1 de fevereiro de 2019

Capítulo 22

Meira

NÃO ACORDE.
O acampamento estava silencioso quando finalmente voltamos de fininho na noite passada, todos seguros e dormindo nas muitas tendas. O que facilitou muito acenar rapidamente para os soldados e passar pelas trilhas de terra, as tendas eram a única plateia quando Mather e eu... Nós...
Estou completamente acordada agora, um sorriso se forma em meus lábios enquanto enterro o rosto no travesseiro. Estou deitada de frente para as abas da minha pequena tenda e quando finalmente viro o rosto, agradeço à Meira da noite passada pelo bom senso de amarrá-las, tendo em vista a propensão de Nessa para entrar sem ser anunciada. A luz delicada e enevoada que é visível pelas bordas me informa que a manhã ainda está começando.
Meu corpo se resfria, o gelo da magia reage às minhas emoções intensas, uma sensação que me percorreu tantas vezes na noite passada que quase fiquei dormente de tão maravilhada. Levo a mão aos lábios, a memória incita a sensação das mãos de Mather em minha cintura, dos meus dedos aninhados nas depressões dos músculos dele, nossas bocas se encontrando.
Meu sorriso se abre mais e me deito sobre as costas, virando a cabeça para o lado.
Dois olhos azuis como joias encaram os meus.
O sorriso dele é tão largo quanto o meu, talvez até mais, e Mather se apoia nos cotovelos.
— Oi — diz ele.
Eu me dissolvo em risinhos, cobrindo a boca para abafar o som dentro da tenda fina.
O sorriso de Mather se abre.
— O quê?
— Oi? Não sei. É que parece meio simples demais.
— O que seria melhor? — Mather me envolve com o braço e aproxima o nariz do meu cabelo. — Bom dia, minha rainha? — Ele beija meu ombro. — Ou maravilhoso ver você esta manhã, Lady Meira? — Um beijo em meu maxilar. — Ou Tive um sonho muito indecente com você ontem à noite, Vossa Alteza?
Isso não acalma em nada minhas risadas.
— Estranho, tive um sonho bastante indecente com você também.
Mather gargalha e volta a se deitar sobre o cotovelo. O cobertor sobre nós escorrega até a cintura dele e, apesar de tudo, coro ao ver o peito exposto de Mather.
— Ah, é? — pergunta Mather. — Talvez tenha sido o mesmo sonho. O que aconteceu no seu?
A boca de Mather permanece naquele sorriso que ele sabe que me deixa sem reação. Mas posso fazer o mesmo com ele.
Eu me viro, enterrando o corpo contra o dele, traçando com os dedos cada linha de músculo trabalhada com anos de lutas, algumas cicatrizes ásperas que marcam sua pele.
— Sabe, não me lembro — digo. — Não deve ter sido muito memorável.
Mather uiva e me ataca. Dou um gritinho, desistindo de tentar falar baixo, e toco os lábios dele com os meus, nossos corpos alinhando-se de uma forma que a lembrança de cada toque da noite passada me percorre de uma só vez.
Entrelaço os dedos nos cabelos da nuca de Mather e me afasto para olhar para ele. Outra risada irrompe, essa de incredulidade.
— Como isso aconteceu?
Mather se vira de novo.
— Posso dizer exatamente como aconteceu. — Ele semicerra os olhos para parecer pensativo em uma demonstração excessivamente dramática. — Há uns 12 anos, uma garota de cinco anos me empurrou no pátio de treino e roubou minha espada. Aquele incidente foi apenas o início. Onze anos atrás, ela me convenceu a pintar uma tenda com nanquim, há seis anos ela roubou uma garrafa de vinho e me deixou bêbado... — Mather para de falar, percorrendo meu sorriso com os olhos, então sorri também. — Eu era burro demais para perceber que entrei voluntariamente em qualquer que fosse o plano louco que ela arquitetou. Era apenas uma questão de tempo antes que ela me trouxesse até aqui.
— Ah, então esse era o meu plano? — Eu me levanto para nivelar nossos olhares. — Mas você errou todas as datas. O roubo do vinho foi há cinco anos, e há onze anos tínhamos cinco anos.
