1 de fevereiro de 2019

Capítulo 28

Meira

LOCAIS PASSAM VOANDO por minha mente conforme a tensão familiar da magia nos arrasta para o esquecimento. Uma ínfima exaustão me repuxa, o esforço de precisar transportar várias pessoas, mas a adrenalina torna fácil ignorá-la.
Se Angra mandou Theron para Jannuari, ele estará no maior símbolo de minha cidade — o palácio. E quanto antes o alcançarmos, mais rápido poderemos pegar as chaves.
Visualizo o labirinto de corredores de pedra fria sob o palácio. Os corredores que levavam à ponta noroeste eram os menos utilizados, lugares que ninguém ainda tinha alcançado durante o tempo breve demais em que precisamos consertar nosso reino.
Meus pés ficam presos em paralelepípedos desgastados e cambaleio para frente. Uma parede de frieza me atinge no rosto, uma queda drástica na temperatura, mesmo em comparação com a fronteira entre Outono e Inverno. A queda alivia meu peso de preocupação.
Na última vez que estive em Inverno, minha magia era uma esfera de poder temerosa e incerta que se debatia contra as barreiras que eu tinha erguido. Agora, ela irradia por cada braço e perna, como espirais ascendentes que se enroscam em meus nervos e puxam energia da própria terra.
Casa, diz cada pedaço de mim, cada fôlego do ar frio me enche de alegria.
Se achei que minha magia era poderosa antes, estar de volta a Inverno faz com que pareça... nem consigo descrever. Revigorada; encorajada; certa, a mesma noção de pertencimento inominável que todos os invernianos têm quando estão em qualquer lugar próximo da neve. O propósito de minha magia é proteger este reino, e ela sabe disso.
Escuridão envolve o corredor tão completamente quanto o frio, então só escuto Mather cambalear para trás, ainda não completamente habituado a viajar dessa forma. Lanço um rompante de magia para os dois, livrando-os de qualquer efeito indesejado. Sir não perde tempo.
— Ele está aqui? — pergunta, um sussurro breve que demonstra o quanto está silencioso aqui. Nenhum passo forte acima ou mais ao fundo dos corredores; nenhum grito de ordem ou clangor de armas. Mas o que eu esperava? Que um exército estivesse nos esperando?
Sim. Porque um exército teria sido muito mais fácil de lidar do que aquilo que suspeito que Angra planejou — jogos mentais como aqueles que usou para me torturar em Abril, para brincar com meus medos mais profundos.
Mas a pergunta de Sir me faz seguir em frente. Será que Theron está aqui ao menos?
Faço exatamente o que fiz para sentir Angra: amplio minha consciência.
Os corredores ao nosso redor — nenhum sinal dele.
O piso acima...
O reconhecimento me assusta.
Theron está no salão de baile, quase diretamente acima.
Minha magia sente a dele com uma clareza assustadora. Estamos ambos conectados aos Condutores Reais — a minha conexão é mais forte, mas é igual a quando sinto Angra. Será que Theron também consegue me sentir? Será que a Ruína de Angra permite que ele apreenda minha magia?
Mas no mesmo momento em que me pergunto, minha magia dá uma resposta própria.
Não importa o que Angra tornou Theron capaz de fazer. Sequer importa o que Angra é capaz de fazer. Porque aqui, em Inverno, sou mais poderosa do que em qualquer outro lugar. Estou bloqueando Angra há semanas — então faço de novo. Mas dessa vez, bloqueio minha cidade inteira dele, um rompante de magia que dispara sobre Jannuari como um escudo. Enquanto estivermos aqui, Angra não pode vir. Pegaremos as chaves de Theron sem interferência dele. Vamos ver como isso se encaixa nos planos de Angra.
Gelo corre em minhas veias, me deixando quase alegre. Tudo em mim é um turbilhão de neve, gelo e geada, minha magia está no centro de uma poderosa nevasca que poderia derrubar todos os inimigos desta cidade, um a um.
Dedos se fecham em meu braço, e mesmo no escuro eu me viro para Mather com um sorriso malicioso.
— Ele está aqui. No salão de baile acima. Podemos fazer isso rapidamente... não contava com essa força extra por estar de volta a Inverno. Theron não...
