1 de fevereiro de 2019

Capítulo 26

Mather

O DISCURSO DE Meira tinha tomado a dor causada pelo ataque e sufocado o sentimento como se alguém chutasse neve em cima de uma fogueira. Ao menos a dor nos soldados em torno de Mather, mas, mesmo enquanto aplaudia, cada movimento das mãos esbarrava no luto sombrio em seu coração. Mather observou o Degelo sem querer. Todos estavam cobertos de armas e vestidos para uma viagem rápida. E cada um estava sério, aplaudindo apenas porque a energia da multidão os impelia a ignorar o luto por um doce momento de clareza. Mas o momento passaria, e a realidade os esmagaria de novo, assim como Mather sabia que esmagaria a ele.
O olhar no rosto de Phil quando Conall o matou não era de arrependimento ou tristeza, nada que Mather esperava ver. Era apenas ódio.
A magia de Angra tinha feito isso. Tomara o leal e feliz Phil e o tornara... colérico. Mather deveria ter visto acontecer. Ele sabia que Phil estava ferido depois da tortura em Rintiero, mas jamais achou... jamais ao menos considerou...
Mas como líder do Degelo era seu dever enxergar essas coisas.
Tinha fracassado com Phil. Tinha fracassado com todos.
Mather engoliu em seco quando o discurso de Meira terminou. Ela passou por eles apressadamente, seguindo para as linhas de frente, e o Degelo, na posição de guardas de Meira, deveria seguir. Mas Mather observou William, Dendera e Henn seguirem atrás dela, e suspirou aliviado por ter um momento para falar com o Degelo antes que o dever o chamasse.
Apenas um momento. A guerra jamais permitia mais do que isso.
Mather se virou para o Degelo, que se aglomerou mais quando os soldados passaram em volta deles, as comemorações reduzidas a despedidas murmuradas.
— Vocês têm uma escolha — começou Mather, com a boca seca. — Não vou forçar nenhum de vocês a ir à guerra. Ficar para proteger o acampamento terá tanto valor quanto...
— Esqueça. — Foi Kiefer quem o interrompeu, encarando-o com um olhar severo. Se Kiefer tinha alguma objeção aos planos que o faria dar as costas bufando, Mather não tinha energia para lidar com isso no momento.
Mas o rosto de Kiefer estava quase gentil.
— Vamos com você — afirmou ele.
E foi isso. Nenhuma menção a como a viagem deles para escoltar os refugiados tinha levado à morte de Phil, nem sobre Mather não estar com eles quando aquilo aconteceu. Isso sem falar das outras vezes em que tinham ficado separados e as consequências difíceis de cada ocasião.
Agora o momento era apenas de união. União e obediência, de Kiefer, ainda por cima.
— Desculpe. — Mather se ouviu dizer. Uma palavra que não quisera dizer, embora estivesse na cabeça dele desde que Phil levara os soldados para o acampamento. Seria um sinal de fraqueza pedir desculpas ao Degelo daquela forma? William jamais pedira desculpas por nada. O que quer que fosse, aquela única palavra ondulou pelo ar, e Mather fechou os olhos.
O silêncio não permaneceu por muito tempo até que alguém lhe desse um tapa na cara. Com força.
Mather piscou para Feige, as bochechas dela estavam vermelhas como chamas e a menina fazia um biquinho.
— Não — disse ela, grunhindo. — Nada disso é sua culpa. Isso é culpa de Angra. Tudo isso.
O ódio de Feige incendiou os olhos dela, e Mather sentiu esse mesmo sinal de aviso da primeira vez em que lutou com ela. Não era apenas ódio pela traição de Phil. Era ódio de cada momento vivendo no campo de trabalhos forçados de Angra, de todo o terror que Feige suportara sob o reinado dele. A traição de Phil era, infeliz e terrivelmente, mais um pesadelo em uma longa fila de pesadelos, todos com raiz em Angra.
Trace se moveu, os dedos segurando com firmeza os cabos de faca que despontavam dos coldres nas coxas dele. Então mexeu a cabeça com um aceno curto que, sem hesitação, foi replicado por Hollis, Kiefer e Eli.
Hollis se aproximou da irmã.
— Mas vamos concordar que a melhor forma de superarmos isso é ajudando um ao outro.
— Não nos deixaremos ser tão consumidos pela Ruína a ponto de não podermos ser salvos — acrescentou Trace. — Podemos trazer um ao outro de volta. Os veranianos estão tentando ensinar as pessoas a resistir à magia, então sei que é possível. Nunca estamos sozinhos. Não importa no que a magia de Angra tente nos fazer acreditar.
