1 de fevereiro de 2019

Capítulo 27


Meira

ISSO ESTÁ FÁCIL demais.
Consigo bloquear Angra durante toda a viagem. Mas quando chegamos ao vale sem emboscadas, nenhuma mudança de planos, nenhuma notícia ruim, sei que algo está errado. Angra não nos deixaria sair ilesos com o plano se soubesse sobre ele. Sendo assim... Ou conseguimos fazer algo que o surpreendeu...
Ou estamos com sérios problemas.
Logo depois de descer as proteções e liberar a contenção sobre minha magia, sei que não temos muito tempo. Curvada sobre os mapas do vale e das montanhas ao redor, com Ceridwen e Caspar, não os alerto ao fato de que estou testando a área em nosso entorno em busca de Angra. Meus olhos estão na mesa, mas a mente está bem longe.
Até que ponto consigo estender minha magia? Tenho vigiado a área próxima a nós ao longo da viagem, mas posso ir mais longe?
Tateio a floresta ao nosso redor. Nada.
O lado de Inverno do vale. Nada.
As montanhas, a floresta além — nada.
Mas então...
Agarro a beirada da mesa, fingindo interesse no que quer que Ceridwen esteja apontando. Angra se faz notar, uma gota d’água rompendo a quietude da superfície de um lago. Nenhum contato direto, minha mente ainda está protegida contra ataques, mas o reconheço — e tenho total certeza de que ele está fazendo o mesmo comigo, atendo-se à minha localização agora que não o estou mais bloqueando.
Ah, aí está você, quase consigo ouvi-lo dizer. Que bom que se juntou à nossa guerra de novo.
Angra não está me bloqueando com magia como eu fiz com ele por tanto tempo — quase como se estivesse esperando que eu tentasse encontrá-lo. Ele quer que eu saiba que está vindo.
Porque já está a caminho, sem dúvida liderando um exército até nós. No mínimo, pudemos escolher o local da batalha, mas o fato de que Angra já está se movendo diz que ele não esperou que as forças se reunissem antes de partir. Mesmo assim, deve ter o bastante para nos massacrar.
Angra é a única presença que sinto. Embora momentos antes Caspar tenha recebido notícia dos batedores de que Theron está de fato em Jannuari, parte de mim esperava que a informação estivesse erada. Mas Theron não está com Angra, eu conseguiria ao menos sentir a ligação dele com a magia. Ele é um possuidor de condutor agora, mesmo que não tenha mais o próprio condutor.
Meu coração pesa, mas expando a magia na direção de Angra. Theron definitivamente não está com ele.
Será que Theron ao menos está com as chaves? Angra poderia tê-las tomado antes disso. Mas se eu chegar a Theron e ele não estiver com elas, não haverá motivo para eu ficar. Se Angra realmente quer me atrair para uma armadilha, a melhor maneira de fazer isso seria me forçar a tentar pegá-las com Theron.
Se é assim que Angra quer que aconteça, então Theron ainda está com elas e espera por mim em Jannuari.
A maior fraqueza de Angra também está lá.
— Ele está vindo — anuncio, erguendo a cabeça.
Ceridwen e Caspar recuam, os rostos franzidos em cautela.
— A que distância? — pergunta Caspar, já curvado sobre outro mapa, traçando possíveis rotas a partir de Jannuari. A última notícia que recebemos dos espiões de Caspar não ajudou muito. Eles quase foram pegos e precisaram fugir antes que qualquer informação pudesse ser apreendida.
Afasto a mão de Caspar e aponto mais para baixo, para a área que repuxa em minha consciência, a sensação inquietante de alguém nos observando à distância. Um local logo além da fronteira entre Outono e Inverno, a norte de nós, mas não tão longe quanto Caspar esperava. Os soldados de Angra em Oktuber devem ter contado a ele sobre nossa presença em Outono.
Caspar se afasta da mesa e se vira para dois dos guerreiros, posicionados do lado de fora da tenda.
— Chamem seus batedores. Digam que se dispersem para o nordeste. Quero números, velocidade de viagem...
