1 de fevereiro de 2019

Capítulo 25

Meira

— OS CORDELLIANOS foram derrotados por nossas forças.
— ... apenas meio batalhão. Phil liderava um pequeno grupo daqueles posicionados em Oktuber.
— Estavam despreparados, como se tivessem vindo correndo.
— Ainda bem que só tivemos poucas perdas.
Poucas perdas. Meus dedos apertam a manga do vestido de Nessa, o sangue seco dela racha contra minha pele. As vozes ao meu redor param, sobressaltadas pelo meu forte tremor. Estou no mesmo lugar há horas. Talvez dias. No chão com o corpo de Nessa nos braços.
— Meira.
Desvio os olhos da clareira coberta de sangue que um dia abrigou a comemoração de casamento de Ceridwen e Jesse. Aquela mancha é sangue ou vinho que alguém derramou?
— Meira — diz Sir de novo, agachado diante de mim. Ele estende a mão para Nessa. — Precisamos...
— Não! — digo, como um grunhido. Sir se encolhe.
Não posso culpá-lo. Também quero me afastar de mim.
Ceridwen está de pé atrás de Sir. E além dele, outonianos, veranianos e yakimianos trabalham juntos para limpar a carnificina na área. Caspar me observa, e Nikoletta, e Dendera... todos estão por perto, com olhares de empatia.
Alguns passos mais a frente, Mather está agachado sobre um corpo no chão. O Degelo, Henn e os refugiados restantes chegaram em algum momento durante a luta, então Hollis, Kiefer, Eli, Feige e Trace cercam Mather agora. Alguns choram, alguns estão sentados em silêncio, com expressões lívidas em torno do corpo de Phil.
Seguro Nessa com mais força.
Mais alguém se ajoelha ao meu lado. Conall. Quando ele saiu?
Conall se curva sobre Nessa, e não o afasto quando ele passa a mão pelo rosto cinzento da irmã. Os dedos de Conall passam para o braço dela, e ele o levanta, deslizando algo entre o braço e o peito de Nessa.
Um livro.
— Eu estava... — A voz de Conall falha. — Eu estava anotando os entalhes da caverna das lembranças. — Ele fecha os olhos, e quando os abre, volta o olhar para mim. — Deveria ser um presente para ela. Para que Nessa pudesse levar Inverno consigo para onde quer que fosse. Queria que ela tivesse um pedaço de nosso reino consigo. Eu queria que ela...
Mas Conall não termina o pensamento. Seus olhos azuis molhados de lágrimas percorrem meu rosto, e o luto evidente que Conall estampa me arrasa.
— Sinto muito mesmo, Conall. — Eu me ouço dizer. O lamento balbuciado de alguém que fracassou parece frágil. — Deveria ter usado minha magia antes. Deveria ter impedido Phil, independentemente do custo. Eu deveria... sinto muito...
Conall oscila para a frente e me puxa contra si, levando a testa à minha.
— Meira, não.
Isso me choca e me cala, mais do que qualquer coisa que Conall poderia ter dito. Ele não me chamou de minha rainha.
— Eles a queimarão — sussurro.
Conall engole em seco, assentindo.
— Eu sei.
Mas será uma cerimônia outoniana. Para Nessa, a garota com o livro das memórias invernianas nos braços, a garota que deveria ter partido em aventuras pelo mundo e reunido pedaços de cada reino em Primoria... é adequado.
Conall abaixa as mãos devagar, passando o corpo da irmã dos meus braços para os dele, e deixo que ele a leve. Ele fica de pé, com o cuidado de manter o livro no peito de Nessa. Os olhos dele se fixam no meu em um último olhar de compreensão. De dor... Uma dor lancinante e avassaladora.
Assim que Conall se afasta, Sir me coloca de pé. Minhas pernas falham por estarem encolhidas no chão há tanto tempo, mas Sir me mantém de pé, me apoiando sob o braço. Faço uma tentativa fraca de me desvencilhar.
— Você deveria ficar com seu filho.
Sir não diz nada, apenas me levanta enquanto encaro Mather, ajoelhado sobre o corpo de um dos melhores amigos.
A mão que usei para afastar Sir está apoiada no peito dele e meus dedos se fecham, agarrando sua camisa. Empurro Sir de novo, ou talvez o segure no lugar, minha garganta está tão inchada de pesar que tenho ânsia de vômito e oscilo, empurrando e puxando Sir. Ele pega meu outro braço, me segurando ao chão, e eu o empurro agora, batendo no peito dele.
— Me solte — digo, mas as palavras não se igualam à ferocidade com que o golpeio. Paro, as mãos espalmadas se apoiam nos braços de Sir.
— Me solte — repito, uma súplica fraca que direciono para a terra. — Nós... Nós deveríamos ir. Agora mesmo, antes de perdermos mais alguém...
As palavras saem de mim borbulhando, desejos entrecortados que despedaçam meu coração enquanto as digo.
Os dedos de Sir se apertam nos meus cotovelos. Ele vai gritar comigo agora. Vai me reprimir por falar assim.
Fecho os olhos com força, me preparando para o ataque de culpa de Sir. Uma rainha deveria ser forte e resiliente. Uma rainha deveria enfrentar a tragédia com esperança.
Mas tenho o sangue de Nessa no corpo. Tenho a imagem da morte dela na cabeça. Nos ouvidos, o grito de Mather ao ver Phil morrer. E nem sequer chegamos perto de derrotar Angra. Quanto pode piorar?
— Você poderia partir — diz Sir, e a voz grave dele ressoa por meus braços. Encolho o corpo, então ouço. O quê? — Mas não vai, porque você é mais forte do que a pior coisa que poderia acontecer, e isso a torna imbatível.
Ofegante, ergo o olhar para Sir, meus olhos percorrendo suas feições como se não o visse há meses. Talvez não tenha — todo o tempo que passei com raiva de Sir não me permitiu ver o quanto isso também o mudou. Impossivelmente, o Sir que vejo agora parece... gentil. Reconfortante. E as palavras dele acalmam o fogo em meu coração, um rompante frio de ar no inferno que é esse luto.
Sir solta meus braços como se para provar o que quer dizer, que posso ficar de pé sozinha.
Ele passa para o lado, abrindo caminho até Mather.
Engulo um soluço. Nikoletta ajuda Conall a colocar o corpo de Nessa com os demais enquanto parte do Degelo levanta e carrega o corpo de Phil até o mesmo local. Mather fica no chão, com as mãos no rosto, as costas curvadas. A área toda parece murmurar com tristeza, com um choque que não pode ser apaziguado.
Antes de hoje, essa guerra estava sob nosso controle. Alguma pequena parte dela, pelo menos. Agora, as expressões de todos... Todos estão com medo.
Angra nos encontrou. Qualquer segurança que achávamos ter era falsa.
Eu me ajoelho ao lado de Mather e me enrosco em torno dele, coloco o rosto em seu pescoço, meus braços puxam Mather para mim. Ele se rende voluntariamente. Acho que ele pede desculpas, mas não digo nada.
Esse é o futuro que terei se continuar seguindo em frente. Nada além de lágrimas e sangue e dor, com a eventual esperança de felicidade — para todos os outros também. Vale a pena?
A pergunta está coberta com o sangue derramado, partida sob a dor que sinto. Mas eu a faço mesmo assim, meus olhos se fecham com força sobre lágrimas recentes quando Mather ajusta os braços sobre mim.
Minha magia responde.
Sim.