Eles não culpavam Mather. Não culpavam Phil. E conforme Mather os olhou nos olhos, a tristeza no coração dele o dilacerando de novo, viu além do sofrimento do Degelo a mesma faísca de vida que inicialmente o atraíra para o grupo. Eram combatentes, apesar de tudo. Eram sobreviventes e continuariam a sobreviver, não importava quais tragédias enfrentassem.
— Então?
Mather se sobressaltou. Trace ergueu a sobrancelha.
— Você é nosso líder, ex-rei — disse ele. — Estamos juntos ou não?
Mather endireitou os ombros. Sentiu o lema do grupo agora mais do que nunca.
— Não seremos derrotados — sussurrou Mather. E foi sincero.


Três mil soldados deixaram o acampamento, uma mistura de outonianos, yakimianos, veranianos e invernianos.
Conforme Mather marchava com o Degelo, não podia impedir de voltar olhares observadores para as pessoas ao redor. William, com as costas eretas sobre o cavalo. Dendera, mais uma vez a guerreira relutante de quem Mather se lembrava, destemida e mortal ao lado de Henn. E Meira, tão alerta quanto William, tão destemida quanto Dendera. Um peso maior pendia sobre ela agora, um fervor ainda mais intenso para manter todos seguros. Enquanto o imenso exército montava acampamento toda noite, Meira percorria o perímetro, quase ignorando o fato de ser seguida por Mather e membros alternados, mais uma vez agindo como seus guardas. E só ia se deitar apenas quando Mather a chamava. Relutante, entrava na tenda e desabava nos cobertores, caindo no sono ao lado de Mather tão rapidamente que ele sabia que ela estava se exaurindo, esticando os limites da magia de alguma forma.
Mas Mather apenas se aninhava em volta de Meira, o braço sobre o quadril dela, o rosto enfiado em seu cabelo, e tentava se acalmar o máximo possível, um lugar para o qual Meira podia ir todas as noites para descansar.
A preparação para a batalha iminente aguçara a atenção de todos. Era por isso que ninguém dizia nada a respeito de Mather dormir com Meira — pelo menos não em voz alta. William encarava Mather todas as noites e todas as manhãs, e quando chegaram ao vale, até mesmo William parecia incapaz de permanecer envolto em sua habitual inexpressividade e estoicismo.
Mather entendeu imediatamente por que Caspar recomendara aquele lugar. A encosta das montanhas Klaryn compunham o lado direito, erguendo-se até as montanhas além, enquanto o lado esquerdo era uma colina coberta por árvores que criavam a ilusão de uma onda dourada e laranja subindo pelo meio da planície gramada. Na metade do vale, a grama esmeralda terminava em uma interrupção tão deliberada que só poderia ser causada por magia — a fronteira inverniana de branco e neve e árvores perenes.
Aquela batalha aconteceria nos termos deles, sem escapatória por qualquer direção. Caspar, Ceridwen e Meira se puseram a trabalhar imediatamente ao chegarem ao vale. Ergueram tendas na ponta mais a oeste, o que reivindicava o lado outoniano do campo de batalha em favor deles. Soldados se prontificavam em fileiras pelo gramado, saíam pelo bosque para começar a patrulhar em busca de inimigos avançando da retaguarda e tentavam fugas ousadas para cima dos penhascos íngremes para obter pontos de vantagem mais abrangentes.
Mather e o Degelo se aglomeravam perto de Meira. Ela não parecia se importar, envolvida demais em verificar os planos com Caspar ou repassar um mapa com Ceridwen ou projetar a magia em busca de problemas. Meira viu o olhar de Mather durante uma dessas varreduras e ele sorriu.
Uma pausa, então Meira sorriu de volta e se inclinou para dizer algo a Ceridwen.
— Ela é sua rainha antes de tudo.
Mather se virou para William, que estava ao lado dele, do lado de fora da maior tenda a céu aberto, montada para discutirem estratégia e planejamento. Quando Meira o beijou no acampamento outoniano, Dendera conseguira sorrir apesar do choque. Mas William sequer reagira. Mather tentara explicar a situação — não era algo com que deveriam se preocupar, não era passageiro, mas um relacionamento verdadeiro, duradouro, pelo qual Mather pretendia lutar. William cruzara os braços, semicerrara os olhos e dera as costas.
