1 de fevereiro de 2019

Capítulo 2

Mather

ELA PARTIU.
Canalizando cada gota de pânico na tarefa adiante, Mather jogou o peso do corpo na fechadura. Ela se soltou com um rangido e a porta da cela se abriu, libertando Phil, que saiu em disparada primeiro, punhos erguidos, um segundo à frente do restante do Degelo. Mas Mather não lhes deu ordens antes de abrir a tranca da porta seguinte à força, libertando Dendera, Nessa e Conall.
Os gritos de Theron por ajuda de dentro da própria cela alertariam os soldados a qualquer minuto — e Meira os havia deixado.
— Precisamos sair daqui — disse Mather, para ninguém em especial, mas quando se virou na direção da escada, hesitou. Sair daquele jeito quase certamente os levaria direto de volta para o calabouço caso encontrassem algum soldado. Haveria outra saída?
Phil deu um passo adiante.
— Podemos nos separar. Alguns de nós sobem as escadas e o restante vai mais para dentro do calabouço, ver se há uma saída...
Outra voz falou.
— Ou vocês poderiam me seguir.
Mather estava entorpecido demais pelos eventos do dia para sentir qualquer coisa a não ser prontidão quando saltou na direção da voz. Ele levou a mão à espada, mas as armas lhe tinham sido tomadas antes da descida para o calabouço, e tudo que tinha agora era o Condutor Real de Cordell. Os dedos de Mather roçaram a joia no cabo, os lábios contraídos ao lembrar-se de como Theron a havia jogado tão descuidadamente — parte dele teria sentido imenso prazer em destruir a linda lâmina de Cordell.
A pessoa que surgiu no meio do corredor cruzou as mãos contra a saia do vestido, o tom prateado quase parecendo com uma armadura. Uma máscara, também de prata, cobria-lhe o rosto, e quando a mulher falou, ergueu o queixo tão autoritariamente quanto um comandante.
— Se quiserem viver, é claro — falou ela.
— Você é ventralliana — replicou Mather, parando perto dela. — Por que confiaríamos em você?
Ela riu com escárnio.
— E vocês têm muitas opções no momento?
Mather não conseguiu dizer mais uma palavra antes que Dendera se intrometesse, estreitando os olhos.
— Você. Você é a duquesa Brigitte, mãe do rei. Vi você com Raelyn!
Brigitte revirou os olhos.
— Se eu concordasse com o golpe dela, acha que me daria ao trabalho de estar neste lugar imundo — ela ergueu o nariz na direção das paredes — sozinha? Posso lhes oferecer uma explicação ou vocês podem me seguir. Como disse, para mim não faz diferença se vocês vão viver ou morrer, mas acho que podem ser úteis para mim, então tomem uma decisão logo.
A porta no topo da escada do calabouço chacoalhou. Alguém finalmente tinha ouvido os gritos de Theron.
Mather avançou na direção de Brigitte. Ela tomou isso como um sim e se virou, o vestido prateado reluzindo à medida que ela corria pelo corredor. O restante do grupo de Mather seguiu sem questionar — que outra escolha tinham? Ele precisava sair dali para se certificar de que Meira estava bem, de que quem quer que a tivesse acompanhado não era parte de uma armadilha de Angra.
Tantos segredos tinham sido revelados — Cordell se voltara contra Inverno, Theron se voltara contra Meira e a rainha ventralliana tinha tramado um golpe. Será que o homem com quem Meira tinha partido era de confiança? E, além disso, Inverno ainda estava sob o controle de Cordell — como poderiam libertar o reino se permanecessem prisioneiros de Angra?
Brigitte se abaixou para dentro de uma cela à direita. Mather hesitou apenas o suficiente para que os olhos dele se ajustassem à escuridão. Se a bruxa velha os levasse a uma armadilha...
Mas, no fundo da sala, uma porta se entreabriu. A pedra do lado externo mostrava que, quando fechada, a porta se fundia perfeitamente à parede.
— Feche a porta ao passar — gritou Brigitte antes de desaparecer pela abertura.
— Hollis — sibilou Mather. — Fique na retaguarda. Alerta.
Hollis se posicionou do lado de dentro da sala para permitir que todos passassem. Mather seguiu Brigitte, músculos zumbindo de fúria incontida para lutar. A pedra abafava a maioria dos sons, deixando-o apenas com os cliques distantes dos sapatos da duquesa se movendo para cima — uma escada. Mather disparou atrás da mulher, esperando colocar espaço o suficiente entre ele e o grupo para que, caso uma armadilha os aguardasse, pudesse sinalizar com bastante tempo para que descessem.