Mather franze a testa.
— Eu sabia que deveria ter lembrado você.
— Do quê?
— Nossos aniversários. Bem, pelo menos do seu... foi há alguns meses. Você realmente não prestou atenção? Você tem 17 anos agora, Meira. Nós dois temos.
Paro.
— Pela neve. Nós temos 17 anos.
Mather gargalha.
— Creio que sim.
— Alysson e Dendera sempre me avisaram para esperar até que eu fosse mais velha. — Suspiro. — Então isso faz com que eu me sinta um pouco melhor a respeito do que aconteceu.
— Melhor? — Mather passa a mão na minha cintura, os dedos desenham padrões em meu quadril sobre o cobertor e me distraio completamente. — Por que se sentiria mal?
A mão de Mather para subitamente quando os olhos dele se arregalam tanto a ponto de eu ser capaz de ver meu reflexo neles.
— Pelo gelo — xinga Mather. — Nós... e eu não... droga. — Ele se inclina para trás, cobrindo o rosto com as mãos.
— Do que está falando?
Mather olha entre os dedos, ainda de olhos arregalados, e volta a atenção para minha barriga.
Meus olhos se arregalam devagar.
— Ah. Ah. Não. Eu não posso...
Minha boca se escancara, inerte.
Não posso... ter filhos.
Ao pensar nisso, a tristeza de Oana suprime minha alegria entorpecedora. O quarto de bebê empoeirado que ela e Rares mantêm trancado, esperando pelo dia em que será usado.
Eu me sento, envolvendo os joelhos com os braços. E com isso, a noite passada termina de verdade. Mather se senta.
— Você não pode?
Forço um sorriso.
— Ser um condutor torna algumas coisas impossíveis.
Mather repousa a mão em torno de minhas pernas dobradas.
— Sinto muito, eu...
— Não. — Recuo, me virando o suficiente para permanecer nos braços de Mather, mas olhar nos olhos dele. — Não peça desculpas, por nada. Eu quis isso. Quero isso.
Mather sorri, mas os olhos dele informam que também está aos poucos aceitando que a noite acabou.
— Você diz como se nunca mais fosse acontecer.
Encosto em Mather. Mas não consigo me fazer repetir todas as coisas que disse na noite passada, como isso que temos não vai durar, como vai doer, como, em alguns dias, Mather estará sozinho.
Ele sacode a cabeça e me segura mais firme.
— Vamos pensar em alguma coisa. Nós dois sairemos daquele labirinto vivos e teremos muitas, muitas outras noites como essa. — Depois de tomar fôlego, ele sorri. — Além do mais, preciso de tempo para ficar realmente bom nisso.
Rio, segurando o braço de Mather. Sei que ele vê as lagrimas que enchem meus olhos — mas me agarro desesperadamente à brincadeira. Talvez porque seja fraca e não consiga suportar a ideia de... tudo. Talvez porque seja forte o bastante para afastar o que me assusta.
Seja como for, esbarro em Mather com o ombro.
— Achei que você já é muito bom.
Mather pressiona a testa contra minha têmpora.
— Mas quem não iria querer melhorar?
— Bela meta.
— Sei que vai me manter inspirado.
Tiro uma perna de baixo da coberta.
— Bem, acho melhor nos vestirmos em algum momento.
Mather resmunga contra minha pele quando faz meu cabelo roçar contra o ombro.
— Roupas — debocha ele, e dá beijos em minha nuca. — Isso parece uma má ideia.
Calafrios percorrem minha coluna. E embora o restante de mim ficasse feliz em derreter-se de volta na cama pelo futuro próximo, fico de pé.
As mãos de Mather se abaixam sobre o cobertor. Pego a peça de roupa mais próxima — uma túnica branca da pilha de roupas que os criados me deram — e enfio por cima da cabeça. Quando termino de me vestir, coloco um cinto, as botas que trouxe de Paisly estão fechadas firmes até meus joelhos, o chakram está em seu lugar e Mather também está de pé, com o cobertor enrolado no quadril.