A voz de Caspar se dissipa quando ele sai batendo os pés para o acampamento, gritando ordens para os soldados sem olhar para trás. Essa é a tática dele, aprendi: não desperdiçar tempo. O que é condizente com a vida que Outono leva — mova-se, faça, seja, porque a qualquer momento, Angra pode surgir e destruir tudo.
Ceridwen também parte, Lekan junto a ela, e os dois estão em uma discussão sussurrada que cessa depois que saem da tenda a céu aberto. Sou deixada com o sopro da brisa da tarde entre as árvores que abraçam nosso acampamento, as batidas constantes dos ferreiros no tosco arsenal improvisado que montamos ali perto.
Não me permito pensar. Eu me viro, procurando minhas recém-adquiridas sombras. O Degelo está em volta da tenda em uma formação defensiva que fez Sir assentir em aprovação. O que quer que Mather tenha feito para treiná-los no curto tempo que teve, foi eficiente.
Mather fala com Sir no limite da tenda, um inclinado na direção do outro. Hesito, mais uma vez chocada pelo quanto fiquei cega por tanto tempo e não percebi que eram parentes. Até a maneira de discutir de ambos é idêntica — com as cabeças inclinadas para a direita, os olhos no mesmo nível, sem piscar. As semelhanças trazem à tona um sopro de gelo há muito necessário, uma enxurrada suave do... lar.
Cruzo a tenda até os dois, marcando as imagens de Sir e Mather na memória a cada passo.


Momentos depois, Sir, Mather e eu estamos de pé na tenda principal, tão prontos para a guerra quanto três pessoas podem estar.
Sir está com a mesma aparência que teve em todos os momentos de minha infância — vestido de preto, armado e severo. Mather aperta a faixa da armadura peitoral de couro, o material profundamente desbotado está desgastado e maleável devido à idade. Ele tem duas espadas curtas às costas, uma pequena sacola de suprimentos presa ao peito, e facas presas nas botas e na calça.
Estou muito menos armada. Uma espada curta oscila em meu quadril e o chakram está às costas, mas qualquer outra arma pareceu restritiva demais. Se vamos fazer isso, se vou usar minha magia, quero a liberdade para me mover sem obstáculos.
Passei a maior parte da vida lutando para ter as minhas armas. Agora estou marchando para a guerra e escolhendo partir com apenas duas.
Mas eu mesma sou uma arma.
Ceridwen se coloca ao meu lado, já vestida para a guerra, só que num estilo muito mais veraniano — a armadura de couro justa ao corpo está presa por faixas acima da calça laranja esvoaçante. Ela porta armas de aparência cruel que nunca vi antes, pequenas adagas com cabos que se curvam em pontas mortais. Ceridwen passa os dedos pelos cachos que se soltaram das faixas de couro trançado na qual ela transpassou o cabelo.
— Temos uma despedida em Verão — diz Ceridwen, com um tom que não ouço dela há um tempo, o véu da neutralidade política. — Quando alguém parte em uma longa jornada, aqueles que ficam para trás desejam à pessoa a energia de um fogo selvagem. O poder de derrubar as coisas que tentam contê-la, como vento e inimigos se debatendo, e usá-las para se tornar mais forte. O poder de queimar tão forte que todos que olhem para a pessoa se perguntem como a escuridão jamais existiu no mesmo mundo que ela. — Ceridwen apoia a mão em meu ombro, mas a determinação dela se esvai, os olhos ficam úmidos. — Incendeie este mundo, rainha de Inverno.
Puxo Ceridwen para um abraço, pigarreando para fortalecer minha voz.
— São vocês que farão o trabalho mais difícil. Só estou indo para uma viagem de lazer nas montanhas.
Ceridwen se afasta e me olha fixa e longamente. Os olhos marejados dela exibem uma ínfima ameaça.
— Comemoraremos sua vitória quando você voltar.
Quero agradecer a Ceridwen por tudo que ela fez. Por me ajudar em Verão, por se juntar à minha cruzada, por acreditar em mim. Quero dizer a ela o quanto estou feliz por tê-la como amiga, e saber que ela estará viva para liderar o mundo adiante torna o que preciso fazer um pouco mais fácil.
