempre tornara tão difícil deixar Jesse era o quanto ele amava os filhos. Um homem, um rei, que rastejava no chão do quarto da filha apenas para fazê-la dar gritinhos de alegria... Ceridwen libertaria Jesse e os filhos. Esse seria o primeiro passo a dar naquela guerra — libertar o rei ventralliano. Encontrar a rainha inverniana. Juntar forças para enfrentar Angra e fazer com que ele pagasse por ousar reivindicar Verão — e por deixar que Raelyn matasse Simon.
Ela poderia fazer isso.
— Alto!
Ceridwen enrijeceu o corpo, seus olhos se voltando para a porta da carruagem quando o veículo parou. Ela se atirou para a única abertura estreita na janela remendada, a fim de absorver qualquer informação possível antes de recuar de novo, caso outra lâmina perdida perfurasse as paredes. Ainda estavam na cidade, cercados pelos prédios multicoloridos de Rintiero, os tons de magenta e oliva em grande parte cobertos pelas sombras.
Lekan franziu a testa para Ceridwen. Por que tinham parado?
Os dois permaneceram em silêncio. Ceridwen se agachou, as amarras feitas de colcha esticando-se de um pulso ao outro.
Um cavalo relinchou.
— Desejamos comprar o conteúdo dessa carruagem — disse uma voz, e Ceridwen teve dificuldade para identificá-la. Não era alguém que conhecia, e não era um dos soldados que os vigiavam.
Um homem gargalhou.
— Esqueça, temos nossas ordens.
— Ordens, sim. Mas têm ouro?
Moedas tilintaram. Muitas moedas, pelo que Ceridwen ouviu. Alguém os estava comprando?
As narinas dela se inflaram. Provavelmente um ventralliano pervertido que vira a carruagem veraniana e pensou o que todas as pessoas pensavam quando viam a chama de Verão: escravos à venda.
Um dos soldados assobiou. Fez-se silêncio por um segundo.
— Pode ficar até com a carruagem — disse o comprador. — Não quero que sua rainha descubra cedo demais.
Sua rainha. Essa pessoa não era ventralliana.
Por fim, o soldado principal riu com escárnio. As moedas tilintaram de novo.
— São todos seus.
Chaves chacoalharam. Passos se moveram na direção da porta. Ceridwen se levantou, posicionando-se entre Lekan e qualquer pessoa que avançasse contra eles. Ela diminuiu o ritmo da respiração, mas seu coração não obedeceu, batendo forte contra as costelas quando uma chave deslizou para dentro da fechadura.
A porta se entreabriu.
Ceridwen deslizou para a frente, pronta para avançar...
O comprador, um soldado, piscou para Ceridwen sob a luz nebulosa dos postes ao longo da estrada. Negra, a pele dele brilhava contra as sombras que se aproximavam, e atrás dele havia uma mulher de pé em meio ao aglomerado de cavalos e soldados. Seu cabelo negro estava preso em um coque logo acima do colarinho rígido do vestido de lã cinza. Às costas, reluzindo ao crepúsculo, repousava um machado.
Ceridwen perdeu a ânsia de lutar com a rapidez de uma respiração.
— Giselle?
A rainha de Yakim os havia comprado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!