1 de fevereiro de 2019

Capítulo 20


Meira

CADA MINUTO DE cada hora dos três dias seguintes é preenchido com a preparação dos exércitos, acomodação dos refugiados, envio dos batedores que observarão os movimentos de Angra e discussão de estratégias de guerra até que todos praticamente desabam de exaustão. Em meus momentos sozinha, percorro o perímetro do acampamento, forçando minha magia para verificar se estou protegendo a todos da melhor forma possível. O sono que consigo dormir é leve e breve, o que me dá energia suficiente apenas para suportar o dia seguinte.
Ninguém pergunta por que faço o que faço ou diz algo a respeito de como olho para as árvores com o maxilar trincado. Eu me pergunto isso por meio segundo certa tarde, tempo o bastante para perceber que todos estão tão estressados quanto eu. Todos sabem que teremos no máximo poucas semanas antes que as tropas de Angra estejam completamente reunidas — o que significa que só temos esse tempo para nos tornar uma unidade coesa de combate.
E quanto mais trabalho tivermos a cada dia, menos vidas serão perdidas na batalha iminente.
Esses pensamentos me impulsionam quando a fadiga bate, e basta ouvir Nessa cantando baixinho canções de ninar para as crianças do acampamento para me obrigar a ficar acordada.
Quando paramos à noite e minhas pernas doem de tanto andar, basta ver Ceridwen praticando com os combatentes refugiados dela para encontrar energia para dar mais um passo, depois outro.
Essas tarefas são infinitamente preferíveis ao que nos espera.
— Meira!
Eu me sobressalto, com o chakram em uma das mãos e a magia fluindo pelo outro braço como uma esfera acumulada de defesa. Mas é apenas Nessa, saltitando no meio da minha tenda.
— Não vai acreditar no que está acontecendo! — grita ela, com a voz esganiçada.
Abaixo o chakram com um grunhido e esfrego os olhos para afastar o sono.
— O que está acontecendo? Há quanto tempo estou dormindo?
Mas enquanto pergunto, penso, não o suficiente.
— Desde... — Os olhos de Nessa se voltam para cima enquanto ela pensa. — Depois da meia-noite. Acaba de passar do meio-dia e todos queriam deixar você descansar, mas eu sabia que não iria querer perder isso!
Estremeço e abaixo as mãos. Já passa do meio-dia?
O rosto de Nessa entra em foco, mas minha confusão grogue apenas se intensifica quando vejo a roupa dela. Cetim roxo-escuro entremeado com curvas douradas.
— Sei que precisamos pegar coisas emprestadas com Outono, mas isso é um pouco chique, não é? — digo.
Nessa gira para inflar a saia longa até o chão em torno das sandálias.
— Não é lindo? Deveria ver Ceridwen! Ela parece um pôr do sol.
Ergo as sobrancelhas. Nessa gesticula com as mãos.
— Ah, sim, desculpe! — Nessa pega meu braço e me puxa da cama, meu chakram cai no chão com um clangor, a túnica bate, frouxa, contra meus joelhos. Apenas o sorriso alegre de Nessa me impede de protestar à medida que me arrasta para fora.
Conall se afasta da entrada da minha tenda e caminha atrás de nós, tendo retomado o trabalho como meu guarda-costas, pois a maior parte do Degelo de Mather partiu para escoltar nosso último grupo de refugiados. Nessa não me leva muito longe na rua, e considerando o número de pessoas por que passamos, fico grata. A rainha inverniana deveria ter um pouco mais de dignidade e evitar sair desfilando por aí de camisola.
Vemos uma tenda de cor vinho, sem adornos exceto por finas faixas azul-marinho que percorrem o tecido verticalmente. Conall se posiciona do lado de fora junto com dois guardas outonianos, e quando Nessa me puxa para dentro, uma nuvem de água de rosas e incenso nos recebe.
A sala estreita abriga alguns biombos, baús abertos transbordando com cetim e seda da cor de joias e almofadas nas quais estão deitados Dendera, Nikoletta, Shazi, Kaleo e a filha dele, Amelie.
