1 de fevereiro de 2019

Capítulo 23

Meira

— MINHA RAINHA!
Semicerro os olhos para o cavaleiro que vem correndo pela estrada. Atordoada, pisco os olhos quando ele para ao meu lado.
— Trace?
Tanto Trace quanto o cavalo parecem prestes a desabarem de exaustão. Meus olhos se focam no que há atrás dele, procurando o restante do Degelo ou Henn — deveriam estar todos juntos, liderando o último grupo de refugiados. Mas é apenas Trace, e ele desce da montaria.
— Eu vim... à frente... para avisar...
Seguro Trace pelos ombros, mantendo-o no lugar. Ele me encara de volta, com tanta tristeza nos olhos que me pergunto como não se desfez em pedaços.
— Estávamos escoltando os refugiados de volta — diz Trace. — Há três noites, percebemos que Phil tinha sumido...
— O quê? — Sacudo a cabeça. — Sumido? Como?
— Henn mandou Phil ir à frente para fazer o reconhecimento, mas ele nunca mais voltou. Hollis saiu em busca dele, mas simplesmente tinha sumido. — Trace inspira fundo, se acalmando. — Achamos que os soldados de Angra o pegaram, porque...
— Onde? — Minha voz está espantosamente calma, apesar do pânico que sobe no fundo da minha garganta. Se estavam perto demais de Oktuber, os soldados cordellianos posicionados ali sob o comando de Angra poderiam...
Mas Trace interrompe minha análise.
— Tem mais, minha rainha — diz ele. — Hollis viu algo quando saiu para procurar. Ele voltou com notícias de um exército marchando de Oktuber. Marchando para cá.
O susto me faz pular para longe dele.
— O quê?
— Ainda não encontramos Phil — continua Trace. — Se os soldados de Oktuber o pegaram... não sabemos. Não sabemos, mas eles estão vindo. Agora.
Conall já está se movendo, carregando as armas espalhadas pela tenda. Nessa fica ao meu lado, calma e quieta.
Se os soldados estão marchando de Oktuber, não são a força total de Angra. Serão cordellianos, em grande parte, mas ainda assim estarão fortemente armados. No entanto, como eles sequer sabem onde estamos? Esse acampamento deveria estar escondido...
Lembranças de Paisly quase me fazem cair de joelhos. Phil arrasado, inconsolável, pedindo desculpas pelo que contou a Angra.
E agora, se ele foi levado de novo... não será nada difícil para os homens de Angra o fazerem falar ainda mais.
Meu coração parece chumbo e pesa sobre o estômago, a força da sensação me dá ânsia de vômito. Mas não, não, não vou formar nenhuma teoria, não até ter certeza.
— Quanto tempo até chegarem? — pergunto a Trace.
Ele sacode a cabeça.
— Já devem estar aqui.
Meu corpo fica frio. Saio correndo, Conall, Nessa e Trace vêm atrás de mim.
Gritos voltam minha atenção para a ponta nordeste do acampamento. A princípio abafados, são gritos sobressaltados que atingem direto a confusão em meu corpo — foi rápido demais, isso não deveria estar acontecendo, como isso aconteceu?
A ponta nordeste do acampamento já é um campo de batalha. Conall, com uma espada em uma das mãos e uma adaga na outra, fica à postos ao meu lado, Trace do outro e Nessa segue ofegante atrás de nós.
Soldados brotam da floresta e disparam entre as tendas, cortando tecido, tentando formar linhas de batalha nas ruas irregulares do acampamento. Eles tiram vantagem do elemento surpresa dando início a cada combate com velocidade maior do que nossos soldados são capazes de acompanhar. Outonianos passam correndo por mim, que, chocada, estou no meio da estrada de terra, a menos de cinco passos do limite da batalha.
A batalha, a luta de que precisávamos como distração, está acontecendo agora, nesse momento, no meio de um acampamento cheio de inocentes.
Pego o chakram e atiro na confusão, a magia no meu peito saltando atrás dele. Esse empurrão encoraja a lâmina a seguir mais rápido, com mais força, cortando inimigos em um arco ágil de defesa. A primeira linha de soldados cai, as armaduras ressoando ao tocarem o chão, e meu chakram volta.
Cada vez mais e mais soldados chegam.
Pego Conall e Trace.
— Precisamos de ajuda!
Eles concordam por cima do barulho. Nessa, com o rosto lívido, se estica ao meu lado, e odeio a ironia dessa situação — tínhamos acabado de decidir nos separar para a batalha final, e agora estamos aqui, ela ao meu lado. Espero que ela saia correndo para ficar com as crianças na outra parte do acampamento, mas Nessa permanece e corre comigo quando embainho o chakram e sigo adiante.