Ele dá um passo adiante, uma das mãos segura a lã marfim e verde na altura da cintura. Uma lufada de vento balança as abas da tenda, um sopro suave contra seus pontos de junção, e o movimento projeta um feixe de luz no rosto de Mather que se curva pelo pescoço e desce até o peito.
Abaixo o olhar.
— Vou ver como estão todos. Você pode...
— Vou logo em seguida — assegura Mather. O tremor na voz dele faz parecer que Mather luta para manter o tom equilibrado, e isso me arrasa ainda mais, tanto que desato os laços da tenda e quase saio até que me vejo olhando de volta para ele.
Mather está sentado na cama, com as mãos no cabelo e os cotovelos sobre os joelhos. Essa situação o está deixando arrasado como eu sabia que deixaria, mas fui adiante mesmo assim.
As abas da tenda se fecham com um tremor atrás de mim.
— Desculpe...
Mather fica de pé, o cobertor cai quando as mãos dele seguem para aninhar meu rosto. Mather me dá um beijo que engole meu pedido de desculpas.
— Você está proibida de pedir desculpas também — diz ele. — Nada de desculpas. Não importa o que aconteça, eu nunca, nem com milhares de finais trágicos, jamais me arrependerei de amar você.
Envolvo o pescoço dele com os braços.
— Amo você — digo a Mather, pelo que deve ser a milionésima vez desde o começo da noite passada. Mather pressiona o rosto contra meu cabelo.
— Amo você também.
As palavras agem como ferretes em meu pescoço e fecho os olhos, memorizando cada letra à medida que recaem sobre meu corpo.
Não importa o que aconteça quando eu sair dessa tenda, quando for para Jannuari, quando chegarmos ao labirinto. Eu tenho isso.
Tenho ele.


A área diante da tenda principal ainda estampa a maior parte das decorações da noite anterior. Lanternas apagadas pendem do tecido trançado, o poço da fogueira está negro e chamuscado. As mesas de comida foram movidas para o centro do círculo, algumas cadeiras estão aglomeradas e em torno das mesas estão a maior parte das pessoas da comemoração, todas parecendo bem grogues.
Sir e Dendera conversam em uma mesa do outro lado, servindo-se de pão e frutas nos pratos diante de si. Na mesa mais perto de mim, Nessa está recostada em Conall, bocejando a cada mordida que dá na comida, e Ceridwen e Jesse me deixam chocada porque estão, ambos, aqui e acordados. Ainda usam as roupas da comemoração, só drasticamente mais amarrotadas, e quando passo para uma cadeira diante deles, suspiro aliviada por ter me lembrado de pegar roupas limpas de manhã.
Ceridwen enfia uma amora preta na boca.
— Você dormiu bastante — observa ela.
Pego a tigela de frutas mais próxima.
— E por que vocês não, recém-casados?
— Quem disse que chegamos a dormir?
Jesse engasga com uma uva.
— Cerie!
Ela pisca os olhos.
— Ah, todos sabem o que fizemos à noite.
Nessa se estica.
— Como assim? O que fizeram?
É a vez de Conall de engasgar agora. Jesse parece igualmente constrangido, mas Ceridwen emite um estalo com a língua para Conall, um gesto debochado de reprovação. Os olhos dela se voltam para mim e Ceridwen ergue as sobrancelhas.
Aperto os lábios.
— Meira. — Ceridwen se inclina para frente, e acho que estou prestes a agradecer por Sir e todos os demais terem escolhido lugares a uma mesa mais afastada. — Diga que sabe do que estou falando.
Mas quando ela fala isso, o interesse se transforma em choque.
— Você sabe? Com a queda de seu reino, achei que não teria tido tempo para...
Trinco o maxilar, brincando com uma fatia de maçã.
— Eu... sei — digo, em tom esganiçado. E sei mesmo... principalmente agora, mas antes da noite passada eu já sabia. A lembrança de Alysson e Dendera explicando certas coisas é algo que tento não reviver. Em grande parte, porque o rosto de Dendera estava vermelho como chama durante a coisa toda, e Alysson ficava dizendo É perfeitamente normal diversas vezes.