Quando Nessa e eu entramos aos tropeços, Shazi grita e Dendera se coloca de pé com um salto.
— Ela está aqui!
Isso incita um gritinho de trás de um dos biombos e a cabeça de Ceridwen dispara tão rapidamente para fora que só vejo um lampejo de dourado e alguns cachos vermelhos quicando.
— Finalmente! Pela chama, estava começando a achar que dormiria durante a coisa toda.
— Durante o quê? — pergunto. Dendera ergue um pedaço de cetim azul até meu rosto no momento em que sapatos vêm voando do biombo de Ceridwen, e começo a achar que ainda devo estar dormindo. — Vocês sabem que temos uma guerra para a qual nos preparar? A não ser que pensem que podemos resolver nossas diferenças dando um baile para Angra...
Dendera aperta meu ombro.
Sabemos que temos uma guerra para a qual nos preparar, o que é exatamente o motivo pelo qual isto precisa acontecer.
O que precisa acontecer?
A cabeça de Ceridwen ressurge e fica visível por mais tempo dessa vez. Os cachos dela estão presos por um grampo dourado com folhas pendentes que reluzem na altura das bochechas. O adorno ressalta a tinta dourada e marrom que forma arabescos sobre a pele escura dela.
— Um casamento — diz ela, e a forma como as palavras saem, com um risinho, me faz sorrir. Acho que nunca a ouvi dar risinhos. — Meu casamento com Jesse.
Ceridwen se abaixa para trás do biombo quando Shazi joga uma faixa de seda laranja no ar e grita quando o tecido flutua sobre sua cabeça.
— Seu casamento? — repito.
Dendera faz que sim alegremente.
— De acordo com as últimas notícias, as forças de Angra estão há cinco dias de se reunirem de vez. Isto — ela indica a tenda — é necessário.
Mas sei do que está falando. Precisamos disso. Precisamos disso tanto quanto de cada lâmina que afiaremos, de cada ração que embalaremos, de cada armadura que usaremos na batalha. Cada momento de paz que tivermos aqui nos ajudará a nos manter sãos mais tarde.
Pego o cetim de Dendera.
— Acho que eu também deveria me arrumar...
Ela sorri e me indica outro biombo.
— Vou ajudar você. Nessa?
Nessa corre para se juntar a nós. Assim que passamos para trás do biombo, elas tiram minha túnica cinza e começam a envolver cetim azul em um padrão que devem ter aprendido com Nikoletta.
Foi isso que Ceridwen quis dizer poucos dias antes quando mencionou que precisava seguir o próprio conselho. Sei muito pouco sobre o relacionamento dela com Jesse, além do início escandaloso, mas sei que ela o ama há muito tempo. E embora muitas coisas horríveis tenham vindo dessa guerra, se ela os forçou a superarem os problemas e se reconciliarem... bem.
Não consigo pensar em resposta melhor à guerra do que um casamento.


Dendera e Nessa terminam de me arrumar em meia hora, e quando saio, Nikoletta e Shazi já se foram, deixando apenas Kaleo, esticado sobre uma almofada, sorrindo preguiçosamente para o biombo de Ceridwen.
— Já está pronta? — grita ele.
— Não se pode apressar a arte, Papa — diz Amelie do outro lado do biombo em reprimenda. — Não é você que vai se casar com um ventralliano, não precisa falar assim.
A resposta vem bem na hora em que Lekan entra na tenda. Ele olha para Kaleo, então para Amelie, que coloca a cabeça para fora e manda um beijo para ele. Lekan sorri para Kaleo quando se abaixa ao lado do marido.
— Já está pensando em casá-la? — brinca Lekan.
Amelie ri.
— Com um ventralliano!
Ela faz um ruído de ânsia de vômito do outro lado do biombo, e Ceridwen gargalha.
— Obrigada pelo apoio, Amelie. Mas preciso dizer, isto é arte, não importa de que reino venha.