A tenda principal não está longe — muito perto da luta, perto demais — e me inclino para frente no momento em que Caspar e Sir disparam para fora; há fúria nos olhos pretos de Caspar, severidade nos de Sir.
— Rainha Meira — diz Caspar. — Os soldados de Angra...
— Eu sei — interrompo. — Mas não são de Angra.
Sir me olha sobressaltado, mas um dos generais de Caspar dispara para fora da tenda e Caspar se volta para ele.
— O quê? — insiste Sir, franzindo a testa.
— Não são os soldados de Angra — digo. — São de Cordell. De Oktuber.
A expressão de Sir se desanuvia e ele se vira para pegar o braço de Caspar, que se vira com a testa franzida, assustado, e quando Sir repete o que eu disse, Caspar pisca para mim, a percepção estampada em seu rosto. Ele entra de novo na tenda e grita para os demais dos comandantes que não é o exército completo de Angra.
Os olhos de Sir percorrem meu corpo de cima a baixo, o familiar exame em busca de ferimentos, antes de fazer o mesmo com cada membro de meu grupo. Quando Sir chega a Trace, ele para.
Trace se está recostado em um dos mastros da tenda, o rosto lívido.
— Não consegui chegar aqui a tempo — diz ele, para ninguém em especial. Temos batedores posicionados por todo o acampamento que deveriam ter nos avisado do ataque muito antes de Trace aparecer. Alguém teria visto um exército tão grande chegando.
Isso não está certo.
— Meira! Trace?
Mather para subitamente ao nosso lado. Meus olhos se voltam para a espada ensanguentada na mão dele e todos os meus instintos gritam.
— Os invasores — diz Mather, sua confusão a respeito da presença de Trace sumindo diante da ameaça do banho de sangue. Mather assente para Sir sombriamente. — Estão vindo para cá.
Isso não está certo, isso não está certo...
Sir já está com uma espada em punho quando pergunto, com a voz fraca:
— Aqui?
Meus olhos se voltam para a tenda principal, a clareira diante dela, cheia de mesas que serão facilmente viradas e decorações de casamento que serão facilmente rasgadas. De todos os lugares no acampamento, aquele é o que tem a melhor chance de sucesso — liberdade para atacar em grupos maiores, com o benefício extra de ser nosso centro de comando.
Como os cordellianos ao menos saberiam que estamos aqui? O acampamento é um labirinto de ruas irregulares e tendas tortas.
Mas é tarde demais para buscar respostas, tarde demais para consertar isso, tarde demais para fazer qualquer coisa que não seja olhar boquiaberta para os soldados marchando por uma rua que segue da ponta nordeste do acampamento, as armaduras cordellianas manchadas com os sinais da batalha.
E à frente deles está alguém cuja presença faz Mather e Trace darem um salto adiante.
— Phil! — gritam os dois, avisando-o para que saia do caminho... mas um alerta dispara tão forte em meu coração que quase vomito.
Sir me encara. Ele também sabe. Então ficamos parados ali, compartilhando um olhar como se ambos pudéssemos ver uma avalanche se aproximando.
Alguém que sabia a localização exata do acampamento.
Alguém que poderia ter descoberto os turnos de nossos batedores para permitir que um exército agressor evitasse ser detectado.
Phil para, do outro lado da praça.
— Phil! — grita Mather, de novo, mais incerto dessa vez.
Trace se dá conta e o olhar de ódio no rosto dele faz tristeza perfurar meu estômago. Trace segura o braço de Mather.
— Ele fez isso.
Mather sacode a cabeça. Mas a prova se solidifica quando Phil estende a mão e aponta.
Para mim.
Os soldados cordellianos atrás dele não precisam de mais instruções. Invadem a clareira com as armas em punho. O grito do ataque deles atrai nossos combatentes para a área e todos vêm correndo de ruas laterais. Nossos homens irrompem em uma muralha de defesa contra as dezenas de cordellianos.
Sir, Mather e Trace entram na luta. Mather e Trace são impulsionados por um misto confuso de determinação e dor que torna tóxicos os movimentos deles. Permaneço em um estado de choque perto da tenda principal, com Conall e Nessa.
Essa não foi a primeira vez em que Phil contou a Angra minha localização — de acordo com Mather, foi assim que eles acabaram em Paisly. Mas na ocasião Phil estava apavorado e se mostrava arrependido.
Agora — agora ele está rindo, orgulho praticamente escorrendo dele.
A familiaridade daquilo me atinge com um choque e cambaleio para trás, mas Conall me segura sob os cotovelos.
Já vi isso antes — Angra torturando alguém, apenas para que essa tortura plante a semente da traição. Theron.
Eu me viro para Nessa.