Em Outono, o reino das árvores infinitas e folhas secas, precisam levar os corpos para uma clareira ampla e vazia o suficiente para que as chamas não se espalhem além dos mortos. O que significa que queimar adequadamente todos os corpos levaria pelo menos um dia inteiro que o exército não tem.
Então deixamos o corpo de Nessa com os outros oito que caíram durante o ataque. Nikoletta promete que ela receberá um funeral honroso, um digno da realeza outoniana.
E eu darei a ela um futuro honroso, penso. A memória de Nessa viverá em um mundo livre de Angra.
Horas depois, partimos.
Aqueles que não se juntarão a nós no local da batalha final se reúnem na ponta leste do acampamento para se despedir. Nikoletta e Shazi; Jesse e os filhos dele; Kaleo e Amelie; todos outonianos, invernianos, veranianos e yakimianos que não podem mais lutar e um pequeno grupo de soldados que ficará para protegê-los.
Mas como Phil revelou esse local aos cordellianos posicionados em Oktuber, o acampamento mudará para um local novo, mais seguro — mas só depois de partirmos. Já vimos agora, mais do que nunca, o quanto a magia de Angra é impiedosa. Se algum de nós for tomado pela Ruína e souber da nova localização... É melhor que se mantenha desconhecida. Nós os encontraremos quando tiver acabado. Encolho o corpo diante desse pensamento.
Caspar os encontrará quando tiver acabado. E Ceridwen. E Mather, e Sir e todo mundo que sobreviverá a isso.
É a única parte de nosso plano que mudou agora. O restante — marchar até o vale, revelar nossa localização para Angra e esperar que a batalha final comece — permanece igual.
Mas não parece certo. A morte de Nessa, a traição de Phil, a destruição de nossa sensação de segurança — tudo isso faz parecer que nossas vidas deveriam estar irremediavelmente abaladas.
Nos limites do acampamento, eu me viro na sela do cavalo. O espaço diante de mim não pode ser exatamente chamado de clareira, mas as árvores são finas o bastante para permitir que nosso exército se reúna em uma formação coesa em grande parte. Os limites do acampamento estão tomados por gente que se despede, famílias chorando junto aos soldados que partem, sussurrando palavras de coragem.
Conall está naquele grupo não muito longe de mim, com as mãos cruzadas às costas. Ele vai ficar mesmo assim, ou para cumprir minha última ordem, ou porque, diferentemente de mim, não suporta não dizer adeus à irmã. Não teve a chance de ficar de luto por Garrigan também.
Só restou ele.
Conall me encara como se pudesse sentir o que estou pensando, ou talvez esteja pensando o mesmo — não deveria ser eu.
Eu me afasto dele, incapaz de encará-lo sem que lágrimas caiam de novo. Mas quando olho para frente, para os soldados de partida que seguem para a floresta enquanto se despedem, vejo a mesma emoção. Arrependimento encoberto pelo luto em virtude do destino para o qual marchamos.
Meus olhos se viram por vontade própria para Sir. Ele está sentado no cavalo ao lado de Henn e Dendera, personificando a presença que eu conheci tão bem quando crescia — um general marchando para a guerra.
Medo é uma semente que, depois de plantada, jamais para de crescer.
Antes, sabíamos do perigo que Angra representava para o mundo, mas ainda achávamos, tolamente, que estaríamos a salvo até que escolhêssemos marchar até ele. Agora vejo, todos vemos, a verdade dessa guerra, como nos alcançará não importa onde nos escondamos ou o quanto achemos que estamos a salvo.
E percebo que é assim que a morte de Nessa e a traição de Phil mudaram nossas vidas: agora sentimos medo. Se entrarmos na batalha com emoções às quais a Ruína possa se agarrar...
Já perdemos.