O biombo se mexe, um painel é dobrado e Amelie surge saltitando, o sorriso nos olhos escondendo o V marcado na bochecha.
— Apresento a vocês... Princesa Ceridwen! — Amelie gesticula com as mãos para fora em uma reverência elaborada, seu cabelo preto caindo no rosto quando a menina se vira para formar uma pequena área de apresentação.
Ceridwen coloca as mãos no quadril, o sorriso em seu rosto provoca rugas na tinta dourada que espirala até a clavícula. Cada mecha do cabelo dela brilha escarlate, e Nessa está certa, ela parece mesmo um pôr do sol, com a pele escura da mesma tonalidade das montanhas sob o cair da tarde, o cabelo como as últimas trilhas de raios de sol se derramando.
Mas a roupa completa a visão. Cortes entrelaçados de seda escarlate se dobram sobre um corpete tomara que caia e uma bainha que brilha com miçangas douradas.
— O que acha? — Ceridwen passa as mãos sobre as miçangas. — Arte, não é?
Ela parece hesitante, como se temesse que talvez não bastasse se casar com o monarca do reino conhecido pela arte.
Dou um passo à frente quando Nessa e Dendera sussurram baixinho algumas palavras de conforto, e quando pego as mãos de Ceridwen, vejo os mesmos desenhos dourados espiralados pelos braços dela.
— Você está perfeita — eu digo.
Perfeita — repete Ceridwen, revirando os olhos. — Longe disso. Mas muito sexy eu sei que sim.
Amelie ri, virando a cabeça para trás. E, como se sentisse os toques finais de Ceridwen, a aba da tenda se abre e revela Nikoletta, agora usando também um modelito adequadamente arrumado — camadas laranja e azul sobrepostas em uma trama esplendorosa.
Ela sorri.
— Estamos prontos para começar, se você estiver.
Ceridwen solta minhas mãos e inspira. Mas quando olho para ela, não parece nervosa ou hesitante nem nada, apenas delirantemente feliz.


O caráter repentino da cerimônia significa que a maior parte do acampamento ainda está ocupada com os preparativos de guerra. Conforme Nikoletta nos guia pelas ruas pouco iluminadas, soldados passam trotando e pessoas batem armas sobre bigornas. E aqui estamos, um aglomerado de realeza usando vestes outonianas finas e brilhantes, passeando por um acampamento de guerra. Onde conseguiram essas roupas? Não consigo imaginar que alguém tenha pensado em pegá-los na pressa de deixar Oktuber. Será que são do guarda-roupa pessoal de Nikoletta? Afasto o tecido da poeira da rua mesmo assim.
Nikoletta nos leva mais para o interior do acampamento na floresta, serpenteando entre trechos de árvores e blocos mais amplos de tendas. A encosta das montanhas Klaryn eleva-se ainda mais, sua escuridão intensa e prolongada agora se estendendo ao nosso redor.
Em uma interseção, Nikoletta se vira para nós.
— Montamos o local da cerimônia logo depois dali. — Ela assente para o canto. — Jesse está esperando no meio do grupo com Caspar. É tradição em Outono que a noiva siga entremeando a multidão, simulando o caminho que uma folha faz ao descer até a terra, seu caminho até aquele que é seu verdadeiro lar.
Ceridwen sacode as mãos diante do rosto.
— Pare! Pela chama, já estou chorando.
Nikoletta se volta para o restante de nós.
— Sigam-me, por favor. Temos um casamento para testemunhar.
Quando todos seguem Nikoletta pela esquina, permaneço, com os olhos em Ceridwen. Ela repara em mim ao lado, e quando franze a testa, coloco a mão no braço dela.
— Estou feliz porque você está feliz, Cerie.
Ela ri.
— Eu também. Você não tem ideia do quanto estou feliz por estar feliz.
Aperto o braço de Ceridwen e recuo um passo.
— Mas... obrigada — acrescenta ela.