— Vá para um lugar seguro! — grito ao entrar na batalha, Conall mergulhando atrás de mim em uma espiral de lâminas. Com o chakram em uma das mãos, abro caminho golpeando, lançando rompantes de magia para onde posso. Correntes de força para os invernianos que lutam; um ângulo perfeito do chakram para proteger um veraniano. Os soldados cordellianos se movem com rapidez, cortando e esfaqueando como se estivessem sufocando e cada movimento lhes devolvesse o ar. Mas estamos em número maior, uma pequena vantagem. Só não sei por quanto tempo essa vantagem se sustentará.
Não pude salvar Theron de Angra, mas posso expurgar a Ruína de Phil. O exército agressor sem dúvida seguirá com a batalha, mas posso salvá-lo ao menos. Preciso.
Phil está de pé no início da estrada pela qual os cordellianos vieram, observando o frenesi com prazer. Antes de ver que me aproximei, embainho o chakram e uso as duas mãos para canalizar magia na direção dele, uma espiral de gelo que dispara de mim. Praticamente sinto o gosto da escuridão em Phil.
Mas purifiquei constantemente meus invernianos sempre que estávamos expostos à Ruína.
Exceto quando Phil e Mather foram capturados.
Exceto pelo que quer que Phil tenha sofrido nas mãos de Angra.
Sou atingida pela lembrança de Theron na cela de Angra, a tortura mental que Angra infligiu a ele até que, no chão do calabouço de Rintiero, Theron tivesse me contado que queria aquilo.
Angra está fazendo tudo de novo.
Não, não...
Phil uiva quando minha magia o atinge. Eu me desvencilho da batalha e fico a poucos passos dele, com Conall ao meu lado.
Phil me encara, seu olhar fervilha de ódio.
— Não quero sua ajuda!
De novo, lanço a magia e Phil desliza para trás, uivando com os dentes trincados.
— Já vi o que sua magia pode fazer — dispara Phil. — Ela fere a todos. Você está lutando, mas tudo foi culpa sua. Se simplesmente se rendesse nós estaríamos livres. Você é o motivo pelo qual estávamos naqueles campos. Você é o motivo pelo qual todos nos ferimos. Eu me recuso a permitir que nos machuque mais.
— Não estou machucando você, Phil — tento, com as mãos abertas, a magia em pausa. — Estou protegendo você de Angra, ele é o motivo pelo qual está fazendo isso! É você quem está ferindo pessoas agora!
Indico a batalha. Quando o faço, Mather e Sir saem dela, cambaleando, com os rostos manchados de terra e sangue. As armas de Mather pendem ao lado do corpo e ele encara Phil com uma postura de derrota.
— Phil — tenta Mather, e a voz sai como uma lufada de ar depois de um soco. — Por quê?
Atrás dele, um cordelliano sai da luta e mergulha contra nós, mas Sir intercepta, voltando para a confusão. Os olhos dele se voltam para nós sempre que consegue, e sua expressão tem algo que vi poucas vezes: preocupação.
Sir está preocupado. Conosco.
Contenho o tremor no estômago até que se acalma.
A fúria de Phil fervilha.
— Por você! Por todos nós! Você se feriu e ela nem ligou. Você se feriu de novo e ela continuou insistindo porque ela não se importa com a gente. Ela não se importa com nada além da sua vingança idiota! Não deixarei que você nos machuque mais!
Agora Phil está gritando, os olhos injetados e insanos, a pele esticada como se não pudesse conter a loucura sob ela.
Meus olhos se voltam para um movimento atrás de Phil.
E meu mundo inteiro se dissolve.
O pânico me impulsiona para a frente, um rompante tolo de instinto, mas é tudo que é preciso para afastar a atenção de Phil de nós para a figura que surge entre duas tendas atrás dele. Ela ergue a faca na mão como se pretendesse esfaqueá-lo pelas costas.
— Nessa! — grito agora porque Phil a vê, não adianta se esconder. — CORRA!
Nessa não se move quando Phil se vira, ambos congelam na estrada. Então percebo: Phil é inverniano. Eu deveria conseguir impedi-lo. Mas estaria forçando algo a alguém, fazendo com que obedeça à minha vontade. Seria um uso negativo de magia.
Mather, Conall e eu disparamos para os dois, mas Phil está perto demais de Nessa, ambos de pé na estrada que leva para longe da clareira, livre da batalha. A clareira ao nosso redor contém as piores ameaças, lâminas perfurando o ar, gritos agonizantes ondulando pela brisa. Todo o combate se dá ali, então, conforme disparamos, enfrentamos inimigos que tentam nos atacar, precisamos desviar dos golpes, enquanto Phil e Nessa só têm um ao outro com que se preocupar.