Toco o cavalo para frente, seguindo para o ponto mais vantajoso entre os soldados que se vão e o acampamento que fica. Olhos se voltam para mim conforme reduzo a velocidade até um trote calmo, avançando pela fila de rostos que estampa o mesmo medo que sufoca minha força.
Nenhum deles espera sobreviver a isso. Um dos meus próprios soldados levou os homens de Angra diretamente até nós — que outras traições nos esperam? Quem será infectado? Será que morrerão não por uma espada inimiga, mas pelas mãos dos próprios irmãos e irmãs?
Ergo as mãos acima da cabeça, com a boca aberta pronta para chamar atenção. Mas como me dirigir a eles? Não é um reino que eu possa chamar.
Mas é isso mesmo.
— Angra procura unir o mundo — começo a dizer, com a voz ecoando acima das despedidas murmuradas. A atenção se volta para mim em uma onda constante conforme me estico na sela, o coração martelando. — Já vimos até onde ele vai para alastrar seu controle. Mas vejo diante de mim algo muito maior: uma união verdadeira. Vejo um exército de Outono, Verão, Yakim, Ventralli e Inverno. Vejo Ritmo e Estação lado a lado, marchando juntos em defesa de um sonho coletivo. Um mundo que jamais conhecemos, mas que desejamos construir, sem a ameaça da magia. Um mundo no qual cada um de nós seja livre para viver e amar e ser por conta própria.
“Todos perdemos algo. Lares, entes queridos, liberdade, e é por isso que marchamos para a batalha. Mas hoje sofremos uma perda igualmente grandiosa, a perda da inocência. Vocês sabem como a luta progredirá, que Angra atacará não apenas com armas e soldados, mas com lembranças e arrependimentos. Assim que o encontrarmos na batalha, cada dor que vocês abrigam em si, cada medo que habita em seus corações será usado contra vocês. E seria fácil ceder aos ataques dele.”
Minha voz falha.
— Mas não estamos aqui porque procuramos o que é fácil. Estamos aqui porque sabemos que alcançaremos a vitória quando marcharmos para aquele campo de batalha. Angra quer obscurecer nosso mundo. — Sacudo a cabeça, sorrindo tanto que começo a achar que fiquei louca. — Mas não podemos ser extintos, e nossa luz o cegará.
Assim que termino, a multidão ruge.
Punhos se erguem no ar. Cabeças se inclinam para trás. Gritos e comemorações e vivas explodem ao meu redor, cada soldado afastando o medo em favor da manta protetora da fé. Eles sentem tanto quanto eu — o quanto é melhor se ater a palavras de esperança do que aos tremores do medo.
Não muito longe de onde estou, Mather aplaude junto com o Degelo. O sorriso no rosto dele é de cura, esperança. Só preciso disso. Mather, sorrindo. Os soldados, o luto deles esquecido por um momento.
Todos estão prontos para a guerra. Todos estão prontos para a vitória.
Faço o cavalo dar a volta, entrando nas fileiras reunidas de nossos exércitos até encontrar Caspar e Ceridwen na frente. Passo por Dendera e Henn, que aplaudem com a multidão. Os olhos de Dendera estão úmidos e os lábios dela exibem um sorriso de orgulho. Inclino a cabeça para Dendera e meus olhos se voltam para o lado, fixando-se em Sir.
Ele está ereto sobre a sela, imitando Dendera quase perfeitamente, até os olhos úmidos e o sorriso nos lábios. O fato de Sir estar aplaudindo seria o suficiente, mas ele está, de fato, mostrando emoção. Para mim. Sorrindo. Para mim.
Solto o ar e estremeço, recusando-me a chorar de novo.
Enfrentarei essa guerra, todos enfrentaremos, com as únicas armas que realmente importam: nós, nossas forças e fraquezas. Boas ou ruins, terríveis ou maravilhosas, essas coisas me moldaram e eu as usarei para ser a pessoa que o mundo precisa que eu seja. A pessoa que Rares e Oana precisam que eu seja; a pessoa que Conall, Mather, Sir e todos os invernianos precisam que eu seja.
A pessoa que Nessa me tornou.
Serei Meira.

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