As lágrimas nos olhos de Ceridwen são contagiosas demais.
— Só não vá tropeçar — grito, conforme saio correndo.
— Você é má!
Ceridwen sai do meu campo de visão e a única coisa que vejo agora é a cerimônia montada no fim da rua, as encostas imponentes das Klaryn cercando a cena não muito longe. As tendas ficam para trás depois de poucos passos, o caminho se torna um túnel de grama verde exuberante e fileiras de árvores. Folhas flutuam em lentas espirais de laranja, vermelho e marrom, e no fim, uma pequena clareira se abre. O chão está coberto por mais folhas, um cobertor aromático que faz a área cheirar como plantas há muito dormentes. As pessoas estão de pé em um aglomerado arejado, todas de frente para a direção oposta a nós, e as cabeças de Jesse e de Caspar despontam acima da multidão.
Músicos esperam em um grupo silencioso, instrumentos prontos para começar a tocar com a chegada de Ceridwen.
Minhas sandálias esmagam as folhas no chão quando entro na clareira, e algumas cabeças se viram para ver quem chega. Como os músicos permanecem em silêncio, a maioria das pessoas continua olhando para frente. Os amigos de Ceridwen, Lekan, Kaleo e Amelie estão de pé com os filhos de Jesse; uma dama de companhia outoniana segura uma Shazi estranhamente quieta; e meus invernianos estão de pé à direita, cada um usando finos adereços outonianos que pegaram emprestado, alguns pequenos como uma fita de cetim sobre as roupas normais, outros elaborados como o traje completo que uso.
Nessa acena para mim de onde está de pé com Dendera e Conall, e vou até ela, atraída mais pela pessoa ao lado de Nessa, aquela cujos olhos se arregalam ao me ver. Mather veste uma túnica de azul tão escuro que é quase preta. Fios dourados criam a estampa elaborada em torno do colarinho e dos punhos, e o corte justo envolve os braços e o peito dele. Algumas mechas de cabelo pendem sobre seu rosto, as demais estão presas por uma fita.
Paro ao lado dele.
— Oi — sussurro.
Mather entreabre a boca.
— Oi — sussurra ele, de volta. Os olhos percorrem minha roupa, e Mather toca as miçangas prateadas no tecido que cobre meus braços, um tipo de xale. O movimento repentino na minha direção basta para fazer meu coração saltar até a boca.
— Você está linda — acrescenta ele.
Minha cabeça fica zonza. É isso que ganho, no entanto, por me permitir admitir meus sentimentos por Mather — uma alegria incapacitante que me faz ter certeza de que o sorriso no meu rosto é tão sonhador quanto o que Ceridwen exibia momentos antes.
Quero retomar um pouco a compostura, recompor minhas feições para não parecer tão... desnorteada? Não consigo pensar na palavra certa. Não consigo pensar em nada, na verdade, enquanto os olhos de Mather encaram os meus. Ele subitamente parece tão desnorteado quanto eu.
Quando os músicos começam a tocar, o que já era um momento perfeito se torna ainda mais idílico. A clareira se enche com o murmúrio crescente do violino, e de uma só vez, a multidão se vira.
Não olho por cima do ombro, no entanto. Meus olhos passam para Jesse e Caspar, de pé com os braços cruzados às costas diante do grupo, os olhos, como os de todo mundo, em Ceridwen. A túnica de Jesse não tem mangas, é do mesmo vermelho intenso da roupa de Ceridwen. Ele usa uma máscara de tecido vermelho, simples e sem adornos.
Mas nem mesmo uma máscara inteira poderia esconder o assombro que percorre o rosto dele quando a vê.
Os ombros de Jesse se curvam. Os braços dele desabam, sem forças. As linhas de tensão em torno dos olhos se suavizam. O atordoamento está cheio de um amor tão puro que sorrio, porque não há outra reação possível.
Mather entrelaça um dos dedos aos meus.
