1 de fevereiro de 2019

Capítulo 21

Mather

ESTAVA TUDO TÃO claro.
De onde Mather estava agachado, em uma das bordas mais baixas das encostas que ladeavam Outono, era possível ver o acampamento inteiro. A lua tinha acabado de se tornar visível, sua luz pálida se despejando sobre as árvores, as tendas e a clareira em que os convidados ainda dançavam.
O leve bater dos tambores alegrava o ar, a distância e a noite onipresente davam a ilusão de que o acampamento era tudo que existia. Não a sombra do mal que esperava para devorá-los, não os picos pontiagudos das montanhas Klaryn atrás de Mather, as montanhas que os engoliriam em alguns dias. O olhar no rosto de Meira naquele dia quase o arrasara. A forma como ela se agarrava à imagem da felicidade de Ceridwen e Jesse como um pedinte tentando raspar as últimas migalhas da refeição. A testa enrugada, as mãos inertes, aqueles olhos cristalinos mostrando o quanto desejava exatamente o que Ceridwen e Jesse tinham.
E o quanto sabia que não estava destinada a ter.
Era o que mais assustava Mather — a expressão de arrependimento de Meira. Como se soubesse que apesar da necessidade incandescente de ter aquela felicidade, jamais a teria, e como tinha aceitado esse sacrifício em troca de seus planos.
Mather enterrou os dedos na terra. Suas pernas pendiam sobre a encosta quando ele fechou os olhos, curvando-se para baixo.
Folhas foram esmagadas atrás dele, e quando se virou, o desejo em seu estômago se debateu ao vê-la. Meira estava no início da trilha que levava até ali, os dedos em volta de um galho baixo de árvore e ao lado de uma parede lisa de rocha que subia até a próxima elevação. Vestia uma roupa tradicional outoniana, mas isso não impediu Mather de se perguntar se alguém a desenhara com o único propósito de deixá-lo louco. O corpo todo de Meira estava envolvido em um tecido azul-claro, deixando a barriga dela exposta, a pele reluzindo ao luar delicado. Uma faixa mais longa de tecido pendia dos cotovelos, e quando Meira deu um passo adiante, deixou o tecido cair no chão, revelando os braços e os ombros de uma forma que fez o peito de Mather doer.
Ele voltou a atenção para o acampamento. Pelo gelo, algo tão simples quanto o vislumbre de uma pele não deveria deixá-lo com uma agitação tão patética. Mas quando Meira se sentou ao lado dele, a saia ficou presa em torno das pernas e Mather não ousou falar por medo do que poderia sair da boca dele. Tinha a sensação de que seria algo inapropriado como Aquela dança esta noite vai me deixar louco durante meses, ou Deveríamos continuar dançando. Aqui em cima, sem mais ninguém olhando. Depois de uma longa pausa, Meira se virou para a floresta abaixo.
— Está pronto para a viagem? — perguntou ela, com a voz tão frágil quanto as folhas sob eles.
Mather se virou para encarar Meira.
— Você está? Jannuari, depois a mina Tadil. Deve ser bem fácil, depois de tudo que fizemos. — Mather parou, com ousadia, em tom de súplica. — Certo?
Meira não concordou imediatamente, e isso foi o bastante para fazer Mather sentir uma pontada de alarme — então ela suspirou, as lágrimas nos olhos por pouco discerníveis na escuridão.
— Nunca bastou — disse Meira. — Todos os sacrifícios que fizemos por esta guerra. Nada disso jamais bastou, não importa o quanto tenha doído. Mas este — Meira se virou na direção de Mather, a certeza lhe dando um ar levemente insano — este bastará, Mather. Este derrotará Angra.
Meira parou.
— Um condutor precisa ser sacrificado e devolvido ao abismo — sussurrou ela, e pareceu ser necessária uma dose de esforço físico para que Meira dissesse as palavras. — O sacrifício destruirá toda a magia, inclusive a Ruína de Angra. Eu sou o condutor de Inverno, e vou...
— O quê? — Mather a impediu. — Pare. É assim que vai derrotá-lo? Não... Meira, não.
Mas ela não pareceu convencida. Na verdade, pareceu cansada, como se tivesse perdido outro aliado.
— Não preciso que discorde de mim. — Meira se colocou de pé e Mather a seguiu. As mãos dela estavam fechadas em punhos apertados na lateral do corpo, enterradas nas dobras de cetim da saia quando ela se virou para Mather. — Essa é parte do motivo pelo qual hesitei em lhe contar, mas preciso que entenda o que me espera no labirinto, porque... — A boca de Meira se abriu hesitante, os olhos brilhavam com lágrimas. — Quero você. Por inteiro, Mather, mesmo que pelo pouco tempo que me resta, mas preciso que entenda o que isso significa. Sei que isso não vai durar, e que vai doer, porque sei o que estou pedindo que faça. Estou pedindo que me ame e me deixe... morrer.
As palavras de Meira se tornaram abafadas no ouvido de Mather. Ele levou tempo demais para entender por que sentiu um peso súbito e intenso sobre o corpo.
Meira estava realmente planejando morrer por eles.
Então Mather ouviu a outra coisa que ela disse, e tudo dentro dele se desfez.
Desejo se acumulou no fundo do estômago até Mather ter a sensação de que explodiria se não fizesse algo que sonhava em fazer há muito, muito tempo.
— E quanto a... Theron? — Mather fechou os olhos.
Uma palma fria da mão de Meira tocou a bochecha dele. Mather piscou para ela, a necessidade de ser cauteloso no fundo da garganta. Meira ergueu um olhar que demonstrava a mesma hesitação, como se não tivesse ideia de como tinha ficado tão perto, com a mão no rosto dele.
— Farei o possível para salvar Theron — afirmou Meira. — Mas sempre houve algo errado com a gente.
