1 de fevereiro de 2019

Capítulo 29

Ceridwen

TUDO QUE CERIDWEN sabia sobre guerreiros outonianos se provou verdade.
Ela jamais vira soldados tão dedicados. Assim que Meira e o grupo dela partiram — pela chama e pelo calor, assim que concordaram em ir à guerra — cada corpo destinado ao combate se tornou uma arma, nada mais. Os outonianos estavam calmos, os olhos deles estavam alerta, os músculos tensos, de forma que cada um deles se parecia mais com um animal caçando do que com uma pessoa.
Se alcançaram a ferocidade daquela forma, sem uma monarca do gênero feminino que pudesse usar a magia do condutor dela para lhes dar força, quanto mais intimidadores não seriam se tivessem uma?
Ceridwen se interrompeu. A magia jamais voltaria a ser uma influência na vida deles depois daquele dia — essa mudança bem-vinda equilibraria o mundo caótico em que viviam. Mas ter sido capaz de ver os outonianos impulsionados por habilidades naturais e mágicas teria sido espetacular.
Enquanto Ceridwen corria de volta para a tenda principal para uma última reunião com Caspar, não conseguia se impedir de olhar para o oeste, onde quer que estivesse o novo acampamento que abrigava os entes queridos de cada pessoa naquele exército. A família de Caspar, a família de Lekan, a família dela.
Um sentimento de gratidão se aninhou no coração de Ceridwen, e ela disparou olhares silenciosos como se agradecesse a cada soldado outoniano por quem passou. Precisariam ter como aliados combatentes tão destemidos e dedicados. Precisariam de toda ajuda possível.
Lekan parou o cavalo ao lado de Ceridwen e desceu da montaria fora da tenda.
— Nossos soldados estão centralizados no vale; os yakimianos também. A infantaria de Caspar os cerca. Se Angra quiser passar, terá que pagar caro com sangue.
— Angra jamais teve medo de pagar esse preço.
Lekan encolheu o corpo.
— Você é mestre em discursos motivacionais.
— Todos estão bastante cientes do que estamos fazendo aqui. — Ceridwen se abaixou para entrar na tenda a céu aberto, ziguezagueou por mesas cobertas de mapas e armas. — E o custo que acarretará.
— Em menos de duas horas agora. — Caspar não ergueu o rosto do mapa sobre o qual estava curvado, no centro da tenda. — Meus batedores conseguiram uma localização mais específica, o exército de Angra deve estar aqui esta tarde. Vai lutar?
Então ele olhou para Ceridwen.
— Não sou muito boa em deixar meu povo arriscar a vida sem mim — disse Ceridwen.
Lekan pigarreou. Se Caspar não pretendia lutar, ela praticamente o chamara de covarde.
Mas Caspar sorriu.
— Nem eu — disse ele. — Imagino que estará com seus combatentes?
Ceridwen assentiu. Ela e Lekan tinham resolvido aquilo.
— Nas linhas de frente.
— E eu estarei com minha cavalaria. — Caspar ficou de pé, gesticulando para chamar alguém para frente. Invernianos se aproximaram, o mesmo grupo que tinha acompanhado os filhos de Jesse para fora de Rintiero, o Degelo, como Meira os chamara.
— Mas se ambos estivermos na confusão, precisaremos de uma forma de nos comunicar. — Caspar indicou os invernianos. — Eles se ofereceram para passar informações entre nós durante a batalha.
Ceridwen fez uma reverência de gratidão com a cabeça. Tais trabalhos costumavam trazer mortes mais rápidas.
E quando ela abriu a boca para agradecer, qualquer palavra recuou graças ao seu instinto de guerreira, um construído ao longo de anos de lutas e dificuldades constantes.
Uma corneta soou. Uma das muitas usadas pelos outonianos posicionados em torno do perímetro do vale, montando guarda em busca de ataques iminentes pela dianteira ou pela retaguarda.
Aquela especificamente disparou aos berros do lado inverniano do vale, uma explosão distante que fez todos na tenda se virarem ao mesmo tempo.
Caspar se virou para encarar Ceridwen, franzindo a testa.
— Tão cedo? — Foi Ceridwen quem perguntou.
Mas Caspar já estava reunindo os suprimentos de que precisaria. Alguns mapas, diversas armas espalhadas sobre a mesa.
— Podem ser os reforços de Angra chegando antes dele — disse Caspar. Quando olhou de volta para Ceridwen, sua expressão ficou mais suave.
— Estará na frente, então deixarei o comando com você — disse ele. — Para a guerra, princesa Ceridwen... Rainha Ceridwen.
Aquilo perfurou Ceridwen com mais força do que qualquer golpe físico. Ela era a rainha de Verão agora, não era? Ou seria, depois que Verão fosse, de fato, seu de novo. E então teria toda a questão confusa de descobrir como governar tanto Verão quanto Ventralli agora que era casada com Jesse...
Mas esse era um problema que Ceridwen enfrentaria com satisfação, depois que tudo aquilo terminasse.
— Para o futuro, rei Caspar — replicou Ceridwen.