Mather se voltou para ele agora, com as sobrancelhas erguidas.
— Eu sei.
William fixou o olhar em Mather.
— Não perca isso de vista. Principalmente agora, ela é sua rainha e você é o soldado dela.
Mather manteve a voz baixa.
— O que você acha que acontecerá? Na verdade, isso me deixa ainda mais disposto a protegê-la, e eu...
— Proteção não é tudo de que ela precisa — interrompeu William. — Ela é a rainha de Inverno e você é um soldado de Inverno. As metas de vocês dois deveriam ser o bem-estar do reino... Independentemente de como isso afetaria qualquer um dos dois, emocional ou fisicamente. Você protegerá Inverno acima dos sentimentos que têm por ela, e espero que ela faça o mesmo.
Mather ouvira discursos semelhantes de William antes, e sabia que Meira também. “Inverno primeiro, acima de tudo”; “Sua meta é a salvação do nosso reino, nada mais.” Ele nunca estivera do outro lado de tal discurso, na posição de soldado e ela de monarca. Era isso que William tinha dito a Meira durante todos aqueles anos? O motivo pelo qual não quisera que ela amasse Mather? Para que os sentimentos de Meira não interferissem no desenvolvimento do reino?
Pior do que isso, Mather sabia que Meira concordava com William. Sabia que ela escolheria Inverno a ele, e por mais que tentasse abafar a preocupação constante, Mather não conseguia contê-la agora.
Meira morreria por eles. E William esperava que Mather permitisse.
Ele já perdera muita gente para Angra — Alysson, Phil, e dezenas mais ao longo dos anos. Talvez não conseguisse salvar Alysson ou Phil, mas, que droga, não ficaria simplesmente sentado assistindo a Meira morrer também.
O gosto de luto veio à boca de Mather, metálico e rançoso, quase obrigando-o a vomitar ou gritar para libertá-lo de alguma forma. Bastava de mortes. Bastava.
— Alguém precisa lutar por ela — afirmou Mather. — Alysson fez o mesmo por você. Sou dela primeiro, e de Inverno depois.
— Problemas familiares?
Mather se virou para Meira e calor subiu pelo pescoço dele.
— Não, minha rainha — disse William a ela. — Está pronta para partir?
Mather se assustou.
— Partir? Já?
Meira também se assustou, mas se recuperou mais rápido do que Mather. Não foi a pergunta de William que a abalou — foi a forma como ele estava parado ali, mais distante e estoico do que nunca.
— Sim. — Meira incluiu Mather na conversa com um olhar. — Recebemos notícias da localização de Theron. Angra está marchando com o exército, mas...
— Jannuari? — adivinhou William quando Mather não confiou em si mesmo para falar.
Meira assentiu. Ela apontou para uma tenda menor à direita deles.
— Peguem suas armas e me encontrem aqui em dez minutos.
— Angra não chegou — debateu Mather, um pânico lhe subindo pelo peito dele. Estavam partindo para Jannuari em minutos. Achou que não fariam isso até que Angra marchasse até eles, que ainda poderia ter uma última noite com Meira, com o corpo enroscado contra o dela na tenda que compartilhavam.
A suavidade de Meira se dissipou.
— Angra já está próximo, e ele sabe onde estamos. Precisamos de cada momento que pudermos ter.
A boca de Mather se escancarou.
— Como você...
Mas ele parou quando Meira tocou o medalhão distraidamente, a joia reluzente tão deslocada em uma mulher vestida com armadura de couro emprestada de Outono, túnica e botas paislianas e um chakram.
A magia dela. Meira podia usá-la para sentir Angra, então Angra conseguia senti-la também? Ou Meira era capaz de se proteger dele e deixar que Angra soubesse onde ela estava apenas quando ela escolhesse?
Se pudesse fazer isso, Angra sem dúvida conseguiria se proteger de Meira. Então por que permitiria que Meira soubesse onde ele estava?
Mather conteve essas preocupações. Meira sabia o que estava fazendo. Mather confiava nela.
— Tudo bem — concordou ele. Quanto antes acabassem com aquilo, mais rápido aquele desgraçado deixaria de ser uma ameaça para Meira, e mais rápido ele pagaria por tudo que tinha feito.
Mather correu na direção da estrutura que Meira indicara, aquela abarrotada de armas e equipamentos. O restante do Degelo ficou perto da tenda principal, observando o líder passar com uma mistura de preocupação e dor. Mather os deixaria de novo, em breve.
Mas aquilo tudo também acabaria logo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!