Consigo dar um sorriso tímido.
— Eu sei — repito. — E fico feliz por sua noite de núpcias ter sido satisfatória.
Jesse bate a palma da mão na testa.
— É isto que vai me matar. Não a guerra. Isto.
— Ahhhh — exclama Nessa, e a compreensão transforma a palavra em uma música. Ela dá risadinhas, e Conall faz um tipo de ruído que parece um grito de boca fechada para a comida.
— Bom dia. — Mather se senta na cadeira do lado oposto ao meu. Embora faça pouco tempo desde que nos vimos, a alegria em meu peito faz parecer que foi há séculos, e mordo o lábio para evitar um sorriso óbvio demais. Mather sorri de volta, me encarando.
Por tempo demais.
Ceridwen cantarola.
— Minha nossa. Será que nossa noite de núpcias foi satisfatória para mais alguém?
Meu rosto se incendeia.
— O quê? — Nessa se inclina por cima de Conall. — Para quem?
Conall se coloca de pé.
— Precisamos ir. Espadas. Ou algo. Armas. Nessa, venha.
— Espere! — protesta ela quando se coloca de pé. — O quê? Por quê?
Eles se afastam alguns passos e eu me curvo para frente.
— Surgiu essa vontade repentina de enterrar meu rosto na tigela de frutas.
Jesse ergue uma taça de água e a inclina para mim.
— Experimente ser casada com ela.
— Olhe só você, rainha de Inverno — diz Ceridwen, rindo. — Não perde tempo.
— Tudo bem, acho que já chega. — Eu me viro na direção de Mather, esperando que ele esteja tão morto de vergonha quanto eu, mas ele está sorrindo. E não é apenas um sorriso de diversão, é um sorriso que grita em confirmação, tão alto quanto se ele tivesse ficado de pé na mesa e gritado. Mather estende a mão para segurar meus dedos.
— O quê?
Eu me recosto de volta na cadeira.
— Você quer mesmo falar sobre isso, não quer? Pela neve. Você é a Ceridwen deste relacionamento?
Jesse gargalha enquanto bebe e água se derrama na frente da túnica dele.
Ceridwen se inclina na direção de Mather.
— Sim, você é, porque preciso de detalhes. Lembro de ver vocês dois na dança, mas apenas nas primeiras músicas. Em que momento vocês saíram escondidos?
— Depois daquela música — diz Mather. — Quando todo mundo dançou a mesma coreografia.
— Ah, isso. — Ceridwen se recosta na cadeira. — Mas tocaram essa no início da noite. E agora faltam umas duas horas para o meio-dia? Isso quer dizer que vocês dois ficaram fora por umas 12 horas...
Pela primeira vez, uma distração funciona a meu favor, vindo de um trio de soldados outonianos. Presto atenção para a chegada deles pelo outro lado da clareira e reparo no cansaço da viagem em seus semblantes com um rompante de reconhecimento. Mais dos espiões de Caspar. Trazem notícias de Angra? Ou do último grupo de refugiados? Henn e o degelo já deveriam ter voltado a esta altura.
Todos em minha mesa se viram para ver o que chamou minha atenção e as expressões se fecham como velas se apagando em uma brisa forte.
— Algum de vocês tem notícias? — pergunto.
— Devemos estar prontos para marchar no início da tarde — diz Ceridwen. — Depois que decidirmos o local.
— Quantos vão ficar aqui?
— Uns cem soldados, para proteger aqueles que não podem lutar, o que nos dá pouco menos de três mil homens contra Angra.
Eu me desanimo ao ouvir os números, mas a ideia não é ser uma guerra deflagrada. Apenas uma distração.
Uma sombra se projeta sobre nossa mesa.
— Se puderem terminar de comer — começa Sir, então inclina a cabeça para a tenda principal.
— Acabamos de terminar, general — responde Jesse por nós.