Não consigo inspirar completamente, não enquanto os instrumentos tecem sua canção agridoce, não ao erguer o rosto para Mather e ver exatamente o mesmo olhar no rosto dele.
Atordoamento, talvez um leve medo. A visão desse lampejo de medo conversa com o próprio medo que eu sinto, e tenho um pensamento insuportável.
Quero isso.
A música aumenta quando Ceridwen se aproxima de Caspar e Jesse. Ela entremeia a multidão conforme Nikoletta instruiu. Quando sai, Jesse solta o ar que estava prendendo e pega as mãos de Ceridwen como se ela fosse uma das folhas espiralando enlouquecidamente pelo ar, inalcançável, caótica e linda.
A música abaixa, deixando a clareira tão quieta que o vento praticamente ruge. Os olhos pretos de Caspar passam de Ceridwen para Jesse, então de volta, seus lábios se abrindo com o mesmo sorriso que todos estampamos.
— Ceridwen Preben, princesa de Verão, e Jesse Donati, rei de Ventralli, pediram que testemunhemos sua união no laço mais forte de todos — começa Caspar, erguendo a voz para a multidão. — Vivemos em uma época de muita dor e medo. A única forma de realmente derrotar essa dor é sentir igual felicidade diante dela, e isto aqui — Caspar sorri — é inegavelmente felicidade.
Ele tira alguns itens do bolso, erguendo-os para que a multidão veja. Um frasco de tinta preta e um pincel espesso.
— Em Outono, casamentos são celebrados como os anéis das árvores, cada um deles cresce com tempo e dedicação para criar uma união de igual força. Jesse. — Caspar entrega a ele o pincel e abre o frasco. — O primeiro anel.
Jesse pega o pincel e mergulha na tinta. Com a mão firme, ele pinta um anel preto espesso em torno do braço de Ceridwen.
— Ceridwen — continua Caspar, estendendo o frasco para ela. — O primeiro anel.
Ceridwen pega o pincel de Jesse, molha em tinta e se inclina sobre o braço dele. A linha que faz é menos firme, a mão treme, mas pela forma como Jesse a observa, fica claro que nenhum dos dois se importa.
Quando Ceridwen termina, Caspar pega o pincel e se afasta dos dois.
— Vocês são agora um anel, uma árvore. O que quer que o mundo apresente, vocês enfrentarão juntos. Ceridwen e Jesse. — A voz de Caspar perde a formalidade e ganha jovialidade. — Parabéns.
Ele gesticula com os braços, apresentando os recém-casados à multidão, todos aplaudem e os músicos começam a tocar uma melodia mais animada. Ceridwen e Jesse saltam um para o outro, praticamente caindo no chão ao se beijarem.
A magia sai de mim num formigamento, evocando as folhas no chão para que girem em torno de Ceridwen e Jesse em uma espiral suave. Eles se separam para olhar boquiabertos para o redemoinho de cor, mas isso apenas encoraja a felicidade que sentem e os dois se dissolvem um no outro.
— Nenhum casamento está completo sem um banquete! — grita Nikoletta em meio à balbúrdia. — Juntem-se a nós esta noite.
Vivas se elevam e a multidão começa a sair da clareira, seguindo Nikoletta para qualquer que seja o banquete que organizaram. O fluxo arrasta Mather consigo, mas Nessa se aproxima e entrelaça o braço no meu.
— Aquilo foi perfeito! — exclama Nikoletta. — Quero um casamento outoniano um dia.
Solto uma gargalhada.
— Que tal um casamento inverniano?
Nessa sorri, sonhadora.
— Talvez eu só queira um casamento. Ou nem tanto um casamento, mas...
Ela olha de volta para Ceridwen e Jesse, que agora sussurram um com o outro já que a multidão não os observa mais. Parecem ainda mais felizes, se é que isso é possível, as testas unidas, Jesse acariciando o cabelo de Ceridwen.
— Aquilo — diz Nessa. — Quero aquilo.
Eu me recosto contra ela.
— Eu também.