Sozinho naquele espaço estreito e escuro, sua determinação vacilou. Tudo acontecera tão subitamente — o homem; a confiança inesperada de Meira; a súplica desesperada dela para que Mather libertasse todos. E ele concordara, apenas porque não via Meira daquele jeito havia meses. Como o olho de uma tempestade, aterrorizante, nítida e intensa.
A escada terminava em um corredor. Um corredor seguinte dava para outra escada, e no fim dela, os passos de Brigitte pararam. Ouviu-se o leve tilintar de metal — chaves. Mather esperou alguns passos atrás, preparando-se para soldados, flechas... Angra.
Ele fechou e abriu as mãos, encarando-as, sem enxergar, na escuridão. Tinha matado Angra pessoalmente. Tinha quebrado o condutor do rei insano em Abril e vira o corpo de Angra sumir. O que aquilo tinha realmente feito a ele?
Brigitte abriu a porta. Mather obrigou os olhos a se ajustarem, detendo-se por tempo o bastante para que a luz amarela revelasse um pouco da sala adiante: um grosso tapete escarlate, uma mesa baixa, paredes azuis. Nenhum soldado por perto.
Brigitte entrou e Mather seguiu, um segundo atrás.
— Vovó! — gritou uma criança.
Estavam em um quarto cheio de móveis de mogno, uma mesa e cadeiras, uma cama larga, alguns armários posicionados entre tapeçarias do chão ao teto. Aquela porta ficava atrás de uma das tapeçarias enquanto mais duas permaneciam fechadas em outros pontos do quarto, à vista.
Brigitte era a mãe de Jesse Donati, o rei ventralliano. O rei que Mather vira passar de fraco a furioso e retornar ao primeiro estado enquanto a mulher tomava controle do reino que era dele. O rei que estava sentado em uma poltrona acolchoada diante de Mather agora, com uma criança no colo e outra agarrada ao seu braço como se este fosse uma barreira capaz de protegê-la.
Uma terceira criança, mais velha, mas não muito, avançou cambaleando.
— Vovó — disse ela de novo, com lágrimas escorrendo pela máscara de renda.
Brigitte acariciou os cachos escuros da garota e olhou para Mather por cima do ombro.
— Ajudarei você a partir, mas terá que levar meu filho e meus netos junto.
O rei ventralliano ficou de pé. A filha que estava escondida atrás dele imediatamente se agarrou à perna do pai e o garoto nos braços dele, que não tinha mais de um ano, encarou com olhos grandes e tranquilos por trás de uma máscara verde.
Phil se mexeu ao lado de Mather, e ele sentiu o restante do Degelo se reunir. Todo o tempo que tinham passado nos treinamentos clandestinos em Jannuari permitira que Mather conhecesse cada um deles como a palma da mão, e não precisava olhar para saber que os dedos de Trace estremeciam sobre as bainhas vazias das facas; Eli contraía o maxilar enquanto imitava os olhares de raiva ao redor; Kiefer, mais ao fundo, observando com hesitação, cautelosamente pronto para ajudar; Hollis e Feige permaneciam em silêncio no limiar do grupo.
Eram Dendera, Conall e Nessa que Mather precisava verificar. Dendera estava com os braços ao redor de Nessa, deixando Conall livre para permanecer alerta, o rosto com uma expressão sombria e severa. O irmão dele tinha morrido tão inesperadamente quanto Alysson.
Mather deu as costas para Conall. Não permitiria que seu próprio pesar se intensificasse. Esperava que Conall pudesse se controlar também.
— Mãe — falou Jesse, e a surpresa dele era palpável mesmo por trás da máscara. — Quem são...
— Temos um acordo? — perguntou Brigitte a Mather.
Mather semicerrou os olhos.
— Você vai nos salvar? — Ele tinha pouca ou nenhuma experiência com crianças, mas mesmo Mather sabia que tirá-las do palácio seria quase impossível.
Alguém no grupo deu um passo adiante. Mather esperava que fosse Dendera — ela, entre todos, era a mais habilidosa com crianças, mas quando Mather se virou, piscou, surpreso.
Nessa encarou Brigitte.
— É claro que temos um acordo.
Mather estava prestes a dizer o mesmo. Impossível ou não, não deixariam crianças ali, indefesas. O que deixou Mather surpreso foi a facilidade com que Nessa se aproximou e se ajoelhou diante da garota mais velha.
— Oi — disse ela. — Meu nome é Nessa, e aquele é meu irmão, Conall.
Conall olhou boquiaberto quando a irmã apontou para ele, mas conseguiu fazer uma breve reverência para a princesa.
— Melania — disse a menina a Nessa, enrolando o “L” de forma esquisita.
O sorriso que Nessa deu à menina era impossivelmente carinhoso para alguém cujos olhos ainda pareciam tão assombrados.
— Bem, Melania, o que acha de partir em uma aventura?