— Isso é uma armadilha, Meira. — A voz de Mather está baixa. — Angra queria que você viesse até aqui. Precisamos presumir que ele planejou isto.
— Planejou que eu estivesse ainda mais poderosa?
— Planejou que fosse descuidada. — Os dedos de Mather percorrem meu braço até que ele esteja segurando minhas duas mãos. — Planejou por algo que a enfraqueceria.
Engulo em seco e os tendões de magia mergulham de volta para meu peito. Um fôlego profundo enche meus pulmões e aperto as mãos de Mather em resposta.
— Você tem razão. — Recuo um passo. — Vamos, mas devagar.
Começo a dar a eles ordens mais definidas quando um ruído me faz pausar. Duas batidas leves, como metal contra metal.
Clank, clank.
— Está vindo do fim do corredor — diz Sir. No caminho para o salão de baile.
Resmungo e avanço com as botas deslizando pelo chão. A parede de pedra está suja quando a toco, o toque dos meus dedos me guia para a frente. Mather e Sir seguem, sem fazer ruído exceto pelo farfalhar constante das roupas à medida que deslizam atrás de mim.
De novo, as batidas ecoam na nossa direção. Clank, clank.
O corredor se acende, sombra após sombra, graças a uma única lanterna acesa dois corredores adiante — exatamente no nosso caminho até o salão de baile. Meu poder antes revigorante recua e dá lugar à hesitação conforme nos aproximamos da lanterna. Todas as sombras ao meu redor se curvam sob a atração hipnotizante da luz.
E quando me viro para o corredor da lanterna, os dois soldados que montam guarda diante de uma das salas me encaram como se estivessem esperando que aparecêssemos.
Eles sorriem, com as espadas já em punho, e não perdem tempo em disparar na minha direção. Sir e Mather reagem mais rápido do que eu, mergulhando para a frente com as próprias armas quando meus olhos se voltam para a sala que os soldados estavam guardando. Barras de ferro enferrujadas formam a porta — uma cela. A luz amarela de candelabro brinca com sombras que percorrem as paredes cobertas de mofo e com o corpo que se choca contra as barras. Duas batidas ecoam acima do choque de espadas, olhos encaram, vazios, conforme o prisioneiro bate uma xícara de metal contra as barras.
Clank, clank.
Eu viro de volta para a luta quando um dos soldados cai nas mãos de Mather. Sir derruba o segundo e não perde o ritmo — ele se agacha à distância de um braço da cela.
— Greer — sussurra Sir, aliviado.
Greer ergue o olhar.
— William — diz ele, como se tivesse esbarrado em Sir na rua. Então olha além dele. — Mather. — Depois para mim, quando me coloco à luz.
Greer sorri.
— Minha rainha. — Clank, clank. — Ele me disse que você viria.
Olho para além de Greer, para dentro da cela.
— Onde está Finn?
Greer sorri um sorriso fervoroso. Com um gesto ágil da magia, consigo sentir a Ruína dentro dele, um estoque profundo e pleno que Angra sem dúvida passou dias bombeando para dentro de Greer. Ele teve livre reinado sobre Jannuari — qualquer inverniano presente facilmente se tornaria vítima da Ruína sem a proteção de minha magia.
Clank, clank.
— O rei Angra nos livrou daqueles que desejam impedir que o mundo mude — cantarola ele, atento à xícara de novo. — O rei Angra matou o fraco. O rei Angra...
Greer continua balbuciando, batendo aquela xícara com mais força a cada palavra, mas eu o bloqueio.
Angra matou Finn.
A dor da morte dele recai junto com todos os demais que perdi. Tantas perdas, ainda, sempre, nada além de perdas, mesmo aqui.
Impulsiono determinação por meu corpo. Angra sabia que eu encontraria Greer, então sabia que eu não o deixaria aqui, possuído pela Ruína, quando tenho a habilidade de expulsar isso dele, já que é Inverniano. Mas não deixarei de ajudar meu povo só porque Angra planejou algo. Ele tomou tantas outras coisas de nós — não vai tomar minha habilidade de ajudá-los.