Mather inspirou breve e intensamente, então se inclinou mais sobre a palma da mão de Meira a cada palavra dita, a cada palavra não dita.
— Por quê?
Maldição, pare de fazer perguntas e simplesmente a beije.
A mão de Meira tremeu contra o rosto de Mather.
— Porque ele não era você — disse ela, arquejando.
Pronto.
Mather fechou os dedos em torno do pulso de Meira e a puxou para a si, segurando sua nuca com a mão em concha e baixando o rosto na direção do dela. Mather parou a centímetros dos lábios de Meira, ofegante, engasgando, porque, pelo gelo, aquele momento — era tudo. Era toda a sua vida se expandindo a partir daquele único ato, girando em torno de Meira porque ela estava no centro de tudo de bom que já acontecera com Mather.
O nariz dele pressionou a bochecha de Meira, o corpo dele vibrou com o impulso de absorvê-la como o olho de uma nevasca, um funil entorpecedor que não permitia pensamentos coerentes. Os cílios de Meira estremeceram contra o rosto de Mather, a pele dela brilhava nacarada ao luar que subia, o que a fazia parecer tão intocavelmente perfeita que os joelhos de Mather tremeram.
Meira inspirou e os lábios dela se abriram para dizer duas palavras que percorreram o corpo de Mather.
— Me beija — disse ela.
Então Mather fez a única coisa que conseguiu fazer, a única coisa que sempre quis fazer desde quando eram crianças vivendo como nômades sob a ameaça de guerra e Meira era aquela força teimosa e determinada que o chocara, assustara e lhe dera vigor. Mather a beijou.
Com carinho, com cuidado, porque queria descobrir cada contorno dos lábios de Meira. Mather fechou os olhos e encontrou Meira no espaço entre os dois, e ela se agarrou à boca dele. Mather pegou Meira nos braços, o frio dela irradiava para o corpo dele e acrescentava urgência à necessidade pulsante que fazia o abdômen de Mather se apertar.
Eles cambalearam para trás até que Mather sentiu a face da rocha sob as palmas das mãos, a superfície irregular contrastando com a textura dos lábios de Meira. Maldição. Não era possível que alguma coisa pudesse ser tão macia assim. Mather a empurrou contra a rocha, uma das mãos servindo de apoio na pedra áspera. Cada beijo o fazia querer mais conforme ele inspirava o ar em intervalos irregulares e amaldiçoava a necessidade de ter que fazê-lo.
Os dedos de Mather se transformaram em garras, cravando-se na rocha, arrancando pedaços de pedra e terra enquanto a outra mão acariciava o braço de Meira, traçando linhas até encontrar a cintura dela. Mather passou a mão pela fenda do vestido dela e um gemido ecoou da garganta quando os dedos tocaram a pele exposta e provocadora da barriga de Meira, a curva do quadril. Meira naquele vestido era demais e ao mesmo tempo não era o suficiente, e ela não facilitou as coisas quando entrelaçou os dedos nos cabelos dele e repetiu o gemido de Mather, um ronronado baixo e inebriante que o fez segurar a parede de rocha com mais força.
Mather emitiu um ruído sufocado que era mais dor do que prazer. Com todos os instintos protestando, ele se afastou de Meira.
Ela piscou para ele, com as mãos no peito de Mather.
— O que foi?
O que poderia estar errado? Mather finalmente a tinha. Podia finalmente tocá-la, beijá-la, passar o resto da vida com os braços em volta de Meira...
Mas era justamente isso. Ele queria passar o resto da vida daquele jeito, com ela, mas Meira deixaria a vida dele vazia em alguns dias. Esse único pensamento extinguiu a maior parte do desejo que o sobrepujava ao sentir Meira se mover sob as mãos.
— Não vou deixar que você morra — disse Mather.
Meira ficou inerte contra a rocha.
— A decisão não é sua.
— Não é? — Mather se aproximou de Meira, mas não ousou beijá-la de novo, não ousou se perder na forma como ela olhava para ele e tocar em seus lábios cheios. — Como você pode achar que será a única pessoa afetada por isso?
Meira se curvou ainda mais.
— Eu sei que não vou ser. Por que acha que fazer isso é tão difícil para mim? Por que acha que comecei a pedir a você que me ajudasse? — Meira se aproximou até apoiar a cabeça no peito de Mather. Agarrou a camisa dele como se o tecido fosse a corda de proteção que evitaria que ela saísse voando. — Não sou forte o bastante para magoar você e todo mundo dessa forma. Mas preciso. Por favor, Mather — implorou ela, erguendo a cabeça de novo. — Não quero mais falar sobre isso. Vamos só ficar aqui.
Tantas imagens de Meira sendo forte tomaram conta da mente de Mather que ele não conseguia vê-la daquela forma, implorando, arrasada, com medo. Mas ele também estava arrasado e com medo e, pelo gelo, sua vontade era jogar tudo de ruim para o alto por uma noite. Apenas uma.
Mather se recostou em Meira de novo, e soube que jamais conseguiria recuperar o controle. Lágrimas queimavam seus olhos, mas ele não se importava; em vez disso, perdeu-se de vez na forma como Meira o recebeu com igual fervor, curvando o corpo contra o dele como se fossem dois talos de grama oscilando juntos.
Os beijos passaram de carinhosos a caóticos, mãos e línguas e suspiros que poderiam ter sido gemidos. E em meio a tudo isso, Mather teceu palavras em um santuário em torno deles.
— Eu te amo — disse ele, e prometeu, diversas vezes. — Sempre amarei você, e deveria protegê-la...
Ele sentiu Meira ceder sob as palavras, as lágrimas escorrendo, misturando-se às dele.
— Eu te amo — disse ela a Mather. — E eu vou proteger você.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!