Melania ergueu o rosto para a avó. A seriedade de Brigitte derreteu quando a garota sorriu, e Melania colocou os dedinhos na mão estendida de Nessa.
As coisas aconteceram muito rápido depois disso. Brigitte pegou cobertores e outros suprimentos escassos dos armários; Dendera e, mais surpreendente ainda, Hollis avançaram lentamente para convencer as outras duas crianças a partirem na mesma “aventura”.
O quarto foi preenchido pelo zumbido de movimentos, mas o rei ventralliano permaneceu imóvel diante de sua cadeira. Não segurava mais o filho; o menino agora se agarrava a Hollis. Em vez disso, encarava o chão com uma determinação de trincar o maxilar.
— Preciso ir atrás dela — disse o rei, subitamente, ecoando os pensamentos do próprio Mather.
Mather pegou uma adaga entre os suprimentos, sem saber ao certo como responder. Ninguém mais disse uma palavra.
— Sua mulher se aliou a Angra — tentou ele. — Libertá-la...
— Não dou a mínima para Raelyn — disse o rei bruscamente, e algo nas palavras dele fez com que Brigitte, do outro lado do quarto, parasse de dobrar um cobertor.
— Não. Não permitirei que você seja morto por...
— Por quem? — O rei se virou para a mãe. — Você a chamou de muitas coisas ao longo dos anos. Inútil, perigosa... vadia. Mas parece que é Raelyn quem personifica esses atributos com maior intensidade. Então não me diga para não ir atrás de Ceridwen.
O cômodo ficou em silêncio após essas palavras. Mather sentiu aquele nome trazer à tona lembranças das palavras de despedida de Meira. Ela dissera a ele que salvasse Ceridwen. Por que o rei ventralliano se importaria com a princesa veraniana também?
Mas o olhar no rosto do rei disse a Mather o exato motivo pelo qual Jesse se importava.
Brigitte fez um beicinho e não proferiu mais qualquer outra palavra antes de o filho remover a máscara verde-escura e apontar para ela.
— Não vou partir até quebrar esta máscara e salvar Ceridwen.
Mather franziu a testa.
— Quebrar sua máscara?
O rei não hesitou, como se tivesse repetido essa explicação para si muitas vezes.
— Quebrar a máscara na presença de alguém que você rejeita é um ato de separação permanente. Significa dizer que você não quer mais a pessoa em sua vida, tanto que não se importa se a pessoa vir seu verdadeiro rosto. Como jamais a verá de novo, seus segredos não são nada nas mãos da pessoa.
Mather assentiu. Importava pouco o que o rei queria fazer, sinceramente — se Jesse pretendia confrontar a esposa e salvar Ceridwen, Mather iria acompanhá-lo, principalmente se isso significasse que poderia terminar uma das tarefas que Meira lhe confiara.
— Todos deveriam escapar enquanto podem — disse Mather, direcionando a ordem ao grupo dele. — Acompanharei o rei para fora do palácio. Tem algo que também preciso fazer.
— Vai nos deixar também? — disparou Kiefer.
Mas Phil deu um passo adiante com os olhos em Mather.
— Ele vai atrás da nossa rainha.
Mather abaixou a cabeça em resposta. Esperava mais protestos, mas tudo que encontrou foi silêncio, mesmo de Kiefer. Eles perceberam a seriedade da situação de Meira — o fato de ter partido com alguém que nenhum deles conhecia e como poderia, naquele momento, estar lutando pela própria vida...
Por sorte Dendera assumiu onde Mather não conseguiria.
— Traga-a de volta. Nós — Dendera gesticulou na direção do Degelo de Mather, de Nessa e de Conall — levaremos as crianças para um lugar seguro.
E então o quê? Mather conteve a pergunta, porque ele conhecia muito bem as respostas. Precisaria enfrentar a tomada cordelliana de Inverno e o que quer que Angra estivesse fazendo ao mundo, e trazer Meira de volta a colocaria no centro daqueles conflitos.
Mas ela era a rainha. Era a rainha dele. Independentemente do que ela quisesse que Inverno fizesse naquela guerra que se formava, ele obedeceria... mas nunca mais deixaria Meira lutar sozinha.
Dendera se virou para Brigitte.
— Como saímos?
Brigitte visivelmente precisou fazer força para tirar os olhos do filho, e quando o fez, passou a mão pela própria máscara, como se certificando de que ainda estava no lugar.
— Há outra passagem, por aqui — disse ela, caminhando até uma tapeçaria diferente.
Mas, quando Dendera se aproximou, Nessa colocou a mão em seu braço.
— Para onde iremos? — sussurrou ela. Melania se agarrava à saia de Nessa, enterrando o rosto nela, e Nessa enrijeceu o corpo. — Inverno não é mais seguro.