Algumas horas depois, a clareira diante da tenda principal está tão linda, ou até mais, quanto o local da cerimônia.
A luz da noite atravessa as árvores, projetando a sombra encoberta da noite iminente. Algumas das tendas foram removidas para abrir espaço para mesas e uma fogueira crepitante no centro. Faixas de tecido trançado estão amarradas em torno do perímetro, criando um apoio decorativo de onde pendem lanternas, brilhos dourados que tremeluzem à brisa. Os músicos se reposicionam num canto da festa e começam uma música animada que encoraja a alegria da multidão reunida. Mais pessoas se juntaram agora — soldados fora de serviço, junto com aqueles de nós que ajudaram a montar a comemoração improvisada.
Conall, Nessa e eu estamos na extremidade mais externa da clareira, observando os convidados. Alguns começam a dançar, e Nessa pega a mão de Conall.
— Vamos dançar!
Ele dá um olhar cético para a irmã.
— O quê?
— Vamos! — Ela puxa Conall na direção da fogueira, as chamas projetam um brilho laranja naqueles que já estão dançando.
Os olhos de Conall se voltam para mim, então para Nessa de novo, e ele abaixa a voz.
— Agora não, Ness.
A expressão dela se fecha.
— Por favor — acrescenta Nessa. — Por favor, Conall. Precisamos disso. Ele também era meu irmão.
Conall curva os ombros como se bloqueasse a conversa para que não chegasse a mim.
— Nessa — sibila ele. — Isso não é apropriado...
— Conall. — Eu o interrompo. — Ela está certa. Você merece ser feliz.
A expressão de Conall se fecha.
— Tudo bem, minha rainha — diz ele, e contenho minha irritação diante do título nos lábios de Conall. Se isso é o necessário para que ele aceite o pedido de Nessa, não vou argumentar.
Conall permite que Nessa o arraste até a pista de dança. Ela estende os braços e tenta se mover ao ritmo, o que incita um sorriso ínfimo de Conall.
Em algum momento durante tudo isso, Ceridwen e Jesse entram de fininho, e passam girando por Nessa e Conall em sua própria dança frenética. Chutes e giros que inflam as roupas deles, a batida da música acelera e chama a todos para dançarem mais intensamente. Rir de tudo isso é inevitável; a profusão de cores em torno das chamas crepitantes, a ondulação constante do violão e do violino, e agora de alguns tambores em formato de tigela cujo som ricocheteia pela clareira.
Alguém surge ao meu lado, a presença é pesada, e sei quem é sem precisar olhar.
— O que achou da cerimônia? — pergunto, voltando os olhos para Sir.
Ele cruza os braços com a atenção voltada para a dança. Quase espero que não responda, ou que comece a falar de estratégias de guerra, mas parte da tensão nos ombros dele se dissipa.
— Acho que casamentos invernianos são mais bonitos — diz ele.
Não consigo impedir a forma como meus olhos se arregalam. O calor do fogo e de corpos dançando faz suor escorrer por minha testa, e tudo fica gélido sob os olhos vítreos de Sir.
Ele franze a testa. Depois de um momento, a tensão nos ombros de Sir retorna e ele indica a fogueira acenando com a cabeça.
— Você terá isso. Algum dia.
Engasgo com a sinceridade de Sir.
— Obrigada — sussurro, e cada pedaço de meu coração dói.
Dedos se fecham em torno de meu braço.
— Vamos! — cantarola Nessa, me puxando para a confusão enquanto Sir gesticula indicando para que eu vá. Queria que a tentação de me perder em uma atividade tão despreocupada fosse o suficiente para me distrair, mas sinto a pressão de Sir atrás de mim, das palavras dele, o tipo de coisa que quis ouvir dele durante anos.
Esta noite torna tais coisas possíveis.
Então solto o corpo em um giro, rindo quando Nessa segura a minha mão e a de Conall, nos prendendo em um emaranhado esquisito. Conall dá um sorriso completo agora, e Nessa está totalmente em êxtase à luz da fogueira, ao som da música e ao aroma de comida — porco assado, vinho quente temperado e algo tão coberto de canela que o ar fica pesado com o cheiro forte.