Ele assentiu para ela e partiu quando mais cornetas soaram, mais batedores viram a ameaça que se aproximava e soaram o aviso. Alguns dos membros do Degelo se dividiram para seguir Caspar enquanto o restante seguiu Ceridwen e Lekan, formando um grupo diverso que seguiu para a tenda. Nada de cavalos — lutariam a pé, ao lado dos combatentes refugiados que estiveram ao lado de Ceridwen durante anos.
As cornetas lançaram ondas de choque pelo pequeno acampamento. Tendas médicas se preparavam para o fluxo esperado de feridos; tendas de armas emitiam clangores conforme ferreiros se apressavam em afiar cada lâmina que tinham. Tudo se resumia a um objetivo — tanto que Ceridwen poderia jurar que todos respiravam no mesmo ritmo.
Ela se agarrou a isso conforme liderou o grupo para fora da área do acampamento e para dentro do vale. Corpos se pressionavam lado a lado, soldados estoicos e prontos que se separavam para ela passar. Ceridwen ziguezagueou entre todos eles — veranianos, yakimianos, outonianos — o orgulho dela inflando com cada rosto determinado que via.
Talvez conseguisse fazer aquilo. Não apenas distrair Angra por tempo o suficiente para que Meira fosse bem-sucedida, mas de fato derrotar o exército dele.
Ceridwen chegou à linha de frente e se adiantou, suas botas esmagando a grama. Árvores perenes cobriam a ponta oposta, os galhos curvos pesados com neve. Aquelas árvores detiveram a atenção de Ceridwen pelos minutos seguintes, pelas horas seguintes, os olhos dela indo de um lado para outro, à procura de qualquer sinal dos soldados correndo para atacar, de Angra disparando a magia maligna contra eles.
Então Ceridwen viu imediatamente quando o primeiro cavaleiro surgiu.
Caspar tinha posicionado os soldados de Angra a algumas horas de distância. Não fazia sentido estarem ali tão cedo.
Agora eram tudo o que Ceridwen conseguia ver. Os dedos dela se fecharam com força em torno dos cabos das facas. Caspar estava certo — eram os reforços.
— Aquele não é o exército de Angra — resmungou Ceridwen. — De novo.
Lekan não se moveu. Tinha chegado à mesma conclusão que ela. Assim como os ataques alguns dias antes, Angra enviara outros para fazer a vontade dele, como dilúvios desgastando uma montanha, preparando a área para um deslizamento de terra.
A mulher que liderava o exército para fora das árvores de Inverno foi, para Ceridwen, uma distração muito grande. Um dilúvio e um deslizamento de terra e uma tempestade frígida, uivante, tudo de uma vez.
Raelyn.
Ela não passava de uma pequena forma em um cavalo, mas Ceridwen conhecia bem. Podia sentir o desdém que emanava da ex-mulher de Jesse assim que Raelyn apareceu. Soldados ventrallianos se materializaram da floresta, marchando atrás dela com passos cadenciados.
— Mande uma mensagem para Caspar — Ceridwen disparou para um membro do Degelo perto dela. — Diga que isso não é tudo.
O garoto assentiu e saiu.
Quem sabia quantos soldados Raelyn tinha trazido consigo? Quantas lâminas tinha acrescentado àquela guerra? Soldados ventrallianos tinham supostamente se unido às forças de Angra, mas ainda deveriam estar velejando pelo Feni. Obviamente, Raelyn tinha sido impedida de se juntar diretamente a Angra e fora enviada para lá primeiro.
Não importava. A única coisa que mudava era que agora Ceridwen tinha um objetivo pessoal impulsionando seu coração.
Meira explicara que tipo de magia enfrentariam. Raelyn tinha escolhido tal magia quando o condutor de Ventralli poderia tê-la mantido em segurança — tudo que tinha feito com Jesse, com os próprios filhos, com Ceridwen, fora escolha dela.
E Raelyn morreria por isso.
Ceridwen deu um passo adiante, inspirando profundamente o ar até os pulmões, e segurando o fôlego conforme o exército ventralliano se aproximava em ritmo constante, com Raelyn na liderança.
Ela não era uma combatente — o que significava que queria que Ceridwen a visse. Queria o confronto iminente.
Somos duas, então.
Os ventrallianos estavam a passos de onde o lado inverniano do campo terminava. Quase na metade do vale.
A expectativa que se acumulava no peito de Ceridwen começou a doer e ela conseguia sentir a mesma necessidade ondulando pelos soldados.
Lutar, lutar, LUTAR...
Os dedos de Ceridwen se fecharam em torno de uma das facas. Ela a ergueu, a lâmina apontando para os ventrallianos que se aproximavam, com o braço reto e rígido enquanto batidas do coração ressoavam pelo corpo dela.
O exército atrás dela inspirou coletivamente. Armas foram posicionadas, pés se arrastaram para se apoiarem no chão.
Lekan passou os dedos pelo ombro de Ceridwen.
Ela gritou. Atacar! Avançar! Lutar! AGORA — alguma combinação de todas essas palavras.
O grito emergiu das profundezas dela conforme Ceridwen se distanciou das fileiras da infantaria, a primeira a disparar de cabeça erguida na direção do exército ventralliano.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!