Ele assente com os olhos fixos em mim antes de sair andando para a tenda principal. Nós quatro ficamos sentados por mais um tempo, a mão de Mather sobre a minha, o braço de Jesse em volta de Ceridwen.


Não há espaço para emoções na guerra.
É uma das muitas regras que Sir martelava em minha cabeça quando eu era criança. Vejo agora que é necessária. São apenas números que discutimos; são apenas campos que mapeamos; são apenas pedaços de ferro que dividimos. Não pessoas, não locais de batalha, não armas.
— Meus batedores disseram que as forças de Angra estão a quatro dias de se reunirem completamente — diz Caspar, e aponta para um mapa da fronteira entre Outono e Inverno, contra as montanhas Klaryn. — Este vale percorre Outono até Inverno. Poderíamos escassear o exército de Angra e impedir que ele cerque a todos ao mesmo tempo. Ele só conseguiria mandar uma fração dos soldados contra nós por vez.
Ceridwen franze a testa.
— Mas ele poderia nos bloquear lá dentro. E se precisarmos bater em retirada?
— Não precisarão — prometo. — Depois que a magia for destruída, ninguém lutando ao lado de Angra terá magia para usar contra vocês.
Jesse fica inerte, com a mão no ombro de Ceridwen.
— O exército inteiro de Angra será capaz de usar a Ruína dele? Achei que fosse apenas um grupo seleto.
— Não imagino que ele poupe forças em uma batalha — digo. — E... há uma chance de a Ruína infectar vocês também. Se Angra estiver lá, a única coisa que o impedirá de mandar a Ruína para enfraquecê-los será a própria resiliência, nenhum de vocês tem proteção de condutor. Mesmo os invernianos só a terão enquanto eu estiver com eles.
Ceridwen parece sombria.
— Agora que sei qual é a sensação da magia dele, de maneira alguma Angra vai entrar em minha cabeça de novo. Os anos que passei repelindo a magia de Simon devem servir para alguma coisa.
Uma ideia me vem à mente.
— Espere... é uma boa observação. Talvez os princípios que tenha usado para resistir à magia de seu irmão possam ajudar todos os demais a afastarem a Ruína. Por um tempinho, pelo menos?
Ceridwen dá de ombros.
— Posso pedir que os veranianos comecem a ensinar os métodos que usamos, mas não sei o quão eficiente seria. Cada um de nós levou anos para conseguir resistir por completo a Simon, e eu só durei algumas horas sob a influência de Angra em Juli.
— É melhor do que nada — concorda Caspar.
Ninguém mais comenta sobre a ameaça que paira, a possibilidade de ser levado na guerra de Angra não pela morte, mas pela Ruína. Talvez seja algo que todos consideraram também. Todos já viram pessoas caírem nela, pessoas que já sabíamos que eram perigosas, como Raelyn, e pessoas que jamais teríamos adivinhado serem capazes de nos ferir, como Theron.
Estamos todos em risco, e eles sabem disso.
— Quanto tempo marchando até esse vale? — pergunta Sir.
— Com o nosso exército, três dias. — Caspar coça o queixo. — Poderíamos nos apressar e fazer em dois, mas ainda chegaremos antes de Angra deflagrar qualquer ataque.
— Três dias — repete Sir antes de se virar para mim. — Vamos logo.
O rosto dele pesa com a mesma percepção que sinto cravada em meu peito.
Temos um prazo.
Eu me recosto à mesa.
— Sim. Não há tempo a perder.
Todos se movem, disparando para as diversas tarefas. Eu saio da tenda e hesito por tempo o bastante para que Mather saia atrás de mim. Quando ele o faz, abraço-o pelo pescoço, beijando-o. Não há como nos escondermos agora, Dendera surge da tenda atrás de nós, seguida por Sir. Eles veem, e não me importo em reparar nas reações dos dois. Só me restam alguns dias para viver momentos como esse, e se eu passar sequer um segundo desse tempo longe de alguém que amo, nada disso terá feito diferença.
Eu me afasto de Mather, que desce as mãos até minha cintura.
— Estão todos atrás de mim, não estão? — pergunta ele.
Sorrio.