Ouço um grito.
— Meira!
Mas não me viro. Sinto o pânico de Sir onde ele está preso na batalha, incapaz de se desvencilhar e nos ajudar — mas não posso pensar nisso. Não com a forma como ele está preocupado, e demonstrando isso. Não com a forma como a voz de Sir perfura meus ouvidos, entrecortada e áspera, e me faz engolir um grito.
Busco minha magia. Eu a usei para realocar os invernianos em Juli sem precisar tocar neles, mas estava impulsionada por puro instinto, e antes que eu consiga me soltar o suficiente para tentar o mesmo com Nessa, um cordelliano urra e mergulha sobre mim. Conall se vira, cruzando espadas com ele.
Eu me desvencilho de novo, mas Phil nos ouve correndo, ou sente o chão tremer, ou sente meu pânico se aproximando.
Ele não tem problema algum em usar magia contra nós — o que apenas confirma que está tomado pela Ruína. Phil estende a mão de volta para mim. Um nó de sombra escura dispara dos dedos dele, poluindo o ar até me atingir. Recuo e esbarro em Conall no momento em que ele mata o cordelliano. Nós dois caímos. Mather para, solta um grunhido e ataca.
Uma corneta soa, e gritos preenchem o ar, pés batem em uma onda poderosa. São os outonianos em luta que gritam ao reconhecerem os compatriotas que invadem a área, mais homens nossos finalmente organizados e convocados. Não levará muito tempo agora — nossos números sobrepujarão os cordellianos. Mesmo atrás de Phil e Nessa surgem mais outonianos e eles correm na direção dos dois com armas em punho. Eles a salvarão, eles impedirão aquilo.
Luto para me colocar de pé. Magia sai de dentro de mim quando meus olhos encontram Nessa de novo, um comando que se enterra no coração dela.
Vá, VÁ! CORRA!
Phil vê os outonianos vindo e puxa um machado do coldre em sua coxa. A arma reluz no punho dele e os olhos de Nessa se arregalam.
Ela se vira, determinada a correr na direção dos outonianos.
Mas Phil se atira para a frente, um passo, apenas um, e alcança Nessa primeiro.
Ela não é uma combatente. É a minha Nessa, minha, e o machado de Phil se prende ao pescoço de Nessa antes que eu ao menos consiga começar a correr de novo. Mas não, eu não corro.
Envolvo meu corpo em magia e me atiro ao lado de Phil, que sorri maliciosamente. Nessa apenas olha boquiaberta. Está confusa, e em choque, e...
A adaga que Nessa segurava cai aos pés dela.
Golpeio Phil com o ombro e o lanço ao chão com um ruído. O machado se solta, formando um rastro de sangue, e Nessa cai. Eu a pego, nós duas caímos.
Os outonianos irrompem ao nosso redor, a maioria correndo para a luta na clareira, alguns pausando para verificar se o inimigo mais próximo está mesmo morto. Mas eles seguem em frente embora eu esteja ali parada, segurando meu mundo inteiro nos braços, observando-o sangrar.
— Nessa! — grito, e magia dispara de meu corpo para dentro dela, tantas ondas de frio que sei que o chão ao nosso redor deve parecer um redemoinho de gelo. — NESSA!
A cabeça dela pende contra mim. Há muito sangue e não há magia o bastante. Faço mais um esforço, mas a magia apenas passa por Nessa conforme o sangue se derrama. Dirijo cada gota de qualquer poder que eu tenha para dentro dela, para que seja dela, por favor, por favor, Nessa, apenas aceite, aceite tudo que precisar, por favor, Nessa... Não pude salvar Garrigan, mas preciso salvar você. Por favor, Nessa, me deixe salvar você.
Algo se move. Phil.
Ele fica de pé, grunhindo, mas Mather, que cambaleia até ele, me salva de precisar matá-lo.
Não — Mather não deveria precisar fazer isso, não deveria precisar ter isso nas mãos...
Conall se choca contra Mather, que, sem protestar, cai no chão ainda com os olhos em Phil, sem piscar, os lábios entreabertos como se estivesse implorando ao outro que parasse. Mas Phil não para, não consegue parar, está tão ensandecido que ruge para mim como um animal.
É Conall quem perfura o peito de Phil com uma espada, mergulhando-a até o cabo.
Mather passa a mão no cabelo, deixa escapar um soluço que abafa o meu próprio.
Braços me puxam de volta para Nessa. Braços que se fecham em torno de nós duas, segurando com tanta força que quase penso que ficaremos bem. Estamos seguras nos braços de Conall e ela ficará bem.
As lágrimas de Conall escorrem em meu rosto, mas ele apenas me abraça mais forte enquanto grito o nome de sua irmã.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!