— Há um campo de refugiados veranianos — sugeriu Jesse. — Fica a um dia cavalgando de onde a floresta ao sul de Eldridge encontra o rio Langstone. Estarão seguros lá.
— Tudo bem — falou Dendera. — Roubaremos alguns cavalos. Uma carruagem, talvez, ou um barco, e encontraremos vocês lá. — O olhar que ela fixou em Mather disse a ele que não era uma sugestão. Ele conseguiria chegar, com Meira, naquele acampamento.
Dendera encaixou melhor a princesa nos braços quando o rei deu um último adeus à filha com um beijo em sua testa. Então um beijo no filho e na outra filha, rapidamente, como se não confiasse em si mesmo para evitar despedidas longas. Ao se virar, o rei tinha os olhos vermelhos, lágrimas se acumulavam — seu rosto demonstrava mágoa, mas também determinação.
O rei encarou Brigitte, mas ela olhava para Mather agora.
— Volte pelo caminho por onde viemos — disse Brigitte a Mather. — Depois do segundo lance de escadas, vire à esquerda... há uma porta que o levará para o corredor principal.
— Obrigado — disse Mather quando Dendera, Nessa e Conall começaram a se mover para a outra passagem. Hollis segurou o príncipe ventralliano, e estava estampado no rosto de Hollis, tanto quanto no de Feige, que sabiam que precisavam seguir Dendera. O restante do Degelo se demorou, lançando olhares hesitantes para Mather. Ele os teria levado em um instante se não precisasse viajar rapidamente, ainda mais rápido do que o trajeto que fizeram de Inverno até ali. Além disso, as crianças precisavam de toda a proteção possível — do grupo, apenas Dendera tinha realmente lutado, embora Conall parecesse tão mortal quando qualquer soldado que Mather tivesse visto. Mesmo assim, Mather engoliu uma pontada de relutância. Ele se sentia mais forte na presença de seu Degelo. Mais completo.
Hollis acabou com a incerteza do Degelo com um grunhido.
— Não seremos derrotados — disse ele em voz baixa, o mesmo juramento do treinamento.
Mather sorriu.
— Não seremos derrotados.
Hollis e Feige se moveram, com Eli se aproximando para apressar o irmão. Kiefer se afastou e mergulhou na nova passagem, com o rosto sombrio, os ombros curvados. Trace hesitou, inspirando como se tivesse perguntas a fazer, mas apenas deu de ombros.
— Vamos ver quem chega primeiro no acampamento — provocou ele, com o lampejo de um sorriso.
Apenas Phil permanecia, imóvel.
— Vá — disse Mather a ele. — Os outros precisam de você.
Phil ergueu uma sobrancelha.
— Desculpe, ex-rei... mas você não vai se livrar de mim.
— Phil, estou falando sério.
Qualquer outro protesto foi suprimido pela forma como Phil olhou para Mather.
— Estamos nessa juntos. Todos nós. E se algum de nós se separar do restante, ele não irá sozinho.
A cabeça de Feige, que já seguia Hollis pela passagem, se voltou.
— Ou ela.
Phil sorriu.
— Ou ela. A questão é que vou com você.
O sorriso dele era contagiante, a confiança era determinada.
Mather se viu aceitando.
Na verdade, ficou feliz por não estar sozinho.
Momentos depois, a porta para a nova passagem se fechou com uma batida baixa, deixando Mather sozinho com Jesse, Phil e Brigitte.
Brigitte se arrumou na cadeira, novamente um beicinho se formando em sua boca enrugada. Jesse avançou até ela conforme Mather seguia de volta para a primeira passagem. Ele indicou para que Phil passasse, então hesitou.
— Obrigado — disse Jesse à mãe.
Brigitte deu de ombros.
— Vá. Raelyn em breve notará que o transferi para meus aposentos.
O rei envolveu os ombros da mãe com um aperto delicado. Por fim, Brigitte ergueu o rosto para ele, a frieza em seus olhos se dissipando até virar uma torrente de lágrimas.
— Vá — sussurrou ela. — Ficarei bem.
Mather sentiu um nó na garganta e virou o rosto, com os olhos ardendo.
Jesse passou por Mather e entrou na passagem.
Brigitte arrumou o vestido e encarou a porta pela qual, sem dúvida, Raelyn entraria em disparada a qualquer momento, com uma retaliação tão severa quanto aquela que infligira ao rei veraniano. Mather vira apenas o fim daquela luta, o pescoço do rei veraniano se partindo, mas tinha sido o suficiente para confirmar que Raelyn não tinha piedade.
Mather disparou para a escada e fechou a porta atrás de si. A tranca emitiu um clique.
Não havia mais retorno. Para ninguém.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!