A música termina, mudando para uma que faz Ceridwen gritar em reconhecimento do outro lado da fogueira. Pela intensidade das batidas dos tambores, parece menos com o embalo da música outoniana e mais com a música veraniana. E deve ser, com base na forma com que Ceridwen impulsiona o corpo em um conjunto de movimentos coreografados, estendendo os braços, batendo os pés formando um padrão no chão.
Os amigos veranianos dela são os primeiros a se juntarem à dança. Jesse entra na roda logo em seguida e logo todos em volta da fogueira estão tentando acompanhar, braços se agitando, pés batendo, risadas ecoando.
Conall hesitantemente tenta os primeiros passos e Nessa se curva, rindo tanto que tenho medo que se quebre. O sorriso dele aumenta ainda mais, e nós duas nos juntamos a Conall, movendo os braços para fora, dentro, fora; os pés deslizam formando o padrão das batidas.
Ceridwen agarra Jesse, os amigos veranianos dela se dividem em pares, e a dança fica mais juntinha, a música incitando os casais a unirem os corpos.
Os olhos de Nessa percorrem a pista de dança. Os lábios dela se curvam em um sorriso malicioso, mas quando me viro para ver para onde ela olha, só vejo mais corpos dançando, nada fora do comum.
— O que foi? — grito, por cima da música.
Nessa entrelaça o braço ao de Conall e me empurra para longe.
— Esse parceiro aqui é meu. Vá encontrar um para você.
A força do empurrão dela me faz cambalear na direção de outro corpo. Mal entendo as risadinhas de Nessa antes de reparar na túnica azul como a meia-noite sob minhas mãos, o peito inflando e descendo, os braços em meus cotovelos. Mather.
Um calor sobe por meu pescoço.
A harmonia pausa, os tambores batem com tanta ferocidade que praticamente nos imploram para dançar.
Pressiono o corpo contra o de Mather e imito o caos retumbante da multidão que oscila. Mather parece chocado a princípio, mas não leva muito tempo para acompanhar. O corpo dele se curva encaixando-se ao meu, os olhos tão brilhantes quanto a fogueira. Nunca estive tão próxima de Mather por tanto tempo, o que me deixa sem fôlego por motivos além do esforço de dançar. A cabeça de Mather se inclina para baixo, nossos braços e pernas acompanham a batida e nossos rostos estão a poucos centímetros de se tocar.
A música fica mais lenta, depois acelera de novo, aumentando a intensidade. Cada vez que há uma pausa na harmonia, a multidão comemora, os movimentos agitados ficam ainda mais fortes. Mas quanto mais a música continua, menos eu ouço. Os barulhos da comemoração ficam abafados, o cenário, as cores, os cheiros... tudo se afasta até que só reste Mather, o corpo dele contra o meu, a respiração dele se misturando à minha.
Sempre soube que ele era lindo. Mas a forma como Mather se move, tão exuberante quanto Nessa, tão confiante quanto Ceridwen... ele não é só lindo. Ele é... meu.
Paro quando a música acaba. Outra música começa, nem de perto tão rápida quanto a anterior. Mather hesita, ofegante, a euforia diminuindo até que ele passa a me encarar intensamente quando não recomeço a dançar.
Um fôlego, apenas um, e Mather recua um passo. Um convite, um sinal não dito.
Mather abre caminho pela multidão que dança. Ao chegar na extremidade externa da clareira, os olhos cor de safira não deixam os meus.
Os lábios de Mather estão quase sorrindo, e ele mergulha para a floresta.
A magia em mim se enrosca em meus nervos até me fazer andar. Passos lentos, a batida dos tambores ressoando em mim, a escuridão da noite engolindo a luz da fogueira e as lanternas da comemoração.
Eu me abaixo e me afasto da pista de dança para seguir Mather noite adentro.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!