Lanço uma corrente de magia para Greer, removendo a Ruína do corpo dele com uma descarga gélida. Um movimento limpo e ágil, como deveria ter sido com Phil. Mas na parte mais profunda e mais verdadeira de Greer, ele não quer que a Ruína o possua. Não acredita que o salvará, não como Phil acreditava.
Greer para no meio da frase, me olhando boquiaberto.
— Minha rainha — diz Greer. Os olhos dele se voltam para Sir e Mather. E Greer solta a xícara, ajoelhando-se ao se agarrar às barras com os dois punhos fechados. — Onde estão os demais? Trouxe um exército? Diga que trouxe mais do que...
— Um exército não teria sido prático, sob as circunstâncias — responde Sir.
A risada de Greer é quase um soluço.
— Veio reivindicar Inverno.
— De certa forma.
Greer se curva na direção de Sir.
— Tenho ouvido passos há horas, marchando acima. Theron tem soldados no salão de baile com ele. — Os olhos de Greer se voltam para mim. — Está esperando você.
Trinco o maxilar e olho para cima, para o teto.
— Dezenas de homens — diz Greer, como se lesse os cálculos em meu rosto. — Minha rainha, você precisa de mais ajuda.
— Ou de uma distração. — Olho para Mather.
Ele fica sombrio, a luz dançante do único candelabro no corredor faz com que pareça ainda mais preocupado.
— Não deixaremos que entre sozinha.
— Sozinha? — Sir se levanta, e quando fica de pé, percebe o que quis dizer. — Você quer que a gente atraia os soldados para fora do salão de baile.
Faço que sim, confirmando.
— Dou conta de Theron. Posso até expulsar a Ruína dos invernianos em Jannuari como fiz com Greer... podem arrumar outros combatentes para ajudar...
Mas Sir dispensa meu comentário com um gesto da mão.
— Não. Não queremos nenhuma baixa civil. Mather e eu podemos manter os soldados ocupados sozinhos por tempo o suficiente.
Mather olha para o pai.
— Dois contra dezenas? — Ele sorri levemente e dá de ombros. — Já estivemos em situação pior.
Greer se levanta impulsionado pelas barras.
— Três contra dezenas. — Ele para, recostando todo o peso no ferro, e um tremor quase imperceptível percorre as feições dele quando me encara de novo. — Finn. Minha rainha, sinto muito. Angra...
— Não — digo. Nesse momento preciso escolher ser forte.
Sir fica em silêncio por um momento, sem dúvida afastando as próprias memórias de Finn.
Depois de uma pausa, ele repara nos ferimentos no corpo de Greer e olha para mim. Eu me coloco em ação. Os ferimentos de Greer são fáceis de curar, embora revirem meu estômago conforme despejo magia nele. Angra o torturou com mais do que a Ruína — muito mais. Mas não digo nada a respeito, e quando termino, momentos depois, Greer resmunga com alívio e se espreguiça.
— Não me sinto tão bem em anos — murmura ele enquanto Sir trabalha para abrir o trinco da cela.
Dou um passo para o fim do corredor antes que a porta esteja totalmente aberta. Angra o torturou. Torturou de verdade, impiedosamente, e mesmo assim a Ruína o fez balbuciar em devoção a Angra.
Então o que Angra fez com Theron? Em que estado eu o encontrarei? E, pior ainda, em que estado está o restante de meu reino? Será que os invernianos em Jannuari estão todos perambulando com a mesma paixão insana por Angra que Greer demonstrou?
Fecho as mãos em punhos. Não importa. Em breve eles serão livres. Em breve todos serão livres.
Mather coloca a mão sobre um de meus punhos.
— Não entre até que o salão esteja livre.
— Eu sei.
— Tentaremos ficar perto do palácio para que consiga nos encontrar quando terminar. Pode nos sentir com sua magia. Ou deveríamos...
— Mather. — Eu me viro para ele no momento em que chegamos à escada que nos levará para o primeiro andar. — Este é nosso reino. Podemos sobreviver a isto.
Ele coloca a outra mão em minha bochecha, o polegar acaricia minha têmpora.
— Não é essa a parte que me preocupa.
Beijo Mather, rápido e com força.