Mas não posso dizer nada sem confirmar para ela que não planejo voltar. Então dou um último apertão no braço de Ceridwen e faço uma leve reverência.
— Incendeie este mundo — repito. Por nós duas.
Caspar me dá adeus de um jeito muito menos emotivo. O sentimento dele é o mesmo, no entanto — velocidade, força, vitória. Dendera e Henn se reúnem para se despedir do jeito deles.
Formamos um tipo de procissão, Mather e Sir se movendo pela fileira para também receber os votos de sucesso. O Degelo é o último da fila, esperando com os ombros retos, parecendo mais soldados do que jamais os vi.
A traição de Phil fez isso. Ou talvez cada pedaço dessa guerra tenha feito, lascado a camada externa até que não restasse mais nada além das pessoas resilientes que me encaram.
Eles param, em silêncio, e engulo em seco. Dar adeus a Caspar e Ceridwen foi diferente. Nem mesmo Dendera e Henn fizeram meu peito pesar. Mas encarar o Degelo é como encarar Inverno inteiro, todas as pessoas pelas quais a vida inteira lutei para proteger.
— Não desapontarei vocês. — É tudo que consigo dizer.
Isso suaviza um pouco a severidade deles, as expressões exibem gratidão.
Trace inclina a cabeça.
— Jamais poderia, minha rainha — diz ele, com as sobrancelhas franzidas.
Meu maxilar se fecha subitamente, e quase desabo de novo. Ainda bem que sou salva por Mather, que se adianta com ordens finais para o grupo — devem servir Caspar durante a batalha, e dar qualquer ajuda necessária.
Eu me afasto, deixando que Mather tenha um momento sozinho com o Degelo, e saio da tenda, observando a área uma última vez. Angra não se moveu de onde o senti pela última vez, o que é... estranho. Ele sabe onde está nosso exército — deveria estar liderando o posicionamento dos próprios soldados. Ou será que pretende se sentar e observar suas marionetes levarem o mundo ao fim sem ele? Esfrego a nuca, fazendo uma careta para a extensão vazia do vale diante de mim.
Em algumas horas, esses tufos de grama serão ninhos de corpos. Os bancos de neve intocados do lado oposto estarão macabros com as próprias estampas de marfim e escarlate.
Mas o quanto antes eu fizer isso, menos sangue será derramado. Só preciso me concentrar na tarefa diante de mim — um ato, depois outro, depois outro. Agora, só preciso ver aonde vamos.
Mather e Sir passam para meu lado.
— Vou nos levar até Jannuari — digo. — Encontraremos Theron e pegaremos as chaves com ele. Assim que estivermos com elas, eu nos levarei até a mina Tadil. Quanto mais rápido fizermos isso, mais curta a batalha precisará ser. Angra colocou mais guardas na mina, então provavelmente haverá soldados lá, mas com sorte teremos o elemento surpresa ao nosso lado. Depois que todos caírem, olhem para a porta. Precisamos cruzar a barreira e passar por ela o mais rápido possível.
— Pegar as chaves. Cruzar a barreira. Entendi — frisa Mather.
Sir está menos pronto.
— Da última vez que você tentou cruzar a barreira...
— Por isso preciso de vocês dois — digo. — Três pessoas precisam cruzar, todas com a mesma vontade de chegar ao abismo de magia. Um esforço conjunto. — Estico as mãos para eles, esperando que não vejam o quanto estou tremendo. — Não sei se a barreira cairá completamente depois disso, e se os soldados conseguirão nos seguir para dentro e levar a luta para o próprio labirinto.
Solto o ar. Uma coisa de cada vez.
O rosto de Theron toma minha memória, o olhar que ele me deu em Juli. Olhos livres de qualquer emoção, exceto lascívia, possessividade e domínio.
Uma coisa de cada vez.
— Esforço conjunto — repete Sir ao tomar minha mão. — Estou com você, minha rainha.
Mather pega minha outra mão. Assim que nós três estamos unidos, volto toda minha concentração para um único destino.
Inverno.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!