— Creio que sim. Acho que vou deixar que você explique.
— Que grande governante benevolente.
— Qual é a graça nisso? — Mas já estou recuando. Mather se vira para Dendera e para o pai dele, os quais sem dúvida têm algumas coisas para dizer a respeito dessa novidade.
Mas tenho outras pessoas para ver, e sigo para onde veranianos, yakimianos e invernianos estão assentados.
Nessa está sentada diante de uma pequena fogueira, com um livro no colo, e um grupo de crianças de olhos arregalados está em volta dela. Atrás de Nessa, Conall prende uma corda nova no arco. Ele vê a mim primeiro, e então se coloca de pé quando me aproximo, embora não consiga dizer uma palavra antes que Nessa também se levante.
As crianças resmungam.
— Termine a história! — reclama uma, a filha mais velha de Jesse, Melania.
Nessa gesticula com as mãos para as crianças.
— Depois! Vão ajudar com as tarefas agora, alguns dos soldados partirão em aventuras próprias em breve, então precisamos fazer nossa parte para ajudá-los!
O olhar no rosto de Conall quando as crianças comemoram e se dispersam é de incredulidade. Que a irmã dele seja alguém capaz de transformar uma marcha para batalha em uma aventura; que tenha sido ele quem criou a menina alegre que vem saltitando até mim, um sorriso estampado no rosto enquanto as crianças dão adeus.
— Meira! — diz Nessa. — Alguém disse que você foi chamada para outra reunião. Decidiram mais detalhes? Quando partiremos?
— Hoje — começo a dizer, reparando em como o sorriso de Nessa lentamente vai ficando sério à medida que as crianças se afastam.
Conall assente.
— Podemos estar prontos em uma hora.
— Não — digo a Conall. — Vocês ficarão aqui. Não virão conosco para a batalha.
Conall inclina a cabeça. Ele não diz nada, mas a expressão é de resistência.
Suavizo meu tom de voz.
— Agradeço tudo que fizeram por mim. Tudo que perderam. — Emoções afloram, sinto um nó na garganta. — Mas preciso que vocês protejam quem ficar. Porque se eu fracassar... — Hesito. — Se essa guerra terminar mal, não consigo pensar em ninguém em quem eu confie mais para levar as pessoas deste acampamento a um lugar seguro.
Conall trinca o maxilar, e depois de tempo demais, ele abaixa o rosto para mim com os olhos semicerrados. Está com raiva, mas é meu soldado.
— Tudo bem — diz Nessa, concordando baixinho. Olho para ela, vendo uma emoção que percebi que esperava. Ela não se importa de ficar para trás porque encontrou seu lugar nesta guerra.
Não digo nada, apenas dou um passo adiante e abraço Nessa pelo pescoço.
— Mas não quero que sinta como se estivesse sozinha. Como se eu a estivesse abandonando — sussurra ela contra meu ombro.
Uma risada irrompe pelo nó em meu peito.
— Você já me mostrou que não estou sozinha. E dificilmente isso poderia ser considerado abandono se sou eu quem está dizendo a você para ficar.
Nessa se afasta. Parece subitamente mais velha, como se pedaços da garota inocente que era no campo de trabalhos forçados de Abril tivessem se soltado ao longo dos últimos meses. Nessa toma a mão de Conall e sorri para o irmão.
Observando os dois juntos, lembro-me de estar no campo de Abril, de conhecer Nessa, Garrigan e Conall, três sobreviventes muito mais fortes do que eu jamais poderia ser. Lembro de como Nessa passou a me amar imediatamente, de Garrigan me tratando com preocupação cautelosa, e de Conall me odiando no momento em que me conheceu. Ele temia que eu tivesse dado esperanças demais a Nessa, que as destruísse quando Angra me matasse.
Engulo a tristeza que quase me faz confessar o futuro aos dois. Sobre como a minha morte virá, e o quanto espero que isso não destrua Nessa, como Conall temia que acontecesse.
Mas um olhar de confusão recai sobre os rostos dos dois.
Então ouço de novo. O ruído que interrompe minha confissão.
Gritos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!