— Ficarei bem.
Ele me puxa com ainda mais força contra si.
— Sim, eu sei — diz Mather para mim.
Eu me afasto, incapaz de encará-lo, então olho para Sir.
— Depois de você, general.
Sir para por um momento, os lábios entreabertos como se quisesse dizer algo. Mas ele apenas assente e passa para a minha frente para liderar Mather e Greer escada acima. Sigo atrás deles, acompanhando os passos silenciosos, durante o tempo todo deixando que metade de minha concentração flua até o salão de baile. Theron ainda está lá, imóvel, esperando por mim. Verifico de novo a barreira sobre Jannuari — Angra não pode vir.
Seremos apenas Theron e eu.
No topo da escada, Sir desvia para a direita, percorrendo um caminho para uma porta lateral no limite leste do palácio. Mather me lança um último olhar, carregado de propósito e certeza na forma como tenta sorrir, e então os dois se vão, me deixando sozinha no corredor escuro e silencioso.
Posso fazer uma última coisa por eles, no entanto. Fecho os olhos, inspiro e concentro uma corrente poderosa de magia para Mather, Sir e Greer, derramando força nos corpos deles.
Inspiro e viro no fim do corredor oposto a eles.
Nenhum soldado vigia esses corredores; mais nenhuma armadilha me espera. O único ruído é o ranger e o resmungar do palácio quebrado, lufadas ocasionais de poeira descendo do teto. Quando olho de relance pelas janelas, as estradas estão vazias, os únicos habitantes são espirais aleatórias de flocos de neve que giram com sopros do vento. Se não conseguisse sentir Theron, quase acreditaria que este reino estava novamente deserto.
Por fim, o corredor termina em portas duplas imponentes e além delas está o salão de baile. Paro com uma das mãos na maçaneta curva e coloco o ouvido contra a fenda entre as portas.
Metal tilinta. Alguém sussurra ordens ríspidas antes que tudo fique silencioso.
Os soldados ainda estão do lado de dentro.
Paro, com a atenção dividida entre ouvir o salão de baile e vigiar o corredor atrás de mim. Depois de alguns segundos de antecipação, cada momento acumulando-se sobre o anterior para criar uma parede trêmula de expectativa, tudo desaba quando um grito ecoa pelo salão de baile.
— Atacar!
— Intrusos, vistos do lado de fora...
Uma voz, então. Uma que conheço bem.
— Atrás deles!
A ordem de Theron impulsiona os soldados para a ação. A batida de botas preenche o salão de baile com uma torrente tão deliberada que não consigo dizer para que direção marcham. Pânico ressoa em meu peito e recuo em disparada da porta, pressionando o corpo contra a parede caso irrompam por esse lado. Mas um momento passa e o caos se dissipa pelas portas principais, recuando para uma batalha com Mather, Sir e Greer enquanto me resta um salão de baile vazio.
E Theron.
Porque ele ainda está aqui. Consigo senti-lo, uma sensação pulsante que corrói meu coração conforme minha magia reage à dele. Perto, muito perto...
Eu me afasto com calma da parede e me aproximo novamente da porta, com os dedos em torno da maçaneta. Não há tempo para hesitação — quanto mais tempo isso se arrastar, mais tempo a batalha durará fora do palácio.
Então abro a porta e marcho para meu salão de baile com a cabeça erguida, os músculos tensos e prontos para o que possa estar à minha espera. Um ataque; uma visão debilitante; uma lembrança.
O salão está vazio, o piso de mármore reluzindo branco. As janelas entalhadas na parede ao sul foram cobertas com um tecido preto pesado que pende do buraco no teto, interrompendo a maior parte da luz natural. Tendões dessa luz despontam, no entanto, fiapos brancos que me permitem ver a única pessoa que ainda está aqui.
Theron, no meio do salão, com os braços às costas e o queixo erguido.
Os olhos sombrios dele se fixam nos meus como se soubesse exatamente onde eu estaria. Assim que me vê, a expressão de Theron fica tão parecida com ele, tão feliz e calmo, que quase me esqueço do que ele é agora, de tudo que fez.
— Minha rainha — diz Theron. — Bem-vinda ao lar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!