1 de fevereiro de 2019

Capítulo 24

Ceridwen

CERIDWEN SÓ VIU o fim da batalha.
Depois da última reunião, ela foi dividir seus combatentes entre aqueles que partiriam e os que ficariam para trás. Então estava com Lekan quando os primeiros gritos surgiram. Corria pelo acampamento quando a corneta tocou. Perdia o fôlego no limite externo da clareira quando os reforços outonianos chegaram. O apoio deles levou a luta a um fim decisivo.
E agora estava correndo de novo, até a tenda principal, saltando sobre vítimas caídas e desviando das últimas tentativas desesperadas dos cordellianos agonizantes de derrubá-la. Ceridwen disparou para dentro da tenda, mas a encontrou vazia, a mesa onde tinham feito os planos de batalha ainda coberta de mapas.
Ceridwen se virou e correu de novo, o cheiro pungente que sempre acompanhava um combate arranhando sua garganta.
Jesse não partira com Ceridwen. Tinha ficado para ajudar Caspar — tinha ficado ali, naquela tenda, na clareira que muito recentemente estava cheia de alegria e música.
Ceridwen correu até a tenda de Jesse. Ele dormia com os filhos todas as noites na área dos invernianos. Bem, dormira lá todas as noites exceto uma — a noite passada, aquela depois do...
Era apropriado, até demais, que aquela clareira agora fosse um campo de batalha. Talvez de alguma forma fosse uma punição. Quando Ceridwen parou subitamente do lado de fora da tenda de Jesse, sentiu essa percepção estilhaçar a frágil estrutura de felicidade que tinha construído.
Aquilo era punição por acreditar em alegria durante uma guerra.
Aquilo era punição por ser feliz quando não tinha o direito.
Ceridwen segurou as abas da tenda de Jesse, inspirou e as abriu.
Que ele esteja aqui, que ele esteja aqui...
Primeiro viu Melania. Então Geneva, depois Cornelius, aninhados juntos no chão, envoltos em um único cobertor longo. Eles piscaram para Ceridwen, com os olhos arregalados por trás das máscaras pequenas e surradas, as únicas que tinham conseguido trazer de Rintiero.
Melania levou um dedo aos lábios.
— Shh, Cerie! Está interrompendo.
E a menina se acomodou de volta contra os irmãos, olhando para cima, para Jesse, que fez uma pausa no livro aberto em seu colo. Os olhos dele encontraram os de Ceridwen, a princípio arregalados por um sorriso, então se semicerrando quando viu a tensão dela.
Jesse apoiou o livro e se levantou da cama. Melania resmungou.
— Não, você precisa terminar! — implorou ela. — Nessa também não terminou.
Jesse gesticulou com a mão para a menina e ergueu o olhar para Ceridwen.
— O que foi?
Ele não sabia da batalha. Estava ali, lendo para os filhos.
Uma única risada escapou e se dissolveu na língua de Ceridwen e lágrimas escorreram pelo rosto. Jesse correu até Ceridwen, e ela o abraçou pelo pescoço, respirando com dificuldade junto a ele, tentando não soluçar alto demais para que as crianças não se preocupassem.
— Começou — sussurrou Ceridwen para Jesse. Ela sentiu Jesse se encolher sob seu toque, os braços dele estremeceram. Jesse hesitou, deu um beijo na bochecha de Ceridwen e se voltou para Melania, Geneva e Cornelius.
— Preciso que vão brincar com Amelie — disse ele às crianças. Jesse olhou para Ceridwen em busca de confirmação de que aquilo era seguro, e ela assentiu. Dali, a parte veraniana do acampamento não ficava no caminho da batalha, a qual, seja como for, àquela altura já havia acabado. Então Jesse se virou para Ceridwen, e ela estendeu a mão, precisando segurá-lo. Parte dela doeu como se ainda estivesse do lado de fora da tenda dele, esperando para abrir as abas, sem saber o que a aguardava.
Era assim que todos os momentos seriam de agora em diante, percebeu Ceridwen.
Incertos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!